quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023


O RIO GRANDE DO NORTE EM CANUDOS-BA

O 34 BI deixou em Natal um contingente de 35 praças, sob o comando do tenente Cícero Monteiro


Por CARLOS ADEL – Membro do IHGRN

 

Em 29 de março de 1897, quando, no Cais da Alfândega Velha, depois e ainda hoje conhecido como o Cais Tavares de Lira, embarcava no vapor “UNA”, o efetivo do 34º Batalhão de Infantaria, com destino às caatingas baianas, convocado que fora pelo Ministério da Guerra. Iria participar dos combates ao levante comandado por Antônio Vicente Mendes Maciel, “Antônio Conselheiro”, movimento esse que veio a ser chamado de “Guerra de Canudos”. Era Governador do Estado Joaquim Ferreira Chaves. Presidia o Brasil, eleito por voto direto, Prudente de Morais, o Ministro da Guerra era o Marechal Carlos Machado Bittencourt, e o Ministro da Justiça era o po-tiguar Amaro Cavalcanti.

 

O 34º BI embarcou com 225 graduados e soldados, e sob o comando do Major An-tônio Ignácio de Albuquerque Xavier; Fiscal, o capitão Francisco de Paula Moreira; ajudante, tenente José da Costa Vilar Filho; Quartel Mestre interino, o alferes Fran-cisco Normínio de Souza; Secretário, o alferes João Lins de Carvalho; 1ª Companhi-a, comandante alferes Honorino de Almeida; subalternos os alferes Joaquim Pedro-sa de Oliveira, Polychronio Santiago, João Cavalcanti de Albuquerque, Ezequiel Estanislau de Medeiros; 2ª Companhia, comandante capitão de Barros Falcão; subalternos os alferes João Augusto Cezar da Silva, Alexandre Carlos de Vasconcelos, Faustino Freire da Costa, Braz Elysio de Medeiros, Francisco Fernandes de Lima, Mnoel do Nascimento Monteiro e José de Magalhães Fontoura Filho; 3ª Companhia, comandante alferes Joaquim Theotonio de Medeiros,; subalternos os alferes Antônio Fernandes de Brito Filho, Miguel Hipólito de Melo, Nestor da Silva Brito, João Baptista do Rego Monteiro, João Armando Vieira Lemos e Hermenegildo Pessoa de Melo; 4ª Companhia, comandante capitão João Gomes da Silva Leite, subalternos os alferes Joaquim Calistrato Leitão de Almeida, Eurico Caldas, Flaviano Brito, Joaquim Carrilho e Miguel Dantas; Sargento Ajudante Luiz Gonzaga de Figueiredo e Sargento Quartel Mestre Antônio Augusto de Paiva.

 

O 34 BI deixou em Natal um contingente de 35 praças, sob o comando do tenente Cícero Monteiro, ficando também um agenciador de voluntários, o tenente Hermínio Coelho; e guardando o material bélico o alferes Quartel-Mestre Francisco Monteiro. Deixaram de seguir, por se encontrarem doentes, o tenente Francisco Barros e os alferes Dácio de Albuquerque e Fausto Paiva.

 

O quartel ficava aonde hoje está encravado o Colégio Winston Churchill, com a frente voltada para onde fica o SENAC, e dali partiram em cortejo, indo à frente o Governador do Estado, os representantes dos congresso federal e estadual, magistrados, chefes de repartições e delegados das diversas associações; logo após, seguiu-se a Companhia de Aprendizes de Marinheiros e, acompanhado do povo, o efetivo do 34º BI. Fechando o cortejo seguia o Batalhão de Segurança. Todo o trajeto foi coberto de folhas, numa valiosa e significativa homenagem, com a Banda de Música, sob a regência do sargento Abdon Trigueiro, executando o dobrado “Saudades da Minha Terra”, do mestre potiguar Estêvão Guerra. No embarque, aplausos, discursos, a vibração com sorrisos e choros dos presentes.

 

Naquela mesma ocasião o poeta Segundo Wanderley declamava um poema que terminava assim:

 

“Olhai ! Este povo inteiro

  Que vos contempla de pé,

  Traz su’alma banhada

  Nos esplendores da fé.

 Avante ! A luta se inflama

  Já Tiradentes vos chama

Lá das trincheiras azuis

  Voai, brasílios condores

  - Ides cobertos de flores,

  - Voltai banhados de luz.”

 

Daí a poucos dias estariam engajados nas lutas ferozes do campo de batalha, nos sertões da Bahia, até que na tarde do dia 5 de outubro de 1897, declarado como o “Dia da Vitória”, quando o Coronel Julião Augusto da Serra Martins, comandante da 5ª Brigada registrou na “Ordem do Comando” que a missão estava cumprida, acres-centando que “Perdeu esta Brigada muitas praças e o 34º BI foi o que sofreu maior número de baixas.”

 

Foram 41 os potiguares que deixaram suas vidas nas caatingas baianas, Nossos historiadores deixaram de registrar esses fatos de maior grandeza histórica, pois uma só palavra não se encontra em suas inúmeras páginas escritas sobre os mais variados assuntos. Apenas nos jornais da época encontramos alguns esparsos re-gistros, além da obra clássica de Euclides da Cunha “Os Sertões”, e mais recente-mente o romance que retrata como os jagunços supostamente neomonarquistas chamavam os defensores da República de “anticristos”, no dizer de Mario Vargas Llosa, em sua obra “A Guerra do Fim do Mundo”.

 

 Chegara ao final os combates. A guerra terminara. Chegava ao fim um dos maiores conflitos internos, senão o maior deles, com a participação do Exército Brasileiro. Restava o regresso dos sobreviventes para o aconchego de suas famílias. Esse re-torno, para o 34 BI, efetivou-se em meados de dezembro daquele ano de 1897, no mesmo porto de onde partiram.

 

Dos poemas recitados por ocasião do retorno dos heróis do 34º BI, destacam-se as estrofes finais do “Apoteose”, de Lima Filho, que dizia:

 

 “Um sentimento sublime

 Cada semblante traduz!

 A volta dos Spartanos!

 Da Terra de Santa Cruz!

 O sol no manto infinito

 Burila o nome bendito

 D’esta luzida cohorte

 Soldados a vossa glória

 Doura uma folha da história

 Do Rio Grande do Norte!

 “Vibre-se a nota suave

  Da escala das sensações!

  Rasgue-se o véu da tristeza

  Que envolvia os corações!

  No vosso lar amoroso

  Uma torrente de goso

  Cada palavra produz!

  Da intrepidez aos ardores

  “Fostes cobertos de flores,”

  “Voltais cobertos de luz”.

Bem como do poema de saudação de Caldas Sobrinho:

“E não valeu a estratégia

 Do monarquismo sagaz

 Fostes tão bravos nas linhas,

 Quanto nas cargas audaz  

 Pois aos sinal transmitido

 Por belicosas cornetas,

 Foi-se ao covil dos jagunços

 Ao choque das baionetas.

“Salve! punhados de bravos!

 Salve! guerreiros cohorte!

 Ó filhos estremecidos

 Do Rio Grande do Norte!

 Salve! memória d’aqueles

 Que lá ficaram no val

 Para sempre amortalhados

 Na gratidão nacional!”


Com o retorno dos guerreiros do 34º BI, a Natal, teve início uma campanha, encam-pada pelo jornal “A República”, visando a angariar recursos para a construção de um monumento em homenagem aos mortos naquela campanha belicosa, e ao Exército Brasileiro. Dessa forma foi construído no Cemitério do Alecrim, nesta Capital, um “monumento cívico” único em todos os centros de onde partiram os batalhões empenhados naquela luta.

 

Trata-se de um projeto assim descrito:

 

“Uma pirâmide quadrangular truncada no vértice, de onde se destaca outra pequena pirâmide de facetas recurvadas, sobre cuja convergência assenta uma cruz de ci-mento, simbolizando a religião do Crucificado. A pirâmide maior contém uma única inscrição, colocada no alto de sua faze anterior, onde de destaca sobre um pequeno nicho circundado por duas ordens de frisos pretos, esta incomparável sentença da Augusto Comte – “OS VIVOS SÃO SEMPRE E CADA VEZ MAIS GOVERNADOS PELOS MORTOS”

 

O pedestal consta primeiro de três planos superpostos em escadaria, sobre o menor dos quais repousa uma coluna de forma prismática, recebendo em sua parte superi-or a base da pirâmide maior.

 

Uma cornija divide esta coluna em duas porções, circundando-a inteiramente. A face anterior da metade inferior da coluna básica contém um lindo baixo relevo, de cores naturais, simbolizando o belo escudo da República. Um grande medalhão com fundo amarelo sobre o qual assenta a esfera azul simbólica, com a faixa branca contém, em verde o lema político e científico – ORDEM E PROGRESSO. Circundam-no quatro palmas verde-primavera.

 

Sobre a esfera destacam-se, em relevo, as 21 estrelas brancas na disposição das constelações que abrilhantam o nosso céu e ornamentam o incomparável da República brasileira.

 

A porção superior da mesma coluna apresenta em suas quatro faces outras tantas inscrições, na seguinte ordem, partindo da anterior pela direita de monumento: AOS ABNEGADOS MÁRTIRES DA REPÚBLICA EM CANUDOS, AO GLORIOSO EXÉR-CITO BRASILEIRO, HOMENAGEM DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, AO HERÓICO BATALHÃO 34 DE INFANTARIA.

 

Todas essas inscrições são feitas sobre quatro nichos circundados de frisos pretos.

 

Todo o monumento é de cor de mármore ordinário, com as cornijas mais escuras, os planos inferiores azuis, e as inscrições pretas. Na parte mais inferior da coluna, des-tacam-se quatro medalhões, com cores de passa, sobre espelhos simbólicos.

 

A coroa deverá ser colocada em um grampo de metal amarelo, fixado na parte ante-rior e superior do monumento, cuja despesa orçou em 450$000 (quatrocentos e cin-quenta contos de réis)”.

 

Esse monumento foi inaugurado em 29 de março de 1898, e já em 1910, era dado como abandonado. Aconteceu, porém, que em fevereiro de 1978, o Presidente do Instituto Histórico e Geográfico, Dr. Enélio Lima Petrovich, provocado e incentivado pelo Historiador Raimundo Nonato da Silva, procurou o Coronel de Infantaria Eider Nogueira Mendes, então Comandante Geral da Polícia Militar-RN, convencendo-o a promover a restauração daquele monumento que se encontrava em ruínas. Foi daí que a Polícia Militar assumiu todos os reparos e em 29 de março daquele ano, dian-te das mais altas autoridades do Estado, entre civis, militares e eclesiásticas, educa-dores, representantes de entidades culturais e estudantes, e na presença da Im-prensa, prestigiaram aquele ato cívico da consagração das memórias dos que se tornaram merecedores da admiração e do respeito público, pela coragem e pelo sa-crifício com que lutaram em terríveis combates, neles tombando sem vida. O Dr. Ro-drigues de Melo fez a saudação pela recuperação de tão importante monumento, contando sua história e significado para a sociedade potiguar. A bênção do monu-mento foi feita por D. Nivaldo Monte, Arcebispo de Natal.

 

O monumento está encravado na alameda principal, a uns 30 metros do portão, no lado esquerdo, tendo ao lado o monumento em homenagem ao Padre João Maria, o “Santo de Natal”. O estado em que se encontra é de completo abandono, em ruinas, sem a bela decoração e suas legendas.  Lamentavelmente, assim é que nossas ins-tituições não devem tratar nossos heróis.  

 

Cabe-nos repetir aqui as palavras de “CHANTECLER”, pseudônimo do cronista utili-zado na edição de “A República”, em 18 de outubro de 1910, quando já reclamava sobre o abandono daquele monumento:

 

“Mas será possível que isso continue? Não teremos nós ainda a primeira estima e admiração pelos extintos de Canudos, que honraram nos combates sangrentos o nome de nossa terra?

 

A memória dos nossos mortos é um dos estímulos mais poderosos na luta pela vida. Conservemos com desvelo a homenagem de pedra aos soldados do 34.

 

Custa tão pouco! Uma restauração do monumento, que se conservará e flores, mui-tas flores ornando-lhes a solidão.”

 

 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

 

Shakespeare nas estrelas
​Na mesma trilha das últimas semanas, vamos novamente de ficção científica. Como fã desse gênero literário/cinematográfico/televisivo, faço hoje um paralelo entre uma das suas mais badaladas franquias – “Star Trek” ou “Jornada nas Estrelas” – e o grande William Shakespeare (1564-1616).
Shakespeare, todo mundo – pelo menos o mundo interessado em literatura, arte dramática e coisas que tais – conhece ou dele já ouviu falar. É o criador de uma obra que transcende época e lugar e não pertence a qualquer religião, filosofia ou profissão. Um gênio que representa o que há de mais sublime na literatura universal ou mesmo na natureza humana. “Romeu e Julieta” (1592), “Júlio César” (1599), “Hamlet” (1599), “Otelo” (1604), “Rei Lear” (1605), “Macbeth” (1606), “Antônio e Cleópatra” (1607), apenas para citar algumas de suas tragédias, já que de uma de suas comédias eu tratarei adiante, são tudo e algo mais. Poucos – na literatura ninguém mais do que ele – conheceram a alma humana como o bardo inglês.
Já “Star Trek”, entre nós chamada “Jornada nas Estrelas”, é uma franquia estadunidense do tipo “viagem espacial”, originalmente criada por Gene Roddenberry (1921-1991), mas composta por várias séries que se sucedem no tempo. A primeira série foi ao ar em 1966. Desde então vieram “Star Trek: the Next Generation”, “Star Trek: Deep Space Nine”, “Star Trek: Voyager”, para ficar nas minhas sequências preferidas, e por aí vai. Da série original, William Shatner como o Capitão Kirk, Leonard Nimoy como o Sr. Spock e DeForest Kelley como o Dr. McCoy são rostos inesquecíveis. Da nova geração, o capitão Jean-Luc Picard (papel de Patrick Stewart) está entre meus heróis. A nave espacial Enterprise, a tão discutida viagem em dobra espacial e o inusitado teletransporte nos fazem sonhar com novos mundos. As aventuras viraram livros, quadrinhos, jogos e, claro, foram bater no cinema: os primeiros filmes, com os atores da série original, estão entre os meus queridinhos. São décadas de estelar encantamento. Não acredito haver franquia mais longeva. E são inúmeros prêmios: Hugo, Saturno, Emmy, Oscar, por anos e anos. O impacto cultural de “Star Trek”, dos seus fãs à NASA e ao espaço sideral, é cósmico.
O paralelo que faço entre o cânone shakespeariano e as estórias de “Star Trek” tem por inspiração uma observação que li em um livro perfeito para os “juristas trekianos” (traduzo: juristas fãs de “Jornada nas Estrelas”): “Star Trek Visions of Law & Justice” (editado por Robert Chairs e Bradley Chilton e publicado pela Adios Press, 2003). Dele consta: “Especialistas em estudos transdisciplinares shakespearianos nas ciências humanas gostam de enfatizar que, se alguém lê Shakespeare, essa pessoa irá encontrar na obra do bardo todos os tipos de seres humanos. Similarmente, se alguém assiste à Star Trek, essa pessoa irá achar todos os questionamentos conhecidos da condição humana – e alguns desconhecidos até que vislumbrados em Star Trek. Este é o problema acadêmico de Start Trek; ela não se encaixa perfeitamente em qualquer das ciências. Ela é uma extrapolação das ciências puras, como a física, a biologia ou a química. Ela é uma análise crítica tanto das ciências sociais em geral como da nossa história. Ela é uma literatura visual da filosofia, da ética e da arte. Start Trek, no seu melhor, pode inspirar pessoas a buscarem ser melhores sendo seres humanos; ela pode ser tanto um púlpito ameaçador quanto inspiradora poesia. Ela pode também ser, e frequentemente o é, apenas uma série/novela divertida”.
A observação transcrita confirma o que venho defendendo: a ficção científica, sublinhada aqui a ficção “Star Trek”, é o mais filosófico dos gêneros literários/cinematográficos/televisivos. E entre as “filosofias” objeto da franquia “Star Trek” está a filosofia política e a subespécie filosofia do direito. De fato, relendo “Star Trek Visions of Law & Justice”, reafirmo: “Star Trek” trata, de forma profunda, de aspectos fundamentais da filosofia do direito. Em vários dos seus episódios se discute, com grande implicação para o enredo, temas como: o conceito de soberania, federação e constituição; o direito internacional (e interstelar, como o livro chama), seus tratados e o direito interno; a jurisdição extraterritorial, a extradição e o asilo; o direito de guerra; o combate ao terrorismo; a pena de morte e as outras formas de punição; o direito e a questão do gênero; e conceitos mais abstratos, como os de Justiça e Moral e as ideias de direito e de equidade.
Bom, para os mais céticos – no duplo sentido, seja porque não gostam de ficção cientifica, seja porque só acreditam vendo ou lendo –, vou dar um exemplo típico, misturando com a obra shakespeariana, da filosofia do direito de “Star Trek”. Rogo apenas um tico de paciência.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

 A AUSÊNCIA

(HOMENAGEM A TICIANO DUARTE)

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Com a partida de Ticiano Duarte, encerrou-se um ciclo da boemia social, do humanismo e da confraria de papos e histórias da  vida natalense. Tudo começou no Grande Ponto, chão de reminiscências, de teluricidade, de mexericos da política de leva e trás, pulmão e coração da cidade dos Reis Magos dos anos cinquenta. Antes, era a Ribeira, no Cova da Onça, ruas Dr. Barata/Tavares de Lyra. A história oral do cotidiano subira para a Cidade Alta. Alguma novidade? Era a pergunta indefectível para início de qualquer assunto. Tardes e noites, o meu personagem ali era Ticiano Duarte, que à distância, na minha adolescência, o observava, como primo e hóspede estudantil dos seus pais Temístocles, Sofia, minha tia e Sililde, prima.

Ticiano, bacharel em Direito, depois com Djalma Maranhão, com Aluízio – na alegria e na dor, – com Walfredo Gurgel, cargos na gestão pública, professor universitário, jornalista, memorialista, diretor da TN, membro da Academia de Letras do RN, palestrante, líder maçônico de expressão nacional – enfim, uma vida em linha reta, com probidade e honradez. “Tício”, como o tratávamos na intimidade, não tem paradigma. Estamos órfãos. Ninguém narra um causo, um fato, um evento, com tanto sabor e tempero. Na performance, as feições acesas assumiam expressões teatrais de acordo com a tonalidade do dito. Ao derredor, onde estivesse, os ouvintes atentos e silentes, escutavam até a gargalhada final do desfecho.

Era um ator, na arte de conversar, convencer e presidir naturalmente o rumo e o prumo de qualquer reunião de amigos no “senadinho” do Natal Shopping, onde tornou-se a suave patativa vespertina da palavra facultada pelo saudoso e severo Meroveu Dantas, presidente da “instituição”. Outro foco impressionante do seu desempenho era a lucidez, a memória plantonista sobre os acontecimentos da nossa vida republicana, citando nomes, lugares e repondo verdades nos capítulos e entrelinhas das versões.

Natal perdeu, na sua figura humana, a contemporaneidade herdada dos últimos sessenta anos. Não apenas pelo seu perfil de escritor, articulista, intelectual, mas como vitrine de uma época, referência de um ser humano, marca registrada de si mesmo: pelo visual do vestir, andar, falar, agir, além de ser excelente pai, avô e amigo. Personalíssimo. Poderia falar mais sobre Ticiano Duarte principalmente pelo bom caráter de ter sido homem público e seguidor de um só líder e leal aos princípios e ideias que sempre defendeu. Porisso, eu não o comparo. Eu o separo, porque “naquela mesa está faltando ele”. Em vida, provou que os sonhos não envelhecem.

Inúmeros foram os fatos que ele me narrou e registrou. Como se o ouvisse, para concluir,  leia a história que narrei no meu livro “Causos 2010”: “Conversar com Ticiano Duarte é redescobrir o tempo e reviver figuras inesquecíveis. Num começo de noite, na calçada da Academia de Letras, vários colegas se reuniram em torno dele. Falava sobre o irrequieto poeta pernambucano Tomás Seixas, que marcou a boemia dos bares recifenses. Em pleno regime revolucionário, impressionado com o relato jornalístico do número de detidos pelos militares, decidiu procurar o quartel para prestar sua contribuição cívica, indigitando subversivos. “Quero falar com a Unidade de Informação Secreta, tenho algo importante a revelar”, disse Bebé, como era bastante conhecido, ao oficial de dia do Comando do 4º Exército. Imediatamente foi conduzido à presença do coronel responsável. Ao adentrar no gabinete, em pé, dedo em riste, o poeta logo desembucha: “Vocês estão esquecendo de prender o mais temível e perigoso comunista do Recife!!”. Sentado, o chefe militar de imediato despertou, curioso com a delação espontânea. “Quem é o sujeito?”, perguntou já reunindo à mão alguns papéis sobre o birô. “O poeta Tomás Seixas!”, exclamou o denunciante. Reflexivo por alguns segundos, o coronel informou desconhecer completamente o nome mencionado. Aí, o beletrista boêmio foi mais explícito: “Falo do poeta Bebé!”. “Ah, desse já ouvi falar. É um pobre coitado”, retrucou o militar desconversando sem dar a mínima atenção. Achado desimportante, o poeta pegou um jipão do Exército direto para o bar mais próximo.”

(*) Escritor.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

 Valério Mesquita 


NA MIRA DA VERDADE

Valério Mesquita
Mesquita.valerio@gmail.com
Aprendi a me contentar com o que sou e com o que tenho, como
falava o apóstolo Paulo. Até me compraz abordar esse tema que representa,
apenas, uma despretensiosa opinião entre milhares. Falo para lembrar que o
mundo precisa é de um bom retorno à moral, aos bons costumes e às boas
maneiras. O Brasil está grandemente desacreditado no exterior, tanto do ponto
de vista político e esportivo, bem assim com relação a segurança e a moralidade
pública. Hoje, se a polícia agir para manter a ordem social é logo acusada de
repressora. Se ela prender o criminoso ou o viciado, a legislação penal
permissiva e retrógada coloca nas ruas para repetirem tudo outra vez. O país
parece que não está mais acreditando em si mesmo.

Os princípios basilares da constituição de uma família, obra de
Deus, estão sendo confundidos e modificados pela opção individual de vida com
pessoas do mesmo sexo, em nome de falsa modernidade. Modernidade para mim
é o progresso da ciência médica, da informática, da engenharia, das
comunicações, etc. Mas, em desagrado com o que é sagrado e consagrado é
degradação, degenerescência. O direito individual de escolher a condição sexual,
é assunto exclusivo de cada um que deve ser respeitado. No entanto, tratar a
união de parceiros iguais tal e qual uma família constituída, significa destruir
uma geração que já está contaminada e descompensada pela perda da guerra
contra a droga. Aonde a sociedade brasileira quer chegar? Depois, recebe com
ceticismo o clamor popular para endurecer a legislação penal contra os menores
infratores que comandam hoje as estatísticas criminais! E ai? O governo está
criminalizando a pobreza porque falhou na educação dos jovens. Ou vamos nos
transformar numa imensa população carcerária ou tudo virar mesmo um caos.

As facções criminosas fazem “gato e sapato”. Invadem e
depredam tudo! Aliás, já ocorreu a invasão aos órgão públicos. Três de uma só
vez. Os índios já deram o bom exemplo intimidando a Câmara Federal. A
legislação brasileira sobre esses assuntos corporativos é frouxa e mixuruca. O
excesso de tolerância pode causar mortes por imprudência ou falta de autoridade.
A grande burrice da escolha nacional de gastar bilhões para salvar o falido
futebol - em vez do próprio brasileiro, ser humano, pobre, sem saúde e
segurança, é um absurdo. Viva o circo! Abaixo o pão! Um dia – o que não
desejo – mas prevejo, quando acontecer uma tragédia que atinja congressistas,
ministros da área jurídica ou suas famílias, aí sim! Será dada a largada. Os
jovens ocupam as ruas do Brasil com protestos, lutando e depredando mais para
tirar centavos de uma passagem de ônibus do que pela vida, pela punibilidade
das gangues dos crimes hediondos.

Nas antiguidades grega, romana e principalmente a judia,
revelada no Antigo Testamento, todas acreditavam em um Deus irado que punia
todos que ameaçavam os respectivos povos com catástrofes e sinistros. Na Bíblia
Sagrada, Moisés, Josué, Samuel, Ezequiel, Jeremias, Daniel, Isaías, além dos
profetas menores, todos escolhidos e inspirados por Deus, descrevem
intervenções divinas em defesa e preservação do povo judeu. Nos dias de hoje,
ante a derrocada moral do mundo, só temos a recorrer mesmo ao Altíssimo.
Esperar o retorno de Jesus Cristo, no final do milênio (se lá chegar), conforme
rezam as Escrituras, parece ser a única salvação para depurar, higienizar e
moralizar o planeta. Se não ocorrer uma medida preventiva do Céu, tudo o mais
vai piorar igual a cantiga da perua. Quem viver, verá: o diabo favorecendo os
maus e a gente pedindo a Deus que nos acuda.

(*) Escritor

 Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com
Ela ainda guardava uma beleza aflita que não morre.
De tudo quanto se esquece não pude esquecer o amor adolescente que havíamos vivido. Os seus braços ainda faziam lembrar meus cansaços e desatinos. Aquela mulher na fila comum do supermercado parecia que estava no estaleiro do tempo, estacionada nos 50 anos como se tivesse dissolvido a amargura das coisas. Os óculos escuros escondiam profundezas abissais de prazeres irrevelados e naufrágios conjugais. Ali estava plantada como uma árvore morta com raízes na minha alma. Ela que se tornara ausência em mim desde algum tempo, numa tarde morta de setembro. Não pude conter o ciúme retrospectivo. Apossou-se de mim, não mais que de repente, a fria solidão dos despossuídos. A poeira do tempo começara a lacrimejaros olhos de perdidas lembranças. Onde, aquele corpo juvenil de dançarina de mambo, rosto de Silvana Mangano e quadris de Ninon Servilha? O bongô oculto da orquestra invisível de Perez Prado cometia o milagre de resplandecer ali, as suas formas em movimento, à luz do ocaso. Ah! Tanta imaginação fugidia e ela nem olhava prá mim! Não. Ela não me vira. Com certeza. Não seria tão fingida. Outra surpresa me estava reservada.
Como se tivesse saído da multidão dos seus personagens, um jovem alto, louro, enlaçou-a num abraço afetuoso e mágico, fazendo descer pelo declive sonhos e ilusões de tudo o que já fomos. Valeria a pena dizer o nome de quem amei? Ou repetir a estrofe “de quem eu gosto, nunca falo”?
Conhecia-a na noite perdida da memória do Pax Clube de minha terra. Era a garota do baile. Isso é tudo como identidade e currículo.
Sai quando ela cruzou a porta e se enfiou no carro com o jovem marido. Um riso antigo ainda pude colher, de soslaio, da boca sensual e conhecida. O sol e o ruído, lá fora, despertavam-me para a realidade. Tudo acontecia rápido e me impelia prosseguir na sobrevida da lembrança que o tempo não desfez. Procurei o meu carro no estacionamento solfejando o samba “Recado” que junto cantávamos procurando inventar o nosso mundo. “Você errou quando olhou pra mim. Uma esperança fez nascer em mim. Depois levou pra tão longe de nós, o seu olhar no meu, a sua voz”... Brumas, nada mais.
(*) Crônica publicada no livro “Inquietudes”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

 

Matrix filosófica
​Eu já afirmei e agora reitero: a ficção científica é o mais profundo dos gêneros literários (e cinematográficos, até por derivação). Cuida de questões eminentemente filosóficas, como as diferenças entre o ser humano e as máquinas, a própria identificação do indivíduo em si, as implicações do presente no futuro da humanidade, o conceito de tempo, os perigos da sacralização da tecnologia e de certos mecanismos de controle social, a possibilidade e os impactos de um contato com seres alienígenas etc. E dou como exemplos “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, “Fahrenheit 451” (1953), de Ray Bradbury, “1984” (de 1949), de George Orwell, “O Homem do Castelo Alto” (1962), de Philip K. Dick, “2001: Uma odisseia no espaço” (1968), de Arthur C. Clark e a série “Fundação” (iniciada em 1942), de Isaac Asimov. Coisas de craques.
Mas alguém pode objetar que eu fui buscar, para fundamentar minha tese, a crème de la crème da ficção científica e, de resto, obras e autores hoje pouco lidos pela população em geral. Pois, em resposta, vou tratar de uma obra cinematográfica que é sucesso de crítica e público. Assistida por milhões. A série/franquia “Matrix”, criada pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski.
Além de outras coisitas (TV, quadrinhos, jogos etc.), são quatro filmes: “Matrix” (1999), o primeiro e o melhor da série, “Matrix Reloaded” (2003), “Matrix Revolutions” (2003) e “Matrix Resurrections” (2021). Com algumas variações, as estórias são protagonizadas por Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss e Hugo Weaving. Maravilha de divertimento.
Vocês devem conhecer a trama, que gira em torno da realidade virtual, criada por máquinas/computadores sencientes de altíssima inteligência artificial, em que vivem aprisionados os humanos. E o fato é que esse mundo ciber distópico de “Matrix” está povoado de complexos temas filosóficos e religiosos. Qualquer pesquisa na Internet vai mostrar relações da Matrix com o “Mito da Caverna” de Platão, com as peripécias de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, com os “Simulacros e Simulação” de Jean Baudrillard, com o Budismo e por aí vai.
Vamos aprofundar um pouco a coisa com o apoio de Daniel Shaw e do seu “Film and Philosofy: taking movies seriously” (Wallflower Press, 2008). Segundo Shaw (que, por sua vez, pede ajuda a Carolyn Korsmeyer), “Matrix” invoca “aleatoriamente uma série de problemas clássicos de percepção, para os quais a mais óbvia referência é a Primeira Meditação/Filosofia de Descartes. Os dois principais argumentos céticos de Descartes (a inabilidade de se distinguir sonhos e experiências em vigília e a hipótese do gênio maligno) encontram os seus equivalentes cinemáticos em Matrix, que induz estados de sonho que são indistinguíveis de estados normais de consciência, e assim levando à ilusão da imensa maioria da humanidade sobre tudo o que eles pensam estar experimentando. As máquinas (que tomaram o controle da Terra e usam os seres humanos como suas fontes de energia) são o equivalente do gênio maligno [de Descartes], dirigidas que são pelo plano original do Arquiteto que as criou (como nós ficamos sabendo no fim de Matrix Reloaded, de 2003). O motivo para essa ilusão coletiva era tornar mais fácil subjugar os seres humanos. Estes são levados a acreditar que ainda estão vivendo o ápice da civilização humana (e antes da descoberta da Inteligência Artificial – IA)”. Esse é apenas um exemplo, entre outros tantos, da “filosofia” que podemos encontrar na série. A filosofia e a profundidade das temáticas de “Matrix” são de tal monta que livros são escritos para se tentar entender a coisa, a exemplo de “The Matrix and Philosophy” (2002), organizado por William Irwin.
Por fim, devo registrar que há também várias questões jurídico-filosóficas a serem exploradas em “Matrix”. Por exemplo, a importância da liberdade individual, a escolha individual ou coletiva sobre o tipo/concepção de “humanidade” em que se quer “viver” (ou “sonhar” ou “viver em sonho”) ou mesmo questões de moral/ética como trair/vender seus amigos para voltar a viver na desejada Matrix, algumas delas lembradas pelo já citado Daniel Shaw.
Dito isso, indago: quem se habilita a escrever um livro “A Matrix e o Direito”?
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 6

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

GLORIOSA MARIA

Esta minha Carta de hoje não representa nenhuma súplica ou oração a Maria nossa mãe Gloriosa, mas uma singela homenagem a uma vivente que partiu, deixando exemplo e saudade – GLORIA MARIA DA SILVA, carioca de Vila Isabel, da cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu (15 de agosto de 1949 – 02 de fevereiro de 2023). 73 anos de vida intensa e marcante.

A imortalidade, não necessariamente, decorre daqueles ou daquelas que ingressaram em alguma Academia, mas os que deixaram frutos perenes escritos ou exemplos ofertados no correr da vida, que impõem servir de exemplo para o todo e sempre.

GLÓRIA MARIA era uma dessas criaturas. Jornalista que se notabilizou pela competência, destemor, inovação, humanidade e companheirismo.

Não tive a felicidade de conhecê-la pessoalmente, mas desde o começo de seu ingresso na Televisão cativou a atenção dos telespectadores e logo ocupou um lugar de destaque dentre os integrantes da comunicação televisiva.

Com finesse incomum, soube escolher a temática dos seus múltiplos trabalhos, realizados com criatividade e coragem.

Lembro da atenção que passei a dar às suas reportagens e comentá-las no sofá de casa com a minha Therezinha, que também a admirava.

O caminho de Glória Maria no jornalismo teve início quando ainda estudante universitária. Com muito esforço, sacrifício até, conciliava a sua profissão com empregos que lhe garantiam a sobrevivência.

Depois foi funcionária da Globo (1970), onde ofertou a sua fidelidade até a viagem final, fazendo o registro de sua presença nos acontecimentos mais importantes da história do Brasil e, também de países estrangeiros de então, entrevistando, desde as pessoas mais simples até a imponência dos advindos de família real, de astros, esportistas e heróis que se destacaram nesse mundo de meu DEUS.

Na Globo, participou dos programas mais icônicos, incluindo a apresentação, por 10 anos, de O Fantástico.

No correr da vida resolveu adotar Maria e Laura, às quais ofertou uma educação exemplar, sem exposição ao público.

Foi pioneira na altivez de defesa da raça negra, mostrando a sua extraordinária competência com coragem e determinação.

Aqui, apresento o meu profundo sentimento pela partida de tão estimada pessoa, a quem, enquanto vida tiver, não deixarei de lembrar.

Deus a receba em sua Casa Celestial.