domingo, 21 de janeiro de 2018

CARTAS DE COTOVELO versão 2018 - 06
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, veranista.
   
Ultrapassamos a metade do tempo de veraneio e já nos desperta um pontinho de saudade, da brisa reconfortante do alpendre do meu primeiro andar, do cheiro de mar, do cântico dos pássaros que perto de mim é exuberante face os resquícios de Mata Atlântica nas cercanias do Conjunto Residencial Barramares. Em minha casa ainda vive uma família de camaleões.
Mas neste sábado registramos o Dia de São Sebastião, Padroeiro de Pirangi, o Santo Guerreiro, ícone de várias expressões artísticas, históricas e religiosas.
Sebastião era um soldado que teria se alistado no exército romano por volta de 283 d.C. e que demonstrou uma conduta compreensiva para com os cristãos, o que lhe trouxe problemas com o Gosão sebastiãoverno Romano que o considerou traidor por volta de 286 d.V, embora tenha conseguido proteção durante o governo dos imperadores Diocleciano e Maximiniano, que o designaram capitão da Guarda Pretoriana.
Por conta do seu comportamento foi condenado à morte por meio de flechas (que se tornaram símbolo constante na sua iconografia). Contudo, embora dado como morto e atirado em um rio, sobreviveu ao martírio, socorrido por Irene (Santa Irene), sendo novamente levazdo diante de Diocleciano, que ordenou então que ele fosse espancado até a morte. Seu corpo foi jogado no esgoto público de Roma e resgatado por Luciana (Santa Luciana),  que preparou o seu corpo para a sepultura nas catacumbas.
A sua história ganhou espaço no mundo cristão e o transformou em ídolo, sendo representado permanentemente amarrado e com perfurações de setas.
É cultuado desde o século IV pelas Igrejas Católica e Ortodoxa ganhando força nos cultos da tradição da cultura afro-brasileiras, recebendo o nome da entidade Oxossi na Umbanda, sincretizado como São Sebastião.
Retratrado pelos pintores da Renascença, ganhou seguidores nas demais eras. O pintor brasileiro Eliseu Visconti teve uma tela premiada com a medalha de ouro na Exposição Universal de Saint Louis, realizada em 1904 nos Estados Unidos, com o quadro denominado "Recompensa de São Sebastião".
Sua vida foi divulgada em muitas obras, dentre as quais no livro "Perseguidores e Mártires", do escritor italiano Tito Casin, como personagem central do romance "Fabíola" (também intitulado "A Igreja das Catacumbas"), escrito em 1854 pelo Cardeal Nicholas Wiseman, levado ao cinema por Alessandro Blasetti em 1949 na França, estrelando Michèle Morgan, e com o ator italiano Massimo Girotti no papel de São Sebastião. Foi refilmado por Nunzio Malasomma em 1961, na Itália, como "La Rivolta degli Schiavi (“A Revolta dos Escravos”), protagonizado pela estrela estadunidense Rhonda Fleming, com o romano Ettore Manni como o santo mártir.
O seu nome inspirou grandes compositores como se registra em trabalho de Debussy no trabalho misto de cantata, drama lírico e de balé, "Le Martyrre de Saint Sébastien".
No Brasil, deu nome a uma das cidades mais importantes São Sebastião do Rio de Janeiro, data comemorada com do seu Santo Padroeiro.
A propósito, a data de 20 de janeiro também tem grande significado para a nossa família, pois coincide com o nascimento da minha filha Rosa Ligia, que foi comemorado ontem com a presença de todos os familiares e amigos, com as pompas merecidas.




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Uma respeitável opinião


 CALDEIRÃO DO DIABO

Valério Mesquita*


Um Estado não é apenas o seu tamanho territorial. É o tamanho de suas lutas para existir como tal. O Rio Grande do Norte, ao longo do tempo, degradou-se administrativamente, vítima dos privilégios das suas elites. Hoje, ele é soma de todos os erros. O que o povo perdeu nesse fogo não será mais achado nas cinzas. O governante procura convencer permanentemente as pessoas daquilo que elas não precisam. A cirurgia a ser feita no corpo de delito é mais em cima. Vejam o somatório de eventos depressivos no Estado calamitoso: crise no sistema penitenciário, verdadeiro barril de pólvora; incertezas com relação a segurança da população face a colisão frontal do atraso que ainda persiste e que não vai sarar até o fim do governo; greve dos servidores da saúde por melhores salários e condições de trabalho, além do desabastecimento dos hospitais públicos; ausência de uma política efetiva de socorro aos municípios contra a estiagem pois dezenas deles já entraram em colapso de abastecimento; perseguição aos aposentados aumentando a contribuição de onze por cento para quatorze. Essa categoria funcional, que contempla todos os segmentos administrativos, teve o fundo previdenciário arrombado pelo gestor com o saque de um bilhão de reais. O governo vai pagar quando?
É urgente que as associações representativas dos inativos, compreendendo desembargadores, juízes, conselheiros, procuradores e outros setores do legislativo e do executivo civil e militar, se irmanem para protestar. A Assembleia Legislativa não pode coonestar dois assaltos seguidos ao bolso do aposentado que já percebe com atraso de dez, quinze, vinte e trinta dias os seus proventos.
A gordura da folha do Estado reside no excesso dos "auxílios" ativos, retroativos e putrefativos, ali e alhures, concedidos aos que percebem altos salários. Aliás, é de bom alvitre investigar sim, as licenciosas e gordas aposentadorias, sem critério e sem vergonha, concedidas nas órbitas dos planetas Saturno e Plutão. Inclusive, o portal da transparência do sistema já exibe os nomes dos que apostaram e continuam ganhando. Nesse particular, as distorções são gritantes e precisam ser reexaminadas, revisadas, se possível. É incontestável! Erros foram cometidos de forma intencional, graciosa e deliberadamente.
Quanto à suspensão do cessar-fogo entre o governo e os policiais, através da assinatura de um pacto, de um documento, apenas traduz o reconhecimento de que os agentes militares e civis tinham razão. Tanto é assim, que o governo não cogita punir ninguém, porque reconheceu que tinham razão. A situação era grave mas não era greve.
Faria já falhou antes, no início do governo, com essa categoria. Quero dizer que "bem estar o que bem acaba". Aliás, é o título de uma comédia de William Shakespeare. Não sou profeta, nem ave de mau agouro. Mas papel, com o tempo, ele se rasga no cartório, na igreja, no banheiro, na padaria, na loteca ou em qualquer parte. Tudo isso dependerá, da maturidade, da competência e da firmeza dos que assinaram o documento. Circunstância é circunstância. Nessa vida, a gente administrará sempre o tempo, as temperaturas e os temperamentos. O importante é que o Estado seja salvo, visto ser o que fica quando tudo passar. Governo vem, governo vai. É o ciclo natural da vida pública. Nela, jamais deixará de ferver o caldeirão do diabo porque é obra de César. Desde o tempo dos romanos.
Esperamos que os vinte e cinco itens apresentados pelos policiais sejam atendidos. Aguardamos a queda do índice de criminalidade no Rio Grande do Norte. E que o aposentado não pague a conta sozinho. Ele é sempre réu dos crimes imaginários. Desejo desarmar todos os meus presságios, dúvidas e dívidas. É preciso, contudo, desviver esse tempo mal assombrado. Porque terrível é ter que desamar os frutos.

(*) Escritor.
PÁGINA  PARA  MEDITAÇÃO NO  DIA  18.01.2018

(Dirigida, mais especialmente, aos Idosos)

É  comum  o aposentado receber os seguintes
conselhos:
- Agora você tem que pensar em você. Já criou
os   filhos,   já   ajudou  os  netos...   É  hora  de 
aproveitar.
Como assim, é hora de aproveitar?
Tudo  o  que  você  viveu  até  aqui faz parte da 
sua  vida também! Foram suas escolhas!  Aliás,
foi a maior parte dela. 
Valorize cada momento vivido.   

                                         Anabela  Sabino


PAZ!
______________
Colaboração da leitora Ana Paula.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


CARTAS DE COTOVELO versão 2018 - 05
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, veranista.
   
Com particular satisfação recebi no meu veraneio de Cotovelo, nesta última terça-feira, alguns componentes da ASSEJURIS, comandada pelo seu Presidente Pedro Marques Homem de Siqueira e mais os associados Albaniza Carvalho, ex-presidente, Neusa Mesquita, Diretora Administrativa,  Manoel Digézio e Múcio Amaral da Costa, do Conselho Fiscal, que vieram dividir comigo as preocupações com a atual situação pela qual atravessa o Estado do Rio Grande do Norte.
Após troca de informações e rememorarmos o episódio que ensejou a inserção constitucional da previsão da Assessoria Jurídica, ainda em 1989, chegamos a um consenso no sentido de que aos integrantes da entidade somente cabe, no momento, colaborar com o Governo para gestões visando à pacificação da situação, pondo-se em atenção permanente para qualquer convocação oficial.
Outro ponto comentado foi o bom relacionamento com os Poderes e com o Ministério Público através de sua longa trajetória, bem assim com a Ordem dos Advogados do Brasil no sentido do reforço da ordem jurídica e do estado democrático de direito.
O único aspecto colocado em apreciação para providências urgentes, foi a necessidade do andamento da Ação Civil Pública 2017.000140-6, que se encontra para julgamento no Tribunal de Justiça, da qual é Relatora a eminente Desembargadora Judith Nunes e que a ASSEJURIS acompanha com singular interesse, pois dela dependem as medidas de oxigenação da entidade, carente de reforço dos seus integrantes mediante abertura de concurso público e assunção efetiva e exclusiva da missão que lhe outorgou a Lei Complementar  518, DE 26 DE JUNHO DE 2014, presentemente fragilizada com a concorrência de assessores jurídicos comissionados, sem atribuições legais definidas para os encargos privativos da categoria.
Fiquei sensibilizado com a cortesia da visita e dos propósitos dos assessores jurídicos neste momento anômalo da vida administrativa do Estado, em colaborar para se reencontrar a plena ordem das coisas, para o que me ofereci a colaborar e manter contato com o Presidente da OAB/RN Paulo Coutinho para combinarmos ações emergenciais e futuras no mesmo sentido da proposição dos visitantes.

Afinal, diz a filosofia popular: não há males que sempre durem, nem desesperanças que perdurem. Vamos à luta na direção de novas vitórias.

Caro sócio,

Desejamos um bom ano de 2018 e anunciamos o retorno das nossas atividades.

Informamos que, em Reunião de Diretoria realizada em data de 17 de julho de 2017, o valor da anuidade ficou majorado para R$ 360,00 (trezentos e sessenta reais), a partir deste ano de 2018, o qual deverá ser liquidado até o dia 28 de março do corrente ano.
Entretanto, por decisão da presidência, o sócio que efetuar o pagamento, até o dia 28/02/2018, pagará apenas a quantia de R$ 300,00 (trezentos reais).
Solicitamos a compreensão de todos os sócios, para que efetuem o pagamento, o quanto antes, tendo em vista que a ANUIDADE é ÚNICA FONTE DE RENDA para as despesas correntes da instituição.

CALENDÁRIO CULTURAL
Aproveitamos o ensejo para informar a nossa programação cultural para o primeiro semestre de 2018 e anunciar que dentre em breve o nosso site estará no ar. Pedimos a todos que acompanhem as nossas atividades pelas redes sociais, Facebook e Instagram  curtam, compartilhem, comentem.

Nosso horário de funcionamento, infelizmente, por carência de pessoal, atualmente é apenas pela manhã, de segunda à sexta, 8h às 12h e aos sábados, 9h às 16h.

Sejam sempre bem vindos.

Atenciosamente,

Assessoria da Presidência


PROGRAMAÇÃO CULTURAL 2018.1

EVENTOS
25/01 – 17 h – Abertura dos trabalhos do ano de 2018 e lançamento do sítio do IHGRN.
22/02 – 17 h – Lançamento do Catálogo do IHGRN, o primeiro do gênero, nos 115 anos de existência do IHGRN.
28/03 – 19 h – Sessão solene de comemoração do Aniversário do IHGRN
    – Lançamento da Revista do IHGRN

PALESTRAS – QUINTA CULTURAL
22/02 – 17 h – PALESTRA - Câmara Cascudo e o Símbolo Jurídico do Pelorinho, ministrada pelo jornalista Vicente Serejo.
08/03 – 17 h – O IHGRN – ministrada pelo pesquisador Cláudio Galvão
19/04 – 17 h – Atol das Rosas – Ministrada pela professora Zélia Sena
17/05 – 17 h  História do Rio Grande do Norte, ministrada pelo historiador Luiz Eduardo Brandão Suassuna (Coquinho)
14/06 – 17 h  O arquipélago de São Pedro e São Paulo, ministrada pelo professor José Lins

EXPOSIÇÕES
08/02 – 17 h - Exposição de Pinturas do acervo particular do médico e artista plástico Iaperi Araújo

15/03 – 17 h - Exposição de Minérios do RN, com mostra da coleção particular de Pedro Simões Neto Segundo, com explicação e distribuição de catálogo sobre o assunto.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

REVIVENDO A COPA – Berilo de Castro


REVIVENDO A COPA –  
A Copa do Mundo de Futebol de 2014, realizada em nosso país, nos deixou algumas boas lembranças, e momentos de alegria, apesar da grande decepção e do  fracasso abissal demonstrado pela nossa seleção diante da  organizada equipe  da Alemanha, quando fomos massacrados em pleno de Estádio do Mineirão, pelo escorre de 7×1.
Memorizei alguns lances, alguns momentos que bem marcaram aqueles instantes de alegria, tristeza e de congraçamento universal do futebol.
Vejamos:
—  O apagado desempenho do craque número um do mundo: Cristiano Ronaldo, da seleção portuguesa;
—  À ausência nos jogos do famoso atacante Balotelli da seleção italiana, embora presente em campo;
— A mordida canibalesca  de  Luis Soárez,  atacante da  seleção uruguaia no zagueiro da seleção italiana, Chiellini, em plena Arena das Dunas/ Natal;
— O “soprinho” do árbitro japonês ao apitar o pênalti inexistente para o Brasil contra a Croácia;
—  A grande  decepção da seleções da Espanha, Inglaterra e Itália;
—  A grata e a vibrante surpresa das boas seleções da Costa Rica e Colômbia;
—  À  beleza, à alegria, o colorido e a vibração das torcidas nas Arenas;
—  O belo exemplo e a fidalga impressão deixada pelos torcedores  japoneses nas Arenas( povo limpo é povo civilizado);
—  A beleza do futebol exibido pelo veterano Pirlo, meio campista da seleção italiana;
—  A genialidade, a elegância, a disciplina tática exibida pelo meio campista Schweinsteiger da equipe alemã;
—  A raça aliada ao belíssimo futebol do atacante Robben, da seleção holandesa e  o talento do jovem craque colombiano, James Rodríguez;
— O choro coletivo explicável ( um milagre), uma graça alcançada da nossa seleção pela vitória nos pênaltis contra o Chile;
— A estratégica irracional e “confortável” da seleção brasileira de treinar na granja Comary/ Teresópolis/RJ, com  clima de Europa  no inverno, para jogar em clima tropical com  32 graus à sombra;
— A insuportável  chatice  da transmissão apaixonada de Galvão Bueno;
—  A insistência( por falta de coadjuvante) do  craque Neymar em tentar, tentar e teimar  resolver sozinho o jogo para a nossa seleção;
—  Os  curiosos e hilários  nomes dos jogadores estrangeiros: Sissoko, Osako, Guardado, Vida, Pulido,  Caicedo, Mehrdad, Tranquilo, Cuadrado, Abate, Musa, Papastathopoulos, Koo Ja-Cheol, Altidore, Mavuba, Rimando, Immobile, Mejía, Schweinsteiger, Zemmamouche,Lukaku;
—  O alto nível técnico e a performance  dos goleiros das seleções ( A Copa dos Goleiros), destaque maior para Nauer da  seleção da Alemanha;
—  Os vazios, inconsistentes e  bisonhos comentários técnicos e táticos  de Ronaldo Nazário, na TV Globo;
—  A  figura alegre e simpática  do treinador da seleção mexicana e da sua histórica queda ao comemorar o gol da sua seleção;
—  A inusitada e corajosa substituição( que deu certo) do goleiro da seleção da Holanda contra a Costa Rica, no momento mágico da decisão por pênaltis;
— A brutalidade e a virilidade do corpulento  jogador da seleção Colombiana Zúniga, no nosso melhor e único  atacante Neymar, tirando-lhe da Copa;
—  A falta de conhecimento, o despreparo  e a imaturidade  de como foi feito o atendimento em campo de Neymar, vítima de um seríssimo traumatismo na coluna lombar;
— Do futebol jogado com inteligência, solidário, com seriedade, planejamento e muita organização, pela seleção da Alemanha;
— De admirar, aplaudir e assistir o craque Messi correr na vertical em velocidade e ter a bola literalmente colada à chuteira, não permitindo ao  adversário tomá-la. Impressionante! Coisa de gênio;
— A justa e merecida homenagem póstuma ao craque argentino Di Stefano ( que nunca disputou uma Copa do Mundo), com um minuto de silêncio e targa preta, no jogo entre a Argentina e Holanda. E o nosso craque Marinho Chagas ( falecido um pouco antes do início da Copa ), o melhor lateral-esquerdo do Mundo (1974) — nenhuma  homenagem. Lastimável e injusto.Berilo de Castro – Médico, escritor, membro do   IHGRN – berilodecastro@hotmail.com.br

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


CARTAS DE COTOVELO versão 2018 - 04
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, veranista.
      Entre caminhadas e banhos de mar, não dou tréguas ao fundo da minha rede, nela escanchado, para o deleite das minhas leituras diárias. A bola da vez foi “Macaíba em Alvoroço”, do meu amigo e confrade Racine Santos – ele macaibense e eu macaibeiro, ambos conhecedores das coisas de Macaíba de Seu Mesquita.
Deleitei-me com a descrição da geografia física e humana da cidade, fazendo um ponto especial ao comentar a Feira, que também foi o meu encanto no tempo em que lá vivi, morando na rua Pedro Velho, bem pertinho da rabada da feira, ali no confronto com a rua do Solar Caxangá que faz quina com a rua do Gango. Ali me deleitava com os animais de carga amarrados com cangalhas e, vez por outra, um jumenta no cio provocava os garanhões que queriam fazer a cobertura com cangalha e tudo, aos coices, fazendo cair a mercadoria e sob os vivas e gritos da molecada. E eu lá.
Também naquela parte final ficavam os vendedores de cordel, que usando um velho microfone, envolvido em uma flanela rota, cantavam as suas estórias incríveis, talqualmente o fazia o açuense, brincante de João-Redondo da história do livro, que colocou em alvoroço o Prefeito, o Padre, o Delegado e o Poeta com a simples insinuação: ’tô de olho em você”.
Gozação? Vingança? Ou apenas feladaputagem?
O romance entremeia o enredo com as meninas do “Céu dos pecadores”, histórias de lobisomem e um crime de morte nunca desvendado, Zefinha catimbozeira, os encontros de Xexéu, Cancão, Sérgio Cabeceiro, regularmente no Bar Esperança, de Seu Jorge e, nos sábados, ao final da feira, no Gato Preto, de Seu Melquezedeque, aberto dia e noite, em todas as oportunidades, puxadas à aguardente “Dois tombos” – causadora do conhecido slogan: um pra frente e dois pra trás. (Recordo nos carnavais de Macaíba o caminhão desfilando com a alegoria de uma grande garrafa de propaganda). Alguma vez a bebida foi servida por Hélio Cobra, da Pensão Estrela da Madrugada, mais conhecida como Pensão de Dorinha.
No meu tempo existia uma das meninas com uma história famosa – seu nome Xibiu de Bolão.
Ademais disso, relembra a chegada do ônibus de seu Luiz, que parava junto do obelisco fronteiriço ao Mercado, cercado de correntes e nas sombras das árvores.
Fui um dos que às tardinhas esperava esse transporte com o gazeteiro que trazia minhas encomendas de Gibís (coleção que mantenho até hoje), enquanto não chegava me deleitava com os caminhões e mistos que passavam pelo centro da cidade tocando na buzina músicas de Luiz Gonzaga.
Ah que saudades que tive da autora da minha vida, da minha infância querida na eterna Macaíba, que os anos não trazem mais.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


FALÊNCIA DE DESEMPENHO

Valério Mesquita

A governabilidade no Rio Grande do Norte está no volume morto. A atuação pessoal do governante continua abaixo da crítica. É preciso humildade. Baixar o orgulho, a vaidade e dialogar com todos. Poderia ter feito isso antes, muito antes, há trinta dias atrás e aí poderia ter evitado que a crise tivesse ido tão longe. Inclusive, foram tomadas medidas extremas que somente puseram lenha na fogueira. Prisões de policiais, auxílios de recursos federais para pagamento de funcionários estaduais, enfim, toda uma parafernália de interpretação mal-assombrada da lei. A população do Estado ficou à deriva, sujeita a violência, a anarquia, quando, somente agora, foram tomadas medidas emergenciais para revelar o incêndio: diminuir o tamanho da máquina estatal (exoneração de cargos comissionados na órbita do poder executivo e diminuição do número de órgãos da administração direta e indireta). Que o Poder Executivo assuma sozinho as dimensões de tal cometimento é dever de ofício.
Na reunião com o mundo político estadual (deputados federais e senadores), lá na governadoria, numa atmosfera na qual, sorrisos punhais escondiam, outro dever de casa se impôs para a equação do problema a médio prazo: a venda do patrimônio público (ativos) e de empresas de economia mista. Aliás, existem algumas que somente servem para empreguismo. E sobre essa tarefa hercúlea o governador Faria ainda vai se entender com a Assembleia Legislativa. Nas entrelinhas, indaga-se qual a contribuição que os outros dois poderes ofertarão para encolher o tamanho da folha de pagamento? E também, com relação as transferências mensais de recursos, denominados duodécimos?
A paralização da polícia militar por atraso de salário e por outros motivos já do conhecimento público, chegou como uma onda no mar, desde quando se iniciou o atual governo. O piloto afirmou que seria “o governador da segurança”. Esse presságio, ao longo do tempo, foi se desarmando. O perigo dele estava no tom. Foi medíocre, vulgar e chato. Via-se a primeira futilidade pública, infantil para dá no que deu: luta social, perda de diálogo com as polícias civil e militar, vitimas inocentes (o povo), depredação do patrimônio e humilhação do Rio Grande do Norte na mídia social e televisiva de todo o país. Vive-se um tempo trágico, perdulário, verdadeiro obituário de omissões.
Tudo se deveu ao fraco desempenho do governador, que procura guilhotinar os antecessores pela massa falida. Se as providências pactuadas na reunião com a chamada classe política não forem implementadas criteriosamente, no primeiro trimestre toda essa baixaria se repetirá. Até porque a combustão é mais fácil no ano eleitoral. Reforma administrativa e política de investimentos são ajustes urgentes para que modifiquem a máquina estatal de forma abrangente, em todos os seus segmentos para suportar a carga funcional, previdenciária, de forma superavitária. Essas assertivas são obrigações de Robinson Faria, para que o seu nome não fique na história de pior governador eleito pelo povo do Rio Grande do Norte. Elas são exigências do Ministério da Fazenda desde quando pediu indevidamente dinheiro para pagar o funcionalismo.
Lembrem-se que a memória registra que a debilidade do governo revelou-se quando sacou o dinheiro da Previdência (IPERN) para pagar os servidores, ano passado. De agora em diante, acabou o show de strip-tease dos fundos estatais. É hora de mostrar competência e abolir privilégios.
No Ceará, por exemplo, governado por um petista, desde agosto de 2016, o gestor reduziu e equilibrou a magnitude do déficit em trinta por cento, obedecendo o limite da lei da responsabilidade fiscal. Todavia, aqui desde 2015, apesar de ser permanentemente advertido pelo TCE, deixou ficar em sessenta e sete por cento a ultrapassagem da L.R.F.
Ante todo esse descalabro, digo que a revolta dos policiais tem um fundo social, humano, porquanto atinge a bolsa, o estômago e a família - enfim, a vida. Se tivesse acontecido tal inoperância (atraso) nos salários das autoridades constituídas do Estado, o clamor do “mundo oficial” já teria pedido e votado o impeachment do verdadeiro responsável.


(*) Escritor 
CARTAS DE COTOVELO versão 2018 - 03
CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, veranista.
      Afinal, com uma semana de atraso no ano que começou, foi possível passar a primeira noite em Cotovelo. Dormida calma, da melhor forma que pretenda qualquer vil mortal, sem businasso, bem diferente do inferno dos finais de semana, onde a deficiência de uma via adequada de trânsito congestiona Cotovelo, praia de passagem para os paraísos do sul.
Este assunto vem sendo insistentemente cobrado pelos que enxergam além da ponta do nariz, mas sem uma resposta dos órgãos competentes do Estado, sem atentarem para os ganhos financeiros que advirão com a atração de empreendimentos novos em benefício dos turistas, com pleno proveito dos moradores e veranistas da região.
Aqui nas comunidades Pium-Cotovelo, esse benefício vem sendo aguardado e, particularmente a PROMOVEC, associação civil que alberga os interesses dos moradores, proprietários e veranistas tem sido vigilante em suas reivindicações, com muito bom entrosamento com o Prefeito de Parnamirim, que vem voltando suas ações para as melhorias reclamadas.
Mas existe um outro ponto que merece estudo e solução – a paz pública e o silêncio necessário após as 22 horas, que não são observados nas baladas de Pirangi, cujo som, regado a verdadeiros bate-estacas, incomoda todo mundo e não se conciliam com o sono dos que vêm para aqui buscar repouso, com sói acontecer nas regiões praianas. Possivelmente uma regulamentação do assunto permita a solução do problema.
Quando a noite deixou escapar os primeiros raios de sol e depois a sua aparição plena, fez-se a maravilha da confraternização das caminhas com o mar, um pouco de esporte e a exposição comedida a beira-mar e afinal o banho repousante que nos oferece o regresso ao lar revigorado – mais para uma boa refeição, uma rede ou uma dose cantada em versos – caju nasceu pra cachação – uma rede na varanda. O resto vem por acréscimo.
Tempo bom, inspirador para a convivência fraterna, um baralho, um dominó, uma cantoria, a brisa inigualável da costa, boas e inseparáveis leituras. Vai sair um poema, um conto ou romance.

Arre égua, que boommmm!

sábado, 6 de janeiro de 2018


Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos no Rio

  


Cony durante entrevista em sua residência localizada na Lagoa, na zona sul do Rio de Janeiro - 

MAURO PIMENTEL / FOLHAPRESS (6/1/2018)


O romancista, escritor, jornalista e colunista da Folha, Carlos Heitor Cony morreu por volta das 23h desta sexta-feira (5) aos 91 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado no Hospital Samaritano e morreu em decorrência de falência de múltiplos órgãos. A informação foi confirmada pela ABL (Academia Brasileira de Letras), da qual ele era membro desde 2000.

O Carlos Heitor Cony que conhecemos -cronista ácido e lírico, romancista prolífico de texto ágil e conciso- forjou-se de uma brincadeira e de uma clausura. A primeira se deu aos oito anos de idade, quando o garoto, que por problemas de formação pronunciava ditongos com dificuldade e trocava letras ao falar (o "g" pelo "d", por exemplo), foi desafiado pelo irmão mais velho e amigos, numa festinha, a dizer "Dona Jandira adora um fogão".

Ingenuamente, disse-o, e foi objeto de agressiva caçoada. Angustiado, em seguida escreveu "fogão" inúmeras vezes numa folha de papel e mostrou-a ao mesmo grupo, que nisso não viu graça alguma. Donde o menino concluiu que, se não falava direito, podia escrever corretamente e ter, na escrita, uma forma de defesa e de manifestação da qual ninguém podia caçoar.

Nascido em 14 de março de 1926, em Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio de Janeiro, Cony fora considerado "mudo" pela família até os quatro anos de idade. Só emitira o primeiro som ao levar um susto na praia de Icaraí (Niterói) ante o surgimento de um hidroavião vermelho vindo do mar em direção à areia. Em 1941, quando já estava com 15 anos, uma cirurgia poria fim ao problema.

Já a clausura -segundo pilar do Cony que conhecemos- foram os anos passados no Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio Comprido, de 1938 a 1945, período em que estudou os clássicos gregos e romanos, praticou diversas línguas, conheceu música lírica e, principalmente, trocou muitas idéias, em especial consigo mesmo.

Do seminário, onde ingressara por vontade própria e de onde saiu aos 19 anos e meses antes de obter a tonsura, Cony herdou grande capacidade de concentração e o hábito de sempre se ocupar com alguma coisa, o tempo inteiro, além do gosto pela liturgia. Mas conheceu, também, o valor da dúvida, a experiência dolorida da ruptura e o alto custo a pagar pela livre expressão de pensamento e opinião.

Em "Informação ao Crucificado" (ficção com tonalidade autobiográfica em forma de diário publicada em 1961), o jovem seminarista João Falcão relata o tenso e decisivo diálogo no qual, acuado, respondendo a uma pergunta do Senhor Arcebispo ("por que você quis ser padre?"), explicava: "Porque achei bonito ser padre. Bonito e difícil". Pouco a ver com "levar almas a Deus" ou com apego religioso, portanto. Réplica do Arcebispo: "...ou você muda radicalmente sua maneira de pensar, ou faça-me o extraordinário favor de abandonar o quanto antes o Seminário".

Ao longo dessa experiência, solidificou-se uma personalidade marcada pelo ceticismo, alérgica a grupos -fossem ou culturais-, assumidamente individualista e, por isso mesmo, também errática, imprevisível. Em maio de 2000, no discurso de posse da cadeira número 3 da Academia Brasileira de Letras, Cony definiu-se, citando Eça de Queiroz, como um "anarquista entristecido, humilde e inofensivo". "Não tenho disciplina suficiente para ser de esquerda, não tenho firmeza suficiente para ser de direita e não tenho a imobilidade oportunista do centro".

Em 1946, aos 20 anos, como quem busca um novo eixo, o ex-seminarista ingressa na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Abandona a instituição, porém, no ano seguinte. De 1948 a 1950, frequenta o Curso de Preparação de Oficiais de Reserva (CPOR). Nesse intervalo, casa-se em 1949. Nascem as filhas Regina Celi (1951) e Maria Verônica (1954). Ao longo da vida, Cony teve mais três casamentos formais e duas uniões informais -além de um filho, André Heitor, nascido em 1973.

Jornalismo

Filho de Julieta de Moraes e do modesto jornalista Ernesto Cony Filho -morto em 1985 aos 91 anos e celebrizado em 1995 como protagonista de "Quase Memória"-, Cony ingressa oficialmente no jornalismo aos 26 anos, em 1952, como redator na Rádio Jornal do Brasil. Antes tivera passagens como "setorista" da Gazeta de Notícias na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em substituição ao pai. Foi também no lugar do pai -vítima de uma isquemia cerebral- que Cony passou a ser credenciado pelo "Jornal do Brasil", em 1955, na Sala de Imprensa da Prefeitura da cidade.

O primeiro romance ("O Ventre") é escrito nesse ano. Em 1956, o autor o inscreve sob pseudônimo para o Prêmio Manuel Antonio de Almeida, concurso da Prefeitura. A comissão julgadora considera o livro "muito bom", mas nega-lhe o prêmio por achá-lo forte demais para um certame oficial. Em apenas nove dias, para cumprir o prazo de inscrição, o autor produz seu segundo romance, "A Verdade de Cada Dia", e com ele vence o concurso, em 1957. Com "Tijolo de Segurança", recebe o mesmo prêmio, em 1958.

Os três romances viriam a ser publicados respectivamente em 1958, 1959 e 1960 pela Civilização Brasileira, dirigida por Ênio Silveira, que "adota" Cony como autor de ponta da prestigiosa editora. Seguem-se "Informação ao Crucificado" (1961), "Matéria de Memória" (1962) e "Antes, o Verão" (1964).

Nessa inusitada avalanche de romances, a crítica observou a composição de um retrato impiedoso da classe média carioca, em compasso existencialista com elevada dose de autocomiseração, assim como a expressão do vazio individual, da incomunicabilidade e da ausência de perspectivas coletivas -tudo isso, na perfeita contramão da euforia da era Juscelino Kubitscheck. Voluntária ou involuntariamente, Cony já assumia, em todas essas obras, a postura muito própria de enfrentamento que marcaria toda a sua trajetória pessoal e profissional.

Ao comentar "A Verdade de Cada Dia" em 1961, o crítico Paulo Rónai classificava os romances de Cony como "chocantes e pungentes", com um "lugar definitivo na história da ficção brasileira". Na "História Concisa da Literatura Brasileira", Alfredo Bosi via a obra do autor como uma "experiência cortante de neo-realismo psicológico".

O projeto inicial do ficcionista, segundo confidenciou o próprio em diferentes ocasiões, era compor um conjunto de dez romances, uma série sobre a "condição humana". Auto-ilusão, sem dúvida, pois Cony, desde o início, sempre foi, acima de tudo, uma máquina humana de escrever; vulcânica, acelerada, infatigável, fora de controle do próprio dono.

Não só produziu bem mais do que dez romances (foram 16 no total), como enveredaria incansavelmente pela crônica e outros vários gêneros: romance-reportagem, biografias, ficção infanto-juvenil, adaptações de clássicos nacionais e estrangeiros. No total, sua produção reúne 65 publicações, sem falar naquelas realizadas em parceria ou a participação em coletâneas.

Certamente não tinha preocupação de fazer obras-primas. Escrevia, simplesmente, de modo compulsivo, como extensão, no papel, de sua fisiologia. Muitas vezes se classificou como um autor "sem estilo" -embora, segundo diferentes críticos, isso esteja longe da realidade. Sempre auto-irônico, disse numa entrevista: "Acho que já poluí demais o mercado editorial. O Ibama deveria tomar uma providência contra mim".

Cronista

Se o reconhecimento literário veio cedo, expresso em prêmios e resenhas elogiosas, foi como cronista -cuja estreia se deu em 1962 no "Correio da Manhã" (onde fora contratado em 1960 como copidesque e depois editorialista)- que Cony surgiu para uma faixa mais ampla de leitores. A coluna, em revezamento com o escritor Otávio de Faria (1908-1980), chamava-se "Da arte de falar mal".

Quando de sua reunião em livro, em 1963, o crítico Fausto Cunha destacou o domínio da língua e a temática individual, elogiando-lhe, entre outros aspectos, a "audácia da afirmação", uma qualidade, segundo ele, ausente em "nossos cronistas".

A explosão pública de Cony, porém, ocorreria no ano seguinte, logo após a implantação da ditadura militar, em 1964. E não por acaso. Avesso a grupos, sem laços partidários nem compromissos programáticos, o cronista pôde se dar o luxo de, a partir de abril daquele ano, agir por instinto, atirar sozinho, expor-se como e quando achasse melhor em reação à implantação do regime militar.

As crônicas dos dias e semanas imediatamente posteriores ao Golpe são de uma ousadia sem igual em toda a imprensa. Cony dava nome aos bois. Chamava o golpe de "quartelada", ironizava a presença político-militar dos Estados Unidos no país, investia contra os altos comandantes do novo regime. O impacto de seus textos era proporcional ao pasmo que tomara conta da maior parte dos setores atingidos pelo golpe, ainda mais por serem provenientes de um autor antes freqüentemente tachado de "alienado" e individualista -rótulos que ele próprio, diga-se, nunca rejeitou.

"Era o nosso respiradouro", escreveu em 1996 Moacyr Scliar. Testemunha o também escritor Luiz Fernando Veríssimo: "Em pouco tempo, aquele ato, ler o Cony, se tornou um exercício vital de oxigenação para muita gente, e a sua coluna uma espécie de cidadela intelectual em que também resistíamos -mesmo que a resistência consistisse apenas em dizer "É isso mesmo!", ou "Dá-lhe, Cony!", a cada duas frases lidas. "Leu o Cony hoje?", passou a ser a senha de uma conspiração tácita de inconformados passivos cujo lema silencioso seria "Pelo menos, eles não estão conseguindo engambelar todo o mundo".

Os relatos da noite de autógrafos de "O Ato e o Fato, livro que reuniu essas crônicas poucos meses depois de publicadas em jornal, dão conta de um sucesso retumbante: mais de 1.600 exemplares vendidos na ocasião; edição esgotada em poucas semanas.

Aquilo que socialmente aparecia como protesto politizado, engajamento determinado e firme, tinha para o autor, porém, um sentido diferente, particular: mais dever de consciência do que atitude programática. Cony explicou certa vez: "(...) não tive motivação política alguma para escrever como escrevia (...) não estava em jogo o fato político: estava em jogo, em grande parte, um lado humano. Pessoas que trabalhavam comigo desapareciam, eram espancadas nas ruas, eram torturadas... Foi um espetáculo deprimente, abominável (...) Isso tudo me enojou de uma tal maneira que eu comecei a escrever sobre o assunto. E com uma violência toda pessoal".

A ousadia valeu-lhe fama e simpatia, mas custou-lhe, também, inúmeros transtornos. As filhas foram ameaçadas por militares, que rondavam o prédio onde Cony morava, no Posto 6, em Copacabana. O então ministro da Guerra, general Costa e Silva, moveu ação com base da Lei de Segurança Nacional, considerando as crônicas ofensivas às Forças Armadas. Mais tarde, a defesa do jornalista conseguiu que o processo ocorresse sob a Lei de Imprensa (em que as penas eram menores). Cony foi condenado a três meses de prisão, com direito a sursis.

De 1964 a 1972, sofreria 12 processos, sendo detido em seis oportunidades; na mais grave delas, ao final de 1968, com a decretação do Ato Institucional N° 5, chegou a ficar quase um mês na prisão. Em 1965, sob pressão, o escritor deixa o "Correio da Manhã" e começa a trabalhar nas Edições de Ouro (Ediouro) -fazendo adaptações de clássicos, traduções e prefácios-, além de colaborar com diferentes publicações. Chega a escrever uma telenovela ("Comédia Carioca") para a TV Record, censurada.

No começo de 1966, sai o romance "Balé Branco", dedicado a Carlos Drummond de Andrade, Austregésilo de Athayde, Alceu Amoroso Lima e Fernando de Azevedo, os quais haviam deposto em favor de Cony na Justiça durante o processo que sofrera pela ação de Costa e Silva.Nesse período publicaria, entre outros livros, uma coletânea de contos ("Sobre Todas as Coisas", 1968) e produziria, para a Bloch Editores, reportagens que mais tarde redundaram no livro "Quem Matou Vargas?" (1972).

A Civilização Brasileira edita em 1967 o mais polêmico dos romances do autor: "Pessach: a Travessia", obra que tematiza o drama vivido por boa parte da esquerda e da intelectualidade em relação ao engajamento ou não na luta armada contra a ditadura. Embora com uma orelha assinada pelo filósofo Leandro Konder, um dos responsáveis então pela política cultural do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o livro é explicitamente crítico quanto ao papel desempenhado por essa organização no enfrentamento ao regime.

Primeira ficção com fundo político de Cony, "Pessach" causou debate até mesmo na sua reedição, em 1997, oportunidade em que o autor afirmou ter sido boicotado à época pelos jornalistas e intelectuais ligados ao PCB na difusão do livro -denúncia contestada por dirigentes comunistas daquele período como Ferreira Gullar e o próprio Konder.

Em circunstâncias políticas e pessoais desconfortáveis, Cony viaja ao exterior, passando por Paris, Moscou, Praga e Havana. Na capital cubana -inicialmente como jurado do concurso Casa de Las Américas-, permanece durante onze meses, entre 1967 e 1968.

Sem perspectiva profissional, na volta ao Brasil Cony aceita o convite de Adolpho Bloch para trabalhar no seu grupo editorial -cujo apoio aos governos militares era explícito-, onde permaneceria por cerca de 30 anos. No dizer do próprio jornalista, foi uma opção por ajustar-se a uma espécie de "prisão de luxo", com bons salários e viagens constantes ao exterior.

Ali, de início, ajudou a finalizar o livro das memórias de Juscelino Kubitschek, para depois exercer sucessivamente diversos cargos executivos, dirigindo revistas de entretenimento como "Ele & Ela", "Desfile" e "Fatos & Fotos". Em meados dos anos 1970, passaria a escrever para a "Manchete", carro-chefe da Bloch, datando de 1976 a entrevista que realizou com o delegado Sergio Paranhos Fleury, do Dops, então símbolo maior da aplicação da tortura no Brasil, fato que lhe rendeu ainda mais animosidade por parte da oposição ao regime.

Para a esquerda, ao integrar o grupo de Bloch Cony fizera uma espécie de pacto com o diabo. Para a geração mais nova, que começava a entender alguma coisa apenas em meados dos anos 70, seu nome já se associava, ainda que indiretamente, à zona de influência do regime -o mesmo que ele combatera anos antes de modo tão escancarado e impetuoso.

Mas o "lobo solitário de feroz individualismo" (expressão de Ênio Silveira) não estava nem um pouco incomodado com tudo isso. Arredio, reagiu de maneira bem própria, bem "conyniana", escrevendo o romance "Pilatos" (1974). Trata-se de um livro cáustico, com traços escatológicos e pornográficos, cujo protagonista, um sujeito que fora castrado depois de sofrer um acidente, perambula pelas ruas do Rio com seu pênis preservado num vidro de compota.

Um texto "originalíssimo (...) não tem semelhança com nenhuma outra obra da literatura brasileira", nas palavras de Otto Maria Carpeaux. "(...) Este romance pede inteligências abertas, capazes de descobrir, em meio à falação desabrida, ao grotesco à la Goya ou à mordacidade à Daumier, o quanto há de humano, sofrido e pungente nessa parábola escrita antes com sangue e lágrimas do que com riso", analisava Mário da Silva Brito.

Cony sempre viu em "Pilatos" o seu melhor livro. Não tanto pelas qualidades literárias, mas principalmente por ser, segundo dizia, o único que o expressava integralmente e que só ele poderia ter escrito. Com essa obra, ele "chuta o pau da barraca", à esquerda e à direita. Lava as mãos e se despede da ficção.

Nesse período, segundo contava, vivia feliz, um "clone às avessas do seminário". Sentia-se bem casado, passou a andar com rabo-de-cavalo, vestia calça vermelha, pintava quadros, viajava. Teve um filho e uma neta. Assessorava Bloch em assuntos pessoais e profissionais. Publicou livros-reportagem e pequenas obras infanto-juvenis. No final da década de 1980, chegou a assumir o departamento de teledramaturgia da TV Manchete e a esboçar sinopses de novelas como "Kananga do Japão" e "Dona Beja".

Por que deixou de produzir literatura? Ele mesmo respondia: "Preferi viver. A vida estava boa, divertida, foi uma fase em que não senti necessidade de escrever". Como o publicitário Augusto Richet de "A Casa do Poeta Trágico" (1997), porém, Cony "se recusava ao crepúsculo".

Colunista da Folha de S.Paulo

Em março de 1993, por sugestão do colunista Janio de Freitas, ele volta a ficar sob os holofotes da mídia, assumindo a coluna "Rio de Janeiro" da página A2 da Folha de S.Paulo, antes assinada por Otto Lara Resende. Seu público mais antigo retoma o contato diário com uma verve ímpar, independente, carregada de anedotas curiosas e vastas experiências, sem ser, no entanto, saudosista. Para os leitores mais jovens, surge uma prosa cuja contundência, vivacidade e agilidade nem de longe denunciam tratar-se, na verdade, de um retorno.

A energia produtiva de Cony, que de novo se manifestava em crônica diária, serviu-lhe, também, para retomar a ficção num momento de infelicidade, dois anos depois, quando obrigou-se a permanecer noites acordado a cuidar de sua setter Mila, gravemente adoecida. Nesses momentos, sem premeditação, acabou por escrever, num período intensivo de três semanas, o livro "Quase Memória" (1995), misto de romance, reportagem e crônica centrado na figura de Ernesto Cony Filho, obra que marcou a sua volta ao mundo da ficção. Mais do que elogio à personagem pitoresca do velho jornalista, trata-se de um lírico pedido de desculpas do filho pelo desprezo que sempre alimentara em relação ao pai. Mila, a cadela, morreria poucos dias antes de encerrar-se o livro, que é a ela dedicado.

O êxito de crítica e de público desse "quase romance" levou Cony a deixar para trás a promessa, feita mais de vinte anos antes, de abandonar a literatura. Aos 70 anos de idade, ele inaugura uma nova avalanche de romances: "O Piano e a Orquestra" (1996), "A Casa do Poeta Trágico" (1997), "Romance sem Palavras" (1999), "O Indigitado" (2001), "A Tarde da sua Ausência" (2003) e "O Adiantado da Hora" (2006).

Com esses livros, receberá sucessivamente oito prêmios literários, dentre eles o "Machado de Assis", da Academia Brasileira de Letras (ABL), pelo conjunto da obra, em julho de 1996. No mesmo ano, em agosto, passa a integrar o Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e a assinar uma coluna na Ilustrada aos sábados. Retoma a rotina de conferências em universidades ou instituições culturais, passa a fazer comentários em rádio.

Em 1998, recebe do governo francês, em Paris, a comenda de Chevalier da Ordre des Arts et des Lettres. Em março de 2000, é eleito para a cadeira número 3 da ABL, com 25 dos 37 votos possíveis. O pessimismo desabrido e incisivo, os comentários ferinos e a postura amarga de "soy contra" -em especial dirigida os governos de plantão (antes João Goulart ou os militares, depois FHC ou Lula)- certamente levou muita gente a imaginar Cony como um homem intratável e rabugento. Nada mais falso, porém.

Divertido, com um brilho quase infantil nos olhos pequeninos, fácil de fala, Cony era um sedutor de conversa rica e sempre prolongada. Um galanteador irreverente, cético e meio cínico. Brincalhão e autoirônico. Quase sempre calçava tênis, trajes descontraídos, com um discreto charme nos onipresentes suspensórios. Em palestras, era envolvente e fazia rir com facilidade.

Alimentava muitas histórias, às vezes sugestivamente fantasiosas, sobre si mesmo. Entre a memória e a invenção, seus textos -seja na crônica seja no romance-e suas entrevistas transpiram essa figura. Em 2016, em entrevista à Folha de S.Paulo, disse que havia retomado o projeto do livro "Messa pro Papa Marcello", espécie de continuação de "Informação ao Crucificado" (1961).

Nas instituições por que passou, Cony sabia aliar o estilo informal, às vezes galhofeiro, ao rigor cerimonial das reuniões e ao cumprimento dos prazos imperativos da produção editorial. Assim nos tempos da "Manchete" e mais tarde na Folha de S.Paulo; assim nos compromissos da Academia.

Embora agnóstico, mantinha em casa uma pequena imagem de Santo Antônio. Nos últimos anos, especialmente a partir de um problema grave de saúde sofrido em 1991 que o levou à UTI de um hospital e a sofrer uma anestesia de nove horas de duração, tornou pública uma revisão interna a respeito do tema (religiosidade). Em depoimentos, manifestou apego a santos (José e Maria, além de Antônio) e uma aproximação com a idéia da existência de Deus.

Tal movimento deveria se expressar, ou melhor, deveria burilar sua própria definição na escritura do romance "Messa pro Papa Marcello", um projeto de décadas, sintomaticamente inacabado. Nele, o ex-seminarista em crise João Falcão, de "Informação ao Crucificado", ressurgiria muitos anos depois, buscando resolver seu "drama" religioso, o mistério íntimo que Cony -homem que sempre escreveu com rapidez e facilidade- aparentemente nunca logrou solucionar.

Em 2001, surgiu outro problema de saúde, que o acompanhou até a morte: o escritor foi diagnosticado com um câncer linfático. Com a quimioterapia, perdeu força nos braços e nas pernas. Em 2013, levou um tombo na Feira de Frankfurt. O impacto gerou um coágulo em seu cérebro.

* Bernardo Ajzenberg, jornalista e escritor, ex-ombudsman da Folha de S.Paulo, é autor de "Gostar de Ostras" (Rocco), entre outros..

Dia de Reis

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O Dia de Reis, segundo a tradição cristã, seria aquele em que Jesus Cristo recém-nascido recebera a visita de "alguns magos do oriente" (Mateus 2:1) que, segundo o hagiológio, foram três Reis Magos, e que ocorrera no dia 6 de janeiro. A noite do dia 5 de janeiro e madrugada do dia 6 é conhecida como "Noite de Reis".

Histórico

A data marca, para os católicos, o dia para a veneração aos Reis Magos, que a tradição surgida no século VIII converteu nos santos Melchior, Gaspar e Baltazar. Nesta data, ainda, encerram-se para os católicos os festejos natalícios - sendo o dia em que são desarmados os presépios e por conseguinte são retirados todos os enfeites natalícios.

Tradições

Em Portugal e na Galiza, o bolo-rei ou bolo de Reis possui grande tradição e é confeccionado com um brinde e uma fava. A pessoa que encontra a fava deve trazer o bolo de Reis no ano seguinte. Por todo o país, as pessoas costumam «cantar as janeiras», «cantar os Reis» ou as «reisadas», de porta em porta. São convidadas a entrar para o interior das casas, sendo-lhes oferecidas pequenas refeições como doces, salgados, charcutarias, vinhos, etc. Neste dia eram também muito comuns os autos dos Reis Magos, peças de teatro popular.
No Brasil, geminado culturalmente com Portugal, esta tradição tem muito do que se faz no velho país. A festa é comemorada com doces e comidas típicas das regiões. Há ainda festivais com as Companhias de Reis (grupo de músicos e dançarinos) que cantam músicas referentes ao evento, as conhecidas festas da Folia de Reis.
Galette des Rois
Em alguns países, como Espanha, é estimulada entre as crianças a tradição de se deixar sapatos na janela com capim antes de dormir para que os camelos dos Reis Magos possam se alimentar e retomar viagem. Em troca, os Reis magos deixariam doces que as crianças encontram no lugar do capim após acordar. A tradição também consiste em comer o Bolo de Reis.
Na França e em Quebec (no Canadá), come-se o Galette des Rois (Bolo de Reis), que contém um brinde no seu interior. O bolo vem acompanhado de uma coroa de papel e quem encontrar o brinde na sua fatia, será coroado e terá de oferecer o bolo no ano seguinte.