sexta-feira, 19 de agosto de 2022

 As doenças de Salvador Dalí 

Daladier Pessoa Cunha Lima, Reitor do UNI-RN 

Na década de 1940, Dalí foi considerado pela crítica o melhor pintor acadêmico vivo. O próprio artista expressou que o seu intuito era recuperar a técnica de alguns dos velhos mestres da pintura, entre os quais estava Rafael, um dos seus ídolos. Em 1944/45, Dalí pintou a tela Galarina que se encontra no Teatro-Museu de Figueras, um retrato especial da sua mulher Gala, em honra à tela La Fornarina, de 1518, obra do pintor renascentista Rafael. Em Galarina, Dalí mostra seu modelo com o seio esquerdo desnudo, mas o jogo de cores e o contraste de claro/escuro retiram o tom erótico da figura e lhe conferem uma visão maternal. Os experts da obra daliniana afirmam que a formosa mulher Gala é responsável por cerca de um terço da produção do famoso pintor catalão. Por abordar o inconsciente, o livro “A interpretação dos sonhos”, de Sigmund Freud, exerceu forte influência na vida e na obra de Salvador Dalí. O escritor Stefan Zweig, grande amigo de Freud, em seu livro “Autobiografia: mundo de ontem”, registra: “Uma vez, em uma das minhas últimas visitas a ele, levei Salvador Dalí comigo, na minha opinião o pintor mais talentoso da nova geração, que venerava Freud incomensuravelmente”. Rebelde e polêmico, em 1926, Dalí foi expulso da Academia de Belas Artes de Madri, ao se recusar a prestar os exames acadêmicos normais, e alegou que seus professores não estavam capacitados para esse mister. Neste mesmo ano, participou de uma exposição em Barcelona, quando seus quadros muito impressionaram a crítica e outros artistas. Contando com o apoio de Miró, conviveu em Paris com seleto grupo artístico, formado por escritores, pintores e escultores famosos. Por volta de 1930, o pai de Dalí retirou-o do seu testamento, por discordar da união do filho com Gala, ex-esposa do poeta Paul Eluard, além de que, nesta década, recebeu fortes críticas dos surrealistas por suas ideias franquistas. Dalí também se dedicou a outras artes, em especial ao cinema. Com Walt Disney, trabalhou no filme “Destino”. Uniu-se ao seu amigo Buñuel na produção de “Um cão andaluz”, e colaborou com Alfred Hitchcock no filme “Quando fala o coração”. No começo da Segunda Guerra Mundial, Dalí foi morar nos Estados Unidos, tendo ao lado a mulher da sua vida Elena Ivanovn Diakonova, a sua querida Gala, nascida na Rússia em 1894, ou seja, uma década antes do seu segundo marido. Durante os oito anos que viveu nos Estados Unidos, converteu-se ao catolicismo e publicou sua autobiografia, A Vida Secreta de Salvador Dalí, além de continuar sua constante produção de telas surpreendentes. Regressou à Europa e, gradativamente, foi se afirmando como o maior autor surrealista do mundo. Gostava de chamar a atenção, a começar pelo pontiagudo bigode, fixado com açúcar de tâmaras. À pergunta por que pintava relógios moles, respondeu: “O importante não é que sejam moles ou duros, e sim que marquem a hora certa”. Neurose e paranoia são diagnósticos constantes em seu excêntrico perfil. Nos últimos anos de vida, após a morte de Gala, em 1982, amargou profunda depressão, além de passar por um incêndio em seu quarto de dormir, no castelo Gala- Dalí, em Púbol, quando sofreu graves queimaduras. Salvador Dalí faleceu em 1989, aos 84 anos, tendo como causa da morte uma insuficiência cardíaca. 

terça-feira, 16 de agosto de 2022

        O TEMPO E O SENSO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Nos dias de hoje, o ânimo de viver nos torna inconstante e nos empurra para buscas ávidas de expressão, imaginação e criatividade. O próprio Luís da Câmara Cascudo, no passado, apesar de um ser simples, foi uma figura numerosa, pois escreveu sobre tudo e sobre todos. Conheço muitos escritores conterrâneos que detêm idêntica curiosidade inesgotável e volubilidade inventiva contagiadas pelas idéias, gostos e poder aliciante do charme da escrita cascudiana. E nesse particular, todos foram largamente influenciados pelo desejo insofreável de ressurreição do tempo morto, pela inestimável compreensão da alma coletiva das gerações passadas que se encontram como que cristalizadas em todos nós.

São as nossas afinidades eletivas fincadas na íntima, nostálgica página evocativa que romantiza a realidade ou, às vezes, a fantasia. Daí, não me encantar tanto com os procedimentos rotulados de culturais pela mídia eletrônica e certos gestores públicos. Não é a compulsão de recapturar o antigo só por ser antigo. O que desejamos, penso, é respirar o oxigênio cultural que foi dotado de um poder de radiação imanente, que se manteve vivo, apesar do efeito paulatino, paradoxal e destrutivo de uma “cultura de aparências”, fóssil e fútil, atualmente em alto astral! O crítico Paulo Prado chegou a afirmar no seu livro “Retrato do Brasil” que a proliferação desse contraditório “representava a astenia da raça, o vício de nossas origens mestiças”. Nada mais verdadeiro e impiedoso.

A cultura se transformou num circo mambembe de vaidades ressentidas, perdida nas suas cismas e inseguranças, desde o tempo em que o Ministério da Cultura tornou-se serpentário de figuras exóticas e estereotipadas. No Rio Grande do Norte, por exemplo, já passa do tempo da governadora reunir os órgãos de cultura do Estado: Academia Norte-Riograndense de Letras, Conselho de Cultura, Instituto Histórico e mais ensaístas, poetas, historiadores, sociólogos e críticos literários para ouvir sugestões dessa atividade tão pluralista e significativa da sociedade, porém, totalmente esquecida e somente lembrada para eventos passageiros. Tempos passados, um governante tentou contrair um vultuoso empréstimo internacional, para investimentos diversos, as poucas entidades culturais não foram ouvidas para discutir e identificar os seus problemas estruturais.

É com profunda lástima que vemos as edificações, casarões e monumentos que representam o vasto painel da dramática criação de uma sociedade civil de cem e de duzentos anos passados se encontrarem em estado de deterioração. Lembremo-nos que o “passado não passa”. A beleza plástica dos casarões, o teor emotivo e sentimental que retrata a abordagem lírica de épocas imemoriais, em qualquer país civilizado, nunca foram substituídos por folguedos e fanfarras. A preservação do patrimônio histórico e artístico do Rio Grande do Norte precisa de maior atenção e acuidade perceptiva. Como na Trindade Santa, o passado, o presente e o futuro se entrelaçam na mesma realidade existencial.

Veja o bairro da Ribeira em Natal, tão desidratado pelos gestores públicos: casarões envergados pelo tempo, pela solidão e a tristeza do abandono. Quanta história não hospedam em cada fachada? À tardinha, uma passagem pelas ruas Duque de Caxias, Chile, Tavares de Lyra, Dr. Barata, Frei Miguelinho, praça Augusto Severo (você chora!),  imaginando ali o milagre da ressurreição do ambiente!!!

No passado, os políticos falaram tanto em projetos salvadores, em restauração, resgate, etc. Mas, faltou, o senso das proporções, não houve unidade de ação nem boa vontade. É preciso dizer a todos, que a Ribeira, o Cais do Porto, o rio Potengi, também pertencem a  Natal, ó gente avara e proterva!

 

(*) Escritor

 

“Comer como um padre”

Padre João Medeiros Filho

É bastante conhecido o ditado popular: “comer como um padre.” Há uma pequena variação, dependendo da influência dos conventos e mosteiros em algumas regiões. Assim, emprega-se a versão: “comer como um frade” (ou abade). Entretanto, em ambos os casos, a máxima recai sobre um personagem masculino. Não se diz: comer como uma freira. Todavia, no passado as religiosas eram afeitas à criação e ao deguste de iguarias, algumas das quais levam nomes conventuais como, por exemplo: barriga de freira, pastel de Santa Clara, toucinho do céu, papo de anjo etc. (típicos doces portugueses). Seria bom remontar às origens do adágio. Em artigo na revista “Veja”, Deonísio Silva aborda o assunto. Discorre sobre os hábitos alimentares dos claustros, voltando-se para os aspectos históricos da gastronomia luso-brasileira. O ditado pode dar a impressão de que os eclesiásticos eram ou são glutões contumazes no pecado da gula. Pretende-se aqui apontar motivos condizentes com o provérbio, repetido até hoje. A motivação resulta das antigas normas litúrgicas da Igreja. O jejum eucarístico era obrigatório desde a zero hora, pois as missas eram matinais. O dito provém das consequências na observância de tais prescrições eclesiásticas.

As paróquias de antigamente dispunham apenas de um sacerdote para as celebrações eucarísticas. Nas cidades interioranas, as feiras-livres aconteciam preferencialmente aos sábados ou domingos. Para facilitar a participação dos fiéis, as missas eram rezadas às nove ou dez horas, precedidas de confissões e seguidas de batizados e casamentos. Os celebrantes ficavam em jejum, a partir da meia noite, não podendo sequer tomar água. As cerimônias terminavam entre doze e treze horas. Os padres quedavam-se famintos. Com um apetite voraz alimentavam-se sobejamente. E, não raro, após o almoço, deveriam atender os enfermos nas comunidades distantes, viajando a cavalo. Inexistiam estradas asfaltadas e automóveis com ar condicionado. Não podiam prever a que horas retornariam à casa e se alimentariam novamente. Assim sendo, comiam fartamente. Dessas circunstâncias, resultou a expressão: “comer como um padre.” Situações idênticas aconteciam nas desobrigas pascais e visitas às capelas rurais. Os paroquianos estimavam seus vigários e os convidavam para almoçar. Uma forma de acolhida manifestava-se na lauta mesa. Para agradar os anfitriões, os convidados comiam de tudo. Um prato tradicional era a galinha caipira torrada, decorrendo daí outro ditado: “Barriga de padre é cemitério de galinhas.” Eis alguns fatos que explicam o axioma.

Em 1953, por causa das missas vespertinas, Pio XII mitigou o jejum, passando a três horas para os alimentos sólidos (posteriormente, reduzido a sessenta minutos por Paulo VI) e apenas uma hora para os líquidos. Apesar de tal amenização, o início de minha vida sacerdotal, em Caicó (RN), foi marcante. Na noite de Natal de 1965, celebrei a primeira missa à meia noite, no distrito da Palma. A segunda, em Laginhas, por volta de três da manhã. A terceira ocorreu num bairro caicoense, ao alvorecer. Eram comunidades em direções opostas. Voltei à igreja matriz para a eucaristia das sete horas. Seguiram-se confissões, casamentos e batizados. Havia me alimentado no jantar do dia anterior. O cansaço, sono e fome eram ingentes. Foram mais de quinze horas de jejum e aproximadamente cem quilômetros percorridos nos trajetos. Está na Bíblia: “Tudo o que fizerdes, fazei-o de coração para o Senhor e não para os homens” (Col 3, 23).

Outrora, o jejum eucarístico era rígido. Quando um presbítero devia celebrar duas ou três missas seguidas, não podia sequer ingerir a água da purificação do cálice. Era guardada num reservatório para ser consumida, após a última Eucaristia. No Seridó, conta-se que Monsenhor Expedito Sobral chegou a desmaiar entre uma celebração e outra. O bispo necessitou solicitar à Santa Sé autorização para ele tomar um copo d’água entre as missas. Encontrei nos Livros de Tombo paroquiais depoimentos impressionantes. Um sacerdote diabético tinha hipoglicemia, durante as celebrações, causada pelo jejum prolongado. Outro presbítero hipertenso usava diuréticos e transpirava muito por conta dos paramentos e do calor. Por vezes, desidratava, interrompendo a missa. Apesar disso, nenhum sacerdote era infeliz. Vivia-se com forte convicção o ensinamento do apóstolo Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Cor 10, 31).


 “Tempos marcantes” 

Padre João Medeiros Filho 

Eis o título do alentado livro com o qual Dr. Manoel de Medeiros Brito brindou a sociedade potiguar, na terça-feira passada (02/8/22). É pena que os jornais de hoje deixaram de publicar cadernos literários e resenhas de obras editadas. No primoroso trabalho, nosso preclaro amigo transita da autobiografia, perpassando pela crônica e análise política, assim como pelo registro histórico dos principais fatos e acontecimentos das últimas nove décadas, especialmente no RN. Um memorial da sociedade norte-rio-grandense do século XX, adentrando o XXI. Os estudiosos e pesquisadores deverão fazer uma acurada análise do texto. Ali, não faltam evocações sobre a sua querida terra, Jardim do Seridó, inclusive considerações de cunho social. O autor dessa obra valiosa é do tempo em que os estudantes de Direito obtinham o título de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. O livro é de leitura amena, prazerosa e enriquecedora. São seiscentas páginas escritas num estilo elegante e sem afetação, português castiço, isento de gírias, embora esteja presente o regionalismo ou “sertanejidade”, na expressão de nosso saudoso Oswaldo Lamartine. O seu lançamento ocorreu nas dependências da Escola Doméstica de Natal, integrante da Liga de Ensino do RN, sendo presidida brilhantemente pelo autor. Foi um marco. Há tempos não se via por aqui tanta gente em busca de um livro. Durante mais de cinco horas, autografou aproximadamente quatrocentos exemplares da obra para amigos e ávidos leitores. Todavia, não é pequeno o número daqueles que não puderam comparecer ou esperar. Um jovem dissera: “A fila parecia com a do vestibular.” O comparecimento de tantos ao evento é uma prova da admiração e consagração por parte de muitas pessoas que sabem do seu valor. Foi a expressão do reconhecimento da sociedade a alguém que conquistou inúmeros admiradores, ao longo de sua trajetória, como procurador de instituições, parlamentar, conselheiro do Tribunal de Contas, educador, secretário de estado e dirigente de instituições de ensino e filantrópicas. Conheço Dr. Manoel de Brito, desde minha tenra infância. Ele e papai, tinham vários amigos em comum: Stoessel de Brito, Dinarte Mariz, Dr. Morton de Faria, Monsenhor Walfredo Gurgel, Dom José Delgado etc. Durante muito tempo, Dr. Brito foi procurador da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância de Jucurutu, presidida pelo meu genitor, por quase vinte anos. Dr. Manoel possui uma invejável capacidade de trabalho e ingente responsabilidade. Afável, cortês, leal, prestativo e caridoso. É de uma fidalguia ímpar, enfatizando sua nobreza d’alma, virtude rara nos dias atuais. Transcende o compadrio, um dos traços inconfundíveis e relevantes da cultura seridoense. É de singular solidariedade com os amigos, aos quais sempre diz: “Mande as ordens” ou então: “se eu posso, você poderá.” Revela deste modo sua capacidade de servir. Herdou de seus pais, lembrando sua inolvidável mãe, o carisma da hospitalidade. Imbuiu-se, desde os tempos de seminário, das palavras da Sagrada Escritura: “Há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20, 35). Confesso que o seu livro me emocionou em vários momentos de sua leitura. Além do registro da vida potiguar a partir da década de 1930, revela a sua simplicidade, retidão de caráter, humildade e fé. Devoto fervoroso de Nossa Senhora da Conceição (orago de sua paróquia de origem), Brito é um homem de bem e do Bem. Admirável é o seu amor e dedicação à família, uma das características fortes do Seridó. Fala com carinho e orgulho de seus filhos, muito bem-criados e educados. Deus reservou-me a missão de realizar as exéquias de dona Yeda, sua primeira esposa. Concedeu-me ainda o privilégio de presidir o matrimônio religioso de alguns de seus descendentes. Posteriormente, coube-me abençoar seu casamento com dona Elizabete. Grande foi a minha alegria, em celebrar a missa de ação de graças pelos seus noventa anos de exitosa existência. A magnanimidade de seu caráter e a grandeza de seu coração acolheram-me como um membro de sua família, sempre tratado com muita ternura e afeição. Como cristão e sacerdote, lembro as palavras bíblicas do Livro do Sirácida ou Eclesiástico: “Façamos o elogio dos homens ilustres” (Sr 44, 1).

 



PLUMAS, PAETÊS E LANTEJOULAS

Tomislav R. Femenick - Jornalista

 

O local e a data não importam. Pode ser em qualquer cidade do Brasil. Pode ser um austero teatro, em uma grande capital; ou uma simples praça, em uma cidade do interior. Em qualquer lugar, o clima será sempre o mesmo: descontração. No palco estarão os baianos. Não uns baianos quaisquer, porém um ou mais componentes do quarteto Caetano, Bethânia, Gil e Gal. Às vezes, a pressa; outras vezes, a lentidão que lhes é característica. Mas sempre um deslumbre sem fim. E empolgação, gritos mil (umas vezes dos artistas, outras da plateia), silêncios profundos e “compreendedores” e até um sério risco de ataques de plumas, paetês e lantejoulas.

Apresentou-se recentemente, no espaço Vibra São Paulo, a estrela do quarteto: Maria Bethânia, a irmã de Caetano, o Veloso. A plateia é sempre variada. Senhoras de casacos e vestidos de grifes, mocinhas de calça Lee; senhores de raros e claros cabelos, rapazes de vastas cabeleiras. Antes do início do show, o clima é misto de expectativa e de glória antecipada. Uns falam baixo, quase aos cochichos. Outros dão gritinhos e pulos, ao se verem uns aos outros. O espaço está sempre cheio. Há até aqueles que têm que se acomodar nos degraus das passadeiras. E se abre o pano.

O espetáculo é algo de tradicional, se considerado o estilo de Bethânia. Uma variação de músicas, de ritmos, de temas e de várias coisas. Tudo para agradar a todos. O importante é a interligação das várias músicas, ritmos e temas. São mais de sessenta músicas entrelaçadas, formando uma atração ímpar, na qual têm lugar de destaque o langor e o agito – aliás, às vezes destaque até demais, a ponto de prejudicar o realce da voz da cantora. Maria Bethânia passeia no palco, faz um jogo de corpo no limite das suas limitações. Aproveita o máximo do confronto de luzes; em algumas oportunidades não o máximo de sua voz. Mas tudo isso é marca registrada. Tudo isso já se sabe. A única coisa que não se pode prever é o que vai acontecer na ribalta, antes e depois da movimentação das cortinas.

Na chegada da estrela, sempre há um grupo que a espera. Querem conversar, tocar, ver (pelo menos de longe) a mais badalada das baianas. Ela chega às pressas, perto da hora do show começar, e não pode dar muita atenção às suas amigas (ou amigos). Entra no camarim e lá se tranca.

Na saída a coisa é diferente. Terminado o show no palco, continua o espetáculo no camarim. Rapazinhos (uns moços, outros nem tanto) afirmam que a artista estava “linda, divina, maravilhosa”. Mocinhas disputam, não um autografo, mas um autêntico beijo na boca da estrela. Há ocasiões em que tudo corre bem, outras em que se registram cenas de ciúmes explícitos entre a plêiade de fãs – uns ilustres, outros não. E a noite continua. Do camarim para os corredores e dos corredores para o camarim, existe uma azáfama maior do que antes do espetáculo. Rapazes alegres encontram-se com alegres moças. Num canto de escada, uma mocinha, quase menina, está de rosto contraído. Um moço, de óculos escuros (o show é à noite) e enorme bolsa a tiracolo, fuma um cigarro, desprezando todos os demais circundantes.

Ninguém tem pressa de abandonar o recinto. Somente o porteiro manco pensa em ir para casa. O frio da noite deixa os seus calos doendo.

– Bom é quando ela sai correndo, logo no fim do espetáculo, mesmo sem tirar a maquilagem, para se encontrar com uma moça que a vem apanhar aqui na porta de trás do Teatro, de vez em quando. Aí eu posso ir embora cedo, sem ter que suportar essa gente toda – diz ele.

 

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Walter Medeiros 
Walter escreveu: "NO TEMPO DA MARICOTA - CX (Crônicas de Walter Medeiros) ÍCONE DA REPORTAGEM POLICIAL Os anos sessenta e setenta do Século XX foram marcantes para a imprensa potiguar, por terem formado o período em que o jornalismo viveu momentos determinantes para a formação dos profissionais. Aqueles dias foram marcados como última era do jornalismo tradicional, pela organização definitiva da legislação profissional, que tratava de direitos, formação e obrigações, bem como a consolidação das entidades representativas. Neles ocorreu a transição entre a impressão antiga, baseada na tipografia e Linotypo, para o processo baseado em off-set e impressoras rotativas. Foi nesse cenário que viveram, trabalharam e se projetaram muitos jornalistas, entre eles um companheiro que partiu para outra vida recentemente, considerado por muitos como o maior ícone da reportagem policial do Rio Grande do Norte, o repórter Nathanael Virgínio. Ele atravessou décadas levando as notícias policiais para as páginas da Tribuna do Norte, e para os noticiários da Rádio Cabugi, desde o tempo em que a emissora funcionava na Praça Pedro II. Através do seu trabalho, tomamos conhecimento de muitos fatos que entraram para a história da nossa imprensa. Naqueles anos, a vida do natalense, como dos demais brasileiros, era muito diferente. As notícias chegavam através do jornal e do rádio, pois televisão ainda era muito limitada, praticamente sem produção local. As notícias policiais limitavam-se ao horário da Patrulha da Cidade, que a Rádio Cabugi apresentava entre 11:00 horas e Meio-Dia. E nos jornais, Diário de Natal e Tribuna do Norte, ocupavam, sempre, no máximo, uma página. Em alguns períodos, a última página do primeiro caderno. Os fatos policiais tornavam-se objeto de conversas nas ruas, na calçada do Café São Luiz, nos botecos e nas ruas da Ribeira. Atravessavam anos, acompanhando-se a evolução de prisões, processos e julgamentos. Conhecia-se os envolvidos naqueles fatos, como o lendário ladrão Baracho, o famoso Brinquedo do Cão, Pé Seco, Azougue, entre tantos, num tempo em que a prisão era mesmo a Casa de Detenção, onde hoje funciona o belo Centro de Turismo, com aquela vista privilegiada para o mar e o Forte dos Reis Magos. Foi um tempo em que as manchetes dos jornais eram apregoadas nas ruas pelos gazeteiros, que gritavam os títulos mais chamativos, e vendiam os jornais pelas ruas e avenidas. Quando os fatos policiais eram destaque naquelas manchetes, por trás daqueles textos estava o trabalho dedicado, vibrante e competente de Nathanael Virgínio, na Tribuna do Norte, e Pepe dos Santos, no Diário de Natal, este, outra figura cujo trabalho sempre merecia destaque, numa disputa incansável pela notícia. Pepe também já partiu para outra vida. Convivi com Nathanael Virgínio no meu tempo de Rádio Cabugi e Tribuna do Norte. Conversávamos muito sobre as notícias da época. Quando nos encontrávamos pela cidade afora, com tempo para discutir os destinos do mundo, sentia o seu entusiasmo com os fatos internacionais, achando fascinante a vida, e até os nomes daqueles que faziam a história, como Yasser Arafat, Moamar Kadafi, Idi Amin Dada. Ao mesmo tempo em que apreciava a literatura e as artes, entre elas o trabalho do seu irmão Falves Silva. Aquele repórter magro, sempre com lápis e papel à mão, expressava a sua responsabilidade para com os leitores, na insistência que sempre tinha em busca dos detalhes de cada fato que registrava. Tudo transformado em textos significativos, que parece estarem em extinção, em vista das mudanças drásticas nos sistemas de comunicação, que dá lugar a superficialidades, num novo mundo, no mínimo, muito estranho. Bom seria que os arquivos daqueles jornais, com os trabalhos aqui citados, servissem de fonte para as pesquisa das novas gerações. --- Foto: Jornal/Internet"

 

O menino das bolas de pano: Saquinho (Berilo de Castro)

             

Rivaldo de Oliveira Paula (Saquinho) é conhecido, no meio futebolístico da cidade, como um dos maiores ídolos (artilheiro) do time do América FC de todos os tempos.

Nasceu na cidade paraibana de Rio Tinto em 1932. Recebeu esse apelido porque usava, às escondidas, as meias do pai como “saquinho”, enchendo-as de pano para jogar futebol e fazer embaixadas pelas ruas das Rocas. Filho de família modesta, seu pai, Joaquim de Oliveira Paula, era estivador, e Amélia Enedina de Oliveira Paula, do lar. Da união nasceram sete filhos: Rivaldo de Oliveira Paula (Saquinho), Edivaldo de Oliveira Paula (Vavá), Etevaldo de Oliveira Paula (Boca Larga), Euvaldo de Oliveira Paula (Vadinho), José Gobat de Oliveira Paula (Zé Gobat), Evaldo de Oliveira Paula (Pancinha) e Everaldo de Oliveira Paula (Everaldo), todos atuantes no futebol do bairro; com menção honrosa para o irmão caçula, Evaldo (Pancinha), que herdou o DNA do irmão mais velho.                                                                  

A família mudou-se para Natal, onde fixou residência  no bairro das Rocas.

Em 1948, começou a jogar pelo time do Racing, equipe briosa do bairro, atuando na posição de centro-avante; time detentor de vários títulos em competições realizadas no Estádio João Câmara e grande formadora de craques para o futebol potiguar.

Em 1951, foi convidado para jogar no time do Santa Cruz FC, que disputava o campeonato oficial de futebol da cidade, no Estádio Juvenal Lamartine; foi o princípio para a sua ascensão.                                           

Não demorou muito, quando recebeu convite para atuar no América FC, equipe forte e poderosa, que disputava com o ABC FC a hegemonia do futebol do Estado.

Logo, sua fama de artilheiro se impôs, passando a figurar como um dos maiores artilheiros da história do América em todos os tempos. Sua qualidade inquestionável era  marcada pelos seus deslocamentos em velocidade, bom domínio de bola, com dribles rápidos e desconcertantes, grande proteção com a bola nos pés e giro rápido para chutar em gol. A equipe marcou época na década de 1950. Fazia gosto assistir o América jogar – “jogava por música”, regido por sons afinadíssimos de um exultante violino. Teve uma formação que ainda hoje é lembrada e enaltecida: Gerin, Artêmio e Barbosa (Cuica); Euclimar, Renato e Dico; Gilvan, Pedro Dieb (Juarez), Saquinho, Wallace e Gilvandro, (PV, Cezimar Borges), comandada pelo treinador gaúcho Álvaro Barbosa. Um timaço! Foi bicampeão em 1956 e 57 (invicto), e teve Saquinho como o seu grande artilheiro, com quatorze e dezoito gols, respectivamente.

Aos 18 anos, defendendo a Seleção de Futebol do Rio Grande do Norte, foi visto pelo então árbitro Eunápio Queiroz, que o apontou para o time carioca das laranjeiras — o Fluminense. De imediato foi chamado, onde atuou por quatorze meses, na forte e famosa equipe tricolor carioca, jogando ao lado de Telê Santana, Pinhero, Castilho, Edmilson Piromba, Aldair, e o grande meia da famosa “folha seca”, o craque Didi. Depois teve uma rápida passagem pelo Vila Nova, de Minas Gerais.

Em 1959, participou da bela e eficiente seleção do Rio Grande Norte, comandada pelo competente treinador Pedrinho 40, quando foi campeão do Nordeste, chegando a disputar, com a forte seleção Carioca, duas partidas no Estádio Juvenal Lamartine.

Em 1960, quando o América afastou-se das competições oficiais da cidade, Saquinho foi defender as cores do time Timbú, o Náutico, sagrando-se campeão pernambucano. Foi um dos primeiros jogadores de cor escura (morena) a jogar pelo time “branco” do Recife. Teve também uma passagem pelo Treze FC de Campina Grande, em 1961, onde também foi campeão, sempre identificado como um legítimo artilheiro.

Em 1962, fez parte novamente da seleção do Rio Grande do Norte, que disputou o campeonato brasileiro de seleções estaduais. A equipe foi comandada pelo treinador Eugênio Barros; fui seu aliado na equipe, ocupando a posição de quarto-zagueiro.

Foi casado com Maria Lizete de Oliveira Paulo, com quem teve seis filhos.

Em 1964, aos 32 anos, Saquinho vestiu a camisa do ABC FC e disputou o título do campeonato da cidade, quando perdeu para o bom time do Alecrim FC, que se tornara bicampeã da cidade. Fui seu adversário naquela ocasião, atuando pela equipe esmeraldina. Um episódio lamentável aconteceu nesse jogo, quando Saquinho foi expulso de campo por agressão física ao nosso meio Paulo. Ocorrência jamais acontecida com o craque artilheiro que, durante todos os anos que jogou, sempre se comportou como um exemplo maior de jogador: disciplinado e de um respeito inigualável e fiel aos seus adversários, seja no campo ou fora dele. Acredito que  o acontecimento surpreendente tenha antecipado a sua despedida definitiva do futebol potiguar.

Faleceu no ano de 2001, aos 69 anos, em sua residência no  bairro das Rocas, vítima de complicações de doença hepática, com falência múltipla de órgãos. Foi assistido e acompanhado com a atenção e muito carinho pelos seus familiares, amigos e admiradores. O corpo foi sepultado no Cemitério do Alecrim.