terça-feira, 28 de abril de 2026

 O GRAVE INSTITUTO DAS INCUMBÊNCIAS ESPECÍFICAS


Valério Mesquita(*)

Mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Meu pensamento nunca foi punhal. Jamais produziu uma ferida. Fácil do que penso - ingenuidades encantadoras. A arte não é só fruto do amor nem do ódio. Contudo, jamais me encandeei por um lírio virginal. Não me julguem dono da paisagem e do tempo. Cumpro com o que escrevo em solene ato de contrição. Ou melhor, escrevo em missão de condolências. Só incovo a ironia quando corro o risco de emocionar-me. Porisso, tenho com a eternidade um pacto secreto. E não há melhor maneira de contemplá-la, que da janelinha aberta sobre a imensidão dos campos. Ela brota altiva do fundo do horizonte.

No senso trágico da brevidade humana gravo os sinais de minha mensagem. Lembro-lhes: o melhor homem é o homem morto. A força telúrica da convivência tem firmado tal jurisprudência. Existem, hoje, homens acima do bem e do mal: o feito de cifrões e listras de câmbio e o felino de trescalante feminilidade. Suportá-los é um ponto de interseção entre duas eternidades. Neste ponto um coro no âmbito de minhas incumbências específicas. Sou e todos os sabem, um misto de filósofo e pistoleiro.

Compreendo que as ideias não são metais que se fundem. Para trocar idéias, no entanto, é necessário, initio-litis, ter ideias. Acredito, que tal incumbência não tem caído no âmbito do entendimento humano. Concretizo, tenho certeza, o ideal beatífico de resolver dentro da noite, os desencontros do mundo. Pois, escuto no mais alto da montanha, na confidência das nuvens, a palavra que envolve a unidade do gênero humano.

A miúdos, sou um errante fabricante de tendas. Uma personificação grandiloquente do cristão trucidado. Em todo caso, tenho levado uma existência agradável a despeito do quinhão usual de tristezas.

Gozo a satisfação própria de uma atividade livre. De minhas ideias, aceitem-nas ou não. Na verdade, pouco se me dá. Advirto-os, que continuo a ouvir os golpes trocados entre o passado e o futuro. No mais, desejo ser calmo e desconhecido. Desconhecido como o indigente do hospital. O resto é laxante. É infecção sentimental.


(*) Escritor



(**) Do Livro “O Tempo e Sua Dimensão” – 2ª. Edição – 2024 – Editora Terra de Auta.



 Brasil, um país católico? 

Padre João Medeiros Filho 

“Le Figaro Magazine”, na edição de outubro de 2025 (da qual um exemplar me foi presenteado pelos amigos Rejane e Vicente), lançou a seguinte pergunta: “A França ainda é um país cristão?” Numa longa entrevista, dois pesquisadores analisam a situação atual do cristianismo na França. Ali consta uma assertiva importante: “Identifica-se um país cristão não apenas pela fé do povo que busca viver o Evangelho, mas também pela identidade cultural de suas instituições e estruturas.” A partir deste ponto, é importante avaliar o Brasil, enquanto “grande país católico”. Na citada matéria, Jerôme Fourquet afirmou: “A filha primogênita da Igreja é hoje a nação mais descristianizada do mundo.” E acrescenta o outro entrevistado, Éric Zemmour: “Sem o cristianismo a França não é mais a França. Gostaria de permanecer cristão. E como sê-lo numa civilização tomada por outras religiões, dentre elas, o islamismo?” Este já se faz presente no Brasil. Hoje, na França 50% das crianças nasceram de não-cristãos e não-europeus. Segundo a opinião do pensador francês, há que considerar dois indicadores: a fé (algo íntimo, pessoal com manifestações públicas) e a identidade cultural. Conforme dados censitários das últimas décadas, o catolicismo brasileiro vem perdendo tal característica, que marcou escolas, asilos, creches, hospitais etc. Muitos deles estão sendo fechados em nome do estado laico, dos programas sociais e políticas públicas de governos, mostrando-se inoperantes e ineficazes. Aqui no RN, nestas últimas duas décadas, cinco instituições católicas de ensino superior foram fechadas ou vendidas. Perdeu a Igreja um espaço privilegiado de debates e reflexão à luz do Evangelho. Dezenas de escolas de educação básica, pertencentes a paróquias e congregações religiosas, que floresceram durante décadas, sendo consideradas referências educacionais, cerraram suas portas. Foram estatizadas ou alienadas. Hoje, são públicas ou pertencem a conglomerados educacionais, de cunho mercantilista. Até pouco tempo, renomadas casas de saúde do RN eram orientadas pela Igreja, por meio de congregações religiosas. “A fé que não se traduz em ações, por si está morta” (Tg 2, 17). Como esquecer inúmeras entidades de saúde ligadas à Igreja? O pioneirismo do Hospital Padre João Maria, junto com a Maternidade Ananília Regina (Currais Novos) ainda é lembrado por muitos. Foi uma obra erguida pela vivência da caridade de Monsenhor Paulo Herôncio e Dr. Mariano Coelho. É inegável a importância do HospitalMaternidade Belarmina Monte (São Gonçalo do Amarante), fruto do zelo apostólico de Dom Nivaldo Monte e paroquianos daquele município. Várias maternidades, edificadas por Dom Eliseu Simões Mendes, nos vales do Assú e Apodi, com recursos das paróquias e da Missão Rural, foram a expressão da caridade social da Igreja, no século passado. Dom Eugênio de Araújo Sales fundou, na Arquidiocese de Natal, vários Centros Sociais, de múltiplas atividades: assistenciais, educacionais, profissionais etc. animados e mantidos sobretudo pela generosidade dos fiéis. Não se pode omitir o edificante trabalho socioeducacional do Comendador Ulysses de Góes, por intermédio da Congregação Mariana de Natal. O Movimento de Educação de Base, criado e gerido inicialmente sob a égide das dioceses potiguares, foi uma das obras relevantes da Igreja. É sua mão estendida, oferecendo a muitos o pão do saber. “O que fizestes a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes.” (Mt 25, 40). Tais iniciativas revelam a face da Igreja “Mãe e Mestra”. Infelizmente, as comunidades católicas deixaram-se levar pela onda de laicização e pelo modismo da ideologia, desfigurando seu rosto caridoso e humanista, sublime herança do Evangelho. Em muitos momentos, pegaram carona no debate ideológico, menosprezando os ricos princípios e valores evangélicos. A narrativa das famosas políticas públicas e de programas sociais de governos embriagou muitos católicos que declinaram de sua vocação de “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). O fervor e o amor ao Evangelho de muitos conterrâneos nossos brotaram nos educandários católicos e em instituições de ensino superior, inclusive laicas, que contavam com sacerdotes, em seu quadro docente. Há quem sinta saudades das preleções de Dom Nivaldo, Dom Alair, Dom Heitor, Padres Agnelo, Assis, Barbosa etc. Foram verdadeiro “fermento na massa” (Mt 13,33). Cristo afirmara: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém... até os confins do mundo” (At 1,8).