Brasil, um país católico?
Padre João Medeiros Filho
“Le Figaro Magazine”, na edição de outubro de 2025 (da qual um exemplar me
foi presenteado pelos amigos Rejane e Vicente), lançou a seguinte pergunta: “A França
ainda é um país cristão?” Numa longa entrevista, dois pesquisadores analisam a
situação atual do cristianismo na França. Ali consta uma assertiva importante:
“Identifica-se um país cristão não apenas pela fé do povo que busca viver o Evangelho,
mas também pela identidade cultural de suas instituições e estruturas.” A partir deste
ponto, é importante avaliar o Brasil, enquanto “grande país católico”. Na citada matéria,
Jerôme Fourquet afirmou: “A filha primogênita da Igreja é hoje a nação mais
descristianizada do mundo.” E acrescenta o outro entrevistado, Éric Zemmour: “Sem o
cristianismo a França não é mais a França. Gostaria de permanecer cristão. E como sê-lo
numa civilização tomada por outras religiões, dentre elas, o islamismo?” Este já se faz presente
no Brasil. Hoje, na França 50% das crianças nasceram de não-cristãos e não-europeus.
Segundo a opinião do pensador francês, há que considerar dois indicadores: a fé (algo
íntimo, pessoal com manifestações públicas) e a identidade cultural. Conforme dados
censitários das últimas décadas, o catolicismo brasileiro vem perdendo tal característica, que
marcou escolas, asilos, creches, hospitais etc. Muitos deles estão sendo fechados em nome
do estado laico, dos programas sociais e políticas públicas de governos, mostrando-se
inoperantes e ineficazes. Aqui no RN, nestas últimas duas décadas, cinco instituições
católicas de ensino superior foram fechadas ou vendidas. Perdeu a Igreja um espaço
privilegiado de debates e reflexão à luz do Evangelho. Dezenas de escolas de educação básica,
pertencentes a paróquias e congregações religiosas, que floresceram durante décadas, sendo
consideradas referências educacionais, cerraram suas portas. Foram estatizadas ou alienadas.
Hoje, são públicas ou pertencem a conglomerados educacionais, de cunho mercantilista. Até
pouco tempo, renomadas casas de saúde do RN eram orientadas pela Igreja, por meio de
congregações religiosas. “A fé que não se traduz em ações, por si está morta” (Tg 2, 17).
Como esquecer inúmeras entidades de saúde ligadas à Igreja? O pioneirismo do
Hospital Padre João Maria, junto com a Maternidade Ananília Regina (Currais Novos)
ainda é lembrado por muitos. Foi uma obra erguida pela vivência da caridade de
Monsenhor Paulo Herôncio e Dr. Mariano Coelho. É inegável a importância do HospitalMaternidade Belarmina Monte (São Gonçalo do Amarante), fruto do zelo apostólico de
Dom Nivaldo Monte e paroquianos daquele município. Várias maternidades, edificadas
por Dom Eliseu Simões Mendes, nos vales do Assú e Apodi, com recursos das paróquias
e da Missão Rural, foram a expressão da caridade social da Igreja, no século passado.
Dom Eugênio de Araújo Sales fundou, na Arquidiocese de Natal, vários
Centros Sociais, de múltiplas atividades: assistenciais, educacionais, profissionais etc.
animados e mantidos sobretudo pela generosidade dos fiéis. Não se pode omitir o
edificante trabalho socioeducacional do Comendador Ulysses de Góes, por intermédio
da Congregação Mariana de Natal. O Movimento de Educação de Base, criado e
gerido inicialmente sob a égide das dioceses potiguares, foi uma das obras relevantes
da Igreja. É sua mão estendida, oferecendo a muitos o pão do saber. “O que fizestes a
um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes.” (Mt 25, 40).
Tais iniciativas revelam a face da Igreja “Mãe e Mestra”. Infelizmente, as
comunidades católicas deixaram-se levar pela onda de laicização e pelo modismo da
ideologia, desfigurando seu rosto caridoso e humanista, sublime herança do Evangelho.
Em muitos momentos, pegaram carona no debate ideológico, menosprezando os ricos
princípios e valores evangélicos. A narrativa das famosas políticas públicas e de
programas sociais de governos embriagou muitos católicos que declinaram de sua
vocação de “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14). O fervor e o amor ao Evangelho
de muitos conterrâneos nossos brotaram nos educandários católicos e em instituições de
ensino superior, inclusive laicas, que contavam com sacerdotes, em seu quadro docente.
Há quem sinta saudades das preleções de Dom Nivaldo, Dom Alair, Dom Heitor, Padres
Agnelo, Assis, Barbosa etc. Foram verdadeiro “fermento na massa” (Mt 13,33). Cristo
afirmara: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém... até os confins do mundo” (At 1,8).