quarta-feira, 24 de junho de 2026

 


HOMENAGENS
VILMA MARIA DE FARIA - 09 ANOS
Valério Mesquita*
Nela votei na eleição para o senado e votaria de novo. Foi o meu primeiro voto na candidata. Sempre fomos amigos. Ela nunca confundiu amizade com ocasionais divergências políticas. Foi civilizada, republicana e democrática. Quebrou tabus, rasgou preconceitos e exprimiu com limpidez o sentimento de coragem da mulher potiguar, de raízes populares, sem arrogância.
Vim conhecê-la, quando era estudante do Colégio Marista, através de sua avó paterna Paulina Mariz de Faria, lá na rua Apodi. Era a Natal dos idos cinquenta. D. Paulina foi amiga de minha avó materna Sofia Curcio de Andrade. E, por extensão, de Morton (seu pai), Gastão (tio) e demais parentes. Vilma foi herdeira política da saga dos Mariz e Faria. Procurou, lutou e achou sua predestinação política com identidade própria, única e indivisível. Nada obteve com facilidade, sendo mulher. Exerceu três mandatos de prefeita de Natal, duas vezes governadora do Rio Grande do Norte e de permeio se elegeu deputada federal constituinte.
As razões persuasórias de suas mensagens ao povo amanheciam nas praças, com conteúdo e credibilidade, pois eram vestidas da feminina claridade da surpresa da mulher potiguar, pela primeira vez em Natal e no Rio Grande do Norte, no comando da gestão pública. Não era reflexo de nenhum outro ser político. Ela tinha cores que vinham de dentro de si mesma. Vilma me pareceu que ainda jovem, sonhou o destino que ia ver. Conseguiu atravessar o horto de seus padecimentos no enfrentamento dos caciques da época com determinação e sempre submissa a vontade popular. Exemplos do que afirmo me conduzem a memórias dos reveses eleitorais que sofreu, sem se sentir exausta de ser ou mesma vencida. Sempre exibia o riso permanente no rosto, até a última vez que a vi não esqueceu o “V” dos dois dedos da mão quando se elegeu vereadora em Natal. Não conheço na vida pública ninguém com esse perfil, tão instigante, perseverante, sem esmorecer nem tergiversar.
Relembrá-la, como mulher espartana, no mundo áspero e desumano da política, acosto-me, sem restrição, ao sábio preceito de que “não são os cargos que dignificam as pessoas, mas as pessoas que dignificam os cargos”. Num evento da Câmara Municipal de Natal, já doente, cumprimentou-me com a cordialidade de sempre como se representasse, no dizer de Câmara Cascudo, “uma saudade em vida agarrada ao sonho de continuar a viver”. Não há cena mais dramática na passagem do ser humano pela vida do que a do senso trágico da sua própria brevidade. Tive a convicção, naquela hora, que carregava consigo a certeza que havia construído a sua história, revivendo e reinventando as recordações e as ilusões que viajaram com ela.
Em favor do Rio Grande do Norte, realizou o que foi possível. É cedo emitir um julgamento completo do que conseguiu construir. Nem sempre a capacidade de gerir define o sucesso administrativo de qualquer governo. As suas reeleições tanto para a prefeitura de Natal como para o governo do estado, revelam a sua afinidade eletiva com o trato da coisa pública, pela vontade do povo. Permanentemente conduziu consigo entre erros e virtudes, como qualquer ser humano, a sua boa fé, calcada na herança política recebida desde as lutas inaugurais de sua vida, com “duas mãos e o sentimento do mundo”, como dizia o poeta. Teve em mente, como uma liturgia, que o tempo é a dimensão da mudança. Vilma aprendeu a ouvir os gemidos do povo num longo e tenaz exercício, sem rascunho, conforme era exigida pela voz das urnas. Foi a luta com garra, abraçou a vida com paixão e na política venceu com ousadia e até atrevimento. Daí o cognome de “guerreira”.
Onde estiver, que ela não fique triste se ninguém quiser notar o que fez de bom.

 



O “Anjo de Natal”

Padre João Medeiros Filho

Passado mais de um século, Padre João Maria Cavalcanti de Brito continua a encantar os fiéis. Seu exemplo de amor a Cristo e ao Evangelho convida-nos a uma postura despojada, voltada para os valores éticos e evangélicos, distantes de interesses mesquinhos, desprovidos de solidariedade. Sua história mantém-se viva na memória de muitos. Volto a insistir: apesar de não ter sido ainda canonizado, foi elevado pela fé e devoção popular à honra dos altares de nossos corações e do reconhecimento do povo. Suas virtudes e carismas – sinais da presença de Deus em sua vida – suplantam os meandros burocráticos. Ninguém consegue aprisionar a graça divina e a força da fé.

Padre João Maria toca cada vez mais nossos corações. Nosso Arcebispo Metropolitano Dom João Santos Cardoso, nos albores do seu episcopado em Natal, num gesto de reverência, piedade e delicadeza, depositou flores diante do busto do “Anjo de Natal” e rezou pelo seu novo rebanho. Em apenas dois anos de pastoreio entre nós, Dom João retomou o processo de beatificação do Servo de Deus, Padre João Maria. Concluiu a fase diocesana e enviando a documentação à Santa Sé.

Em 1955, ao chegar ao Seminário de Natal, o Reitor, Monsenhor Alair Vilar, reuniu os novos seminaristas (inclusive, os de outras dioceses) para dar-lhes as boas-vindas. Em sua fala cheia de ternura paterna, fez-nos duas recomendações: “Sejam santos e piedosos como este” (apontando para uma pintura de Moura Rabelo, retratando o “Apóstolo da Caridade” diante de um tugúrio, visitando os doentes). E defronte da foto de Cônego Monte, acrescentou: “Sejam estudiosos e sábios como ele.” Tornei-me admirador de ambos. Sabendo que não seria como eles, supliquei a Deus que me desse um pouco da humildade do primeiro e da erudição do segundo. Na mesa de cirurgia, ao ser submetido ao terceiro transplante de córnea, pedi a intercessão de Padre João Maria. Ao recuperar a visão, aumentou minha devoção por ele.

Em julho próximo, a Dandara Turismo, sob a supervisão da Arquidiocese, irá inaugurar o projeto de excursões peregrinantes em homenagem ao grande apóstolo natalense. Intitulam-se “Nos caminhos do Seridó, na cultura e na fé de Padre João Maria.” As romarias convidam-nos a reviver alguns passos do abnegado presbítero, visitando a região onde nasceu e exerceu os primeiros anos de sacerdócio. Na diocese de Caicó, foi capelão de sua terra natal (Jardim do Piranhas) e como tal benzeu as águas do Rio Piranhas-Açu). Segundo testemunho de pessoas mais idosas, esteve em Barra de Sant’Ana (município de Jucurutu), hoje inundada pela barragem de Oiticicas, integrante do Complexo Hidrossocial Dom José Delgado.

“O Santo de Natal” foi pároco de Nossa Senhora da Guia, que compreendia os municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais Novos, Florânia, Lagoa Nova, São Vicente e Tenente Laurentino. Além do imenso território seridoense que compunha a sua grei, era encarregado da Paróquia de Picuí, incluindo Cuité, Cubati, Frei Martinho, Nova Palmeira, Nova Floresta e Pedra Lavrada. Em extensão, seu campo de apostolado era maior que a superfície do bispado seridoense.

Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, outro apóstolo dos pobres, fundou em Currais Novos o Hospital Padre João Maria, a quem costumava denominar “Colo de Deus para os esquecidos e sofridos.” Que do Céu, o “Anjo de Natal” ilumine nossos pastores, especialmente Monsenhor Lucas, cujo natalício coincide com o seu, em 23 de junho. Guie, igualmente, a equipe encarregada de divulgar sua devoção. Seja sempre glorificado no templo de nossa gratidão. “Cristo virá para ser glorificado em seus santos e reconhecido Admirável” (2Ts 1, 10).