O “Anjo de Natal”
Padre João Medeiros Filho
Passado mais de um
século, Padre João Maria Cavalcanti de Brito continua a encantar os fiéis. Seu
exemplo de amor a Cristo e ao Evangelho convida-nos a uma postura despojada,
voltada para os valores éticos e evangélicos, distantes de interesses
mesquinhos, desprovidos de solidariedade. Sua história mantém-se viva na
memória de muitos. Volto a insistir: apesar de não ter sido ainda canonizado,
foi elevado pela fé e devoção popular à honra dos altares de nossos corações e
do reconhecimento do povo. Suas virtudes e carismas
– sinais da presença de Deus em sua vida – suplantam os meandros burocráticos.
Ninguém consegue aprisionar a graça divina e a força da fé.
Padre João Maria toca cada vez mais nossos corações. Nosso Arcebispo Metropolitano
Dom João Santos Cardoso, nos albores do seu episcopado em Natal, num gesto de
reverência, piedade e delicadeza, depositou flores diante do busto do “Anjo de
Natal” e rezou pelo seu novo rebanho. Em apenas dois anos de pastoreio entre
nós, Dom João retomou o processo de beatificação do Servo de Deus, Padre João Maria. Concluiu a fase diocesana e enviando a documentação à Santa
Sé.
Em 1955, ao chegar
ao Seminário de Natal, o Reitor, Monsenhor Alair Vilar, reuniu os novos
seminaristas (inclusive, os de outras dioceses) para dar-lhes as boas-vindas.
Em sua fala cheia de ternura paterna, fez-nos duas recomendações: “Sejam santos
e piedosos como este” (apontando para uma pintura de Moura Rabelo, retratando o
“Apóstolo da Caridade” diante de um tugúrio, visitando os doentes). E defronte
da foto de Cônego Monte, acrescentou: “Sejam estudiosos e sábios como ele.” Tornei-me
admirador de ambos. Sabendo que não seria como eles, supliquei a Deus que me
desse um pouco da humildade do primeiro e da erudição do segundo. Na mesa de
cirurgia, ao ser submetido ao terceiro transplante de córnea, pedi a intercessão de Padre João Maria. Ao recuperar a
visão, aumentou minha devoção por ele.
Em julho próximo, a Dandara Turismo, sob a supervisão da Arquidiocese, irá
inaugurar o projeto de excursões peregrinantes em homenagem ao grande apóstolo natalense.
Intitulam-se “Nos caminhos do Seridó, na cultura e na fé de Padre João Maria.” As
romarias convidam-nos a reviver alguns passos do abnegado presbítero, visitando
a região onde nasceu e exerceu os primeiros anos de sacerdócio. Na diocese de
Caicó, foi capelão de sua terra natal (Jardim do Piranhas) e como tal benzeu as
águas do Rio Piranhas-Açu). Segundo testemunho de pessoas mais idosas, esteve em Barra de Sant’Ana (município de Jucurutu), hoje inundada pela
barragem de Oiticicas, integrante do Complexo Hidrossocial Dom José Delgado.
“O Santo de Natal” foi pároco de Nossa Senhora da Guia, que compreendia
os municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Cruzeta, Currais
Novos, Florânia, Lagoa Nova, São Vicente e Tenente Laurentino. Além do imenso
território seridoense que compunha a sua grei, era encarregado da Paróquia de
Picuí, incluindo Cuité,
Cubati, Frei Martinho, Nova Palmeira, Nova Floresta e Pedra Lavrada. Em
extensão, seu campo de apostolado era maior que a superfície do bispado
seridoense.
Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, outro apóstolo dos pobres, fundou em
Currais Novos o Hospital Padre João Maria, a quem costumava denominar “Colo de
Deus para os esquecidos e sofridos.” Que do Céu, o “Anjo de Natal” ilumine nossos
pastores, especialmente Monsenhor Lucas, cujo natalício coincide com o seu, em
23 de junho. Guie, igualmente, a equipe encarregada de divulgar sua devoção. Seja sempre glorificado no templo de nossa gratidão. “Cristo
virá para ser glorificado em seus santos e reconhecido
Admirável” (2Ts 1, 10).
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