terça-feira, 8 de setembro de 2026

 Período eleitoral, tempo de reflexão

Monsenhor João Medeiros Filho

O período eleitoral no Brasil traz desilusão e descontentamento para os cidadãos mais conscientes. Revela a degradação de nossa política. A falta de propostas objetivas e viáveis para a melhoria da sociedade salta aos olhos. Brigas partidárias inúteis e desconstruções pessoais são abundantes. Ao longo dos anos, os métodos são os mesmos e as siglas partidárias, meras fantasias. Assiste-se involuntariamente a um festival de inverdades, sofismas e narrativas. Isso leva à perda do real sentido da política, que deveria ser instrumento na edificação de uma sociedade democrática, justa e próspera.  Os cristãos deveriam levar mais a sério essa atividade e fazer com que seja “um modo de viver a caridade, como expressão da vivência do Evangelho”, segundo o Papa Francisco. Não cabe ao clero assumir o papel dos leigos. Somos pastores, não militantes e ativistas de partidos políticos. Temos compromisso com a unidade da Igreja, não com a divisão. Não se deve colaborar para que partidarismos e ideologias quebrem os vínculos da união eclesial. Ao se tratar levianamente a política, ela é reduzida a interesses partidários. Deste modo, tornamo-nos reféns dos que a utilizam, objetivando favorecer grupos e forças dominantes.  “O governante que pratica a justiça dá estabilidade ao país. Quem gosta de suborno o levará à ruína” (Pr 29, 4).

Sem consciência cidadã, os agentes políticos instrumentalizam o país e os entes federados, em favor de quem menos precisa e lutam para se perpetuarem no poder. Isso apequena a sociedade, impedindo seu bem-estar e desenvolvimento. Deste modo, tudo se transforma em disputa polarizada, alicerçada na cegueira expressa ao idolatrar figuras por mero populismo e fidelidade a interesses nada republicanos. Isso acentua o distanciamento das aspirações e necessidades da população. A postura leviana privilegia e exalta pessoas, desconsiderando propósitos com relevância social. Ademais, favorece o uso manipulado da máquina pública e estruturas que deveriam servir ao bem comum. Não esquecer a advertência bíblica: “Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; quando o ímpio administra, o povo geme” (Pr 29, 2). 

Urge tratar adequadamente o fracasso da política e o obscurecimento da consciência coletiva. O ceticismo se fortalece, inclusive diante de princípios fundamentais da lei moral. Esse descrédito arrasta a sociedade para um triste caos sociopolítico. É preciso reconstruir um itinerário que possibilite o aprendizado de lições eficazes na qualificação sociopolítica da sociedade brasileira. Elas gestarão novas lideranças e uma renovada consciência cidadã. Deste modo, serão capazes de se colocar a serviço da nação e dedicar-se-ão a construir um patamar razoável de convivência e justiça social. “Examinai tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5, 21).

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em mensagem ao povo brasileiro (18/6/26), enfatiza que a divergência política não deve se transformar em hostilidade ou violência. A paz, o diálogo e a superação da desigualdade social são deveres da totalidade dos cidadãos. O bem-estar da pátria é o objetivo de todos e não de um grupo ideológico ou partidário. Inspirada em valores cristãos, a Igreja convida a população a superar o desânimo e se unir para a construção de um Brasil justo e fraterno, sob a proteção divina. A CNBB reitera: “A abstenção não é a melhor escolha. Cada eleitor deve assumir sua responsabilidade. O Brasil necessita promover e cultivar a harmonia social.” Os bispos imploram a intercessão da Padroeira do Brasil para “nos ajudar a percorrer caminhos de verdade, justiça e paz.” Recomenda a Sagrada Escritura: “Abre a tua boca pelos que não têm voz, pela causa de todos os que sofrem” (Pr 31, 8-9).


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