segunda-feira, 12 de novembro de 2012



ROSSINI PEREZ EM NATAL
Por Franklin Jorge l Novo Jornal 
Tivemos em Natal, por alguns dias, Rossini Quintas Perez. Um nome desconhecido para grande número de norte-rio-grandenses que ignoram, sob essas dezenove letras, um mestre em seu ofício. Por isso, seus pares, reconhecedores de seu talento, o tem como um maître graveur. Um artífice nessa antiga e exigentíssima arte da gravura em sua pluralidade técnica. Veio a convite da Secretaria Extraordinária de Cultura para discutir uma possível mostra de sua produção gráfica.
Conheci-o há uns bons 40 anos. Em Natal, por essa época, apenas Anna Maria Cascudo Barreto – titular de coluna em A Republica – escrevera e dera noticias aos seus leitores de uma plêiade de artistas dignos de reconhecimento, todos eles tendo em comum o fato de terem nascido aqui, uns em Natal e outros em Macaíba, como Abraham Palatnik e Rossini Quintas Perez aos quais eu acrescentaria outros talentos, Ruth Aklander e Aminadav Palatnik, sobre os quais creio que fui a segunda pessoa a escrever sobre a contribuição de cada um deles as artes contemporâneas. E como engrandeciam o Rio Grande do Norte pelo talento.
Rossini Perez volta a Natal depois de 30 anos. Aqui, nos anos 80 do século passado – em tempos recuados -, por esforço e iniciativa deste que vos escreve, teve um belo reconhecimento – consegui emplacar milagrosamente o seu nome como patrono da Oficina de Gravura que, naquela época, chefiando o Núcleo de Criatividade da Fundação José Augusto, era responsabilidade dessa função que exercia e dizia respeito as artes plásticas.
A Oficina, para cuja criação recorri ao assessoramento técnico do próprio Rossini, um expert no assunto, devia integrar um empreendimento mais ambicioso, a Pinacoteca do Estado que ele, Rossini, nessa curta estadia em Natal, visitou minuciosamente, sob o generoso pretexto de contribuir para o resgate do conceito de Pinacoteca que, em decorrência da falta de investimentos e gestão, se perdeu no tempo. É um depósito de quadros, em grande parte mal conservados ou guardados de forma inadequada e num ínfimo espaço.
Nascido em Macaíba ha 81 anos, Rossini parece movido por uma inesgotável vontade de fazer e realizar que falta a maioria dos que tem ocupado cargos públicos sem nenhum proveito para a cultura. Rossini, não. Enquanto aqui esteve não descansou um dia, dando gratuitamente sua contribuição a cultura local. Empenhou-se, não apenas em rever, mas em conhecer e pesquisar e desse afã resultou, no ultimo domingo, uma sessão de fotografias desse velho bairro da Ribeira, que lhe deu a medida exata de quanto nossos governos tem sido relaxados e indiferentes na defesa do nosso já escasso e depauperado patrimônio cultural.
Juntos, percorremos a Pinacoteca, instalada no antigo Palácio do Governo, uma bela construção em estilo neoclássico, de 1873. Porem, como pinacoteca, surpreendeu-o a falta rotineira de investimentos e de cuidados básicos em relação ao acervo, pobríssimo e mau cuidado. A sala da Reserva Técnica não atende aos requisitos necessários. Não ha laboratório de restauro e as obras que, por ventura, tem alguma qualidade, ficam perdidas em meio a tentativas mal sucedidas e, portanto, indignas de figurar numa coleção do gênero. É mais um amontoado de refugos a espera de um trabalho de garimpagem que separe o trigo do joio do que uma pinacoteca.
Rossini pretende -, alem de promover uma mostra de sua obra, para que tenhamos alguma noção de suas realizações estéticas -, fazer uma doação, mas para isto deseja estar seguro de que seja bem cuidada e possa integrar-se, sem risco, ao patrimônio cultural do Rio Grande do Norte. É que Rossini se confessa decepcionado com as instituições, em geral. Não faz muito tempo, sofreu ele na pele uma grande decepção envolvendo um professor que se apresentou como representante da UFRN e, com o seu arrivismo e oportunismo de carreirista acadêmico, o colocou em situação de grande constrangimento; aparentemente, esse professor agia sem o conhecimento do Departamento de Artes, numa demonstração de que a esperteza é a alma do negócio…
Isaura Rosado, secretaria de Cultura, deu-lhe carta branca. Nele enxergou um colaborador ativo e desprendido, alguém que quer dar em vez de barganhar. Que, sem pensar em lucro quer enriquecer o nosso patrimônio cultural, ao contrário de muitos atravessadores que dão c0m mão de gato, amealhando lucro sob a suposta generosidade ou “contribuição”… É Rossini um nobre doador – como diria a atriz Sonia Santos, que tem lhe dado suporte nessa aventura exploratória digna de um artista cônscio do que cria.
Rossini, ser ecológico, integrado a vida, respira outra vez Natal e deplora-lhe a ausência do passado, alem de estarrecer-se com o estado em que se encontra a cidade. Embora portentosa, Natal pareceu-lhe caduca, sem referencias, desmemoriada e mergulhada na sujeira, com um destroço de guerra – a guerra que por quatro anos o Partido Verde moveu contra a cidade. São constatações que o consternam e dão a medida do atraso cultural em que nos encontramos ainda em relação a outras capitais do Pais. Natal, seja dito, não lhe cheirou bem… Mas, encontrou receptividade em Isaura Rosado e em colaboradores como Sayonara.
Rossini, como ser humano, é muito gentil. É alguém que ama o trabalho e se fortalece, como Proteu, ao pisar a terra.

                        MEMÓRIA

            Encho-me de preocupações ao ler o artigo do meu amigo Carlos Roberto de Miranda Gomes sobre a necessidade de salvarmos a memória da cidade do Natal.  Enviei-lhe mensagem eletrônica dizendo que o texto lembrou-me, guardadas as devidas proporções, as palavras do célebre discurso de Winston Churchill, na BBC, quando da queda de Paris, na segunda guerra. ”As notícias da França não são boas”, inicia ele para, em seguida, convocar o povo inglês à luta, afirmando: “Nós lutaremos nas cidades, nas ruas, nos campos, nós nunca nos renderemos”.
Há muito que esse processo irresponsável e negligente vem acontecendo sem que vejamos a menor ação positiva do Poder Público. O quadro agravou-se nesses últimos quatro anos, quando uma estrangeira expatriada do oeste (coadjuvada por maléfico séquito) e uma borboleta ensandecida, ocuparam por total equívoco eleitoral, as chefias dos dois mais importantes cargos públicos do Rio Grande do Norte, o do Governo do Estado, a primeira, e a Prefeitura da Capital, a outra.
Ambas obtiveram seus mandatos por força de espúrios acordos políticos, os mesmos que há muito comandam despudoradamente os destinos da brava gente potiguar, constantemente engrupida por falsas promessas.
A gênese das crisálidas, por seu lado, vinha de uma história falida na iniciativa privada que herdou e a sociedade não observou a inexperiência do seu passado, levando-a á vitória contra Fátima Bezerra. Resultado: Ela transformou a cidade num enorme buraco para castigo de todos. Quanto a descendente das rosáceas de hastes de gelo e sal, abandonou pétalas para oferecer espinhos. Consequentemente: Ela, que é profissional da área deixou, com sua preguiça, que a saúde pública entrasse num colapso dantesco e indesejável; Também que a educação e a cultura se deteriorassem; que o povo do interior, por conta da longa estiagem, cambaleasse de sede e fome sob o sol.
No entanto, um rio de dinheiro corre cercando a decantada Arena das Dunas fruto de indescritível vaidade e da estúpida derrubada do nosso poema de concreto.
E o que nos resta diante desse despautério. Nós que não participamos das indecências, que não acumularemos riqueza em virtude de das manobras desonestas. Nós que somos as notas desse adágio potiguar? Apenas lutar sem jamais pensar na rendição.  


CIRO TAVARES, escritor - Brasília/DF
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DO QUÊ NÃO DEVE SE ORGULHAR O PROFESSOR DE DIREITO

Honório de Medeiros


 Uma das armadilhas que o capitalismo impõe ao ensino jurídico é o conforto da aula técnica, exclusivamente voltada para a interna realidade do ordenamento jurídico, onde o que importa é o discurso intrinsecamente voltado para a norma jurídica e suas conexões com outras normas jurídicas, quando muito se permitindo, o professor, um arremedo de independência dessa camisa-de-força, ao tratar de princípios jurídicos de conteúdo indeterminado, fluídico, sem consistência, que esbarram, entretanto, em sólidos limites que nada mais são do que barreiras que o Estado e sua lógica de poder impõem (os limites que os grilhões em nossos pés estabelecem).

Ao se alienar consciente ou inconscientemente, reiterando essa prática de ocultar as questões subjacentes, essenciais, e que dizem respeito à própria estrutura do Direito, tal qual sua legitimidade, sua relação com o poder, sua relação com a justiça, seu status meramente técnico, por exemplo, o professor de Direito, seja por necessidade de sobrevivência, seja por ignorância, seja por comodismo, seja por cinismo, cumpre um papel pouco digno de reproduzir o modelo de exploração próprio da lógica do capital e, em o fazendo, não questionando, não criticando, não discutindo, crava, com o martelo da omissão, o prego da submissão e alienação nas mentes dos futuros profissionais do Direito, ajudando a construir, assim, a civilização doentia que estamos deixando como legado para nossos filhos.

domingo, 11 de novembro de 2012


POESIA RURAL

 Poema do Milho
Autora : Cora Coralina 
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas, pseudônimo de Cora Coralina, começou a escrever poemas na adolescência. Porém, publicou seu primeiro livro somente ao 76 anos. Poema do Milho é um dos poemas deste seu primeiro livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A beleza dos versos de Cora Coralina está em expressar as coisas simples e corriqueiras do cotidiano com palavras sabiamente escolhidas. Em Poema do Milho a autora revela, com expressiva naturalidade, o ritual do plantio e da colheita vivido pelo povo da roça. Milho.../ Punhado plantado nos quintais./ Talhões fechados pelas roças. (...) Milho verde. Milho seco. Bem granado, cor de ouro. (...) Milho quebrado, debulhado/ na festa das colheitas anuais. Seus versos, de uma simplicidade marcante, aliada a uma profunda experiência existencial, trazem à tona a possibilidade de refletir sobre questões sociais, entre elas, o uso da terra.
 Variedades de milho
Oração do Milho

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada. Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim, não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento de rústicos e animais do jugo.
Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante. Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessária e humilde
SOU O MILHO

O Meu Carro de Boi...


No meio da estrada o carro se ia
e o pó levantava que de longe se via.
O par de bois, forte, da raça Junqueira,
puxava o estrado da prancha, pesado.
O Carreiro lidava, servindo de guia,
andando na frente e o grito se ouvia:
“Estrela, danado... Anda Malhado!”.
Cada boi se firmava na canga com força
pra romper o picoto da curva da estrada...

No roçado de milho a safra colhia
e na fartura de grãos o balaio enchia,
mas na mão de menino os calos eu via.
Com esforço da lida a sede chegava
e na prancha do carro com a carga aprumada,
ligeiro eu pulava e pra cima subia.
Na volta pra casa de novo se ouvia
o grito já rouco servindo de guia,
tocando a frente ao riacho rumavam
os bois já com sede, com a pressa puxavam
o carro pesado que pela trilha descia.
A comitiva cansada na trilha seguia,
depois de um tempo o riacho se via
e no vau finalmente a gente rompia.
Com a água tão clara a sede matava,
sentindo no peito uma graça alcançada
e depois do regalo findando o descanso,
pela trilha de novo a gente se ia...
No carro de boi sentado e cansado
eu olhava o horizonte e a alegria sentia.

Desses dias infantes eu lembro saudoso
do som da pisada no meio na estrada,
do suor do Malhado e do chifre envergado,
do pelo estampado e luzido do Estrela,
com olho fechado do esforço danado
ao longo da estrada que o bicho fazia,
levando a carga que tanto valia.
Dos muitos cantões que ia e se vinha,
ouvia o lamento no meio do nada
que sem sofrimento a roda fazia...
Era um canto velado, sempre aguçado,
da roda azeitada no som que trazia
a carga pesada, pro sustento do dia.
© 2011 Luiz Alfredo Carvalho de Barros
Poema publicado no OverMundo em 23/03/2011

A poesia rural de Zila Mamede


O arado, de Zila Mamede, publicado em 1959, é o terceiro livro da autora. É também prefaciado por Luís da Câmara Cascudo que dele diz: Todos os poemas nasceram no chão sagrado, com chuva do Céu e suor dos rostos vigilantes, surgidos na inspiração provocadora de uma inegável vivência emocional.

O estilo mamedino é marcado pela poesia de presentificação das memórias da infância. Sua linguagem é marcada por vocábulos típicos da realidade do Nordeste, ligando o homem ao campo. Zila Mamede compõe uma representação do Nordeste a partir da recriação de imagens de sua infância, através de uma rígida engenharia da palavra, buscando prazerosamente a exata palavra para compor o poema, numa espécie de ritual de aragem (pelo arado-poesia) da cultura nordestina.

Dos vinte poemas que compõem o livro, sete são escritos na forma de soneto, cinco são tercetos, um é quarteto e os demais são elaborados em estrofes irregulares, com predominância de versos livres.

Nesse livro, através do processo da rememoração, Zila Mamede traz para seus textos poéticos as lembranças de menina sertaneja entrelaçadas pela sua vida de "moça da cidade".


ARADO

Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.

Arado dentes enxadas
lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
faladas, reverdadeiras?

Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.


O AÇUDE

O poema "Açude", por exemplo, vai se construir a partir de uma velha parede ponte imitando os dois barrancos entre chão e chão. A parede implica limites e divide chão e chão. Os dois chãos podem representar as experiências vivenciadas pela poeta: um, sua terra natal; o outro, a vida urbana. No meio das duas experiências, a parede, que divide e controla, e que bem poderia ser lida como signo de um coração dividido entre os dois espaços: o rural e o urbano. Vejamos o soneto:

O açude

Velha parede ponte limitando
os dois barrancos entre chão e chão.
Ao passadiço (em que montavam luas,
xexéus milipousavam no mourão)

a represança vinha da montante
em balde concha. Sobre a levação
do sangradouro retesou-se tempo
de quando as águas, nos rasgando a mão.

Desciam na revência, verdivida
amarelando cheiro de melão:
eram celeiros, peixes nos maretas

e em nós era ternura, era canção.
Sobras do antigo na menina extinta:
redorme na vazante a solidão.

O passadiço pode significar a passagem de um tipo de vida a outro, já que na praticidade da vida, o mesmo permite que as pessoas possam fazer uma travessia por cima de uma cerca, ou seja: possam vencer barreiras, metaforicamente falando.

A represança é a represa que segura as águas e balde concha, o medidor da profundidade. Trocando em miúdos: por mais que o passadiço permita a passagem da narradora de um lugar a outro (do sertão à cidade), ela sente-se presa ao lugar de origem. Todos esses fatos são enunciados como sobras de um passado distante.

É a poeta no presente, sentindo-se presa às origens, revelando que as lembranças da infância permanecem vivas na mulher adulta, ainda cheia de saudades e sentindo-se só, como mostram os dois últimos versos do poema:

Velha parede ponte limitando
os dois barrancos entre chão e chão.


A linguagem é cristalina e se estrutura a partir dos signos açude, sangradouro e balde, apontando para a possibilidade de resgate de vivências no sertão. A poeta bebeu das águas também cristalinas de Nova Palmeira, e delas não pôde mais esquecer.

Percebe-se que as imagens do sertão utilizadas nos poemas de O Arado passam por um processo tão intenso de elaboração, que a terra, em alguns momentos, deixa de ser tema e passa a personagem, como nos exemplos que seguem:

... Sofrida pelo arado
a terra inova-se...
 ("Moenda")

...
nervuras duma terra que desperta
alucinadamente a fecundar-se...
("A Apanha")


A terra agora não será mais a da infância, mas a da mocidade, presente no soneto "Rua (Trairi)". Este poema, aparentemente deslocado em relação aos outros do livro, cumpre seu papel de chamar atenção para os dois tempos da vida/poesia de Zila Mamede: a terra (o passado da poeta vivenciado no sertão) e a cidade representada pelo sal (o presente/momento da elaboração de sua poesia).

Nos cubos desse sal que me encarcera
(pedra, silêncios, picaretas, luas,
anoitecidos braços na paisagem)
a duna antiga faz-se pavimento.

Meu chão se muda em novos alicerces,
sob as pedreiras rasgam-se meus passos;
e a velha grama (pasto de lirismo)
afoga-se nos sulcos das enxadas,
nas ânsias do caminho vertical.
Ao sono das areias abandonam-se
nesta rua vividos fantasmas

de seus rios-meninos que descalços
apascentavam lamas e enxurradas.
Meu chão de agora: a rua está calçada.


Este poema faz parte das recordações do tempo juvenil, pois a referida rua era o local onde Zila morou quando mocinha, recém-chegada do sertão de Currais Novos/RN, até a época em que escreveu O Arado. Não é, portanto, em vão que ela constrói o poema com essa temática. São sentimentos da jovem/poeta presentificando-se no texto, através da voz memorialística.

A cidade (Natal) é apresentada pela palavra sal, por se tratar de litoral, e é esse sal que encarcera a poeta. A cidade, lugar almejado anteriormente, não vai significar a liberdade tão desejada. O sal remete à penitência, misticamente falando, e é usado no batismo do cristão. Na imagem construída no poema, ele encarcera a narradora e a penitencia na medida em que a afasta da paisagem de origem, fonte de suas lembranças.

No decorrer da leitura dos poemas de O Arado, observa-se que a fertilização da terra e do texto são uma constante nos mesmos. Em "Rua (Trairi)" ocorre o oposto, pois o sal pode opor-se à fertilização. Nesse caso, a terra salgada pode significar, também, terra árida, endurecida. Um costume antigo e por demais conhecido em tempo de guerra, era jogar sal nas terras das cidades destruídas para tornar o solo sempre estéril.


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VIOLÃO
MAIS UM BOÊMIO QUE SE VAI
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

A semana começou triste, pois se foi para o outro lado da vida GLICÉRIO CÍCERO DE OLIVEIRA FRANÇA, quando ainda não alcançara a idade bíblica, posto que nascido em 12 de outubro de 1943, em pleno clamor da guerra e falecido neste 05 de novembro do ano corrente. Por conseguinte, com apenas 69 anos.
Sim, digo apenas, porque os boêmios são essenciais para amenizar as agruras da vida, para difundir oralmente a poesia, o romantismo.
Conheci Glicério quando servidor da Ordem dos advogados do Brasil, ainda do tempo do Dr. Claudionor de Andrade e, na minha gestão, entreguei-lhe o encargo de tomar conta da sala do advogado no fórum da Ribeira.
Mas o seu talento foi mesmo a música – bom cantor e violonista que alegrava as rodas seletas da boemia de anel no dedo.
Incursionou pela vida profissional participando do Trio Iataí. Depois, ingressou no Trio Ipanema, que fez história através de vários componentes como Luciano Oliveira, Wilson Pires Leite, Otávio Osvaldo Garcia, Januário da Silva Moura, Luiz Gonzaga Júnior, Abel Raimundo da Silva e Glicério Cícero de Oliveira França. Esse trio foi formado em1963, com a influência da bossa nova, tanto que o nome do trio vem de uma canção clássica de Vinicius de Moraes e Tom Jobim – “Garota de Ipanema”. Teve passagem pela Rádio Poti, celeiro de grandes artistas. Chegou a gravar um disco em 1967 e levou a sua arte aos cantões de São Paulo e todo o Nordeste.
No Recife, o trio se apresentou nos programas mais destacados da época, "Você faz o show" e "Noite de black tie", fazendo apresentações em outros programas de rádio e televisão, gravando vários jingles para a fábrica de cervejas e refrigerantes Antárctica, atuando, ainda, nas TVs Excélsior, Tupi, Bandeirantes e Record, nos programas "Gaiola de Ouro", "Hotel do sossego", "Praça da Alegria", "Corte Real show" e "O fino da bossa".
Colhi na internet que o trio realizou diversos shows pelo interior de São Paulo, contratados pela Vigorelli, participando de uma turnê de 30 dias pelo Brasil ao lado de Wilson Simonal, Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Mário Zan, Carlos Alberto, Elza Soares, Carlos Galhardo, Carlos José e outros. Realizou ainda uma excursão até a Argentina promovida por Hélio Mandarino Show. Em 1967, lançou pela RCA Victor o LP "Nordeste jovem", onde interpretaram diversos sucessos de Luiz Gonzaga, entre os quais "Paraíba", "Juazeiro" e "Asa branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Em 1973 o trio desfez-se.
Agora se foi Glicério – um violão está chorando.

__________________________
COMENTÁRIOS:
1. Não tenho uma lembrança nítida do Glicério.
Teria ele algum parentesco com o Antonio Elias de França, se não me engano, irmão do Erivan França, deputado da Cruzada da Esperança? O Antonio Elias, falecido há algum tempo, era um boêmio militante. Voz muito bonita e um repertório de serestas maravilhoso. Havia , à época, uma  discussão interminável sobre quem era o melhor intérprete: Silvio Caldas ou Orlando Silva.?Bons tempos.
Que os seresteiros celestes recebam o Glicério.  Como sabemos, nossos artistas habitam o paraíso e o tornam mais ameno.
Neste fim de semana, assisti o show dos “OS CARIOCAS”, em sua décima  formação. Ah, Odúlio, Deus existe... se eles passarem pelo nossa cidade, corra para comprar o ingresso. E avise aos amigos. Os que amam a MPB e a Bossa e os que ainda  têm dúvidas. O arranjo que o Severino Filho fez para “Minha Namorada”, quase à capela ,é um dos momentos altos do show.
(E como o Carlos Gomes escreve bem).

Abs, Geniberto

2. Muito bem, Carlos. Belo trabalho de reminiscência. Glicério era filho do grande boêmio Antônio Elias França e neto do velho Adolfo França, poeta, cantor e menestrel. A música, como vc. disse estava nas suas veias. Morou um tempo com Edinho França (Edinho) no Rio de Janeiro. É tanto, que a batida do violão de Glicério parecia com a do grande Edinho ( um dos músicos mais vocacionados do Brasil) . Violonista, arranjador do Trio IraKitan  e compositor ( " Bá, vc. me bateu "... / A mulher das ervas ( formidável) e tantos outros. Glicerinho aprendeu com ele a voz sonora propícia a formação de trios, dos quais vc. tão bem repercute no seu trabalho, muito oportuno, por sinal.    Abs. Odúlio . 



sábado, 10 de novembro de 2012

CIDADE PERDENDO  A MEMÓRIA
Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor.

Têm sido constantes os atos comissivos ou omissivos das autoridades constituídas, no caminho da destruição da nossa memória histórica.
Partimos da demolição do "Poema de Concreto Armado" para dar lugar a uma "Arena das Dunas", que se ergue preguiçosamente e sem o legado (mobilidade urbana) que foi o carro chefe do convencimento para o mega investimento. Estamos no risco de perder tudo.
Agora estamos ameaçados em perder outros equipamentos históricos, como o Colégio da Imaculada Conceição (CIC), estabelecimento de grande tradição no ensino do Estado, que informa o fechamento das suas portas já agora em dezembro.
O tradicional ATHENEU está em estado precário, com seus arquivos destruídos e longe das providências para a sua recuperação, tal qual ocorre com a Biblioteca Câmara Cascudo.
A Rampa, atualmente em estado precário de conservação, será desfigurada com construções novas, segundo o noticiário da mídia potiguar.
A Ribeira histórica (ver Rua Dr. Barata), onde transitaram figuras de invulgar importância para a política, arte e cultura tem mais de 80% dos seus prédios já destruídos, pouco restando daquela agitação que marcou aquele bairro, berço do início do comércio de Natal.
O Teatro Alberto Maranhão mais parece um mendigo, com suas cortinas rasgadas, suas portas sem trinco - uma caricatura da glória do passado. Que não tenha o mesmo destino do seu vizinho, o velho prédio da Faculdade de Direito, que a cada dia perde um pedaço do seu corpo e abala a sua alma.
O complexo de obras construídas por Alberto Maranhão, quando governador, está totalmente desfigurado.
Sei não! o que podemos esperar dos próximos anos se alguma coisa eficaz e sustentável não se efetivar?
Natal é uma cidade turística, que quase nada tem a mostrar aos visitantes, no campo da história.
Apesar de tudo, a nova Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, tem um enorme desafio para os seus três anos de gestão - um deles, dotar a Casa da Memória de instrumentos que permitam aos turistas que virão para a Copa de 2014, arquivos digitalizados para as suas investigações e pesquisas, costume muito comum entre os cidadãos dos povos com maior cultura.
Temos muito pouco tempo, mas é possível salvar alguma coisa! Vamos à luta.
_____________________
COMENTÁRIO:

Caros amigos,
li sensibilizado o excelente artigo de Carlos Gomes sobre o descuido com o nosso patrimônio histórico e a dramática situação do Colégio Imaculada Conceição. Tomei conhecimento do fechamento do CIC no começo de outrubro, através de fotos e comentários do Jornal de Hoje. Na ocasião, fiz o poema que segue em anexo.
Com um abraço fraterno,
Horácio Paiva. 



C.I.C. TRANSIT

Soube com tristeza
do fim do Colégio
Imaculada Conceição.

E soube das gerações
agora órfãs da casa
que lhes ditava o saber
e a oração.

Onde estarão esses jovens
e os seus sonhos
cujas sombras ainda perambulam
no silêncio das paredes centenárias
e conventuais?

Em busca do conhecimento,
do trabalho,
de Deus?

Do fim repentino
já não importa conhecer
os motivos circunstanciais.

Portas, grades e janelas
estão cerradas.

Muros, mudos. De lamentações
talvez.

Não há sequer uma voz
na tarde em declínio.

Nascer, viver, morrer: é o destino.

E é o que agora vejo
nessa foto de jornal que me diz tudo.

                                   (Horácio Paiva) – Natal, 7/10/2012 -



OAB/RN realiza mais uma edição do Meio Ambiente e Urbanismo em Debate nesta terça-feira
Com intuito de debater assuntos relativos à proteção e defesa do meio-ambiente natural e urbano, a Comissão de Direito Ambiental da OAB/RN, realiza no dia 13 de novembro, às 19h, na sede da Seccional Potiguar, mais uma edição do ciclo de palestras intitulado Meio Ambiente e Urbanismo em Debate. O tema abordado será "A Competência administrativa ambiental em face da Lei Complementar 140/2011", a ser proferido pelo advogado paraibano e consultor jurídico, Talden Farias.

O objetivo do Meio Ambiente e Urbanismo em Debate é ampliar e estimular o debate de temas da atualidade, possibilitando o desenvolvimento constante do pensamento crítico e a mudança de paradigmas.

O evento é voltado para advogados, procuradores, defensores públicos, assessores jurídicos, promotores, juízes, arquitetos, engenheiros, biólogos, geógrafos, profissionais das ciências ambientais, estudantes e demais interessados.

As inscrições devem ser feitas pelo e-mail comissoes@oab-rn.org.br, encaminhando nome e telefone, e mediante a entrega de 2kg de alimentos na abertura do evento. A comissão de Direito Ambiental deverá fazer a doação a instituições de caridade.

Meio Ambiente e Urbanismo em Debate
A Competência administrativa ambiental em face da Lei Complementar 140/2011
Data: 13 de novembro de 2012
Horário: 19h
Local: Auditório da OAB/RN - Av. Câmara Cascudo, 478 - Cidade Alta – Natal/RN
Informações: 4008-9400

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


Caicó sediará em novembro o IV Encontro Norte-Rio-Grandense de Genealogia


Caicó sediará nos dias 23, 24 e 25 de novembro o IV Encontro Norte-Rio-Grandense de Genealogia. O evento promete reunir historiadores do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Alagoas no plenário da Câmara Municipal. Na programação estão previstas palestras, mesa-redonda, intercâmbios e confraternizações.

ATT; ARYSSON 84-9624-0627