quarta-feira, 8 de março de 2023
sábado, 4 de março de 2023
Cartas
de Cotovelo – Verão de 2023 – 9
Por:
Carlos Roberto de Miranda Gomes
AS
ÁGUAS DE MARÇO FECHANDO O VERÃO
Terminamos fevereiro com muita chuva pelo Brasil
afora, prenunciando um período bem molhado para amparo dos homens do campo,
apesar da proximidade, apenas, da Primavera.
Em alguns lugares, as quedas pluviométricas foram
exageradas. Castigo de DEUS? Não, advertência ao mau uso da natureza, das
dádivas que recebemos e recalcitrância na busca de exploração desordenada do
solo, ferindo as encostas das dunas e dos morros, despertando o Poder Público e
a própria consciência dos empreendedores para uma reposição dos bons costumes.
Nada é de graça nem sem motivo – existe o princípio
da reciprocidade que faz retornar tudo aquilo que empreendemos. Não temos sido
fiéis às melhores tradições dos colonizadores e insistimos em buscar vantagens
de qualquer forma.
Esses prolegômenos, (lembrei-me do meu querido
Professor Floriano), é para registrar que aqui em Cotovelo o dia amanheceu
radioso, luzento e com uma brisa confortadora.
O ambiente é convidativo para nos encantar com boas
leituras e assim o fiz desde os primeiros raios do Rei Sol, sempre no conforto
de uma rede sertaneja, equipamento essencial em uma casa de caboclo. Aqui na
praia não trago os meus autores mais eruditos para não quebrar a simplicidade
da natureza e cultuar um pouco mais o intimismo das leituras espiritualistas.
As minhas motivações para escrever as Cartas de
Cotovelo são sempre as mais simples, seja porque sou de ascendência campesina,
onde a natureza é mais preferida ou de um praiano de infância até a madureza.
Não dispenso uma varanda, especialmente quando acaba o ruge-ruge do veraneio e
retorna o gorjeio na minha janela, logo que chega a quarta hora de cada dia.
Confesso que vinha retraindo o meu hábito de
escrever diante de tanta erudição de alguns parceiros. Contudo, após meditar,
decidi que cada um dá o que tem e a minha trouxa intelectual é pequena, quase
aquela que canta Patativa do Assaré:
Meus versos são como semente
Que nasce arriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação
GRAÇA E ILUMINAÇÃO
- Horácio Paiva *
Apesar de haver lido bastante Schopenhaeur, não sou do bloco dos pessimistas... E quanto a Bertrand Russel, o meu ceticismo é diferente do dele. Não o é em relação a Deus, mas ao domínio do conhecimento pelo homem. Neste caso, estou com Sócrates, que dizia: “de uma coisa, sei: que nada sei”.
Tenho buscado a imaginação, a poesia e a teologia como ferramentas para ampliação da consciência. A lógica cartesiana não nos leva muito longe, embora importante nas coisas, sonhos ou ilusões ditas práticas do dia a dia. Nos “Fragmentos” de Novalis, pensador e poeta romântico alemão, há uma frase que diz: “Se tivéssemos uma Fantástica como existe uma Lógica, ter-se-ia descoberto a arte de inventar.” Quando perguntado se acreditava em Deus, Iung respondeu: “Se acredito? Eu não acredito, eu sei!” Também respondo de forma parecida: “Percebo e sinto Deus”, o que me dá grande liberdade e coragem. E a vida se torna uma aventura criativa, ou sonho.
Para Santo Agostinho, somente somos salvos pela graça de Deus. Thomas Merton, monge trapista, teólogo e escritor moderno, autor do célebre “O Zen e as Aves de Rapina”, identificava a Graça (cristã) com a Iluminação (zen-budista).
No mais, e apesar de minha ignorância humana, sou livre e feliz (pela graça ou pela iluminação) e alegre na maior parte do tempo - embora navegando ora em mar calmo, ora em mar agitado, o que me traz, algumas vezes, mudança no humor. Mas a felicidade é profunda e o humor superficial.
A propósito do Zen, o monge católico trapista Thomas Merton, na obra acima citada, procura demonstrar a aproximação dessa doutrina com o Cristianismo. Curiosa e interessante a relação que estabelece entre a “iluminação” zen-budista e a “graça” cristã. Cita São João da Cruz, que “compara o homem a uma janela através da qual brilha a luz de Deus.” Com efeito, são palavras do próprio santo, extraídas de sua obra “Subida do Monte Carmelo”: “Quando a alma dá lugar (que é apartar de si toda névoa e mancha de criatura, tendo a vontade perfeitamente unida à de Deus - porque amar é trabalhar em despojar-se e desnudar-se por Deus de tudo o que não é Ele), logo fica esclarecida e transformada em Deus, e o Senhor comunica-lhe o seu ser sobrenatural de tal maneira que parece ser o próprio Deus e, de fato, é Deus por participação.”
Novalis dizia ser a Poesia a mais importante fonte do diálogo do homem com Deus. Costumo dizer que Poesia e Profecia são irmãs. Ambas trabalham o alargamento da consciência. Muitas vezes compartilhei esse pensamento com o meu saudoso amigo Nelson Patriota. E agora concluo com esse meu poema, entre a graça e a iluminação:
ZEN
quando estiver salvo
ou iluminado
não precisarei
mais nada perguntar -
são ilusórias as perguntas
e ainda mais as respostas
.......................................................................................................................
(*)
Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do IHGRN,
da UBE-RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
sexta-feira, 3 de março de 2023
SENHOR, NÃO DEIXES QUE O MUNDO O SUPERE!
Valério Mesquita*
As Sagradas Escrituras, desde Gênesis,
registram a participação direta de Deus na condução do povo escolhido. Abrão,
Elias, Jacó, Moisés, Josué, Davi, Salomão e os relatos dos profetas Samuel,
Ezequiel, Daniel, Jeremias, Isaías, Zacarias, Malaquias, todos narram fatos:
vários ouviram a voz de Deus e foram inspirados nos ensinamentos e
procedimentos. Receberam mensagens divinas através dos anjos, foram guiados,
sofreram e quantos não morreram até a chegada do Messias? Quantas batalhas
vitoriosas não foram travadas pelo povo Judeu que depois foi escravizado por
inúmeras potências estrangeiras até a fase dominadora dos romanos quando Jesus
nasceu? Numa medida extrema para salvar o mundo apodrecido daquele tempo, Deus
enviou o seu filho Jesus com a missão da boa nova a fim de tirar os pecados dos
homens e remir a humanidade degenerada.
Mas estava escrito que, cumprida a
missão, o Cristo seria crucificado para depois ascender ao Pai. Ressuscitado,
Êle ainda permaneceu na terra ultimando junto aos apóstolos suas recomendações
finais, cujo ponto alto foi a unção do Espírito Santo para todos eles
enfrentarem o imenso mundo hostil e ímpio que estava deixando. Em verdade, não
fosse o milagre da transferência do Espírito Santo teria sido impossível aos
apóstolos realizarem a ingente tarefa de pregação e de cristianização. E Paulo
de Tarso se destacou entre todos como o mais sábio e operoso obreiro. Hoje, a
humanidade se repete no tempo. A imensa maioria do globo terrestre não é
cristã. A obra evangelizadora não atingiu seus objetivos na Ásia e no Oriente,
barrada pelo islamismo, o budismo, o bramanismo além dos regimes políticos de
exceção da era stalinista, hitlerista e maoísta, entre outros da mesma escória.
Que razões poderiam ser elencadas?
Teria sido a divisão das correntes do cristianismo no século XVII? A ligação, à
época, da Igreja Católica com os governos absolutistas e colonialistas da
Europa que se dispuseram a impor coercitivamente o domínio político e religioso
aos gentios da Ásia, África e Oriente? As igrejas cristãs teriam optado pelo
regime de “cada um por si e Deus por todos”, na presunção de que a
divisão do rito, da obediência, da interpretação discrepante, bíblica e
dogmática da descentralização - a doutrina e a evangelização não se espalhariam
mais pelo mundo?
O fato é que, do século XX para cá, o
poder econômico tem se concentrado nas mãos dos maus em todas as esferas. Por
maior que seja o esforço dos evangélicos e católicos de recriarem o universo,
persiste a impressão que a humanidade sucumbe ao poder do Demônio. Na sua
primeira vinda, Jesus redimiu o mundo dessa escravidão, comissionando aos
discípulos anunciar as duas opções: crer para se salvar ou descrer para
condenação. Tudo está em Mateus 7.13 e Marcos 16.16. Todavia, para essa segunda
e definitiva etapa, vejo como leigo, que se torna imperativo que o Senhor
amplie pelo Espírito Santo a tarefa dos seus discípulos no mundo de hoje.
Daquele tempo de Jesus para a ultramodernidade dos nossos dias, o número da
população global atingiu a casa dos bilhões; a máquina mortífera da comunicação
de massa e o dinheiro permanecem com os ímpios e pecadores que destroem o
trabalho ”formiguinha” dos discípulos hodiernos; nos tempos bíblicos a
intolerância cristã dos chefes de estados era o óbice; ao passo que, na
atualidade, as ações da intolerância estão nas leis e nos códigos que se
multiplicam, nos costumes, nos lares, nas ruas e que somente o esforço do
Espírito Santo com maior intensidade e vigor, haverá de derrotar o Diabo
novamente. Por isso, não cesso a oração: “Senhor, não deixes que o mundo o
supere!”.
O grande Mário Andrade (1893-1945), na
sublime reflexão do “Valioso Tempo dos Maduros”, disse: “Já não tenho tempo
para conversas intermináveis”. “Meu tempo tornou-se escasso para debater
rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa”. Quero caminhar perto de
coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena. E para mim,
basta o essecial”. Quanto a mim, Jesus Cristo é essencial!
(*) Escritor.
sábado, 25 de fevereiro de 2023
ENQUANTO O POVO DORME
enquanto o povo dorme
dizem eles
tudo é permitido
e não há censura
enquanto o povo dorme
não há problema algum
para os sombrios planos
tratativas e negócios
por que então desesperar
se ainda há tempo
e o povo está dormindo?
por que então se preocupar
enquanto o povo dorme
e não há qualquer perigo?
ele não pode ouvir
ver ou entender
pois está dormindo
e nem acreditar
pois ainda não sabe
que a simulação é a chave
não há que perder a calma
quando ainda há tempo
não há risco
enquanto o povo dorme
o risco é o povo acordar
mas nunca é tarde
e ainda poderemos fingir
que sempre estivemos com ele
e que até o ajudamos
a despertar
- Horácio Paiva
A 5ª DIMENSÃO DO ESTRESSE
Valério Mesquita*
Tudo incomoda o vivente. O sobrevivente. Provar a sensação amarga da guerra perdida. Contemplar do alto do edifício urbano as maiorias fúteis impondo iniquidades sobre Natal. O ter que se habituar com a visão torta e vesga dos poderosos de plantão que impõem suas regras pela mídia. Natal sem becos, sem esquinas boêmias, sem praças, sem preces, povoadas de vultos inexpressivos que não serão falados amanhã. Extraviaram a noção de história. Os anos inaugurais do século XXI, não têm o glamour dos fatos e das figuras do século passado. O homem coisificou-se. Perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.
Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os poucos náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei se há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continua a ser o Covid, a droga, a dengue, a chikungunya e a zica. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos. De motos. Principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade.
Fortunas repentinas arremetem-se para o alto iguais ao crescimento vertical da cidade. Não há explicação. Não há investigação. Tudo é volátil e volante. Expresso em arcos voltaicos celebrados na crônica social. É aí que se deduz que toda celebridade quando não é célere, é celerada. Ou fazem de cômicas todas as autoridades.
Saio de mim para penetrar na imponderabilidade do oceano que assiste, lá fora, a decomposição humana. A visão misteriosa do oceano pacífica e beatifica o pecador solerte, já dizia o décimo terceiro apóstolo de Cristo, perdido no tempo e no espaço, ainda acreditando na grandeza do último milagre.
Mas, estresse é coisa séria. Pode ser trágico, para não dizer cômico. Não há como escapar de suas ilações, reações adversas e efeitos colaterais. Mas, que Natal está chata e irreconhecível infelizmente é verdade. Tenho ultimamente pensado muito em Lucrécia. As duas. A Bórgia e a do Oeste. São pontos de fuga. Estações de tratamento para os dias. Os mesmos dias.
Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com “aspones” para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva.
Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023
O sentido do
tempo quaresmal
Padre João
Medeiros Filho
A
palavra marcante com que se abre a celebração quaresmal é conversão. O termo,
de origem hebraica, indica mudança, interior, dir-se-ia, transformação na mente
e no espírito. Foi exatamente isto o que Cristo veio trazer com sua doutrina.
Indicou ao ser humano um novo caminho e modo de ser e viver, a tal ponto do
apóstolo Paulo chamá-lo de: Novo Adão – nova
humanidade (Rm 5, 12-21).
Durante
quarenta dias, somos convidados a meditar sobre nosso destino e nossa condição
de filhos de Deus. Sabemos que a Igreja muitas vezes se alimenta liturgicamente
de simbolismos. O símbolo é aberto, enquanto a palavra linear é fechada e, não
raro, limitada e pobre. Recorrendo amiúde à numerologia, a liturgia recorda-nos
os quarenta anos de marcha do Povo de Deus, em direção a Canaã, os quarenta
dias e quarenta noites que o Senhor passou no deserto, antes de ser tentado por
Satanás. Portanto, a palavra quaresma está sempre ligada à reflexão e
caminhada.
Como
nos rituais do Antigo Testamento, a quaresma cristã exorta-nos ao jejum e à
conversão (em grego: metanóia). Na sociedade hodierna, fala-se muito na
linguagem administrativa e biomédica em cortar gorduras. No jejum, deseja a
Igreja que possamos ser capazes de cortar as gorduras do egoísmo, da vaidade,
da violência, da injustiça e do desamor. Na sociedade hodierna de culto ao
corpo, malha-se muito e inúmeras modalidades de exercícios são praticadas e
ensinadas. Jejuar é malhar interiormente, eliminar os excessos nocivos ao ser
humano para dar lugar à fome do Deus Vivo.
A
quaresma lembra também o êxodo do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. A
partir daí, a Igreja chama a atenção sobre a nossa trajetória diária. A
liturgia proporciona-nos um espaço interno e temporal, durante o ano, a fim de
realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. E assim, voltando ao que é
verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos,
encontrando-o renovado. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos,
muita coisa não existe mais. Da mesma maneira, o “que é velho”, no dizer do apóstolo Paulo, deverá desaparecer
para dar lugar à novidade de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã é a
quaresma. Mas, esta não é apenas um período litúrgico. É também um momento ao
longo de nossas vidas, em que devemos retornar, com a ajuda da graça divina, ao
nosso interior. E ali, é indispensável realizar o encontro com nossos erros e
virtudes.
A celebração quaresmal convida-nos ao despojamento
para um renascer. A cerimônia de cinzas significa o fim de tudo o que nos
afasta do Pai e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó nossa mentira, nosso
egoísmo, nossa insensibilidade, numa palavra, nossos erros, limitações e
pecados, para que possa nascer em nós o “homem
novo”, que Cristo Jesus veio trazer ao mundo. As cinzas traduzem
simbolicamente nossa conversão, o queimar de nossos erros e o brotar de novos
planos. Por isso deve surgir em cada um de nós um desejo autêntico de escuta da
palavra de Deus. Caminhar ou viajar pode nos ensejar uma oportunidade de
dialogar e ouvir outras pessoas. A quaresma é esse convite a uma escuta atenta
e profunda de Deus Pai. É sua Palavra que ilumina nossa vida, nos convida à
transformação interior e nos dá a verdadeira dimensão da misericórdia divina,
do perdão e da graça do Senhor Jesus. “Somos
pó e a ele voltaremos” (Gn 3, 19). Esta é mais uma das verdades sobre a
qual a Igreja pretende nos conscientizar. Assim compreenderemos o significado
da Quarta-feira de Cinzas. Há um apelo para destruir o velho homem dentro de
nós a fim de ressurgir uma criatura totalmente renovada, segundo a expressão de
Paulo (Ef. 4, 22-24). “Necessário vos é
nascer de novo” (Jo 3, 3), falou Cristo a Nicodemos. Precisamos dar lugar à
outra criatura dentro de nós. Eis o sentido das Cinzas que nos foram impostas,
na cerimônia litúrgica, acontecida em nossas paróquias e comunidades, ao
adentrarmos no tempo quaresmal, que nos levará à alegria da Páscoa do Senhor.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Simbolismo e significado bíblico das cinzas
Padre João Medeiros Filho
O ato da imposição de cinzas remonta ao Antigo Testamento. O livro de Ester narra que Mardoqueu se vestiu com pano de saco (estopa) e cobriu-se de cinzas ao saber do decreto de Assuero (Xerxes I, da Pérsia), condenando à morte os judeus ali residentes (cf. Est 4,1). Atitude semelhante teve Jó, demonstrando o seu arrependimento (Jó 42, 6). Daniel, ao profetizar a tomada de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: “Voltei o olhar para o Senhor Deus, procurando fazer preces e súplicas com jejuns, vestido de tecido rústico e coberto de cinzas.” (Dn 9, 3). Após a pregação de Jonas, o povo de Nínive se vestiu de roupas grosseiras, impondo-se cinzas. O rei levantou-se do trono e sentou-se sobre elas (Jn 3, 5-6). Tais exemplos demonstram a prática religiosa do uso das cinzas como símbolo de arrependimento, tristeza, penitência, conversão e dor. Cristo aludiu igualmente a esse costume, quando se dirigiu aos habitantes das cidades de Corazim e Betsaida que não se arrependiam de seus pecados, apesar de terem presenciado milagres e ouvido a Boa Nova. “Se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizados os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinzas”, advertiu o Mestre. (Mt 11, 21). A Igreja, desde os primórdios, continuou este ritual com um simbolismo análogo. Tertuliano aconselhava o pecador a “vestir-se com um tecido de cânhamo e cobrir-se de borralho.” Eusébio, primeiro historiador da Igreja, relata que Natálio se apresentou com esses trajes diante do Papa Zeferino para suplicar-lhe o perdão. No cristianismo medieval, quando o penitente saía do confessionário, o sacerdote impunha-lhe cinzas para significar que o “velho homem” tinha sido destruído, dando lugar ao “novo homem” (Ef 4, 24), do qual fala o apóstolo Paulo. Por volta do século VIII, as pessoas que estavam prestes a morrer, eram deitadas no chão sobre um tecido rude e nelas se jogava pó. O sacerdote, aspergindo-as com água benta, dizia: “Lembra-te, ó criatura, que és pó e nele te hás de tornar.” (Gn 3, 19). Este rito foi tomando uma nova dimensão espiritual e passou a significar morte ao pecado, em seus diversos aspectos: mentira, orgulho, injustiça, inveja, ódio, violência etc. Assim, com o passar dos anos, tal costume foi associado ao tempo quaresmal. Neste, somos convidados a sepultar o velho homem existente em nós para ressurgir com Cristo, na Páscoa. Na liturgia atual, as cinzas utilizadas na quarta-feira são obtidas com a queima da sobra das palmas bentas no Domingo de Ramos do ano anterior. O sacerdote as abençoa e impõe sobre os fiéis, dizendo: “Lembra-te que és pó e nele te hás de tornar”, ou então: “Converte-te e crê no Evangelho.” (Mc 1, 15). Essa cerimônia é um convite à preparação para a Páscoa pela vivência da quaresma, tempo privilegiado para uma revisão de tudo o que nos aniquila em nossa caminhada de fé e amor. Aceitando tal ritual, expressamos duas realidades fundamentais: a consciência de que somos criaturas efêmeras e nossa fé na ressurreição. Cristo ressuscitou dos mortos, prometendo-nos que também ressuscitaremos. É conhecida na mitologia grega a força de Fênix, que renasce das cinzas. Isto lembra-nos que delas também nós podemos surgir, como criaturas novas, pela graça inefável de Deus. Elas simbolizam mudança radical, na medida em que representam aniquilamento ou destruição. Por essa razão, somos chamados a nos converter ao Evangelho de Jesus Cristo, mudando nossa maneira de pensar, julgar e agir, libertando-nos da arrogância, do egoísmo e de tudo aquilo que nos afasta de Deus. A palavra marcante com que se abre a celebração da quaresma – a qual se inicia na quarta-feira, após o carnaval – é conversão. O termo, de origem hebraica, indica mudança interior, dir-se-ia, transformação da mente e do espírito. Foi isto o que Cristo veio trazer com sua mensagem. Ele indicou ao ser humano um novo caminho e modo de ser e viver. O apóstolo Paulo, de forma inspirada, o chama de “novo Adão”, qual seja, uma nova humanidade (Rm 5, 12-21).
Cartas
de Cotovelo – Verão de 2023 – 8
Por:
Carlos Roberto de Miranda Gomes
AGORA
VOLTAMOS À REALIDADE - CINZAS
Retornei da Comunidade de Cotovelo para recomeçar a
realidade da vida normal, sem confetes nem serpentinas, mas com a assunção das
responsabilidades do cotidiano.
Nada de arrependimento para os que souberam
brincar, justificada toda a alegria pelo retorno dos velhos costumes após dois
anos de pandemia, represando a festa de Momo, oportunidade da confraternização
entre familiares e amigos neste verão, não tanto de sol, mas que foi suficiente
para revigoramento espiritual.
Continuo com a mesma opinião – o Carnaval não é coisa
satânica, malévola, mas um relaxamento das atividades repetitivas do dia a dia,
renovando esperanças, que renascem na quarta-feira de cinzas, com a presença da
religiosidade do brasileiro.
É da nossa tradição a aposição das cinzas, com o
seu especial significado, como bem o esclarece o nosso querido amigo Padre João
Medeiros Filho, em artigo que divulgo em seguida.
Também não poderia esquecer o passado, onde despertava
cantarolando uma música (apenas dois versos dela), que se tornou icônica, para
retratar a quebra dos dias de folia, composta num passado remoto por Aldo Cabral
e Benedito Lacerda, com o título dramático de Carnaval da Minha Vida:
Quarta-feira
de cinzas amanhece
Na cidade há um silêncio que parece
Que o próprio mundo se despovoou
Um toque de clarins além, distante
Vai levando consigo agonizante
O som do carnaval que já passou
E
repete-se a cena de costume
Cacos dispersos de lança-perfume
Serpentina e confete pelo chão
É a máscara que a vida jogou fora
Mostrando que a alegria foi-se embora
Nos rastros da passagem da ilusão
...............................
Infelizmente
não conto mais com a participação da minha parceira THEREZINHA cantarolando
comigo pois, coincidentemente, partiu num período de Carnaval de 2019.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2023
“A alegria, filha de Deus”
Padre João Medeiros Filho
A alegria desperta em nós um sabor divino e, mesmo efêmera, deixa marcas e oferece novas possibilidades ao cotidiano. Atualmente, vivem-se dias difíceis, tristes e vexatórios. Hoje, é comum encontrar gente com o rosto acabrunhado em shoppings, escritórios, consultórios e mesmo dentro de casa. No convívio social, enfrentam-se problemas, que desafiam e exigem maior agilidade, perspicácia e sabedoria para solucionálos. Cresce o número daqueles que são abandonados e desprotegidos, perambulando pelas ruas das cidades. Também aumenta a estatística das vítimas de malversadoras políticas de governos, que enfrentam provavelmente o terrível drama da fome ou desemprego. Muitos são os discriminados e violentados por causa de sua raça, origem e condição social. E como se não bastasse, certas pessoas são alijadas, em razão de sua opção religiosa, ideológica ou familiar. O radicalismo, a intransigência e o sectarismo estão se tornando regras gerais na sociedade brasileira. Seres humanos tombam frequentemente mortos, até diante de sua família, vítimas de uma guerra que não poupa inocentes e indefesos. Um olhar mais atento para a realidade atual tende a mostrar quão corrompidos se tornaram tantos e imersos estão num processo deletério de desumanização. Infelizmente, são cada vez mais raros os gestos concretos de bondade, acolhimento, humanismo e fraternidade. Não repercutem no mesmo ritmo como os de violência, que rondam e ameaçam os cidadãos. Diante da realidade atual cabe perguntar: há lugar ainda para os alegres e os de mente sã? Vinícius de Moraes cantou em “Samba da Bênção” a primazia do júbilo sobre a tristeza: “É melhor ser alegre que ser triste. A alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração...” E um coração entristecido, entregue à dor e às forças do mal, não pulsa com tanto vigor. Por isso, vale a pena cultivar a alegria. Esta não representa necessariamente ausência de sofrimentos. Entretanto, revigora e acalenta a alma, tem a capacidade de neutralizar o negativismo e colocar o espírito em contato com o que há além dos acontecimentos. Lembremo-nos das palavras de Santo Agostinho, quando se dirigia aos fiéis de Hipona: “A alegria é filha predileta de Deus e pode salvar da morte.” Para a teologia cristã, é dom do Pai ao mundo, prognóstico da salvação que Ele sempre oferece à humanidade. E a salvação se dá num movimento pascal, na passagem da morte para a vida que o Senhor oferece. Compreende-se, assim, porque o Papa Francisco insiste em sua encíclica na “Alegria do Evangelho” (“Evangelii Guadium”). Os cristãos sabem que o contentamento, experimentado nos pequenos acontecimentos do dia a dia, antecipa aquilo que Deus oferece: um Reino no qual “ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste”, como se reza na Prece Eucarística XI, inspirada no Apocalipse: “E Deus enxugará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais pranto, nem clamor, nem dor” (Ap 21, 4). A promessa é a de que o sofrimento e a tristeza terão seu fim, quanto mais cedo se consolide o Reino de Deus, que Cristo pregou. É precisamente isso que deve motivar os momentos alegres, ao longo da existência terrena. E como o júbilo dá brilho à vida, torna-se possível distingui-la da exaltação eufórica, na qual muita gente manifesta uma falsa felicidade e uma ilusória sensação de bem-estar. Nos dias de carnaval, muitos põem o bloco na rua com o coração contristado, aguardando a quarta-feira para retornar a uma vida acinzentada. Deste modo, torna-se difícil ser verdadeiramente feliz. Por isso, é preciso fazer brotar no fundo de nosso ser o ânimo e a coragem, mesmo no agora sofrido viver diário. Nas pessoas risonhas Deus também se revela. Quando os dias duros sobrevierem com suas tiranias lembrem-se de sorrir. “Sorria, embora o seu coração esteja doendo... Ilumine seu rosto com a alegria...”, evoca Charles Chaplin na magistral canção “Smile”. Que as fantasias e os sonhos de agora não sejam sepultados. É importante buscar a alegria, réstia do Eterno e aceno do Infinito! “Exultem e alegrem-se, pois Deus é grande e está em seu meio” (Is 12, 6).
O sentido do tempo quaresmal
Padre João Medeiros Filho
A palavra marcante com que se abre a celebração quaresmal é conversão. O termo, de origem hebraica, indica mudança, interior, dir-se-ia, transformação na mente e no espírito. Foi exatamente isto o que Cristo veio trazer com sua doutrina. Indicou ao ser humano um novo caminho e modo de ser e viver, a tal ponto do apóstolo Paulo chamá-lo de: Novo Adão – nova humanidade (Rm 5, 12-21). Durante quarenta dias, somos convidados a meditar sobre nosso destino e nossa condição de filhos de Deus. Sabemos que a Igreja muitas vezes se alimenta liturgicamente de simbolismos. O símbolo é aberto, enquanto a palavra linear é fechada e, não raro, limitada e pobre. Recorrendo amiúde à numerologia, a liturgia recorda-nos os quarenta anos de marcha do Povo de Deus, em direção a Canaã, os quarenta dias e quarenta noites que o Senhor passou no deserto, antes de ser tentado por Satanás. Portanto, a palavra quaresma está sempre ligada à reflexão e caminhada. Como nos rituais do Antigo Testamento, a quaresma cristã exorta-nos ao jejum e à conversão (em grego: metanóia). Na sociedade hodierna, fala-se muito na linguagem administrativa e biomédica em cortar gorduras. No jejum, deseja a Igreja que possamos ser capazes de cortar as gorduras do egoísmo, da vaidade, da violência, da injustiça e do desamor. Na sociedade hodierna de culto ao corpo, malha-se muito e inúmeras modalidades de exercícios são praticadas e ensinadas. Jejuar é malhar interiormente, eliminar os excessos nocivos ao ser humano para dar lugar à fome do Deus Vivo. A quaresma lembra também o êxodo do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. A partir daí, a Igreja chama a atenção sobre a nossa trajetória diária. A liturgia proporciona-nos um espaço interno e temporal, durante o ano, a fim de realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. E assim, voltando ao que é verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o renovado. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existe mais. Da mesma maneira, o “que é velho”, no dizer do apóstolo Paulo, deverá desaparecer para dar lugar à novidade de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã é a quaresma. Mas, esta não é apenas um período litúrgico. É também um momento ao longo de nossas vidas, em que devemos retornar, com a ajuda da graça divina, ao nosso interior. E ali, é indispensável realizar o encontro com nossos erros e virtudes. A celebração quaresmal convida-nos ao despojamento para um renascer. A cerimônia de cinzas significa o fim de tudo o que nos afasta do Pai e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó nossa mentira, nosso egoísmo, nossa insensibilidade, numa palavra, nossos erros, limitações e pecados, para que possa nascer em nós o “homem novo”, que Cristo Jesus veio trazer ao mundo. As cinzas traduzem simbolicamente nossa conversão, o queimar de nossos erros e o brotar de novos planos. Por isso deve surgir em cada um de nós um desejo autêntico de escuta da palavra de Deus. Caminhar ou viajar pode nos ensejar uma oportunidade de dialogar e ouvir outras pessoas. A quaresma é esse convite a uma escuta atenta e profunda de Deus Pai. É sua Palavra que ilumina nossa vida, nos convida à transformação interior e nos dá a verdadeira dimensão da misericórdia divina, do perdão e da graça do Senhor Jesus. “Somos pó e a ele voltaremos” (Gn 3, 19). Esta é mais uma das verdades sobre a qual a Igreja pretende nos conscientizar. Assim compreenderemos o significado da Quarta-feira de Cinzas. Há um apelo para destruir o velho homem dentro de nós a fim de ressurgir uma criatura totalmente renovada, segundo a expressão de Paulo (Ef. 4, 22-24). “Necessário vos é nascer de novo” (Jo 3, 3), falou Cristo a Nicodemos. Precisamos dar lugar à outra criatura dentro de nós. Eis o sentido das Cinzas que nos foram impostas, na cerimônia litúrgica, acontecida em nossas paróquias e comunidades, ao adentrarmos no tempo quaresmal, que nos levará à alegria da Páscoa do Senhor
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023
Cartas
de Cotovelo – Verão de 2023 – 7
Por:
Carlos Roberto de Miranda Gomes
CARNAVAL
DE COTOVELO 2023
Vim para a Comunidade de Cotovelo com a intenção de
apreciar os dias de Momo, mas fui raptado por Morfeu, e aproveitei muito, por
sinal.
Televisão (filmes), quem diria que chegássemos
nesta praia paradisíaca a tanta modernidade, pois o noticiário só trouxe
tragédias. Nem os desfiles tive coragem de assistir, senão as primeiras Escolas
de Samba desde sexta-feira até o sábado (São Paulo) e Domingo no Rio de
Janeiro. Hoje não sei suportarei a passarela, pois deixaram de apresentar a
espontaneidade de outrora, para oferecer um mega espetáculo para turistas.
Abracei-me com orações, mas igualmente fiz boas
leituras – uma delas surpreendente: “Diamantes Invisíveis”, de Paulo de Paula,
organizado por Iveraldo Guimarães. Não porque
Paulo não fosse uma pessoa importante, empresário bem sucedido, mas pela visão
filosófica que me proporcionou em sua obra, muito bem organizada por Iveraldo,
que já conhecia como do ramo. Paulo trata de sentimentos de conotação negativa –
como rejeição, não pertencimento, impotência e egoísmo, que permitem se
transformarem em positivos – generosidade e gratidão (ainda não terminei de
ler), mas o quanto já o fiz me deu ansiedade para terminar até o final do
Carnaval.
Ainda que, de longe, acompanhei o Carnaval da
Promovec pelas fotos e vídeos e constatei que foi um sucesso. Parabéns para os
novos dirigentes, que reverenciaram, no trajeto, o velho e querido folião Guga.
Preferi aproveitar os meus netos aqui comigo e com
alguns colegas deles, para fazermos uma sessão de mela-mela, sob o comando da
minha “Genra” Daniela, onde estiveram no cardápio: confete, serpentina, lança
espuma, banho de mangueira e piscina, sob os acordes de músicas de velhos
carnavais, coerente com a minha saudade de Thereza, que participava desta
folia.
O paradoxo da alegria das festas com as tragédias em outros estados brasileiros, deu-me motivo para reflexões dos
contrastes e a irreversível constatação de que o Espetáculo da Vida Deve
Continuar.
Não vi o mar nesses dias de retiro, pois um pequeno
problema de saúde obrigou-me a visitar uma clínica médica que me aplicou o “castigo”
de ingredientes incompatíveis com uma cervejinha gelada e outras extravagâncias
leniais.
Em nenhuma hipótese faltei com a obrigação diária e
rigorosa de assistir missa e orar pelos amigos enfermos e espíritos dos que já
foram chamados para a Eternidade.
Amanhã será o último dia de folia e ela não vai
contar com a minha participação, por mera opção, pois sou daqueles que não vê
nenhum satanismo nos que brincam e sim um tempo de alegria, confraternização
com as melhores intenções possíveis, na certeza de que após a folia muitas
amizades foram feitas, outras restabelecidas e se fez a PAZ nas terras brasilis.
