sábado, 8 de abril de 2023

 


Cartas de Cotovelo – Outono de 2023 – 10

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

TEMPO DE ORAÇÕES

Passadas as águas de março, entramos num outono atípico, com chuvas e problemas nefastos divulgados na mídia nacional e internacional, deixando a humanidade em clima de medo e pouca esperança.

Aqui no Rio Grande do Norte vivemos duas semanas de terror e total insegurança, dando exemplo da fragilidade da nossa inteligência policial e com o socorro vindo de outros estados e do governo federal para combatê-los.

Superado o clima de quase guerra, pudemos retornar ao bucolismo da nossa sempre adorada Praia de Cotovelo, onde guardamos o tríduo sagrado da Semana Santa, com propósito de retornar a morar na paz do Senhor e tranquilidade dos homens e mulheres da Comunidade.

Em face da impossibilidade física de acompanhar os diversos rituais dos cristãos, fico seguindo pela internet, coisa quase impossível no começo da nossa vinda para estas plagas, quando o que de mais modernos existiam eram o ônibus e os poucos orelhões, que permitiam nossa comunicação com o continente mais ativo da capital.

A Semana Santa sempre foi acompanhada daqui de Cotovelo, com fervor e unidade familiar, pois estava sob o comando da nossa pranteada THEREZINHA, motivo maior da alegria e que deixou um fosso profundo na vida cotidiana dos que a cercavam.

Ficaram as lembranças nos gestos, falas, exemplos e na religiosidade que sempre foram seus pontos fortes. Guardamos um Santuário organizado em sua homenagem, com os seus Santos e Santas preferidos, juntos ao seu retrato cativo e venerado.

Estou perdendo muitos atributos outrora aguçados – já tenho dificuldade de locomoção, a memória decaindo das lembranças e a falta de inspiração para escrever. Mas a fé continua firme, na esperança de poder encontrá-la na Mansão do Criador, embora não tenha o merecimento que ela teve em toda a sua vida.

Rezo todos os dias para que Deus aperfeiçoe o seu espírito e que ela possa dar algum sinal de que está bem para me alentar nesta existência já alongada e sofrida, enquanto aguardo o sinal do reencontro, como dizia Verlaine em seus versos: “Não se agite e aguarde em paz. A leveza dispensará suas asas. Alguém que o esperava vem agora ao seu encontro e seu jugo é suave” (tradução de Horácio Paiva).

Continuo a repetir: nada a reclamar, mas tudo a agradecer.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.


 


SILÊNCIO E ORAÇÕES

O Sábado de Aleluia é o dia que antecede o Domingo de Páscoa. É um momento de grande significado religioso para os cristãos, marcando a espera pela ressurreição de Jesus Cristo. Em algumas tradições cristãs, o sábado de aleluia é um dia de jejum e oração, enquanto em outras é um dia de celebração.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

 


SEXTA-FEIRA SANTA, DIA DE LUTO, REFLEXÃO E MUITA FÉ

Narrativa bíblica


De acordo com os relatos nos evangelhos, os guardas do templo, guiados pelo apóstolo Judas Iscariotes, prenderam Jesus no Getsêmani. Depois de beijar Jesus, o sinal combinado com os guardas para demonstrar que era o líder do grupo, Judas recebeu trinta moedas de prata (Mateus 26:14–16) como recompensa. Depois da prisão, Jesus foi levado à casa de Anás, o sogro do sumo-sacerdote dos judeus, Caifás. Sem revelar nada durante seu interrogatório, Jesus foi enviado para Caifás, que tinha consigo o Sinédrio reunido (João 18:1–24).

Muitas testemunhas apareceram para acusar Jesus, mas seus relatos conflitavam entre si e Jesus manteve-se em silêncio. Finalmente, o sumo-sacerdote desafiou Jesus dizendo: «Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.» (Mateus 26:63) A resposta de Jesus foi: «Tu o disseste; contudo vos declaro que vereis mais tarde o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.» (Mateus 26:64) Por conta disto, Caifás condenou Jesus por blasfêmia e o Sinédrio concordou em sentenciá-lo à morte (Mateus 26:57–66). Pedro, que esperava no pátio, negou Jesus por três vezes enquanto o interrogatório se desenrolava, exatamente como Jesus havia previsto.

Na manhã seguinte, uma multidão seguiu com Jesus preso até o governador romano Pôncio Pilatos e o acusaram de subversão contra o Império Romano, de se opor aos impostos pagos ao césar e de autodenominar "rei" (Lucas 23:1–2). Pilatos autorizou os líderes judeus a julgarem Jesus de acordo com seus próprios costumes e passar-lhe a sentença, mas foi lembrado pelos líderes judeus que os romanos não lhes permitiam executar sentenças de morte (João 18:31).

Pilatos interrogou Jesus e afirmou para a multidão que não via fundamentos para uma pena de morte. Quando ele soube que Jesus era da Galileia, Pilatos delegou o caso para o tetrarca da região, Herodes Antipas, que, como Jesus, estava em Jerusalém para a celebração da Páscoa judaica. Herodes também interrogou Jesus, mas não conseguiu nenhuma resposta e enviou-o de volta a Pilatos, que disse para a multidão que nem ele e nem Herodes viam motivo para condenar Jesus. Ele então se decidiu por chicoteá-lo e soltá-lo, mas os sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Barrabás, que havia sido preso por assassinato durante uma revolta, fosse solto no lugar dele. Quando Pilatos perguntou então o que deveria fazer com Jesus, a resposta foi: «Crucifica-o!» (Marcos 15:6–14). A esposa de Pôncio Pilatos havia sonhado com Jesus naquele mesmo dia e alertou Pilatos para que ele não se envolvesse «na questão deste justo» (Mateus 27:19) e, perplexo, o governador ordenou que ele fosse chicoteado e humilhado. Os sumo-sacerdotes informaram então Pilatos de uma nova acusação e exigiram que ele fosse condenado à morte por "alegar ser o Filho de Deus". Esta possibilidade atemorizou Pilatos, que voltou a interrogar Jesus para descobrir de onde ele havia vindo (João 19:1–9).

Voltando à multidão novamente, Pilatos declarou que Jesus era inocente e lavou suas mãos para mostrar que não queria ter parte alguma em sua condenação, mas mesmo assim entregou Jesus para que fosse crucificado para evitar uma rebelião (Mateus 27:24–26). Jesus carregou sua cruz até o local de sua execução (com a ajuda de Simão Cireneu), um lugar chamado "da Caveira" (Gólgota em hebraico e Calvário em latim). Lá foi crucificado entre dois ladrões (João 19:17–22).

Jesus agonizou na cruz por aproximadamente seis horas. Durante as últimas três, do meio-dia às três da tarde, uma escuridão cobriu "toda a terra" (Mateus 27:45, Marcos 15:13 e Lucas 23:44).

Quando Jesus morreu, houve um terremoto, túmulos se abriram e a cortina do Templo rasgou-se cima até embaixo. José de Arimateia, um membro do Sinédrio e seguidor de Jesus em segredo, foi até Pilatos e pediu o corpo de Jesus para que fosse sepultado (Lucas 23:50–52). Outro seguidor de Jesus em segredo e também membro do Sinédrio, Nicodemos, foi com José de Arimateia para ajudar a retirar o corpo da cruz (João 19:39–40). Porém, Pilatos pediu que o centurião que estava de guarda confirmasse que Jesus estava morto (Marcos 15:44) e um soldado furou o flanco de Jesus com uma lança, o que provocou um fluxo de sangue e água do ferimento (João 19:34).

José de Arimateia então levou o corpo de Jesus, envolveu-o numa mortalha de linho e o colocou em um túmulo novo que havia sido escavado num rochedo (Mateus 27:59–60) que ficava num jardim perto do local da crucificação. Nicodemos trouxe mirra e aloé e ungiu o corpo de Jesus, como era o costume dos judeus (João 19:39–40). Para selar o túmulo, uma grande rocha foi rolada em frente à entrada (Mateus 27:60) e todos voltaram para casa para iniciar o repouso obrigatório do sabá, que começou ao pôr-do-sol (Lucas 23:54–56).

quinta-feira, 6 de abril de 2023

 


Hoje celebramos a Instituição do Sacramento da Eucaristia. Jesus, desejoso de deixar aos homens um sinal da sua presença antes de morrer, instituiu a Eucaristia. Na Quinta-feira Santa, destacamos dois grandes acontecimentos:

Bênção dos Santos Óleos

Não se sabe com precisão, como e quando teve início a bênção conjunta dos três óleos litúrgicos.

Fora de Roma, esta bênção acontecia em outros dias, como no Domingo de Ramos ou no Sábado de Aleluia.

O motivo de se fixar tal celebração na Quinta-feira Santa deve-se ao fato de ser este último dia em que se celebra a missa antes da Vigília Pascal. São abençoados os seguintes óleos:
-Óleo do Crisma: Uma mistura de óleo e bálsamo, significando plenitude do Espírito Santo, revelando que o cristão deve irradiar “o bom perfume de Cristo”. É usado no sacramento da Confirmação (Crisma) quando o cristão é confirmado na graça e no dom do Espírito Santo, para viver como adulto na fé. Este óleo é usado também no sacramento do sacerdócio, para ungir os “escolhidos” que irão trabalhar no anúncio da Palavra de Deus, conduzindo o povo e santificando-o no ministério dos sacramentos. A cor que representa esse óleo é o branco ouro.

-Óleo dos Catecúmenos: Catecúmenos são os que se preparam para receber o Batismo, sejam adultos ou crianças, antes do rito da água. Este óleo significa a libertação do mal, a força de Deus que penetra no catecúmeno, o liberta e prepara para o nascimento pela água e pelo Espírito. Sua cor é vermelha.

-Óleo dos Enfermos: É usado no sacramento dos enfermos, conhecido erroneamente como “extrema-unção”. Este óleo significa a força do Espírito de Deus para a provação da doença, para o fortalecimento da pessoa para enfrentar a dor e, inclusive a morte, se for vontade de Deus. Sua cor é roxa.

Instituição da Eucaristia e Cerimônia do Lava-pés

Com a Missa da Ceia do Senhor, celebrada na tarde de quinta-feira, a Igreja dá início ao chamado Tríduo Pascal e comemora a Última Ceia, na qual Jesus Cristo, na noite em que vai ser entregue, ofereceu a Deus-Pai o seu Corpo e Sangue sob as espécies do Pão e do Vinho, e os entregou para os Apóstolos para que os tomassem, mandando-lhes também oferecer aos seus sucessores.

Nesta missa faz-se, portanto, a memória da instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Durante a missa ocorre a cerimônia do Lava-Pés que lembra o gesto de Jesus na Última Ceia, quando lavou os pés dos seus apóstolos.

O sermão desta missa é conhecido como sermão do Mandato ou do Novo Mandamento e fala sobre a caridade ensinada e recomendada por Jesus Cristo. No final da Missa, faz-se a chamada Procissão do Translado do Santíssimo Sacramento ao altar-mor da igreja para uma capela, onde se tem o costume de fazer a adoração do Santíssimo durante toda à noite.

Prof. Felipe Aquino


quarta-feira, 5 de abril de 2023

 

QUARTA-FEIRA SANTA

OFÍCIO DE TREVAS

A TRAIÇÃO




Na Quarta-Feira Santa, a Igreja nos propõe meditar o Evangelho de Jesus segundo Mt 26, 14-25. Essa leitura nos apresenta a traição de Judas. 




terça-feira, 4 de abril de 2023

 

Para viver a Semana Santa

Padre João Medeiros Filho

No domingo passado, teve início a celebração da Semana Santa. Nela, acompanhamos a Paixão de Cristo, presente no calvário de tantos irmãos nossos. Talvez aflorem à mente dos cristãos apenas sentimentos de tristeza, dissabor e provação. Entretanto, não deve ser esquecido algo fundamental: Cristo derrotou a morte. Ao vencedor as palmas da vitória! Eis o prenúncio dos ramos, aclamando o Filho de Deus, como Rei e Senhor da História. Mas, “o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36), preconizava o Mestre. Muitos de seu tempo (como vários cristãos atuais) não compreenderam os motivos de sua condenação. Jesus abalou com sua doutrina e pregação as estruturas da sociedade onde Ele vivia. Representava uma ameaça aos que oprimiam o povo. E isto se repete até os dias de hoje, maquiado e latente em disputas políticas e ideológicas, no radicalismo em detrimento do bem comum. Cristo veio anunciar novos tempos (Ap 21, 5). “Mas, os seus não compreenderam” (Jo 1, 11). O Verbo de Deus quis habitar entre nós para proclamar o Reino da Justiça e da Paz. O Brasil caminha na contramão dessa realidade.

O Apóstolo Paulo pregou: “É preciso completar em nosso corpo aquilo que faltou à Cruz de Cristo” (2Cor 4, 10). “Ela representa a expressão da prepotência, má vontade e intolerância”, afirmara o Cardeal Cardijn. Deste modo, a Semana Santa não é somente a comemoração da Paixão do Senhor, como evento histórico. É também a reflexão sobre nossas angústias, dores, aflições e dificuldades. A população brasileira está sendo cada vez mais atingida pela ineficiência da saúde, educação, segurança e falta de emprego. Padece sob o peso do terror apregoado, da sombra da morte avizinhada. Isso dá-nos uma ideia do que vivemos na Semana Santa, ou seja, a via sacra cotidiana de nosso povo, assumida por Cristo numa demonstração de misericórdia e compaixão. Não esqueçamos sua advertência: “o discípulo não é maior do que o Mestre” (Mt 10, 24). Deste modo, poderemos percorrer o mesmo caminho. Somos o seu Corpo Místico, por isso atualizamos em nossas vidas o que acontecera, há mais de vinte séculos. 

Mas, não só de tragédias e fracassos é feita a existência humana. A Ressurreição de Cristo é a vitória sobre a maldade. Celebra-se no Domingo de Páscoa o triunfo sobre o pecado, isto é, o resgate humano concretizado. Cristo ressuscitou e já não morre mais! É imortal, por ser Filho de Deus, pelos seus ensinamentos perenes, sendo “Caminho, Verdade e Vida” (Jo 14, 6). Nesta Semana Santa sepultemos o egocentrismo, as polarizações, a polêmica deletéria entre os dignitários, os interesses sub-reptícios, enfim, nossos erros. É necessário haver uma Sexta-Feira Santa para cada um de nós, mormente no Brasil hodierno, buscando enterrar os descompassos individuais e coletivos a fim de preparar a Páscoa. A Paixão e a Ressurreição não são atos isolados, mas precedidos pela Quinta-feira Santa: celebração da fraternidade e da união. Existirá Páscoa, se houver comunhão, harmonia, diálogo e consenso. Este é um convite ao Brasil. Haverá Ressurreição, quando o amor se fizer presente.

No mistério da Semana Santa vivencia-se a resposta suprema de Cristo ao desafio permanente do Mal, que divide e separa, levando à fragmentação e destruição. Na Cruz se vislumbra a manifestação da ternura infinita de Jesus por nós. Na Semana Santa deste ano, vamos meditar também sobre a agonia de Cristo na realidade de tantas vítimas de uma pátria dilacerada pelo ódio e pela intransigência, rejeitando a fraternidade, conquistada pelo sangue de Cristo. Neste ano de 2023, Jesus revive a sua Paixão na insegurança, na penúria da saúde pública e na ausência de uma educação de qualidade, na tristeza dos relegados aos improvisos e desatenções de administradores e governantes. O Filho de Deus agoniza nos irmãos vítimas da corrupção, do descaso e conceito sofismado de vida, como se fora algo abstrato e irreal. Que haja Páscoa para todos, passagem do desalento para a esperança, da tristeza para a alegria, do fracasso para a glória! “Confiança, eu venci o mundo” (Jo 16, 33), assevera-nos Cristo, o vitorioso e Ressuscitado.

 

domingo, 2 de abril de 2023

 

FÉ - AMOR - CARIDADE

JESUS INGRESSA TRIUNFALMENTE EM JERUSALEM

PARA O CUMNPRIMENTO DA PROFECIA

FELIZ DOMINGO DE RAMOS

O Domingo de Ramos é uma data móvel celebrada no domingo anterior à Páscoa.

Nesse dia, que não é feriado, inicia-se a Semana Santa. A celebração lembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, dia em que ele foi recebido como o Filho de Deus.

Nessa ocasião, as pessoas o saudaram com ramos de palmeira e oliveira, motivo pelo qual ficou conhecido como Domingo de Ramos, enquanto Jesus seguia montado em um jumentinho simbolizando a humildade nos seus últimos dias terrenos.

Portanto, o significado do Domingo de Ramos é recordar o reconhecimento de Jesus como registrado nos Evangelhos:

“E a multidão que ia adiante, e a que seguia, clamava, dizendo: Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas! E, entrando ele em Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou, dizendo: Quem é este? E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia.” (Mateus 21: 9-11)

sexta-feira, 31 de março de 2023

 



A VIAGEM

           O ditado popular afirma que o tempo apaga tudo. Será uma verdade absoluta?

Respondo por mim dizendo NÃO. O tempo aumenta a lembrança, o amor e a saudade.

Foi no dia 31 de março de 2019 que partiu a minha inesquecível THEREZINHA ROSSO GOMES para a eternidade. De lá até hoje mantenho firme a minha fidelidade a um amor de 71 anos nesta dimensão da vida e que ficou eterno na dimensão do tempo.

Fiquei sem o meu mais precioso diamante, o meu descanso, a minha inspiração, a companhia indispensável para as tarefas do cotidiano e cúmplice dos momentos alegres e tristes da existência.

O sol não brilha mais para mim com a mesma intensidade, mas devo continuar trilhando o caminho da jornada que me foi reservada.

Não questiono o tempo de DEUS, mas rogo que Ele proteja eternamente o espírito dessa criatura que foi um exemplo de esposa, mãe, filha e amiga.

Minha homenagem e minha saudade.


 


O DNA e as doenças de Beethoven 

Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN 

Há poucos dias, recebi do amigo Carlos Alberto Araújo, confrade da Academia de Medicina do RN, postagem a respeito de matéria publicada no NYT, que se reporta a estudos recentes sobre as causas da morte de Beethoven, ocorrida quase 200 anos atrás. Os estudos, publicados na revista Current Biology, amplo órgão de divulgação das ciências biológicas, foram realizados na Universidade de Cambridge, Reino Unido, tendo à frente o pesquisador e professor Tritan Begg, na condição de líder de um grupo. Esses pesquisadores de genoma antigo, na referida universidade, extraíram material genético de sete mechas de cabelo preservado de Ludwig van Beethoven. Das sete mechas, cinco amostras combinaram entre si e foram consideradas como autênticas de serem do famoso compositor. Os métodos avançados de sequenciamento do DNA permitiram o êxito da atual pesquisa. Êxito no tocante às doenças que levaram ao falecimento, porém, com pouco avanço no tocante à causa da surdez progressiva que muito afligiu a vida desse fantástico gênio da música. Beethoven nasceu em 15 de dezembro de 1770, em Bonn, Alemanha, e faleceu em 16 de março de 1827, em Viena, na Áustria. Em 1796, com a idade de 26 anos, Beethoven começou a perder a audição, o que veio a tornar-se seu grande martírio. Neste estudo realizado com o DNA colhido da amostra do cabelo do compositor, consta que Beethoven, 25 anos antes da sua morte, ou seja, em 1802, escrevera uma carta aos seus irmãos na qual, diante da crescente surdez, pedira apoio por parte deles para implorarem ao seu médico uma cura do seu problema de audição. Begg e seus colegas especularam o genoma do compositor em busca de diversas condições ligadas à perda de audição, mas não chegaram a uma conclusão. Marcadores genéticos de Beethoven indicavam risco elevado de desenvolver Lúpus, mas essa doença não é causa de surdez. O pesquisador Walther Parson, biólogo molecular forense da Universidade Médica de Innsbruck, linda capital da região do Tirol, na Áustria, que já atuou em outros casos históricos, a exemplo da identificação, em 2007, de dois filhos de Nicolau II, último czar do Império Russo, descarta a chance de Lúpus, mas afirma sobre a pesquisa: “É uma grande conquista tecnológica.” Agora, o novo caminho poderá ser o estudo genético da otosclerose sofrida por Ludwig van Beethoven, quando um minúsculo osso do ouvido, chamado estribo, se funde a outras partes do órgão. Em 08 de abril de 2021, publiquei, nesta Tribuna do Norte, o texto “As doenças de Beethoven”, no qual relatei as principais enfermidades que vitimaram esse gênio da humanidade. Além da sofrida surdez, citei frequente colite, hemoptise, hepatite, dores reumáticas, grande uso de álcool, e, com destaque, a cirrose hepática, constante na certidão de óbito. A perda progressiva de audição, desde a idade de 26 anos, levou Beethoven a externar o intuito de cometer suicídio, livrando-se desse gesto extremo em face do seu grande amor à arte musical. Este recente estudo sobre as doenças de Beethoven, realizado na Universidade de Cambridge, Reino Unido, se não trouxe novidades quanto às doenças do grande gênio mundial da música, trouxe a certeza desses diagnósticos, amparada nos avanços do sequenciamento de DNA de amostras degradadas por longo tempo. Texto publicado na Tribuna do Norte, em 30/03/2023.

quarta-feira, 29 de março de 2023

 

    No dia de hoje comemoramos os 121 anos do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE - Instituição privada mais antiga do Estado onde temos arquivado um manancial de documentos e obras da maior importância para os pesquisadores e pessoas que primam pela busca da sua história de glórias.

P A R A B É N S

    Por questões administrativas, as comemorações ocorrerão no dia 30 (amanhã), conforme CONVITE que em seguida reproduzimos:

CONVITE A Presidenta do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte Joventina Simões Oliveira convida Vossa Senhoria para a celebração dos 121 anos da Instituição e para o evento de outorga de título a novos sócios. Na solenidade, a governadora Fátima Bezerra receberá a Medalha Vicente de Lemos; o professor e pesquisador Manoel Negreiros, a Placa Olavo Medeiros Filho. Haverá também a apresentação da Revista nº 100 da Instituição. 30 de março de 2023 às 19h | Teatro Alberto Maranhão Confirmar presença: (84) 99225-0721 Traje: passeio completo



terça-feira, 21 de março de 2023

 

A virtude da delicadeza

Padre João Medeiros Filho

Em artigo publicado no Jornal do Brasil, em junho de 2006, o escritor Affonso Romano de Sant´Ana opinou como necessária a virtude da delicadeza para redimir a grosseria e a violência, que parecem dominar o mundo hodierno. O termo possui larga sinonímia na língua portuguesa: afabilidade, atenção, amabilidade gentileza, doçura, suavidade etc. Provém do latim castrense “delicatum”, significando desligado, solto, leve, liberto, delicado. Este não possui amarras, é livre das convenções e chega a possuir na linguagem bíblica o sentido de autêntico. Na literatura veterotestamentária identifica-se com ternura. A esse respeito, Carlo Rocchetta escreveu um belíssimo trabalho, intitulado Teologia da Ternura.

Importa ser atento e sensível ao outro, à sua dor e alegria. O cristianismo ensina-nos que a delicadeza é uma virtude bíblica, cuja razão de ser reside na essência de Deus. O salmista deleita-se com a suavidade divina, exortando os que o leem ou escutam: “Provai e vede como o Senhor é suave. Feliz o homem que nele se abriga” (Sl 34/33, 9). Cristo, em suas recomendações aos discípulos, mostrando que se deve amar até mesmo os inimigos, aponta o fundamento evangélico da necessidade de sermos afáveis e ternos uns com os outros. Uma das novidades de sua pregação consiste em afirmar que Deus é Pai, cheio de bondade, comiseração e paciência conosco. O apóstolo Paulo, pregando aos gálatas, enumera entre os frutos do Espírito “a brandura e a delicadeza” (Gl 5, 22). Elias experimentou Deus na serenidade da brisa. “Ele é suave e doce”, afirmou Teilhard de Chardin. Na verdade, a inefável presença de Deus é tácita e partilhante.

As palavras de Cristo são plenas de sinais (inefáveis e sem parâmetros) da delicadeza e doçura de Deus. “Vinde a mim todos vós que estais cansados sob o peso do fardo e eu vos aliviarei. Sim, o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 30). Cristo revelou-se sempre em seus encontros como uma pessoa solícita, capaz de escutar e compreender. Quanta atenção com Zaqueu, a samaritana, a mulher pecadora e até Dimas, seu vizinho de crucificação. Vários exegetas, dentre eles Jacques Dupont em “Les beatitudes”, afirmam que a delicadeza é uma bem-aventurança e traduzem por “bem-aventurados os delicados” (Mt 5, 5), em lugar de mansos. Alguns Padres da Igreja, como Irineu de Lyon e Gregório de Nissa, compreendem que a bem-aventurança da mansidão habita naqueles que se mostram delicados e atenciosos com os irmãos.

Na verdade, o mundo de tanta irritabilidade, impaciência, insensibilidade, falta de tempo e agressividade caminha na contramão do Evangelho. Santo Antão, anacoreta e pai dos monges orientais, ensinava que a falta de delicadeza com o outro é sempre grave, pois lesa a natureza do ser humano, criado à imagem de Deus. Este é terno e compassivo com todos. Quando seminarista na Bélgica, fui designado para acolitar a missa do Cardeal Joseph Cardijn. Dele ouvi: “Pode-se medir a espiritualidade de uma paróquia pela delicadeza com que se é tratado na sacristia ou secretaria.” Simone Weil, judia convertida ao cristianismo, a definia como “o sorriso do coração. Só a possui quem priva da intimidade com Deus.” Quem é próximo do Altíssimo, percebe a sua afabilidade, sente o seu toque doce dentro de si, sabendo reconhecer sua presença nos outros. E, se por ventura, alguém não agradar aos nossos olhos, não deve esquecer sua beleza interior, pois todos são templos do Espírito Santo (cf.1Cor 3, 16). Cada ser humano é sacramento do Divino.

 É conhecido o poema de São João da Cruz, dedicado ao Crucificado: “Oh! Toque de amor, quão delicadamente me amas!” A experiência da suavidade divina convida-nos a ultrapassar os limites da violência que nos desumaniza. Lembremo-nos dos recentes acontecimentos, aqui no RN, beirando à barbárie. Por isso, a delicadeza faz-se cada vez mais necessária, nos dias atuais. É preciso senti-la, como a mão de Deus que nos acaricia, para poder irradiá-la aos nossos irmãos. Eis o conselho contido no Livro dos Provérbios: “Uma resposta delicada acalma, enquanto uma palavra áspera atiça o furor” (Pr 15, 1).

segunda-feira, 20 de março de 2023

 

Genardo Lucas, um pioneiro esquecido da música erudita potiguar

Em texto publicado no site Navegos, historiador lembra a importância do primeiro violonista erudito do Estado, que faleceu em 2020, aos 85 anos

Por Claudio Galvão | texto original do site Navegos  www.navegos.com.br

A tradição de Natal como terra de intelectuais, poetas e boêmios vem dos anos 1800. Há uma quadrinha popular que diz: “Rio Grande do Norte / Capital Natal / Em cada esquina um poeta / Em cada rua um jornal”. Na área musical, por exemplo, a publicação “A Modinha Norte-rio-grandense” (Edufrn; 2000), de minha autoria, apresenta letras e partituras musicais de trezentas e sessenta e uma modinhas que eram cantadas na cidade, sendo duzentas e uma delas de autor local confirmado. Não se conhece pesquisa semelhante em outros Estados do país.

O poema musicado era mais conhecido como modinha. A quase totalidade deles era originado de autores que compunham ao violão, um instrumento tocado sempre “de ouvido”. Era raramente solista, mas sempre acompanhador de cantores ou outros instrumentos. Sabe-se com certeza que o mais antigo poeta de Natal foi Lourival Açucena (1827-1907). O seu livro póstumo de poemas, “Polianteia”, traz alguns deles com a advertência: “Tem muzica do auctor”. É ele o primeiro poeta que se conhece sendo “tocador de violão”.

Depois dele vem Heronides de França (1860-1926), de quem se tem notícias graças aos jornais da época. Sabe-se que era também solista, mas não deixou nada escrito. As músicas que criou para versos de poetas locais são de grande riqueza melódica. Vem, em seguida, Eduardo Medeiros (1888-1961), que se notabilizou como autor da melodia da célebre “Praieira dos Meus Amores”. Mais recente é Olympio Baptista Filho (1889-1942), ele mesmo também poeta e autor de grande número de belas melodias. Resta destacar o violonista Henrique Brito (1907-1935) que, residindo no Rio de Janeiro, foi o primeiro natalense a gravar discos. A cidade foi perdendo paulatinamente os velhos hábitos dos poetas, violonistas e cantores vivendo românticas serenatas pelas ruas desertas.

O progresso dos toca-discos, cinema, rádio e, recentemente, a televisão puseram o ponto final. Agora as músicas são outras, inteiramente diferentes. O velho violão popular, tocado “de ouvido”, também haveria de ter a sua transformação, mesmo que ainda mantendo a tradição dos acompanhadores. Tudo começou com a presença em Natal do violonista areia-branquense Amaro Siqueira (1908-1970), que estudou violão no Recife. Voltando para Natal, ensinou violão no Instituto de Música e para particulares. Apresentou diversos recitais e, no dia 26 de setembro de 1948, criou o Clube do Violão. Iniciava-se, então, a fase do violão erudito na cidade, com repertório tanto popular como clássico e sempre tocado por música. É nesse contexto que aparece o jovem Genardo Lucas da Câmara, hoje com 84 anos.

Quando criança, tocou trombone numa banda infantil, aí se iniciando na teoria musical. Em sua casa, a maior influência: seu pai, João Lucas da Costa, e seu tio, José Lucas, eram exímios violonistas populares. O contato com o Clube do Violão indicou-lhe o caminho do instrumento tocado por música, rapidamente ingressando no repertório erudito. Sem contar com apoio de um professor, desenvolveu-se apenas através do conhecimento da teoria musical, aliado a seu talento e particular musicalidade. Genardo Lucas marcou a história da música no Rio Grande do Norte por ter sido o primeiro natalense a apresentar recitais eruditos de violão.

Seu primeiro concerto realizou-se no Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão), no dia 12 de janeiro de 1954. A 5 de junho de 1957 apresentou-se no salão de festas da sede do ABC Futebol Clube (prédio demolido, onde hoje é o CCAB-Petrópolis). Apresentou-se, ainda, no Recife, no auditório da Caixa Econômica Federal, em 30 de maio de 1959. Seu último recital realizou-se no Clube dos Oficiais da Base Naval de Natal, em 26 de junho de 1960.

A partir de então, na impossibilidade de dedicar-se inteiramente à sua arte por falta de campo profissional na cidade, dedicou-se a outro tipo de atividade. Hoje, a Escola de Música da UFRN oferece cursos completos de violão, a cargo de professores portadores de mestrado e doutorado, oferecendo ainda mestrado no instrumento.

Há sessenta anos passados, as dificuldades eram quase intransponíveis. Os cultores do violão têm hoje todos os motivos para reconhecer e homenagear o exemplo, força de vontade e pioneirismo de Genardo Lucas, nosso primeiro violonista erudito.

*Claudio Galvão, professor e criador do Departamento de Artes, do Núcleo de Arte e Cultura e do Laboratório de Restauração de Livros e Documentos da UFRN, é autor do livro “Oswaldo Souza – O Canto do Nordeste” (Funarte; 1988), além de ser pesquisador, organizador e introdutor das obras de Othoniel Menezes, Tonheca Dantas e Sebastião Fernandes.
*O violonista faleceu em 2 de março de 2020, na Policlínica, aos 85 anos. Estava lúcido e ainda tocando violão. 

sexta-feira, 17 de março de 2023

 

INVENTÁRIO DOS BENS ESSENCIAIS

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Vivo o desconforto e a nostalgia de mim mesmo ao me deparar com o sonho dos meus vinte anos que a idade madura não confirmou. Sinto-me disperso, irrealizado, quando retorno às minhas origens telúricas. A meta de trazer o passado ao presente, reconstruí-lo pela palavra e pensamento a fim de reconquistar a minha auto-estima, parece-me uma tarefa hercúlea porque constato que o personagem não sou eu mas, sobretudo, o tempo. Deduzo que, precisaria recriar os fatos e renascer as pessoas. Verifico que sou o resultado de todas as convivências e acontecimentos afins do passado. Por isso, o vácuo e a irritação me arrastam ao entendimento inconcluso de que tudo foi ilusão e fantasia, ou infecção sentimental.

Mas, o patrimônio existencial da terceira idade, onde a memória olfativa, a auditiva e, principalmente, a visual, procuram restituir-me o universo perdido das fases inaugurais da vida. Aquela lua cheia, por exemplo, vista do cais do rio Jundiaí em Macaíba, como se estivesse pendurada por fios invisíveis, atrás dos coqueiros e eucaliptos, infundia-me na adolescência, negro mistério do tempo da colonização dos escravos, índios e colonos, de escuridão e medo, como se as fases da lua chegassem naquele tempo por édito imperial. Como me perco na contemplação do Solar do Ferreiro Torto e os seus sortilégios de poder, carne, cobiça e paixão. E a descortinação surpreendente do Solar dos Guarapes. Quantas perguntas insaciadas não existem sobre o que ocorreu ali? Os seus fantasmas que subiam e desciam a colina sob a batuta do senhor de engenho numa cosmovisão ora polêmica, ora lírica, dentro do abismo da memória?  “Tu não mudas o mundo. Mas o mundo te muda”. Talvez essa frase de Otto Lara Rezende explique e me convença que o futuro nada tenha a ver comigo, porque o passado está mais presente em mim do que o próprio presente.

Em cada rua onde passo em minha terra natal, revisito os mortos na lembrança tentando reconstituir os fatos com os quais dividi o tempo. Adquiri o hábito de rezar por quase todos eles, todas as noites. Faço-os prolongar no meu convívio pela relembrança. Para mim o chão dos antepassados é sagrado, mesmo que estejam sepultados nele resquícios enferrujados e rangentes de um perdido fausto. Macaíba, mesmo debilitada pela decadência física, da feição das fisionomias de ontem e das coisas, o que mais me dói nela é o sumiço das boas mentalidades e dos antigos costumes, como se fosse hoje um porão cheio de escuro oblívio, melancolia e solidão. Nostalgias, nada mais. Apenas, inventário dos bens essenciais.

Por fim, digo como um poeta “que revolvendo o passado, é que se encontra a palavra que envolve a unidade do gênero humano”. Nesses tempos agitados, de assaltos, homicídios, que ultrapassam estatísticas criminais, só nos restam assumir o compromisso com o imponderável e repetir sempre que só o “amor pode ler o que está escrito nas mais remotas estrelas”, no dizer de Wilde, que era místico na arte, na vida e na natureza. Tudo está suspenso no ar. Fora da vida pública procuro ser feliz e calmo para ser livre e isento, sem aspirações maiores, além do sonho vivido.

Interessa-me ser simples, sombra e luz, palmilhando ainda na casa dos oitenta, afanosos instantes de profundidade vital.

                                                                                (*) Escritor

quarta-feira, 15 de março de 2023

 

FAMOSOS – MANIAS e HOBBIES

 

Diogenes da Cunha Lima

 

Manias e hobbies são próprios da natureza humana. Celebridades, gente famosa, não fogem à regra. Ambas têm caráter repetitivo. Enquanto os hobbies funcionam como distração, divertimento, as manias são hábitos que se repetem e, quando exageradamente repetidos, são patológicos, indicam um transtorno bipolar.

Estes substantivos definem a atitude de famosos. 

 

       Charutos e conhaque. O cardeal Dom Eugênio Salles, quando se sentia realizado, feliz, celebrava fumando e bebendo do melhor.

 

       Canivete. O cardeal Dom Jaime Câmara, de sangue potiguar, que fora bispo em Mossoró, guardava sempre no bolso da batina um canivete que usava para descascar laranja.

 

        Trocadilho. Dom Marcolino, primeiro arcebispo de Natal, era famoso pelos seus trocadilhos. Conta-se que inaugurou a casa comercial da família Bila, na Ribeira, dizendo: “Natal não merece uma bala porque é cidade bela, é aqui que mora os Bila, o que não me sai da bola é que ela merece uma bula de louvores”.  

 

        Cálice. Câmara Cascudo solenizava os acontecimentos marcantes, como aniversário de Verlaine e de Proust, bebendo em cálice de prata. De manhãzinha, ia ver uma trepadeira chamada botão-de-ouro para cumprimentá-la dizendo: “Bom dia, flor”.

 

        Conhaque de Pitanga. Gilberto Freyre servia aos amigos o seu conhaque (de pitanga). Segundo Lectícia Cavalcanti, autoridade brasileira em gastronomia, era produzido com frutas maduras do Solar de Apipucos e trabalhada com cachaça de cabeça.

 

        Monogramas. O senador Dinarte Mariz usava camisas com as letras bordadas DM. Vestia-se, impecavelmente, com alfaiate que trabalhava no Rio de Janeiro e Hong-Kong.

 

        Formiga preta. O reitor Onofre Lopes, fundador da UFRN, sentia-se grato às formigas. Jovem, trabalhava no campo (o chamado Lugar Comum) e tolerava a seca, o calor, a canseira do trabalho agrícola, mas o horror da picada das formigas pretas fez com que viesse para Natal e, aqui, principiasse seus estudos letrados e científicos.

 

        Vaqueiro. Silvio Pedrosa, governador do RN, havia cursado colégio nobre em Londres, era esgrimista, mas apaixonado por vaquejada. Cascudo chamava-o de “vaqueiro honorário”.

 

                  Biblioteca. A poeta Zila Mamede era sempre louvada como bibliotecária, rigorosa ao extremo. Eu estava como reitor e pedi a um funcionário para me trazer um livro de que estava precisando. Ele logo voltou dizendo que a diretora da biblioteca central disse ser impossível emprestar o livro a quem não estava com ficha regular. Depois me trouxe o livro, mas avisou: “Tome muito cuidado, porque o empréstimo está em meu nome”.

 

         Os famosos dedicaram o seu tempo livre aos hobbies preferidos e suas manias são contadas com graça e leveza.

 

terça-feira, 14 de março de 2023

 

O bispo que se aspira e inspira

Padre João Medeiros Filho

Este texto não resulta de uma consulta formal, tampouco consiste num documento institucional ou estudo comparativo. É fruto de diálogos fortuitos entre religiosos, leigos engajados e o Povo Deus. Há quem professe credo diferente. Entretanto, preocupa-se com a dinâmica da fé e sua influência sobre a sociedade. Afirma-se que a Igreja exerce significativa liderança. Recorda-se o Movimento de Natal com sua força propulsora para o desenvolvimento regional. Inegáveis são o contributo das escolas radiofônicas, dos centros sociais e a importância de tantas outras iniciativas, dentre elas, incentivo ao artesanato e cooperativismo, atenção à saúde básica e educação. A antiga Escola de Serviço Social exerceu um papel relevante para as mudanças estruturais.

Natal é uma das grandes arquidioceses brasileiras em dimensões territoriais e populacionais. Atualmente, a circunscrição eclesiástica detém uma superfície de 25.153 Km2 (quase metade da área do RN) e cerca de 2.191.000 habitantes, dos quais 1.752.793 católicos. O arcebispado – que se estende da capital do estado à cidade de São Rafael (distante 220 Km) – compõe-se de mais de cem paróquias e áreas pastorais, um clero ultrapassando duzentos presbíteros e cem diáconos permanentes.

A diocese foi criada em 29/12/1909 por Pio X, pela bula papal “Apostolicam in Singulas” (abrangendo todo o RN), sendo desmembrada da diocese da Paraíba. Posteriormente, cedeu território e clero para a instalação das dioceses de Mossoró (1934) e Caicó (1939). Foi elevada à categoria de arquidiocese, aos 16/02/1952 pelo documento pontifício “Arduum Onus”, do Papa Pio XII. Até o momento, foram seus pastores: quatro bispos e seis arcebispos diocesanos. Além deles, houve dois prelados auxiliares e três administradores apostólicos: um com a sé vacante (antes da nomeação do primeiro bispo) e os demais com a “sede plena”. A designação destes últimos foi decorrente da limitação, por cegueira, de Dom Marcolino Dantas, o qual ocupava o sólio episcopal. Entretanto, tais clérigos diferem de antístites transferidos, que permanecem governando o bispado até a posse em outra circunscrição eclesiástica.

Pergunta recorrente entre os fiéis: que pastor se deseja? Um homem de Deus, com espiritualidade marcante, fé contagiante, apaixonado pelo Evangelho, preocupado com toda a comunidade, dinâmico e de uma simplicidade que aproxima. Aspira-se que saiba nutrir a vida cristã com a Sagrada Escritura, Teologia, Mística e Espiritualidade. O Código de Direito Canônico recomenda (cânon 378, § 5º) que os candidatos ao episcopado possuam o grau de doutor (ao menos, mestre) em uma das disciplinas: Sagrada Escritura, Teologia e Direito Canônico ou sejam verdadeiramente versados nelas. O apóstolo Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, traça o perfil episcopal: “É preciso que seja irrepreensível, sóbrio, ponderado, educado, hospitaleiro, apto para ensinar e moderado...” (1Tm 3, 2-4). E São Gregório Magno, em sua Regra Pastoral, lembra as virtudes que deve possuir: “É indispensável que tenha pureza de alma, ação exemplar que convença, a discrição do silêncio, palavras úteis, atenciosa compaixão, contemplação que o desapegue da terra, humildade que o faça irmão e servidor.”

  Anela-se que seja amante da Doutrina Social da Igreja e desejoso de apascentar a juventude e a população universitária. Hoje, a arquidiocese detém uma comunidade acadêmica mais numerosa que muitas paróquias. A presença do clero deve ser marcante nesse setor. Há necessidade de sacerdotes com acurada formação, espírito cientificamente crítico e abertos ao diálogo. A universidade é um espaço de reflexão, onde há lugar para o Evangelho. Nas décadas de 1960 a 1990, o arcebispado dispunha de dezesseis padres docentes nas universidades públicas. A comunidade acadêmica contava aproximadamente com doze mil pessoas. Atualmente, ultrapassa sessenta mil, tendo apenas um sacerdote lecionando no ensino superior. É fundamental uma preocupação com o ensino religioso nos colégios. Está desaparecendo a figura do padre ou freira professor de religião. Há algo que se deverá respeitar: a cultura de nosso povo. Convém cuidar de sua alma. Existe um fator endógamo nas famílias, tornando-as unidas e coesas. Mas, a mídia e as redes sociais tentam cindir tais vínculos.  “Cuidai de todo o rebanho sobre o qual o Espirito Santo vos estabeleceu como apascentadores da Igreja de Cristo, adquirida com o seu sangue.” (At 20, 28).