sexta-feira, 12 de julho de 2013

A RUA NOVA



Gileno Guanabara

A “Rua Nova” passou a ser chamada de Avenida Rio Branco, apelido que antes fora “Visconde do Rio Branco”, na Ribeira. Com a mudança, vieram os postes de ferro, iluminação, pavimentação, canteiros, calçadas de mosaico e filas de mugubeiras e ficus benjamin. As famílias prosavam nas calçadas, antes da ceia e se recolhiam para dormir. Os bondes e automóveis trafegavam em mão dupla. Os bondes deixavam de circular às 22,00 horas. Eram recolhidos nas oficinas, final da “Rua do Fogo”, na parte do Baldo que se chamou de“Oitizeiro”.

O comércio migrou da Ribeira para a Cidade Alta. A cidade e o comércio foram tomados por turcos, libaneses e italianos que praticavam o comércio e amealharam riqueza. Os ambulantes andavam pelas ruas a pé, de paletó, gravata e chapéu. Portavam malas de couro. Batiam palmas nas portas e vendiam a prestação tecidos, capas e guarda-chuva, galocha, pentes e leques. Os “turcos” anotavam as contas e os pagamentos em fichas.

Do Mercado Público saiam os verdureiros encorcudados com o peso das arupembas empilhadas num eixo sobre o ombro. Vendiam verduras, legumes e peixes. Os triângulos sonoros repicavam o “cavaco chinês”. Outros vendiam tapioca. Os tabuleiros do “Cucus da Mata” madrugavam. Os tropeiros traziam no lombo dos burros em fila os caçuás com caranguejo, verduras e frutas. Cortavam a madrugada, despertavam o “Beco da Lama”, com o estalar dos seus chicotes. Cedinho, se estabeleciam na pedra. A Avenida Rio Branco ganhava novas lojas, refletindo a origem de seus donos: “A Formosa Syria” (de Hassan Amin & Filhos); “Casa Duas Américas” (Nagib Salla e irmãos); “Casa Vesúvio”(Francisco Maiorana); “Granada Bar – Confeitaria” (Nemésio Morquecho Morina); “Casas Tic-tac” (Habib Chalita); “Armazem Natal” (família Lettieri), dentre outras.

A Escola de Artífices (ex-Escola Industrial de Natal, e Instituto Federal de Educação), construção imponente, esquina com a atual Rua Professor Zuza, ocupava a quadra da Avenida Rio Branco. Abrigou gerações que, em horário integral, estudaram os ofícios de sapataria, alfaiataria, mecânica e outros misteres. Na outra esquina da Rua Professor Zuza, “Seu Josino” dos “mistos” de cabine dupla que faziam a linha Natal/São Tomé. Seus filhos, Juvanklim e João Gilfranklim, exímios violonistas compunham com Zé Erivan e vocalizavam boleros de amor. O “Educandário Natal”, do professor Severino Bezerra, na esquina com da atual Rua General Ozório e depois, defronte o Mercado Público, se chamou “Ginásio Natal”. A sede benemérita da“Associação dos Professores”. O mistério do consultório do Dr. Demétrio Viveiros. O Dr. Paulo Luz e o primeiro aparelho de Raio X de Natal. A Liga Operária Norte-riograndense. A Escola Normal já na descida em direção à Ribeira. Casarios foram construídos na ladeira do Baldo.

O castelo da viúva Chiquinha Freire, esquina da Rua João Pessoa com a Avenida Rio Branco. Conta-se que na lateral do castelo foi afixado o reclame de um fortificante. A mensagem ilustrava: “o peito de aço”. O povo vinculou o epíteto à imagem da proprietária: “A viúva do peito de aço”.

Poucos automóveis passeavam nas ruas e desfilavam na alegria dos carnavais. As marcas “Chevrolet”, “Hudson”; “Dodge”;“Plimothy”; “Ford” e “Mercury”, eram importadas. As “sopas” foram os primeiros auto-coletivos de transporte movidos à gasolina, no trajeto Alecrim/Ribeira. Foi-se o tempo das festas natalinas. Enquanto a “missa do galo” não vinha, moças e rapazes passeavam e se enamoravam nas calçadas, enquanto espiavam as vitrines das lojas.

O primeiro semáforo de trânsito foi edificado no cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa. O tráfego vinha da Ribeira e descia pela Avenida Rio Branco, rumo ao Alecrim. De volta à Ribeira, retornavam pelo canal do Baldo e atravessavam aquele mesmo cruzamento. O semáforo se assentava na base de alvenaria e tinha cobertura de metal. Ao final do mastro se apoiavam os sinais coloridos. O guarda postado sobre a base orientava o tráfego. Ao apito referente ao sinal verde, a multidão aglomerada evoluía em bloco, numa gritaria uníssona. Caminhava até atingir a outra calçada. Do jeito que ia, voltava com o mesmo alvoroço, durante várias vezes, movida apenas pelo apito do guarda.

Nos anos de 1950, na Avenida caminhou Getúlio Vargas. Nela Juscelino e Jango discursaram. Por ela, o féretro de Dix-sept Rosado foi conduzido em romaria. Anos depois, uma peste de piolhos chamados de “Lacerdinha” justificou a poda dos fícus Benjamin. Os bondes deixaram de circular. Um incêndio devorou o Mercado Público. Em seu lugar foi erigido o Banco do Brasil. As famílias se transferiram. Mesmo assim, o encantamento do comércio e o charme político da “Rua Nova” perduram até hoje.

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