sexta-feira, 7 de dezembro de 2012



MORRE OUTRA LIVRARIA (Parte I)
Carlos Roberto de Miranda Gomes, advogado e escritor
          
         Resultante de comentário em encontro trivial com o meu velho amigo Petit das Virgens, lamentamos o fechamento da tradicional “Livraria Universitária”,criada pelo inesquecível Walter Pereira, o que me fez rebuscar na memória, alguns fatos ligados às confrarias de intelectuais, que sempre permearam a vida desses estabelecimentos especiais.
         A morte de uma livraria é sempre motivo de pesar e ela vem sempre anunciada, mercê da mudança dos costumes de cada lugar.
         A propósito, ainda relutando em sobreviver, li um artigo de Jotabê Medeiros – O Estado de São Paulo, onde comenta a interessante história da Livraria “Ao Livro Verde”, da cidade de Campos (RJ), criada em 1844 e que pertenceu ao alemão Max Zuchner e hoje a Ronaldo Sobral, onde já frequentavam alguns famosos intelectuais, continuadores das tradicionais confrarias. 
         Segundo o articulista, aquela Casa de Livros vem dando os primeiros sinais de fraqueza, quando está se preocupando mais como papelaria do que como livraria.
          Foi exatamente assim que aconteceu com a Universitária, aonde nos idos dos anos 70 e 80 funcionavam duas confrarias – o Alto Clero, no anexo entrecortado pelo Beco da Lama, onde compareciam, dentre outros, Gorgônio Regalado, Diógenes da Cunha Lima, João Medeiros Filho, egressos da “Confraria do Clube dos Inocentes” e mais o Coronel Leão, Mário Moacyr Porto, Arlindo Pereira, Américo de Oliveira Costa, Alvamar Furtado, Humberto Nesi, Franco Jasielo, Raul Fernandes, Clovis Gentile, Jornalista Leonardo Bezerra, Prof. Veríssimo de Melo, Augusto Severo Neto, Newton Navarro entre outros que apareciam esporadicamente, como Zila Mamede, Celso da Silveira, Luiz Carlos Guimarães, Varela Barca, Luiz Romano de Santana, Tarcísio Gurgel, Berilo Wanderley, devidamente recepcionados por Seu Walter; e o Baixo Clero que funcionava nas manhãs dos sábados, no primeiro andar da Livraria da Rio Branco, com a presença dos Doutores  Djacir, Chiquinho, João Batista Costa de Medeiros, Edson Gutemberg, Nelson Patriota, Francisco da Chagas Pereira(Juiz do Trabalho), Inácio Magalhães, Professor Stênio, Carlos Gomes (eu), Bob Furtado, Manoel Onofre Júnior, Gilvan Carvalho, Bosco Lopes e outros, onde era servido aos presentes, além de cafezinho, chá mate gelado, batizado pelo “Bispo de Taipu” de Espumas Flutuantes, estes assistidos por Gilson Pereira e Marconi Macedo. 
         Quando Nelson assumiu, sentimos uma transformação. Um dia, ao chegarmos para as nossas tertúlias semanais, sentimos que as estantes com os livros de maior interesse haviam descido para o térreo, já não mais nos ofereciam o cafezinho ou o chá. Constatamos que era um convite de despejo e fomos procurar outra pousada.
_______________________
Comentário de Ciro Tavares, escritor - Brasília-DF


Livrarias
QUANTAS MORRERAM?
QUANTAS VÃO MORRER?

O meu dileto amigo Carlos Roberto de Miranda Gomes chega, logo cedo, nesta sexta-feira, dia 07 de dezembro, com notícia que apunhala o coração. A tradicional Livraria Universitária, na Avenida Rio Branco, em Natal, criada pelo inesquecível Walter Pereira, que amava os livros como se fossem parte do seu corpo, cerrou suas portas com um simples aviso: Saudades.
Carlos relata, num texto dolorido, o que significou para muitos e para a cidade aquele estabelecimento de cultura, que hoje reconheço ter sido última Arcádia natalense. Aproveito para mergulhar no tempo passado com as duas perguntas que abrem essas palavras.
A morte das livrarias é uma questão do amadurecimento cultural, dos desvios na educação de jovens e adultos. Quando a nossa geração, a de Carlos Roberto e minha, frequentava bancos escolares, os mestres estimulavam o hábito da leitura e também da análise literária para saber se, realmente, havíamos compreendido o texto lido. Lembro-me que no 4º ano ginasial, as fábulas de Esopo, em latim, eram nossas lições. Queimávamos as pestanas para trazê-las, da forma indireta para a direta e, com a ajuda dos professores e dos dicionários, traduzi-las. Época maravilhosa! Tínhamos jornais, onde publicávamos nossos artigos, poemas, fotos, notícias, brincadeiras. Constituíamos grêmios literários e nos auditórios representávamos peças teatrais, fazíamos discursos, concursos de poesias e gincanas literárias. Foi há muito tempo.
Quando tiraram o latim do currículo escolar, gênese da língua portuguesa, os cientistas da chamada academia universitária, com seus antolhos e bornais, sepultaram a beleza do idioma que já não era rico, conforme Olavo Bilac: “A última flor do Lácio, inculta e bela”. Depois estabeleceram a aprovação pelo sistema da múltipla escolha, a loteria dos ignorantes. Finalmente “o alto nível televisivo”, gírias e demais aberrações completaram o serviço.
Ao longo dos anos, por falta dos clientes habituais, as boas livrarias foram desaparecendo. A José Oyimpio, um verdadeiro centro de cultura, no Rio de Janeiro, foi um delas. No Recife, a Livraria \imperatriz e a Livro Sete são atualmente marcas do passado. Dona Vanna Piraccini, responsável pela Livraria Leonardo do Vinci, no Rio de Janeiro, através de quem obtive as obras de grandes poetas ingleses do século XVIII, disse-me das dificuldades do comércio livreiro em decorrência da ausência de leitores.” Estoque, importá-los, para que? Se não há quem os leiam e os  procurem” confessou-me.
Em Buenos Aires, na Calle lavalle, somos humilhados pela quantidade de livrarias. O povo argentino é sequioso por boas leituras e os estabelecimentos vivem cheios de clientes, sejam jovens ou idosos, homens ou mulheres. Há um cheiro de cultura nas ruas da capital portenha. As livrarias são fortes sinais do preparo e conhecimento de um povo. Quando morrem morremos nós também.
Só falta agora acabar os sebos, última fronteira dos livros raros, como se não bastasse a linha editorial descendente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário