Temporada de candidatos
Padre João Medeiros Filho
Há quatro anos, publiquei um artigo sobre o vocábulo. Em tempo de convenções partidárias, eles surgem na vitrine. O étimo candidato, derivado do latim (candidatus), significa vestido de branco. Na Roma antiga, quem aspirava a funções e cargos públicos trajava essa cor, simbolizando pureza (“ficha limpa”). Usava uma espécie de túnica (semelhante à dossacerdotes), aludindo à vida ilibada, para diferenciálo dos demais cidadãos. “Quantum mutatus ab illo” (como as coisas mudaram), dizia o poeta Virgílio, ao colocar nos lábios de Enéas tais palavras (cf. Eneida, II, 274). Escolhia-se o branco por razões práticas. Ao se descobrir um candidato antiético, desonesto, atirava-se lama em sua roupa. A sujeira aparecia logo. Ainda hoje, é importante que o candidato tenha vida – e não apenas roupas – impoluta. Os mais mordazes perguntam: será por isso que muitos, atualmente, preferem usar capas e ternos escuros? Deve-se meditar sobre o que diz a Sagrada Escritura: “Quem anda com os sábios torna-se sábio; quem é amigo dos insensatos torna-se mau” (Pr 13, 20). Muitos não têm consciência de que alguns de seus candidatos servem de escada para a vitória eleitoral de políticos por eles desaprovados. Pelas normas vigentes, para ocupar cargos legislativos, (salvo o Senado, cujas eleições são majoritárias) é preciso obter o quociente eleitoral. Eleitores ingênuos imaginam que os detentores de mais votos serão eleitos e empossados. Ledo engano. Alguém poderá ser eleito, mesmo recebendo menos votos que outro. Basta seu partido atingir o quociente eleitoral. Poucos alcançam isoladamente votos suficientes para preencher o quociente. Nas eleições para o legislativo, denominadas proporcionais, a Justiça Eleitoral soma os votos dados aos postulantes de um partido ou federação, acrescidos dos votos de legenda (sufragados para um determinado partido, sem nomes de pretendentes). Divide-se a somo dos votos pelo número de vagas para o legislativo, federal, estadual ou municipal, quando for o caso. Disso, resulta o quociente eleitoral. Deve-se ficar atento ao optar por um candidato. Este poderá servir de instrumento para a ascensão de postulantes, cuja prática política é condenada, por falta de ética, improbidade administrativa, ausência de decoro parlamentar etc. No Brasil, enquanto não acontecer uma reforma política séria, o sistema eleitoral funcionará perversamente desigual. Muitos novos pretendentes servem de trampolim e acabam sendo eleitos quase sempre os mesmos políticos! Atualmente, votando-se em determinado postulante, caso não seja eleito, poder-se-á eleger alguém cujo “fazer político” é desaprovado. A obrigatoriedade de um percentual de vagas destinadas às mulheres tem modificado pouco o quadro. Cristo adverte: “Os filhos deste mundo são mais sagazes para os de sua geração do que os filhos da luz” (Lc 16, 8). Vale refletir sobre as palavras do professor Pedro Ribeiro, docente da Pontifícia Universidade Católica do RJ: “Mais triste e mais grave que a derrota é a frustração de pessoas bem-intencionadas, mas desinformadas.” Ao se apresentarem como postulantes, mobilizam parentes, familiares, conterrâneos e amigos para a campanha eleitoral. Terminada a apuração, percebem que sua votação só serviu para engordar o quociente eleitoral do partido ou da federação partidária. Descobrem, tarde demais, que eram apenas “candidatos esteiras”. Hoje, devido aos vícios da estrutura política, poucas coligações partidárias seguem os programas aprovados e vários pleiteantes não conhecem as propostas dos partidos que lhes dão apoio. Diz o ditado que “no Brasil, quem vota é a pessoa física, mas quem elege é a pessoa jurídica.” Entretanto, garante a Bíblia; “O Senhor estará a teu lado, para não caíres em armadilha” (Pr 3, 26).
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