Um salmo para os nossos dias
Padre João Medeiros Filho
O romancista e poeta François Mauriac, prêmio Nobel de Literatura em
1952, escreveu: “Há pensamentos que são verdadeiras orações. Em dados
momentos, a alma está de joelhos, seja qual for a postura do corpo.” Isso é
válido também neste tempo em que estamos ainda mergulhados num oceano de
incerteza, angústia e desapontamento. Vivemos atônitos numa sociedade vitimada
pela pandemia e inverdades, pelo radicalismo político, social e até religioso.
Padecemos com as contradições e manifestações ideológicas antagônicas,
acarretando mais sofrimento para o nosso povo.
No conjunto bíblico veterotestamentário é bem conhecido o Livro dos
Salmos, lido e meditado por muitos. Trata-se de um manual de orações em forma
de hinos e cânticos composto por nossos ancestrais, séculos antes de Cristo.
Ali, estão contidas aspirações profundas do ser humano diante de si mesmo, da
vida e do desconhecido. A oração – para quem acredita – tem por objetivo levar
o finito da terra até o Infinito do Céu. E em cada salmo, está a alma do poeta
perseguido, angustiado e carente. Dentre tantos, há um, em particular,
apropriado para os dias de hoje, que assim começa: “Aquele que habita sob a
proteção do Altíssimo descansará à sombra do Onipotente. Ele dirá ao Senhor:
Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, em quem confio.” (Sl 90/91, v.1) É
o desabafo de um fiel em busca de socorro à sombra de Deus, procurando proteção
e forças para superar as dificuldades pelas quais passa.
Deus é o refúgio (não fuga ou alienação) do ser humano, o qual no seu
íntimo pressente que é amado por Ele. Manifesta sabedoria ao buscar auxílio
junto a quem pode proteger e ajudar. Nele podemos confiar totalmente, pois nos
garante: “Porque se apegou a mim, eu o livrarei e protegerei, pois conhece o
meu nome.” (v. 14). Apesar do filósofo Immanuel Kant ter afirmado que “o
valor da oração é apenas subjetivo e o desejo de falar com Deus é absurdo”,
a criatura humana reza e, mormente nas horas difíceis, pois tem consciência da
presença e compaixão divina. Os momentos de prece e recolhimento conduzem-nos à
humildade bíblica, ignorada por pretensos sábios, os quais rejeitam Deus e
fazem tudo para ocupar o seu lugar.
O Salmo 91/90, além de seu conteúdo poético, é uma reflexão sobre o
tempo que passa e o que vai acontecendo ao ser humano. Fala de nossa condição
terrena, através de imagens. Compara a vida do homem à efemeridade de uma
planta. Alude à nossa história, cheia de contradições e sofrimentos, ao tempo
cósmico e à perpetuidade de Deus. “Tudo passa. Só Deus permanece”, afirmara
a poetisa e mística Santa Teresa d´Ávila! O Salmo, aqui citado, demonstra que
todo poder e sabedoria pertencem a Deus. Descreve metaforicamente a existência
de um quarteto sinistro (v.4 e 6) que poderá se aplicar aos tempos hodiernos de
violência e pandemia: a) a flecha (bala) que voa de dia sem que saibamos seu
percurso; b) o terror noturno a trazer insegurança; c) a peste que desliza nas
trevas e d) a mortandade que se alastra à luz do dia (v. 5-9). No entanto, o
Senhor acalma, promete sua proteção e dará vitória a quem crê e reza: “Andarás
sobre cobras e serpentes e pisotearás leões e dragões.” (v. 11). E
continua o salmista, tranquilizando o suplicante: “O mal não se aproximará
de ti nem a praga chegará à tua casa.” (v.10).
“Porque ele me ama, eu o
salvarei. Clamará por mim e eu o atenderei, com ele estarei na
tribulação” (v.14-15). Assim, Deus assegura-nos a defesa contra os
perversos e as desgraças. E enviará seus anjos que oferecerão refúgio e
mostrarão o caminho. Finalmente, a salmodia arremata a prece com o consolo
divino: “Eu o saciarei de longos dias e lhe mostrarei a minha salvação”
(v. 16). Neste tempo de perplexidades,
peçamos confiantemente ao Senhor que venha amenizar este “vale de lágrimas”.
Ponhamos nosso coração em nossas orações, pois “as palavras sem sentimentos
não chegarão aos ouvidos do Eterno”, como escrevera William Shakespeare.
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