quinta-feira, 29 de maio de 2014

Rinaldo Barros

   
 

Incendiar os corações!
“As palavras... devemos fazer amor com elas. Os poetas sabem disso”. (Rubem Alves, filósofo brasileiro)
(*) Rinaldo Barros
É verdade. Tenho um caso de amor com a vida.
Acho o mundo fascinante. Tenho olhos parecidos com os olhos de uma criança. 
Acredito que é fundamental ver o mundo com olhos de criança, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Na verdade, a gente sempre vê o mundo pela primeira vez.  O mundo se renova a cada dia.
O mundo que vi há um segundo, não existe mais. Tudo se transforma permanentemente.
Quero aqui confessar que, nos meus tempos de ginásio, hoje ensino médio, e de faculdade, minhas leituras nada tinham a ver com as obrigações escolares. Eram prazeres.
No velho casarão, o Colégio Estadual de Pernambuco - onde somente fui aceito após haver sido aprovado no Exame de Admissão - havia aulas de leitura: o professor lia poemas para nós estudantes, por puro prazer. Não ia cair na prova. Nem no vestibular...nem no Enem. Na escola pública, o ensino era de qualidade.
As crianças, logo que aprendiam a ler, aprendiam também o prazer de consultar os dicionários. Quantos estudantes consultam hoje os dicionários? Hoje, em que escola tem letramento no currículo?
Aliás, aprendi com o filósofo Rubem Alves que, ao retirar a imprecisão da linguagem falada, os dicionários cometem um assassinato. Os dicionários não, os gramáticos. Os gramáticos são os anatomistas da língua. Lidam com um corpo morto. A língua, felizmente, é viva, no espaço e no tempo.
Quando escrevo, brinco com a alma, tentando tocar a mente e o coração de quem me lê.
Por isso, confesso também que continuo desconfiado do formato “técnico” do atual Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), lançado pelo PT governo em 2007, com “índices e metas qualificadas”.
Apresentado como uma das grandes apostas do segundo mandato do presidente Lula, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) poderia, de fato, atingir o seu objetivo e ajudar a melhorar a educação no país. Mas, como sói acontecer no patropi, ainda não saiu do papel. Nossas escolas não têm qualidade.
Contudo, para que saísse do papel seria necessário superar uma série de desafios: desde redefinir de onde serão retirados os bilhões que o governo prometeu (mas não cumpriu) investir, até uma mudança de mentalidade, que inclui a “aceitação generalizada de uma cultura de gestão baseada em indicadores e metas”.
A propósito, o Orçamento federal de 2014 previsto para o Ministério da Educação, é de apenas R$ 42,2 bilhões, numa previsão de receita total de R$ 2,488 trilhões. Faça a conta. Na prática, a teoria é outra...
Não consigo acreditar nessa possibilidade do PDE, acho muito técnica, sem alma. Sem compromisso.
Temo que essa gestão escorada apenas em indicadores e metas objetivas não seja suficiente para acordar o patropi, entorpecido de miséria, exclusão e banalização da vida.
Aprendi que a vida humana não se define tecnicamente. Educar exige amor solidário.
Esse Plano (PDE) trouxe o tema da avaliação para o centro do debate educacional, revelando sua complexidade e ao mesmo tempo a necessidade de se ter em conta as múltiplas facetas nele implicadas.
Temo que as metas sejam cumpridas mecanicamente, apenas para “mostrar serviço”. Temo o resultado da fome crônica no cérebro de milhões. Temo que deficientes auditivos ou disléxicos, por exemplo, sejam considerados, objetivamente, inaptos. Temo que se aprofunde a exclusão. Não vou nem falar no crack.
Creio que está na hora de discutirmos também o papel da Universidade no Brasil, por uma ciência pública voltada para o desenvolvimento, e contra a ciência corporativa que privilegia o produtivismo, em detrimento do uso social do conhecimento.
Dados preliminares do Mapa da Violência relativos a 2012 indicam que 56.337 pessoas foram assassinadas naquele ano em todo o país. É maior do que em qualquer guerra ao redor do mundo, com alta de 7,9% sobre 2011. Em 2013, deve ter-se agravado. O brasileiro enfrenta uma batalha diária que se desenrola sob o olhar estranhamente desinteressado do governo federal. Que fazer?
Somente alcançaremos um efeito verdadeiramente transformador e sustentável na melhoria da qualidade da vida e da educação se governantes, parlamentares, gestores, professores, pais e alunos colocarem suas almas nesta luta, como se fora a missão para a qual decidiram dedicar suas vidas. Estou convicto de que somente um extraordinário movimento de reencantamento de toda a Nação será capaz de incendiar os corações para cumprir esse desafio.
É preciso pensar grande. É preciso inaugurar uma Nova Era! Ousar sonhar!
É preciso ter um Projeto de Nação, um caso de amor com o povo brasileiro. Com os olhos no futuro.
                                                                                                                
(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com              

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