A urgência da credibilidade
Padre João Medeiros Filho
Atualmente,
uma das perguntas frequentes é a seguinte: “Em quem posso acreditar?”
Oxalá, houvesse a mesma certeza do apóstolo Paulo, quando se dirigiu a seu
discípulo Timóteo: “Sei em quem acreditei.” (2Tm 1, 12). Diante de
tantas notícias veiculadas nas redes sociais e na mídia tradicional, é cada vez
mais difícil identificar palavras credíveis. No entanto, trata-se de uma
urgência, diante de inúmeras inverdades que circulam em vários setores da sociedade
brasileira contemporânea. É raro ter conhecimento de relatos que inspirem
credibilidade, sem embustes. Necessita-se de pronunciamentos que efetivamente
sejam alicerçados na confiabilidade. Deve-se nutrir a sociedade com debates
verdadeiros, indispensáveis à recomposição do tecido sociopolítico. Não basta
somente dizer o que se pensa, nem opinar a partir de visões parciais, atreladas
a grupos e ideologias. É imprescindível revitalizar o protagonismo de discursos
críveis. Isto é uma obrigação cidadã e um dever cristão, impreteríveis para que
se possa responder a opiniões polarizadas e falas que desagregam. Uma cidadania
verdadeiramente qualificada sabe reconhecer a coerência e veracidade do que é
propagado. Portanto, representa uma necessidade para o autêntico diálogo, capaz
de edificar uma nação.
Infelizmente,
há um entendimento equivocado por parte de certos políticos e dignitários
brasileiros, impondo cerceamento e distorções, subjugando e atrasando
inadiáveis transformações civilizatórias. Tais imposições são fortalecidas por
equívocos partidários e contextos ideológicos. Estes são responsáveis pela
inadequada concepção do bem-estar social e vêm neutralizando a configuração de
uma cidadania propiciadora de novos rumos ao Brasil. É mister que tal aconteça,
desde o âmbito da representatividade parlamentar e governamental à consciência
participativa dos cidadãos, necessária ao bem coletivo. Urge reconstruir a
civilização, a partir do impostergável compromisso de se promover a
credibilidade.
Na Encíclica
“Fratelli tutti”, o Papa Francisco insiste sobre a urgência da inegociável
cultura do encontro para superar dialéticas que resultam em desavenças,
inimizades e divisões. Note-se que no Brasil de hoje certos líderes políticos e
autoridades dos diferentes poderes agem como promotores de polarizações,
bloqueando e anulando possíveis avanços que dependem da capacidade de diálogo.
Por isso mesmo, é necessário priorizar a confiabilidade, “deixando de lado
toda mentira e dizendo somente a verdade”, como recomenda o apostolo Paulo
(cf. Ef 4, 25). Por mais que se fale hoje em direitos, liberdade, democracia,
diversidade e pluralidade, a prática e os resultados sociais mostram-se cada
vez mais unilaterais, desrespeitosos, impositivos e radicais. Deseja-se um
estilo de vida, em que as autênticas diferenças humanas possam conviver integradas,
iluminadas e enriquecidas reciprocamente. A fragmentação da sociedade é
altamente deletéria.
No Brasil
hodierno, contaminado por tantos arrogantes e presunçosos, pressiona-se o trânsito
da mentira ou meia verdade. Há os que deliram, como se deuses fossem, ditando
normas e regras, à base de sofismas e equívocos. A consequência é o descrédito
e a recusa. E não falta quem lute para impingir o falso como verdade, o
desonesto ou “jeitinho”, como padrão ético. Torna-se urgente uma cultura
renovada, fruto de dinâmicas oriundas de diálogos autênticos. Estes devem
buscar alternativas e respostas inovadoras, qualificando escolhas. Importa
renunciar à sede de querer impor ideias e opiniões obsoletas. Estas resultam,
não raro, de cristalizações subjetivas ou interesses balizados na mesquinhez e
ganância. Nesse importante processo de reconstrução social, necessita-se de
posturas confiáveis, capazes de promover a paz, superando radicalismos delineados
em contendas partidárias com interesses escusos.
Certa feita,
ouvimos do senador Affonso Arinos, falando à comunidade do Colégio Santo Inácio
de Loyola (RJ): “Se os partidos políticos carregarem em suas entranhas
interesses mesquinhos, as campanhas eleitorais tornar-se-ão falaciosas e
patranheiros ou ilusórios serão os parlamentos e governos.” As manifestações sinceras e transparentes são
indissociáveis da capacidade de dialogar. Deve-se exigir no trato social a
confiabilidade e a verdade, bem diferentes dos discursos populistas e
manipuladores. Vale ainda lembrar o eminente acadêmico pernambucano, Dom José
Pereira Alves, terceiro bispo diocesano de Natal, em sermão proferido, na
antiga catedral, perorando com estas palavras: “Usemos as armas do diálogo e
da verdade. Se somos discípulos de Cristo – e Ele é a Verdade – nosso
caminho de cristãos consiste em ser verdadeiros e probos!”