Carta de uma manhã sabática
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Mais um dia, mais um sábado, este agora livre dos “trágicos deveres”, invertendo o texto poético de Cruz e Souza, sobra-me tempo para coisas agradáveis.
Aposentado das obrigações formais e solitário na vida privada, escolhi aproveitar para acelerar leituras, já que o tempo da viagem final está próximo, e busquei guarida nos locais simples dos encontros literários – tão pouco realizados nos sodalícios acadêmicos registrados, mas frequentes nas confrarias das calçadas do Sebo Vermelho e na sala confortável da Livraria Manibu. Existem outros lugares com o mesmo propósito, mas não costumo frequentar com assiduidade – quanta saudade dos sábados da Livraria Universitária de Walter Pereira! Quantas saudades de Inácio Magalhães de Sena!
Conversamos sobre tudo da geografia da natureza e da vida humanística e cultural da aldeia de Poti e outros lugares – “E, se mais mundo houvera lá chegara” (Camões).
Nas manhãs ensolaradas dos sábados – algumas até invernosas, temos a oportunidade de encontros agradáveis, sem empáfias ou disputa de egos, como existem em outros eventos, permitindo-nos sair leves e felizes para suportar o restante do dia e dos próximos, até que o Criador não permita mais.
Em tais encontros compramos novos livros – aqueles que procurávamos e outros que graciosamente nos são indicados e prazerosamente aceitos, geralmente convergentes com nossas expectativas.
Com esse novo procedimento, substituímos temporariamente as manhãs de sol na aprazível Cotovelo, onde o ritual é um pouco diferente – mais natureza para manter ou recuperar a saúde física e mental durante o ciclo normal do veraneio e sentir o infinito aconchego do ventre de uma rede na varanda.
O ano de 2026 vem se apresentando um tanto preocupante, haja vista as modificações esdrúxulas dos fenômenos naturais das estações do ano, com secas implacáveis, invernos exagerados, ciclones, chuvas de granizo até nas tórridas terras do nordeste brasileiro, como se fosse de alerta para o comportamento da humanidade.
Desses encontros de amigos e desencontros climáticos, quase já uma rotina, é possível contornar as agruras da vida com boas e permanentes leituras e os comportamentos votivos para a espiritualidade.
Na temática das discussões, são avaliados os comportamentos governamentais relativos à falta de prioridade de gastos, a banalidade de alguns projetos e, sobretudo, a eterna descontinuidade deles, deixando a esteira de prejuízos, eis que abandonados, mais das vezes pelo interesse meramente político, comprovando que temos poucos investimentos na educação e, consequentemente na cultura, apesar da ladainha “A educação e a cultura são as bases do progresso humano”!
Seria interessante seguir os exemplos de outros países que, saindo destroçados pelas guerras, souberam ressurgir das cinzas através da educação, na compreensão verdadeira de que desta forma, as pessoas capazes de pensar, cria-se a união na sociedade e ajuda no crescimento do mundo. (É um chavão, mas também uma verdade).
Podemos, enfim, reafirmar que a Educação traz saberes (técnico e científico), formando um cabedal de conhecimento que deságua na Cultura, responsável pelos valores da literatura, da arte e de outras habilidades que marcam o DNA de uma nação.
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