terça-feira, 3 de junho de 2025

 

Viva as festas juninas!

Padre João Medeiros Filho

A teologia cristã ensina que as festas têm uma dimensão sacramental, remetendo à felicidade do Paraíso Celestial. Despertam sentimentos de júbilo e exaltação. Os festejos juninos, natalinos e dos padroeiros de nossas paróquias são réstias do Infinito, acenos do Eterno, janelas da Beleza inaudita e perene. Eles mostram o lado bom da existência, em meio a tantos sofrimentos, dores e provações.

Os brasileiros estão se tornando tristes. Basta olhar seus rostos nas ruas e ouvir os desabafos. Sempre foram sadiamente irreverentes, bem-humorados, enriquecendo o folclore e o anedotário. Assim o diga nosso confrade Valério Mesquita, colecionador exímio de “causos” verídicos. Numa maior ou menor escala, todos têm sido afetados pela grave situação ético-moral e político-econômica pela qual passa o Brasil. Os acontecimentos desconcertantes e absurdos, que vêm à baila cotidianamente, fazem imaginar que se vive um pesadelo. Muitos ficam paralisados, atônitos e impotentes, restando-lhes a indignação. Para os que têm fé, há um convite à oração, suplicando dias melhores. Verifica-se uma inação coletiva diante dos escândalos. As coisas não vão bem, mas os cristãos devem revestir-se de fortaleza e coragem, dons espirituais que lhes são conferidos por Deus. Os otimistas acreditam que o país está sendo passado a limpo. Para outros, parece que a faxina sequer começou. Segundo observadores, descobriram-se apenas ninhos de ratos escondidos nos porões das instituições, roendo a nação, seu patrimônio e dignidade. Não falta quem se regozije e tripudie dos cidadãos, amparado na “lacuna iuris”.

Iniciado junho, há uma oportunidade de euforia e lazer para muitos. O brasileiro é, por índole, alegre. As festas juninas recordam o passado, ao celebrar suas tradições. Demonstram que as decepções sofridas e as vilezas vividas não conseguiram eliminar da alma o brilho da vida e o sorriso de seu semblante. Na pluricultura que o enaltece como povo, tem-se a oportunidade de construir o futuro. Existe a fé. Esta fortalece e faz lembrar as palavras de Cristo: “Confiança, eu venci o mundo” (Jo 16, 33). As festividades juninas demonstram a resiliência de uma gente que sofre, mas sabe alegrar-se e esperar dias felizes. Neste mês, os tradicionais folguedos em honra de Santo Antônio, São João e São Pedro podem trazer novo ânimo. Que o contentamento e a paz nos arrebatem! É evidente que o fato de festejar, por si só, não proporciona a solução de problemas estruturais. O pão está em falta na mesa de tantos, que tampouco se “saciam apenas com o circo”, segundo a metáfora romana. A festa – como um rito que retira da rotina – arrebata-nos das preocupações ou tristezas, mergulhando-nos naquilo que a existência humana é chamada a ser: solidariedade e comunhão.

Nosso cotidiano, tão marcado pelas injustiças e desigualdades, passa a ser enaltecido pela esperança da superação de problemas que nos afligem. Festejando, seja com muitos ou parcos recursos, a alegria nos invade, revelando que a vida pode ser boa e plena, como dom gratuito de Deus. A festa é um grito no ar, dizendo que o existir humano é divino e os maus não poderão destruí-lo, pois “só Deus é o Senhor da História”.  Eis a mensagem cristã. Festejar é tornar a existência humana valorosa e risonha, cheia de sentido e entusiasmo. E isso é cristão, pois Jesus veio ao mundo para tirar o homem da violência e escravidão, do desespero e da morte. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

“Nada poderá me abalar. Nada poderá me derrotar, pois minha força e vitória têm um nome: é Jesus”, assim canta-se nas igrejas. A virtude teologal da esperança nos fortalece, sendo capaz de construir um novo tempo. Isso não significa acabar com as ambiguidades inerentes ao ser humano. Trata-se de fazer com que o Bem floresça e o Mal, que tenta acabrunhar muitos, perca seu poder e vigor. A fé reafirma valores, legitima o que nos dignifica, superando o que pode nos oprimir e descaracterizar. Que este mês nos alegre e faça de nossa vida uma festa maior, expulsando o Mal e celebrando o que há de mais belo dentro de nós: a presença de Deus, pois “Ele está no meio de nós.”

quarta-feira, 28 de maio de 2025

 

“Bebês-reborn”, uma nova idolatria?

Padre João Medeiros Filho

Teologicamente, a idolatria cultua pessoas ou seres inanimados, transformando-os em ídolos. Entretanto, hoje manifesta-se de vários modos, incluindo a obsessão por bens materiais, celebridades, ideologias e até a dependência excessiva da tecnologia. Reside na substituição de Deus ou de valores imutáveis por objetos e criaturas humanas, tornando-os o centro da vida. Desta maneira, desvia-se da glorificação do Criador, exaltando o que está fora da essência de Deus. Alguns pesquisadores consideram a atenção exagerada aos “bebês-reborn” uma postura quase idolátrica. Neles não se pretende reconhecer uma obra de arte, fruto da inteligência. Trata-se da supervalorização de algo que não é ser vivo, no entanto tratado por alguns como humano. Na Antiguidade adoravam-se bezerros de ouro. “Mutatis mutandis”, é o que ocorre com esse modismo dos bonecos. A mitologia é rica em exemplos de adoração a divindades: personagens fictícias, astros, coisas e animais sagrados (que ainda existem em certas culturas).

“Humanizar objetos é um ato idolátrico, uma vez que são colocados em pé de igualdade com aqueles que foram concebidos à imagem e semelhança do Eterno (Gn 1, 26-28). Desrespeita-se e nega-se o plano divino”, afirmara Monsenhor Albert Houssiau, atualmente bispo emérito de Liège (Bélgica). Ao exaltar os “bebês-reborn”, tratando-os como crianças, afronta-se a Deus, que fez somente a criatura humana à sua semelhança. Javé exclama pelo hagiógrafo: “Não terás outros deuses diante de Mim” (Ex 20, 3)!

Psiquiatras e psicólogos consideram essa insólita situação, como distúrbio mental: uma alteração que vai da carência afetiva em busca de compensação ou transferência; do transtorno dissociativo à fronteira do desequilíbrio psicológico. Depara-se com bizarrices: existência de maternidades para os bonecos ou busca por hospitais humanos para “medicá-los”, judicialização pela guarda de um desses objetos, como se fosse uma criança real. Cuidadoras de casas geriátricas eram criticadas, quando tentavam tranquilizar algumas velhinhas, dando-lhes bonecas artesanais para amainar a sua tristeza, diante da saudade de seus filhinhos. Desvio mental ou não, a Bíblia lança uma diretriz sobre esses fatos: “Não vos volteis para os falsos deuses, nem façais para vós deuses de metal... Eu sou o Senhor, vosso Deus” (Lv 19, 4).

Para os filósofos e teólogos, a criatura humana parece ter perdido a noção de si mesma, seu lugar e valor. Volta-se para algumas ideias, sonhos e objetos, distanciando-se do Criador. O homem tende a perder a referência de sua origem. Deifica-se o que não é divino. Inúmeros exemplos desse fenômeno são descritos pelos mitólogos, dentre eles o pesquisador Junito Brandão. A Sagrada Escritura contém casos análogos aos “bebês-reborn”. O profeta Isaías já alertava seus contemporâneos: “A terra está cheia de ídolos. Divinizam a obra das suas mãos, aquilo que seus dedos fabricaram” (Is 2, 8).

O homem parece caminhar para a desconstrução de si mesmo, coisificando-se e humanizando coisas. Isso é fruto do absenteísmo de Deus e ateísmo prático. Ao afastar-se do seu Criador, o homem perde o referencial de si mesmo. Ao desprezar o Absoluto, passa a relativizar tudo, empobrecendo-se. Dilui sua condição de semelhança divina, priorizando o efêmero e material, substituindo a si mesmo por coisas. Cristo no episódio da Tentação no Deserto apresenta uma metáfora dos ídolos modernos e antigos: o ter, o poder e o prazer. São deidades, que se pretende pôr no lugar do Deus vivo e verdadeiro. Assim endeusam o dinheiro, a manipulação e o erotismo. São alegorias de antigas e novas divindades.

“Se Deus é desprezado, procura-se substituí-Lo por ilusões e delírios”, afirmou o filósofo Jean Ladrière. O profeta Isaías colocou nos lábios de Javé um alerta: “Eu sou o Senhor. Este é o meu nome. A outro não darei a minha glória (Is 42, 8)! Se Deus é esquecido, o homem pretende tornar-se o centro de tudo, criando ídolos e deuses segundo a sua imagem. Tudo passa a ser colocado de acordo com suas conveniências. É o que acontece com o culto dos “bonecos- reborn”. O salmista fala por Deus: “Multiplicam-se as dores dos que correm atrás de outros deuses... Não terei seus nomes em meus lábios” (Sl 16/15, 4).

 FOLCLORE POLÍTICO - I


Valério Mesquita*


01) Açu continua campioníssimo em matéria de folclore político. A primeira história é do vereador Chico Antão, setenta anos, que estava cansado das reuniões noturnas da câmara. Em plenas sessões, Chico dormia ao ponto de puxar ronco. Preocupado com os comentários que ouvira, foi procurar o presidente da câmara. Queixou-se Chico Antão: “Presidente, essas sessões de noite não tão dando certo pra mim. Tenho setenta anos e quando dá oito horas me vem um sono danado. Não dá pra minha filha vir no meu lugar não? As de dia eu venho!”. Problema regimentalíssimo.

02) A visita ministerial a um Estado é antecedida de cuidados especiais que beiram o pitoresco. As equipes precursoras preocupam-se com os mínimos detalhes. No governo Figueiredo o ministro da Indústria e Comércio Camillo Penna programou uma visita ao Rio Grande do Norte durante o governo Lavoisier Maia. Em Mossoró, onde pousaria o jato da FAB, o ministro seguiria de helicóptero para a plataforma da Petrobrás em Galinhos/Guamoré. Um assessor ministerial procurou o então chefe da casa civil do governo Iberê Ferreira para que avisasse ao governador Lavoisier que o dr. Camillo Penna tinha problemas auditivos em um dos ouvidos. “Que coincidência, o nosso governador também”, responde Iberê. A partir daí, avisados antecipadamente, o ministro e o governador em qual ouvido um deveria falar ao outro e vice-versa, começaram os cumprimentos de praxe em meio a um barulho infernal, banda de música, turbinas do jatinho que taxeava na pista e o giro da hélice do helicóptero que já iniciava os procedimentos de voo para Galinhos. Fala mansa, Camillo Penna tentava explicar gesticulando no ouvido deficiente de Lavô sobre os motivos do atraso e o tempo que não estava bom. O governador entendeu errado e inclinando-se fala no ouvido doente do ministro, apontando para a direita e para a esquerda: “Pra lá fica a fazenda de melão de Tarcísio e do outro lado a cidade de Mossoró”. E por aí foram. Ao redor, entre os circunstantes, aquele ar de visível constrangimento e de total comédia de erros. Foram cinco longos minutos de mal-entendidos somente superados a bordo do helicóptero após novos cuidados auditivos.

03) Todo o Rio Grande do Norte conhecia a obstinação e o destemor com que o senador Dinarte Mariz defendia um pleito em favor de um amigo ou de uma causa. A sua palavra tinha o lampejo de um cometa e o peso de um imenso asteróide. Mas se rendia à mística de uma palavra consorciada chamada “compadre”, porque espelhava as vertentes cristalinas da amizade seridoense, calcada na tradição e no respeito consuetudinário. Certa vez, Dinarte entregou ao então reitor Diógenes da Cunha Lima, um caudaloso currículo de um professor para ser nomeado diretor do CRUTAC/RN. Diógenes preocupou-se porque já havia escolhido “in pectoris” o seu amigo Fernando Lira. O dilema cresceu quando os dois percorreram página por página o alentado currículo do candidato senatorial que elencava cursos de toda natureza dentro e fora do Brasil. Ao final, Diógenes foi socorrido pela “lâmpada”. “Mas ele não tem um título que é o mais importante”, descobriu o reitor. “Qual, Diógenes?”, indaga Lira. “Você é meu compadre e é o que eu vou dizer a Dinarte”. Dia seguinte, preparado para o duelo, Diógenes procurou o senador e foi logo explícito e rápido: “Dinarte, eu vou nomear Fernando Lira para o CRUTAC porque ele é meu compadre”. Dinarte fitou-o em silêncio para, em seguida, no melhor sotaque caicoense, responder: “Diógenes, compadre a gente respeita”. Era o Seridó falando. O reitor tinha razão. E o velho também.

04) Patrício Português é uma figura lusitana largamente conhecida em Mossoró, sua segunda pátria. Anos atrás era proprietário de um avião bimotor e navegador aéreo de longo curso das galáxias oestanas. Certa vez, partiu de Natal pilotando a aeronave com destino a Mossoró. Durante a penosa travessia do “dorso do elefante” tomou umas onze doses do “escocês legítimo”, deixando-o fora de órbita. Quando sobrevoava Mossoró para aterrissar da torre do aeroporto recebeu o alerta convencional: “Atenção BV-116, torre pedindo a rota!”. “Atenção BV-116 torre pedindo a rota!”. “O quê?”, responde o nosso rico português. “A rota!”, retorna a torre. Patrício, zonzo da cabeça, confundiu as coisas e soltou um longo e sonoro arroto: “Barrrrr”.


(*) Escritor

sábado, 24 de maio de 2025

 



– HOMENAGEM DE NATALÍCIO –

 

ALFREDO MESQUITA FILHO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Alfredo Mesquita Filho nasceu em Macaíba, a 23  de maio  de  1901. Filho de Alfredo Adolfo Mesquita e Ana Olindina de Mesquita. Fez os seus estudos preparatórios em Macaíba, Natal  e Recife,  quando  cursava  medicina, teve que retornar  à  Macaíba  por motivo  do  falecimento  do seu pai, ocorrido em  1929.  Passou  a  se dedicar  junto com os irmãos às atividades de comércio, agricultura  e criação. Na sua  infância, o desejo da  família  era  vê-lo padre.  Resistiu. Não foi para o seminário.

Em 1946, foi constituinte elegendo-se deputado estadual  pela legenda PSD. Reelegeu-se em 1950 e 1954, exercendo nesses períodos diversos cargos e comissões. Já em 1958, candidatou-se novamente  a  prefeito  vencendo as eleições, tendo este  sido  o  seu último mandato eletivo, até, 1963. Como deputado estadual a ele se credita o  esforço da  vinda  de inúmeras obras para os municípios  que  representava  na Assembleia,  tais como: Macaíba, São Gonçalo do Amarante, Bom  Jesus, Serra  Caiada  (Presidente  Juscelino), Caiada (Eloy  de  Souza),  São Pedro,  Ielmo Marinho entre outros. Não obstante seus 40 anos de  vida pública, 30 dos quais militou na Oposição. Mesmo assim, conseguiu  com os  governos escolas e estradas, além de junto com todos os amigos da época haver experimentado  o triunfo da  implantação  da  Escola  de Jundiaí e a construção da ponte da cidade de Macaíba. Sobre essa ponte há um episódio. A antiga ponte  de Macaíba havia  desabado. Como  deputado  pessedista cobrou do  governo  do  Estado (Dr. José Varela) a sua construção.

Como o erário estadual  não  podia  arcar  com   as despesas, teve que recorrer ao antigo Ministério de Obras e Viação.

Entretanto, ao  aguardar  a  resposta  da  bancada federal  do  seu  partido, recebeu espontaneamente a  ajuda  do  então deputado  federal,  Aluízio  Alves, udenista  que  se  prontificava  a conseguir os recursos. Tal  fato, no Rio Grande  do  Norte  calcinado  das brigas do PSD x UDN, em 1950, em Macaíba, aceitar apoio de um udenista era um opróbrio.

Houve cenas de tumultos, pressão e  rompimentos políticos. Mas, como Macaíba para Alfredo Mesquita era mais importante que  os  partidos, aceitou a ajuda, o dinheiro chegou e  a  ponte  foi construída e até hoje está lá. Em  1961, após a campanha de Djalma Marinho a  quem ajudou por haver o PSD se fracionado para apoiar dois udenista, vendeu a  sua  propriedade Uberaba, em Macaíba, por "treze  mil  contos"  ao fazendeiro  Adauto  Rocha,  a fim de poder pagar  os  compromissos  da campanha. As eleições de 1962, 1965, 1966 e 1968 quando, já doente, enfrentou  sua  última  campanha  política,  testemunham   a fidelidade do seu espírito partidário e sua dedicação exclusiva ao seu povo.

No dia 12 de abril de 1969, pobre mas querido pelos humildes,  morreu  Alfredo Mesquita. Nesse dia sua cidade  parou.  Não para  lhe dizer adeus, mas, para lhe garantir que ele e ela  formariam naquele  dia, mais do que qualquer tempo, um binômio  inseparável:  um pacto de identificação. Ele e ela. Abraçados permanentemente em  suas entranhas.

Se vivo fosse, estaria fazendo 124 anos.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

 

Sermões e homilias

Padre João Medeiros Filho

Nos seminários e casas de formação eclesiástica, os futuros padres estudam homilética, uma disciplina voltada para a metodologia e as técnicas de pregação: homilias, sermões, panegíricos etc. No passado, os bacharéis em ciências jurídicas aprendiam retórica em função dos tribunais. Hoje, existem cursos específicos para ensinar a falar em público, como desenvolver o conteúdo, usar adequadamente as palavras, empregar a impostação de voz e gesticulação, levando em conta as diferentes profissões. Aqui no RN, alguns cursos fazem sucesso nesse ramo. Os profissionais da retórica são procurados especialmente por comunicadores, operadores do direito e candidatos em campanhas eleitorais.

Não é fácil falar em público, sobretudo diante de uma plateia heterogênea em termos de faixa etária, formação, nível intelectual etc. Tal é a assembleia das igrejas. Em geral, confundem-se sermão e homilia. Esta é uma palavra grega, que significa literalmente conversa em família. Trata-se de reflexão, comentário de cunho vivencial e meditação sobre um texto bíblico ou assunto espiritual. O sermão (étimo derivado do latim, indicando fala do púlpito) é um discurso adversativo, normatizador, abordando temas dogmáticos e éticos. Ambos diferem do panegírico (termo grego, significando elogio) que é uma peça laudatória. Na administração dos sacramentos e celebração da missa, requer-se uma homilia, pois se pretende algo reflexivo e mais próximo do coloquial.

Soe acontecer que os sacerdotes, em lugar de pronunciar uma homilia, fazem um sermão. E quando este deve ser proferido, acabam por realizar uma espécie de catilinária. Nos sermões e panegíricos cabe uma linguagem mais castiça, havendo lugar para os puristas da língua. A homilia deve ser enxuta, objetiva e pastoral. Nela deve brilhar o mistério eucarístico ou sacramental, e não o padre. O Papa Francisco recomendou: “A homilia não deve durar mais de oito minutos, porque depois desse tempo, a atenção se perde e as pessoas dormem.” Toda prédica exige cuidado e atenção. Apesar de quase sessenta anos de ministério sacerdotal, sempre procuro preparar minhas falas, sobretudo hoje com as redes sociais. Quando pároco em Caicó (RN), escrevia os tópicos e esquemas de minhas reflexões. Monsenhor Lucas Batista Neto ainda se recorda de meus cadernos, contendo sínteses e roteiros homiléticos. Preocupo-me em não repetir falas. A vida é dinâmica, por isso os conteúdos e formas necessitam ser atualizados.

Em Natal, há cerca de oito anos, após a missa de domingo, uma mulher gentil e esclarecida pediu para falar comigo. Pensei tratar-se de problema familiar ou confissão. Ela abordou o assunto das homilias. Naquele dia, Deus me inspirou. Fui conciso, objetivo e pautado no Evangelho. A senhora dissera-me: “Não costumo ouvir sermões e homilias. Uns são demorados e enfadonhos; outros, teóricos. Vários descambam para assuntos religiosamente irrelevantes. Em geral, os padres pregam mais de vinte minutos. Em um terço da exposição tratam de pecado, inferno e costumes. Durante o mesmo tempo, escolhem o pântano da política. Destinam os minutos restantes a um insistente pedido de dinheiro. E Deus onde fica, Padre?” Quanto à forma, comentou: “As pregações costumam ser recheadas de reprimendas, carões, sem propostas razoáveis.” Isso leva-nos a pensar.

Quando jovem presbítero, era arrebatado. Achava bela a retórica de alguns pregadores: Dom Nivaldo, Dom João Portocarrero, Monsenhor Walfredo, Padres Luiz Wanderley, Bianor Aranha e outros. Gostava das frases bem elaboradas, por vezes gongóricas, pronunciadas do púlpito. Deliciava-me, escutando a sinonímia e as metáforas. Encantava-me Padre Manuel Vieira, diretor do antigo Ginásio Diocesano de Patos (PB), orador brilhante, muito solicitado para falar em festas de padroeiros. Lembro-me de suas belíssimas palavras sobre a caridade, proferidas na Catedral de Sant’Ana, em Caicó. O povo vibrava com sua eloquência. A uma moça embevecida diante das palavras do orador, foi perguntado qual o assunto da pregação. Ela respondeu: “O padre disse tantas coisas bonitas, mas o assunto não sei.” Faz-me refletir o comentário de Mário Quintana sobre as falas eclesiásticas: “Nada das celestiais promessas ou das terríveis maldições. Se eu fosse um padre, citaria os poetas, porque a poesia purifica a alma... Um belo poema sempre leva a Deus!” O Livro dos Provérbios lembra: “A Palavra [sagrada] é a mais preciosa de todas as joias” (Pr 3, 15).

quarta-feira, 14 de maio de 2025

 




LANÇAMENTOS – DIA 15 – ANRL , 17h


"Todos nós, permanentemente, olhamos o tempo nos seus mais diversos significados: se é chuvoso ou quente; se está tarde ou cedo para chegarmos ou sairmos; os tempos de outrora, os de hoje e os vindouros; o tempo que o tempo faz e por aí em vante.

Mas, entre todos os escritores que conheço, poucos criaram uma relação tão forte com esse elemento - ora majestático ora corriqueiro -, o Tempo Rei, quanto Valério Mesquita. Não à toa, o seu primeiro livro, escrito no alvor da sua vida intelectual, foi intitulado “O tempo e sua dimensão”. Pequenos ensaios de um estudante de Direito tentando abarcar a dimensão do elemento mais inalcançável do universo. 

Depois disso, Valério agregou essa palavra ao seu universo criativo a ponto de exibi-lo não apenas na sua temática notadamente memorialística, mas, várias vezes, nos próprios títulos dos seus livros. Como é o caso deste mais recente, “Na linha do tempo”.

E agora, talvez por um ditame desse senhor inescapável, Valério juntou a reedição do seu primeiro livro e o mais recente para lançá-los ao mesmo tempo. 

É o que teremos nesta quinta-feira/15, a partir das 17 hs, na Academia Norte-riograndense de Letras, com Valério autografando “O tempo e sua dimensão” e “Na linha do tempo”.

Osair Vasconcelos

Jornalista"

 

 

 

Maria Santíssima, sempre amada e venerada

Padre João Medeiros Filho

Desde o século V, bem antes das aparições da Virgem Santíssima em Fátima (Portugal), maio já era considerado pelos católicos como um mês mariano. Nele presta-se culto especial à Mãe de Jesus. Durante trinta dias, reflexões sobre Nossa Senhora têm lugar e pertinência. A devoção mariana é bem característica do cristianismo, tanto no Oriente, quanto no Ocidente. Vários são os títulos dedicados à Virgem de Nazaré. Esta goza de privilégios junto a Deus, inclusive o de interceder em favor daqueles que a Ela recorrem por meio de práticas devocionais. O magistério católico e os teólogos declaram: “Maria consegue que os rogos a Ela dirigidos sejam atendidos pelo Pai Celestial.”

Ela possui um lugar especial entre os cristãos que, além de homenageá-la com diversos hinos e invocações, dirigem-lhe uma variedade de súplicas. Com o objetivo de venerá-la, realizam-se peregrinações a diversos santuários e espaços que lhe são consagrados. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “a devoção da Igreja à Santíssima Virgem pertence à natureza do culto cristão” (CIC, 971). Teologicamente, a veneração aos santos denomina-se dulia e à Mãe de Jesus, hiperdulia. Por isso, é a única reverenciada como Santíssima pelos católicos, os quais a distinguem assim também dos demais santos.

A figura de Maria tem interessado a pesquisadores, dentro e fora dos contextos religiosos e místicos. Além de obras literárias, a Virgem de Nazaré tem chamado a atenção de pensadores agnósticos e ateus, como a filósofa e linguista francesa Julia Kristeva. A missão de Maria no cristianismo impressionou a brilhante pesquisadora. Esta reconhece o lugar que a mariologia reserva às mulheres, ressaltando a dimensão feminina no cristianismo, ausente em muitas religiões. Para ela, a importância teológica de Maria no imaginário espiritual cristão consiste sobretudo em sua relação com Jesus Cristo, seu Filho. Ela leva a relacionamentos aparentemente insólitos, como o de Deus com a humanidade e aquele do Filho Divino com uma mãe terrena.

A formação cultural de Kristeva – herdada do pai, que pertencia à Igreja Ortodoxa Búlgara –  desempenha um papel relevante no seu interesse pela genitora de Cristo. Ela está convencida de que “o catolicismo teve em suas mãos o mais poderoso discurso de todo o Ocidente sobre a feminilidade e a maternidade.” Com a secularização, a ideologia de gênero e outras vertentes hodiernas de pensamento, ela teme que tal conquista se perca, o que deixaria a cultura ocidental amputada de um de seus fortes e fecundos componentes. Todavia, os temores de Kristeva não parecem assustar alguns teólogos. No Brasil – sem falar de outros países – a devoção mariana continua bem presente e cresce, a cada ano. As peregrinações a Aparecida do Norte (SP) e as romarias ao Círio de Nazaré, em Belém (Pará), ainda são momentos intensamente vividos pelos católicos. Neles, explicitam firmemente o amor pela Mãe de Cristo, a quem consideram a sua também. O destaque a Maria Santíssima no cristianismo permanece bastante sólido, apesar dos avanços tecnológicos.

A Virgem de Nazaré, além de todos os seus oragos, continua sendo em diversos povos e nações a sempre amada e venerada. É a Mãe a quem os fiéis se dirigem com confiança filial em todas as encruzilhadas de suas vidas, encontrando nela conforto e carinho. Em tempos de aflição e momentos de adversidades, doenças, perdas, pobreza, secas, descaso de governantes e autoridades, Nossa Senhora é certamente invocada. Ela é a Compadecida. Portanto, no mês de maio acorramos Àquela a quem a Igreja proclamou no Concílio de Éfeso “Theotokos” (Mãe de Deus). O apóstolo Paulo assegura, em sua Carta aos Gálatas: “Na plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4). Maio é dedicado especialmente a essa figura feminina, presente na Igreja, desde o seu nascedouro, conforme o relato do evangelista Lucas (At 1, 14). Relembro as palavras do inesquecível Oswaldo Lamartine: “Maria é o mais belo sorriso de Deus.” Como Isabel, no episódio da Visitação, cabe-nos exclamar com fervor: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42).

quarta-feira, 7 de maio de 2025

 TACADAS DE MESTRES - I

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

01) Há alguns anos, fui ao lançamento do livro do jornalista Paulo Augusto sobre “Zé Areia, o bufão de Natal”. Ótima iniciativa do editor Abimael Silva. Paulo Augusto com a sua verve e estilo inconfundível narra fatos pitorescos e incríveis idos e vividos pela figura de Zé Areia, lenda e legenda do humor natalense. Pesquisou e reuniu em livro tudo o que foi e representou esse “sábio” e sabichão chapliniano das Rocas, Ribeira e Cidade Alta. Esticando a conversa, Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, lembrou que Zé Areia tinha o hábito de entrar de fininho na casa de Câmara Cascudo, na Junqueira Aires, só para surpreendê-lo de modo bizarro ou atípico. Calçar as meias do mestre, quando se achava sentado ao birô, de pijama, datilografando seus trabalhos. Com certeza, Zé Areia, com o gesto, incluía-se, na sua “acta diurna”.

02) Certa vez,  Zé Areia, cortava o cabelo da turma da penitenciária “João Chaves”, ali onde hoje é o Centro de Turismo, em Petrópolis. Trabalho árduo e perigoso. Zé suava às bicas com medo dos erros de cálculo. Baracho, Pé Seco, Lolô, entre outros lampiônicos, eram mais terríveis do que os da chuva de balas no país de Mossoró. Certo dia, casualmente, encontrou-se com o monsenhor e governador Walfredo Gurgel. Incontinenti, pediu clemência e ingressou oficialmente com petitório incomum: “Padre, me aposente logo dali que eu lhe prometo só viver dois anos!”.

03) Dos arquivos implacáveis do saudoso tabelião Raimundo Barros Cavalcante, chegou-me essa história narrada pelo seu filho Paulinho sobre o folclórico Zé Areia. Homem pobre, Zé sempre recorria aos amigos pedindo ajudas providenciais. No cartório de Raimundo ele era “mensalista”. Todo fim de mês a tabeliã substituta Dione Macêdo estava autorizada a proceder o pagamento. Zé Areia chegava de mansinho, sentava, aguardava, recebia e ia embora. Mas, em dezembro ele recebeu a ajuda e permaneceu sentado e calado. Dione curiosa, perguntou: “Seu José o que está faltando?”. Zé Areia com aquela seriedade teatral responde sem perder a calma: “O décimo terceiro”. Raimundo, consultado, mandou pagar imediatamente. Zé Areia havia ingressado solenemente na folha salarial do cartório.

04) Lembrei-me de Newton Navarro, mergulhando nas madrugadas profundas das Rocas, Ribeira, Cidade Alta, sem se aguentar mais em pé, sem companhia, sem proteção, sem táxi, exposto ao perigo, naquele baixo clero. De repente, impetra um inaudito habeas corpus que só aos poetas do seu porte é dado o privilégio: chamou o carro da polícia para deixá-lo em casa. E sempre foi obedecido. Era a proteção do estado à incolumidade física e intelectual do poeta da cidade.

05) A figura humana de Djalma Marinho é inesquecível. Não apenas pelo brilho da inteligência, da cultura jurídica ou da sabedoria política, mas pela verve repentina no exercício da vida pública. Numa reunião política em Natal, fez-se uma roda de amigos para papos difusos e infusos. O então prefeito da capital Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, sempre observador de detalhes, de vestuários e de pessoas, viu que o cigarro do deputado federal Djalma Marinho deixara cinzas na sua gravata. Com extrema cortesia, advertiu: “Doutor Djalma as cinzas do seu cigarro caíram em sua gravata”. “Meu filho, este é o único fogo que me resta...”.

06) Certa vez, na escolha de governador, o candidato de Dinarte era Dix-Huit Rosado. Mas, Tarcísio Maia havia conjugado as forças do Planalto (Golbery do Couto e Silva) para o nome de Lavoisier. Como estava intransigente um grupo político foi procurá-lo para dissuadi-lo. O argumento utilizado foi acachapante: “Dinarte, você deve ter muito cuidado porque já há quem defenda junto ao presidente o nome de Jessé Freire para a senatória biônica”. Dinarte virando-se para Tarcísio foi conclusivo: “E a essa altura, há um nome melhor do que o de Lavoisier?”.

(*) Escritor.



sexta-feira, 2 de maio de 2025

 Narrativas,sofismas, falácias 

Padre João Medeiros Filho 

Atualmente, grassam as narrativas, uma espécie de sofisma, temperado com falácias e mentiras. Na Grécia Antiga, os sofistas ensinavam retórica. Com a técnica do discurso tentavam demonstrar como o interlocutor deveria ser seduzido, independente da veracidade das mensagens. Sócrates, Platão e Aristóteles condenaram seus métodos, considerando-os desonestos e farsantes. Para Aristóteles eles enganavam o público, recorrendo ao erro travestido de aparente argumentação. No sofisma, interessa fundamentalmente seduzir o ouvinte ou leitor, conduzindo-o ao ilusório com promessas de possíveis vantagens econômicas, políticas, científicas ou religiosas. As escolas sofistas não ficaram apenas na antiguidade clássica. Atravessaram séculos, influenciando o pensamento humano. Hoje, é possível dizer que há um novo tipo de sofisma, veiculado pelas recentes tecnologias de comunicação, cada vez mais velozes. Há uma proliferação de boatos, engodos e inverdades, uma contínua guerra de informações em busca de seguidores. O apelo proposital ao espetacular e emocional constitui a expressão dessa luta para tentar a validade das palavras e tornar reais as patranhas. Muitas vezes, a objetividade já não tem tanta relevância para formar a opinião pública. Em seu lugar, impõe-se a despudorada e antiética arquitetura das versões de uso rotineiro de muitos ideólogos, políticos e governantes. Abre-se o caminho para o embuste, a desconfiança e as aleivosias repetidas incansavelmente. O apóstolo Paulo ensinava: “Deixando a mentira, cada um diga a verdade” (Ef 4, 25). Hoje, a forma importa mais que o conteúdo. É o que se verifica neste mundo das famosas redes sociais. Sobre isso chamava a atenção o Papa Francisco, destacando a necessidade de cultivar uma comunicação verdadeira, à luz da afirmação de Jesus Cristo: “A verdade tornar-vos-á livres” (Jo 8, 31). É próprio do ser humano comunicar-se e interagir. A linguagem gera participação e amor. O homem é a única criatura que tem a capacidade de expressar e dizer algo sobre o verdadeiro, o bom e o belo. Entretanto, é também capaz de ludibriar e mentir com uma aparência de verdade. Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe, já dizia que “a linguagem é uma fonte de mal-entendidos.” Em tempos de redes sociais, conflitos partidários e sociais, presencia-se algo surpreendente: informações infundadas, fraudes, maledicências, desconstruções e calúnias transmitidas em tempo real. Deste modo, dados inexistentes, distorcidos ou tendenciosos são divulgados com objetivos predeterminados. Geralmente ocorre para influenciar opções políticas, ideológicas, auferir lucros ou dividendos eleitoreiros. E o pior, tais notícias falaciosas são, não raro, fruto de inveja, intolerância, radicalismo e ódio. Com elas, reputações são destruídas celeremente sem que os atingidos tenham condições de se defender. As narrativas, novos nomes dos sofismas, estão contaminando a sociedade e fazendo vítimas. Nem sempre é fácil desvendá-las ou erradicá-las. Isso exige atenção, serenidade, sabedoria para confrontar fontes e fatos. Muitas dessas notícias parecem verdadeiras e atraentes, indo de encontro aos interesses de vários. Por isso, são imediata e automaticamente encaminhadas a amigos ou conhecidos. Os cristãos devem focar a capacidade de discernimento, visando à verdade. Isto significa formar para avaliar e pesar os desejos e inclinações que surgem para não ser disseminadores da mentira. Em Os Irmãos Karamazov, Dostoievski aborda esse tema: “Quem mente a si mesmo e repete sistematicamente as próprias mentiras, chega ao ponto de já não poder distinguir a verdade dentro de si, nem a seu redor. Assim começa a perder a credibilidade por parte de outros.” Há necessidade e urgência de discutir como conciliar razão e emoção, discurso e prática. Como filtrar incontáveis informações, invadindo os espaços virtuais e hospedando dados sem cair nas malhas da desonestidade, da farsa e do logro? De que modo ajudar os outros a pensar e discernir sobre seus questionamentos e problemas, sem a influência invasora e interesseira de gurus de plantão? É tarefa dos cristãos contribuir para preencher o vazio existencial de muitos, mantendo neles a capacidade de refletir para fazer suas escolhas e assumir as consequências. No Brasil hodierno, muitos estão grávidos de malícia, por isso darão à luz inverdades. O apóstolo Paulo já advertia: “Há os que trocam a verdade pela mentira” (Rm 1, 25).

 O CALVÁRIO DAS LETRAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

“Help! De tanto esperar já nem sei mais pedir socorro em português”. Assim falou um conhecido intelectual da paróquia que habitamos. Viu ao derredor, tudo abandonado, sucateado. Disse um amigo que pedira um catálogo do patrimônio cultural da cidade para um grupo catarinense que visitava Natal. Em João Pessoa, Recife e Fortaleza, a agenda dos turistas fora inteiramente cumprida. A expectativa era de que na cidade dos Reis Magos não seria diferente. Alguém do Rio Grande do Norte, numa das capitais antes visitadas, forneceu informações sobre alguns pontos culturais a serem visitados. Deve ter sido um guia turístico desinformado da realidade em que se encontram os bens culturais móveis e imóveis do Estado.

Apesar dos esforços dos órgãos de promoção cultural no enfrentamento dos problemas, tudo esbarra na falta de classe e de vontade política. Como explicar à sociedade e aos turistas por que o Memorial Câmara Cascudo ainda está interditado? O museu do Guaporé em Ceará-Mirim está semidestruído. O cadáver do escritor Nilo Pereira está se contorcendo no túmulo. O prédio centenário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte urge por uma restauração, pois lá está guardada toda a história do Estado desde o período colonial. O Empório dos Guarapes, em Macaíba, patrimônio imóvel do Estado, continua desprezado e invadido. A praça Augusto Severo na Ribeira é outro exemplo de isolamento que chega a atingir o teatro Alberto Maranhão, por osmose.

A cultura potiguar está a merecer o surgimento de vozes que despertem e unifiquem o pensamento e a ação, das entidades públicas e privadas, em defesa do patrimônio histórico, artístico, bibliográfico. Aliás, tudo isso pertence com mais legitimidade ao povo do que às próprias instituições.

Lembrei-me de Guimarães Rosa quando disse que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”. No passo rápido e mágico das emendas parlamentares as restaurações poderão surgir. No debate legislativo, a Casa de José Augusto Bezerra de Medeiros, justamente com o Palácio Felipe Camarão, alí, pertinho, poderão ser a maternidade dos projetos, lua nova de ações e discussões, ouvidas, igualmente, as instituições da cultura, do comércio, da indústria e dos serviços. Não construo alegorias. Busco claridades. Visibilidades.

A decadência do bairro da Ribeira é uma fratura exposta do empobrecimento de Natal. Certa noite, vindo da Rampa, cruzei as ruas Frei Miguelinho, Tavares de Lyra e Doutor Barata. Um calafrio se apossou do corpo. Me assustei, e confesso: tive medo. Veio-me à mente uma ressurreição de imagens dos anos cinquenta, com vultos de almas taladas a ferro e a fogo. Nostalgia, silêncio, tudo deserto. A Ribeira, à noite, é um cemitério de poucos vivos e muitos mortos.

É a assombração que já está subindo a ladeira da Junqueira Ayres (Câmara Cascudo) para chegar a Cidade Alta. Se a Assembleia Legislativa e a Prefeitura saírem dali, o bairro fecha pra balanço. Não existe projeto, à olho nú, de revitalização económica, social, cultural para nenhum desses logradouros. Ninguém constrói nada!

No Nordeste, Natal ocupa a lanterna, atrás de Fortaleza, Recife, João Pessoa e Maceió. E o Rio Grande do Norte também. O mal é que as emendas parlamentares continuarão sendo fatores de erro de cálculo no serviço público brasileiro. A Ribeira e a Cidade Alta permanecem dignas de compadecimento pelos seus mistérios circundantes. Precisam ser revisitadas, restituídas e que as transformações do tempo não sejam pelo silêncio nem pelo abandono.

 

(*) Escritor.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

 


Adeus, Papa Francisco

Padre João Medeiros Filho

Segundo vaticanólogos, Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa contrariando previsões de dignitários eclesiásticos. Isso mostra, apesar das fragilidades humanas, o sopro divino dentro da Igreja Católica. Francisco era uma figura carismática, cuja missão consistia em reconquistar a credibilidade eclesial junto à sociedade hodierna, em parte materializada e alheia ao Evangelho. Não há dúvidas de que seus gestos e palavras contribuíram para tanto. Pastor misericordioso, despojado, voltado para os problemas e causas importantes, urgentes e justas. Usava paramentos, relógio e sapatos simples, sem a marca de notáveis fabricantes, tendo apenas aquela do seu despojamento. Sofreu inúmeros ataques por parte de seus opositores, inclusive autoridades do clero. A falta de escrúpulo e o desespero de alguns manifestavam-se acintosamente. Uma corrente insistia em denegri-lo e desestabilizá-lo. 

A eleição de Francisco tornou a Igreja mais exposta, como entidade milenar, enclausurada em suas estruturas e tradições. Reiterou a importância de uma Igreja livre e ágil para cumprir sua missão. Isto incomoda, pois tal liberdade pressupõe riscos no caminho que leva aos sofridos. O Abbé Pierre, apóstolo dos excluídos franceses, referindo-se aos a seus oponentes, dizia: “Eles têm as mãos limpas, pois não costumam tirá-las das luvas ou dos bolsos.” Para quem se apega à segurança institucional, uma Igreja mais despojada é uma proposta arriscada, sobretudo no mundo de hoje, fluido e fragmentado. As reações contrárias a Francisco revelaram o medo de que a instituição se perca. A oposição ao papa argentino tecia críticas a uma concepção de Igreja que assusta, pois relativiza o poder. Dir-se-ia, mais exatamente, a ilusão do poder, posto que se presencia o desempoderamento clerical. Este não ocupará mais no mundo secularizado o mesmo espaço de outrora.

Os adversários de Francisco não queriam discutir ideias teológicas sobre aquilo que a Igreja poderia ser ou não. Demonstravam abertamente sua rejeição à mudança estrutural externa pela qual ela eventualmente poderia passar. Temiam pelo desaparecimento de seus privilégios, pelo fim de seu prestígio e que sua riqueza fosse somente o amor ao próximo (desmistificando a pompa, “a pastoral do pano”, a ostentação e a glória) e suas mordomias se transformassem em pão na mesa dos famintos. Mostravam um receio de que a Igreja olhasse para todos de igual forma, enchendo-se de pecadores, pois não estavam preparados para isso.  “Ide, pois, aprender o que significa: misericórdia eu quero, e não sacrifícios”, afirmava Jesus (Mt 9, 13). O Papa Francisco manifestou-se líder inaudito e insólito. Este surpreendia, ao buscar a transformação das estruturas eclesiásticas e do mundo. Muito se escreveu a respeito de suas atitudes. São icônicas, despertando para uma Igreja em transformação, apesar de lenta. Por isso, o papa latino-americano foi amiúde vítima de invectivas implacáveis, desrespeitosas e injustas, advindas, mormente, dos irmãos eclesiásticos.

Os opositores de Bergoglio não se quedavam tranquilos. É compreensível, ainda que inaceitável. Os paladinos do “status quo” defendem a “segurança” e, nesse sentido, toda perspectiva de mudança soa como ameaça. Foi também assim com Jesus. A nova proposta da imagem de Deus trazida pelo Mestre punha em questão elementos da religião de seu povo. Nesse sentido, explicam-se as palavras de Caifás: “É melhor um só morrer do que perecer todo o povo” (Jo 11, 50). A morte de Cristo significou para as autoridades da época “a defesa da religião”. O mesmo se pode dizer da oposição orquestrada a Francisco. Tal reação, tanto a dos seus adversários, como aquela dos êmulos de Jesus, revela falta de percepção e apego à instituição temporal. Cristo veio anunciar a Boa-Nova, de Paz, Justiça e Salvação. Sobre isto o Santo Padre chamou a atenção. E com humildade procurou abrir as portas da Igreja para que os cristãos respirassem o ar puro do perdão e da graça divina. É certo que uma Igreja dirigida por seres humanos seja passível de cometer pecados e erros, mas deverá reconhecê-los e corrigi-los para continuar a ser o sacramento de Cristo. Alguns clérigos esquecem ainda hoje as palavras do Mestre: “Entre vós, não seja assim, quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve” (Mt 20, 25). Cristo terá dito à chegada de Francisco no Céu: “Vem bendito de meu Pai. Recebe em herança o Reino que Ele te preparou” (Mt 25, 34).

 Mensagem de Páscoa (2025) Padre João Medeiros Filho Vivemos num mundo confuso em relação aos valores da vida. Estamos inseridos numa sociedade atordoada, insensível ao Transcendente. Participamos de uma civilização descrente de um futuro melhor. Cabe-nos perguntar: o que falta, hoje, à Páscoa de Cristo? O que é preciso para que a Ressurreição de Jesus possa transformar e renovar o mundo e os homens? Primeiramente, é fundamental acreditar na Vida que é Cristo. Ele venceu a morte! Sim, em meio a tantas notícias desalentadoras de violência, fome, corrupção, impunidade, violação à justiça, nós cristãos temos o dever de anunciar que Jesus veio trazer a paz. “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27). Para celebrar a Ressurreição de Cristo, mister se faz sentir a presença de Deus, que veio morar conosco, descendo ao nível mais ínfimo da humanidade. Ele pregou a dimensão da fraternidade. Neste tempo de tanto ódio, desconstrução e insana polarização ideológica, fartamente disseminada pela mídia, somos chamados a proclamar que a renovação, o perdão e o amor são possíveis. Entretanto, é necessário crer nas palavras de Cristo: “Confiança, eu venci o Mundo” (Jo 16, 33). O Brasil não merece viver de mentiras, narrativas, desonestidade e violência, e sim do verdadeiro Amor que vem de Deus. Aos que creem em Cristo, desejamos enfatizar o compromisso de construir um mundo novo, a civilização da vida e do diálogo, visando à harmonia. Como gostaríamos que a Boa Notícia fosse largamente difundida, levando todos a viver tempos novos! Que Cristo Ressuscitado traga alívio e esperança, suscitando um renovado dinamismo nos governantes, para que sejam melhoradas as condições de vida de milhões de cidadãos, eliminando a nefasta praga da corrupção e a deletéria farsa eleitoreira. Feliz Páscoa para todos. Passagem da violência e do ódio para a paz. Passagem da tristeza e do desespero para a alegria e esperança, das trevas para a luz. Passagem do desânimo e descrédito para a fé, inefável dom divino. Que haja Páscoa para o Brasil, passagem das inimizades para a concórdia, das contendas e conflitos partidários para a pacificação do país. O Povo precisa viver em clima de união e fraternidade. Para tanto, é preciso vislumbrar o brilho da Luz de Cristo, presente no símbolo do Círio Pascal. “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12), disse o Mestre. Emaús, em Parnamirim, aos 20 de abril de 2025

quinta-feira, 17 de abril de 2025

 





Celebrar a Semana Santa, em 2025 

Padre João Medeiros Filho 

A Semana Santa nos faz relembrar o sofrimento de Cristo em tantos irmãos nossos, vítimas de injustiça, desprezo, abandono e engodo político. Em cada Tríduo Pascal, renovam-se o mistério da dor e a alegria da vitória. O Filho de Deus assumiu a nossa existência em tudo o que ela contém de esperança e desespero. Sua Morte é a manifestação da fragilidade de nosso ser e sua Ressurreição, o sinal da dimensão infinita do homem. Nossa história torna-se presente. Não celebramos apenas fatos do passado, e sim tudo o que somos. O Verbo Divino encarnou-se, quando se “fez homem e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Sofrendo, Ele desmascara a estrutura injusta da humanidade. Ressurgindo, proclama a vitória sobre o pecado, simbolizado na destruição e na angústia humana. A Semana Santa – memorial da misericórdia divina – revive a resposta suprema de Cristo à tentação e ao desafio cotidiano do mal. Jesus provou sua solidariedade incondicional pelo ser humano. Por isso, deixounos o sacramento da Eucaristia: sinal inefável e permanente da Bondade divina. Jesus não tem somente palavras de conforto. Mas, entrega sua vida para selar a união do Pai com a humanidade. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). A presença diária de Cristo em nossa vida está assegurada pelo Pão Eucarístico, que se torna nossa força. Ele caminhará ao nosso lado, como outrora fizera com os discípulos de Emaús. Ao se entregar como nosso alimento, Ele quis mostrar que tomar a refeição juntos representa partilha e comunhão. Convida-se à mesa quem se ama e considera. Eis o sentido da atitude do Redentor, que expressa sua plena doação, vivenciada na Quinta-feira Santa. Quem ama, serve e se doa. Esta é uma das lições do Senhor, antes de dar a sua vida pela salvação de todos. Ele revoluciona o conceito de importância e grandeza. Nobre, grande, importante é quem serve, não quem é servido. Devemo-nos lembrar constantemente das palavras de Jesus: “Estou no meio de vós, como quem serve” (Lc 22, 27). Eis o significado maior do Lava-Pés. Para os cristãos, amar é servir. Na Última Ceia, o Salvador recomenda: quem ocupa o lugar de honra, deve descer ao nível do ser humano para mostrar-lhe a sua dignidade. O Senhor ensina através de exemplos. Isto consiste também em ser Mestre. “Vós me chamais de Mestre e Senhor” (Jo 13,13). O Filho de Deus inaugura uma nova mentalidade pelo gesto insólito do Lava-Pés. A Semana Santa é a celebração da total doação divina. Esta, diante da lógica dos homens, chega a beirar à insanidade. E ninguém pode duvidar: é a “loucura de Deus” (1Cor 1, 25), traduzida e plenificada na entrega de seu Filho Único à morte, a fim de que ninguém se perca. A Paixão e a Ressurreição de Cristo são a prova maior de seu amor por nós. Jesus aceitou padecer e aniquilar-se na cruz para demonstrar nossa condição, o nada de nosso ser humano. Mas, Ele ressurgiu para revelar nosso destino e nossa vocação, sobretudo a magnitude divina que existe em nós. Para os cristãos, a cruz tornou-se símbolo de conversão e lugar de salvação. A Ressurreição significa os anseios de uma vida nova e busca da dimensão verdadeira de nossa existência. É fruto da clemência de Deus, que tudo recria. Assim é a Páscoa, também esperança e não apenas memorial. Dá-nos a certeza: Ele ressuscitou e não morre mais! Ensinou-nos que o amor, nascido do perdão, é mais forte que a própria morte, pois é Vida. Quem ama, fala muito do amado. É o testemunho. Por isso somos chamados a proclamar o Ressuscitado. Cabe-nos, pois, levar o Cristo à humanidade marcada por sinais de opressão e aniquilamento. No primeiro dia da semana (Jo 20, 1), Maria Madalena foi à procura do corpo do Salvador. Inicia-se assim a nova criação, nascida da alegria e da vitória. Somos vencedores e não derrotados, eis a mensagem central da Semana Santa! Feliz Páscoa, marcada pelo desejo de um Brasil melhor e um mundo sem guerras! “Por que buscais entre os mortos Aquele que está vivo?” (Lc 24,5)

 PRELÚDIO E FUGA DO TARIFAÇO

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Determinismo histórico dizem que existe. Há dezenas de casos tanto na política brasileira como mundial. Nunca foi tão fácil adivinhar a destruição do nosso planeta, num futuro não muito distante, vítima da poluição da atmosfera, dos mares e da natureza. Prever a paz na África, na Ucrânia e no Oriente Médio, por exemplo, é mero exercício de retórica. A gênese da questão palestina não é territorial, apenas, mas religiosa; desde o tempo do sultão Saladino e as Cruzadas do Vaticano. Óbvio ululante. Profecia é coisa séria. O dom de profetizar só ocorre com o apoio do Espírito Santo. Assim falou Malaquias. E antes dele, Zacarias, Ageu, Sofonias, Habacuque, Naum, Daniel, Oséias, etc., sem falar em Isaías, o maior deles. Não foram adivinhos mas profetas de verdade.

Após essa viagem de circunavegação polar em torno do assunto, chego a Natal, a “cidade” dos Reis Magos, adventícios, visionários, adivinhos e proficientes. Não se torna necessário recorrer a eles para distinguir ou antever recessão de Natal (Ribeira e Cidade Alta). Se assim fosse, eles teriam se estabelecido nas Rocas e deixado uma banca invejável de cartomantes e curadores. Baltazar, Gaspar e Belchior ficaram mesmo perdidos no deserto das arábias em vez das dunas da Redinha.

Não precisa ser profeta para chegar a conclusão que não emplacará 2030, sem que as avenidas de Natal se tornem intransitáveis. O número de veículos que circula já é maior, hoje, que a capacidade de sua malha viária. Estão financiando carros para pagar em sete anos (84 meses). Qualquer pessoa, com apenas um salário, sai de uma loja ou concessionária, sem avalista, lenço ou documento, dirigindo por aí. Quando acontecer uma crise econômica no país, quem vai para o beleléu: a financeira ou a seguradora? Já prevejo filas de carros abandonados nas vias públicas por inadimplentes enlouquecidos. Não desejo que isso ocorra, mas o calote vai ser geral.

Outro tema para o qual não se exige douta profecia está nas religiões. Algumas modificam o cristianismo ao seu bel prazer e conveniência. A boa nova para arrebanhar seguidores reside no apelo musical. A conversão está no tom. Jesus Cristo é fulanizado em forró, axé, lambada, brega, carimbó, swing e pagode. Em breve, em vez de MPB, surgirá a MPR (Música Popular Religiosa). Segundo os ruidosos desse mundo nada mais espiritual, após a palavra, que dançar um relabucho em alguns templos. Dizem eles que a unção é contagiante. Não precisa ser profeta para antever que essas religiões tendem a fazer desaparecer o Cristianismo. Não é por aí o caminho. Estão profanando o nome de Deus.

Não quero ouvir falar no desmonte da “Lava a Jato”, peça por peça. O velho Proudhon, o rabugento e radical filósofo francês doutrinava naquele tempo que a “propriedade privada é um roubo”. Mas, roubo mesmo meu caro “Proudha”, é o “tarifaço” compulsório e compulsivo dos juros dos cartões de crédito e emendas parlamentares. Pensei falar com o Procon, uma entidade fundada por Robin Hood para defender os fracos e oprimidos. Mas não há para quem apelar. Todos estão comprometidos. Até lá no S.T.F. Gilmar Mendes e Toffoli estão inocentando Antonio Palocci, confesso réu da Operação Lava à Jato.

Por isso, vou embora para Baraúnas. Lá eu tenho o SUS. Me alistarei no Bolsa Família e, quem sabe, no MST quando me sentir entediado. Quando volto? Não sei! Também não vou sofrer tarifaço! Quero, apenas, uma casa pequena de uma porta e uma janela. Lá vou ser eleitor dos Rosados. Desejo contemplar da janelinha aberta o vendedor de cuscuz e de munguzá. A simplicidade das coisas, da chuva caindo – quando o milagre acontecer – com goteiras pingando na sala sem móveis. Para trás, as notícias de pacientes que morrem nos corredores das UPA’s e hospitais. Nem PIS, nem whatsapp.

(*) Escritor.