sexta-feira, 13 de junho de 2025

 

DOIS LEÕES: da Rerum Novarum à Rerum digitalium

Adilson Gurgel

 

Pax Domini sit semper vobiscum.

Eleito em 8 de maio de 2025, o Papa PREVOST fez dessa a sua primeira saudação para o mundo inteiro (urbi et orbi) relembrando o que nos disse o Cristo Ressuscitado (Jo 20, 19-31): a paz esteja convosco!

Mas, ele também nos mandou um recado ao escolher o nome de LEÃO XIV, mostrando sua forte simpatia e homenagem ao seu precursor, o Papa LEÃO XIII. Isto porque não só Sua Santidade, mas todos nós também, devemos muito das conquistas sociais de hoje a partir do quanto dito pela Carta Encíclica Rerum Novarum – RN, promulgada em 15 de maio de 1891, por aquele Santo Padre. Não resta dúvidas de que ela deu efetivo início a DSI – Doutrina Social da Igreja e o novo Pontífice sinaliza que vai segui-la.

Tanto é que, logo dois dias depois (em 10 de maio), ao se reunir com os Cardeais que o elegeram, o Sumo Pontífice lembrou que a encíclica leonina, naquele Século XIX, já abordou:

a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial. Hoje, a Igreja oferece a todos o seu patrimônio de doutrina social para responder a uma nova revolução industrial e ao desenvolvimento da inteligência artificial, que traz novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho.

Com estas palavras e no mesmo encontro, o Papa PREVOST explicou a escolha de "assumir o nome de Leão XIV". O caminho indicado é, portanto, o da doutrina social, a ser percorrido mesmo nesta era dominada por desequilíbrios econômicos e novos desafios.

Assim é que o novo Pontífice já chamou a atenção para o fato de que a nossa Igreja, tendo como inspiração da DSI, é agora convocada para responder  a outra revolução industrial e ao desenvolvimento da inteligência artificial. Esta a nova missão da Igreja nesta era atual, dominada por múltiplos desequilíbrios econômicos e novos desafios a serem enfrentados.

Ressalte-se que a Encíclica leonina tem uma importância tão grande para o mundo como um todo e, em especial, para os cristãos e para todas as pessoas de boa vontade, que ela foi relembrada insistentemente por vários documentos papais, a respeito dos quais nos afirmou o Papa SÃO JOÃO PAULO II:

Podemos assim dizer que o seu trajeto histórico foi ritmado por outros escritos, que simultaneamente a reevocavam e atualizavam. (Carta Encíclica Centesimus Annus – CA, 1)

Numa clara demonstração da grande repercussão da RN, vamos citar, em ordem cronológica e dos vários Pontífices, os documentos promulgados sob sua inspiração:

1.      1931 à o Papa PIO XI (Ambroglio Damianno  Achille, Cardeal RATTI, 1857-1939) promulgou a Carta Encíclica Quadragésimo Anno – sobre a restauração e aperfeiçoamento da ordem social, em conformidade com a lei evangélica – no 40º aniversário da Encíclica Rerum Novarum.

2.      1941 à o Papa PIO XII (Eugenio Maria Giuseppe Giovanni, Cardeal PACCELLI, 1876-1958) levou ao mundo a sua mensagem radiofônica no 50º aniversário da Rerum Novarum, na Solenidade de Pentecostes de 1941 (01/06/1941) – sobre os direitos humanos e a justiça social, em meio ao contexto da II Guerra Mundial.

3.      1961 à o Papa SÃO JOÃO XXIII (Angelo Giuseppe, Cardeal RONCALI, 1881-1963) nos trouxe a Carta Encíclica Mater et Magistra (Mãe e Mestra) – sobre a recente evolução da questão social – no 70º aniversário da Rerum Novarum.

4.      1971 à o Papa SÃO PAULO VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria, Cardeal MONTINI, 1897-1978) enviou-nos a Carta Apostólica Octagesima Adveniens, no 80º aniversário da Rerum Novarum, em resposta às necessidades novas de um mundo em transformação.

5.       1981 à o Papa SÃO JOÃO PAULO II (Karol Josef, Cardeal WOJTYLA, 1920-2005) promulgou a Carta Encíclica Laborem Exercens, sobre o trabalho humano, no 90º aniversário da Rerum Novarum.

6.      1991 à o Papa SÃO JOÃO PAULO II promulgou a Carta Encíclica Centesimus Anno (Centésimo Ano) – No centenário da Rerum Novarum.

Pode-se dizer que a RN: (1) não só chamou o Estado a sair da sua indiferença com o que ocorria e a intervir na sociedade e na economia, em prol da classe operária e de todos os cidadãos nacionais, como (2) influenciou decisivamente o moderno Direito do Trabalho, cobrando uma jornada de trabalho que respeite as condições físicas do trabalhador; (2.1) o repouso semanal (pelo Papa LEÃO XIII chamado de “repouso festivo” – no item 26, da RN, – não só para o corpo mas também para um repouso consagrado à religião); (2.2) um salário que permita, no mínimo, a sobrevivência do trabalhador e sua família, bem como a possibilidade de ter, ao menos, um pequeno patrimônio; além de (3) ressaltar o papel dos sindicatos na defesa dos trabalhadores; (4) o direito de greve como último recurso para solução de conflitos trabalhistas; (5) o direito à propriedade privada, ao qual corresponde e se exalta o dever da dar uma finalidade social aos bens possuídos.

Enfim, a RN é tida como o documento que iniciou a DSI – Doutrina Social da Igreja. Ela ataca as injustiças e desigualdades provocadas pela Revolução Industrial, criticando também as soluções teóricas apontadas pelo socialismo e a luta de classes. Essa encíclica leonina defende firmemente os direitos dos trabalhadores, mostrando a dignidade do trabalho e da pessoa humana.

Vamos então seguir adiante, pois agora...

VIVEMOS NOVOS TEMPOS

Sim, temos hoje novos desafios a enfrentar, muitíssimo diferentes daquele final do Século XIX – mais precisamente, há 134 anos atrás (1891-2025). Por isto, repita-se, o Papa LEÃO XIV, nos lembra que, para enfrentá-los, a Igreja oferece a todos o seu patrimônio de doutrina social.

Mais: ele pretende utilizar a DSI para responder a uma nova revolução industrial e ao desenvolvimento da inteligência artificial, que traz novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho.

Nesta linha de pensamento e de ação, podemos como que antever uma espécie de Rerum Digitalium. Sim, não mais aquelas coisas novas da encíclica leonina mas, sob sua inspiração enfrentar agora as  coisas digitais. Com isto, fazendo face aos desafios atuais da questão do trabalho e dos direitos dos trabalhadores tendo em vista as grandes inovações trazidas pelas novas tecnologias, não só nas relações trabalhistas, mas em toda sociedade.

Devemos atentar para o fato de que: entre os riscos havidos com as novas tecnologias, em especial à inteligência artificial (que parece querer substituir o ser humano em tudo – menos nos sentimentos e emoções... ao menos por enquanto) poderemos enfrentar novas formas de escravidão, bem como de exploração das pessoas.

Por outro lado, aparentemente essas novidades tecnológicas também podem trazer novas oportunidades da era digital, particularmente às novas gerações, que já nasceram sob o signo de tudo isso.

Como salientamos acima, na encíclica RN, o fator particularizadamente das riquezas é o uso correto ou não que se faz dos bens e das propriedades particulares. Faz-se crer que tal constatação é válida também para o enfrentamento do uso das tecnologias digitais. Estas já estão fazendo novas riquezas (às vezes até quase instantâneas) e é preciso haver, entre os seres humanos, uma maior...

FRATERNIDADE

Será que o caminho a seguir é o da fraternidade?

O bom uso da função social da propriedade implica em vivermos como que uma santa fraternidade, compreendendo que os bens da natureza, bem como os da graça são patrimônio comum que o Pai nos deu a todos que somos do gênero humano. Lembremos o que nos afirmou o Apóstolo dos Gentios: nós somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo (Rm 8,17).

Este é o ideal, contido no Evangelho é igualmente defendido pelo Papa FRANCISCO na encíclica Fratelli Tutti – FT, onde ele prega a fraternidade humana e a amizade social. Este dever ser também o ideal a ser seguido pelo Papa LEÃO XIV, pois no referido encontro com os Cardeais, em 10 de maio, ele enfatizou que o Evangelho deve nos impulsionar a buscar "com alma sincera a verdade, a justiça, a paz e a fraternidade".

Essa pretendida fraternidade implica na luta por...

MANTER CONQUISTAS ADVINDAS DA RN

1ª CONQUISTA: manter uma jornada de trabalho que respeite a dignidade do ser humano, com jornadas compatíveis com as forças do trabalhador, sem excesso de carga horária com excesso de fadiga. Além da manutenção do que o Papa LEÃO XIII chamou de repouso festivo. Faz-se crer que as novas tecnologias e a inteligência artificial podem até proporcionar uma diminuição na carga horária laboral.

É sempre bom lembrar o que afirmou o Arcebispo Santo AMBRÓSIO DE MILÃO, no Século IV (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 265):

Cada trabalhador é a mão de Cristo que continua a criar e a fazer o bem.

2ª CONQUISTA: pugnar para que o trabalhador permaneça recebendo um salário suficiente para manter a si mesmo e a sua família com algum conforto, com possibilidade de ele poder até poupar. Acrescente-se a possibilidade de dar uma educação para economia, a fim de o trabalhador não ser tragado e sem forças para enfrentar o consumismo desenfreado.

3ª CONQUISTA: a luta pela instauração de uma ordem social justa, como querida pela RN. Com os “superpoderes” que as novas tecnologias digitais e a inteligência artificial podem dar a qualquer pessoa e a qualquer governante, impõe-se que a Igreja, o Santo Padre e – por que não? – todos nós, agora pessoas de boa vontade, mais uma vez e de forma tão contundente quanto a encíclica leonina, possamos dar ao mundo a orientação de caminhos retos e pacíficos a seguir.

Bebendo da fonte da Rerum Novarum, observamos que o item 35, que a encerra diz respeito à proposta de solução, apontando o caminho a seguir: o da caridade!

Vamos fazer a nossa parte, junto com o Papa LEÃO XIV, lutando para que os Governos e nosso legisladores trabalhem por um mundo melhor, sem olhar para o próprio umbigo, mas com um olhar benigno para todos os seres humanos, promulgando boas leis e tomando medidas sábias; pugnando para que as novas relações do trabalho sejam de direitos e de deveres mútuos e respeitados.

E, como dizia magistralmente o Papa LEÃO XIII: quanto a Igreja, ela nunca e de forma alguma deixará faltar a sua obra.

Podemos então afirmar que o caminho da caridade é também a estrada principal a ser seguida pela Igreja e por todos, sob a batuta do Papa LEÃO XIV, neste terceiro milênio.

Como disse o jornalista Amedeo Lomonaco, do Vatican News:

Na era digital, junto com as lógicas dos algoritmos, o fator humano continua sendo imprescindível para permitir que a família humana não transcure o sopro da solidariedade.

4ª CONQUISTA: esta é uma luta permanente e que ainda não foi obtida: a caridade. Com efeito, o último tópico da RN é o 35. O seu tema é “Solução definitiva: a caridade.” O Papa LEÃO XIII nos admoesta literalmente:

Façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance para salvação dos povos, e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser principalmente o fruto duma grande efusão de caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu S. Paulo as feições características com as seguintes palavras: «A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se resigna» (1 Cor 13, 4-7)

A tarefa é difícil! São PAULO já nos convocava há 2 milênios atrás. O Papa LEÃO XIII fez sua convocação há mais de um século. Mas não podemos desistir da luta! Muito menos o Papa LEÃO XIV, que é o farol a nos orientar os caminhos a seguir, com a Igreja. Esta jamais há de faltar na sua missão de lutar por um mundo melhor e mais cristão. Tarefa que também é nossa.

Sim. Esta é a forma que deve ser: de nossa parte, como irmãos de todos que somos, devemos, ou melhor: devo tomar a pulso a nossa/minha missão, a nossa/minha tarefa. E, finalmente, invocando mais uma vez as lições da encíclica leonina, façamos isso sem demora para que não suceda que, adiando o remédio, se torne incurável o mal, já em si tão grave.

Lutemos com o Papa LEÃO XIV para que (1) os governantes façam bom uso da proteção de todos, advinda de leis justas e exequíveis; (2) os que possuem abundancia de bens e de fortuna, façam  bom uso da função social da propriedade; (3) todos possam defender seus direitos pelas vias legítimas; (4) sejam restaurados os costumes cristãos, como afirmou o Papa LEÃO XIII, pois sem os quais os meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares resultados.

Não é o caso de pensar que isto é utopia e eu ou você nada fazer. Afinal, é preciso crer que é possível e dar o primeiro passo, com o qual iniciaremos o caminho para um mundo melhor: com as luzes de LEÃO XIII a LEÃO XIV.

 

 

Agc

08/06/2025

 

 

Dia de Santo Antônio

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes 

Imagem digital fictícia de personagem de desenho animado

Descrição gerada automaticamente com confiança médiaquadro do autor deste artigo.

        O Dia de Santo Antônio é comemorado anualmente em 13 de junho, data do seu falecimento em 1231.

    Santo Antônio ou Fernando Antônio de Bulhões, seu nome de nascença em Lisboa, Portugal, no dia 15 de agosto do ano de 1195.

Descendente de família nobre e rica, era filho único de Martinho de Bulhões, oficial do exército de Dom Afonso e de Tereza Taveira.


Sua vida religiosa começou aos 19 anos, quando entrou para o Mosteiro de São Vicente dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, contra a vontade de seu pai. Morou lá por 2 anos. Com uma grande biblioteca em mãos, daí a sua grande cultura.

Quando de viagem para o Marrocos para pregar o evangelho, no meio do caminho fica muito doente e é forçado a voltar para Portugal. Na viagem de volta, o barco é desviado e vai para Itália, terminando por parar na Sicília, em um grande encontro de mais de 5 mil frades franciscanos chamado Capítulo das Esteiras. Lá, Antônio conhece pessoalmente São Francisco de Assis. A mão de Deus o tinha guiado por caminhos diferentes.

Pelo seu valor, chamou a atenção de São Francisco, que o nomeou como o primeiro leitor de Teologia da Ordem.


A ele são atribuídos inúmeros milagres. Após a morte de São Francisco, ele foi enviado a Roma para apresentar ao Papa a Regra da Ordem de São Francisco.


Os seus feitos religiosos permitiram ser chamado como Protetor das coisas perdidas, protetor dos casamentos e Protetor dos pobres.


Santo Antônio morreu em Pádua, na Itália, em 13 de junho de 1231, com 36 anos. Pelo que ficou conhecido, também, como Santo Antônio de Pádua. 


Pelo fato de haver nascido em Lisboa, igualmente, é chamado de Santo Antônio de Lisboa.

O Dia de Santo Antônio faz parte das celebrações da Festa Junina, assim como o Dia de São João e Dia de São Pedro.

Sua canonização foi realizada pelo Papa Gregório IX, na Catedral de Espoleto, em 30 de maio de 1232, sendo o processo mais rápido da história da Igreja.

Em 1934 foi declarado Padroeiro de Portugal.

Em 1946 foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XII.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

 

Regulação, eufemismo de censura

Padre João Medeiros Filho

Atualmente no Brasil, o brado de Dom Paulo Evaristo, Cardeal Arns –  “Brasil, tortura e censura, nunca mais” – agoniza. Deseja-se repetir a tristeza do passado? Despreza-se o ensinamento bíblico: “O que detestas que te façam, não o faças a ninguém” (Tb 4, 15).  É deplorável ver as vítimas de ontem, convertidas nos algozes de hoje. A censura é guardiã de privilégios, exceções e interesses. Impor a mordaça à mídia “et alii” será a solução para os graves problemas brasileiros? Sob o manto da proteção à verdade, impõem-se normas, cujo objetivo sub-reptício consiste em intimidar e calar quem ousa divulgar opiniões e medidas contra abusos e iniquidades. “O que é a verdade?”, perguntou Pilatos a Cristo (Jo 18, 38). Com a regulação busca-se proteger a inocência de vulneráveis ou a fraqueza ético-moral de dirigentes? Quando faltam firmeza de argumentação e poder de convencimento, lança-se mão do autoritarismo e da força. Dignitários lutam por uma nova imunidade: a isenção de críticas (inexistente na Carta Magna). Rechaçam juízos de valor sobre suas palavras e ações. Uns são sorrateiros; outros advogam freneticamente a censura, a partir de seus parâmetros. “Quantum mutatus ab illo” (como as coisas mudaram), dizia Virgílio na Eneida, hoje um desconhecido, pois não se estuda mais o belo idioma do Lácio.

Há operadores da política e da justiça que falam em democracia e estado democrático de direito. Referem-se a tais valores, não como pensa a maioria, e sim um grupo. As ideologias (de ambas as vertentes) se encontram, não nas ideias, mas no “modus operandi” coercitivo e intimidatório. Falas fora de contexto e narrativas construídas têm revoltado, dividido e causado ingente mal-estar social. Uns lutam, a todo custo, para ver rapidamente o enterro daquilo que pode mostrar o lixo da “res publica”. O intento de conter a mídia e atemorizá-la caminha nessa direção. Tenta-se inibir qualquer ação contra os que manipulam de forma antiética a gestão e a política nacional. Há a desculpa de proteger a verdadeira informação, como se os cidadãos do Bem fossem incapazes de discernir ou perceber as iniquidades. Camufla-se o plano de defender somente os próprios interesses, não os da sociedade. Assim, grassam a corrupção e a impunidade no país. “Transbordam de ambição seus corações. Zombam, falam com malícia. E com arrogância ameaçam. Assim são os maus..., que com escárnio só fazem aumentar o seu poder” (Sl 73/72, 7-8;11), desabafa o salmista.

Regular a imprensa e as redes sociais é álibi para outros projetos e intenções abscônditas. Inegavelmente, nas plataformas veiculam-se difamações, calúnias, ódio, preconceitos, intolerância etc... Entretanto, já existem diplomas legais para coibir tais vilezas. É mais fácil proibir que educar. Ensinam-se lições sobre o uso dos meios de comunicação nas escolas? Isso é também dever e missão das famílias, do Estado e das igrejas. Acaso, propostas de regulação, como eufemismo de censura, não ferem direitos basilares, previstos na Constituição vigente? Pensa-se na criação de órgãos censores (quem os qualificou como detentores de toda a verdade?) para salvaguardar a “soi-disant” honra de alguns, que se julgam pública e socialmente inatacáveis ou infalíveis. Quem estará apto a determinar o justo limite das coisas, o Estado e seus organismos ou os próprios interessados (cidadãos)? Parece haver o propósito de colocar as redes e os indivíduos sob o jugo estatal, caminho trilhado por países ditatoriais e autoritários. O que diria o jurista Sobral Pinto, defensor de tantas vítimas das sanhas repressivas de outrora?

No Brasil da atualidade, a mídia e as redes sociais podem tornar-se instrumento para ajudar a conter a cultura da corrupção e da impunidade. É abominável que, com a desculpa e o pretexto de punir os “cibercrimes”, a mídia seja ameaçada, ao se insurgir contra as regalias de ímprobos e inescrupulosos. Cabe contestar os abusos nas plataformas. Mas, isso deve acontecer com respeito aos direitos fundamentais, sobretudo à verdadeira liberdade de expressão (e não ao seu simulacro), previstos na Carta Magna de 1988. Verifica-se não a tentativa de combater as supostas transgressões, mas a sede de um artifício “legal” para afastar o que incomoda os iníquos e corruptos. “Até quando, ó Deus, os ímpios triunfarão e haverão de proferir palavras de afronta?” (Sl 94/93, 3-4).

terça-feira, 3 de junho de 2025

 

Viva as festas juninas!

Padre João Medeiros Filho

A teologia cristã ensina que as festas têm uma dimensão sacramental, remetendo à felicidade do Paraíso Celestial. Despertam sentimentos de júbilo e exaltação. Os festejos juninos, natalinos e dos padroeiros de nossas paróquias são réstias do Infinito, acenos do Eterno, janelas da Beleza inaudita e perene. Eles mostram o lado bom da existência, em meio a tantos sofrimentos, dores e provações.

Os brasileiros estão se tornando tristes. Basta olhar seus rostos nas ruas e ouvir os desabafos. Sempre foram sadiamente irreverentes, bem-humorados, enriquecendo o folclore e o anedotário. Assim o diga nosso confrade Valério Mesquita, colecionador exímio de “causos” verídicos. Numa maior ou menor escala, todos têm sido afetados pela grave situação ético-moral e político-econômica pela qual passa o Brasil. Os acontecimentos desconcertantes e absurdos, que vêm à baila cotidianamente, fazem imaginar que se vive um pesadelo. Muitos ficam paralisados, atônitos e impotentes, restando-lhes a indignação. Para os que têm fé, há um convite à oração, suplicando dias melhores. Verifica-se uma inação coletiva diante dos escândalos. As coisas não vão bem, mas os cristãos devem revestir-se de fortaleza e coragem, dons espirituais que lhes são conferidos por Deus. Os otimistas acreditam que o país está sendo passado a limpo. Para outros, parece que a faxina sequer começou. Segundo observadores, descobriram-se apenas ninhos de ratos escondidos nos porões das instituições, roendo a nação, seu patrimônio e dignidade. Não falta quem se regozije e tripudie dos cidadãos, amparado na “lacuna iuris”.

Iniciado junho, há uma oportunidade de euforia e lazer para muitos. O brasileiro é, por índole, alegre. As festas juninas recordam o passado, ao celebrar suas tradições. Demonstram que as decepções sofridas e as vilezas vividas não conseguiram eliminar da alma o brilho da vida e o sorriso de seu semblante. Na pluricultura que o enaltece como povo, tem-se a oportunidade de construir o futuro. Existe a fé. Esta fortalece e faz lembrar as palavras de Cristo: “Confiança, eu venci o mundo” (Jo 16, 33). As festividades juninas demonstram a resiliência de uma gente que sofre, mas sabe alegrar-se e esperar dias felizes. Neste mês, os tradicionais folguedos em honra de Santo Antônio, São João e São Pedro podem trazer novo ânimo. Que o contentamento e a paz nos arrebatem! É evidente que o fato de festejar, por si só, não proporciona a solução de problemas estruturais. O pão está em falta na mesa de tantos, que tampouco se “saciam apenas com o circo”, segundo a metáfora romana. A festa – como um rito que retira da rotina – arrebata-nos das preocupações ou tristezas, mergulhando-nos naquilo que a existência humana é chamada a ser: solidariedade e comunhão.

Nosso cotidiano, tão marcado pelas injustiças e desigualdades, passa a ser enaltecido pela esperança da superação de problemas que nos afligem. Festejando, seja com muitos ou parcos recursos, a alegria nos invade, revelando que a vida pode ser boa e plena, como dom gratuito de Deus. A festa é um grito no ar, dizendo que o existir humano é divino e os maus não poderão destruí-lo, pois “só Deus é o Senhor da História”.  Eis a mensagem cristã. Festejar é tornar a existência humana valorosa e risonha, cheia de sentido e entusiasmo. E isso é cristão, pois Jesus veio ao mundo para tirar o homem da violência e escravidão, do desespero e da morte. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

“Nada poderá me abalar. Nada poderá me derrotar, pois minha força e vitória têm um nome: é Jesus”, assim canta-se nas igrejas. A virtude teologal da esperança nos fortalece, sendo capaz de construir um novo tempo. Isso não significa acabar com as ambiguidades inerentes ao ser humano. Trata-se de fazer com que o Bem floresça e o Mal, que tenta acabrunhar muitos, perca seu poder e vigor. A fé reafirma valores, legitima o que nos dignifica, superando o que pode nos oprimir e descaracterizar. Que este mês nos alegre e faça de nossa vida uma festa maior, expulsando o Mal e celebrando o que há de mais belo dentro de nós: a presença de Deus, pois “Ele está no meio de nós.”

quarta-feira, 28 de maio de 2025

 

“Bebês-reborn”, uma nova idolatria?

Padre João Medeiros Filho

Teologicamente, a idolatria cultua pessoas ou seres inanimados, transformando-os em ídolos. Entretanto, hoje manifesta-se de vários modos, incluindo a obsessão por bens materiais, celebridades, ideologias e até a dependência excessiva da tecnologia. Reside na substituição de Deus ou de valores imutáveis por objetos e criaturas humanas, tornando-os o centro da vida. Desta maneira, desvia-se da glorificação do Criador, exaltando o que está fora da essência de Deus. Alguns pesquisadores consideram a atenção exagerada aos “bebês-reborn” uma postura quase idolátrica. Neles não se pretende reconhecer uma obra de arte, fruto da inteligência. Trata-se da supervalorização de algo que não é ser vivo, no entanto tratado por alguns como humano. Na Antiguidade adoravam-se bezerros de ouro. “Mutatis mutandis”, é o que ocorre com esse modismo dos bonecos. A mitologia é rica em exemplos de adoração a divindades: personagens fictícias, astros, coisas e animais sagrados (que ainda existem em certas culturas).

“Humanizar objetos é um ato idolátrico, uma vez que são colocados em pé de igualdade com aqueles que foram concebidos à imagem e semelhança do Eterno (Gn 1, 26-28). Desrespeita-se e nega-se o plano divino”, afirmara Monsenhor Albert Houssiau, atualmente bispo emérito de Liège (Bélgica). Ao exaltar os “bebês-reborn”, tratando-os como crianças, afronta-se a Deus, que fez somente a criatura humana à sua semelhança. Javé exclama pelo hagiógrafo: “Não terás outros deuses diante de Mim” (Ex 20, 3)!

Psiquiatras e psicólogos consideram essa insólita situação, como distúrbio mental: uma alteração que vai da carência afetiva em busca de compensação ou transferência; do transtorno dissociativo à fronteira do desequilíbrio psicológico. Depara-se com bizarrices: existência de maternidades para os bonecos ou busca por hospitais humanos para “medicá-los”, judicialização pela guarda de um desses objetos, como se fosse uma criança real. Cuidadoras de casas geriátricas eram criticadas, quando tentavam tranquilizar algumas velhinhas, dando-lhes bonecas artesanais para amainar a sua tristeza, diante da saudade de seus filhinhos. Desvio mental ou não, a Bíblia lança uma diretriz sobre esses fatos: “Não vos volteis para os falsos deuses, nem façais para vós deuses de metal... Eu sou o Senhor, vosso Deus” (Lv 19, 4).

Para os filósofos e teólogos, a criatura humana parece ter perdido a noção de si mesma, seu lugar e valor. Volta-se para algumas ideias, sonhos e objetos, distanciando-se do Criador. O homem tende a perder a referência de sua origem. Deifica-se o que não é divino. Inúmeros exemplos desse fenômeno são descritos pelos mitólogos, dentre eles o pesquisador Junito Brandão. A Sagrada Escritura contém casos análogos aos “bebês-reborn”. O profeta Isaías já alertava seus contemporâneos: “A terra está cheia de ídolos. Divinizam a obra das suas mãos, aquilo que seus dedos fabricaram” (Is 2, 8).

O homem parece caminhar para a desconstrução de si mesmo, coisificando-se e humanizando coisas. Isso é fruto do absenteísmo de Deus e ateísmo prático. Ao afastar-se do seu Criador, o homem perde o referencial de si mesmo. Ao desprezar o Absoluto, passa a relativizar tudo, empobrecendo-se. Dilui sua condição de semelhança divina, priorizando o efêmero e material, substituindo a si mesmo por coisas. Cristo no episódio da Tentação no Deserto apresenta uma metáfora dos ídolos modernos e antigos: o ter, o poder e o prazer. São deidades, que se pretende pôr no lugar do Deus vivo e verdadeiro. Assim endeusam o dinheiro, a manipulação e o erotismo. São alegorias de antigas e novas divindades.

“Se Deus é desprezado, procura-se substituí-Lo por ilusões e delírios”, afirmou o filósofo Jean Ladrière. O profeta Isaías colocou nos lábios de Javé um alerta: “Eu sou o Senhor. Este é o meu nome. A outro não darei a minha glória (Is 42, 8)! Se Deus é esquecido, o homem pretende tornar-se o centro de tudo, criando ídolos e deuses segundo a sua imagem. Tudo passa a ser colocado de acordo com suas conveniências. É o que acontece com o culto dos “bonecos- reborn”. O salmista fala por Deus: “Multiplicam-se as dores dos que correm atrás de outros deuses... Não terei seus nomes em meus lábios” (Sl 16/15, 4).

 FOLCLORE POLÍTICO - I


Valério Mesquita*


01) Açu continua campioníssimo em matéria de folclore político. A primeira história é do vereador Chico Antão, setenta anos, que estava cansado das reuniões noturnas da câmara. Em plenas sessões, Chico dormia ao ponto de puxar ronco. Preocupado com os comentários que ouvira, foi procurar o presidente da câmara. Queixou-se Chico Antão: “Presidente, essas sessões de noite não tão dando certo pra mim. Tenho setenta anos e quando dá oito horas me vem um sono danado. Não dá pra minha filha vir no meu lugar não? As de dia eu venho!”. Problema regimentalíssimo.

02) A visita ministerial a um Estado é antecedida de cuidados especiais que beiram o pitoresco. As equipes precursoras preocupam-se com os mínimos detalhes. No governo Figueiredo o ministro da Indústria e Comércio Camillo Penna programou uma visita ao Rio Grande do Norte durante o governo Lavoisier Maia. Em Mossoró, onde pousaria o jato da FAB, o ministro seguiria de helicóptero para a plataforma da Petrobrás em Galinhos/Guamoré. Um assessor ministerial procurou o então chefe da casa civil do governo Iberê Ferreira para que avisasse ao governador Lavoisier que o dr. Camillo Penna tinha problemas auditivos em um dos ouvidos. “Que coincidência, o nosso governador também”, responde Iberê. A partir daí, avisados antecipadamente, o ministro e o governador em qual ouvido um deveria falar ao outro e vice-versa, começaram os cumprimentos de praxe em meio a um barulho infernal, banda de música, turbinas do jatinho que taxeava na pista e o giro da hélice do helicóptero que já iniciava os procedimentos de voo para Galinhos. Fala mansa, Camillo Penna tentava explicar gesticulando no ouvido deficiente de Lavô sobre os motivos do atraso e o tempo que não estava bom. O governador entendeu errado e inclinando-se fala no ouvido doente do ministro, apontando para a direita e para a esquerda: “Pra lá fica a fazenda de melão de Tarcísio e do outro lado a cidade de Mossoró”. E por aí foram. Ao redor, entre os circunstantes, aquele ar de visível constrangimento e de total comédia de erros. Foram cinco longos minutos de mal-entendidos somente superados a bordo do helicóptero após novos cuidados auditivos.

03) Todo o Rio Grande do Norte conhecia a obstinação e o destemor com que o senador Dinarte Mariz defendia um pleito em favor de um amigo ou de uma causa. A sua palavra tinha o lampejo de um cometa e o peso de um imenso asteróide. Mas se rendia à mística de uma palavra consorciada chamada “compadre”, porque espelhava as vertentes cristalinas da amizade seridoense, calcada na tradição e no respeito consuetudinário. Certa vez, Dinarte entregou ao então reitor Diógenes da Cunha Lima, um caudaloso currículo de um professor para ser nomeado diretor do CRUTAC/RN. Diógenes preocupou-se porque já havia escolhido “in pectoris” o seu amigo Fernando Lira. O dilema cresceu quando os dois percorreram página por página o alentado currículo do candidato senatorial que elencava cursos de toda natureza dentro e fora do Brasil. Ao final, Diógenes foi socorrido pela “lâmpada”. “Mas ele não tem um título que é o mais importante”, descobriu o reitor. “Qual, Diógenes?”, indaga Lira. “Você é meu compadre e é o que eu vou dizer a Dinarte”. Dia seguinte, preparado para o duelo, Diógenes procurou o senador e foi logo explícito e rápido: “Dinarte, eu vou nomear Fernando Lira para o CRUTAC porque ele é meu compadre”. Dinarte fitou-o em silêncio para, em seguida, no melhor sotaque caicoense, responder: “Diógenes, compadre a gente respeita”. Era o Seridó falando. O reitor tinha razão. E o velho também.

04) Patrício Português é uma figura lusitana largamente conhecida em Mossoró, sua segunda pátria. Anos atrás era proprietário de um avião bimotor e navegador aéreo de longo curso das galáxias oestanas. Certa vez, partiu de Natal pilotando a aeronave com destino a Mossoró. Durante a penosa travessia do “dorso do elefante” tomou umas onze doses do “escocês legítimo”, deixando-o fora de órbita. Quando sobrevoava Mossoró para aterrissar da torre do aeroporto recebeu o alerta convencional: “Atenção BV-116, torre pedindo a rota!”. “Atenção BV-116 torre pedindo a rota!”. “O quê?”, responde o nosso rico português. “A rota!”, retorna a torre. Patrício, zonzo da cabeça, confundiu as coisas e soltou um longo e sonoro arroto: “Barrrrr”.


(*) Escritor

sábado, 24 de maio de 2025

 



– HOMENAGEM DE NATALÍCIO –

 

ALFREDO MESQUITA FILHO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Alfredo Mesquita Filho nasceu em Macaíba, a 23  de maio  de  1901. Filho de Alfredo Adolfo Mesquita e Ana Olindina de Mesquita. Fez os seus estudos preparatórios em Macaíba, Natal  e Recife,  quando  cursava  medicina, teve que retornar  à  Macaíba  por motivo  do  falecimento  do seu pai, ocorrido em  1929.  Passou  a  se dedicar  junto com os irmãos às atividades de comércio, agricultura  e criação. Na sua  infância, o desejo da  família  era  vê-lo padre.  Resistiu. Não foi para o seminário.

Em 1946, foi constituinte elegendo-se deputado estadual  pela legenda PSD. Reelegeu-se em 1950 e 1954, exercendo nesses períodos diversos cargos e comissões. Já em 1958, candidatou-se novamente  a  prefeito  vencendo as eleições, tendo este  sido  o  seu último mandato eletivo, até, 1963. Como deputado estadual a ele se credita o  esforço da  vinda  de inúmeras obras para os municípios  que  representava  na Assembleia,  tais como: Macaíba, São Gonçalo do Amarante, Bom  Jesus, Serra  Caiada  (Presidente  Juscelino), Caiada (Eloy  de  Souza),  São Pedro,  Ielmo Marinho entre outros. Não obstante seus 40 anos de  vida pública, 30 dos quais militou na Oposição. Mesmo assim, conseguiu  com os  governos escolas e estradas, além de junto com todos os amigos da época haver experimentado  o triunfo da  implantação  da  Escola  de Jundiaí e a construção da ponte da cidade de Macaíba. Sobre essa ponte há um episódio. A antiga ponte  de Macaíba havia  desabado. Como  deputado  pessedista cobrou do  governo  do  Estado (Dr. José Varela) a sua construção.

Como o erário estadual  não  podia  arcar  com   as despesas, teve que recorrer ao antigo Ministério de Obras e Viação.

Entretanto, ao  aguardar  a  resposta  da  bancada federal  do  seu  partido, recebeu espontaneamente a  ajuda  do  então deputado  federal,  Aluízio  Alves, udenista  que  se  prontificava  a conseguir os recursos. Tal  fato, no Rio Grande  do  Norte  calcinado  das brigas do PSD x UDN, em 1950, em Macaíba, aceitar apoio de um udenista era um opróbrio.

Houve cenas de tumultos, pressão e  rompimentos políticos. Mas, como Macaíba para Alfredo Mesquita era mais importante que  os  partidos, aceitou a ajuda, o dinheiro chegou e  a  ponte  foi construída e até hoje está lá. Em  1961, após a campanha de Djalma Marinho a  quem ajudou por haver o PSD se fracionado para apoiar dois udenista, vendeu a  sua  propriedade Uberaba, em Macaíba, por "treze  mil  contos"  ao fazendeiro  Adauto  Rocha,  a fim de poder pagar  os  compromissos  da campanha. As eleições de 1962, 1965, 1966 e 1968 quando, já doente, enfrentou  sua  última  campanha  política,  testemunham   a fidelidade do seu espírito partidário e sua dedicação exclusiva ao seu povo.

No dia 12 de abril de 1969, pobre mas querido pelos humildes,  morreu  Alfredo Mesquita. Nesse dia sua cidade  parou.  Não para  lhe dizer adeus, mas, para lhe garantir que ele e ela  formariam naquele  dia, mais do que qualquer tempo, um binômio  inseparável:  um pacto de identificação. Ele e ela. Abraçados permanentemente em  suas entranhas.

Se vivo fosse, estaria fazendo 124 anos.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

 

Sermões e homilias

Padre João Medeiros Filho

Nos seminários e casas de formação eclesiástica, os futuros padres estudam homilética, uma disciplina voltada para a metodologia e as técnicas de pregação: homilias, sermões, panegíricos etc. No passado, os bacharéis em ciências jurídicas aprendiam retórica em função dos tribunais. Hoje, existem cursos específicos para ensinar a falar em público, como desenvolver o conteúdo, usar adequadamente as palavras, empregar a impostação de voz e gesticulação, levando em conta as diferentes profissões. Aqui no RN, alguns cursos fazem sucesso nesse ramo. Os profissionais da retórica são procurados especialmente por comunicadores, operadores do direito e candidatos em campanhas eleitorais.

Não é fácil falar em público, sobretudo diante de uma plateia heterogênea em termos de faixa etária, formação, nível intelectual etc. Tal é a assembleia das igrejas. Em geral, confundem-se sermão e homilia. Esta é uma palavra grega, que significa literalmente conversa em família. Trata-se de reflexão, comentário de cunho vivencial e meditação sobre um texto bíblico ou assunto espiritual. O sermão (étimo derivado do latim, indicando fala do púlpito) é um discurso adversativo, normatizador, abordando temas dogmáticos e éticos. Ambos diferem do panegírico (termo grego, significando elogio) que é uma peça laudatória. Na administração dos sacramentos e celebração da missa, requer-se uma homilia, pois se pretende algo reflexivo e mais próximo do coloquial.

Soe acontecer que os sacerdotes, em lugar de pronunciar uma homilia, fazem um sermão. E quando este deve ser proferido, acabam por realizar uma espécie de catilinária. Nos sermões e panegíricos cabe uma linguagem mais castiça, havendo lugar para os puristas da língua. A homilia deve ser enxuta, objetiva e pastoral. Nela deve brilhar o mistério eucarístico ou sacramental, e não o padre. O Papa Francisco recomendou: “A homilia não deve durar mais de oito minutos, porque depois desse tempo, a atenção se perde e as pessoas dormem.” Toda prédica exige cuidado e atenção. Apesar de quase sessenta anos de ministério sacerdotal, sempre procuro preparar minhas falas, sobretudo hoje com as redes sociais. Quando pároco em Caicó (RN), escrevia os tópicos e esquemas de minhas reflexões. Monsenhor Lucas Batista Neto ainda se recorda de meus cadernos, contendo sínteses e roteiros homiléticos. Preocupo-me em não repetir falas. A vida é dinâmica, por isso os conteúdos e formas necessitam ser atualizados.

Em Natal, há cerca de oito anos, após a missa de domingo, uma mulher gentil e esclarecida pediu para falar comigo. Pensei tratar-se de problema familiar ou confissão. Ela abordou o assunto das homilias. Naquele dia, Deus me inspirou. Fui conciso, objetivo e pautado no Evangelho. A senhora dissera-me: “Não costumo ouvir sermões e homilias. Uns são demorados e enfadonhos; outros, teóricos. Vários descambam para assuntos religiosamente irrelevantes. Em geral, os padres pregam mais de vinte minutos. Em um terço da exposição tratam de pecado, inferno e costumes. Durante o mesmo tempo, escolhem o pântano da política. Destinam os minutos restantes a um insistente pedido de dinheiro. E Deus onde fica, Padre?” Quanto à forma, comentou: “As pregações costumam ser recheadas de reprimendas, carões, sem propostas razoáveis.” Isso leva-nos a pensar.

Quando jovem presbítero, era arrebatado. Achava bela a retórica de alguns pregadores: Dom Nivaldo, Dom João Portocarrero, Monsenhor Walfredo, Padres Luiz Wanderley, Bianor Aranha e outros. Gostava das frases bem elaboradas, por vezes gongóricas, pronunciadas do púlpito. Deliciava-me, escutando a sinonímia e as metáforas. Encantava-me Padre Manuel Vieira, diretor do antigo Ginásio Diocesano de Patos (PB), orador brilhante, muito solicitado para falar em festas de padroeiros. Lembro-me de suas belíssimas palavras sobre a caridade, proferidas na Catedral de Sant’Ana, em Caicó. O povo vibrava com sua eloquência. A uma moça embevecida diante das palavras do orador, foi perguntado qual o assunto da pregação. Ela respondeu: “O padre disse tantas coisas bonitas, mas o assunto não sei.” Faz-me refletir o comentário de Mário Quintana sobre as falas eclesiásticas: “Nada das celestiais promessas ou das terríveis maldições. Se eu fosse um padre, citaria os poetas, porque a poesia purifica a alma... Um belo poema sempre leva a Deus!” O Livro dos Provérbios lembra: “A Palavra [sagrada] é a mais preciosa de todas as joias” (Pr 3, 15).

quarta-feira, 14 de maio de 2025

 




LANÇAMENTOS – DIA 15 – ANRL , 17h


"Todos nós, permanentemente, olhamos o tempo nos seus mais diversos significados: se é chuvoso ou quente; se está tarde ou cedo para chegarmos ou sairmos; os tempos de outrora, os de hoje e os vindouros; o tempo que o tempo faz e por aí em vante.

Mas, entre todos os escritores que conheço, poucos criaram uma relação tão forte com esse elemento - ora majestático ora corriqueiro -, o Tempo Rei, quanto Valério Mesquita. Não à toa, o seu primeiro livro, escrito no alvor da sua vida intelectual, foi intitulado “O tempo e sua dimensão”. Pequenos ensaios de um estudante de Direito tentando abarcar a dimensão do elemento mais inalcançável do universo. 

Depois disso, Valério agregou essa palavra ao seu universo criativo a ponto de exibi-lo não apenas na sua temática notadamente memorialística, mas, várias vezes, nos próprios títulos dos seus livros. Como é o caso deste mais recente, “Na linha do tempo”.

E agora, talvez por um ditame desse senhor inescapável, Valério juntou a reedição do seu primeiro livro e o mais recente para lançá-los ao mesmo tempo. 

É o que teremos nesta quinta-feira/15, a partir das 17 hs, na Academia Norte-riograndense de Letras, com Valério autografando “O tempo e sua dimensão” e “Na linha do tempo”.

Osair Vasconcelos

Jornalista"

 

 

 

Maria Santíssima, sempre amada e venerada

Padre João Medeiros Filho

Desde o século V, bem antes das aparições da Virgem Santíssima em Fátima (Portugal), maio já era considerado pelos católicos como um mês mariano. Nele presta-se culto especial à Mãe de Jesus. Durante trinta dias, reflexões sobre Nossa Senhora têm lugar e pertinência. A devoção mariana é bem característica do cristianismo, tanto no Oriente, quanto no Ocidente. Vários são os títulos dedicados à Virgem de Nazaré. Esta goza de privilégios junto a Deus, inclusive o de interceder em favor daqueles que a Ela recorrem por meio de práticas devocionais. O magistério católico e os teólogos declaram: “Maria consegue que os rogos a Ela dirigidos sejam atendidos pelo Pai Celestial.”

Ela possui um lugar especial entre os cristãos que, além de homenageá-la com diversos hinos e invocações, dirigem-lhe uma variedade de súplicas. Com o objetivo de venerá-la, realizam-se peregrinações a diversos santuários e espaços que lhe são consagrados. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “a devoção da Igreja à Santíssima Virgem pertence à natureza do culto cristão” (CIC, 971). Teologicamente, a veneração aos santos denomina-se dulia e à Mãe de Jesus, hiperdulia. Por isso, é a única reverenciada como Santíssima pelos católicos, os quais a distinguem assim também dos demais santos.

A figura de Maria tem interessado a pesquisadores, dentro e fora dos contextos religiosos e místicos. Além de obras literárias, a Virgem de Nazaré tem chamado a atenção de pensadores agnósticos e ateus, como a filósofa e linguista francesa Julia Kristeva. A missão de Maria no cristianismo impressionou a brilhante pesquisadora. Esta reconhece o lugar que a mariologia reserva às mulheres, ressaltando a dimensão feminina no cristianismo, ausente em muitas religiões. Para ela, a importância teológica de Maria no imaginário espiritual cristão consiste sobretudo em sua relação com Jesus Cristo, seu Filho. Ela leva a relacionamentos aparentemente insólitos, como o de Deus com a humanidade e aquele do Filho Divino com uma mãe terrena.

A formação cultural de Kristeva – herdada do pai, que pertencia à Igreja Ortodoxa Búlgara –  desempenha um papel relevante no seu interesse pela genitora de Cristo. Ela está convencida de que “o catolicismo teve em suas mãos o mais poderoso discurso de todo o Ocidente sobre a feminilidade e a maternidade.” Com a secularização, a ideologia de gênero e outras vertentes hodiernas de pensamento, ela teme que tal conquista se perca, o que deixaria a cultura ocidental amputada de um de seus fortes e fecundos componentes. Todavia, os temores de Kristeva não parecem assustar alguns teólogos. No Brasil – sem falar de outros países – a devoção mariana continua bem presente e cresce, a cada ano. As peregrinações a Aparecida do Norte (SP) e as romarias ao Círio de Nazaré, em Belém (Pará), ainda são momentos intensamente vividos pelos católicos. Neles, explicitam firmemente o amor pela Mãe de Cristo, a quem consideram a sua também. O destaque a Maria Santíssima no cristianismo permanece bastante sólido, apesar dos avanços tecnológicos.

A Virgem de Nazaré, além de todos os seus oragos, continua sendo em diversos povos e nações a sempre amada e venerada. É a Mãe a quem os fiéis se dirigem com confiança filial em todas as encruzilhadas de suas vidas, encontrando nela conforto e carinho. Em tempos de aflição e momentos de adversidades, doenças, perdas, pobreza, secas, descaso de governantes e autoridades, Nossa Senhora é certamente invocada. Ela é a Compadecida. Portanto, no mês de maio acorramos Àquela a quem a Igreja proclamou no Concílio de Éfeso “Theotokos” (Mãe de Deus). O apóstolo Paulo assegura, em sua Carta aos Gálatas: “Na plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4). Maio é dedicado especialmente a essa figura feminina, presente na Igreja, desde o seu nascedouro, conforme o relato do evangelista Lucas (At 1, 14). Relembro as palavras do inesquecível Oswaldo Lamartine: “Maria é o mais belo sorriso de Deus.” Como Isabel, no episódio da Visitação, cabe-nos exclamar com fervor: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42).