segunda-feira, 9 de outubro de 2023

 A NUDEZ DA SOLIDÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Existe uma doutrina defendida pelos monges trapistas do Tibet – até hoje não superada –  de que ninguém administra sozinho. E uma corrente mais ortodoxa complementa: não se ganha eleição sozinho. No Brasil, desde 1947, os pleitos majoritários e democráticos que elegeram Getúlio, Juscelino, Jânio, Fernando Henrique, Collor de Melo, Lula da Silva, Dilma Rousseff e Bolsonaro, resultaram de uma miscelânea de partidos. Todos governaram (?) com as facções que davam suporte político, não apenas no Congresso mas também nos aluguéis dos ministérios. Os novos tempos da Lava a Jato e seus registros criminais sepultaram as disputas ideológicas além das político-partidárias. Abriu-se uma fenda abissal na cabeça do povo que sepultou imenso contingente de seletos malfeitores. Posturas de governos de cama e mesa morrem todo dia vítimas da inexorabilidade do tempo e do fastio do povo.

Levantando-se voo do aerofágico campo de aviação de Brasília, aterrisso no aeroporto Aluízio Alves. Logo na pista de pouso pergunta-se: pode um governante administrar o Rio Grande do Norte sem o apoio popular e com o silêncio do poder legislativo? Nesse quadro de incertezas costura-se o longo caminho de alianças partidárias, políticas, lotéricas, familiares, sindéticas, assindéticas, históricas e histéricas. Fica evidenciado que governo não pode ser de um homem só. E que a política nesse verão é um mar de naufrágios fatais. Para o povo, o político continua sendo aquele indivíduo fraco e defeituoso. E não somente ele, mas todos os poderes institucionais. A máquina estatal tem que diminuir de tamanho e extirpar os privilégios. Vai ter que poupar mais ou tanto quanto a mulher de Patufas que era tão econômica em todas as coisas, que, mesmo fazendo amor, poupava o gemido.

A preocupação hoje é com a voz rouca das ruas para que não se torne amanhã uma bronquite pneumônica. É quando o verbo votar passar a ser intransitivo e irrefletido. Dir-se-á que os políticos abominam mudança eleitoral. O sufocamento da verdade e da transparência nessas transações eleitoreiras, eles consideram um charme e não uma feiura, uma paranóia, tal o corporativismo. No Rio Grande do Norte há um cheiro de pólvora no ar. As aparências não enganam. Vultos furtivos, à espreita, preparam escaramuças. Mãos anônimas tecem fios de discórdia. Há muita vaidade em jogo. A praça 07 de Setembro lança labaredas mais altas que as torres da telefonia celular lá nas dunas que serpenteiam Natal. A meu ver, a aliança da governabilidade está trincando. O compadrio do poder deixa escapar surdos gemidos e não nega, sequer, as flatulências. A temporada gastronômica que precede os abalos sísmicos da política estadual já começou. Querem almoçar bacurau ao molho pardo. E numa churrascaria um grupo de partisans pediram tucanos ao vinagrete.

O fato é que os observadores da cena política, mesmo sendo dezembro um período natalino, estão se surpreendendo sem razão. O ano da graça de 2024 está às portas. Aqui, hoje, sorrisos punhais escondem. Nessas incertezas, se outra for a leitura é porque tá todo mundo enrolando. E a sucessão governamental? Li numa coluna de estudos científicos que a seca no Rio Grande do Norte possui um estranho desígnio de engravidar os partidos políticos. As alianças repentinas sem uso de preservativo podem produzir efeitos deformadores. Estudiosos no assunto já classificam a promiscuidade política como transtorno de conduta. E se ocorrer inverno no início de 2024, a sua fúria pode romper adutoras e até velhos compromissos que não são eternos. Por enquanto, disse-me um prefeito, que “é melhor sofrer no poder do que longe dele”. Lembre-se o gestor público que o verdadeiro dono do mapa da mina é o povo.

(*) Escritor.



segunda-feira, 2 de outubro de 2023

 


Os 103 Anos De Nascimento De Vingt-Un Rosado Maia

Se vivo fosse, hoje, o professor Vingt-un Rosado Maia, estaria completando 103 anos de nascimento. Mas há dezoito anos ele partiu para outro plano. E apesar de todos esse tempo, sua presença continua viva na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de sua convivência. Eu fui um desses privilegiados. Por cinco anos fiz parte do seu círculo de amizade e me tornei seu discípulo. Eu, que vim de outra cidade, passei a amar essa terra por ele denominada de “Pais de Mossoró”, e a divulgar a sua história e a saga do seu povo. Em 25 de setembro de 1920, num dia de sábado, nascia em Mossoró, num velho casarão da Rua 30 de Setembro, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, sendo filho do patriarca Jerônimo Rosado e dona Isaura Rosado Maia. Era o vigésimo primeiro filho de uma família numerosa e numerada, como ele mesmo gostava de dizer, já que seu nome vem exatamente da sequência à ordem numérica francesa dos nomes que Jerônimo Rosado dava aos filhos. Teve uma infância normal, de brincadeiras telúricas, embora dando a impressão de ser um pouco contemplativo. Desde cedo se dedicou aos empreendimentos intelectuais, preferindo acompanhar a atividade do irmão mais velho, Tércio, filho do primeiro matrimônio do seu pai, que era um homem culto, poeta, amante dos livros e pioneiro do cooperativismo no Estado. E foi ainda na juventude que começou a cultivar o gosto pelos livros e pela pesquisa histórica. Na adolescência atuou como bibliotecário no Colégio Santa Luzia. E esse gosto pelos livros o acompanharia durante toda a sua vida. Em 1940 partiu para Lavras/MG para estudar agronomia. Lá chegando, o seu envolvimento com os livros, as letras e a pesquisa tornaram-se mais intensa. Nesse mesmo ano, com apenas 20 anos, publicou o seu primeiro livro, que recebeu o título de “Mossoró”. Concluindo o curso em novembro de 1944, voltou para Mossoró para desenvolver atividades junto à empresa familiar que atuava na área de exploração de gesso e paralelamente começou a desenvolver um trabalho no campo cultural, que culminou com a criação da Coleção Mossoroense. Apesar de pertencer à tradicional família de políticos que comanda Mossoró por gerações, preferiu enveredar mesmo pelo caminho da cultura. Na verdade, chegou mesmo a disputar dois cargos eletivos. A primeira vez candidatou-se a Prefeito de Mossoró, perdendo por uma margem de 0,4% em 1968. Em 1972 elegeu-se vereador com a maior votação proporcional da história de Mossoró, até aquela data. Mas foi mesmo na área cultural que se destacou, tornando-se ícone da cultura local. Mesmo não se dizendo escritor, mas “copiador de papéis”, deixou um legado de mais de 200 livros, que foram de antropologia ao estudo das secas. Como convocado de guerra em 1945, sofreu uma punição por transgressão disciplinar, ficando detido na cadeia da Companhia Escola de Engenharia de Ouro Fino/MG, por 15 dias. O motivo da pena foi ter fugido para encontra-se com sua namorada, América Fernandes Rosado, que seria sua companheira por toda a vida. Segundo um depoimento do próprio Vingt-un, ao terminar a carreira militar, o seu comportamento foi considerado insuficiente. Vingt-un esteve sempre presente em várias frentes de atividade cultural, tanto no município como no Estado. Foi professor fundador de três faculdades e idealizador da Universidade Regional do Rio Grande do Norte, hoje Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Foi fundador e duas vezes diretor da Escola Superior de Agronomia de Mossoró, hoje Universidade Federal Rural do Semiárido e professor Honoris Causa da UERN. Integrou o Conselho Estadual de Cultura, foi membro de quatro Academias em dois Estados da Federação, tendo sido criador e ex-presidente de duas delas, a Academia Norte-rio-grandense de Ciências e a Academia Cearense de Farmácia. E aqui eu abro um parágrafo para lembrar um fato importante na minha vida.  Dizem que o primeiro livro a gente nunca esquece. E isso é verdade. Em junho de 2002, num dia de domingo, por volta das 14h, toca a campainha em minha casa e quando atendi tive uma surpresa. Era o professor Vingt-un Rosado e dona América, que estavam voltando da praia de Tibau. Depois dos cumprimentos, ele olhou pra mim e falou: “- Junte umas 150 páginas desses textos que você já publicou nos jornais que eu quero publicar um livro seu. Consegui um dinheirinho com o Governo do Estado e vai dá pra publicar mais esse.” Com uma sentença dessas, não demorei a preparar o material e enviar para ele. Em novembro do mesmo ano, num dia de semana, eu estava no escritório da Petrobras aqui em Mossoró, onde trabalhava, quando me avisaram da portaria que o Professor Vint-un Rosado queria falar comigo. Autorizei a sua entrada na empresa e fui espera-lo na entrada do prédio. O motorista parou o carro aonde eu estava, e ele sem descer do carro foi logo dizendo: “- O seu livro está pronto”. E de repente o motorista abriu a mala do carro e começou a despejar pacotes de livros na calçada. Foram seis pacotes com cinquenta volumes cada um. Ele olhou pra mim e disse: “- Tá entregue.” E partiu no carro me deixando atônito com a situação. O tempo e o espaço dele era diferente dos demais.  Qualquer lugar e qualquer hora era bom para se produzir cultura. E assim nasceu o meu primeiro livro. Jerônimo Vingt-un Rosado morreu no dia 21 de dezembro de 2005, aos 85 anos de idade. Morreu não; encantou-se. Continua vivo na memória do povo da terra que tanto amou, ao ponto de idealizar nela um país, o País de Mossoró. Nos últimos anos de vida, como se adivinhasse a morte próxima, passou a escrever uma série de livros que denominou “minhas memórias”, certamente temendo levar para a eternidade informações necessárias aos que aqui ficavam. E assim surgiram “Minhas Memórias da Batalha da Água”, “Minhas Memórias da Batalha da Cultura”, em 7 volumes, “Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense”, “Minhas Memórias do Instituto Brasileiro do Sal”, “Minhas Memórias do Petróleo Mossoroense”, em todos esses trabalhos anexando documentos que achava importantes, como carta, memorandos, decretos, fotografias, nada esquecendo. Deixou uma obra imensa sobre o seu chão amado. Amava tanto o chão de Mossoró que deixou recomendações expressas sobre o seu sepultamento. Disse ele: “O meu sepultamento será no Cemitério Novo e não haverá túmulo. Serei coberto pela terra do solo sagrado de Mossoró. Neste solo serão plantadas cactáceas e bromeliáceas, tal como o fiz quando da fundação da ESAM na antiga fazenda de Fuão Pinto.” Assim foi feito. Conto essa história com mais detalhes num livro que denominei de “O Criador do País de Mossoró”, uma biografia de Vingt-un Rosado, publicado pela Fundação José Augusto. É na obra que deixou como legado que Vingt-un vive, pois esse é o segredo da imortalidade: ressurgir sempre que um livro seu é aberto, que uma frase sua é repetida e que um gesto seu é lembrado. Vive nesse momento, quando lembramos do seu aniversário de nascimento. Lembrando Celso Carvalho, “é triste passar pela vida como a sombra pela estrada. Quando passa é percebida... passou não resta mais nada”. Por isso Vingt-un fez-se luz. E assim criou o País de Mossoró.

sábado, 30 de setembro de 2023

 


Evocação a alguns amigos pets

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Em um dos seus exponenciais livros, Civilização e Cultura, Câmara Cascudo, no capítulo dedicado à Domesticação de animais, afirma: “O cão foi o primeiro animal que ingressou no convívio humano. É o mais universal dos mamíferos. Exceto os relativamente recentes de cães para almofadas e regaço, é auxiliar imediato e pronto para o serviço humano, em qualquer parte do mundo.  Era o único a carregar fardos no Novo Continente, superior à lhana fracalhona.  Sua popularidade torna-se fabulosa (...).  O latido é característico da domesticação. O cão selvagem não ladra.  Esculpido aos pés das estátuas tumulares como símbolo de fidelidade (...).  Curioso é que no Brasil seja cachorro, mais popular do que cão.  Cachorro era tradicional na Península Ibérica, uns 1.500 anos a.C..”
A seguir, um breve e saudoso relato dos cães aos quais dediquei e recebi afeição por grande parte da minha vida.
Quando criança, em Nova Cruz-RN, criei um lindo cachorro de nome Lassie, presente de meus pais que o trouxeram do Recife.  Ele veio em viagem de trem, pois, no passado, Nova Cruz se ligava por via férrea a Natal, a João Pessoa e a Recife.  Foram muitos avanços que o trem proporcionou à maioria das cidades do Nordeste, um progresso que, por descaso ou inépcia, deixaram definhar.  Para mim, em particular, e para meus irmãos, o trem era uma festa, não somente pelo burburinho alegre da estação de Nova Cruz, mas também pelas viagens para João Pessoa, cidade dos meus avós paternos.  Ainda hoje, ressoam na minha mente o apito da máquina Maria Fumaça, a voz dos vendedores de rolete de cana e o badalar dos sinos das estações.  Mas há uma outra benesse:  o trem tornou viável a vinda do Recife do meu cãozinho Lassie, talvez uma mistura de vira-lata com collie. Tinha pelos amarelo-ouro, era dócil, brincalhão e encheu de alegrias nossa casa de Nova Cruz, no meu tempo de menino.
Pouco depois de casar e de ter minha casa, tratei logo de criar um cachorro pequinês, todo pretinho, de nome Bug. Ele iniciou uma sequência de 12 cães, machos e fêmeas, que adotei e criei, sob constantes cuidados e carinhos de toda a família.  Devo dizer que sempre optei por cachorros que fossem nascidos de cruzamento de raças, melhor dizendo, que mostrassem algum sinal de origem vira-lata, pois muito me prendem a atenção esses cãezinhos tão espertos, leais e resistentes.  Ah!  Houve uma exceção, uma cadela de raça pura, a mais inteligente e a mais bonita que já passou pela minha casa, onde viveu por 18 anos.  De fato, ela era de raça pura, vira-lata pura, magrinha, esbelta, rápida, atenta, cor amarelo-mel, de porte médio-pequeno.  Veio da praia de Pirangi do Norte, e sua mãe chamava-se Catita, uma cadela de rua muito conhecida naquela praia, ainda no tempo em que o local era calmo e sem barulho. Para relembrar o nome da mãe, talvez, ela pegava qualquer catita errante que tentasse entrar em casa.  Ganhava dos gatos.
Nos dias atuais, tenho em casa um belo exemplar de cão, talvez uma mistura de vira-lata com pastor.  É robusto, tamanho médio, e atende pelo nome de Forte.  O dono dele mesmo é meu neto Gabriel, na casa de quem Forte viveu os primeiros meses de vida.  O cachorro cresceu tanto que logo tornou-se inviável tê-lo em um apartamento de convivência muito intensa.  Isto levou Gabriel a me dar a sugestão de criar Forte, e usou essa expressão:  “Vô, é guarda compartilhada”.  Aceitei de pronto e, desde então, só tenho alegrias pela guarda constante deste amigo sincero.  Em dias recentes, vi a notícia de que a guarda compartilhada de pets ganhou jurisprudência, com decisões judiciais que determinam animais de estimação viverem dias da semana alternados em casas diferentes dos ex-cônjuges.  Até nos Estados Unidos, a partir de 2017, a guarda compartilhada de pets já chegou aos Tribunais. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023


UM TEATRO PARA MACAÍBA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Raríssimos são os municípios do Rio Grande do Norte com tradição de arte cênica. Macaíba é um deles. Desde o tempo dos Albuquerque Maranhão, apaixonados pela música e pelo teatro, na casa do velho Amaro Barreto que encomendava ao jovem Henrique Castriciano de Souza (1874-1947) peças para serem apresentadas em sua casa. É de Henrique a peça “A Promessa” que inaugurou o teatro “Carlos Gomes”, hoje “Alberto Maranhão”. Nas décadas de 1910 a 1930, a teatralização resumiam-se aos dramas (como eram inicialmente denominadas as peças). Foram de autoria de Isabel Freire da Cruz (Dona Beleza) e da professora Arcelina Fernandes. Os dramas eram encenados no palco do cinema ou em palanque armado improvisadamente no salão do grupo escolar “Auta de Souza” com a participação dos alunos.

No começo dos anos quarenta, seu Joca Leiros (1882-1958) fundou com familiares e amigos, um grupo de teatro amador denominado “Grêmio Dramático Auta de Souza”, considerado, à época, um dos melhores do Estado, cuja programação e desempenho artístico dos atores eram citados habitualmente no jornal “A República”. O grêmio do mestre Joca apresentou-se no Teatro Carlos Gomes em 03 de setembro de 1944, com a peça “A Cigana me Enganou”, comédia em três atos e cinco quadros. O espetáculo foi promovido em benefício da construção do teatro de amadores de Macaíba. A direção de Hiran Pereira com cenografia de José Muniz. Em fevereiro de 1945, ocorreu a segunda apresentação em Natal com a comédia “Feitiço” sob a direção de Joca Leiros. A peça patrocinada pela “Comissão do Esforço de Guerra”, da Liga de Defesa Nacional visava auxiliar a construção do hospital da “Sociedade Médico-Hospitalar de Macaíba”.

Após tantos anos de luta ficou patenteada a tradição cultural de Macaíba - até então notável no domínio da música e das letras  com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lira, Augusto Severo, Alberto Maranhão (na política), Otacílio Alecrim, entre outros -  a sua notabilidade também na arte cênica, exercitada com amor, talento e inquestionável sentimento telúrico. Posso destacar excelentes artistas desse universo desaparecido, a começar pelo grande líder do movimento teatral João Viterbino de Leiros (autor e diretor), Luis Marinho de Carvalho (autor e contra-regra), Wilson Leiros, Antonio Coelho, Aguinaldo Ferreira da Silva, Edson Alecrim e Silva, Joanete Ribeiro, Mary Leiros, Ivete Leiros de Almeida, Nitinha Leiros de Almeida, Célia Pereira, Haydée Marinho de Carvalho, Branilze Costa, Alice de Lima e Melo, Luzinete Silva, José Muniz de Melo, Walter Leiros, João Leiros Filho, Luzanira Lima, Geny Maciel, Valda Dantas e Doralice Xavier.

Hoje, Macaíba não tem teatro. Existe uma plêiade de jovens vocacionados mas sem apoio nem esperanças das autoridades competentes. Macaíba precisa de uma casa de espetáculos que faça jus a tradição do passado luminoso. João Marcelino consagrado autor e ator teatral, filho de Macaíba, garanto que não se negaria na formação e seleção de grupos de atores. Sei que há outras necessidades prementes em favor do Município. Mas, o “Teatro Joca Leiros” reacenderia as luzes culturais de Macaíba de há muito apagadas.

Sem sair de Macaíba, lembro do saudoso Joca de Zé Ludovico que ainda hoje é lembrado pelos desportistas como o melhor volante de apoio do futebol macaibense. O seu futebol era inteligente e possuía uma notável visão de jogo. Vi-o atuar várias vezes defendendo a camisa azul do Cruzeiro FC. Nos anos 60, o Cruzeiro havia formado um excelente time que além de disputar o campeonato interiorano sagrara-se várias vezes campeão local. Mas, foi no clássico Cruzeiro x Arsenal de São José do Mipibu que ocorreu uma tragédia com o nosso Joca. O massagista cruzeirense era o famoso Poeta que aplicava uma massagem ritualística nas pernas do atleta com o bálsamo de sua criação chamado "Poetex" (marca patenteada). Nessa tarde o escolhido foi Joca. Os clubes já estavam em campo pousando para as fotos quando o público notou a ausência de Joca, que recebia potentes massagens com o produto "poetex". Joca, Joca, Joca, gritava a galera pelo seu ídolo. Após vinte minutos de extenuante massagem, Joca é liberado. As equipes já estavam formadas para o inicio do jogo e o juiz já impaciente apitava histérico. Nisso, ouve-se um alarido. Joca entra em campo. Após seis passos começa a ficar trôpego. Manca, cai, se levanta e, afinal, prosta-se aos pés do juiz totalmente combalido. O maqueteiro entra em campo debaixo dos impropérios da torcida. O efeito poetex nocauteou  Joca que ficou três dias sem andar.

(*) Escritor.





quarta-feira, 27 de setembro de 2023

 

A indispensável arte de escutar

Padre João Medeiros Filho

Ela exige dedicação e contínuo aprendizado. Talvez poucos se disponham a esse mister. Cristo, além de tantos carismas e virtudes, foi mestre também nesse assunto. Até orientadores de alma estão paulatinamente renunciando a esta nobre missão. Atualmente, muitos pagam a profissionais especializados para escutá-los. O mundo apressado de hoje não reserva espaço para tal postura basilar na vida social. O teólogo e pedagogo Rubem Alves escreveu: “Não é bastante ter ouvidos para compreender o que se diz. É preciso haver silêncio dentro da alma.” Já não se tem mais paciência ou tempo de acompanhar o que alguém tem a dizer. É frequente o impulso de interromper a fala do outro, dando palpites ou nela incluindo a sua opinião. Tem-se a ideia de que as palavras do interlocutor não são dignas de consideração e necessitam ser complementadas. Por vezes, muitos julgam suas opiniões melhores e mais importantes que as do próximo. Os quatro evangelhos narram a incansável atenção, paciência e solicitude de Cristo em escutar e dialogar. A incapacidade para tanto denota manifestação sutil de arrogância e vaidade. No fundo, acredita-se que se é mais justo, honesto, sábio ou capaz.

Proliferam escolas de oratória, retórica ou de falar em público. Faltam cursos de “escutatória”. Uma professora de língua e literatura espanhola costumava lembrar a seus alunos a diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar: “Hagan el favor de mirar y escuchar, porque para oír y ver bastan los ojos y las orejas.” Nas empresas criam-se ouvidorias, que fogem de seus títulos e objetivos. Muitas reproduzem a filosofia e rotina de seus administradores. Os descontentamentos e reclamações adiantam pouco, sendo não raro registrados por mera formalidade. São contraditórias muitas audiências públicas. Alguns discursam e a maioria emudece. Em geral, terminam com a confirmação dos propósitos e ideias de poucos em detrimento da multidão. O salmista já observava esse desrespeito ao ser humano: “Têm ouvidos, mas não escutam” (Sl 115/114, 6). Aos atuais e futuros mentores espirituais dever-se-á insistir sobre a disponibilidade para a orientação interior.

A vida e o mundo estão cheios de sons e vozes. Percebê-los é um dom característico dos artistas. É clássico o exemplo dos pianistas. Entram no palco, encaminham-se para o instrumento, sentam-se e concentram-se. Parecem extasiados diante da melodia que irão executar. Após algum tempo de silêncio, a música ecoa. É necessário silenciar para se enriquecer com os delicados sons do universo. Há alguns que são raros, mas presentes na memória de cada um. Por exemplo, o rangido dos carros de bois, o apito das fábricas e locomotivas, o despertar dos galos, o repicar dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões a lenha, o chilrear e trinado dos passarinhos etc. É preciso, por vezes, quietude para que eles surjam e nos conduzam ao passado. A sua beleza e musicalidade ficaram guardadas no âmago de cada um. Nas cidades há ainda os gritos dos vendedores, o vozerio das feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, o ruído dos rádios dos trabalhadores, o latido dos cães na entrada das casas… E há a sonoridade da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva e o murmúrio das cachoeiras.

Há uma pergunta pertinente e atual. Quem nos ensinará novamente a mística do silêncio e a fundamental arte da escuta? O exemplo da vida monacal tem sua importância para o reaprendizado. Os monges trabalham, alimentam-se, oram silenciosamente e falam com moderação. Seus momentos contemplativos e preces dão a impressão de que percebem ou recebem algo de sobrenatural. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: “O silêncio nos capacita a encontrar Deus. É a voz divina que abafa as vozes humanas.” Santo Ambrósio, quando bispo de Milão, falava que “é importante desobstruir os tímpanos da alma.” Não consta que tal postura seja abordada nas escolas, igrejas ou mesmo em família. Há disciplina para tudo, mas inexiste quem oriente a ser tácito para saber escutar o outro. Convém ter sempre em mente o que diz a Sagrada Escritura: “Tudo tem seu tempo... Tempo de calar e tempo de falar (Ecl 3,1; 6).

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

 Bíblia – mística, literatura, arte, beleza 

Padre João Medeiros Filho 

Em 1947, após a promulgação da Encíclica “Mediator Dei”, surgiram movimentos de valorização da Bíblia. Em 1971, homenageando São Jerônimo – cuja festa litúrgica se celebra em 30 de setembro – a Igreja Católica dedicou esse mês à Sagrada Escritura. Ele foi o primeiro tradutor dos textos originais para o latim, cuja tradução é conhecida como Vulgata. A Bíblia é revelação divina, mas também prece e literatura. No tratado “Doctrina Christiana”, Santo Agostinho equiparou os escritos bíblicos à excelência literária dos textos clássicos. Ali, assevera que a mensagem espiritual é enunciada numa beleza estética. Para o Bispo de Hipona, “a Escritura é fonte de experiência religiosa e escola de oratória e escrita.” Na sua época, quem desejava conhecer a elegância dos estilos e gêneros literários, deveria beber na tradição retórica, descritiva e poética, presente nos Textos Sagrados. A verdade bíblica é transcendental. Todavia, é indissociável de um belo suporte linguístico, pois fé e linguagem esmerada se completam. A condição teológica da Bíblia é inseparável da natureza literária. Desde os tempos mais remotos, há uma nítida consciência da perenidade da Palavra Divina. Assim se expressa o profeta Isaías: “As folhas secam e as flores murcham, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre” (Is 40, 8). Muitos autores, não teólogos ou exegetas, têm contribuído para aprofundar o conhecimento e o amor à Sagrada Escritura. Em seus estudos literários, descobrem a sublime qualidade dos relatos bíblicos. Dentre eles, destaca-se Erich Auerbach com a obra “Mímesis”. Nela, reconhece os dois paradigmas fundamentais da literatura mundial: a Odisseia e a Bíblia. Afirma que as narrações bíblicas contêm uma profunda intencionalidade artística e acentuada concepção harmônica do humano e sobrenatural. Estudiosos das formas literárias (Formgeschichte) vêm elaborando excelentes trabalhos, incentivando a leitura e proporcionando uma melhor compreensão do Livro Sagrado. Descrevem como Jesus levou seus compatriotas a ter mais consciência da vida interior e preocupar-se menos com a aparência exterior. Em “De profundis”, Oscar Wilde relata a seguinte experiência: “No Natal, consegui um exemplar do Novo Testamento e todas as manhãs, depois de limpar a cela da prisão e lavar os pratos, lia vários versículos dos Evangelhos. Era uma deliciosa maneira de começar o dia, enchendo-me de luz e paz.” Com o decorrer do tempo, foram se perdendo a beleza e o encanto dos Evangelhos, proclamados de forma inadequada ou apressada. Debruçar-se sobre eles é como entrar num jardim de orquídeas e rosas perfumadas, depois de sair de uma casa estreita e escura. Ali, o leitor poderá encontrar as principais realidades da vida: mistério, tristeza, amor, súplica, solidariedade, perdão, ternura, êxtase etc. A sua leitura desperta um sentimento no qual se percebem a poesia e a sublimidade da Palavra de Deus. Os textos bíblicos inspiraram renomadas obras artísticas, em suas variadas formas, criadas ao longo dos séculos: as catedrais, como a de Chartres, pinturas como as de Giotto, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, esculturas de Michelangelo, músicas sacras e clássicas etc. Dentre os autores brasileiros mais recentes, influenciados pela Sagrada Escritura, poder-se-ia elencarJorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Adélia Prado, Rubem Alves etc.Basta folhear a Bíblia com um pouco mais de interesse para verificar o que escreveu William Blake: “Ela é o grande código da arte ocidental.” Por sua vez, o poeta Claudel a considera “o imenso vocabulário, pois nela, e às vezes só nela, apreende-se a misteriosa, difícil e interminável arte de narrar e escrever.” O pintor Chagall denomina a Escritura de “atlas iconográfico”, pois tantas imagens ali contidas se fixam em nossa mente e mergulham em nossos sonhos. A Bíblia é também tesouro e patrimônio cultural da humanidade. Uma literatura construída por místicos, poetas religiosos, cronistas, hagiógrafos, cantada ou recitada durante séculos, antes de ser escrita. Ela é tecida de vocábulos que envolvem o mistério e registram os rastros do sopro divino, uma presença silenciosa, atingindo o nosso âmago. Por isso compreende-se o arrebatamento do profeta Jeremias: “Mal encontrei as Tuas palavras, e já as devorava. Elas se tornaram para mim prazer e alegria do coração” (Jr 15,16).

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

 A medicina passo a passo


Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Em Hamlet – quarto ato, cena 3 – Shakespeare usou a expressão: “As doenças desesperadoras se curam com medicações desesperadas”.  Ao longo do tempo, a medicina parece mesmo seguir o grande bardo inglês, na busca de tratar os diversos tipos de cânceres.  São medidas heroicas que, se causam transtornos ao bom funcionamento de órgãos e tecidos, precisam ser usadas para combater um mal maior.  Paracelso, médico do século XVI, que recebeu severas críticas mas também vivos aplausos, disse certa vez que todo remédio é veneno disfarçado.  O médico indiano Siddhartha Mukherjee, em seu livro “O Imperador de Todos os Males”, afirma que a quimioterapia do câncer, consumida pela feroz obsessão de eliminar a célula cancerosa, tem suas raízes na lógica contrária: todo veneno pode ser remédio disfarçado. Sabe-se que a terapia das doenças ditas malignas avançou muito, já tendo sido quebrado o tabu que as envolvia, embora ainda persista um certo temor. Porém, o temor é mais em relação aos efeitos colaterais das drogas usadas do que em relação à própria enfermidade.
Até o século XIX, a medicina teve um avanço lento, no entanto com grande significação para algumas áreas. Basta citar a descoberta das vacinas e da anestesia, o mundo dos micróbios foi exposto, a cirurgia tornou-se mais viável e menos traumática, enfim, o empirismo deu lugar a uma prática com base em métodos científicos.  Porém, a partir do século XX é que a medicina, seguindo a evolução da ciência, atingiu um alto grau de segurança, no uso de novas tecnologias, tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento.  Alguns avanços do passado, como as vacinas, passaram a ser usados de forma mais global, com efeitos fantásticos na prevenção de doenças, tais quais a varíola, a difteria e a febre amarela.  Com Salk e Sabin, já na metade do século XX, a pólio deixou de ser o pesadelo que era para os seres humanos.  Em 1921, na cidade de Toronto, no Canadá, dois pesquisadores – Frederick Banting e Charles Best – isolaram a insulina, e um novo alvorecer surgiu para os diabéticos de todo o mundo.
Penso que existem duas eras da prática médica, a pré e a pós-antibiótico. Quando menino, antes do uso desses medicamentos, quase sofri amputação de um dedo do pé, pois uma infecção se instalou em uma ferida causada por uma simples topada. A descoberta da quimioterapia antimicrobiana é o evento que mais benesses trouxe à prática médica.  O maior precursor da quimioterapia é o alemão Paul Erlich (1854-1915), que, em 1910, revelou para o mundo o tratamento da sífilis, com o produto Salvarsan. Em seguida, vieram as sulfas, por intermédio de outro alemão, Gerhard Domagk (1895-1964). No entanto, o primeiro antibiótico, a penicilina, deve-se a Sir Alexander Fleming (1881-1955), por meio de estudos revelados ao público no início da década 1930. Alexander Fleming deve ser considerado um dos maiores benfeitores da humanidade.  
Hoje, com a medicina regenerativa em plena evolução, inclusive com a possibilidade do crescimento de novas células em qualquer parte do organismo, algumas pessoas sonham com a imortalidade.  No entanto, a própria ciência, tal qual explicitado pelo Professor Siddarta Mulcherjee, da Universidade Columbia, em seu mais novo livro “A Canção da Célula”, diz que, apesar de tanto crescimento da ciência, algumas barreiras persistem frente a esse sonho ainda impossível de se tornar realidade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

 

RESENHA DA REUNIÃO DA ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS REALIZADA NA RESIDÊNCIA DA VICE-PRESIDENTE ODILEIA GOMES DA COSTA, NO DIA 23 DE AGOSTO DE 2023.


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Aos 23 dias do mês de agosto de 2023, pelas 15,30 horas, na residência da Acadêmica Odileia Gomes da Coista, sita à Av. Nilo Peçanha, 301 – Edifício Desembargador Floriano Cavalcante, compareceram os Acadêmicos da Academia Macaibense de Letras Francisco Anderson Tavares de Lyra, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Valério Alfredo Mesquita, Rui Santos, Racine Santos, Hailton  Alves Ferreira Mangabeira, Maria Luzinete Dantas Lima, Sebastião Palhares. Osair Vasconcelos, Carlos Alberto Josuá Costa e Odileia Gomes da Costa, tudo conforme convocação feita no grupo oficial de WhatsApp a seguir transcrito: ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS, Caros Confrades, boa noite. Convido a todos a se fazerem presentes na próxima quarta-feira, dia 23 de agosto, a Assembleia Geral Extraordinária, que será realizada no edifício residencial Floriano Cavalcante, avenida Nilo Peçanha, 301 (Residência da acadêmica Vice-Presidente Odileia Costa), em primeira chamada às 16h e em segunda chamada às 16:30. Atenciosamente, Anderson Tavares de Lyra, Presidente da AML. Assembleia Geral da AML, Data: 23 de agosto de 2023, Local: edifício residencial Floriano Cavalcante, Av. Nilo Peçanha, 301, Hora: 16h. Para tratar de assuntos relativos à posse dos novos acadêmicos eleitos, com solenidade aprazada para o dia 13 de setembro próximo vindouro. Os trabalhos foram iniciados pelo presidente da AML que expôs a necessidade de cumprimento das disposições estatutárias, respeitando-se os prazos e os regramentos nelas contidos e que esperava que assim fosse seguido por todos. Em seguida foi levantado o assunto pertinente a notas publicadas na imprensa local dando conta de atos de excesso de poder do Presidente ao promover a eleição para a cadeira nº 8, cujo Patrono é o intelectual Edilson Cid Varela, sendo que essa cadeira já está ocupada pelo escritor Marcelo Augusto Medeiros Bezerra, tanto que o intelectual Tiago Tadeu, eleito para a referida cadeira, tomou a iniciativa de renunciar a cadeira, em documento de 18 de agosto do ano corrente. Na ocasião foi travado um debate sobre os documentos relativos ao fato em discussão, tendo o Acadêmico Carlos Roberto de Miranda Gomes apresentado cópia da minuta da ata do dia 27 de agosto de 2011 e do ato de posse ocorrido no dia 11 de setembro de 2011, além do que existem fotografias dando conta da referida posse do Acadêmico Marcelo. Todos os presentes tiveram a oportunidade de manifestação sobre o assunto, destacando-se os pronunciamentos dos acadêmicos Carlos Gomes, Rui Santos, Racine Santos, Carlos Josuá, Osair Vasconcelos, Odoleia Gomes e Valério Mesquita todos acatando os documentos apresentados como verdadeiros e comprobatórios de que Marcelo Augusto é o titular da cadeira, enquanto Hailton Mangabeira insistia em que fosse dado um prazo ao interessado Marcelo Augusto para enviar a sua defesa. O Presidente Anderson declarou que fez tudo de acordo com o Estatuto e que houve a manifestação escrita da Comissão de Inscrição sem nominar o preenchimento da cadeira 8 e afirmou que pretendia renunciar ao seu mandato, no que foi apartado pelo Acadêmico Valério Mesquita dando conta que o momento não era oportuno. Os demais presentes não se pronunciaram. Após um período de reflexão foi posto o assunto em votação e foi votado pelo reconhecimento de que a cadeira 8 pertencia a Marcelo Augusto, no que o Presidente e o Acadêmico Hailton Mangabeira acataram. Nada mais havendo a tratar foi encerrada a reunião, do que, para constar, foi lavrada a presente ata, que vai assinada pelo Presidente Anderson Tavares de Lyra e por Odileia Gomes da Costa, esta na condição de secretária da reunião, por designação da presidência.


_____________________________________ Francisco Anderson Tavares de Lyra, Presidente da AML


______________________________________Odileia Gomes da Costa, Secretária designada para a sessão.



PARA CONFERÊNCIA DOS QUE ESTAVAM PRESENTES

terça-feira, 12 de setembro de 2023

 

AS CORES DO JARDIM DE NOSSA CASA
Valério Mesquita
mesquita.valerio@gmail.com
Não há melhor maneira de visualizar a eternidade que de uma janelinha aberta sobre a imensidão dos campos. Mas, pra mim bastaria o simples repouso contemplativo sobre o jardim ou as árvores do quintal de minha antiga casa em Macaíba. Elas têm a força do resgate das estações. Quantos fatos idos e vividos não presenciaram? Quantos olhares perdidos no tempo não posso recolher do velho jardim, impregnados nas folhas, nas rosas, nas pétalas dos “dedais de ouro” ou no jasmim debruçado há mais de 60 anos sobre o muro da calçada, cansado de dá boa noite?
A estátua da Deusa Minerva, de louça portuguesa, chantada no centro do jardim e chegada com a casa há mais de 100 anos passados, ainda guarda ciumenta e sobranceira a beleza e o perfume das rosas. A maior e a mais antiga das rosas não está no jardim. Ela o fez. D. Nair, do alto dos quase 100 anos, ainda o cultivava, associando-o a sua vida através do doce mistério da contemplação nas manhãs de ressurreição. Câmara Cascudo imerso nas brumas dos 80 anos dizia que “era uma saudade em vida agarrada ao sonho de continuar a viver”. Não há força mais dramática na passagem do ser humano pela vida do que a do senso trágico da sua própria brevidade. Partilhei, com a minha mãe, todas as emoções de sua velhice. Os seus repentes, as suas fragilidades e, acima de tudo, o patrimônio indescartável de suas lembranças. “Meu filho, a velhice é um fracasso”, queixava-se sob o peso de suas deficiências. Ao me ver cercado de amigos, conversando política, ariscava um prognóstico incontestável: “O Partido Social Democrático (PSD) nunca perdeu uma eleição. Eu e Mesquita demos aqui em Macaíba brilhantes vitórias. E como está esse ano?”. Era a heroína política anônima, ainda crédula na grandeza do último milagre do velho PSD de 1950, revivendo e reinventando as emoções limpas e as ilusões que um dia viajou com ela.
Quanto fascínio não exerce sobre todos nós o vasto jardim da rua Francisco da Cruz, nº 39, Macaíba. E os momentos de desilusão, sofrimento, melancolia, próprios dos lideres políticos em tantos olhares dispersos de Alfredo Mesquita, não se perderam pelos canteiros, e eles, somente eles, ainda guardam hoje mágoas secretas e lágrimas furtivas de profundidade vital?
Lembro-me que certa vez, meu pai criou no jardim uma asa branca. Era fã das músicas de Luiz Gonzaga. Permanecia longo tempo com a ave entre os dedos após chamá-la. Conversava com ela. Era a sua paz cósmica satisfeita. Trágico e negro foi o dia em que encontrou em pedaços pelo jardim a asa branca de sua ternura. Adoeceu. O filho médico Carlos Mesquita veio vê-lo urgentemente. O jardim que se tornara berço, também se transformara em túmulo de sua franciscana devoção. A partir daí, no jardim, foi decretado estado de sítio que puniu todos os cães e felinos vadios de perto e da distância.
Todas as reações:
Geraldo S. Queiroz, Ivan Maciel de Andrade e outras 67 pessoas

 


Esperando o novo arcebispo 

Padre João Medeiros Filho 

O profeta Isaias põe nos lábios de Deus Todo-Poderoso asseguintes palavras: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Deus não se prende à vontade dos homens. Realiza o que lhes pode trazer alegria e paz. Está escrito no Evangelho de João: “O espírito de Deus sopra onde quer” (Jo 3, 8). A designação do novo arcebispo de Natal, anunciada em julho próximo passado, corrobora a afirmação bíblica. Convém registrar que as quatro sedes arquiepiscopais, integrantes do Regional Nordeste II da CNBB, são ocupadas por arcebispos oriundos de outros estados. Os metropolitas da Paraíba e do Rio Grande do Norte são naturais da Bahia. Os de Pernambuco e Alagoas são paraibanos. Atualmente, nas capitais brasileiras, apenas cinco prelados nasceram no próprio estado. “Importa que o pastor não siga uma vida, nem possua uma mentalidade de príncipe”, recomenda o Papa. As entrevistas concedidas pelo nosso novo antístite denotam simplicidade. Seu ministério episcopal foi exercido em duas dioceses, em meio à gente humilde, sedenta de Deus e do Evangelho. Na opinião de estudiosos, a indicação de Dom João dos Santos Cardoso faz parte do processo de renovação pastoral dasigrejas diocesanas. A Santa Sé, por meio de seus organismos, tenta aliar à mensagem evangélica as necessidades espirituais e socioculturais dos bispados. Assim, escolhem-se pastores que possam fomentar colegialidade e entendimento interno nas igrejas. O Concílio Vaticano II despertou uma abertura maior para o mundo. Durante quase sete décadas, a arquidiocese de Natal esteve sob a liderança de prelados provenientes do seu próprio presbitério, calcado em sua visão eclesiológica. Foi importante e providencial. Mas, a Sé Apostólica julgou relevantes novos rumos. O período de pastoreio dos potiguares – de 1954 a 2023 – foi propício à assimilação de muitos valores religiosos. Entretanto, segundo teólogos, era preciso manifestar outras faces da Igreja de Cristo. A história eclesiástica do Brasil vem mostrando isso. Por exemplo, em João Pessoa, após mais de sessenta anos (1894-1959) da mesma orientação pastoral, a Santa Sé resolveu mudar. Igualmente, pode-se verificar em outras dioceses brasileiras. Foi o caso de Caicó, onde de 1952 a 2006, os pastores provieram do clero natalense. Seja bem-vindo, Dom Cardoso. Enquanto pesquisador, ex-professor de uma instituição universitária pública, olhe com carinho para o nosso mundo acadêmico. Constitui uma das maiores paróquias de seu novo rebanho, contando com mais de setenta mil pessoas. Outrora, havia dezesseis padres dentre os docentes do ensino superior para cerca de dez mil alunos. A presença sacerdotal era marcante na academia, contribuindo para a formação de líderes e cristãos. Muitos ajudaram a construir o Movimento de Natal. Hoje, a Igreja arquidiocesana detém apenas um sacerdote e um diácono permanente inseridos no ensino universitário. Em 1929, Dom Marcolino Dantas (quarto bispo e primeiro metropolita do RN), natural da Bahia, ao assumir a diocese – compreendendo todo o território de nosso estado – encontrou uma população de aproximadamente seiscentos mil habitantes. Hoje, o arcebispado (sem as dioceses sufragâneas) conta com mais de um milhão e meio, sendo um dos maiores do Brasil em extensão geográfica e densidade populacional. Dom Marcolino empenhou-se na criação de dois bispados no solo potiguar. Hoje, pela sua população e superfície territorial comporta mais dioceses. Espera-se que o novo antístite, a exemplo de seu conterrâneo, aceite o desafio de propor a criação de novas circunscrições eclesiásticas. Nosso quarto bispo repensou também a formação do clero, simbolizada na construção do atual prédio do seminário. Há que olhar para a unidade da família norte-rio-grandense, clamando por harmonia, hoje ressentida por razões ideológicas. A pastoral das peregrinações pede atenção. Nossa Senhora é a Mãe da Igreja. A devoção a Maria merece ser aprofundada, mormente nos santuários.Cabe lembrar que foram devotos da Virgem Santíssima (como Otto Guerra, João Wilson e uma plêiade de marianos) os pilares da renovação da Igreja em Natal e do Movimento que leva esse nome. Dom João, a grei do Senhor carece cada vez de solicitude amorosa e paciente. Ela tem fome do Divino. Deseja-se que futuramente a história possa registrar: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (Jo 1, 6).

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

 


O TEMPO DE DEUS

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

“O tempo de Deus não é o nosso tempo! O tempo de Deus é perfeito, não há atrasos (Gálatas 4:4). O tempo de Deus está relacionado ao tempo oportuno para cumprimento do Seu propósito ou vontade. Não pode ser medido ou cronometrado, mas atua na nossa história consoante à Sua vontade. “

A razão dessa premissa é ter chegado aos 84 anos de idade, isto é, 14 anos além da idade bíblica.

Família reunida, amigos atentos enviando mensagens e a minha saudade e solidão interior – faltava a peça principal dessa caminhada, a minha inesquecível THEREZINHA.

Tal qual um ator, sorri e fingi alegria. Contudo, a realidade chegou após às 21 horas quando voltei ao meu exílio voluntário para meditar e dormir. Consegui os dois até que nasceu o sol do dia seguinte, quando senti a realidade – continuava só.

Aqui não dou conselho para ninguém seguir o meu caminho, porquê ele parece patológico para muitos. Para mim foi uma escolha de amor eterno, onde a felicidade que foi vivida não se apaga.

Às vezes penso em fazer uma troca – todos os anos de vitórias, títulos e honrarias, por uma casinha modesta de praia com o espírito da composição de Chico Elion, sentido a brisa do mar, o regaço da lua, o calor do sol e pés molhados pela natureza do mar, como fora no passado na velha Redinha da minha adolescência, mas com a presença da mulher amada.

Sendo isso possível somente no sonho delirante, ponho-me a pintar, qualquer coisa que seja, para ocupar o grande espaço que resta da minha vida.

Constatei que se afastou de mim o espírito de Don Quixote e ficou o de Sancho Pança, até no aspecto físico.

Nada tenho a reclamar, pois o tempo é de Deus: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Tem razão o poeta lusitano Fernando Pessoa!