domingo, 28 de dezembro de 2014

CIRO JOSÉ TAVARES, E POR QUE NÃO?

 DO AMOR

 Ciro José Tavares.

Amo-te infatigável e indefinidamente.

Amo cada fragmento do teu corpo desolado.

Amo-te como amei inesquecíveis putas brancas,

acolhido no calor do leito de  lençóis macios.

Amo-te como rios que beijam margens e sem dizer adeus

passam sôfregos numa fuga inconsolável,

 ou como ventos outonais agitando árvores

e que veem nas ruas sonolentas o esvoaçar das  folhas secas.

Amo-te como amei dias venturosos num tempo de loucuras.

Amo-te degradada, infeliz, cristã, vazia sem ninguém.

Amo-te na pobreza e silêncio inquietantes porque és pura e meu amor.


DE SOMBRAS

  (Ciro  José  Tavares)  
De  onde está vindo o silêncio desses passos
despertando minha quietude debruçada na poesia? 
Ergo-me para encontrá-los e somem enigmáticos.
Quem anda tão doce sobre a terra e como o sol
passa veloz pelas vidraças das janelas, até afugentando
pássaros que se recolhem sob estrela vespertina? 
De onde chegam essas sombras parecidas
réstias de luas fugidias diante dos meus olhos?
Revela-te. Emerge do interior desse lusco-fusco,
e vem, anjo ou demônio num corpo de mulher .
São os teus receios que me abandonam no vazio?
Confessa sombra inalcançável o medo do amor.
Evola-se na escuridão a esperança de saber 
quem realmente és, e porque me atormentas.
Fico no vazio, nas mãos apenas os meus livros.
Como sombras não regressam deixo –te minha ausência no poema.






         O MANTO QUE ME AQUECE O CORAÇÃO

            Ciro José Tavares


Aberto e estendido sobre os ombros o manto

da Academia Cearamirinense

de letras e Artes Pedro Simões Neto,

dá-me a sensação de orgulhosamente ostentar

um largo colar cravejado de ouro e esmeraldas.

Agasalha-me de telúricas lembranças,

o brilho do olhar deitado na extensão verdejante dos canaviais

e o louro do sol acobertando  tetos e ladeiras da cidade.

É esse manto sagrado que me queima, refulge e borda

entre  as estrelas o imaculado azul da Virgem Padroeira.  


CONSTRUÇÃO

Ciro José Tavares


            Estou pela metade  submerso no que resta

            do lusco-fusco da meia luz de velas que se extinguem.

No fundo das sombras os renovados mistérios

farão emergir minha alma para construir

 a metade mais nobre e  mesmo entardecido,

 cego voltarei completo   aos claros, outra vez.




 Árvore do Fim do Mundo

 Ciro José Tavares


Finalmente alcancei-te árvore do fim do mundo.

À sombra entrego meu corpo mítico ao teu,

Abandonado ao mau e ferido pelo tempo.

E vejo a tentativa de podar os galhos nobres,

Os que pendiam sobre os muros espalhando flores pelo chão.

Apesar das dores não perdeste o cheiro antigo

E o fruto nos meus lábios tem o sabor do néctar dos deuses.

Venho de longe, navegante de Aiola,

Trazido pelos ventos, para deitar fadigas na terra sagrada que te cerca.

Alcancei-te e fico sob tua quietude árvore do fim do mundo,

Cabeça acostada no regaço contemplando estrelas,

O orvalho das manhãs caindo no meu rosto.

Fará lembrar as lágrimas que a brisa vespertina

enxuga antes que nos chegue a noite,árvore do fim do mundo.





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