quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 Solitude e solidão

Padre João Medeiros Filho

Psicólogos e místicos distinguem solitude e solidão. Esta é o estado de espírito, quando alguém se sente vazio, sozinho e desconectado, mesmo em meio à multidão. Trata-se de experiência desconfortável e até dolorosa. Enquanto, a solitude é consentida e calmante, ao se ficar só. Ela oferece uma escolha voluntária para autoconhecimento, reflexão e recarga de energias, que promovem crescimento e bem-estar. Tal condição de vida é escolhida especialmente por pessoas contemplativas, no caso dos monges, eremitas e anacoretas. A diferença fundamental está na qualidade da conexão consigo mesmo; frágil na solidão, profunda e nutritiva na solitude. Viver ou decidir estar sozinho nem sempre é sinal de abandono. Às vezes, é plenitude. Poderá ser um espaço ou momento, no qual o pensamento floresce e o silêncio se transforma em sabedoria. Aprender a apreciar a própria companhia é uma forma de liberdade. Quem acredita ou confia em si, nunca está realmente só. “Quando você se ama, a solitude se transforma em liberdade”, afirmava Santa Edith Stein.

Para Adélia Prado, “solitude não significa ausência, mas espaço vital de encontro consigo mesmo e o sagrado.” Nela, a alma se manifesta no cotidiano da vulnerabilidade humana e nas contradições da vida, elevando a rotina ao Transcendente. Resulta daí uma comunhão que acolhe tristeza e alegria, carne e espírito. Busca-se a sintonia do íntimo com o universo, aproximação do isolamento e do silêncio para escutar a vida.  A solitude é uma abertura para a verdadeira existência, um tesouro, no qual se pode descobrir a profundidade do ser, a complexidade da vida e a presença de Deus. Tudo isso se manifesta na sensibilidade e no olhar de quem medita. Conhecida é a súplica do salmista: “Olha para mim e tem piedade, Senhor, pois sou pobre e estou sozinho” (Sl 25/24, 16). 

Rainer Maria Rilke, um dos grandes poetas solitudinários, dissera: “As obras de arte nascem do isolamento.” O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que possivelmente o início da solidão humana se encontre no fato de se comparar. Experimentei isso em minha própria carne. Muito jovem e inexperiente fui estudar na Bélgica. Brocoió incurável de Jucurutu, nascido naquela pequena cidade do sertão potiguar, deparei-me com habitantes de tez e cabelos claros, de cultura diversa, amantes da erudição, considerados intelectualizados. Comparei-me com eles. Eu era diferente, introspectivo, de sotaque arrastado do nordeste brasileiro, mais voltado para a oralidade. Não passava de um patinho feio que os colegas discretamente desdenhavam. Raramente, era convidado para ir à casa de algum deles, sendo observado como um ser estranho. A ponto de um professor, ao saber de minha procedência (Jucurutu), perguntar: “De que tribo é você?” Senti-me injuriado e respondi: “Vim de uma tribo menos feroz do que a sua.” 

Foi então, quando me senti solitário. A solidão de ser diferente e inferior. E sofria. Sequer me atrevia a compartilhar meu desapontamento, junto a colegas oriundos de outros países. Parecia-me inútil. Eles não me compreenderiam. E mesmo que entendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive que suportar por algum tempo a minha solidão. As caminhadas pelo deserto da vida me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E descobri buscar aquilo que poderia amenizar um solitário: Sagrada Escritura, silêncio, música, literatura, a beleza da natureza, prece e mística. Deste modo, foi se formando aquele que hoje que sou. A solidão se transformou em solitude. 

Confesso que comecei a crescer, quando abandonei as comparações. Elas nos tornam inferiores, pessimistas, menores. Comparar-se pode ser destrutivo, leva à inveja, ao complexo de inferioridade e à “síndrome do vira-latas.” É preciso aprender a aceitar a dor, dela é possível nascer a beleza. Mas, não é aconselhável aceitar o desconforto da comparação, pois não leva à verdade. Dizia o poeta e teólogo Rubem Alves: “a comparação não é cristã.” Jesus a rejeitou, como se pode verificar na parábola narrada pelo evangelista Mateus (cf. Mt 20, 1-16). Nela, o patrão decidiu pagar o mesmo salário (sem distinção) aos operários da vinha. Se por acaso, sentirmo-nos na solidão, rezemos confiantemente: “Não me abandones jamais, ó Deus de minha salvação” (Sl 27/26,9).


 


São Sebastião, padroeiro de Jucurutu (RN) 

Padre João Medeiros Filho 

No dia 20 de janeiro, celebra-se a festa do mártir São Sebastião. Nas décadas de 1860 e 1870, após a Guerra do Paraguai, um surto de “colera morbus” grassou por vários estados do Brasil. Em decorrência disso, os habitantes da paróquia de Jucurutu fizeram uma promessa: “Se a população não fosse dizimada pela epidemia, pediriam ao bispo para o orago da paróquia ser São Sebastião, ficando, à época, São Miguel como co-patrono”. O arcanjo era uma devoção dos jesuítas, que fundaram o aldeamento, cerca de doze léguas, ao sul da Vila do Assú, conforme informações de Serafim Leite, em sua História da Companhia de Jesus. A mudança ocorreu quando Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, então bispo de Olinda, encontrava-se na prisão, vítima da “Questão Religiosa”. Governava o bispado Padre Sebastião Constantino de Medeiros, oriundo do Sítio Umari, município de Caicó. Posteriormente, esse ilustre sacerdote entrou para a Companhia de Jesus, terminando seus dias em Roma, onde foi professor na Pontifícia Universidade Gregoriana. Sou devotíssimo do santo mártir. Fui batizado, crismado, recebi a primeira Eucaristia e ordenado presbítero na matriz a ele dedicado, situado em minha terra natal. São Sebastião é muito cultuado no Ocidente, inclusive no Brasil. Nasceu em Narbona (sudoeste da França), provavelmente no ano de 256 e, pouco depois, seguiu com os pais para Milão. Ali, cresceu na fé cristã, tornando-se também um respeitado capitão da guarda do imperador romano. À época, não havia liberdade religiosa. Os cristãos eram perseguidos, presos e martirizados. As autoridades não sabiam que Sebastião era um deles. Como tal, conseguiu ajudar muitos prisioneiros, doando roupas, alimentos e animando-os a perseverarem na fé. Converteu ao catolicismo vários detentos. Possuía poderes miraculosos. Seus biógrafos descrevem o caso da cura de uma mulher deficiente auditiva. Vários milagres foram realizados por sua intercessão, mormente quando pestes e calamidades atingiam as cidades da Europa medieval. Com a sua proteção populações inteiras foram poupadas ou salvas de enfermidades. Ao descobrirem que Sebastião era cristão, amarraram-no a uma árvore, feriram-no com flechas e o abandonaram. Sobreviveu aos ferimentos. Santa Irene cuidou dele até ficar curado. Após recobrar a saúde, retornou às ações de caridade, tendo sido novamente preso. Desta vez, o imperador decretou o seu martírio. É exemplo de perseverança e coragem, diante dos obstáculos e provações da vida. Devemos ressaltar seu empenho em fazer o bem anonimamente, aproveitando as circunstâncias para semear alegria, consolo e ânimo junto ao próximo. Tinha consciência de que, uma vez descoberta a sua crença religiosa, ele seria martirizado. Sua autenticidade e capacidade de servir são notáveis e devem ser imitadas. A história mostra-nos que a devoção ao Santo de Narbona está presente em muitas localidades de nosso país. Ao longo dos séculos, é invocado contra a peste, a fome e a guerra. Quando surgiam epidemias e catástrofes, crescia o seu culto. Na zona rural brasileira, foram muitos os votos ao santo mártir, pedindo-lhe proteção contra as secas, que assolam o Nordeste, ao longo dos anos. Santo Ambrósio, bispo de Milão, tecia elogios sobre esse oficial do exército romano. No seu túmulo, em Roma, ergueuse uma basílica, perpetuando seu heroismo e memória. Sua morte deu-se entre 284 e 303, sendo imperador Diocleciano, o qual perseguiu muitos cristãos e sacrificou vários mártires do catolicismo. Sua figura, crivada de flechas, foi imortalizada pelos artistas renascentistas. É esta a imagem que possuímos na iconografia do catolicismo ocidental. São Sebastião é um santo da atualidade. Devemos pedir-lhe ajuda contra a violência cotidiana que faz vítimas indefesas e inocentes. Necessita ser invocado contra a peste hodierna das drogas, ceifando vidas. Nos dias atuais, supliquemos sua proteção contra as perseguições aos cristãos de vários Paises. Urge, pois, pedir sua intercessão contra outros males: mentiras, injustiças, ódio, corrupção, radicalismo, desonestidade intellectual, narrativas e tantos que assolam atualmente a nossa pátria. São Sebastião afirmou, com muita convicção, ao ser interrogado pelo imperador: “Antes de ser oficial do Império Romano, sou filho de Deus e soldado de Cristo. Tais palavras retratam sua personalidade, coragem e fé. Legou-nos preciosos ensinamentos e valores fundamentais. Por seu testemunho e martírio, faznos recordar as palavras do apóstolo Paulo: “Para mim o viver é Cristo.” (Fl 1, 21).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 PASTORADOR DE AURORAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

A visão de quem passa pelo empório dos Guarapes (Macaíba) testemunha um tipo inexprimível de mistério, grandeza e história, que não se manifestam, apenas, na visibilidade dos olhos. Espelho e sombra nos envolvem totalmente. Reflete a casa perdida da infância de qualquer um de nós, mesmo que distem quase duzentos anos de nascença. As cores da vida vem de dentro. Ao derredor da construção principal, aflora o lirismo vegetal e memórias mil de luar. Diante dos Guarapes paraliso o meu corpo e silêncio a boca, ante a emoção e a paz emblemática onde nascem, depois, todas as palavras. Templário erguido ao comércio, ao labor, a vida, a riqueza, ao capital, nele, somente restando, hoje, a raiz e o cupim, sem jardim, sem teto, gasto em sombras, sem rumor, apenas um eco antigo e longínquo da voz imaginária do grande capataz dos mistérios circundantes: Fabrício Gomes Pedroza.

“Feliz do homem que conhece a terra onde será enterrado”, disse o saudoso Dom Nivaldo Monte, já perto de sua partida e despedida. Ele não tinha nas mãos o acento da desesperança. Reescrevi hoje novo texto sobre os Guarapes movido pela aflição de um vento novo, ressurgente, após a longa noite da burla, do engodo e do humano ressentimento. Segundo os pesquisadores, os técnicos, as prospecções ao redor da área indicam um dominó de ocorrências ainda desconhecidas. Estão invisíveis, dissipadas e espalhadas no ar fino das brumas do rio Jundiaí soprando na paisagem do nunca mais. Queremos vê-la restituída, reerguida, alongada até o antigo cais e a capela, até desfazer todas as incertezas. Tudo, para sentirmos o peso da criação do homem que investiu e inovou a economia de Macaíba e do Rio Grande do Norte.

No esforço criativo de restaurar os Guarapes, congregam-se neste ano da paz de 2026, verdadeira confraria habituada às longas viagens repetidas. Para essa plêiade não interessa equívocos e maus murmúrios. Basta que a lembrança retorne submissa na velha casa que repousa em clarões e longos silêncios. Sobre a história do monumento já falei em textos anteriores. Após os gemidos, resta-me, agora, a alegria de haver achado o caminho. Um outro rumor intemporal já escuto e já me revejo diante de um espelho de sustentação. A porta que abriu não me traz enganos. As primeiras imagens dos Guarapes reconstruído renasceu dessa porta. E logo eu que me achava perdido, volto a perceber que não estou só. Estava exausto de ser enganado. Hoje, consegui a vontade política e a sensibilidade de fazer, dos que estão no poder.

A constelação de todos que se mostram envolvidos na obra constitui o fulgor da partida, do início de uma peleja. Naquela colina se ouvirão, logo mais, vozes diárias entre arcos voltaicos de sua beleza e significado para a história do Rio Grande do Norte. Desde o tempo dos holandeses, do temível Jacob Rabbi, disse-me o geólogo Edgar Ramalho Dantas que os Guarapes e Jundiaí, juntos, desafiam os estudiosos pelo circuito de circunstâncias no chão sagrado dos antepassados, a suscitarem descobertas, grutas, ecos irresignados, águas novas e subterrâneas. Atravessando o rio, vê-se de frente o memorial de Uruaçu, santuário dos mártires e bem perto dali as ruínas de Extremoz. Para trás, o Solar do Ferreiro Torto, já restaurado. Chega-se à conclusão que o entorno de Natal, naquele tempo foi o maior teatro de operações da produção de alimentos, comércio, moldura de dissídios e lobisomens, que somente os Guarapes renascido pode restituir pelo olho e o tino do estudo e da pesquisa, já em campo.

 

 

(*) Escritor.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026





 José Gomes da Costa 

 Nasceu na Fazenda Pitombeira, em Taipu-RN, a 17.03.1902, filho de João Gomes da Costa e d. Bernardina Rodrigues da Costa. Estudou inicialmente em Ceará-Mirim, no Colégio Ruy Barbosa; posteriormente em Natal, no Colégio Diocesano Santo Antônio, ingressando, em seguida, na Faculdade de Direito do Recife e vindo a concluir o curso na Universidade do Rio de Janeiro (1925). 
 No ano seguinte ocupou o cargo de Promotor Público em Caicó, ali casando-se com Maria Lígia de Miranda Gomes (falecida) com quem teve seu primeiro filho, o arquiteto, já falecido, Moacyr Gomes da Costa. Outros filhos do casal: Fernando de Miranda Gomes (falecido), Leda Maria Gomes de Carvalho, Elza Carlina Gomes Gondim (depois Leandro face o novo casamento), falecida, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Maria do Socorro Gomes Cardoso e José Gomes Filho. 
   Ocupou os seguintes cargos: 1- Promotor Público em Caicó (1926). 2- Deputado Estadual (1928-29) -  2º Secretário da 1929 Mesa da Assembleia Legislativa nesse período. 3- Procurador da Prefeitura Municipal de Taipu (1930-37). 4- Procurador Interino da Delegacia Fiscal do Rio Grande do Norte (1937). 5- Fiscal do Governo do Estado junto à Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil (1937-41). 6- Delegado da Ordem Política e Social - DOPS (1941-42). 7- Juiz Municipal em Natal (1942-44). 
    Exerceu atividades de comércio até a assunção de cargo na magistratura.
    Na condição de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1925, participou do movimento de criação da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional do Rio Grande do Norte, recebendo o nº 22, em 02 de maio de 1932, sendo essa Corporação oficialmente considerada criada em 22 de outubro de 1932.
    Em 1944, após aprovação em concurso, foi nomeado para o cargo de Juiz de Direito da Comarca de Santana do Matos, de 1ª entrância. Com base em remoção a pedido, serviu nas Comarcas de Angicos, Canguaretama, Macaíba e promovido por merecimento para a Comarca de Natal - 4ª Vara. Em 13/02/1952, foi promovido ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça, eleito em 20/02/1954 Presidente do Tribunal de Justiça. Serviu ao Tribunal Regional Eleitoral - TRE por quatro vezes: 1954-56, 1956-58, 1961-63 e 1963-65, onde foi Corregedor Eleitoral, Vice-Presidente e Presidente. Nesse período foi adquirido o terreno onde funciona a atual sede. Foi professor da cadeira de Direito Civil na Faculdade de Direito de Natal (1950). Faleceu em Natal a 23 de janeiro de 1982, aos 79 anos de idade. -     Foi, também, professor fundador da Faculdade de Direito de Natal (1950), lecionando a cadeira de Direito Civil.  
    Integrou a Academia Potiguar de Letras, cadeira 20, tendo por Patrono o Jurista Benício Filho. Presidiu a Academia Norte-riograndense de Astronomia. Foi o primeiro Presidente do Tribunal de Justiça Desportiva-TJD do Estado e um dos primeiros presidentes do América Futebol Clube (à época da compra do terreno onde se situa a sede daquela organização, no bairro do Tirol). Voltou a advogar, após a aposentadoria da magistratura e da UFRN, chegando a Conselheiro da OAB - Ordem dos Advogados do Brasil, secção local. 
    Publicou algumas matérias nas Revistas Forense e do Tribunal de Justiça, editou um estudo sob o título "A Vida e a Obra de Clóvis Bevilacqua" e outra plaquete sobre temas jurídicos. 
    Faleceu em Natal, a 23 de janeiro de 1982. 
    Sua bibliografia consta em GOSSON, Eduardo Antônio. História do Poder Judiciário do Rio Grande do Norte. Natal: Departamento Estadual de Imprensa, 1998 e 400 anos da Cidade de Natal. 
    Foi homenageado em livro "Testemunhos", da autoria do seu filho Carlos Roberto de Miranda Gomes, em 2002, centenário do seu nascimento.  

 GUSTAVO  SOBRAL

Tibau do Sul e praia da Pipa: conversas à beira-mar

Inspirado por pequenas peças sobre a vida cotidiana como o The Talk of the Town, da revista The New Yorker, que completou cem anos em 2025, e pelas Esquinas da revista piauí, que chega aos vinte agora em 2026, Gustavo Sobral imagina um The Talk of the Beach, ou quem sabe Enseadas, trazendo esse espírito para o ambiente do verão e da praia.

Conversas à beira-mar é um livreto digital do jornalista e escritor, resultado de anotações durante um verão vivido na praia. Em textos breves e desenhos, o autor registra impressões sobre o tempo e o espaço à beira-mar, observando o cotidiano do litoral, paisagens, personagens e gestos que costumam passar despercebidos.

O trabalho combina escrita e ilustração em um experimento de jornalismo visual que acompanha o movimento das ondas, dos vendedores, das jangadas, dos surfistas e da vida comum das praias. O resultado, que poderia ocupar as páginas de uma revista, transforma cenas corriqueiras em narrativa sensível, onde texto e traço se complementam.

O livreto está disponível em formato digital para baixar e ler, enquanto a versão impressa está prevista para ser lançada em breve, conforme anunciado pelo autor.

O projeto integra o conjunto de obras que Gustavo Sobral disponibiliza em seu site, onde também estão títulos como Cenas Natalenses e O Guia do Verão.

O acesso direto ao livreto está em https://gustavosobral.com.br/conversas-da-praia-anotacoes-de-um-verao-a-beira-mar/


 

A água e sua sacralidade

Padre João Medeiros Filho

Nos meus tempos de jovem padre, ao adentrar numa sacristia, havia em destaque um quadro sobre uma cômoda, afixado na parede, contendo os nomes do papa, do bispo local e a indicação da “oratio imperata”. Esta era uma oração obrigatória, determinada pela autoridade diocesana, a ser rezada na missa, em alguns períodos. De dezembro a março, costumava-se recitar a prece “ad petendam pluviam” (para pedir chuvas). Nas comunidades romanas dos primeiros séculos do cristianismo, nos períodos de maior estiagem, costumava-se realizar o canto processual das ladainhas (conhecido por rogações), suplicando a clemência divina para enviar chuvas. As tradições vão sendo esquecidas e abandonadas, mesmo no catolicismo.

O Rio Grande do Norte conheceu a luta de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros por água potável e abundante. Seu engajamento nessa causa foi marcante, a ponto de seu nome ter sido aposto a uma adutora potiguar. Citava amiúde a Declaração Universal dos Direitos Hídricos, assinada por vários países em 1992, no Rio de Janeiro. Consta do seu artigo 4º: “O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.” O inolvidável pároco de São Paulo do Potengi compreendeu os gestos de Cristo, ao demonstrar sua predileção pelo precioso líquido.

A água é um elemento sagrado, essencial à vida, exaltado na Sagrada Escritura. No princípio, “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No dilúvio, “elas purificaram a terra” (Gn 7,10-24). Moisés realizou a travessia dos hebreus pelo Mar Vermelho, libertando-os do opróbio dos egípcios (Ex 14, 21ss; 15,1-21). No deserto, fez brotar da rocha uma fonte para saciar a sede do povo peregrino em busca de Canaã (Nm 20, 10). Em seu batismo, Cristo foi banhado no Rio Jordão (Mt 3, 13). Na cena do juízo final, ouvir-se-ão palavras que fazem parte das Obras de Misericórdia: “Tive sede e me destes de beber” (Mt 25, 35). Fomos aspergidos ou molhados nas fontes batismais e inseridos na comunidade cristã. O corpo humano contém mais ou menos sessenta por cento do fundamental líquido, indispensável ao funcionamento dos órgãos. No catolicismo, sua importância é tanta que em todas as bênçãos o sacerdote asperge as pessoas ou objetos.

Nos evangelhos, Jesus apresenta-se marcadamente aquático. Foi batizado no Rio Jordão (Mt 3,13-17). Posteriormente, tornou o precioso líquido matéria do sacramento do batismo, por considerá-lo um princípio vital. Dessedentou-se no Poço de Jacó, onde tocou o coração da samaritana, trazendo-a de volta à graça divina. Navegou, muitas vezes, pelo Mar da Galileia (Mc 6,45). Fez dele e das barcas sua cátedra (Mc 4,1-2; Lc 5,1-3). Nos momentos de medo dos apóstolos, ordenou às ondas do mar que se acalmassem (Mc 4,39) e, em outra ocasião, caminhou sobre elas (cf. Jo 6, 18). Certa feita, determinou que dois discípulos seguissem um homem carregando um cântaro contendo o importante líquido (Mc 14,13). Durante a Última Ceia, tomando jarro, bacia e toalha, lavou os pés de seus apóstolos (Jo 12,1-17), gesto repetido nas celebrações litúrgicas da Quinta-feira Santa. No Calvário, pendendo do patíbulo da cruz, de seu lado aberto por uma lança “jorraram sangue e água” (Jo 19,34), símbolo da Eucaristia. Prometeu que do interior de quem nele acreditasse, jorrariam torrentes vivas (Jo 7, 37-39). Segundo os evangelistas, Ele escolheu os doze seguidores, transformando-os em “pescadores de homens.” (Lc 5, 11).

Não se pode esquecer: foi diante de um rio, lago ou mar que Cristo começou a sua Igreja, convocando os primeiros discípulos. Certa feita, passando pelo Mar da Galileia, viu Pedro e André lançando ali as suas redes. Diante desta cena, Jesus dissera-lhes: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mt 4, 19). De igual modo, chamou os irmãos João e Tiago, que lavavam e consertavam as tarrafas (Mc 1,14-20; Mt 4, 18-22). Voltando à nossa atualidade: nosso preclaro confrade Woden Madruga costuma fazer valiosas anotações e interpretações, acompanhando cuidadosamente a precipitação pluviométrica na região nordeste. Neste início de ano, diante da escassez das reservas hídricas, deve-se rezar pedindo um copioso inverno. Lembremo-nos da promessa de Deus a quem Lhe rogasse com perseverança e fé: “Derramarei água na terra sedenta e torrentes sobre o solo ressecado” (Is 44, 3).

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

 

Cartas de Cotovelo- Tempo de verão 2026-Jan. (1)

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, veranista

                Primeiras divagações de janeiro de 2026 em Cotovelo, tenho nova oportunidade de rever pessoas, amigos e amigas do meu círculo de amizade e aproveitar alguns novos serviços disponíveis numa praia que cresce e já se torna um bairro de Natal, mesmo contra a vontade de um diminuto grupo, que pretende ficar no tempo das cavernas.

                A rotina de um idoso geralmente é a mesma, ou até mesmo, vai diminuindo mercê da falta de disposição corporal e espiritual do dia a dia.

                Ultimamente não tenho aproveitado as delícias da praia pela dificuldade de caminhar e medo do sol inclemente, que já me fez passar por três cirurgias de pele. Então, fico confinado no meu quarto e aproveito a vantagem da varanda do primeiro andar para realizar leituras que conduzo de Natal todas as semanas.

                Neste começo de ano, foi prazerosa a releitura da “Conversa de Calçada”, de Manoel Onofre Júnior, com narrativas do cotidiano em tempos diversos, trazendo-me lembranças gratas para quem já chegou aos 86 anos. Também, em reedição de Abimael (Sebo Vermelho), consumir o livro “Cultura de Massa em Processo”, ensaio do falecido jornalista Alexis Gurgel em 1986, exemplificativo das crônicas de um tempo mutante, até demais, no campo da cultura de massa, registrando a exata e rápida travessia de mutações do processo e permitindo avaliar o que evoluiu ou que ultrapassou os limites do razoável.

Um terceiro livro, que não sai da cabeceira para renovadas leituras – “Papa Francisco – A Esperança Nunca Decepciona”, organização de Hérnan Reyes Alcaide, conduzindo-me a reflexões diferenciadas das minhas emoções.

                Já o citei em outra oportunidade, quando escrevi sobre o culto da Esperança. Mas agora flui as lições sobre as “migrações”, face aos comentários do raquítico grupo do ódio, que ameaçam as cercanias de Cotovelo, numa atitude retrógrada de criticar qualquer beneficiamento físico ou social que se empreende na comunidade, querendo regredir ao tempo da pedra polida.

Ora, todos que aportaram neste lugar, o fizeram pelo conhecimento de sua beleza, hospitalidade e placidez, repartido essas benesses com os caiçaras, em total harmonia. Eu fui um desses atraído, mas não adquiri aversão ao progresso, porque isso faz parte da geopolítica universal.

A hostilidade aos que migram para estas paragens, com o mesmo sentimento de lazer ou de oportunidade espiritual, visual ou econômica, conflita com a doutrina cristã, como apregoa o Papa Francisco, que comenta o sofrimento natural dos migrantes, forçados a abandonar a terra de origem e a falta de acolhimento dos que já estão aqui estabelecidos, relegando os princípios do “acolher, proteger, promover e integrar” aqueles que chegam com bons propósitos.

Em Mateus, 10.8 temos as palavras do Salvador: “De graça recebestes, de graça dai”.

Assim, devemos acolher os migrantes – em sentido genérico, desde que mantenham o tangível sentimento de pertencimento.

Aceitar a integração do migrante é de fundamental importância e não o combater, simplesmente, porque vem aqui tentar empreender, ajudando a comunidade e com ela dividindo as vantagens que conseguir.

Por derradeiro, relembro, que assim aconteceu com as migrações históricas dos Hebreus, Italianos, Japoneses, Alemães, Africanos e Latino, que ajudaram a fazer um Brasil melhor.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

 Marcas de intolerância e intransigência

 Padre João Medeiros Filho 

Na sua época, Cristo estava cercado desses gestos. Judeus e samaritanos se odiavam (cf. Jo 4, 9). Os homens tratavam as mulheres como inferiores. Os líderes religiosos judaicos desprezavam o povo (cf. Jo 7, 49). Sintomática é a frase de Tiago e João diante da recusa dos habitantes da Samaria em receber o Mestre: “Senhor, quereis que mandemos descer do céu fogo para que os destrua”? Porém, Jesus os repreendeu. Nos últimos tempos, tem-se a incômoda sensação de que as manifestações públicas de intolerância e intransigência aumentam. Muitas, lamentavelmente, alimentadas por lideranças políticas, religiosas e midiáticas. É verdade que, no Brasil, ao longo dos anos, não se viveu apenas de coerências, convergências, similaridades etc. A vida é complexa. Tem-se de lidar consigo mesmo e com outros, em meio às divergências, dúvidas, diferenças e contradições. Por isso, um desafio para o ser humano é coexistir e conviver. Não é fácil escolher o que representa um bem para si e os semelhantes. Nisso emerge a ética e dela a responsabilidade cada um por suas atitudes e as consequências para si e a sociedade. Por isso, a tolerância – atitude de aceitação e respeito àquele que diverge – exige uma postura ética. Para a convivência harmônica, não é obrigatório ter os mesmos estilos de vida, crenças, ideologias e opiniões. Divergência e discordância são componentes da diversidade humana, compondo o encantador mosaico da vida. O apóstolo Paulo já aborda tal pluralidade na metáfora do corpo na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 12, 1ss). A tolerância não consiste em aguentar ou suportar. Trata-se do reconhecimento implícito e explícito do direito que cada um tem de ser aquilo que é, ou continuar a ser. Hoje, fala-se tanto em democracia. Mas, quem mais usa o termo, em geral, age impositivamente. A regra de ouro do cristianismo, contida no Sermão da Montanha, reflete o postulado de ser diferente e o dever do respeito: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles.” (Mt 7, 12). Então, qualquer postura deve ser aceita? Não. Por isso há regras de convivência que passam pelos deveres e direitos. É preciso agir coletivamente para se garantir o direito de ser e existir. Corruptos precisam responder pelo uso abusivo e ilegal de recursos que devem garantir a vida. Racistas e sexistas devem ser punidos ao tratarem com inferioridade um ser humano. Quem abusa da liberdade de expressão para ofender e violentar com palavras e atos aquele que não se aceita como igual (ou de quem se discorda) deve ser punido. A intolerância é fundamentalmente a negação do direito de o diferente existir. É visão unilateral da vida, concepção exclusivista e impositiva da existência. Apresenta-se como tradução da egolatria. Decreta-se certo e verdadeiro o que lhe agrada ou convém. Daí, a tentação de uma única concepção de mundo. Quem é intransigente deseja impor o pensamento com o qual se identifica. Há quem chegue até a usar da força física e violência. Não faltam os arautos da liberdade e democracia, mas a seu modo e segundo seus interesses. Concretiza-se em preconceitos, discriminação e ódio. Tais atitudes manifestam-se em ações coletivas particularizadas e concretizadas em segregações e exclusões. Por vezes, também se revertem em ações coletivas organizadas: atentados, invasões, assassinatos etc. Tais práticas podem igualmente ser assumidas por governantes e reverter em políticas ou transformar em leis, que interessam a alguns (grupos e partidos) e não à coletividade. Disto resulta a discussão entre oportunismos, legalidade e legitimidade. Nem tudo aquilo que é posto como lei pode ser considerado justa e legitimamente humano. A intolerância não tem idade, gênero, cor, classe social, nacionalidade, nível de instrução, religião. Não é sinônimo de “direita” ou “esquerda”. É própria de quem não quer lidar com as dessemelhanças dos humanos. Reconhecer a própria intolerância (deixar de se ver como centro do universo) é o grande passo da superação de atitudes ditatoriais. É preciso fazer política de forma respeitosa, na qual todos tenham o mesmo lugar e oportunidade. Convém lembrar o pensamento do apóstolo Paulo: “E se tiverdes outro modo de pensar, cabe a Deus esclarecer, só Ele é Juiz.” (Fl 3, 15).

 SOPRA UM VENTO FORTE

Valério Mesquita*
Países muçulmanos e do mundo comunista já assimilam o acaso do Ocidente, do ponto de vista econômico e político. Na Espanha, o cardeal Cañizares denunciou a existência de uma revolução social para destruir os postulados da igreja católica. A assertiva cardinalícia aduz, ainda, que esse movimento oculto já atua nas escolas e na mídia espanhola e que se alastra nos países vizinhos. Conhecemos que o mundo ocidental é o maior herdeiro no globo terrestre da doutrina cristã. Depois da invasão dos bárbaros, lá pelo século quinto, foram os monges nos conventos, os verdadeiros sustentáculos da fé do Novo Testamento.
A revolução social aludida pelo alto dignatário da igreja católica espanhola já se estende aos países das Américas, através da perversão dos costumes, da subversão do comportamento da juventude na família, na mídia e nas escolas. É a crise típica de uma sociedade que tem se afastado de Deus, elegendo o mundanismo como valor essencial de vida, embora, passageira, fáctil, fácil, fútil e fóssil. O fato é que o vento sopra forte. Sopra uma revolução social e econômica no dizer do cardeal Cañizares contra a religião católica em plena Espanha que já deu reis católicos e espargiu igrejas, conventos e padres em diversas partes do mundo.
De modo geral, as religiões católicas e evangélicas estão atentas no Brasil para o poder da mídia e da influência poderosa que elege e deselege políticos; que manda e desmanda apresentadores de tv para o podium do poder, fazendo a cabeça do jovem e do pobre. Assim também faz a internet: miséria e abusos. Por isso, as igrejas evangelizam mais na televisão do que em seus templos porque, por aqui, a revolução de estrangular o cristianismo já começou. Vejam só: na tv a cabo, contei quatro canais católicos privativos e três evangélicos, sem contar com os programas diários, alugados e pagos por segmentos protestantes diversos. Tudo isso, para conter, esbarrar, meu caro cardeal Cañizares o vento forte que sopra da península ibérica e adjacências.
A denúncia do líder religioso espanhol se reveste da maior importância porque foi ditada pela rede de comunicação mundial do Vaticano. Na verdade, a revolução social a que se refere, não parte de grupos, partidos políticos, governos ou quaisquer instituições privadas. Ela provém da crise de caráter, de espiritualidade, do desajuste familiar. Ela, - a revolução social contra a igreja católica - está no homem. Não imaginem que vem de correntes evangélicas. Não. Porque se não anuírem que o Deus e a Bíblia são os mesmos, todos naufragarão na praia, vítimas do próprio cata-vento da discórdia. Que isso Deus não permita e que sejam apenas palavras ao vento. Sem falar nos opressores externos: China, Coréia do Norte, Rússia, além de países asiáticos e muçulmanos.
Hoje, o mundo está à mercê de um erro de cálculo da destruição nuclear.

(*) Escritor

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 A chegada de um Novo Ano 

No dia primeiro de janeiro, no calendário litúrgico da Igreja, celebra-se a solenidade de Maria, Mãe de Deus. Ela é o sacrário ou tabernáculo do Príncipe da Paz. Na Virgem Santíssima uniram-se o Criador e a criatura. No seu coração palpitam o Eterno e o temporal. Nela, o Onipotente uma vez mais demonstrou sua vontade de nos amar. Maria é plena de Graça e de Deus, por isso Rainha da Paz, como proclama a Ladainha Lauretana, a ela dedicada. O que gera a violência é a ausência de Deus, deixando a criatura humana sem rumo. O pecado leva à guerra, qualquer que seja a sua manifestação ou dimensão, negando a nossa fraternidade humana e cristã. No alvorecer de um Novo Ano, em homenagem a Nossa Senhora, comemora-se também o Dia Mundial da Paz. Esta data foi criada em 1967, pelo Papa Paulo VI. 2026 terá como tema, escolhido por Leão XIV: “A paz esteja com todos: rumo a uma paz desarmada e desarmante.” Desejamos a todos um ano de graça e concórdia, diálogo e encontro. Que em 2026 sopre constantemente a brisa suave da Paz, alegria e esperança. Envolvam-nos ondas de amor, ânimo e coragem. Praza aos céus que a saúde faça morada em nosso corpo e nossa mente. Que desvaneçam a mentira, as agressões, a desarmonia, a injustiça e o espírito de vingança. Possa a fé nos envolver e fortalecer para enfrentar os desafios do ano que desponta. E que as maravilhosas bênçãos divinas se irradiem por toda a humanidade e pelo mundo inteiro. Um Ano Feliz para todos, fecundo de Deus, sem tristezas e sem muitos sofrimentos e com um copioso inverno. São os votos de Padre João Medeiros Filho e seus familiares. Um abraço fraterno e minha bênção sacerdotal. Que a benção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre vós e em vós permaneça para sempre. Amém. 

Padre João Medeiros Filho

 A mensagem da Epifania do Senhor 

Padre João Medeiros Filho 

A palavra Epifania deriva do grego, cujo sentido é manifestação ou aparição. No Brasil, após a supressão do feriado nacional do Dia de Reis em 1967, celebra-se a Epifania no primeiro domingo do ano a fim de ressaltar a importância da festa. Os demais países permanecem comemorando-a no dia 6 de janeiro. Jesus manifesta-se àqueles que não faziam parte do povo da Antiga Aliança. Nasceu para mostrar que o Amor de Deus pelos homens não tem discriminação. Ele é Pai de todos. “Deu-nos o espírito da adoção pelo qual chamamos Deus de Abba, Pai” (Gl 4, 5). Atualmente, vive-se num mundo egoísta, sem fraternidade, em contradição aos propósitos de Natal. Cada vez mais as pessoas se fecham, revelando-se insensíveis e indiferentes. Cristo, apesar de sua grandeza, fez-se pequeno e humilde para não amedrontar. Mesmo os desconhecidos são recebidos com ternura e respeito. É uma das lições a ser tirada da viagem dos Magos, que acorreram a Belém para visitar o Menino. A partir da vinda de Jesus, “já não há judeu nem grego” (Gl 3, 28). Deus cuida de seus filhos, eis um dos ensinamentos da Epifania do Senhor. Sentir a presença de Cristo é fruto de busca e caminhada. Pouco importam condição social, raça, língua ou ideologia. Ele é Irmão Universal. Nasceu tanto para os pastores como para os estrangeiros do Oriente, cuja religião divergia daquela de seu povo. Deus respeita e acolhe a religiosidade de cada um. Impressiona-nos o relato de Mateus a respeito da indagação dos Magos sobre o local do nascimento do Salvador e a ignorância de Herodes e dos poderosos de seu tempo. “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2). Por vezes, nossa alienação mística é idêntica. Cristo está perto de nós e não O identificamos. Falta-nos o desejo de busca e descoberta do divino. Os Magos viajaram por terras estranhas, enfrentaram adversidades, inclusive climáticas. Entretanto, foram recompensados com a alegria do encontro. Não apenas físico, mas espiritual, em comunhão com o Menino-Deus. Caminhar, procurar e rezar são gestos dos Magos. “E prostrando-se O adoraram” (Mt 2, 11). Exemplos para o mundo moderno: saber ir à procura do Transcendente. Jesus revela a face divina a toda humanidade, representada pelos que vieram do Oriente. O Amor de Deus é infinito. Ele age, além de nossas barreiras ideológicas ou religiosas. Foram abolidos direitos e privilégios. A graça divina inunda o coração daqueles que aceitam o Salvador. É o que se pode sentir no evento da Epifania. Em todas as pregações e ensinamentos Cristo mostra que é inconcebível a exclusão espiritual. É incoerente uma comunidade cristã que discrimina pessoas e se fecha como gueto, seita ou clube de privilegiados. Ela não poderá ser chamada cristã, pois Jesus é abertura e misericórdia divina estendida para levar perdão e amor. As atitudes de Cristo demonstram que Ele veio para todos. Não se curvou às estruturas do seu tempo nem se deixou escravizar pelas regras das instituições e poderes. É o Amor, que não se prende nem se esconde. É Vida, que não se aprisiona nem se aniquila. É o Infinito, o Eterno. Impossível limitá-lo ou não o reconhecer. A Epifania é festa das virtudes da fé e humildade. O homem, mesmo dotado de inteligência, sabedoria e erudição (presentes nos Magos do Oriente) deve dobrar os joelhos diante de uma Criança e reconhecer nela a Divindade latente. É o legado dos Magos, movidos pela fé, na caminhada que os leva aos pés do Salvador. Baltasar, Belchior e Gaspar encontraram Cristo. Eis a felicidade maior do coração humano! Diz-nos a narração do evangelho de Mateus: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o Menino” (Mt 2, 9). Era o sinal para encontrar Jesus na dimensão espiritual, que se traduz na proximidade e comunhão com o sagrado. O profeta Isaías faz-nos um convite inadiável: “Levantate, ilumina-te, porque chegou a tua Luz. E a glória do Senhor raiou sobre ti” (Is 60, 1).

terça-feira, 30 de dezembro de 2025


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PERSONALIDADE

MULTIFACETADA

Marc de Groot: em busca de um tempo perdido

                                                                                                                                                                       


                                                                                                         


MÁRCIO DE LIMA DANTAS

Especial

Triste de quem vive em casa Contente com o seu lar Sem que um sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!

Fernando Pessoa

Marc de Groot nasceu em Eindhoven, Holanda (1963). Reside hoje em Ponta Negra, Natal. Arquiteto paisagista, durante sua formação estagiou um ano na Alemanha e outro nos EUA. Aqui no Brasil, cursa o sexto período de Psicologia. Personalidade multifacetada, dedica-se a diversas atividades sempre relacionadas ao estético e suas adjacências. Fornece design de joias, quase sempre voltadas para a confecção de anéis.

Como todo e qualquer holandês, é conduzido pela pontualidade e pelo perfeccionismo, gostando de contratos sérios e levando em conta suas razões interiores. Por exemplo, determina os materiais a serem usados nos anéis, preferindo ouro e prata legítimos. Sempre combina cores das pedras, justapondo opostos e acarretando um efeito estético de rara beleza e preciosidade. Entre as pedras que utiliza estão granada, ametista, topázio, turmalina e água-marinha.

Eis que temos a valia e o valor em uma boda de grata satisfação, para quem contempla ou adquire uma peça e deseja o melhor, pois o barato sempre sai mais caro. Mais adiante veremos como esse manuseio de cores antípodas reverbera de maneira insistente em sua pintura.

SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 2025

Quando tinha quatro anos, sua irmã mais velha, com doze, ensinou-lhe matemática e cálculo. Simultaneamente, sua pequena professora e cúmplice conseguiu compreender o funcionamento da gramática interna da psiqué de seu irmão. Logo percebeu que era alguém talhado para desenvolver coisas do espírito, pela sensibilidade e pela maneira como reagia aos afetos dos pais. Assim, incitou-o a desenvolver esse talento latente. Ora, já na caligrafia, fazia com primor o desenho das letras do alfabeto.

Logo matriculado no ensino formal, nada foi difícil ou incompreensível, pois sabia ler e escrever. O tempo que os colegas de classe dedicavam às noções básicas da língua e da matemática, ele já empregava no manuseio dos lápis, engendrando desenhos que o exultavam interiormente, aplacando anseios emanados de um menino.

Com efeito, as imagens que repousam no inconsciente, podendo se transmutar em palavras quedadas em espera de eclodir, não estão vinculadas à idade. Um olhar arguto contempla o modo de andar, o semblante, o timbre de voz. Desse modo, se fizer uma aposta consultando seu coração e seus oráculos interiores, dificilmente perderá o valor do que se apostou. E vero: tatear a maneira como funcionam os cinco sentidos não apenas dá prazer, mas também pode ser um elemento incentivador de um talento em esboço.

Vejamos suas esculturas: pedras de alabastro (uma forma de calcita branca, carbonato de cálcio, translúcida e macia para ser esculpida). Na Antiguidade, era usado para confeccionar vasos condutores de óleos e perfumes e, no Egito, para vasos canopos, portadores das vísceras retiradas do corpo do faraó a ser mumificado. São bem mais maleáveis para se trabalhar, vindos da Espanha, Itália e Portugal.

Marc de Groot limita a escultura aos torsos nus, como se quisesse afirmar domínio sobre a técnica de esculpir, talvez não valendo se estender por peças de corpo inteiro. Ocorrem ausências de rostos e semblantes, restritos ao tórax e às pernas, sempre permitindo entrever as partes mais voltadas para a sensualidade de um corpo nu que se expõe: peitos, ombros, genitália e nádegas.

Também trabalha com torsos de costas, sempre nus, dotados de sensualidade e de um silêncio que declara se encontrar pleno de si próprio, numa posição que remete a um sinal de aceitação do corpo, apesar dos defeitos e limites. E, se quisermos tatear as áreas relacionadas aos sentidos, inclusive a intuição, nada em seu corpo remete à autopunição ou a uma lascívia autopunitiva.


Sua trajetória no seio da pintura a óleo se encerrou aos 32 anos, devido ao fato de precisar estar sozinho para empreender os trabalhos relativos ao ato e costume de pintar. Casou-se, perdendo essa benfazeja solitude cultivada desde sempre. Parece existir uma incondicional escolha de se contentar consigo mesmo. Essa é uma tendência contemporânea, cujas declarações de pessoas com projeção social deixam transparecer essa busca por recolhimento.

Ao que parece, pelo físico longilíneo, magro, voz pausada e olhar natural dentro do olho do interlocutor, possivelmente possui um temperamento saturniano, buscando em terras de luto atenuado a solidão que tanto o gratifica, que tanto diz dele, que tanto necessita para ter ânimo e enfrentar com coragem e resiliência o dia bastante duradouro, já que desperta muito cedo e logo levanta, faz café e fuma algum cigarro.


                   

                                                                                                     

Apesar desse hábito de quedar-se diante de si mesmo, não rejeita o convívio social, tanto na faculdade quanto recebendo amigos em seu flat. E uma pessoa extremamente acolhedora como anfitrião no local onde reside.

Após 30 anos sem a paleta e os pincéis, retornou ao seu pendor nunca apagado. Precisou apenas dominar as técnicas da tinta acrílica, abandonando o óleo. As brasas do talento estavam apenas quietas, até que, por uma determinação interior, logo o fogo assomou, límpido e claro, a iluminar regiões pelágicas do seu ser, no qual se depositam as imagens do humano. Trouxe primícias que a todos surpreenderam, por serem diferentes do que era sua dicção estética de outrora.

Até parece que nada é por acaso: a vida se aproxima de modo sutil, sem ser explícita no que demanda da gente. O fato de ter vindo morar no Brasil levou, quase naturalmente, a iniciar uma vita nuova, tanto em relação a cursar outra faculdade quanto à renovação da índole do artista que se encontrava adormecido.

Vejamos como se caracteriza sua dicção estética no que concerne à pintura. E necessário partir da paleta cromática, do manejo das cores, pois o uso de suas cores se encontra em adjacências mais dramáticas do que líricas. Como sucede com artistas que se dirigem às paisagens naturais, com o intuito de expressar uma busca por um ambiente bucólico.

Observemos como isso acontece em Marc de Groot. Podemos contemplar conjunções de cores mais fortes, tais como um azul escuro, um verde mais puro, um amarelo-fogo, um roxo fechado, um lilás esmaecido. Por meio do manuseio dessas tintas antípodas, elabora conjunções de grande beleza plástica, sempre buscando imprimir um caráter dramático à retratação de paisagens da natureza.

Com efeito, poderia ser a busca de um locus amoenus, mas não vigora esse sentimento, tão querido pelos românticos. Há outra forma de os românticos representarem a realidade. Existe uma tradição da pintura romântica de paisagens naturais em ambientes fechados, sombrios, em que o humano se encontra só, contemplando a natureza de maneira extremamente melancólica.

Ora, quando os românticos se fizeram retratar em paisagens distantes do urbano, estavam felizes em balanços pendurados em árvores, faziam uma pausa na diversão, comiam alguma coisa sobre tapetes ou panos. Com certeza não é o caso dos nossos artistas, voltados, talvez, para uma projeção de seu estado atual.

Muito mais se percebe a sugestão de imagens voltadas a inventar composições nas quais o sombrio e o fechamento da ambiência estão presentes para conclamar o espectador. E perquirir, afinal de contas, quais as razões que o conduzem a se expressar dessa maneira. A morte ainda está bem próxima. O luto apenas deu início ao seu rosário de penas.

Com efeito, há que se deter sobre cada conta que forma o rosário, vindo às súplicas do nosso comportamento diante do morto. Na verdade, é uma elaboração por meio do bom senso, de entrega, de busca do que aquela pessoa que se foi nos deixou de sabedoria, de momentos bons, de um tempo duradouro, visando enfatizar o que as relações afetivas podem nos proporcionar de bem e de bom. Essa é a necessidade inexorável do trabalho de luto, deixando o outro estar como presença ausente. Essa postura nos diz do que se encontra no processo de compreender o comportamento de quem partiu tão cedo.

E preciso insistir nessa obstinação em plasmar em telas com acrílica, basicamente duas cores opostas: o amarelo-fogo e o azul-escuro, podendo aparecer o verde como elemento para separar as duas cores primaciais. Ocorre que essas marcas criadoras de uma atmosfera sombria e dramática hesitam, às vezes, entre o figurativo e o abstrato. Lembro aqui as marinas de Dorian Gray e Goreth Caldas, nas quais se atesta uma dúvida: se é uma paisagem marítima ou se é um exercício abstracionista.

Ainda as retratações do mesmo topos: paisagens naturais, com um foco invariante, persistente na maioria das telas, cuja presença é uma ou mais árvores. Repetem-se as cores já citadas, reverberando um ambiente em ausência de luz solar. Curioso é ser possível um traço assinalando quase todo o conjunto dos quadros nos quais as plantas estão presentes: há uma reclinação, como se tivessem crescido com o sopro de um vento mais forte.

O artista logra êxito ao plasmar com mais intensidade a árvore ocupando todo o centro da tela, manuseando a paleta com suas cores preferidas: o verde da árvore, o amarelo das terras desprovidas de vegetação rasteira, o azul intenso e o roxo, sempre funcionando como plano de fundo ou preenchendo toda a parte superior da tela.



Essa justaposição de cores não é recorrente na maioria dos pintores, haja vista o resultado: uma aparência lúgubre, escura, em que não há a iluminação do sol. E, quando ocorre a luz, esta vem da presença de um amarelo, quebrando um pouco a índole dramática de certas árvores solitárias, desprovidas da presença humana. Sobranceiras nuvens testemunham do alto a feição da organização de elementos restritos ou retirados dos caminhos ou das árvores.

Na verdade, menos que o referente (tema, assunto, topos), o que nos chega de sombrio vem por meio do uso das cores. Ao que parece, pressupõe um grande conhecimento da teoria das cores. Ou seja, não é espontâneo, mas uma deliberação da subjetividade desassossegada do pintor. Pode-se fazer o elogio das cores, mas longe de mim esquecer do domínio do artista sobre o desenho acadêmico.


Por fim, gostaria de extrair uma metáfora decalcada da forma como grande parte das árvores estão retratadas. Sim, estão derreadas, com uma inclinação voltada para o chão. Lembra-me um ditado, possivelmente japonês, que estabelece uma relação entre os bambus que se inclinam por causa da presença de um vento que sopra.


Assim, eles querem dizer da necessidade de se ter ânimo diante das atribulações, aceitar as vicissitudes e os limites impostos pela vida e pelo tempo. Ora, podemos até nos inclinar estrategicamente, mas não podemos deixar-nos abater, cair no chão. Melhor é vergar, aquiescer, banhar-se no rio da resiliência. Há que ser forte diante dos dissabores que a vida nos entrega sem que estejamos preparados para enfrentar. Há que perseverar, como Ulisses na Odisseia, com fulcro em suas navegações, dizendo sempre o mote: essa é mais uma para superar.