terça-feira, 30 de dezembro de 2025


´

PERSONALIDADE

MULTIFACETADA

Marc de Groot: em busca de um tempo perdido

                                                                                                                                                                       


                                                                                                         


MÁRCIO DE LIMA DANTAS

Especial

Triste de quem vive em casa Contente com o seu lar Sem que um sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!

Fernando Pessoa

Marc de Groot nasceu em Eindhoven, Holanda (1963). Reside hoje em Ponta Negra, Natal. Arquiteto paisagista, durante sua formação estagiou um ano na Alemanha e outro nos EUA. Aqui no Brasil, cursa o sexto período de Psicologia. Personalidade multifacetada, dedica-se a diversas atividades sempre relacionadas ao estético e suas adjacências. Fornece design de joias, quase sempre voltadas para a confecção de anéis.

Como todo e qualquer holandês, é conduzido pela pontualidade e pelo perfeccionismo, gostando de contratos sérios e levando em conta suas razões interiores. Por exemplo, determina os materiais a serem usados nos anéis, preferindo ouro e prata legítimos. Sempre combina cores das pedras, justapondo opostos e acarretando um efeito estético de rara beleza e preciosidade. Entre as pedras que utiliza estão granada, ametista, topázio, turmalina e água-marinha.

Eis que temos a valia e o valor em uma boda de grata satisfação, para quem contempla ou adquire uma peça e deseja o melhor, pois o barato sempre sai mais caro. Mais adiante veremos como esse manuseio de cores antípodas reverbera de maneira insistente em sua pintura.

SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 2025

Quando tinha quatro anos, sua irmã mais velha, com doze, ensinou-lhe matemática e cálculo. Simultaneamente, sua pequena professora e cúmplice conseguiu compreender o funcionamento da gramática interna da psiqué de seu irmão. Logo percebeu que era alguém talhado para desenvolver coisas do espírito, pela sensibilidade e pela maneira como reagia aos afetos dos pais. Assim, incitou-o a desenvolver esse talento latente. Ora, já na caligrafia, fazia com primor o desenho das letras do alfabeto.

Logo matriculado no ensino formal, nada foi difícil ou incompreensível, pois sabia ler e escrever. O tempo que os colegas de classe dedicavam às noções básicas da língua e da matemática, ele já empregava no manuseio dos lápis, engendrando desenhos que o exultavam interiormente, aplacando anseios emanados de um menino.

Com efeito, as imagens que repousam no inconsciente, podendo se transmutar em palavras quedadas em espera de eclodir, não estão vinculadas à idade. Um olhar arguto contempla o modo de andar, o semblante, o timbre de voz. Desse modo, se fizer uma aposta consultando seu coração e seus oráculos interiores, dificilmente perderá o valor do que se apostou. E vero: tatear a maneira como funcionam os cinco sentidos não apenas dá prazer, mas também pode ser um elemento incentivador de um talento em esboço.

Vejamos suas esculturas: pedras de alabastro (uma forma de calcita branca, carbonato de cálcio, translúcida e macia para ser esculpida). Na Antiguidade, era usado para confeccionar vasos condutores de óleos e perfumes e, no Egito, para vasos canopos, portadores das vísceras retiradas do corpo do faraó a ser mumificado. São bem mais maleáveis para se trabalhar, vindos da Espanha, Itália e Portugal.

Marc de Groot limita a escultura aos torsos nus, como se quisesse afirmar domínio sobre a técnica de esculpir, talvez não valendo se estender por peças de corpo inteiro. Ocorrem ausências de rostos e semblantes, restritos ao tórax e às pernas, sempre permitindo entrever as partes mais voltadas para a sensualidade de um corpo nu que se expõe: peitos, ombros, genitália e nádegas.

Também trabalha com torsos de costas, sempre nus, dotados de sensualidade e de um silêncio que declara se encontrar pleno de si próprio, numa posição que remete a um sinal de aceitação do corpo, apesar dos defeitos e limites. E, se quisermos tatear as áreas relacionadas aos sentidos, inclusive a intuição, nada em seu corpo remete à autopunição ou a uma lascívia autopunitiva.


Sua trajetória no seio da pintura a óleo se encerrou aos 32 anos, devido ao fato de precisar estar sozinho para empreender os trabalhos relativos ao ato e costume de pintar. Casou-se, perdendo essa benfazeja solitude cultivada desde sempre. Parece existir uma incondicional escolha de se contentar consigo mesmo. Essa é uma tendência contemporânea, cujas declarações de pessoas com projeção social deixam transparecer essa busca por recolhimento.

Ao que parece, pelo físico longilíneo, magro, voz pausada e olhar natural dentro do olho do interlocutor, possivelmente possui um temperamento saturniano, buscando em terras de luto atenuado a solidão que tanto o gratifica, que tanto diz dele, que tanto necessita para ter ânimo e enfrentar com coragem e resiliência o dia bastante duradouro, já que desperta muito cedo e logo levanta, faz café e fuma algum cigarro.


                   

                                                                                                     

Apesar desse hábito de quedar-se diante de si mesmo, não rejeita o convívio social, tanto na faculdade quanto recebendo amigos em seu flat. E uma pessoa extremamente acolhedora como anfitrião no local onde reside.

Após 30 anos sem a paleta e os pincéis, retornou ao seu pendor nunca apagado. Precisou apenas dominar as técnicas da tinta acrílica, abandonando o óleo. As brasas do talento estavam apenas quietas, até que, por uma determinação interior, logo o fogo assomou, límpido e claro, a iluminar regiões pelágicas do seu ser, no qual se depositam as imagens do humano. Trouxe primícias que a todos surpreenderam, por serem diferentes do que era sua dicção estética de outrora.

Até parece que nada é por acaso: a vida se aproxima de modo sutil, sem ser explícita no que demanda da gente. O fato de ter vindo morar no Brasil levou, quase naturalmente, a iniciar uma vita nuova, tanto em relação a cursar outra faculdade quanto à renovação da índole do artista que se encontrava adormecido.

Vejamos como se caracteriza sua dicção estética no que concerne à pintura. E necessário partir da paleta cromática, do manejo das cores, pois o uso de suas cores se encontra em adjacências mais dramáticas do que líricas. Como sucede com artistas que se dirigem às paisagens naturais, com o intuito de expressar uma busca por um ambiente bucólico.

Observemos como isso acontece em Marc de Groot. Podemos contemplar conjunções de cores mais fortes, tais como um azul escuro, um verde mais puro, um amarelo-fogo, um roxo fechado, um lilás esmaecido. Por meio do manuseio dessas tintas antípodas, elabora conjunções de grande beleza plástica, sempre buscando imprimir um caráter dramático à retratação de paisagens da natureza.

Com efeito, poderia ser a busca de um locus amoenus, mas não vigora esse sentimento, tão querido pelos românticos. Há outra forma de os românticos representarem a realidade. Existe uma tradição da pintura romântica de paisagens naturais em ambientes fechados, sombrios, em que o humano se encontra só, contemplando a natureza de maneira extremamente melancólica.

Ora, quando os românticos se fizeram retratar em paisagens distantes do urbano, estavam felizes em balanços pendurados em árvores, faziam uma pausa na diversão, comiam alguma coisa sobre tapetes ou panos. Com certeza não é o caso dos nossos artistas, voltados, talvez, para uma projeção de seu estado atual.

Muito mais se percebe a sugestão de imagens voltadas a inventar composições nas quais o sombrio e o fechamento da ambiência estão presentes para conclamar o espectador. E perquirir, afinal de contas, quais as razões que o conduzem a se expressar dessa maneira. A morte ainda está bem próxima. O luto apenas deu início ao seu rosário de penas.

Com efeito, há que se deter sobre cada conta que forma o rosário, vindo às súplicas do nosso comportamento diante do morto. Na verdade, é uma elaboração por meio do bom senso, de entrega, de busca do que aquela pessoa que se foi nos deixou de sabedoria, de momentos bons, de um tempo duradouro, visando enfatizar o que as relações afetivas podem nos proporcionar de bem e de bom. Essa é a necessidade inexorável do trabalho de luto, deixando o outro estar como presença ausente. Essa postura nos diz do que se encontra no processo de compreender o comportamento de quem partiu tão cedo.

E preciso insistir nessa obstinação em plasmar em telas com acrílica, basicamente duas cores opostas: o amarelo-fogo e o azul-escuro, podendo aparecer o verde como elemento para separar as duas cores primaciais. Ocorre que essas marcas criadoras de uma atmosfera sombria e dramática hesitam, às vezes, entre o figurativo e o abstrato. Lembro aqui as marinas de Dorian Gray e Goreth Caldas, nas quais se atesta uma dúvida: se é uma paisagem marítima ou se é um exercício abstracionista.

Ainda as retratações do mesmo topos: paisagens naturais, com um foco invariante, persistente na maioria das telas, cuja presença é uma ou mais árvores. Repetem-se as cores já citadas, reverberando um ambiente em ausência de luz solar. Curioso é ser possível um traço assinalando quase todo o conjunto dos quadros nos quais as plantas estão presentes: há uma reclinação, como se tivessem crescido com o sopro de um vento mais forte.

O artista logra êxito ao plasmar com mais intensidade a árvore ocupando todo o centro da tela, manuseando a paleta com suas cores preferidas: o verde da árvore, o amarelo das terras desprovidas de vegetação rasteira, o azul intenso e o roxo, sempre funcionando como plano de fundo ou preenchendo toda a parte superior da tela.



Essa justaposição de cores não é recorrente na maioria dos pintores, haja vista o resultado: uma aparência lúgubre, escura, em que não há a iluminação do sol. E, quando ocorre a luz, esta vem da presença de um amarelo, quebrando um pouco a índole dramática de certas árvores solitárias, desprovidas da presença humana. Sobranceiras nuvens testemunham do alto a feição da organização de elementos restritos ou retirados dos caminhos ou das árvores.

Na verdade, menos que o referente (tema, assunto, topos), o que nos chega de sombrio vem por meio do uso das cores. Ao que parece, pressupõe um grande conhecimento da teoria das cores. Ou seja, não é espontâneo, mas uma deliberação da subjetividade desassossegada do pintor. Pode-se fazer o elogio das cores, mas longe de mim esquecer do domínio do artista sobre o desenho acadêmico.


Por fim, gostaria de extrair uma metáfora decalcada da forma como grande parte das árvores estão retratadas. Sim, estão derreadas, com uma inclinação voltada para o chão. Lembra-me um ditado, possivelmente japonês, que estabelece uma relação entre os bambus que se inclinam por causa da presença de um vento que sopra.


Assim, eles querem dizer da necessidade de se ter ânimo diante das atribulações, aceitar as vicissitudes e os limites impostos pela vida e pelo tempo. Ora, podemos até nos inclinar estrategicamente, mas não podemos deixar-nos abater, cair no chão. Melhor é vergar, aquiescer, banhar-se no rio da resiliência. Há que ser forte diante dos dissabores que a vida nos entrega sem que estejamos preparados para enfrentar. Há que perseverar, como Ulisses na Odisseia, com fulcro em suas navegações, dizendo sempre o mote: essa é mais uma para superar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

 


Papai Noel nada tem a ver com o Natal

No Ocidente, o personagem Papai Noel irrompe no período que antecede o Natal do Senhor. Trata-se de uma criação, ligando-o a São Nicolau de Mirna, bispo na Turquia. Este era um eclesiástico muito generoso com todos, especialmente as crianças. No calendário da Igreja Católica, sua festa litúrgica acontece no dia 6 de dezembro. Conta-se que Nicolau era uma figura simpática, amiga da criançada, paternal e caridosa. Seus diocesanos chamavam-no de Papai. Nasceu provavelmente em 275, d.C e faleceu em 350. A palavra Noel em francês quer dizer Natal. Por volta do século IX, criaram esse personagem, em alusão a São Nicolau e ao período natalino. Vestiram-no com roupas invernais, gorro cobrindo a cabeça e botas. Puseram em seus ombros um saco, contendo presentes. A lenda foi se espalhando por conta de uma lacuna catequética sobre o verdadeiro sentido natalino e suas figuras. Em 1223, São Francisco de Assis criou o presépio para neutralizar essa imagem irreal de Papai Noel, invadindo as celebrações natalinas.

Papai Noel nunca existiu historicamente. Trata-se de uma lenda. E vamos continuar contando uma ficção aos filhos e netos, em lugar de importantes acontecimentos religiosos? Papai Noel é uma alienação cultural para as tradições brasileiras. Seu perfil e apresentação não condizem com a nossa realidade cultural. Infelizmente, nas comemorações do Natal, grassa por todos os recantos a figura de Papai Noel, que não se insere na verdadeira tradição cristã. Hoje em dia, quando se fala de Natal, vem à mente a figura do tal velhinho. Os shoppings estão cheios desses personagens em total desacordo com a beleza religiosa do natalício do Filho de Deus. Nas lojas, raramente encontram-se presépios. São inundadas com imagens e representações de uma realidade imaginária. Infelizmente, fala-se mais dele do que de Jesus, no mês de dezembro. A Europa hoje ressente-se da invasão muçulmana que impede a celebração pública do Natal. E para completar a esquisitice, por conta do politicamente correto, criou-se a Mamãe Noel.

Maria, José, Jesus são os grandes esquecidos, durante o período que antecede o Natal. E pior, pais, avós, tios, cristãos iludem crianças inocentes com os presentes de Papai Noel, dando continuidade a uma ficção e lenda. Por que não dizer que os presentes foram dados pelo Pai do Céu, representados pelos pais terrenos? Até quando vamos perpetuar essa inverdade? Por que não mostrar a figura da Mãe Celestial em lugar da Mamãe Noel?

Deve-se ressaltar também a ignorância da história cristã e da verdadeira teologia. Nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja lutou para cristianizar o Natal pagão. Hoje, a sociedade tenta a todo custo – tendo em vista o silêncio e a omissão dos cristãos –paganizar o Natal. E nós discípulos de Cristo até quando vamos calar e se omitir diante dessa aberração? Que o Menino Jesus nos ajude e ilumine os nossos passos. Que os Magos da Epifania venham em nosso socorro para que possamos encontrar a riqueza da Estrela do Presépio, aquele que é o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).

Emaús, 24 de dezembro de 2025.

Padre João Medeiros Filho



 O nascimento de Jesus Cristo 

Padre João Medeiros Filho 

Quem haveria de acreditar que uma criança nascida num lugar ermo, de pastagem de animais, deitada numa gamela, poderia ser Deus? A convicção de que Ele deseja habitar na gruta do coração de cada criatura humana faz com que os cristãos lutem para tornar este acontecimento aceito por todos. Não é possível conter a alegria da Mãe desse Menino, dos anjos, dos pastores e de quem sente a importância daquele que veio trazer sentido à existência do homem. “Vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Alguns não percebem a natureza do Verbo que se fez carne, ou seja, a comunicação de Deus com sua presença em nossa história. Ele assumiu a realidade dos homens, porque eram capazes apenas de olhar para eles mesmos. A luminosidade do amor do Deus-Menino faz-nos reconhecer os próprios limites, no entanto, superados, pela força e misericórdia da Criança, nascida em Belém. Aceitar o nascimento de Cristo é essencial para que o homem tenha a certeza de que a vida vale a pena ser assumida para perdoar e amar, como Ele fizera e ensinara. Olhar para fora de si é importante para uma convivência promotora de nossa existência, dom de Deus, que deve ser desenvolvida em comunhão de fraternidade, no respeito ao outro e à natureza. O Menino do Presépio, Deus-conosco, veio para entrar na manjedoura de cada um de nós, dando-lhe sentido. Aceitando-O, veremos que, na transitoriedade da nossa peregrinação terrena, é gratificante a caminhada em busca da Paz e da Verdade. Por que há tanta concentração de riquezas e poder nas mãos de minorias insaciáveis, sem promover a justiça social? Por que alguns se detêm numa religiosidade intimista, procurando seus interesses na busca de soluções de problemas pessoais, sem compromisso com a promoção dos outros em função de uma cidadania plena? Por que o uso da religião para oprimir grupos e desviar o sentido da fraternidade e do respeito à diversidade humana? Quando o nascimento de Jesus acontecer em cada pessoa, família e organização social, teremos sua luz a nos fazer compreender a nossa missão de construir mais solidariedade e dignidade. Estas levarão a promover o existir com maior sentido para todos. Mister se faz aceitar que o Menino-Deus nos torna criaturas novas. Se isto acontecer, realizar-se-á, então, o que o profeta Isaías anunciou: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença...” (Isaías 9, 1-2). O Natal de Jesus ainda não aconteceu para muitos. Quem O deixa nascer em si mesmo, é convidado a bater à porta do coração dos outros para compartilhar a alegria de tê-Lo dentro de si. A centralidade da festa do Natal é a união do Divino e do humano. Deus é Amor, que vem ao nosso encontro, “esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Hoje, verificamos um paradoxo. A Igreja fez de tudo para cristianizar a festa do Natal pagão. A sociedade de consumo deixa-se levar cada vez mais para paganizar o Natal cristão. O Menino Jesus está dando lugar ao Papai Noel. Este ganha mais destaque nos shoppings do que o presépio. Pobre ou rico, erudito ou iletrado, o homem carrega consigo um segredo, que só se torna claro à luz do mistério divino. E que verdade profunda: “O Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14)! O mistério de Deus e o nosso se entrelaçam na pessoa de Jesus. A vida tem sentido. O Eterno-Absoluto existe e caminha conosco. Recebamos um Deus-Criança, inocente, solidário, vivo, em permanente comunicação conosco, iluminando nossa existência, transfigurando nossas dores e transformando a morte em passagem para a plenitude da vida. Por isso proclama o profeta Isaías: “Multiplicaste a alegria do teu povo, redobraste sua felicidade. Adiante de Ti vão felizes, como na alegria da colheita, como se repartissem conquistas de guerra” (Is. 9,2).

 

Cartas de Cotovelo- Tempo de verão 2025

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

Embora desmotivado por alguns episódios egoísticos e insanos de pouquíssimos moradores da nossa praia (Grupo do Ódio), ainda persisto em escrever as minhas Cartas de Cotovelo.

Aqui, tenho a paz do silêncio, do espaço e do tempo para contemplar a natureza e fazer múltiplas leituras, pondo em dia o meu acervo de livros recentes adquiridos, como os dos estimados Osair, Alexis Peixoto, Teimoso Zen (Claudionor de Oliveira Júnior) e uma coletânea organizada por Hérnan Reyes Alcaide sobre o Papa Francisco, tendo por ponto central “A Esperança”.

Ler tantos livros, na mesma oportunidade é um antigo vício herdado do desembargador José Gomes: “meu filho, quando estou cansado de uma leitura, separo o livro e começo outro, fazendo um revezamento produtivo”. Ele tinha razão, misturo narrativas, romances, polêmicas, com a renovação da esperança, causa maior da minha, já vetusta, vida de leitor.

Quando as tramas de um romance atingem o clímax, aborto a leitura para meditar o seu desfecho - nem sempre aquele que eu esperava.

Daí, no passar a outro texto, faço marcas e grifos, também para uma meditação.

Na obra sob o Papa Francisco, que veio na sequência de outra sobre Leão XIV (ótima), anotei: “A Esperança pertence aos pobres. Não é uma virtude para quem tem a barriga cheia”.

É uma verdade incontestável: “A pobreza se apresenta a nós diariamente, desafiando-nos com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e pela miséria, pela migração forçada.  Por isso que a Esperança está naquela pobreza que tem o rosto de “mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro”.  (mensagem do Papa Francisco para o Dia mundial dos pobres 19/11/ 17).

A transcrição pode parecer longa, mas não teria outras palavras para definir este assunto. Assino embaixo.

Vivemos no presente a globalização da indiferença e da cultura do “eu”.

Na minha longa jornada de professor sempre demonstrei que, no sentido geral, o estado é uma criação da sociedade, para ofertar controle e retorno da riqueza de forma democrática, organizada e eficiente.

Contudo, hoje ele agride o seu criador - o povo, escravizando-o através de tributos e ações que não vêm em seu efetivo proveito, senão em desfavor por dispender mais, além da sua capacidade contributiva - dentro disso estão os desvios e o protecionismo eleitoreiro, não democrático.

Ensinei errado todos esses anos? A teleologia apregoada nas normas tem nova interpretação: não se respeitam mais os princípios da impessoalidade, publicidade, imparcialidade e moralidade, em todos os espaços da estrutura estatal.

As ideologias proclamadas sob pretexto de boas intenções, do efeito democrático e republicano, nos afastam da realidade e nos impedem de avançar.

Os donos do poder declaram a força da democracia quando o povo grita por liberdade. Apenas jogo de palavras.

Conclamo todos a abrirem os olhos para a verdade e varrer “o cheiro de naftalina política e espiritual” daqueles que cultuam o “eu”.

Insisto em afirmar: nós os pobres, sem o poder, só temos uma alternativa – A Esperança verdadeira.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

 

Férias que te quero férias ...

Padre João Medeiros Filho

O final do ano se aproxima e com ele o veraneio e as férias escolares, determinadas pelo calendário das instituições de ensino, assim como o ritmo de vida de uma parcela considerável da população. A palavra férias origina-se do latim e significa ausência de compromisso e trabalho (de onde deriva o termo feriado) e daí, tempo de descanso para recuperação das forças físicas e mentais. Outro termo latino, “vacatio”, com significado análogo está correlacionado ao sentido dos étimos de outros idiomas: vacaciones (espanhol), vacances (francês), vacanza (italiano), vacation (inglês), vakantie (neerlandês) etc. Mas, o período que deveria servir de repouso, vem se tornando um frenético ir e vir, com agências de viagens, rodoviárias, portos e aeroportos cheios, hotéis lotados, praias repletas e as noites invadidas pelos famosos paredões de som.

A cultura da curtição, badalação e do prazer material imediato, na qual estamos mergulhados, mudou nossa capacidade de descansar e relaxar. Hoje, ao estresse do trabalho (em que a concorrência é cada vez maior e até desleal), à fadiga do ano letivo e laboral, somam-se a síndrome e a preocupação das férias. Criou-se o hábito de fazer programas intensos nessa temporada, viagens exaustivas e dispendiosas a lugares longínquos ou exóticos. Pode-se ver nos terminais de viagens pais impacientes, crianças entediadas, assediando sem parar seus genitores a fim de comprar, gastar o dinheiro que podem ou não dispender, adquirindo aparelhos eletrônicos de última geração, objetos da moda ou de marcas, que logo mais serão descartados, por conta da publicidade que leva compulsivamente ao consumo desnecessário e deletério. Hoje, para muitas famílias essa época torna-se sinal de status e exibição.

Muita gente corre para as praias e lugares de clima ameno, causando inquietação e medo de adoecer aos mais idosos e doentes. Outro dia, numa clínica cardiológica, uma senhora, proveniente do interior, falava que iria suplicar a Deus o término rápido dessa temporada. No ano passado, perdera a mãe com uma crise pulmonar. Não havia conseguido chegar a Natal a tempo para ela ser socorrida, por conta do congestionamento do trânsito nas estradas. Tal senhora dizia com tristeza que também não havia encontrado um sacerdote para as exéquias, pois muitos padres estavam veraneando. E, num tom de desabafo, acrescentou: “Todos têm direito a férias, mas deveria haver melhor planejamento para atender o público.”

Isto leva-nos a lembrar algumas situações. No passado, um bispo potiguar costumava recomendar rodízio entre os padres para tirar uns dias de repouso, pois muitos passavam anos sem o descanso merecido. Durante os meses de verão, os bispos das dioceses catarinenses estabelecem uma escala para os sacerdotes permanecerem no Balneário Camboriú, não em férias, mas para atender os numerosos turistas brasileiros e estrangeiros, que ali acorrem. O senador Marco Maciel, quando Ministro da Educação, atendendo às reclamações, publicou uma portaria determinando que apenas vinte por cento dos servidores do MEC, lotados no Rio de Janeiro, entrassem de férias, nos meses de janeiro e fevereiro, para não prejudicar o atendimento ao público usuário. “O tempora, o mores!”

Não raro, de retorno ao lar e à rotina, quantos não sentem o sabor amargo de desencanto, desânimo e tristeza diante do alto investimento em um programa que, afinal, não valeu tanto a pena, como se pensava. A sensação de encontrar-se talvez mais exaurido na volta – e com o cartão de crédito estourado – deixará no ar uma pergunta incômoda, mas inevitável: por que não se consegue mais descansar nas férias? A sociedade hodierna, de forma engenhosa, invadiu o nosso lazer. É exatamente isso que se deveria levar em conta, quando se pensa em férias e viagens. A máquina do consumo quer nos envolver, custe o que custar. E, paulatinamente, vamos sendo reduzidos a meros consumidores. Férias são uma pausa para voltar ao trabalho renovados daquilo que o cotidiano nos tem imposto com sua implacável exigência e estonteante ritmo. É importante ter consciência de que não somos máquinas de produzir e consumir. “Sois homens e não máquinas”, dizia Charles Chaplin. E afirma a Sagrada Escritura: “Somos criaturas feitas à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26).