Por: Carlos Roberto de
Miranda Gomes (*)
Revisitando
a Casa de Pedra de Pium
Este é um assunto que me fascina desde algum tempo. Sobre
ele já publiquei alguns artigos em Cartas de Cotovelo, em livro e Revistas do
IHGRN e ANRL, motivando uma condensação do tema, com correções e ampliações.
A Casa de Pedra de Pium, que também se estuda como de
Pirangi, ficou conhecida a partir da sua apropriação pelo francês João Lostau
Navarro, também várias vezes referido como João Lostão, Lostao, Juan, Joan,
Juaron, Juáo, Lostrão, Lostrau, Lo Stosa, Juan de Stau, d’Stau e outras, mercê
de uma literatura oral que provocou tais desdobramentos de escrita.
O que importa é que esse cidadão é oriundo do Reino de
Navarra (Navarra baixa dos Pirineus, ou parte litorânea), que fora incorporado
à Espanha no Século XVI, em 1511, no reinado de Fernando V e retomado pela
França em 1589, por Henrique III(1) e que foi incorporado como patronímico de
Lostau..
Pelas inúmeras pesquisas, a Casa de Pedra de Pium, que
fica bem perto da praia de Cotovelo (Município de Parnamirim), mas registrada
no Município de Nísia Floresta, teria sido construída pelos franceses em 1555 para
guardar o pau brasil retirado de suas cercanias para negócios.
Com a expulsão dos franceses do Brasil provavelmente em
1567, os portugueses assumiram a sua propriedade, concluindo os trabalhos de
construção em 1570, e concedendo autorização a pessoas para a exploração, sendo
incorporada ao acervo do francês João Lostão Navarro que a transformou em
depósito de mercadorias, conforme Carta de Data nº 15, de 1º de março de 1601,
concedida por João Rodrigues Colaço, acrescentada a outras sesmarias que o
mesmo já possuía, onde teve morada de 1603 a 1645. Essa construção recebeu
outras denominações como Porto de Búzios, Casa Forte de Pirangi e Casa da Praia
do Porto Corado (ao tempo da Companhia das Índias Ocidentais – invasão dos
holandeses, 1621).
Esse monumento arquitetônico, com cerca de 338m2 tem enorme importância histórica por ter sido das mais antigas construções em alvenaria do Brasil, utilizada como armazém e forte, onde Lostão, esse donatário de terras brasileiras, era um católico de bons costumes, prestimoso com a população, dando-lhe emprego e guarida em suas casas do “Porto de João Lostão”(2) , identificada na lagoa de Camurupim, onde explorava a pesca, dava proteção aos cristãos perseguidos por Jacob Rabbi, em decorrência do que foi preso na Fortaleza dos Reis Magos e de __________________________________________________________________________________
(1) (1) ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto
da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005;
GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed.
FJA/FHG, Natal, 1999.
(2) (2) Corresponde ao atual Porto de Tabatinga,
outrora também chamado de Porto Seguro. Compõe rico aquífero da região, com
braços nos Municípios de Parnamirim e Nísia Floresta, notadamente passando por
Alcaçuz e Pium.
lá levado para Uruaçu onde foi trucidado com outros católicos, sendo declarado mártir da Igreja (3), com o qual tenho parentesco por parte de mãe, segundo pesquisa em meu poder.
A Casa de Pedra está estrategicamente erguida de maneira a dar uma visão ampla de onde se descortina toda a orla marítima desde os contornos de Ponta Negra até os de Pirangi, e por isso causando incômodos e conflitos com os holandeses, por ser considerada um fortim.
Vale lembrar que as investidas dos holandeses começaram na Bahia, em 1624/1625, de onde foram rechaçados. Então, em 1630 partiram para uma segunda tentativa de invasão no Brasil, mais precisamente em direção ao Nordeste, chegando a Pernambuco em 1633, atraídos pela existência de produção de cana-de-açúcar, do que eles já tinham notícia, pois aqui estiveram em julho de 1625, no Engenho Cunhaú, sob o comando do Capitão Uzeel, na condição de parceiros de Portugal para a tarefa de refino de açúcar e financiadores do seu engenho, não podendo trazer nada em razão da distância.
De lamentar o absurdo
descaso do Município de Nísia Floresta por essa construção secular da
engenharia brasileira, pois o acesso é um risco – verdadeira aventura pela sua irregularidade,
que comporta somente uma viatura – verdadeiro caminho perigoso. Hoje pertence
ao acervo da família de Hélio Galvão.
Em
relação ao donatário João Lostão, a importância desse cidadão tomou corpo na
Comunidade, gozando de grande prestígio até sua velhice, estimada em 80 anos,
tendo ocupado cargos de importância para a administração da Capitania.
Sua
família imediata: pai de Beatriz Lostau Casa Maior, casada com o holandês Joris
Garstman, que dirigia o Forte dos Reis Magos, no período do domínio holandês.
Outra filha, Maria Lostau Casa Maior, era casada com Manoel Rodrigues Pimentel,
que juntamente com Estevão Machado de Miranda, era escabino (espécie de
representante do Município) na época da invasão holandesa. Duas fontes dão
notícia do nome da sua esposa – Luzia da Mota, o que findou confirmado pela
vasta descendência que deixou. (4)
Para
nossa tristeza, para nosso Estado, os holandeses não trouxeram bons frutos,
como aconteceu em Pernambuco, posto que aqui pretenderam se apossar dos
engenhos e combater os portugueses, com o apoio da população indígena. (5)
Em 1634 atacaram pela primeira vez o engenho Cunhaú (6), surpreendendo o fortim dos portugueses, com perda de 12 homens, gerando um pânico entre os moradores da região, que passaram a procurar lugares mais seguros – alguns acolhidos na própria Fortaleza Keulen, ou _______________________________________________________________________
(3) (3) Beatificado pelo Papa João Paulo II, no
dia 5 de março de 2000, na Praça de São Pedro, Roma e canonizado pelo Papa
Francisco em 15 de outubro de 2017.
(4) (4) Blog dos Amigos de Santo Antônio do Salto
da Onça e MEDEIROS,
(5) (5) Cariris, comandados por Janduí (da tribo
dos Janduís), que vinham sofrendo com os portugueses, disso resultando o
massacre de Ferreiro Torto (Macaíba), em 1633, com 67 mortos.
(6) (6) Esse engenho teria sido comprado, em 5 de
julho de 1637 por Joris Garstman e o Conselheiro Baltazar Wyntges mesmo ano em
que Nassau visitou Natal e incendiado pelos Janduís em 1645 guiados pelo
aventureiro Jacob Rabbi. (CASCUDO, História do RGN, MEC, Rio de Janeiro,
1984, p.67)
Castelo de Ceulen, que corresponde
ao Forte dos Reis Magos, outros em uma paliçada e na casa de João Lostão, que
lhes deu guarida.
Em razão desse gesto de proteger os
cristãos perseguidos pelos calvinistas liderados por Rabbi, correu a notícia de
que o referido donatário estaria organizando uma resistência contra o domínio
neerlandês e contra ele teria sido expedido um mandado de prisão em 1645,
ordenado pelo Grande Conselho Holandês, sediado em Recife, tudo fomentado pelo
mercenário Jacob Rabbi (Johanns Rabe), judeu alemão de péssimo caráter, ordem
cumprida por Paulus de Linge, governador da Paraíba.
Completando a incursão anterior sobre Cunhaú
(Canguaretama-RN), em 16 de julho de 1645, perpetraram novo massacre de cerca
de 35 a 69 pessoas quando assistiam uma missa dominical celebrada pelo Padre
André de Soveral, contando com a participação dos Tapuias, Janduís e
Potiguares. Os Potiguares, por sua vez, não se importaram com o mínimo respeito
aos direitos humanos e consumaram o martírio e os fizeram em pedaços. O
cronista Pierre Moreau afirma que todos foram devorados pelos índios canibais.
Em setembro, Rabbi, com uma pequena força de Tapuias,
brasilianos e mais 30 civis holandeses, ocupou o Sítio Lostão, onde
assassinaram cerca de 15/16 portugueses.
Três meses depois do massacre de Cunhaú, nova investida de
Rabbi aconteceu em Uruaçu (São Gonçalo do Amarante), com mais 80 mortes, dentre
os eles João Lostão, em 3 de outubro de 1645, de forma degradante, mutilando e
esmagando órgãos, inclusive de crianças, provocando uma situação calamitosa,
num ritual macabro.
Rabbi, no entanto, também não escapou da ira dos
vencidos, que o assassinaram na noite de 5 de abril de 1646, com tiros e golpes
de espadas por soldados. Alguns atribuem o fato a uma vingança familiar a mando
do Capitão Garstman, já então elevado ao posto de Tenente-Coronel e fora de
funções administrativas no Forte, genro de Lostão, afirmando que “o mundo nada
perderia se desembaraçassem de semelhante canalha”.
Os Tapuias exigiram a imediata entrega do militar
holandês, agora sem nenhuma função no Rio Grande do Norte, juntamente com o
Major Jacques Boulan, que teria sido o cumpridor da ordem a dois soldados para
o trucidamento, mas o Inquérito teve tramitação vagarosa pelo Conselho de
Justiça e Finanças.
Pedido de revisão o colocaram em liberdade, retornando à
Holanda e nunca se soube do desfecho desse processo.
A
Igreja Católica local, permitiu em louvor da canonização de Lostão, ser alçado
à condição de co-padroeiro da Igreja de Pium (Santa Luzia), agora consagrando dois
mártires, em momentos diferentes, respectivamente SANTA LUZIA e SANTO JOÃO
LOSTAU NAVARRO. (7)
_______________________________________________________________________
(7) (7) Sobre Santa Luzia, registra-se seu martírio por defender a virgindade eterna em nome da sua total devoção à fé e distribuir seus bens com os pobres, pelo que foi condenada à tortura, com a sua colocação em prostíbulo, depois queimada em fogueira, posteriormente a retirada dos seus olhos, tudo porque logrou a proteção Divina e não sucumbiu, dando continuidade à sua missão sagrada, até ter a cabeça decepada.
Já
perdia a esperança em dar notoriedade a um tema de tanta importância para a
religião da localidade e para o turismo religioso das praias do Sul – Pium,
Cotovelo e Pirangi, divididas entre os municípios de Nísia Floresta e
Parnamirim, quando a Arquidiocese de Natal realizou um grande evento
diretamente das ruínas da Casa de Pedra e deu a notoriedade ansiada para aquele
equipamento urbano, de grande valor histórico e religioso, tanto que Dom Jaime,
no decorrer da missa, confessou humildemente que era a primeira vez que tomava
conhecimento do valor daquele lugar e do seu proprietário, tornando-se o
primeiro dirigente da Igreja Católica a dar testemunho desses valores
incomensuráveis.
Não
vou aqui detalhar a importância histórica da Casa de Pedra, mas agradecer os
gestos de coragem cristã dos Santos Mártires da Igreja Católica, Santa Luzia e
Santo João Lostau Navarro, pela possível intercessão deles para que essa
visibilidade ocorresse.
Vale,
por fim, invocar a pregação de São Paulo na Carta aos Coríntios:
Somos perseguidos, mas não ficamos
desamparados.
Somos abatidos, mas não somos destruídos.
Trazemos
sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus,
para
que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.
FONTES CONSULTADAS_____________________________________________________________
(1) ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005; GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed. FJA/FHG, Natal, 1999.
(2) BLOGS: Amigos de Santo Antônio do Salto da Onça; História e Genealogia (Anderson Tavares); INRG (João Felipe); Nísia Floresta (Luís Carlos Freire); Grupo Onça Pintada; Trilhas da História (Maria Lúcia Amaral).
(3) CALADO, Francisco Manuel. O Valoroso Lucídeno e o triunfo da libertação). SP, Cultura (Carta do Capitão Lopo Curado Garro).
(4) CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. RJ, MEC, 1984.
(5) GALVÃO, Hélio. História da Fortaleza da Barra do Rio Grande. FJA/FHG, 1999.
(6) HB – História Brasileira.
(7) História do Rio Grande do Norte (Maria Auxiliadora).
(8) LIRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Brasília, Senado, 2012.
(9) MEDEIROS, Invoncisio de.
(10) MEDEIROS, Tarcísio da Natividade.
(11) MEDEIROS FILHO, Olavo. Os holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte. IHGRN, Natal, 1998.
(12) MOURA, Pedro. Fatos da História do Rio Grande do Norte. Natal, CERN, 1986.
(13) PEREIRA, Francisco de Assis – Monsenhor. Protomártires do Brasil. Aparecida. Santuário, 2005.
(14) POMBO, Rocha. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Annuário do Brasil, Porto-Portugal, 1921.
(15) PORTAL TUDO DO RIO GRANDE DO NORTE.
(16) PROFESSOR JOTA BÊ. Ciência da Religião.
(17) SOUZA, Itamar de. Diário do Rio Grande
do Norte. Diário de Natal, 1999.
(18) SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão; MARIZ,
Marlene da Silva. História do Rio Grande do Norte Colonial 1597/1822. Natal
Editora, 1997 e História do Rio Grande do Norte, Sebo Vermelho, 1997.
(19) TRINDADE, João Felipe da. Informações
pessoais.
(20) TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra. História
do Rio Grande do Norte. Natal, Sebo Vermelho, 2015.
(21) UFRN. Departamento de Geografia: Anais
do XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Florianópolis. Brasil,
21-26 abril 2008, INPE.
(*)
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN)
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