NATAL CLUB *
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
NO LIMIAR DA
PAIXÃO E RESSURREIÇÃO
Valério
Mesquita*
Tudo parte de
um questionamento do amigo jornalista Paulo Tarcísio Cavalcanti, certa vez, que
reflete, com exatidão a dúvida inquietante de milhões de pessoas no mundo, quer
sejam religiosas ou agnósticas. Suas reflexões constituem um verdadeiro
questionário ao qual me proponho responder como posso, nesse limiar do ano
novo.
A primeira é
se o Filho de Deus voltará, como asseguram as Escrituras. O próprio Jesus foi
categórico: “Não vos deixarei órfãos. Eu voltarei para vós” (João 14,18). Não
definiu a forma nem o tempo de sua volta. Está presente cada dia no testemunho
e na fé de cristãos convictos, na energia cósmica de sua palavra. Há uma forma
espiritual, mística e amorosa de sua presença naquele que crer. Jesus
retornando ao mundo continuará afirmando os mesmos valores eternos e
imperecíveis: justiça, paz, misericórdia, caridade, o perdão e o amor.
Indaga,
refletidamente, se Jesus escolherá local para residir como se a sua vinda fosse
biológica ou fisiológica, fato que já se cumpriu no Segundo Testamento por
permissão do Pai, segundo inúmeras profecias. “Eis que estarei convosco até a
consumação dos séculos”, disse o próprio Messias. Essa forma de renascer
diuturnamente no coração dos mortais já resume um pressuposto de sua mensagem
aos seres humanos do século 21, porque Ele é Espírito e não carne como o foi
para expiar os pecados da humanidade através da morte na cruz. Se o mundo da
informática fala com veemência na presença virtual, nós temos em Cristo a
presença espiritual e mística, ambas poderosa e forte.
“Quem Jesus
escolherá para segui-lo ou em que condições procederão os convidados?”. Da
primeira vez Ele escolheu doze homens simples e iletrados, e com essa dúzia
construiu o arcabouço de sua doutrina, unificada pela crença inabalável no Pai,
no Filho e no Espírito Santo. Milhares morreram pela fé, ao longo do tempo. Se
os potentados não o levaram a sério naquele tempo, posso afirmar que já são
bilhões no mundo que pensam de forma diversa. Ora, o Filho de Deus conclamará
todos que tiverem as mãos vazias e o coração pobre mas rico do Espírito Santo
que inclina o homem para o Bem. Ninguém precisa ter diploma como se alude.
Diploma é uma formalidade do mundo. E na atualidade, além de pessoas simples,
humildes, pobres e de diferentes camadas, há também doutores em teologia,
padres, pastores, obreiros de diversas matizes. A mensagem do Senhor não é
meramente social mas de palavra e de vida. “Vim para que todos tenham a vida e
vida em abundância” – João 10.10. Sobre os castigos a Ele impostos, devo dizer
que a lógica de Deus não é a lógica dos homens. Cristo aceitou e enfrentou
todos as felonias e dores humanas para cumprir o que já estava escrito desde os
profetas Jeremias e Isaías. Ele próprio pregou o padecimento, a morte e a
ressurreição. Seria enfadonho e não caberia citar as referências dos quatros
evangelhos.
Jesus não
anunciou a sua volta nas mesmas condições que veio ao mundo da primeira vez.
Imolou-se em sacrifício, como forma emblemática, marcante, demarcadora perante
a história da humanidade. Não regressará a terra para se submeter mais a
nenhuma paixão. O que aconteceu com Ele foi um evento divino e não profano.
Filme e novela sim, têm reprises. Aquele sacrifício foi único, indivisível,
histórico e individual. Jesus Cristo nunca sentou no trono de Davi, nem de
Salomão, portanto, denominá-lo Rei dos Judeus constituiu-se mais num deboche do
império romano, depois, destruído pelos bárbaros. Sabemos que na modernidade a
violência, a corrupção, a desobediência, a falta de solidariedade e o desamor
ao próximo são as práticas que ainda o crucificam na cruz, diariamente.
Lembre-se que o sacrifício daquele corpo, do Homem-Deus, foi fazer a vontade de
Deus. Ele que era Deus, era vida. “Derramou um sangue espiritual, divino, dando
de si Deus em si”, na maravilhosa síntese de Chiara Lubich no seu livro “O
grito”.
(*)
Escritor.
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
O
Papa Francisco renunciará?
Padre
João Medeiros Filho
Sempre acessível à imprensa, Francisco concede entrevistas
a jornalistas de diversos países. Costuma recebê-los na Casa Santa Marta, onde
mora. Seu bom humor contribui para a conversa fluir descontraidamente. Avesso a
certos protocolos, sequer exige perguntas enviadas com antecedência pelos
entrevistadores, como sói acontecer com muitos dignitários. Por isso, vários
comunicadores sentem-se à vontade para tratar de assuntos delicados. Num desses
encontros foi questionado sobre sua possível renúncia. A entrevista era
concedida a um canal lisboeta de TV. Ao ser indagado, se iria a Portugal em
2023 para conduzir a Jornada Mundial da Juventude, respondeu em tom
bem-humorado: “O Papa irá. Ou eu ou João XXIV.” A partir de então, sobretudo
após a morte de Bento XVI, aumentaram as especulações sobre sua abdicação ao
trono de São Pedro.
Poderá parecer mais um gracejo do atual Pontífice.
No entanto, a resposta contém algo mais profundo. Francisco nunca escondeu sua
admiração por João XXIII, a quem canonizou por “equipollenza” (equivalência).
Tal procedimento canônico dispensa o candidato aos altares da realização de
milagres para sua beatificação e canonização. A legislação eclesiástica prevê
tal isenção, quando houver: “a) prova da constância, antiguidade e amplitude da
devoção ao futuro santo, b) comprovação de suas virtudes e vivência exemplar da
fé católica.” Bergoglio agiu deste modo na canonização de seu confrade jesuíta
José de Anchieta, em 2014. Tal argumentação canônica poderá ser apresentada
para a canonização de Padre João Maria, antigo pároco de Natal (RN). Sua fama
de santidade é secular, resultando em grande devoção popular e consciência dos
fiéis quanto ao seu testemunho heroico das virtudes cristãs, máxime da
caridade. Eis uma das metas para o próximo arcebispo natalense.
No início do
pontificado de Francisco, muitos chegaram a afirmar que seu papado seria
semelhante ao de Paulo VI. Mas, após anunciar reformas, ficou evidente que ele
imprimiria uma marca análoga ao pastoreio de João XXIII. Francisco alude
constantemente à colegialidade sobre a qual foram lançadas as bases
doutrinárias e pastorais da Igreja primitiva. Verifica-se essa tendência,
quando em 1959 João XXIII anunciou o Vaticano II. Segundo as palavras do “Papa
Bom”, seria um concílio em prol “da unidade e da graça”. Realmente, o Vaticano
II teve a maior participação de bispos em eventos conciliares na história do
catolicismo. Não existiram forças antagônicas querendo acabar com a Igreja,
segundo a interpretação equivocada de alguns. O pontificado de Francisco
inspira-se em muitos aspectos no papado de João XXIII. Na verdade, o Pontífice
reinante recorre à própria Tradição, quando impulsiona a Igreja nessa direção.
Bergoglio vem escolhendo cardeais de diversos matizes pastorais, culturas e
nacionalidades. As suas nomeações seguem, principalmente, o critério da
pluralidade eclesial. Se a Igreja é universal, os conselheiros e colaboradores
próximos do Papa devem ter a dimensão da catolicidade.
Nos sonhos do atual Pontífice, um “João XXIV” seria
ideal para dar continuidade às suas reformas. Ele trabalha para isso.
Entretanto, como homem de fé, está consciente de que a instituição, a depender
“dos sinais dos tempos”, poderá avaliar o contrário. Também hoje, há quem diga:
“eu sou de Paulo; outro, sou de Cefas; um terceiro, sou de Cristo” (1Cor 1, 12).
É a Ele que pertence a Igreja. Percebe-se que nos tempos hodiernos, os
católicos parecem não desejar mais um “monarca”, mas um verdadeiro pastor. Quem
continua apegado aos vícios das cortes da nobreza, ligado ao tradicionalismo
cismático, à espiritualidade ideológica e à religiosidade estética, não
entendeu a missão da Igreja. Esta, sem distanciar-se da Escritura e Tradição
que a fundamentam, esforça-se para ser sacramento de Deus e promotora da
dimensão transcendental dos homens e do mundo.
Além das comorbidades naturais de um ancião, Francisco
tem apenas um pulmão. Segundo opiniões médicas, suas condições clínicas
desaconselham uma cirurgia em seus joelhos. Ele nunca revelou apego ao poder.
Renunciará, se não puder mais exercer satisfatoriamente o seu ministério ou se,
com suas limitações, vier a prejudicar a caminhada da Igreja, necessitada de
purificação de erros e deslizes. Num gesto de humildade e grandeza, como seu
antecessor, entregará o báculo a outro pastor.
“Paulo planta, Apolo rega, mas Deus é quem faz crescer” (1Cor 3, 6).
segunda-feira, 9 de janeiro de 2023
A PAQUERA
Valério Mesquita*
Lá
pela metade dos anos 70, o Rio Grande do Norte vivia um período pré-eleitoral.
Entra em cena o velho e tradicional município de Patu com a sua política
extremada que não diferia dos demais da região oeste. Ali pontificava uma
liderança emergente representada no universitário de Farmácia João Ismar de
Moura. Atritos e divergências entre partidários com a parcialidade da política
eram comuns. Certa vez, um primo do nosso João foi agredido por um soldado.
Avisado do fato o jovem político veio em defesa do parente. E recorreu ao
deputado federal Vingt Rosado em Mossoró, para mandar tirar a farda do militar.
O
líder mossoroense, como de costume, atendeu ao correligionário e passou a
diligenciar os procedimentos. Enquanto isso, em Patu, João se sentia perseguido
pelo soldado que acompanhava os seus passos a todos os lugares públicos da
cidade. Temendo uma iminente agressão do praça e conhecendo muitos exemplos
acontecidos ali mesmo e adjacências, recorreu a um amigo comum e ex-prefeito de
Natal Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, bastante ligado ao então secretário de
segurança. “Jorge Ivan, esse rapaz se põe em pé, diante de mim, aonde eu chego
e estou temendo já ser fuzilado”, queixou-se. Preocupado com a ansiedade e
temor levou o problema diretamente ao coronel João Pinheiro da Veiga para
receber o acadêmico e líder patuense.
Em
Natal, na sede da SSP, João foi recebido em audiência. O ambiente era tenso,
pois se temia uma violência presumível ante qualquer providência que se tomasse
contra o militar agressor. Isto posto, inicia-se o diálogo. O coronel Veiga
pedia detalhes para ajuizar melhor na decisão. “Mas, quando o senhor se
encontra em lugares públicos, restaurantes, bares, farmácias, lojas, o soldado
assume alguma atitude hostil, faz gestos ameaçadores ou o que ele lhe dirige?”,
pergunta o secretário de segurança já curioso. João Ismar de Moura fez silêncio
e sublinhou: “Olhares”. Risos. Salomonicamente, Veiga transferiu o soldado de
Patu para Mossoró a fim de acabar com as suspeitas. Meses depois, João Ismar em
Mossoró se encontra com o mesmo soldado. Reviveu temores antigos mas o gelo foi
quebrado. O militar se dirigiu a ele e falou franco: “Doutor João, não queira
saber o favor que o senhor me fez, arranjando a minha transferência aqui para
Mossoró. Tô muito feliz com a minha família”. João deixou escorrer pelo abdômen
e entrepernas aquele suor frio mas gostoso e pleno de alívio.
(*)
Escritor.
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
ILUSÕES GRATULATÓRIAS
Valério Mesquita*
De anotações feitas à hora do
crepúsculo em livros idos e vividos, pincei uma frase que me remete ao delírio
das coisas de querer ter sido e não fui: “Eu que tantos homens fui, não fui
aquele em cujos braços desfalecia Matilde Ubach”. Pensamentos fluidos, na
verdade, de reencarnações em lugares e tempos, sonhos e fugas do real ou
transposições de corpo e espírito para lugares onde nunca naveguei, muito além
da ponte de Igapó.
Ter sido, por exemplo, acompanhante do
Cristo nas peregrinações e presenciado seus milagres para não me dividir hoje,
nos conflitos das igrejas do mundo; gostaria de ter sido expectador do teatro
shakespeareano e tê-lo conhecido de perto e acompanhado todos os seus porres
nas tabernas escuras da Londres elizabeteana; como amaria a passagem pelos
estúdios de cinema dos anos trinta e quarenta só para ver Charles Chaplin, Stan
Laurel e Oliver Hardy; ter aspirado o odor dos charutos de Getúlio Vargas,
Winston Churchill e escutado em dó maior as gargalhadas prazenteiras; ou
como figurante dos filmes de John Ford, viajado nas diligências do tempo pelas
pradarias do oeste; de Juscelino a companhia e as conversas dele com o que
havia de melhor no PSD daquela época: Israel Pinheiro, Amaral Peixoto, José
Maria Alkmin, Benedito Valadares, Tancredo Neves; ou de um pólo para outro,
muito me ufanaria haver morado no Rio de Janeiro só para ouvir os discursos do
bruxo Carlos Lacerda e acompanhar as suas ações como governador com “M”
maiúsculo do estado da Guanabara. Eu, que tantos homens fui, não fui aquele que
conviveu mais tempo com Câmara Cascudo, pois considero privilegiados os que
receberam essa oblação; quantas vezes não me vi nos shows dos Beatles, na fila
do gargarejo, ou no programa Jovem Guarda de Roberto Carlos das tardes de
domingo; e quanto fascínio não exercem sobre mim as cidades interioranas da
Paraíba, Pernambuco, Ceará, Minas, Bahia, das moças namoradeiras, das praças,
dos olhares furtivos e ofertantes como se eu quisesse, de repente, paquerá-las
todas ou me compensar, ao menos, em contemplá-las lindas e infinitas,
renascidas de minhas ilusões de adolescente.
Ah! Como esse mundo de hoje dói. Não há
mais líderes. A violência urbana e a guerra mataram os sonhos e as ilusões
castas dos nossos pensamentos. É um mundo de aparências, de vaidades e
iniqüidades. “Olhe, aquele ali é Dinarte Mariz e com ele Aluízio Alves”.
Faltou-nos alguém que lembrasse. Naquele tempo, nessa visão dos dois monstros
insuperáveis da política potiguar. E se o sonho triunfar sobre a verdade, posso
dizer nesse final que assisti padre João Maria sarar os enfermos; preguei com
Frei Damião na noite litúrgica e estrelada de Macaíba; que vi subir o balão de
Severo e que assisti o último suspiro de Auta de Souza. E se o leitor me
acreditar, conheci Lincoln na guerra da Secessão; vi Roosevelt, Getúlio,
Tyronne e Evita na Ribeira de guerra. Se todas essas reflexões são febris ou
inverossímeis, é preferível crê-las e esquecer as bestas do apocalipse que
estão soltas no Brasil, no Oriente e no Ocidente. As imagens da televisão sujam
de sangue as nossas ilusões por um mundo de paz.
Essas coisas findas muito mais do que
lindas, elas ficarão. “Que ninguém ouse roubar a minha solidão se não for capaz
de me fazer real companhia”, disse o filósofo pensador Nietzsche. Não vou parar
de forma alguma, pois vejo um amanhecer. Agrada-me a modéstia, a minha
pequenez, as minhas provações, as minhas dúvidas e dívidas. Porisso e que
escolhi a memória como uma singularidade secreta. As histórias só viverão para
sempre se me dispuser contá-las.
(*) Escritor.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2023
sábado, 31 de dezembro de 2022
Mensagem do Ano Novo de 2023
No alvorecer de um Novo Ano, celebram-se o Dia Mundial
da Paz e a solenidade cristã de Maria, Mãe de Deus, portadora da Paz. Na Virgem
Santíssima aproximaram-se o Criador e a criatura. No seu coração palpitavam o Eterno
e o temporal. Nela, o Onipotente uma vez mais demonstrou sua vontade de nos
amar. Maria é plena de Graça. O que nos leva à violência é a ausência de Deus,
deixando a criatura humana sem rumo. O pecado gera a guerra, qualquer que seja
a sua dimensão. Maria é a Mãe e Rainha da Paz.
Desejamos a todos um ano de graça e concórdia, diálogo
e encontro. Que em 2023 sopre constantemente a brisa suave
da Paz, da alegria, da esperança; nos embalem ondas de amor, ânimo e coragem e
a saúde faça sua morada em nosso corpo e em nossa mente. Que desvaneçam
a mentira, as agressões, a desarmonia, a injustiça e o espírito de vingança. Possa
a fé nos envolver e fortalecer para enfrentar os
desafios do Novo Ano que desponta. E que as maravilhosas bênçãos de Deus se
irradiem por toda a humanidade e pelo mundo inteiro. Um Ano Feliz para
todos, fecundo de Deus, sem tristezas e sofrimento e com um bom inverno. São os
votos de Padre João Medeiros Filho e seus familiares. Um abraço fraterno e
minha bênção sacerdotal, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém
sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
SEGUIR JESUS
Valério Mesquita*
Ouço uma voz que me diz, lá dos confins do mundo, que a única lição importante é seguir Jesus. No Brasil, a força da mídia eletrônica influencia mais que a religião. Impõe vícios, deturpam hábitos, derrubam códigos e mandamentos. A necessidade vital de se fazer conhecer a pessoa e a mensagem de Jesus, está sendo suplantada pela liberalidade dos costumes e vícios. O postulado institucional da família com Deus está sendo mutilado. Jesus já não constitui o melhor que temos nas igrejas e o melhor que podemos oferecer hoje à sociedade moderna. E Ele continua ainda o melhor que a humanidade já produziu. Jamais deixou de ser o potencial mais admirável de luz e de esperança que os seres humanos podem contar. Somente tenho a deplorar, que sem Ele, o horizonte da história se empobrecerá caso caia no esquecimento.
A luta que se trava no país para substituir a família constituída no casamento por um homem e uma mulher, não pode submergir na crise e na confusão dos sexos. A família brasileira sofre a hostilidade ostensiva dos desajustados sob a passividade das igrejas que não se entendem. Preferem o duelo das escaramuças dogmáticas no pretório das iniquidades. Onde está o maior inimigo hoje da família propugnada nos ensinamentos cristãos? Quem levanta as multidões nas ruas para consagrar a sodomia, a droga e a subversão das leis e dos bons costumes? Todos sabem. Não preciso apontar. São pouquíssimos os religiosos que se levantam no púlpito para defender o seguimento fiel do legado de Jesus quando se contesta hoje nas ruas seus ensinamentos. Se as igrejas se unissem no plano das ideias e dos postulados bíblicos, tal decisão mudaria tudo. Se separadas, são fracas, litigantes elas não representam nada. Os cardeais, os arcebispos, bispos, pastores, apóstolos, sejam quais forem os títulos das denominações devem se unir, na hora premente e presente, para reencontrarem o eixo, a verdade, a razão e o caminho.
Sentados à mesa, devem ficar, iguais a Jesus quando instituiu na santa ceia a eucaristia. Com o exemplo oferecerão ao país e ao mundo um conteúdo realístico de adesão a Deus. É possível a unicidade: segui-lo por caminhos eclesiásticos diversos. Os aspectos e matizes do serviço a Jesus Cristo para o reino de Deus, é único e básico para todos. Neste momento crucial, em que periga a fé – com tendência a piorar – é imperativo assumir sua defesa. Seguir Jesus, defende-lo, significa eliminar a descriminação. Fazer nosso, o cristianismo – sem barreiras fronteiriças – o seu projeto integrador e includente de construção de pontes, sem conviver com mentalidade de seitas. Dos congressistas brasileiros, pouco ou quase nada se deve esperar. O papel de postular, de rebater, de se contrapor ao ilícito, cabe mesmo as igrejas que professam e crêem no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Se são três numa só pessoa, porque não uma vintena de igrejas num só ideal, sem perda da contextura de cada uma, no instante em que as luzes do mundo novo tendem a se apagar!
O propósito fundamental desse texto, neste final de ano, é sugerir uma reflexão um caminho pelo qual as igrejas cristãs possam inaugurar os primeiros passos em direção ao mistério da aproximação histórica, por mais difíceis que sejam os obstáculos. Comunidade cristã nenhuma pode ser empresa, nem exercitar-se como tal. No plano das idéias e dos postulados cristãos quando ameaçados, é possível a união em torno da mensagem do Mestre. Jesus amparou pecadores de todo gênero, publicanos, eunucos e prostitutas, sem discriminar ninguém. Instruiu aos seguidores para que fizessem o mesmo. Quando se trata de desrespeito a Bíblia e as leis vigentes no país, as igrejas devem se fortalecer, advogar fielmente os propósitos das Escrituras. Hoje, correntes sociais se organizam, invadem, depredam, tudo para defender reivindicações políticas, futebolísticas, culturais, comportamentais, profissionais e sexuais, etc. Mas, não é crime agredir a Deus, difama-lo publicamente. Tudo cai na vala comum do direito ou opção individual de cada ser. Agridam Maomé, no mundo mulçumano, pra verem a reação? Apesar das diferenças de raça, culto, civilização e raízes culturais. O respeito às instituições valem mais. Jesus em Mateus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo. Porque o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Capítulo 11, versículos 28, 29 e 30). Feliz Ano Novo!
(*) Escritor.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
CARTAS DE COTOVELO - VERÃO DE 2022/2023 - 1
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Acabo de
chegar ao meu ninho de repouso - Cotovelo e, ao ligar a televisão para testar o
meu aparelho de TV, me deparo com a triste notícia da morte de Edson Arantes do
Nascimento - PELÉ, jogador inigualável, que guardo na minha mente desde a sua
estreia no histórico campeonato mundial de 1958. Nunca o perdi de vista. E
estava orando para que Deus desse a ele o melhor caminho para o desfecho de sua
vida.
Há poucos
dias tive a oportunidade de escrever um artigo sob o título: MEUS ÍDOLOS
ESTÃO PARTINDO, onde lamentei a perda, em curto espaço de tempo, de
amigos/amigas em variados campos da cultura e da vida.
Agora, no
findar deste não muito promissor de 2022, temos esse novo desfalque para o
futebol brasileiro, deixando um vácuo que dificilmente será preenchido neste
milênio, pois a tecnicidade no esporte chegou a um nível tal, que está perdendo
o encanto da espontaneidade, da naturalidade e da singeleza.
Sei que outros craques virão, mas a essência da grandeza de um Pelé ou de
um Carlitos, não acredito que seja repetida.
Tenho pouca esperança, que tenha o ensejo de assistir outro
Campeonato de Futebol - isso é decisão do Criador, mas ainda que isso seja
possível, não vou encontrar outra figura emblemática como o nosso Deus do
Futebol.
Resta-nos guardar a sua memória de grande
profissional, cidadão, e patriota, promovendo uma despedida inesquecível para
perpetuar na história do esporte bretão - que um dia existiu no mundo um menino
brasileiro, de origem pobre, afrodescendente, que chegou aos píncaros da glória,
sendo merecedor da coroa de louro e, também de ouro, para gravar a sua
eternidade de existência nos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Viver
Berilo de Castro
A vida nos traz momentos de alegria, de
felicidade, de paz, como também de tristeza, de sofrimento e de depressão. Não poderia
ser diferente. Ela (a vida) gira como um carrossel no parque da existência
humana.
Há momentos felizes e tristes, todos eles com
início, meio e fim. Ninguém escapa, ninguém foge deles.
O isolamento social, o avançar da idade, a
falta do que fazer pesam muito, e em certos momentos podem chegar à tristeza e
à solidão, mas nada que não possam ser administrados, dominados e vencidos. É
preciso, sim, coragem e enfrentamento.
São momentos, muitas vezes, inesperados. Na
verdade, somos seus alvos centrais. Não escolhemos o momento exato de
assumi-los e absorvê-los.
Chegam sorrateiramente e, na maioria, em
ocasiões inesperadas e de incertezas.
À medida que envelhecemos, passamos a ficar
mais vulneráveis; a solidão passa a se aproximar e fazer morada ao nosso lado;
o ócio é danoso, não salutar e angustiante; é aí que a depressão pede passagem,
provoca e nos povoa. E, assim, se inicia o caminho, e se constrói a estrada
para aqueles que se entregam e se alinham nessa vereda triste e melancólica que
é a depressão.
É preciso reagir e vencer esse mal milenar,
cada vez mais vivo e ameaçador nesse mundo globalizado de hoje. Vamos à luta,
afastar e vencer esse embate cruel que crucifica a vida.
A vida precisa e deve ser vivida em sua
plenitude, em todas as suas fases e etapas com alegria e desprendimento. Não se
justifica o sentido inverso.
Vamos viver felizes, cada dia, cada minuto,
cada segundo como se eles fossem os derradeiros. A vida é uma passagem curta,
sem parada e sem volta. Aproveitemos enquanto o trem não para.
O SONHO DO POETA
- Horácio Paiva*
Há
na poesia do saudoso amigo e poeta Gilberto Avelino, que releio neste Natal de 2022
(vinte anos após sua morte), a sensação de profundidade espiritual, de evocação
de instantes perdidos, porém magicamente recuperados na memória lírica.
Recordo
o nosso último encontro pessoal, em nossa querida e lendária Macau, centro do
mundo, porto a que sempre ancorávamos em nossas divagações existenciais. E
isto, certamente, mais uma vez nos colocava em harmonia com a eternidade.
Mas
não sabíamos que ali havia, também, uma despedida, um adeus, já que logo, em 21
de julho de 2002, o poeta faleceria. E vivemos aquele encontro na plenitude da
poesia e do trabalho profissional.
Chegara
à sua casa da Rua Pereira Carneiro às nove horas do dia 17 de julho, uma
quarta-feira, e a encontrara iluminada com a sua alegria.
Gilberto,
embora muito bem humorado, estava ansioso por revelar-me um sonho que tivera na
noite anterior e, antes da leitura de seus novos poemas, passou a narrá-lo. Contou-me que tivera um sonho impressionante
com o meu pai, Horácio de Oliveira Neto, já falecido. Durante toda a noite
sonhara com ele, nos velhos tempos da agitada política macauense. E este,
insistentemente, chamava-o: “Preciso de sua assessoria, com urgência, aqui.” Ao
que respondia o poeta que logo iria, assim que concluísse determinado trabalho.
Gilberto
admirava o meu pai, o seu caráter, a sua idoneidade, a sua coragem pessoal.
Ingressara na política macauense através dele, ainda muito jovem, acadêmico de
Direito. Prestava-lhe preciosa ajuda, com o seu talento e habilidade, porque
acreditava nele e o julgava o mais apto para administrar Macau.
O
escritor argentino Jorge Luis Borges, em seu “Libro de Sueños”, narra inúmeros
e impressionantes sonhos de vultos históricos, sem adentrar-se em
interpretações. Ali há relatos magistrais de sonhos de Nabucodonosor, Jacó, José, Salomão, Confúcio
(que sonhara com a própria morte), Cipião, Coleridge, Abraham Lincoln, dentre
outros.
Eu
e Gilberto também não nos fixamos em interpretações e, logo após a sua curiosa
narrativa, passamos a outra modalidade de sonho: a poesia. Em seguida, o labor
profissional da advocacia consumiu o restante do dia, para sempre memorizado.
Mas
não quero terminar sem antes pôr em relevo a beleza e a lúcida singularidade
desses versos do grande lírico espanhol Juan Ramón Jiménez, que tanto falam ao
meu coração:
“Como aprendemos a morrer em ti, sono!
Com beleza magistral
nos vais levando - por jardins,
que parecem cada vez mais nossos -
ao conhecimento profundíssimo da
sombra!”
Relembro
a nossa profunda amizade, que a morte não acabou, as nossas conversas
infindáveis, as nossas divagações sobre política e projetos para Macau, sobre
literatura, sobre o amor, sobre Deus. Relembro quando dizíamos que, assim,
conversaríamos eternamente.
Macau
e a poesia não perderam: ganharam Gilberto.
........................................................................................................................
(*)
Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do
Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN
e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
A
antecipação no futebol
BERILO DE CASTRO
Tenho ativamente acompanhado o
futebol nacional e internacional. Faz parte do expediente de um aposentado
caseiro.
Como ex-atleta, tenho e sinto minhas
alegrias e minhas frustrações, claro! Me
considero, de uma certa forma, um exigente e “chato” quando analiso uma partida
de futebol, principalmente agora, quando vejo que ali estão os “abençoados” que recebem oceanos
de euros (os super valorizados e não tanto justificados).
Tenho observado e dedicado maior
atenção às ações do sistema defensivo das equipes; até pelo fato de ter sido um
jogador defensivo.
Hoje, o futebol, na exigência dos seus treinadores e
do próprio momento atual, não admite mais um sistema defensivo com jogadores de
meia estatura (digo, de meia estatura, baixa, nunca!). Tudo bem, é óbvio!
Então,
vamos encher de “galalaus”
as áreas defensivas. No entanto, existe uma coisa muito simples na prática do
futebol: o chamado “fundamento”. O bom futebol é praticado tão somente em cima
de uma boa e perfeita aplicação de seus fundamentos básicos.
Não adianta uma equipe ter em seu
sistema defensivo jogadores de grandes estaturas, se esses não souberem e não
praticarem o exercício do bom tempo de bola, aquele bendito e correto momento
de chegar primeiro – a conhecida “antecipação”. Cito um exemplo típico e muito
bem lembrado e praticado pelo excelente defensor da seleção paraguaio Gamarra e
do Flamengo, carioca; de pouca estatura, mas de um senso de antecipação nunca
visto, impressionante! E tem mais, sem cometer infração alguma. Foi bonito ver
atuar!
Infelizmente, hoje pouco se pratica
esse importante e eficaz recurso técnico, e quem agradece de coração feliz e
pernas livres e soltas são os atacantes, que passaram a marcar muito mais gols.