quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 Carta de Amigo

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes


    Neste período eleitoral, tenho recebido incontáveis mensagens de natureza política partidária, fazendo promoção de candidatos aos cargos públicos no pleito de 04 de outubro. Tudo bem, leio respeitosamente e analiso as plataformas que oferecem - algumas bastante interessantes.

    Contudo, o que me incomoda muito, são as mensagens de cunho ideológico, tentando incutir na cabeça de um idoso de quase 87 anos, nomes de candidatos, não pelo seu real valor, mas somente apontando as suas crenças. Isso é insuportável e falta com respeito ao direito de escolha. 

    Um desses leguleios, atribuído a um padre - o que não acredito, mereceu de minha parte o seguinte comentário:

"Carlos D Miranda Gomes

 
O período eleitoral é propício para espalhar ódio. As ideologias de direita e de esquerda são motivações atraentes para a desunião. O fascismo, nazismo, leninismo, stalinismo são oferecidos com volúpia. Mas a eleição vai passar... nada muda, nada se transforma, o povo cada vez mais necessitado e os protagonistas mais ricos. SOMENTE JESUS E A FÉ SERÃO CAPAZES DE NOS OFERTAR UM NOVO MUNDO. Procure os melhores e vote conscientemente."
    Dispenso esses panfletários  inconsequentes. Sou bastante experiente para fazer as minhas escolhas, mesmo sem mais obrigação para fazê-las.

    Lembro-me, e bem lembrado, a campanha de 1960, que gerou INTRIGUAS familiares, perseguições e até assassinatos. DEUS nos livre desse retorno. AMÉM.

 

O Brasil, país do futuro?

Monsenhor João Medeiros Filho

A Semana da Pátria lembra minha infância. Os professores diziam que o Brasil seria o país do futuro. Falava-se de riquezas minerais, água abundante, solo fecundo, florestas densas etc. Ledo engano. O que fora transmitido equivale a dizer que o proprietário de uma loja de tintas seria um excelente pintor. Ou então, o dono de uma marmoraria, um exímio escultor. O que faz deles primorosos profissionais não é apenas a tinta ou o granito. São ideias que povoam suas mentes. Por essa razão, se por um lado, somos um país tão portentoso; de outro, há uma nação pouco desenvolvida. Carece de criatividade, pujança, projetos e políticas corretas para essa terra promissora. Isso demonstra que não sabemos pensar. Nossas instituições científicas, pedagógicas e políticas voltam-se para isso?

Um povo se molda a partir de ideias e projetos. Prova disso são os países parcos de recursos naturais, todavia ricos na arte de raciocinar, desenvolver tecnologias e construir. Questionar é essencial. O pensamento é como a águia que alça voo nos espaços vazios e desconhecidos. É deletério para a arte de pensar o ensino de respostas prontas. As escolas foram criadas, não só para dar respostas, mas sobretudo para ensinar a refletir e questionar. O raciocínio permite-nos navegar por oceanos e céus incógnitos. Alunos são premiados pelo que repetem, e não pela criatividade.

Respostas são apenas como pés apoiados na terra firme para o impulso inicial do voo. Os pássaros, antes de voar, aprendem a se firmar sobre o solo. As crianças, antes de começarem a andar, têm que saber ficar firmes sobre o chão. Isso representa as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já obtiveram respostas. O sabido é o impensado, que fica guardado, pronto para ser usado como pontapé, na memória desse computador que é o cérebro. Basta clicar a tecla adequada para que os dados apareçam no vídeo de nossa consciência. Toca-se no botão feijoada e aparece na tela cerebral: panela de barro, carnes, feijão, temperos, seguidos de uma série de instruções sobre o preparo.

Memória é a gravação do passado. Importante para se repetir aquilo que nos fora legado. Isso é tentador, a ponto de nos fazer esquecer que é preciso voar. Permite que se ande pelas trilhas conhecidas. Mas, nada têm a dizer sobre mares ignorados. Há quem, de tanto repetir receitas e respostas, metamorfoseia-se em águia com corpo de tartaruga. E não são poucos os que agem assim, mesmo detentores de diplomas universitários. Aí, reside o perigo de algumas escolas. De tanto insistir no legado do passado, os alunos esquecem o seu destino, um futuro que se abre em seu horizonte. Este só poderá ser explorado com as asas da reflexão que nos levam ao ninho da criatividade e realização. “Pensai em tudo o que é verdadeiro e justo...” (Fl 4,8).

Na pedagogia atual, o primeiro momento da educação é a transmissão do que se sabe. As gerações adultas transmitem aos mais jovens conceitos que imaginam funcionar. Nossas escolas não ensinam a criar, mas a repetir. Fazem parar no conhecido e não nos permitem ir ao novo. A vida é busca de descoberta, de crítica filosófica. As academias estão renunciando à sua missão criadora, permanecendo no hábito comodista de não pensar. Até as críticas ideológicas são meras repetições. Nossas instituições de ensino têm preparado repetidores com o codinome de pensadores. A política brasileira parou no tempo, submissa completamente ao sistema. O Brasil não se renova. As instituições educativas não ensinam a refletir e criar, mas a repetir. O apóstolo Paulo recomenda: “Não vos conformeis com este mundo, mas renovai-vos pela transformação da mente” (Rm 12,2).