quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 

Cachaça, história, elemento cultural

Padre João Medeiros Filho

Pode parecer insólito um clérigo abstêmio abordar tal assunto. O tema chamou minha atenção, quando criança. Presenciava mamãe discutir com papai por conta da embriaguez de alguns operários. Ele simplesmente respondia: “É a única alegria deles, ao terminar a semana, neste fim de mundo (Jucurutu).” Minha curiosidade foi aumentando. Anos depois, como servidor público, recebi do MEC a incumbência de verificar a possibilidade da implantação de cursos de nível superior nessa área. Passei então a ter sobre o assunto um olhar mais técnico, cultural e científico. Segundo os evangelistas, Cristo transformou a água em vinho e o transubstanciou em alimento espiritual (Jo 2, 1-12; 6, 55-57). Admiro a autenticidade de Padre Gleiber Dantas de Melo degustador da bebida, segundo a cultura e tradição seridoense.” As narrativas neotestamentárias deixam a entender que Jesus apreciava um bom vinho. Seus adversários O atacavam, chamando-O de “comilão e beberrão” (Mt 11, 19).

Outro motivo levou-me ao estudo do destilado. Foi o uso medicinal por Monsenhor Walfredo Gurgel, diretor do Colégio Diocesano de Caicó (RN). O cardiologista lhe prescreveu uma dose diária de uísque. Como era caro, o eclesiástico solicitou comutá-lo por cachaça. Um amigo e político paraibano o presenteava com garrafas da famosa “Rainha”, oriunda de Bananeiras (PB). O sacerdote visitava à noite sua genitora “Mãe Quininha”, residente na mesma cidade. Na ocasião reunia-se com amigos, na calçada da residência materna. Os alunos do educandário aproveitavam esse momento para se apropriarem de algumas garrafas. Notando a falta, o padre passou a guardar a bebida na casa de sua genitora e comigo. Deve-se ao Monsenhor, por sugestão de Dr. Manoel de Medeiros Brito, a introdução de um trago da bebida no cardápio dos almoços nas reuniões governamentais da Sudene.

O Instituto Brasileiro da Cachaça-IBRAC registra que ela foi o primeiro destilado das Américas, fabricado em 1516 na Ilha de Itamaracá (PE). Entretanto, segundo o eminente pesquisador Câmara Cascudo, autor da obra “Prelúdio da Cachaça”, passou a ser nacionalmente consumida em 1532. Surgiu nos engenhos de açúcar do litoral nordestino, obtido da fermentação e destilação do caldo de cana.

Produzida exclusivamente no Brasil, é considerada bebida nacional. Provém do mosto da cana, com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume a 20°C, podendo incluir até 6 g/L de açúcares em sacarose. Diferente da aguardente (oriunda de fontes variadas), ela provém apenas do caldo fresco de cana, gozando de proteção legal, desde 1951. Tampouco trata-se de rum, que utiliza outras matérias primas. Estudiosos elencam cinco tipos principais de cachaça: a) prata/branca, quando a bebida não é envelhecida, armazenada em inox, transparente, com aroma e sabor mais intensos de cana; b) ouro/amarelada, envelhecida até um ano em madeiras (imburana, carvalho, bálsamo etc.), possuindo cor dourada e notas amadeiradas; c) premium, com envelhecimento de um a dois anos. É mais suave e aromática; d) superpremium, envelhecida de dois a três anos, com equilíbrio de sabores e) reserva especial/blend, envelhecimento superior a três anos. Existe a orgânica, produzida sem fertilizantes químicos ou agrotóxicos no cultivo da cana-de-açúcar, seguindo padrões sustentáveis em toda a cadeia produtiva, do plantio ao envase.

De acordo com o Anuário da Cachaça, de 2025, o Brasil conta com 1226 produtores, espalhados em vários estados. Minas Gerais é o maior fabricante com 501 estabelecimentos. Isso permite alta competividade na produção, aumento de comercialização e aprimoramento na fabricação. Em 2024, foram envasilhados quase dois bilhões de litros da bebida, contabilizando sete mil marcas. Parte da produção destina-se ao exterior. Em 2025, o comércio no Brasil chegou a movimentar perto de 20 bilhões de reais. Algumas garrafas têm alto preço: a) Weber Haus Extra Premium (RS), edição limitada, ultrapassando R$ 15.000; b) Havana 75 anos (MG) custa em torno de R$ 11.000. Vale Verde 18 anos (MG) é vendida por RS 7.500. Alguns brasileiros (sobretudo os “nouveaux riches”) procuram esnobar com destilados importados (por vezes de qualidade duvidosa), menosprezando nossas tradições e valores. Lembrava o apóstolo Paulo a Timóteo: “Não bebas somente água; toma também um gole de vinho, por causa de tuas enfermidades e fraquezas frequentes” (1Tm 5, 23).

 UM CERTO NATAL



Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Manhã luminosa de véspera de Natal. São 07:30. Retomo a rotina diária da ida ao trabalho. Ligo a FM preferida das canções que vestem minhas lembranças. Procuro me investir do espírito natalino. “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso era a primeira a “desfilar na passarela musical”, como anunciava o empolgado locutor. Dois toques no vidro elétrico do carro. Era uma criança saída do presépio mendigo do canteiro da avenida. A face triste denunciava o fome zero. Estendia a mão, sem falar, um gesto de súplica, sob os acordes do “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Relutei. Se der, eu educo um pedinte. Segui. O sinal abriu e o verde me alfinetou que é Natal. Parei mais à frente e acenei. Havia capitulado diante da grandeza do Natal. Auxiliei e prossegui.

Disse para me justificar, ainda, que a tarefa não era só do governo. O comércio da Av. Prudente de Morais ainda parecia adormecido. No ponto de coletivos uma morena de calça jeans, coxas grossas, roubava a cena. Admirei e soltei a frase do meu repertório: pronta para o desperdício! As acácias amarelas ornamentavam o Natal dos meus sonhos. O rádio tocava a Ave Maria em ritmo de samba. Considerei uma heresia. Mas não pude conter a memória fulminante do dia em que meu pai morreu. Reconstituí a cena da saída do féretro da Igreja Matriz de Macaíba, quando o vigário homenageou o devoto de Nossa Senhora da Conceição com a imortal melodia de Gounod. Mais um semáforo, com licença da palavra, do Detran. Aliás, os sinais de trânsito nesta cidade se transformaram em sinais da cruz. Em cada um se instalam os miseráveis que saem de seus guetos de perto e da distância. Crucificados pela fome, quando não pela pedagogia oficial que os ensina a pedir. Cadê aquele coral da TV que solta gritinhos espasmódicos: “fome não, fome não, fome não, fome não!”. Pensei, olhei, não vi ninguém. Logo na véspera do Natal crucificaram o Cristo.

A voz de Isaurinha Garcia rompeu a tristeza cantando o samba sacudido: “E daí, e daí?” Estava perto do destino. Ao lado, a Maternidade Januário Cicco exibia esparramados adornos natalinos. Panos vermelhos como alcatifas desciam de todas as janelas, como se simbolizassem o sangue vertido pelas parturientes no exercício do direito de nascer, refleti comigo mesmo criando alegorias. Do outro lado percebi um enxame de flanelinhas perturbando os pára-brisas. Amanhã serão mais. Depois, farão a revolução pelo usufruto dos carros. Enfim, cheguei ao estacionamento do edifício. Ao saltar, desceu-me a sensação de que havia presenciado dois Natais, em poucos minutos.

(*) Crônica publicada no livro “Inquietudes”

(**) Escritor.