quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

 

O sentido do tempo quaresmal

Padre João Medeiros Filho

Na cultura hebraica, a numerologia é habitual e plena de simbolismos. Não raro, a Igreja alimenta-se liturgicamente de símbolos. Estes são abertos, enquanto a palavra linear é fechada e, muitas vezes, limitada. O número quarenta aparece frequentemente na Sagrada Escritura. Significa mudança, renovação, início etc. No catolicismo, a quaresma consiste num período apropriado de reflexão, mudança, reinício e purificação. Ela vai da Quarta-Feira de Cinzas até a Quinta-Feira Santa. Neste ano de 2026, estende-se de 18 de fevereiro a 2 de abril.

A Bíblia narra que, nos primórdios da humanidade, num espaço igual de tempo caíram chuvas copiosas, causando um dilúvio (cf. Gn 7,17). Na ocasião, Noé valeu-se da Arca. Os infiéis foram eliminados e firma-se um novo compromisso de Aliança com a humanidade, representada por Noé e os seres vivos, cujas espécies estavam presentes na Arca (cf. Gn 9,12). O número quarenta aparece em vários momentos da História da Salvação. A travessia do povo hebreu pelo deserto – distanciando-se da escravidão do Egito até chegar à Terra Prometida – aconteceu também durante esse número de anos. Jesus jejuou no deserto idêntica quantidade de dias e noites. Quarenta representa purificação, renovação, conversão. Eis o motivo pelo qual tal número se liga igualmente à quaresma.

Somos convidados a meditar sobre nosso destino e condição de filhos de Deus, no período quaresmal. Durante esse ciclo litúrgico, a Igreja recorda-nos a marcha do Povo de Deus, peregrinando em direção a Canaã. Portanto, a quaresma está ligada também à caminhada. Como nos rituais do Antigo Testamento, ela exorta-nos ao jejum e à conversão (em grego: metanóia). Na sociedade hodierna, fala-se muito na linguagem administrativa, financeira e biomédica em cortar excessos. Com o jejum deseja a Igreja que possamos ser capazes de suprimir as gorduras de egoísmo, desamor, vaidade, violência e injustiça. Na sociedade atual de culto ao corpo, malha-se muito. Inúmeras modalidades de exercícios são praticadas e ensinadas. As cidades estão inundadas por academias e clínicas de exercícios físicos. Jejuar inclui malhar espiritualmente, eliminar os excessos nocivos ao ser humano para dar lugar ao encontro do Deus Vivo.

A quaresma marca também o êxodo do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. A partir daí, a Igreja chama a atenção sobre a nossa trajetória diária. E a liturgia proporciona-nos um espaço e período anual a fim de realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. Assim, voltando ao que é verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o renovado. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existe mais. Da mesma maneira, “o que é velho” (Ef 4, 22), no dizer do apóstolo Paulo, deverá desaparecer para dar lugar à (re)descoberta de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã não é apenas um período litúrgico, mas um momento ao longo de nossas vidas, em que devemos retornar, com a ajuda da graça divina, ao nosso interior. E ali, é crucial realizar o encontro com nossos erros e virtudes.

A celebração quaresmal convida-nos ao despojamento para um renascer. A cerimônia de cinzas significa o fim de tudo o que nos afasta do Pai e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó a mentira, o egoísmo, a insensibilidade, em suma, erros, limitações e pecados, para que possa ressurgir em nós o “homem novo”, que Cristo Jesus veio trazer ao mundo. As cinzas traduzem simbolicamente nossa conversão, o queimar de nossos erros e o brotar de novos planos. Lembremo-nos da mitologia em que Fênix renasce das cinzas. Por isso deve aflorar em cada um de nós o desejo autêntico de escuta da palavra de Deus. Caminhar ou viajar pode nos ensejar uma oportunidade de conviver e dialogar. Eis uma das razões da inserção da Campanha da Fraternidade, durante o tempo quaresmal. O Povo de Deus, em sua busca esperava ter uma pátria e morada. Entende-se a razão pela qual a Igreja em 2026 colocou como tema da CF: “Fraternidade e moradia”. Vale lembrar que um dia “o Verbo de Deus veio morar entre nós” (Jo 1,14).

 


CASA  ABANDONADA

      Esta casa fica na Travessa Coronel João Gomes, no bairro do Barro Vermelho, construída onde, no passado, foi o sítio do meu avô, que deu nome à rua e travessa e, como primeiro morador, o Dr. Abílio Felix.

    Está abandonada, pois seus atuais proprietários começaram uma reforma, não terminaram e deixaram sem muros.

    Lá existe uma pequena piscina, com água poluída, verdadeiro criadouro de mosquitos, escorpiões e habitada por animais de rua que ali são depositados, sem respeito, obrigando os que residem na travessa a socorrê-los e prover de alimentos.

    Os moradores do bairro já fizeram reclamações e denúncias; os órgãos de vigilância sanitária vieram e nada foi feito.

    Vamos fazer alguma coisa proveitosa para sanar esse abuso, respeitando os animais, com adoção responsável.

    


 




"Uma viagem ao expressivo Turismo Potiguar, e os reflexos positivos na Economia do RN ":   

           Inicio esta viagem pelo turismo Potiguar, ressaltando a importância da capital Potiguar, Natal, como destino turístico relevante e grandioso no turismo brasileiro e internacional, às nossas belas praias oferecem atrativos expressivos com destaque para a Praia do Forte e a Fortaleza dos Reis Magos, o Farol de Mãe Luíza, que ressaltam aspectos importantes da nossa história, bem como, a Praia de Ponta Negra e o morro do careca que encantam os Potiguares e os turistas que nos visitam.

         Natal possui ainda, uma via costeira magnifica, com excelentes hotéis de nível internacional, uma Escola de Hotelaria bem conceituada, uma rica gastronomia com exuberantes restaurantes, belíssimas pousadas e chalés, e um variado potencial no artesanato e nas artes como um todo, e ainda, Natal tem excelentes equipamentos turísticos, com destaque para o novo Mercado da Redinha, a Ponte Forte - Redinha, que liga a cidade do Natal  a todo litoral norte Potiguar e o novo Aeroporto Aluízio Alves em São Gonçalo do Amarante, e também Natal tem no turismo cultural,  o Complexo da Rampa( que remonta aspectos da aviação e da segunda guerra mundial), bem como, nossa capital possui a Casa de Câmara Cascudo aberta a visitantes, o Museu Câmara Cascudo,  a sede da Academia Norte RIO-GRANDENSE De letras, o Instituto Histórico e Geográfico do RN, o Parque da cidade, o Parque das Dunas,  dentre outros atrativos artísticos, paisagísticos e culturais.

        Continuamos nossa viagem ao expressivo  turismo Potiguar, que tal qual uma locomotiva segue a todo vapor, em Natal encontramos ainda, o Centro de Turismo de Natal em Petrópolis, o Memorial da Assembleia Legislativa do RN, o Mercado de Petrópolis, com venda de livros, antiguidades, bares, restaurantes, etc, além da capital espacial do Brasil ter inúmeros locais de venda de artesanatos, notadamente, nas praias dos artistas e ponta negra.

         Adentrando no município de Parnamirim, e no litoral Potiguar, encontramos o cajueiro de Pirangi, intitulado, o maior cajueiro do mundo, e ainda, as belas praias de Cotovelo e Pirangi, a base de lançamento de foguetes ( barreira do inferno), que também faz parte da grandeza  de Parnamirim, e do seu cognome, como sendo a cidade "Trampolim da Vitória ", que remonta a história da aviação e da 2a.Guerra Mundial.

        Destacamos também no litoral sul potiguar as belezas naturais das praias de Búzios, Tabatinga, Camurupim, Barreta, "PIPA"...com destaque internacional, Barra de Cunhau, Sagi, dentre outras praias que possuem paisagens encantadoras e  boa infraestrutura turística, com exuberantes pousadas, chalés e hotéis de médio porte, além de significativos e primorosos    bares e restaurantes.

          No Litoral Norte Potiguar, destacamos a importância da BR 101 até Touros, que contribuiu significativamente para o crescimento do turismo naquele trecho do litoral Potiguar,  com destaque para as praias de Genipabu, as lagoas, e as dunas com maravilhosos passeios de  Buggy, no referido litoral norte encontramos ainda a  beleza das Praias de Barra do Rio, Santa Rita, Graçandu, Pitangui e sua bela lagoa, praia de Jacuma, Muriu, Barra de Maxaranguape, Cabo de São Roque e seu charmoso Farol, e ainda, as belezas naturais das praias de Maracajau, pititinga, zumbi, Rio do Fogo, Praia de Carnaubinha ( pertencente a Touros e onde está localizado o resort Vila Gale de Touros, que fortalece o turismo Potiguar ), citamos ainda, a bela praia de perobas, e a encantadora e sensacional praia de touros, com destaque para o Farol do Calcanhar, um dos maiores da América Latina, ressaltamos também a encantadora Praia de São Miguel do Gostoso, com toda sua rica gastronomia  e excelente Infraestrutura turística, incluindo ótimas pousadas, condomínios, hotéis, chalés e conceituados restaurantes,  bem como, extraordinário local para a prática do esporte aquático denominado "Kitesurf", destacamos ainda a vizinha Praia do Marco com seu legado histórico e cultural relevante.

          Realçamos ainda no Litoral Norte Potiguar, a "Costa Branca", que vai de Macau até Tibau em Mossoró, passando por relevantes  pontos turísticos como: Praia de Galinhos, Grossos, Areia Branca, As Dunas do Rosado, Ponta do Mel, Upanema, São Cristóvão e a bela orla de Tibau, com uma plêiade de  memoráveis  veranistas, uma espetacular infraestrutura turística, e agora, um acontecimento transcorrido no final de janeiro de 2026 que revolucionou o turismo cultural daquela região, nos reportamos a "FLITIBAU"(Primeiro Festival Literário de Tibau), que temos certeza veio para ficar e fazer parte do calendário  turístico, cultural e artístico daquele importante polo da Costa  Branca Potiguar.   

     Dando prosseguimento a viagem turística Potiguar, encontramos o Turismo Religioso, principalmente  na cidade de Santa Cruz, e o Santuário de Santa Rita de Cássia,  que está na iminência de receber o funcionamento pleno do tão aguardado "Teleférico ",é público e notório que o potencial turístico de santa     cruz cresceu com a  construção desta grandiosa Estátua de Santa Rita de Cássia,  que é a maior imagem  católica  do mundo com 56 metros de altura. Destacamos também no turismo religioso potiguar a importância do Santuário da Nossa Senhora dos Impossíveis na Serra do Lima em Patu(RN ), e recentemente foi inaugurado uma grande escultura de Santa Luzia, no Museu do Sertao em Mossoró, notadamente na comunidade rural de Alagoinha, e que tem a frente seu proprietário  e curador, professor e escritor Benedito Vasconcelos Mendes.

      Agora   vamos retratar um pouco as belas e exuberantes Serras Potiguares, com destaque para as serras de Lagoa Nova, Cerro Cora, Serra de São Bento, Serra de Martins, Portalegre, Monte das Gameleiras, Patu, Serra de João do Vale (Jucurutu) e região de Passa e Fica(Pedra da Boca) e o ponto mais alto que é a Serra do Coqueiro, no Município de Venha Ver,  com 868 metros, todas serras elencadas com belezas indescritíveis.

          Merece destaque também no Turismo Potiguar o "Seridó Geoparque Mundial ", que foi reconhecido pela UNESCO como um Patrimônio Natural e Cultural, engrandecendo o turismo daquela região, reconhecidamente nos Municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Cora, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas.

       Observamos também no Turismo Potiguar a importância do "Sitio Arqueológico Lajedo da Soledade", no município de Apodi(RN ), que é um conjunto de fendas e grutas formadas por rocha calcária, com pinturas rupestres que possuem entre 3000 a 10000 anos de idade. Faz - se mister destacar também que em Apodi encontramos o famoso Museu do Índio, um relevante equipamento turístico, histórico e cultural que preserva a identidade e reúne artefatos de grupos indígenas que viveram e vivem em Apodi e outras regiões do Estado do RN. Na circunvizinhança encontramos os municípios de Severiano  Melo e Itaú, que são conhecidos como a "Terra do Caju"...e possuem uma forte tradição  na produção de castanha de caju e doces derivados, que fortalece a gastronomia Potiguar gerando e agregando um fator de desenvolvimento ao turismo daquela região, como acontece em outras regiões do nosso Estado, com a produção do Pastel de Tangará, a Ginga com Tapioca da Redinha, o grude de Extremoz, e Mossoró, que é o coração da maior região produtora e exportadora de melão do Brasil, impulsionando o turismo de negócios e eventos técnicos, dentre outros atrativos gastronômicos que são motores econômicos que desenvolvem o turismo Potiguar e são fontes motivadoras de viagens pelo mundo. 

         Portanto, o Rio Grande do Norte é um Estado com inúmeras potencialidades turísticas, em todas as regiões, desde os verdes canaviais de Ceará Mirim, que também tem o grandioso Museu do Cinema, o Turismo Rural, passando pelo museu da Shelita em Currais Novos, Barragens, lagoas, passeio de barco no Rio Potengi, o Teatro Alberto Maranhão, situado no bairro histórico da Ribeira em Natal e também o Teatro Sandoval Wanderley e ainda o Mercado do Peixe no bairro das Rocas na capital potiguar, etc.

        Por último, destacamos que o Estado Potiguar é um celeiro de imensas aptidões turísticas em todos os seus polos: Costa das Dunas, Costa Branca, Polo Seridó, Polo Agreste/Trairi e Polo Serrano, ou seja, dos Engenhos do Vale do Ceará Mirim, no Turismo Rural, no Turismo de Aventuras, no Turismo Religioso, no Cultural, as serras, nas belas faixas litorâneas, nos museus e no contexto geral aqui apresentado, encontramos no TURISMO uma INDÚSTRIA SEM CHAMINÉ  viva e pujante que reflete positivamente na Economia Potiguar.

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Autor: Magnus Regius, Escritor, Advogado, Conciliador e Ex-Diretor da Associação de Pousadas e Chalés do Litoral Potiguar.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 



Cartas de Cotovelo - Carnaverão 2026-Fev.

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, veranista

               

Todos os veraneios em Cotovelo costumo escrever as minhas “Cartas”, dando conta dos acontecimentos do cotidiano. Este ano, contudo, as coisas foram diferentes e sequer levei o meu computador, limitando-me a rascunhar alguma coisa para imprimir ao chegar em Natal.

                A propósito disso, ao tentar rascunhar algum texto senti o peso da dificuldade de saúde que não me permitiu escrever, participar dos jogos caseiros e até de descer à praia em nenhum momento do veraneio e, da mesma forma, nos dias de Carnaval que, para mim, foram todos de “Quarta-Feira de Cinzas”.

Não vi nenhum dos meus amigos, não visitei os confrades da PROMOVEC, sequer compareci à passagem do Bloco da Cotovelada. Logo na segunda-feira retornei a Natal, com profunda decepção e constrangimento para procurar ajuda médica.

                Em Natal, cerquei-me do computador e fiz uma limpeza em papéis colocados em seu redor e encontrei os já referidos rascunhos e anotações, a maioria já publicados no Blog do Miranda Gomes. Alguns, no entanto, não localizei publicação e vou transcrevê-los, aqui e agora.

                Com o título de “Desafio”, escrevi:

Nossa vida caminha em águas, nem sempre serenas ou ambientes verdejantes. Por mais que trabalhe para evitar os percalços, sempre aparecem as pedras no caminho. Esse moído de prosa se nos oferece por algo, possivelmente trivial para as pessoas, mas que, em mim, pessoalmente, se apresenta como desafio. O fato é que, para aplacar a tristeza e solidão que me perseguem desde algum tempo, debruço-me na prancheta para fazer alguma pintura, pelo que já construí um acervo considerável, que ocupa todos os espaços do meu porto-solidão e, por isso, já estou ultimando um ateliê que os abrigue com mais dignidade. Estou, quando a disposição me visita, completando o livro das minhas memórias como testemunha do tempo vivido e, para isso, já pedi socorro aos colegas escritores Thiago Gonzaga, Aluísio Azevedo e Osair Vasconcelos para a necessária formatação, cujo lançamento, pretendo realizar através de Abimael Silva [Sebo Vermelho] sozinho, ou com coeditores, ao mesmo tempo que uma exposição das telas, que deverão ganhar novo destino. O lado emocional guardarei comigo no quarto de exílio, de meditação e solidão, com a sombra do que antes ali havia da minha produção, tal qual as fotografias dos familiares e amigos e, certamente da minha sempre lembrada Therezinha, até que outras retomem o mesmo lugar - se a velhice permitir esse feito. Este é o novo desafio. A vida depende de luta e de coragem para vencer o caminhar. Enquanto isso, Cotovelo ficará como uma fuga da realidade, uma forma de escape das mazelas que vão aparecendo, tolhendo as minhas energias.

                Outros rascunhos vou aproveitando no livro, onde couber, lembrando uma anotação que encontrei – não sei se é minha ou de algum prefácio que tenha feito, mas é interessante repetir: Há livros que se encerram com a publicação, e há livros que, como um rio, continuam.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

               

 

 O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

A Justiça ficou em “chamas” depois que o ministro Marco Aurélio Melo mandou soltar o mandante do assassinato da americana Dorothy, lá no Pará. Outro “homem errado” é o Dias Toffoly, aquele do “pacto sinistro” como verdadeiro “advogado do diabo” do mensalão para depois ser ministro do STJ e viver a “tortura do silêncio” por não arguir sua suspeição. Que horror! O núcleo operacional do mensalão começa a ser alforriado. Ricardo Lewandowski já começou a largada das “grandes manobras”, não condenando o deputado federal João Paulo Cunha e Marcos Valério. A lei propriamente dita é um “brinquedo proibido”. “A maior história de todos os tempos” já narrada no Supremo está fazendo o povo brasileiro enxergar o “horizonte perdido” de suas crenças.
Apenas o poder de mando e a vaidade pífia das compensações interessam. Pela “janela indiscreta”, dá pra ver o “crepúsculo dos deuses”. Certa vez, a presidente Dilma Rousseff recebeu o título, não sei por quem outorgado, da terceira mulher mais poderosa do mundo. Ora bolas, em qualquer pais “a felicidade não se compra”. Seria poderosa sim, se a saúde e as universidades públicas não estivessem sucateadas, faltando remédios. Pelas drogas nas ruas “disca-se M para matar” ou quando não, um “corpo que cai”, é sempre um “terceiro tiro” que derruba um inocente. Nesse “interlúdio”, a “dama oculta” não exibe o seu poderio para controlar esse “inferno dezessete”. E haja “psicose” de crack e “pacto de sangue” ocupando as ruas e avenidas.
Enquanto isso, a campanha eleitoral do Rio Grande do Norte ganhou o desencanto dos eleitores. A maior “novidade do front” está sendo “a grande ilusão”, semelhante às “noites de Cabíria” ou ao delírio de “quanto mais quente melhor”. Trouxeram para as “luzes da ribalta” e da discussão pública o aborto e o homossexualismo, temas que já integram a legislação nacional com decisões recentes dos tribunais superiores. Como se na “roda da fortuna” da cidade do Natal não existissem problemas estruturais: ruas esburacadas, saúde derrubada, desemprego, trânsito estrangulado, educação descompassada, insegurança em “eclipse” e somente o “sol por testemunha”. Vale dizer, para concluir, que “por ternura também se mata” em Natal, que vive fase “sem lei e sem alma”, apenas prevalecendo o “estigma da crueldade” entre “pistoleiros do entardecer”.
Ficha suja, ficha limpa, tanto faz uma como a outra, pois longe de se oporem, se harmonizam e se entrelaçam. De nada adianta julgar, pois somente a vontade é lei. Neste “céu amarelo” mandam as “consciências mortas” desde o “tempo das diligências”. O “testemunho de acusação” morreu no processo de “Kafka”. Quem diabo inventou essa lei confusa, complexa, contraditória, opaca, empírica e ainda por cima onomatopaica e que vai morrer amanhã de inanição nas mãos dos próprios julgadores? Jamais ela se transformará na “árvore dos enforcados”. Também não chegará o tempo para o seu “sangue semear a terra” de probidade e lisura com o trato da coisa pública. E viva a liberdade dos “galantes aventureiros” na “montanha de sete abrutes”.
Nota do autor: Este texto foi elaborado com fulcro nos títulos dos melhores filmes da sétima arte (aspeados) que retratam os dramas, as comédias e as tragédias da vida comum. Afinal, a política e a justiça, às vezes, neste país, não são obras de ficção? Viva ao cinema!!!

(*) Escritor.

 POUCAS E BOAS  CARNAVALESCAS 


Valério Mesquita

01) O deputado Ricardo Mota observador atento da cena e espirituoso como sempre, certa vez,  retornando a Natal após passar o Carnaval em São Paulo, foi indagado se havia assistido o desfile do Salgueiro onde desfilaram Garibaldi e Vilma Maia. Motinha, sem perder a calma, gracejou sem pestanejar: “Vi... Lampião e Maria Bonita...”. 

02) Uma das figuras significativas e populares do carnaval de Macaíba não poderia faltar a essa galeria: José Batata. Zé Batata, já falecido, era eletricista da Cosern. Dos anos sessenta aos noventa animou a folia de rua com a sua tribo de índios, da qual era o cacique e senhor de todos as pajelanças. Gostava de exagerar nos adornos até mesmo fora do tríduo momesco, exibindo uma enorme aranha preta no peito, mesmo vestido com a farda do trabalho. Batata era também um boêmio consumidor do conhaque de Alcatrão de São João da Barra, néctar dos índios civilizados. Certa vez, foi escalado para cortar a energia elétrica da Fazenda Arvoredo, propriedade de Leonel Mesquita. Era o governo de Monsenhor Walfredo, cuja diretoria da estatal não prezava muito os inadim-plentes com o consumo. Zé Batata conhecia bem o temperamento do dono de Arvoredo e por isso pediu sua dispensa da missão. “Ordem é ordem”, protestou o chefe do escritório local da Cosern. “Por que tu não “vai”?”, ponderou Batata, que nessa hora não tinha nada de índio besta. E aí lá se foi Zé, com um acompanhante para segurar a escada. Quando já estava no topo do poste e olhou para baixo, viu Leonel Mesquita de revólver em punho, ameaçar: ”Desça já, seu f.d.p., ou atiro nas suas pernas!!”. “Pode deixar comigo, Seu Leonel, é ligeirinho, ligeirinho”. Já “aterrissado” de nada adiantaram as suas justificativas. Zé Batata retornou com um sermão de Leonel de que aquilo era perseguição política. Está escrito: Cara pálida nunca se entendeu mesmo com pele vermelha.

03) Outra figura carnavalesca era o saudoso amigo  Diógenes Correia de Almeida. Ele era um carnavalesco atípico, solitário e original. Vestia uma quase sumária roupa feminina para exibir as suas musculosas pernas, com todos os balagandães femininos: seios postiços, batom, rouge, touca e sandálias. O seu passe era disputado pelas Escolas de Samba como destaque nos desfiles. Acabava o carnaval, Diógenes retornava ao trabalho da sua destilaria no fabrico de zinebras, aguardentes, conhaque e tudo o mais que embriaga e faz cair. Entre os anos 50 e 60 foi vereador e protagonista político de inúmeras peripécias. E como tal, foi perseguido pelos donos do poder pela desfaçatez e esperteza de enganá-los como oposicionista, principalmente nas eleições para presidência da Câmara. Dele eu posso dizer o seguinte: Diógenes, que tantos homens foi, na pluralidade de suas dimensões caracterológicas, em mim e em muitos ficou a imagem do folião inigualável, primeiro e único na coragem de se exibir, por tantos anos, vestido de mulher para espanto de uma sociedade reacionária. 

04) Natal boêmia dos anos cinqüenta. Natal lírica que se reunia toda no Grande Ponto. A história é desse tempo. Era carnaval no reinado do inesquecível Severino Galvão, amigo de Luis de Barros e Roberto Freire. O saudoso amigo e compositor Dosinho lançava os seus últimos sucessos carnavalescos. E a animação tomava conta da capital que exportava folia. Tanto assim, que os jornais anunciaram a visita do Rei Momo, primeiro e único Severino Galvão, à capital do Oeste – Mossoró, levando toda a sua corte. Não podia haver notícia melhor para o estreitamento das relações entre Natal e Mossoró, pois andavam tensas por causa das estórias que os maledicentes inventavam com os mossoroenses. Tudo pronto, transporte providenciado, discurso afiado do monarca nos trinques, parte a caravana real com confete e serpentina. Mas, em todo reino que se preza, sempre há um vilão à espreita que desmancha prazer e ameaça a coroa. O folião de longo curso Roberto Bezerra Freire resolve bagunçar o coreto e a viagem. Irreverente e brincalhão o engenheiro natalense enviou telegramas urgentes a Mossoró para o prefeito e o delegado de Polícia alertando que “O Rei Momo que está chegando aí é um impostor”. “Inclusive”, prossegue o teor telegráfico, “ele vai insultar Mossoró urinando  na Praça Rodolfo Fernandes”. Continua: “Trata-se individuo perigoso e todo cuidado é pouco. Saudações Roberto Freire”. Ora, o mossoroense habituado, desde a resistência a Lampião, a reagir a provocação, entrou em estado de alerta para não dizer de “sítio”. A chegada que se prenunciava triunfante foi tensa e hostil com todo o destacamento local formado para repelir os embusteiros. Detido o ônibus real do soberano Severino Galvão, ante a sua incontida perplexidade, não precisa dizer que a rainha e os súditos permaneceram prisioneiros no coletivo enquanto o rei momo era conduzido à delegacia para dar explicações sobre a inditosa viagem e o telegrama delator. Só depois de muita negociação diplomática foram liberados. Não havia Telern ainda e o discurso real foi transformado em desculpas intermináveis ante o lamentável incidente que abalou as ligações entre os dois povos.




(*) Escritor

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 

Cachaça, história, elemento cultural

Padre João Medeiros Filho

Pode parecer insólito um clérigo abstêmio abordar tal assunto. O tema chamou minha atenção, quando criança. Presenciava mamãe discutir com papai por conta da embriaguez de alguns operários. Ele simplesmente respondia: “É a única alegria deles, ao terminar a semana, neste fim de mundo (Jucurutu).” Minha curiosidade foi aumentando. Anos depois, como servidor público, recebi do MEC a incumbência de verificar a possibilidade da implantação de cursos de nível superior nessa área. Passei então a ter sobre o assunto um olhar mais técnico, cultural e científico. Segundo os evangelistas, Cristo transformou a água em vinho e o transubstanciou em alimento espiritual (Jo 2, 1-12; 6, 55-57). Admiro a autenticidade de Padre Gleiber Dantas de Melo degustador da bebida, segundo a cultura e tradição seridoense.” As narrativas neotestamentárias deixam a entender que Jesus apreciava um bom vinho. Seus adversários O atacavam, chamando-O de “comilão e beberrão” (Mt 11, 19).

Outro motivo levou-me ao estudo do destilado. Foi o uso medicinal por Monsenhor Walfredo Gurgel, diretor do Colégio Diocesano de Caicó (RN). O cardiologista lhe prescreveu uma dose diária de uísque. Como era caro, o eclesiástico solicitou comutá-lo por cachaça. Um amigo e político paraibano o presenteava com garrafas da famosa “Rainha”, oriunda de Bananeiras (PB). O sacerdote visitava à noite sua genitora “Mãe Quininha”, residente na mesma cidade. Na ocasião reunia-se com amigos, na calçada da residência materna. Os alunos do educandário aproveitavam esse momento para se apropriarem de algumas garrafas. Notando a falta, o padre passou a guardar a bebida na casa de sua genitora e comigo. Deve-se ao Monsenhor, por sugestão de Dr. Manoel de Medeiros Brito, a introdução de um trago da bebida no cardápio dos almoços nas reuniões governamentais da Sudene.

O Instituto Brasileiro da Cachaça-IBRAC registra que ela foi o primeiro destilado das Américas, fabricado em 1516 na Ilha de Itamaracá (PE). Entretanto, segundo o eminente pesquisador Câmara Cascudo, autor da obra “Prelúdio da Cachaça”, passou a ser nacionalmente consumida em 1532. Surgiu nos engenhos de açúcar do litoral nordestino, obtido da fermentação e destilação do caldo de cana.

Produzida exclusivamente no Brasil, é considerada bebida nacional. Provém do mosto da cana, com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume a 20°C, podendo incluir até 6 g/L de açúcares em sacarose. Diferente da aguardente (oriunda de fontes variadas), ela provém apenas do caldo fresco de cana, gozando de proteção legal, desde 1951. Tampouco trata-se de rum, que utiliza outras matérias primas. Estudiosos elencam cinco tipos principais de cachaça: a) prata/branca, quando a bebida não é envelhecida, armazenada em inox, transparente, com aroma e sabor mais intensos de cana; b) ouro/amarelada, envelhecida até um ano em madeiras (imburana, carvalho, bálsamo etc.), possuindo cor dourada e notas amadeiradas; c) premium, com envelhecimento de um a dois anos. É mais suave e aromática; d) superpremium, envelhecida de dois a três anos, com equilíbrio de sabores e) reserva especial/blend, envelhecimento superior a três anos. Existe a orgânica, produzida sem fertilizantes químicos ou agrotóxicos no cultivo da cana-de-açúcar, seguindo padrões sustentáveis em toda a cadeia produtiva, do plantio ao envase.

De acordo com o Anuário da Cachaça, de 2025, o Brasil conta com 1226 produtores, espalhados em vários estados. Minas Gerais é o maior fabricante com 501 estabelecimentos. Isso permite alta competividade na produção, aumento de comercialização e aprimoramento na fabricação. Em 2024, foram envasilhados quase dois bilhões de litros da bebida, contabilizando sete mil marcas. Parte da produção destina-se ao exterior. Em 2025, o comércio no Brasil chegou a movimentar perto de 20 bilhões de reais. Algumas garrafas têm alto preço: a) Weber Haus Extra Premium (RS), edição limitada, ultrapassando R$ 15.000; b) Havana 75 anos (MG) custa em torno de R$ 11.000. Vale Verde 18 anos (MG) é vendida por RS 7.500. Alguns brasileiros (sobretudo os “nouveaux riches”) procuram esnobar com destilados importados (por vezes de qualidade duvidosa), menosprezando nossas tradições e valores. Lembrava o apóstolo Paulo a Timóteo: “Não bebas somente água; toma também um gole de vinho, por causa de tuas enfermidades e fraquezas frequentes” (1Tm 5, 23).

 UM CERTO NATAL



Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Manhã luminosa de véspera de Natal. São 07:30. Retomo a rotina diária da ida ao trabalho. Ligo a FM preferida das canções que vestem minhas lembranças. Procuro me investir do espírito natalino. “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso era a primeira a “desfilar na passarela musical”, como anunciava o empolgado locutor. Dois toques no vidro elétrico do carro. Era uma criança saída do presépio mendigo do canteiro da avenida. A face triste denunciava o fome zero. Estendia a mão, sem falar, um gesto de súplica, sob os acordes do “Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Relutei. Se der, eu educo um pedinte. Segui. O sinal abriu e o verde me alfinetou que é Natal. Parei mais à frente e acenei. Havia capitulado diante da grandeza do Natal. Auxiliei e prossegui.

Disse para me justificar, ainda, que a tarefa não era só do governo. O comércio da Av. Prudente de Morais ainda parecia adormecido. No ponto de coletivos uma morena de calça jeans, coxas grossas, roubava a cena. Admirei e soltei a frase do meu repertório: pronta para o desperdício! As acácias amarelas ornamentavam o Natal dos meus sonhos. O rádio tocava a Ave Maria em ritmo de samba. Considerei uma heresia. Mas não pude conter a memória fulminante do dia em que meu pai morreu. Reconstituí a cena da saída do féretro da Igreja Matriz de Macaíba, quando o vigário homenageou o devoto de Nossa Senhora da Conceição com a imortal melodia de Gounod. Mais um semáforo, com licença da palavra, do Detran. Aliás, os sinais de trânsito nesta cidade se transformaram em sinais da cruz. Em cada um se instalam os miseráveis que saem de seus guetos de perto e da distância. Crucificados pela fome, quando não pela pedagogia oficial que os ensina a pedir. Cadê aquele coral da TV que solta gritinhos espasmódicos: “fome não, fome não, fome não, fome não!”. Pensei, olhei, não vi ninguém. Logo na véspera do Natal crucificaram o Cristo.

A voz de Isaurinha Garcia rompeu a tristeza cantando o samba sacudido: “E daí, e daí?” Estava perto do destino. Ao lado, a Maternidade Januário Cicco exibia esparramados adornos natalinos. Panos vermelhos como alcatifas desciam de todas as janelas, como se simbolizassem o sangue vertido pelas parturientes no exercício do direito de nascer, refleti comigo mesmo criando alegorias. Do outro lado percebi um enxame de flanelinhas perturbando os pára-brisas. Amanhã serão mais. Depois, farão a revolução pelo usufruto dos carros. Enfim, cheguei ao estacionamento do edifício. Ao saltar, desceu-me a sensação de que havia presenciado dois Natais, em poucos minutos.

(*) Crônica publicada no livro “Inquietudes”

(**) Escritor.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 TACADAS DE MESTRES

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

01) Há alguns anos, fui ao lançamento do livro do jornalista Paulo Augusto sobre “Zé Areia, o bufão de Natal”. Ótima iniciativa do editor Abimael Silva. Paulo Augusto com a sua verve e estilo inconfundível narra fatos pitorescos e incríveis idos e vividos pela figura de Zé Areia, lenda e legenda do humor natalense. Pesquisou e reuniu em livro tudo o que foi e representou esse “sábio” e sabichão chapliniano das Rocas, Ribeira e Cidade Alta. Esticando a conversa, Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, lembrou que Zé Areia tinha o hábito de entrar de fininho na casa de Câmara Cascudo, na Junqueira Aires, só para surpreendê-lo de modo bizarro ou atípico. Calçar as meias do mestre, quando se achava sentado ao birô, de pijama, datilografando seus trabalhos. Com certeza, Zé Areia, com o gesto, incluía-se, na sua “acta diurna”.

02) Certa vez, Zé Areia, cortava o cabelo da turma da penitenciária “João Chaves”, ali onde hoje é o Centro de Turismo, em Petrópolis. Trabalho árduo e perigoso. Zé suava às bicas com medo dos erros de cálculo. Baracho, Pé Seco, Lolô, entre outros lampiônicos, eram mais terríveis do que os da chuva de balas no país de Mossoró. Certo dia, casualmente, encontrou-se com o monsenhor e governador Walfredo Gurgel. Incontinenti, pediu clemência e ingressou oficialmente com petitório incomum: “Padre, me aposente logo dali que eu lhe prometo só viver dois anos!”.

03) Dos arquivos implacáveis do saudoso tabelião Raimundo Barros Cavalcante, chegou-me essa história narrada pelo seu filho Paulinho sobre o folclórico Zé Areia. Homem pobre, Zé sempre recorria aos amigos pedindo ajudas providenciais. No cartório de Raimundo ele era “mensalista”. Todo fim de mês a tabeliã substituta Dione Macêdo estava autorizada a proceder o pagamento. Zé Areia chegava de mansinho, sentava, aguardava, recebia e ia embora. Mas, em dezembro, ele recebeu a ajuda e permaneceu sentado e calado. Dione curiosa, perguntou: “Seu José, o que está faltando?”. Zé Areia com aquela seriedade teatral responde sem perder a calma: “O décimo terceiro”. Raimundo, consultado, mandou pagar imediatamente. Zé Areia havia ingressado solenemente na folha salarial do cartório.

04) Lembrei-me da figura poética e etílica do grande Newton Navarro, mergulhando nas madrugadas profundas das Rocas, Quintas, Canto do Mangue, sem se aguentar mais em pé, sem companhia, sem proteção, sem táxi, exposto ao perigo, naquele baixo clero. De repente, impetra um inaudito habeas corpus que só aos poetas do seu porte é dado o privilégio: chamou o carro da polícia para deixá-lo em casa. E sempre foi obedecido. Era a proteção do estado à incolumidade física e intelectual do poeta da cidade.

05) Natal, certa vez, foi prestigiada e lisonjeada com a visita do ilustre deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva. Para quem não o conhece como tal, é melhor chamá-lo pelo codinome: “Tiririca”. Um repórter logo indagou: “Deputado, o que acha do novo “emprego?”. Tiririca, com o habitual sorriso abilolado: “É fantártico!”. “Dizem”, continuou o jornalista, “que lá trabalha-se pouco. Como é o dia a dia por lá?”. Tiririca resumiu: “É ‘fantártico’”. O inquiridor não se satisfez: “O que achou do novo aumento salarial dos deputados três dias depois que assumiu?”. O parlamentar repetiu: “Fantártico!”. O entrevistador aborreceu-se: “O senhor só fala fantástico?”. Tiririca, então explicou: “Ora, a Globo passa a noite do domingo, dizendo que é “fantártico”, “fantártico”, ninguém se irrita. Às vezes nem é “fantártico” como lá em Brasília”. Para finalizar, Tiririca encurtou a conversa: “Obrigado. A entrevista foi ‘fantártica’”. E pegou o beco.


(*) Escritor

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 Marcas de arrogância e prepotência 

Padre João Medeiros Filho 

O mundo caminha na contramão da doutrina que Cristo transmitiu a seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde.” (Mt 11, 29). Mansidão e humildade, virtudes destacadas pelo Mestre, opõem-se sempre a qualquer tipo de arrogância e prepotência. Durante sua vida pública, o Filho de Deus deparou-se com a bazófia dos doutores da lei, escribas e fariseus. Procurou chamar a atenção de seus seguidores para o descaso e abuso das autoridades de seu tempo. Diante da presunção deles – uma das faces da prepotência – chamou-os de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27). Jesus sempre condenou a atitude do dedo em riste, criticar levianamente e acusar sem provas, culpar sem motivos e destruir sem diálogo. Este comportamento domina o Brasil hodierno. Cristo contrapôs sua mensagem a tais atitudes. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5, 5). A lógica cristã está delineada no Evangelho: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Mt 23, 12). Vale lembrar um antigo ritual da coroação do papa. Ao colocar a tiara, símbolo do poder pontifício, um dos cardeais pronunciava estas palavras: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, a glória do mundo é transitória). Etimologicamente, a palavra arrogância deriva do verbo latino “adrogare”, que significa exigir para si. No Império Romano, era utilizada para definir alguém que se considerava no direito de impor um reconhecimento que não lhe cabia. Arrogantes de diferentes tipos estão hoje em alta na vida pública e nas redes sociais. Trata-se de atribuir a si poderes ou privilégios, impondo uma suposta superioridade. É manifestação de narcisismo, deslumbramento decorrente de algum frágil predicado ou ausência deste. Segundo os estudiosos da mente humana, trata-se do sentimento de quem se acredita melhor e mais capaz – moral, religiosa, social, política ou intelectualmente – do que os seussemelhantes. Resultado disso é o desprezo em relação aos outros, vaidade e soberba ostensivas. É típico do prepotente acreditar-se dono absoluto da verdade, demonstrando supremacia sobre os demais. O tribuno romano Marco Túlio Cícero afirmou peremptoriamente: “Quanto mais medíocre, mais arrogante. O sábio não impõe.” O Salvador sempre se mostrara despretensioso e propositivo. Quanto mais santidade e sabedoria, mais pureza e humildade, ou seja, consciência de suas limitações. Os soberbos vestem a túnica da empáfia para ocultar sua ilusão e, por vezes, a própria mediocridade. A arrogância embriaga e ilude, faz perder a noção e a lucidez da condição humana. É sempre oportuna a orientação do apóstolo Paulo: “Nada façais por contenda ou vanglória, mas com humildade. Cada um considere os outros como superiores a si mesmo.” (Fl 2, 3). A gênese da arrogância e de seus equivalentes, não raro, está nos recalques e frustrações que se procuram esconder nos gestos e palavras intransigentes. O presunçoso ameaça, procura humilhar, agride e persegue. É um obcecado por destruição. Sente prazer mórbido em descontruir quem o desagrada. Em geral, guarda uma amargura e um azedume interiores, buscando atingir seu semelhante com o ódio ou desprezo. Geralmente, ignora a polidez, educação e urbanidade. As pessoas pedantes tendem a ser ácidas e manter relações tóxicas. A ausência da paz dissemina um clima de negatividade. São pessoas inseguras, dominadas pelo medo de ser descobertas em sua pobreza interior. A arrogância e seus congêneres têm levado muitos a desvarios em pronunciamentos inconsequentes que, não obstante, ecoam fortemente. O nível de morbidez da sociedade é tão expressivo que narrativas e discursos equivocados, marcados de petulância e sofismas, têm mais receptividade e adesão do que as perspectivas construtivas. No entanto, somente estas são capazes de desencadear uma qualificada configuração sociopolítica, religiosa e emocional. A prepotência hospeda discursos negativos e deletérios, sem contribuir para a solução dos problemas que afligem a humanidade. A prepotência é a máscara dos fracos. As posturas de suposta autossuficiência e a ilusão de ocupar uma posição de superioridade são confrontadas pela implacável realidade: quem é o ser humano, habitante deste “pálido ponto azul”, que é o planeta terra, na imensidão do Universo? Assim aconselha a Sagrada Escritura: “A soberba acaba por trazer humilhação, enquanto a humildade leva-nos à glorificação!” (Pv 29, 23).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 O OCASO DO HERÓI


Valério Mesquita

mesquita.valerio@gmail.com


"Herói por Acaso" é o título da reportagem do jornalista Luiz Gonzaga Cortez publicada certa vez, no Diário de Natal. Nela o brilhante repórter e pesquisador traça um perfil burlesco e deformado do soldado Luiz Gonzaga de Souza, com fundamento nas declarações do servidor público aposentado, André Batista de 77 anos. O soldado Luiz Gonzaga de Souza foi considerado herói pela Polícia Militar após o fracasso da Intentona Comunista no Rio Grande do Norte, em 1935. O relato demolidor de Cortez, acentua que esse "herói" foi achado "no meio da lama do Passo da Pátria, num mangue do Rio Potengi, nos fundos do quartel da Polícia Militar". "Era doido e andava descalço, unhas das mãos e pés grandes e sujos".

Não desejo contestar as observações do quase octogenário informante (André Batista), que alegou haver conhecido o soldado Luiz Gonzaga nem, muito menos, sou pesquisador para refutar ou polemizar com um estudioso do assunto, do quilate do jornalista Luiz Gonzaga Cortez, que publicou um notável trabalho sobre a campanha integralista no Rio Grande do Norte. Mas, me permito fazer algumas reflexões. Quantos "heróis" duvidosos não estão, hoje, incorporados a história de países e instituições pelo mundo afora? Zapata, Pancho Villa, Jesse James, Stalin, Hitler, Perón, Carlos Lamarca, Che Guevara, Carlos Prestes, Evita, Macunaíma (ficção), Lampião, Antonio Conselheiro, etc., podem todos ser "canonizados"? O soldado Luiz Gonzaga de Souza, "horripilante", "lobisomem", "cabeludo", "doido", tornou-se o anti-herói, o Quasimodo fardado conforme os fartos e corrosivos adjetivos do seu contemporâneo André Batista.

Luiz Gonzaga podia não ter a beleza física de um Tarcísio Meira, a coragem de um padre Miguelinho, a riqueza de um Roberto Marinho, mas era um herói pé-de-chinelo, papa-jerimum, caboré. Que herói maior se poderia exigir para uma Intentona Comunista fajuta e inconsequente como aquela de 1935, que só durou horas?

Gonzaga morto nasceu o símbolo. E qual o país que não reverencia símbolos? Qual a igreja, partido político, poderes Executivo, Legislativo e Judiciário que não cultuam a simbologia dos seus mitos, santos e pecadores. Por que um sem-terra, um sem-teto, um catador de lixo, um pescador do mangue, um policial sem salário, um mendigo não pode ser um herói? Se não temos tantos heróis olímpicos como Tamandaré, Barroso, Osório e outros, temos aquele que a condição humana revelou ressuscitado várias vezes pela bala perdida que o legitimou para a posteridade.

A verdade histórica é uma fina lâmina cortante, que embora em andrajos tenha deixado a farda de Luiz Gonzaga, nem por isso enodoa o respeito da Polícia Militar do Rio Grande do Norte em homenagear a humanidade comum do seu mais proletário e desvalido combatente que sintetizou com a morte, o fim de um movimento golpista sem passado e sem futuro. Afinal, o que é um herói?

 

(*) Escritor


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 Solitude e solidão

Padre João Medeiros Filho

Psicólogos e místicos distinguem solitude e solidão. Esta é o estado de espírito, quando alguém se sente vazio, sozinho e desconectado, mesmo em meio à multidão. Trata-se de experiência desconfortável e até dolorosa. Enquanto, a solitude é consentida e calmante, ao se ficar só. Ela oferece uma escolha voluntária para autoconhecimento, reflexão e recarga de energias, que promovem crescimento e bem-estar. Tal condição de vida é escolhida especialmente por pessoas contemplativas, no caso dos monges, eremitas e anacoretas. A diferença fundamental está na qualidade da conexão consigo mesmo; frágil na solidão, profunda e nutritiva na solitude. Viver ou decidir estar sozinho nem sempre é sinal de abandono. Às vezes, é plenitude. Poderá ser um espaço ou momento, no qual o pensamento floresce e o silêncio se transforma em sabedoria. Aprender a apreciar a própria companhia é uma forma de liberdade. Quem acredita ou confia em si, nunca está realmente só. “Quando você se ama, a solitude se transforma em liberdade”, afirmava Santa Edith Stein.

Para Adélia Prado, “solitude não significa ausência, mas espaço vital de encontro consigo mesmo e o sagrado.” Nela, a alma se manifesta no cotidiano da vulnerabilidade humana e nas contradições da vida, elevando a rotina ao Transcendente. Resulta daí uma comunhão que acolhe tristeza e alegria, carne e espírito. Busca-se a sintonia do íntimo com o universo, aproximação do isolamento e do silêncio para escutar a vida.  A solitude é uma abertura para a verdadeira existência, um tesouro, no qual se pode descobrir a profundidade do ser, a complexidade da vida e a presença de Deus. Tudo isso se manifesta na sensibilidade e no olhar de quem medita. Conhecida é a súplica do salmista: “Olha para mim e tem piedade, Senhor, pois sou pobre e estou sozinho” (Sl 25/24, 16). 

Rainer Maria Rilke, um dos grandes poetas solitudinários, dissera: “As obras de arte nascem do isolamento.” O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que possivelmente o início da solidão humana se encontre no fato de se comparar. Experimentei isso em minha própria carne. Muito jovem e inexperiente fui estudar na Bélgica. Brocoió incurável de Jucurutu, nascido naquela pequena cidade do sertão potiguar, deparei-me com habitantes de tez e cabelos claros, de cultura diversa, amantes da erudição, considerados intelectualizados. Comparei-me com eles. Eu era diferente, introspectivo, de sotaque arrastado do nordeste brasileiro, mais voltado para a oralidade. Não passava de um patinho feio que os colegas discretamente desdenhavam. Raramente, era convidado para ir à casa de algum deles, sendo observado como um ser estranho. A ponto de um professor, ao saber de minha procedência (Jucurutu), perguntar: “De que tribo é você?” Senti-me injuriado e respondi: “Vim de uma tribo menos feroz do que a sua.” 

Foi então, quando me senti solitário. A solidão de ser diferente e inferior. E sofria. Sequer me atrevia a compartilhar meu desapontamento, junto a colegas oriundos de outros países. Parecia-me inútil. Eles não me compreenderiam. E mesmo que entendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive que suportar por algum tempo a minha solidão. As caminhadas pelo deserto da vida me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E descobri buscar aquilo que poderia amenizar um solitário: Sagrada Escritura, silêncio, música, literatura, a beleza da natureza, prece e mística. Deste modo, foi se formando aquele que hoje que sou. A solidão se transformou em solitude. 

Confesso que comecei a crescer, quando abandonei as comparações. Elas nos tornam inferiores, pessimistas, menores. Comparar-se pode ser destrutivo, leva à inveja, ao complexo de inferioridade e à “síndrome do vira-latas.” É preciso aprender a aceitar a dor, dela é possível nascer a beleza. Mas, não é aconselhável aceitar o desconforto da comparação, pois não leva à verdade. Dizia o poeta e teólogo Rubem Alves: “a comparação não é cristã.” Jesus a rejeitou, como se pode verificar na parábola narrada pelo evangelista Mateus (cf. Mt 20, 1-16). Nela, o patrão decidiu pagar o mesmo salário (sem distinção) aos operários da vinha. Se por acaso, sentirmo-nos na solidão, rezemos confiantemente: “Não me abandones jamais, ó Deus de minha salvação” (Sl 27/26,9).


 


São Sebastião, padroeiro de Jucurutu (RN) 

Padre João Medeiros Filho 

No dia 20 de janeiro, celebra-se a festa do mártir São Sebastião. Nas décadas de 1860 e 1870, após a Guerra do Paraguai, um surto de “colera morbus” grassou por vários estados do Brasil. Em decorrência disso, os habitantes da paróquia de Jucurutu fizeram uma promessa: “Se a população não fosse dizimada pela epidemia, pediriam ao bispo para o orago da paróquia ser São Sebastião, ficando, à época, São Miguel como co-patrono”. O arcanjo era uma devoção dos jesuítas, que fundaram o aldeamento, cerca de doze léguas, ao sul da Vila do Assú, conforme informações de Serafim Leite, em sua História da Companhia de Jesus. A mudança ocorreu quando Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, então bispo de Olinda, encontrava-se na prisão, vítima da “Questão Religiosa”. Governava o bispado Padre Sebastião Constantino de Medeiros, oriundo do Sítio Umari, município de Caicó. Posteriormente, esse ilustre sacerdote entrou para a Companhia de Jesus, terminando seus dias em Roma, onde foi professor na Pontifícia Universidade Gregoriana. Sou devotíssimo do santo mártir. Fui batizado, crismado, recebi a primeira Eucaristia e ordenado presbítero na matriz a ele dedicado, situado em minha terra natal. São Sebastião é muito cultuado no Ocidente, inclusive no Brasil. Nasceu em Narbona (sudoeste da França), provavelmente no ano de 256 e, pouco depois, seguiu com os pais para Milão. Ali, cresceu na fé cristã, tornando-se também um respeitado capitão da guarda do imperador romano. À época, não havia liberdade religiosa. Os cristãos eram perseguidos, presos e martirizados. As autoridades não sabiam que Sebastião era um deles. Como tal, conseguiu ajudar muitos prisioneiros, doando roupas, alimentos e animando-os a perseverarem na fé. Converteu ao catolicismo vários detentos. Possuía poderes miraculosos. Seus biógrafos descrevem o caso da cura de uma mulher deficiente auditiva. Vários milagres foram realizados por sua intercessão, mormente quando pestes e calamidades atingiam as cidades da Europa medieval. Com a sua proteção populações inteiras foram poupadas ou salvas de enfermidades. Ao descobrirem que Sebastião era cristão, amarraram-no a uma árvore, feriram-no com flechas e o abandonaram. Sobreviveu aos ferimentos. Santa Irene cuidou dele até ficar curado. Após recobrar a saúde, retornou às ações de caridade, tendo sido novamente preso. Desta vez, o imperador decretou o seu martírio. É exemplo de perseverança e coragem, diante dos obstáculos e provações da vida. Devemos ressaltar seu empenho em fazer o bem anonimamente, aproveitando as circunstâncias para semear alegria, consolo e ânimo junto ao próximo. Tinha consciência de que, uma vez descoberta a sua crença religiosa, ele seria martirizado. Sua autenticidade e capacidade de servir são notáveis e devem ser imitadas. A história mostra-nos que a devoção ao Santo de Narbona está presente em muitas localidades de nosso país. Ao longo dos séculos, é invocado contra a peste, a fome e a guerra. Quando surgiam epidemias e catástrofes, crescia o seu culto. Na zona rural brasileira, foram muitos os votos ao santo mártir, pedindo-lhe proteção contra as secas, que assolam o Nordeste, ao longo dos anos. Santo Ambrósio, bispo de Milão, tecia elogios sobre esse oficial do exército romano. No seu túmulo, em Roma, ergueuse uma basílica, perpetuando seu heroismo e memória. Sua morte deu-se entre 284 e 303, sendo imperador Diocleciano, o qual perseguiu muitos cristãos e sacrificou vários mártires do catolicismo. Sua figura, crivada de flechas, foi imortalizada pelos artistas renascentistas. É esta a imagem que possuímos na iconografia do catolicismo ocidental. São Sebastião é um santo da atualidade. Devemos pedir-lhe ajuda contra a violência cotidiana que faz vítimas indefesas e inocentes. Necessita ser invocado contra a peste hodierna das drogas, ceifando vidas. Nos dias atuais, supliquemos sua proteção contra as perseguições aos cristãos de vários Paises. Urge, pois, pedir sua intercessão contra outros males: mentiras, injustiças, ódio, corrupção, radicalismo, desonestidade intellectual, narrativas e tantos que assolam atualmente a nossa pátria. São Sebastião afirmou, com muita convicção, ao ser interrogado pelo imperador: “Antes de ser oficial do Império Romano, sou filho de Deus e soldado de Cristo. Tais palavras retratam sua personalidade, coragem e fé. Legou-nos preciosos ensinamentos e valores fundamentais. Por seu testemunho e martírio, faznos recordar as palavras do apóstolo Paulo: “Para mim o viver é Cristo.” (Fl 1, 21).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 PASTORADOR DE AURORAS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

A visão de quem passa pelo empório dos Guarapes (Macaíba) testemunha um tipo inexprimível de mistério, grandeza e história, que não se manifestam, apenas, na visibilidade dos olhos. Espelho e sombra nos envolvem totalmente. Reflete a casa perdida da infância de qualquer um de nós, mesmo que distem quase duzentos anos de nascença. As cores da vida vem de dentro. Ao derredor da construção principal, aflora o lirismo vegetal e memórias mil de luar. Diante dos Guarapes paraliso o meu corpo e silêncio a boca, ante a emoção e a paz emblemática onde nascem, depois, todas as palavras. Templário erguido ao comércio, ao labor, a vida, a riqueza, ao capital, nele, somente restando, hoje, a raiz e o cupim, sem jardim, sem teto, gasto em sombras, sem rumor, apenas um eco antigo e longínquo da voz imaginária do grande capataz dos mistérios circundantes: Fabrício Gomes Pedroza.

“Feliz do homem que conhece a terra onde será enterrado”, disse o saudoso Dom Nivaldo Monte, já perto de sua partida e despedida. Ele não tinha nas mãos o acento da desesperança. Reescrevi hoje novo texto sobre os Guarapes movido pela aflição de um vento novo, ressurgente, após a longa noite da burla, do engodo e do humano ressentimento. Segundo os pesquisadores, os técnicos, as prospecções ao redor da área indicam um dominó de ocorrências ainda desconhecidas. Estão invisíveis, dissipadas e espalhadas no ar fino das brumas do rio Jundiaí soprando na paisagem do nunca mais. Queremos vê-la restituída, reerguida, alongada até o antigo cais e a capela, até desfazer todas as incertezas. Tudo, para sentirmos o peso da criação do homem que investiu e inovou a economia de Macaíba e do Rio Grande do Norte.

No esforço criativo de restaurar os Guarapes, congregam-se neste ano da paz de 2026, verdadeira confraria habituada às longas viagens repetidas. Para essa plêiade não interessa equívocos e maus murmúrios. Basta que a lembrança retorne submissa na velha casa que repousa em clarões e longos silêncios. Sobre a história do monumento já falei em textos anteriores. Após os gemidos, resta-me, agora, a alegria de haver achado o caminho. Um outro rumor intemporal já escuto e já me revejo diante de um espelho de sustentação. A porta que abriu não me traz enganos. As primeiras imagens dos Guarapes reconstruído renasceu dessa porta. E logo eu que me achava perdido, volto a perceber que não estou só. Estava exausto de ser enganado. Hoje, consegui a vontade política e a sensibilidade de fazer, dos que estão no poder.

A constelação de todos que se mostram envolvidos na obra constitui o fulgor da partida, do início de uma peleja. Naquela colina se ouvirão, logo mais, vozes diárias entre arcos voltaicos de sua beleza e significado para a história do Rio Grande do Norte. Desde o tempo dos holandeses, do temível Jacob Rabbi, disse-me o geólogo Edgar Ramalho Dantas que os Guarapes e Jundiaí, juntos, desafiam os estudiosos pelo circuito de circunstâncias no chão sagrado dos antepassados, a suscitarem descobertas, grutas, ecos irresignados, águas novas e subterrâneas. Atravessando o rio, vê-se de frente o memorial de Uruaçu, santuário dos mártires e bem perto dali as ruínas de Extremoz. Para trás, o Solar do Ferreiro Torto, já restaurado. Chega-se à conclusão que o entorno de Natal, naquele tempo foi o maior teatro de operações da produção de alimentos, comércio, moldura de dissídios e lobisomens, que somente os Guarapes renascido pode restituir pelo olho e o tino do estudo e da pesquisa, já em campo.

 

 

(*) Escritor.