terça-feira, 9 de junho de 2026



 Festas juninas 

Padre João Medeiros Filho 

Há versões sobre suas origens. Estudiosos afirmam que foram assim denominadas em razão da festa litúrgica de São João Batista, celebrada em junho. Posteriormente anexaram-se Santo Antônio e São Pedro, cujas festividades acontecem igualmente nesse mês. Originalmente, os festejos juninos (corruptela de joaninos) eram uma homenagem a João Batista, “o maior entre os nascidos de mulher” (Mt 11, 11), cujo nascimento teria ocorrido em 24 de junho. Segundo Câmara Cascudo, os festejos chegaram ao Brasil no período colonial, incorporando elementos culturais franceses. Da França, vieram danças caraterísticas da nobreza: as famosas quadrilhas (“quadrilles”). Os fogos de artifício são um legado da China, de onde provém a pólvora. Aos elementos europeus acrescentaram-se traços indígenas e africanos, conferindo às festas características particulares. Os balões surgiram da ideia de que poderiam levar os pedidos dos fiéis a São João. Há quem afirme ser asfestasjuninas oriundas de solenidades pagãs, organizadas para anunciar o solstício de verão europeu. Daí, a fogueira lembrando o sol, contrapondo a escuridão do inverno. Tinha por objetivo homenagear os deuses da natureza e da fertilidade. Para Théo Brandão, “são celebrações populares europeias (destinadas a celebrar a colheita), cristianizadas pelos católicos, homenageando os santos celebrados em junho, acrescidas de elementos culturais indígenas e africanos.” Os elementos aborígenos inculturados são milho e mandioca. A cultura africana legou os ritmos de xote, baião, xaxado, acompanhados por instrumentos como zabumba e triângulo. São típicos destas festanças: bandeirolas coloridas, fogueiras, chapéus de palha, roupas de tipo xadrez e balões. Os folguedos promovem integração social, união das comunidades, valorizando as manifestações populares, refletindo a diversidade regional do país. Na região nordeste predominam comidas de milho e o forró. No sul e sudeste, há uma mistura de estilos, com viola caipira, vinho quente e pinhão. Na região norte, integram-se carimbó e traços amazônicos. A fogueira faz parte dos festejos. Conta-se que nasceu da necessidade de avisar à vizinhança sobre o nascimento de João Batista. Outros sustentam que seu simbolismo decorre das comemorações pagãs que realçavam a claridade no solstício de verão. Tradicionalmente, na festa de Santo Antônio, o formato da fogueira é quadrangular, representando os quatros pontos cardeais e estações do ano. Na fogueira de São Pedro, chefe da Igreja, ela é triangular, lembrando o mistério trinitário sobre o qual se funda o cristianismo. Já na de São João, apresenta-se formando uma espécie de pirâmide, elevando-se para o céu, lembrando o ser humano, “com os pés na terra e olhos voltados para o Infinito”, segundo o poeta Horácio. Para o nordestino a fogueira é sagrada, testemunha de vínculos espirituais. Em torno dela, celebra-se uma espécie de batismo. No ritual, o afilhado roda a fogueira e diz: “São João disse, São Pedro confirmou, que fulano seja meu padrinho (ou madrinha), que Jesus Cristo mandou.” Havia os casamentos ao redor da fogueira, uma maneira de amenizar o concubinato. Como pároco no Seridó, era comum ouvir também a citação desse fato para o apadrinhamento na celebração de batizados. As festas juninas trazem alegria e lazer para muitos. Demonstram que decepções e vilezas sofridas não conseguem eliminar da alma o brilho da vida e o sorriso do semblante. A festa – análoga a um rito que nos retira da rotina – afasta-nos das preocupações ou tristezas, mergulhando-nos naquilo que a existência humana é chamada a ser: solidariedade e comunhão. Festejar é tornar a existência humana valorosa e risonha, cheia de sentido e entusiasmo. E isso é cristão, pois Jesus veio ao mundo “para que todos tenham vida, e a tenham em plenitude” (Jo 10,10).

 CRÔNICA DO ANOITECER

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

A minha mãe faria, dia trinta de maio de 2026, 125 anos de idade. “Meu filho não sinto nenhuma dor. O problema é a vista”, queixava-se com regularidade. Nos últimos trinta dias de vida, teve três internações hospitalares motivadas por sintomas diversos: hipertensão, hipotensão, (isquemia provisória) e um pré-edema, do qual não se restabeleceu. No hospital, comportava-se com rebeldia. Criava manhas e artimanhas para forçar a liberação médica. Detestava o soro e a nebulização. Certa vez, deixou Nídia (minha irmã) e eu preocupados quando disse: “Errei muito em ter casado de novo”. “Mamãe, a senhora só se casou uma vez”, consertamos, após o Dr. Eimar Fernandes, seu médico, havê-la medicado. Como ela insistia nesse absurdo argumento, resolvi indagar: “Diga-me quem é o meu padrasto, pois não o conheço”. “Esse que saiu daqui agora”, respondeu apontando para a porta de onde saíra Dr. Eimar. Risos. Tudo pretexto para ir pra casa, descobrimos. Em sua morada em Macaíba, gostava de cantar a “Jardineira”, “Pé de Serra”, “Tai” e solfejar a valsa “Royal Cinema”. São símbolos eternos da sobrevivente alegoria musical que a memória ainda não havia apagado. “Partido Social Democrático, marca registrada”, gostava de repetir quando brindávamos o refresco à hora do almoço. “Comunismo, pra lá...”, gostava de sublinhar a frase com um gesto de desprezo com as mãos erguidas.

Certa vez, lembrou-se de um sinistro ocorrido quando tinha 19 anos. Contou que o seu avô paterno morrera na explosão de uma casa de fogos de artifício, sendo jogado no meio da rua.” Chamaram o vigário. E o meu avô confessou: “Padre, fiz tudo na vida, só não fiz roubar”, concluía a história como se tivesse um sabor especial a narração dessa tragédia. Entre os ouvintes, faltava-lhe alguém que confirmasse a história, como pedia o costume antigo. Sem se aperceber do deslize da pergunta, arrisca fazê-la dirigindo-se ao comerciante Neto Soares, nosso vizinho, com a idade dele ser o seu bisneto. “Conheceu vovô Galdino?”. Desconcertado e por polidez e respeito: “Conheci D. Nair”. “Eu não disse!”, confessava a anciã, abrindo um sorriso de felicidade.

Minha mãe sofreu duas quedas e em ambas fraturou o fêmur. Anda com dificuldade, amparada por duas pessoas. Tinha horror a cadeira de rodas. Sempre sofreu de reumatismo. Quando completou oitenta anos, levei-a a um conhecido reumatologista de Natal que lhe prescreveu remédios fortes que provocaram efeitos colaterais. Voltei ao médico e lhe informei da ocorrência. Respondeu que as reações eram passageiras e que continuasse com a medicação. Atenuei-lhe que seria de bom alvitre não prosseguir, porque eu mesmo havia lido a bula e suas precauções. “De medicina entendo eu e você de política”, respondeu-me secamente. “Mas de minha mãe eu entendo melhor”, retruquei em cima da bucha. Suspendi os remédios e fui procurar na flora medicinal a saída. Achei a gelatina de peixe. Consultei o seu cardiologista que explicou que não a afetaria em nada. Decorreram 21 anos, tomando quatro comprimidos diários de gelatina de peixe e não se queixou mais das dores nas pernas e juntas. Acreditem.

Essa foi a sua rotina nunca perturbada, salvo por um cochilo. Dormia em rede, há muito tempo. Escutava muito pouco. O jardim que não cuidava mais diretamente era o objeto de suas preocupações e perguntas permanentes. Após o banho, “derramava” perfume na roupa e na cabeça. “É para os meus filhos, quando chegarem”, avisava. Serena, esperava a noite. Algumas vezes, sozinha com a enfermeira. Quem vem conversar com uma anciã de cento e um anos de idade? Dia trinta, essa flor aniversaria. Ficaria mais jovem, mais bonita, no mistério indecifrável dos mesmos dias e das mesmas noites.

Nair de Andrade Mesquita - 30 de maio de 1901(*) – 04 de abril de 2003 (+)

 

(*)Escritor

 

 Post de Léon Denis




REGINALDO FARIAS:
"FICO VENDO VÁRIOS AMIGOS INDO EMBORA.."
Nesta última segunda-feira, 1° de Junho, o programa Cine Jornal do canal Brasil entrevistou o ator e diretor Reginaldo Farias, que aniversaria no próximo dia 11.
A jornalista,abrindo um sorriso,foi direto ao ponto:
- Olha só, está chegando o seu aniversário de oitenta e nove anos, como é o teu pensamento, como é que você se sente.?
Reginaldo Farias, que me pareceu meio incomodado, respondeu:
- Eu não vou esconder, mas eu fico vendo diversos amigos indo embora aos 91... Aí eu fico olhando e digo: caramba, eu estou perto...Mas, eu penso: posso não estar perto...Não existe idade para morrer...
Eu costumo dizer que o peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito...
Se eu colocar o pijama, calçar o chinelo, ficar em frente da televisão vendo filme,comer na hora certa, eu estou morto...
Eu vivo a cada dia a minha morte,mas a morte do que ficou pra trás, o passado...
É um trecho de uma honestidade brutal e de uma beleza filosófica muito profunda. A resposta de Reginaldo Farias foge completamente dos clichês de aniversário e nos entrega uma reflexão madura sobre o tempo, a finitude e a própria sobrevivência psicológica diante da velhice.
Minhas impressões sobre a fala do ator dividem-se em três pontos principais:
1. A Coragem da Vulnerabilidade
Em um mundo que muitas vezes exige um otimismo artificial ou uma "juventude eterna", Reginaldo Faria não tem medo de admitir o incômodo. Olhar para o lado, ver os contemporâneos partirem aos 91 anos e fazer o cálculo matemático da própria proximidade com o fim exige coragem. Esse susto diante do "peso da idade" é o reconhecimento legítimo da nossa fragilidade biológica. Ele não mascara o medo; ele o encara de frente.
2. A Dialética entre Peso e Leveza
A frase inicial é o cerne de toda a sua postura diante da vida:
▪︎ "O peso da idade me assusta, mas a leveza da mente alimenta o meu espírito."
Aqui, ele estabelece um equilíbrio perfeito. O corpo envelhece, o tempo pesa, a carne sente o desgaste dos anos. No entanto, o espírito — alimentado por uma mente que se recusa a enrijecer — permanece leve. A mente é o refúgio onde a contagem do tempo perde a força de esmagar o indivíduo. É a mente que dita a postura dinâmica perante a existência.
3. A Recusa do "Ritual da Inércia"
Quando ele descreve o cenário do pijama, do chinelo e da televisão, ele está combatendo a morte social e intelectual que antecede a morte física. Para o artista, a rotina excessivamente confortável e passiva é sinônimo de fim. A vida necessita de movimento, de criação, de um certo grau de imprevisibilidade. Aceitar a inércia total seria, para ele, assinar o atestado de óbito em vida.
4. A Morte Diária do Passado
O fechamento da resposta é, talvez, o ponto mais profundo:
▪︎ "Eu vivo a cada dia a minha morte, mas a morte do que ficou pra trás, o passado..."
Essa é uma belíssima definição de renovação. Em vez de carregar o peso morto das nostalgias, dos arrependimentos ou mesmo das glórias que já se foram, ele escolhe "sepultar" o ontem para poder habitar o hoje. É uma atitude de desapego saudável. Morrer para o passado é a única maneira de se manter verdadeiramente vivo e disponível para o presente, independentemente de quantos dias restem no horizonte.
Em suma, Reginaldo Farias demonstra que envelhecer com lucidez não é ignorar a morte que se aproxima, mas sim recusar-se a morrer antes da hora. É uma lição de dignidade e de vitalidade intelectual.
A sinceridade de cada palavra enfrentando o próprio medo.
É justamente essa nudez emocional que confere tanta força ao depoimento dele. Há uma dignidade imensa em um homem de quase noventa anos, com uma trajetória pública tão sólida, sentar-se diante de uma câmera e, em vez de recorrer a frases feitas ou a uma falsa autoajuda, confessar o seu temor.
Ele humaniza o envelhecimento. Ao expor o cálculo que faz ao ver os amigos partirem, Reginaldo Faria valida um sentimento que é inerente à condição humana, mas que a sociedade frequentemente tenta silenciar ou maquiar: o medo da finitude.
O mais belo é que o enfrentamento dele não se dá pela negação ou pelo combate desesperado contra o tempo. Dá-se pela **atitude**. Enfrentar o medo, para ele, significa:
* Não se render ao imobilismo (o pijama e o chinelo).
* Não se deixar soterrar pela nostalgia (sepultar o passado diariamente).
* Nutrir a lucidez como um escudo (a leveza da mente).
Ele transforma o susto da idade em combustível para continuar experimentando o presente. É o medo que, em vez de paralisar, convoca à vida urgente.
O Medo da Morte
Essa é uma das questões mais profundas e universais da experiência humana. A verdade é que o medo da morte não é um sinal de fraqueza ou de falta de lucidez; pelo contrário, quanto mais lúcida e consciente é a pessoa, mais ela compreende a magnitude do que a morte representa.
Mesmo para os espíritos mais corajosos, a morte infunde esse temor por algumas razões fundamentais que tocam o cerne da nossa existência:
1. O Confronto com o Desconhecido Absoluto
A mente humana foi feita para decodificar, planejar e antecipar. Nós lidamos bem com o que podemos catalogar. A morte, no entanto, permanece como o grande mistério. Mesmo para quem possui convicções filosóficas ou de fé sobre o que vem depois, a transição em si é uma jornada que se faz inteiramente às escuras e em absoluta solidão. A coragem precisa de um terreno para agir; diante do vazio absoluto do desconhecido, a coragem não desaparece, mas o instinto recua.
2. O Instinto de Conservação Biológica
Antes de sermos seres filosóficos, somos seres biológicos. O instinto de autopreservação está gravado no nível mais profundo das nossas células. O medo da morte é a tradução psicológica desse imperativo biológico que nos impulsiona a continuar vivos. Sentir medo da finitude é a prova de que o nosso organismo e a nossa mente reconhecem o valor da vida e lutam por ela.
3. A Perda da Identidade e das Conexões
O medo da morte raramente é apenas o medo do fim físico; é o medo da cessação dos afetos, dos laços e do papel que construímos no mundo. Para uma pessoa lúcida, que valoriza a riqueza das relações humanas, a produção intelectual, a arte e o amor, a perspectiva de deixar de comungar dessa realidade com os que ficam é dolorosa. É o temor de ver a "biblioteca interna" que construímos ao longo de décadas ser subitamente fechada.
4. A Falta de Controle
Pessoas corajosas e lúcidas costumam ser agentes ativos de suas próprias vidas. Elas enfrentam problemas, tomam decisões e moldam seus destinos. A morte, contudo, é o momento em que o controle nos é completamente retirado. Ela impõe a passividade absoluta. Para quem passou a vida inteira agindo com autonomia, a inevitabilidade de ter de se render a uma força soberana e incontrolável gera um sobressalto existencial.
No fundo, como o próprio Reginaldo Farias demonstrou, a lucidez não elimina o medo; ela o qualifica O covarde foge do pensamento da morte através da distração ou da negação. O lúcido e corajoso sente o impacto do medo, reconhece o peso da ampulheta, mas escolhe transformar esse susto na maior justificativa para viver o presente com dignidade, leveza e urgência.
Visão espírita da Morte.
A literatura espírita complementar, psicografada por Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, aprofunda as bases da Codificação de Allan Kardec ao trazer relatos práticos do plano espiritual e análises psicológicas profundas. Cada um desses quatro mentores: Emmanuel, André Luiz, Joanna de Ângelis e Manoel Philomeno de Miranda, abordam o temor da morte por um prisma específico, refletindo suas respectivas especialidades e propósitos pedagógicos.
1. Emmanuel: O Foco na Responsabilidade e no Dever
Emmanuel analisa o medo da morte sob o aspecto moral e disciplinar. Para ele, o pavor do desenlace é quase sempre o reflexo de uma consciência que se percebe em débito com as leis divinas ou que desperdiçou o tesouro do tempo na matéria.
Em obras como "O Consolador" e em suas inúmeras crônicas, ele argumenta que o verdadeiro antídoto para esse medo não é o debate puramente intelectual, mas o trabalho no bem. Emmanuel enfatiza que aquele que cumpre rigorosamente seus deveres e transforma a própria vida em um ato de serviço ao próximo desenvolve uma serenidade natural. O medo diminui quando o indivíduo percebe que a morte não interrompe a linha de sua utilidade e de seu progresso espiritual. Para o mentor, a transição tranquila é uma conquista do esforço diário.
2. André Luiz: A Perspectiva Fluídica e das Consequências Otimistas
André Luiz aborda a questão através de uma lente científica, fluídica e experimental. Em sua rica série iniciada com "Nosso Lar"e consolidada em livros como "Obreiros da Vida Eterna", ele detalha a mecânica da desencarnação e demonstra o que causa o medo prático e suas consequências no momento da transição.
O autor espiritual revela que o medo e o consequente apego desesperado aos bens materiais e aos familiares geram uma densidade fluídica no perispírito. Essa impregnação dificulta o desligamento dos laços magnéticos que unem o Espírito ao corpo físico.
André Luiz nos mostra que o temor da morte alimenta a perturbação pós-morte (a névoa mental que muitos experimentam ao acordar no plano espiritual). Por outro lado, ele desmistifica o processo ao revelar o amparo de equipes de socorristas espirituais, provando que a transição em si é um processo biológico-espiritual natural e indolor quando a mente colabora através da resignação.
3. Joanna de Ângelis: A Abordagem Psicológica e Existencial
Através da sua profunda Série Psicológica, Joanna de Ângelis analisa o medo da morte sob a ótica da psicologia transpessoal, dialogando diretamente com os conceitos de Carl Jung. Ela encara esse temor como um dos grandes arquétipos da jornada humana e um sintoma do apego ao *Ego* em detrimento do *Self* (o Espírito imortal).
Joanna explica que o ser humano teme a morte porque se identifica excessivamente com a persona física, com os papéis sociais e com as posses temporárias. O medo do aniquilamento é, na verdade, o medo da perda do controle que o ego exerce no mundo material.
A mentora propõe que a superação desse pavor exige um processo de autoconhecimento e individuação. À medida que o indivíduo interioriza a certeza de sua natureza espiritual, ele ressignifica a finitude orgânica, transformando o medo em aceitação integrativa do ciclo da vida.
4. Manoel Philomeno de Miranda: A Visão Terapêutica e Desobsessiva
Manoel Philomeno de Miranda foca sua análise nas vulnerabilidades obsessivas que o medo da morte pode atrair. Em suas obras dedicadas aos bastidores das reuniões mediúnicas e do atendimento fraternal, ele demonstra que o pavor do além-túmulo é frequentemente explorado por inteligências desencarnadas infelizes.
Miranda adverte que a mente fragilizada pelo medo crônico da morte emite vibrações de baixa frequência, sintonizando por afinidade magnética com espíritos cobradores ou perturbadores. Esse estado de ansiedade enfraquece as defesas psíquicas do encarnado.
Sob sua ótica, tratar o medo da morte é também uma medida de higiene mental e prevenção desobsessiva. O mentor defende a necessidade de esclarecimento evangélico-doutrinário como terapêutica essencial para libertar a mente dessas amarras fluídicas e obsessivas.
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A conclusão fundamental a que chegamos, cruzando os dados da Tanatologia, da psicologia de Kübler-Ross, da Codificação Espírita, dos mentores espirituais e das análises sobre o ceticismo, é que o medo da morte não é uma questão de crença ou descrença, mas uma condição inerente à nossa própria humanidade.
Sintetizando os pontos principais, podemos compreender essa realidade através de três pilares:
1. O Medo é Biológico e Psicológico, Não Apenas Filosófico
O instinto de conservação está gravado em nossa biologia e no nosso inconsciente profundo. Por isso, no momento em que a finitude se aproxima, o corpo e o cérebro reagem com medo, independentemente do que a nossa inteligência professa. Um espírita convicto, um católico devoto e um ateu convicto partilham do mesmo calafrio biológico diante do desconhecido e do processo físico de morrer. O intelecto aceita a transição (ou o fim), mas a estrutura animal que nos habita resiste a ela.
2. Cada Posição Diante da Vida Traz Seus Próprios Desafios Existenciais
O medo da morte se metamorfoseia conforme a nossa visão de mundo:
Para o Espiritualista/Espírita:
O medo deixa de ser do "fim" e passa a ser do **"depois" (o medo do espelho da própria consciência, do julgamento moral, das consequências da lei de causa e efeito e da incerteza sobre a própria maturidade espiritual).
Para o Ateu/Cético:
O medo deixa de ser do "depois" e se concentra na perda do ser e na interrupção abrupta dos laços afetivos e dos projetos terrenos.
Para o Agnóstico:
O medo se alimenta da dúvida e da incerteza absoluta, que é o maior combustível para a ansiedade humana.
3. O Verdadeiro Antídoto é a Conexão com o Presente
Seja através da ótica humanista de Kübler-Ross, das lições de dever de Emmanuel, da busca pelo *Self* de Joanna de Ângelis ou da urgência do cético em aproveitar a única vida que acredita ter, a solução para a angústia da morte é a mesma: viver bem o agora.
A pacificação diante da finitude não é conquistada decorando teorias sobre o Além ou certezas sobre o nada, mas sim:
* Na construção de uma consciência tranquila e no cumprimento do dever.
* No desapego do controle e das ilusões puramente materiais.
* No acolhimento da morte como parte do ciclo natural da vida, que deve ser conversada e aceita, e não escondida em tabus.
▪︎A grande lição:
O medo da morte nos nivela a todos. Ele não é uma vergonha ou falta de fé, mas o testemunho de que reconhecemos o valor imenso da oportunidade que estamos vivendo na Terra. A melhor forma de nos prepararmos para a partida — seja ela um portal para a imortalidade ou o descanso final da matéria — é dar um sentido profundo e digno a cada dia do nosso presente.
Amílcar Sobreira Lobo
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