terça-feira, 11 de junho de 2024

Reconstruir o Brasil Padre João Medeiros Filho A reconstrução pessoal ou social é inerente à história humana. O Brasil, em diferentes momentos, viveu etapas reconstrutivas. Atualmente, há interpelação da consciência cidadã e cristã sobre a necessidade de ressignificar a Pátria. A pandemia marcou a urgência de se repensar os serviços públicos. Muitos não querem admitir que o tempo pandêmico abalou vários setores da sociedade, notadamente a saúde e a educação. No mínimo, comprovou-se a sua precariedade ou ineficiência crônica. “Saúde e educação de um povo não se improvisam”, afirmou Dr. Marcolino Candau, primeiro brasileiro a dirigir a Organização Mundial da Saúde. Os problemas socioeconômicos, políticos, educacionais, a carência de segurança alimentar para tantos, gerando desigualdade social, clamam pela reconstrução do País. Enquanto isso, o tempo precioso é ocupado com diatribes ideológicas, inócuas e deletérias, tornando o radicalismo além de agudo, crônico. Tem razão o salmista: “Se o Senhor não construir a casa, debalde trabalham os que a edificam” (Sl 127/126, 1). Análises científicas vêm mostrando, em muitos aspectos da conjuntura sociopolítica, um processo de deterioração do tecido social. Considerações técnicas explicitam desmontes que atingem a estrutura da sociedade, cujos alicerces foram abalados: improbidades, privilégios, mentira social, demagogia, narrativas, ensaios ideológicos despropositados, descaso educacional etc. Tudo isso requer lucidez e serenidade dos cidadãos. Um velho líder potiguar comparou nossa política a “uma moça despudorada, apresentada por membros da família como uma jovem honrada e virtuosa.” Há unanimidade sobre a necessidade de intervenções urgentes para evitar que se constitua, entre nós, a verdadeira “abominação da desolação” (Dn 19, 27). Essa foi a expressão bíblica que definiu o caos reinante no povo prevaricador do Antigo Testamento. A história da Terra de Santa Cruz, não obstante percalços e vicissitudes, carece de apreço. O País detém um relevante potencial humanístico e material para se reerguer. Não pode estar em mãos equivocadas nem ser refém de inescrupulosos e oportunistas, cujo objetivo é seu projeto de poder e não de uma nação humana e justa. Não se deve apostar no “déjà vu”. Preocupa sobremaneira o diagnóstico de nossas feridas políticas. Nossa Terra vive a carência de uma visão moderna de gestão, capaz de oferecer respostas rápidas, adequadas e atualizadas. Há de se corrigir degradações gravíssimas na educação, infraestrutura, segurança e saúde, no sistema eleitoral, na política ambiental e administração pública. É imprescindível um novo movimento civilizatório. Muitas coisas precisam ser pautadas urgentemente para retirar o País dos atrasos e marasmo. É característico no Brasil viver intensa e antecipadamente os períodos eleitorais. Nem bem acabam as eleições federais e estaduais, já se entabulam os conchavos para os pleitos municipais, ou vice-versa. Respiram-se campanhas eleitorais o tempo todo. O pior é o clima contaminado por vícios interesseiros, os quais reduzem a discussão política a nomes e pessoas, que traduzem esquemas obsoletos e perpetuadores de privilégios e erros. O que se espera dos líderes e dignitários não é uma briga medíocre e improdutiva, mas uma ampla pauta de diálogo civilizatório, incluindo especial atenção ao linguajar corrente, uso ético e produtivo das tecnologias contemporâneas. Infelizmente, o Brasil vai se tornando um solo de narrativas em todos os segmentos e matizes ideológicos. Sepultam-se a verdade, o realismo e a honestidade intelectual. Há cada vez mais falácias, relatosdesonestos edesconexos, impedindo avanços e agravando a polarização. Convive-se com falas fora dos trilhos, incompatíveis com os cargos ocupados, comprometendo a seriedade dos poderes e instituições. Não raro, discursos e pronunciamentos geram desentendimentos, acarretando intransigências, reforçando radicalizações, alimentando medos, minando a paz social. Na tarefa de reconstruir a Nação, misterse faz investir em palavras que iluminem e apaziguem pela verdade que transmitem. É preciso respeitar autoridades e direitos, salvaguardar a Pátria com políticas sensatas, varrer os cenários da vergonhosa desigualdade social, garantir a vigência de valores e princípios inegociáveis. Assim é possível reconstruir verdadeiramente nosso torrão natal. Nisto consiste a recomendação bíblica, interpretada apenas do ponto de vista demográfico: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 9, 7). Crescer em dignidade e grandeza humana. Multiplicaro bem-estar social dos filhos de Deus! “Feliz é a nação, cujo Deus é o Senhor” (Sl 33/32, 12).
“Tão sublime Sacramento” Padre João Medeiros Filho Este cântico litúrgico é a parte final do hino eucarístico “Pange Lingua”, composto, em 1264, por Santo Tomás de Aquino para a festa de “Corpus Christi, a pedido do Papa Urbano IV. Esta música sacra, apresentada em canto gregoriano ou polifonia, marcou a vida espiritual de muitos. O compositor brasileiro Toquinho, parceiro de Vinicius de Moraes, ainda hoje se encanta e se emociona, ao recordar a melodia tocada por Padre Romano, organista do Liceu Salesiano do Coração de Jesus (São Paulo), onde estudou. No Seridó, a interpretação musical do Maestro Felinto Lúcio comove, de modo especial, os fiéis na Bênção do Santíssimo Sacramento. A partitura do eminente seridoense é executada na Basílica de São Pedro (Vaticano), graças a nosso conterrâneo Monsenhor Flávio José de Medeiros Filho. Plantão permanente da eterna solidariedade de Deus é o Pão Eucarístico, meiguice de um Pai, que nos envia um Irmão para dialogar conosco. Ele assegurou-nos: “Quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). A Eucaristia é a espera de Deus por nós, abraço divino que nos é reservado. Beijo carinhoso de um Pai cheio de bondade, que no silêncio da Hóstia nos mostra seu amor misericordioso. Eis o gesto augusto da presença celestial, temporalizada no mistério da Encarnação. Cristo quis se unir à humanidade e revelar que ela tem um valor infinito, não obstante as suas limitações. Um dia, Deus em sua inefável benignidade nos perfilhou. A Encarnação é uma incomensurável prova de amor de Deus. Mas, Ele quis ir além. Complementou misteriosamente sua prodigalidade no Sacramento do Altar. Ele se dá ainda mais, transformando elementos materiais em símbolos de sua pessoa. Consagra o universo, através dos três elementos que o representam: pão, vinho e água. A matéria inanimada torna-se suporte da divindade de Cristo ali presente, porém latente. Graças à fé, pode-se sentir essa teofania de Jesus, concedida por Deus aos filhos adotados. Por isso, exclamou Tomás de Aquino: “Ainda que o sentido falhe, a fé basta para confirmar o coração sincero.” A profecia de Isaías, retomada pelo Mestre, no Evangelho de João, afirma: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (cf. Is 55,1 e Jo 7,37). Alude ao alimento espiritual que Jesus oferece com seu Corpo e Sangue. É verdade que temos sede de justiça e do próprio Deus, às vezes, aparentemente, tão distante de nossos sentimentos e vidas. A Eucaristia sacia a nossa fome de valores maiores. Quem tem saudades de Cristo, vai buscá-Lo na beleza dessa presença silenciosa. E, embora sem falar, Ele deixa sua graça penetrar no íntimo de cada um que se achega a Ele para mitigar todo tipo de fome e sede. A Eucaristia é o pão dos viandantes, o viático na dimensão semântica do termo. Não apenas para os enfermos, mas, sobretudo para os caminhantes. Vale citar as palavras dirigidas ao profeta Elias, cansado, deprimido, como muitos de nós, em certos momentos da vida: “Levanta-te e come, porque ainda tens um caminho longo a percorrer” (1Rs 19, 7). “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18), largados à própria sorte, garantiu-nos o Senhor. A Eucaristia é Cristo em nós. A caminhada solitária é difícil. Por esse motivo, Cristo quis conviver conosco. A dimensão do diálogo é importante. Assim sendo, Jesus legou-nos esse memorial, sinal de sua companhia. Não querendo que padecêssemos de solidão ou abandono, fez-se Pão e permanência. O “Sublime Sacramento” é antecipação do banquete da eternidade, no qual gozaremos o definitivo de nossa história. Deus, por Cristo, abranda em nós as saudades do Eterno. Extasia-nos um mistério tão admirável! Apesar de suas interrogações, os fiéis encontrarão paz na intimidade eucarística. Sustentados pela fé, que ilumina os nossos passos na noite da dúvida e das dificuldades, pode-se proclamar, como fizera o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, quando pároco de Currais Novos: “Rei eterno, ó Deus humanado, suplicamos aos céus com fervor. Glória a Ti, ó Jesus escondido, ó mistério querido, ó milagre sublime de amor!” (Hino do Congresso Eucarístico Paroquial, outubro de 1937).

segunda-feira, 10 de junho de 2024

TREMOR,TREMORES Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei de há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continuam a ser a Covid, a dengue, a zica, a chikungunya e a varíola do macaco. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos de motos. Principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade. O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificadas pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos. Fenelon já dizia “que ninguém dê crença a felicidade presente. Há nela uma gota da baba de Caim”. As fortunas inexplicáveis de alguns, da noite para o dia, cabem no raciocínio do pensador francês. Essa categoria de novos ricos torna-se perfeita, apenas, na ruindade e nem na morte é solidária. Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro. Lembro a minha mãe, que algumas vezes rebatia a solidão centenária com uma frase humilde, sábia e confortadora: “meu filho, se eu fosse uma pessoa rica a minha casa estaria repleta de visitas”. A humildade e a caridade cristã teriam sido substituídas pelo messianismo dos “pobres de espírito”? Seria ataraxia, morbidez ou equívoco trágico imaginar que ninguém seu morrerá nunca? Mas a vida é um labirinto movida por difusa fluidez temporal, constituída de fases e de fezes (no sentido consumista, digestivo da palavra). E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão “imortal” quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas. Daí deduzir que toda celebridade em Natal quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as “glórias e grandezas” de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela “revolução” dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade. Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a amizade como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Aos ricos materiais mas pobres em espírito, ofereço a reflexão do poeta Mário Quintana: “Essa idade tão fugaz na vida da gente, chama-se apenas presente e tem a duração do instante que passa”. (*) Escritor

sábado, 8 de junho de 2024

O medo e a fé Padre João Medeiros Filho Segundo Santo Ambrósio: “O medo é a ausência de Deus”. Lembrava a seus diocesanos a certeza do salmista: “Mesmo que tenha de percorrer um vale de sombras, não temerei os males, porque estás comigo” (Sl 23/22,4). Fernando Sabino aconselhava: “Fazer da interrupção um caminho novo; da queda, um passo de dança e, do medo, uma escada”. O ser humano, diferentemente de outros animais, por sua natureza, é medroso. Philippe Ariès e Jean Delumeau estudaram esse fenômeno e o tratamento dado pelos religiosos. Ariès declara: “O homem é o único ser no mundo a viver constantemente apavorado, quando está só. E a solidão maior é a falta de Deus”. O pavor tem um lado pernicioso, enquanto paralisa as pessoas. Não raro, é usado como arma de controle; triste, quando a dominação parte das religiões. No mundo antigo, o medo estava ligado às divindades. Os gregos adoravam Deimos e Fobos, deuses do terror e pânico, respectivamente. Segundo Hesíodo, ambos são irmãos gêmeos, filhos de Ares e Afrodite. Eram cultuados pelos helênicos, que lhes suplicavam e deviam favores. A Europa da Idade Média temeu as pestes que dizimaram populações inteiras, sendo as mais importantes a bubônica e a de Marselha. Tais epidemias e guerras criaram situações alarmantes para as populações. Não foi diferente conosco, durante a pandemia, acompanhada de uma polêmica e beligerância políticoideológica. Ao longo da história, outras realidades aterrorizaram as pessoas: o mar, o diabo, as tempestades, o credo. No medievo, ganhou destaque o receio da forca ou fogueira inquisitorial. Havia igualmente a ameaça do Juízo Final. Para a fúria da Inquisição, havia nomes e faces: hereges, bruxos, feiticeiros etc. O temor faz parte da natureza humana, sua limitação e fragilidade. Todavia, uma das preocupações de Jesus foi ensinar aos discípulos como vencê-lo. Aliás, isso perpassa pelas páginas da Bíblia. A fé proclama: “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos” (Sl 46/45,1). O apóstolo Paulo afirma: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Há episódios marcantes na história do cristianismo sobre essa realidade. Quando Jesus nasceu, o anjo proclamou: “Não temais. Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). O Ressuscitado neutraliza, em cada aparição, a inquietação e a angústia dos discípulos. Em diversos momentos de sua existência terrena, procurou encorajar seus seguidores. Após multiplicar os pães e rezar na montanha, Jesus aparece caminhando sobre as águas do mar da Galileia. Pensavam tratar-se de um fantasma. Pedro vai ao seu encontro e começa a naufragar. Cristo toma-o pela mão e tranquiliza os discípulos: “Tende confiança, sou eu, não temais” (Mt 14,27). Há pavor diante da morte, doença, violência, desemprego etc. Isso resulta da pequenez ou tibieza de nossa fé. O caminhar de Jesus sobre as águas é sinal de que Ele nos ajuda a superar as adversidades. O “sou eu” significa Deus afirmando que nos liberta do sofrimento, da dor e opressão. Pedro tem fé ao chamar Cristo de Senhor, mas ela é ainda fraca. Como uma criança que começa a ensaiar seus primeiros passos, o Mestre lhe diz: “Vem!”. E estende a sua mão para Pedro andar sobre o mar. A fé nos acalma e aproxima de Deus. Sem Ele, brota a violência, que leva ao medo. Esse é causado por aqueles que estão vazios de Deus. Os temerosos creem pouco. Vale citar o autor da Carta aos Hebreus: “O Senhor é meu auxílio, jamais temerei, que mal me poderá fazer o ser humano?” (Hb 13,6). O inesquecível Dom Nivaldo Monte repetia nas homilias e palestras: “O cristianismo não é a religião do pavor, mas da esperança e do amor.” Deus nos ama. Alguns religiosos disseminam a deletéria teologia o evangelho do pânico, que ignoram a inefável benignidade e misericórdia divina. O cristianismo se contrapõe à doutrina ameaçadora. Em Jesus Cristo e por Ele, o ser humano é liberto da escravidão do pecado e domínio do Mal. Eis o que está escrito no profeta Isaías: “Não temas, porque Eu estou contigo; não te assombres, porque sou teu Deus; Eu te fortaleço, te ajudo e te sustento com a destra da minha justiça” (Is 41,10)

sexta-feira, 7 de junho de 2024

O CELULAR Valério Mesquita* mesquita.valerio@gamil.com Não há faca de dois gumes mais cortante e afiada que o aparelho celular. As estatísticas aí estão para comprovar o que afirmo. Favorece a escuta, acidentes quando utilizado na direção de veículos e em penitenciárias nas mãos dos marginais, sem esquecer outros usos e abusos tão conhecidos de todos. Sei perfeitamente de sua serventia em outras tantas situações. Mas, desejo chegar, a três episódios, até certo ponto, cômicos, onde o aparelho, respectivamente, vale mais do que o doente no hospital e do que o homem comum diante da autoridade. O primeiro se refere ao uso rotineiro do celular por alguns médicos na sala de cirurgia dos hospitais. Enquanto os procedimentos operatórios são executados, com as vísceras do paciente expostas, o fone do cirurgião ou anestesista fica ali, sobre a mesa, ora recebendo, ora emitindo ligações. O doente, parece assumir um segundo plano e fica à mercê, automaticamente, por conta das manipulações contínuas, da temida infecção hospitalar. Hoje, ela é o fantasma oculto dos nossos hospitais. Por outro lado, a preocupação com o aparelho induz a distração, a leniência e a dispersão da equipe, com a prevalência da máquina mortífera sobre a vida do enfermo. Tais reflexões me fazem lembrar de um episódio, ocorrido comigo e um secretário de estado, José Maria Melo, durante o governo de Garibaldi Alves Filho. Àquela época, exercia o mandato de deputado estadual e pedira-lhe, via celular, uma audiência, ao lado de dois vereadores macaibenses. Após os cumprimentos de praxe, iniciei a narrativa dos assuntos, sendo logo interrompido três vezes pelo celular colocado sobre o birô. Sem que pudesse concluir a conversa administrativa na íntegra, apelei para um procedimento insólito. Lembrando-me que o seu número ainda estava gravado na memória do telefone, liguei-lhe no instante em que pedia água e café: “Alô, é o doutor Zé Maria?”. “É, sim. Quem fala?”. “É Valério, Zé Maria. Vamos concluir a nossa audiência pelo celular mesmo, ok?”. Não desligamos e fomos até o fim da conversa sem sermos perturbados. Conclusão: O celular é bicho incômodo e desatencioso. Desculpas à parte, juntos aprendemos a lição. Principalmente ele, sob os olhares atônitos dos dois edis Ismar Fernandes Duarte e Francisco Pereira dos Santos. Por último, até já disseram que o uso exagerado do celular provoca irradiações no cérebro e surdez. Quando exercia o mandato de deputado estadual, D. Marilene Gomes, então secretária, apressada, adentrou ao gabinete para, do meu celular, cumprir a agenda de ligações porque o telefone fixo havia pifado. O primeiro da lista que solicitei se referia ao saudoso jornalista Paulo Macêdo. Completada a ligação, ela confirma: “Alô? É doutor Paulo Mesquita?”, e passou-me o aparelho. No momento eu escrevia e só ergui a cabeça para explicar-lhe: “Era meu tio. Ele não vai atender. Só se for em sessão espírita. Morreu há mais de vinte anos...”, disse-lhe com serenidade de um funeral. De outra feita, a idade e o cansaço, na administração pública, têm pregado peças em muitas pessoas. Quando prefeita de Macaíba, Mônica Dantas mandou a sua telefonista fazer uma ligação para o secretário de Educação do Estado. Por engano, a linha caiu na Secretaria de Segurança Pública, dirigida pelo então coronel João José Pinheiro da Veiga. Foi aí que aconteceu o maior e mais demorado dos equívocos da chamada burocracia septuagenária. A prefeita macaibense pensando que falava com o titular da Educação, discorria solta sobre o problema da falta de carteiras nas escolas enquanto o coronel Veiga, do outro lado da linha, entendia carteiras de identidade. Somente ao cabo de dez minutos é que descobriram o equívoco. Celular é fogo! Pode? (*) Escritor.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

TEMPO DE OUVIR SINAIS Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com Gautama é a personagem histórica que fundou o budismo no século V a.C. Essa religião, que se opôs ao bramanismo, conta com mais de quinhentos milhões no Extremo Oriente, incluindo-se Índia, China e Japão. Já Maomé, profeta e fundador do islamismo, lá pela era de 632 d.C., domina, hoje, dezenas de países muçulmanos. Pois bem. Não se vê ninguém sistematicamente refutar, distorcer, incriminar, blasfemar através da literatura mundial, sobre a vida pregressa dos fundadores das duas religiões. Apenas, como objetivo deliberado de desmerecer e lambuzar o culto imputando a Jesus comportamento mundano, incompatível com a imagem santa traduzida e transmitida pelo Novo Testamento das Sagradas Escrituras. Os milhões de cristãos do mundo, entre católicos, evangélicos, ortodoxos, etc., já começam a indagar: por quê? Cumprem-se as profecias dos anticristos? A própria Bíblia previu, em várias situações, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o aparecimento dos perseguidores do Cristo, que jamais deixou de admitir a influência de Satanás sobre os humanos. Ele próprio sofreu a tentação do maligno e triunfou com o seu poder de Filho de Deus para que se cumprissem as escrituras. Ora, a minha indignação é contra as maledicências de obras ficcionistas de livros e filmes que procuram imprimir comportamentos duvidosos e profanos tais como: conjunções carnais com Maria Madalena e que foi casado, pai de filhos. Além do mais, desacredita a Bíblia cristã ao afirmar que o imperador de Roma, Constantino, autorizou a elaboração de outra, a fim de ocultar informações depreciativas sobre Jesus. Todas alegações, integram a trama literariamente urdida, porém corrupta, porque falseia, calúnia uma verdade histórica que muitos pensadores e gênios da humanidade, através dos tempos, jamais contestaram. Creram. As minhas assertivas não constituem crítica literária e nem é esse o meu propósito. Agora, difamar a vinda do Cristo subvertendo a vida e a mensagem legadas, sem apresentar qualquer prova documental, histórica, pesquisa ou descoberta antropológica, mas, só para exercício de vaidade cultural, com o fito de vender o livro, é ser trapaceiro. É crucificar Jesus de novo. Minha decepção com o mundo de hoje também se fundamenta no fato de que mais de dez milhões de livros já foram vendidos. Deve ter atingido aquela faixa populacional que só se lembra ou invoca Jesus quando está morrendo no hospital. Ou, quando não, pede para que os serviços religiosos sejam ministrados após a morte, por via das dúvidas. Só me resta pedir a Jesus que venha logo desbaratar essa quadrilha de hereges. Venha fortalecer os seus missionários, sacerdotes, pastores, com a luz do Espírito Santo. Senhor, permita que aconteçam mais milagres, aparições, porque a incredulidade campeia. O Senhor procedeu assim naquele tempo. E agora, após a população do planeta ter crescido tanto, a ciência, a tecnologia, multiplicação de anticristos, não seria oportuno vim, ver e ouvir? No Apocalipse 22, versículos 12 e 13, disse Jesus: “E eis que cedo venho e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Derradeiro”. Palavras fortes que para um bom entendedor, bastam. Estariam os cataclismos no mundo inteiro acontecendo sem a permissão do Senhor para testificar a segunda e anunciada vinda de Jesus ao mundo em transe? Por acaso, as guerras no Oriente Médio, na Ucrânia, o aumento devastador de terroristas, em todos os continentes, além de tempestades, pandemias, temperaturas extremas, rios secando, domínio do tráfico de drogas, e mais a matança de dois anticristos (árabes e judeus) podem ser encaradas como sinais? (*) Escritor.

terça-feira, 21 de maio de 2024

“Quo vadis”, Brasil? Padre João Medeiros Filho Eis a pergunta de muitos. O Brasil passa por uma ingente crise sociopolítica, econômica, ética, cultural e até religiosa. A catástrofe gaúcha parece ter se tornado uma metáfora da deterioração social brasileira. Analistas verificam que o descaso com a “res” pública, a corrupção e a desigualdade social vêm sendo marcas constantes, ao longo de anos. Propagadores da impunidade assumiram abertamente a postura da desfaçatez. Não disfarçam mais seus verdadeiros propósitos. Pregam divisões em grupos, gerando hostilidade e o proposital enfraquecimento da sociedade. Posicionam-se contra Deus, a Pátria, os inocentes e indefesos. Alguns se arrogam de competências que não lhes cabem. Sepultaram a Ética e a Moralidade. Interesses de alguns importam mais que o bem comum. Sobre os nossos ombros recai o pesado ônus das mazelas pelas quais atravessa o país. Vive-se em meio aos destroços causados pelo ensino de baixa qualidade, pela fragilidade da saúde do povo, falta de investimentos em serviços públicos etc. Há uma fartura de sofismas e narrativas demagógicas, tentando nos convencer de que tudo vai bem. Aos cidadãos três caminhos se abrem diante dessa triste conjuntura. O primeiro consiste em permanecer ao lado dos insensíveis. O segundo, manter um silêncio omisso e conivente, beneficiando a iniquidade. Durante décadas, muitos trilharam por essas duas direções. Porém, cabe-lhes assumir uma atitude crítica contra essa realidade deletéria e desumana. Mister se faz um compromisso de serviço ao próximo e à Pátria. Entretanto, é necessário, inspirados no Evangelho, manter o diálogo e contribuir para a solidariedade e a ação transformadora. Não se pode desviar dessa opção. O engajamento do discípulo de Jesus começa pela vivência do Evangelho. Ela exige envolvimento com a causa do próximo e o Reino de Deus. Este consiste também na equidade e garantia de direitos irrenunciáveis. Os cristãos – apesar de esperar uma vida plenificada, após a peregrinação terrestre – não podem cruzar os braços ante os empecilhos para o despontar do Reino na realidade cotidiana. O sinal da cruz, traçado em nossas frontes, deve significar o seguimento a Jesus. Este colocou sua vida inteiramente em favor dos irmãos. A Igreja – sacramento terreno e continuadora da missão do Filho de Deus – deve assumir o ousado e bíblico papel da profecia. Esta opõe-se a tudo o que é sinal de morte, injustiça, iniquidade, ou seja, o contratestemunho da doutrina de Cristo. Mas, é importante que se diga: o profetismo não se refere à mera condenação ou crítica, construída em confortáveis gabinetes, surdos aos gemidos dos que sofrem. O engajamento da Igreja inicia-se com o diálogo de todos os segmentos sociais para a busca de soluções adequadas e sugestões de atitudes que possam iluminar as ações dos dirigentes. É fácil condenar, mas não é cristão. Dissera o Mestre: “Não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo 12, 47). Rabindranath Tagore insistia: “É muito mais fácil condenar milhares de seres humanos do que tocar um só com a verdade.” A laicidade do Estado brasileiro não deve ser óbice para o entendimento das instituições religiosas com os poderes públicos e vice-versa. As igrejas têm um importante papel na defesa de direitos dos filhos de Deus. Desde que voltadas para os autênticos interesses do bem comum, elas detêm legitimidade na discussão da “res” pública, em favor da população e contra as práticas opressoras. Estas, não raro, advêm daqueles que deveriam ser os verdadeiros representantes do povo. Os cristãos necessitam ter uma voz profética que clama, como sinal de esperança para os sofredores, vítimas da maldade e injustiça. Atribui-se a Padre João Maria, o Anjo de Natal, a seguinte frase: “Temos o sagrado dever de transformar a lágrima dos que sofrem em sorriso.” A fidelidade ao Evangelho não pode assumir uma posição de indiferença diante do sofrimento dos que não têm voz ou vez na sociedade. Isso não significa que a Igreja deva ser partidária, como pensam ou pregam alguns, esquecendo o que disse Nosso Senhor: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). Inspirados na Palavra Divina, os discípulos de Cristo necessitam assumir sua vocação, fundamental para o legítimo testemunho da vivência religiosa e expressão da fé. “Somos cidadãos do céu, mas não podemos fazer da terra um inferno”, advertia Santo Agostinho.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Vivendo a distopia Padre João Medeiros Filho No Brasil atual, de um lado verifica-se um clima de arrogância, vaidade e opressão; de outro, apatia, temor e pessimismo. Em meados do século XX, alimentavase a utopia ou o sonho de mudar os costumes e a nossa sociedade. Corria nas veias da juventude o sangue de ufanismo com seus ideais e valores. Imaginava-se um futuro próspero. O Brasil focalizava tudo no adjetivo: “novo”. Cinema novo, bossa nova etc. Hoje, vivem-se momentos de distopia, em que predominam descrédito, desânimo, malestar, depressão individual e social. O autor do Eclesiastes padeceu desse sentimento: “Todas essas coisas são difíceis de explicar. Mas, a vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir” (Ecl 1, 8). A Pátria amarga a omissão, leviandade e incúria, advindas de alguns filhos. Está pobre de espiritualidade e carente de Deus. O egocentrismo domina. Cresce o isolamento das pessoas. No reino animal, os humanos talvez sejam as criaturas mais sedentas de companhia. Sua natureza requer solidariedade, por isso aproximam-se dos semelhantes. Porém, o medo e a insegurança levam ao distanciamento. Muitos manifestam desagrado e indignação diante de certas realidades e sentem-se impotentes. Raramente, é possível propor algo factível. Percebe-se um desalento, oriundo da distopia, que desencadeia radicalismo e polarização. Não raro, importam mais os sofismas e narrativas com o objetivo de desviar a atenção dos sérios e urgentes problemas nacionais. O mundo atravessa uma crise civilizatória, dominado por ódio, sede de poder, soberba e violência. Indivíduos e grupos demonstram mais força que governantes e poderes constituídos. Será que tudo é pensado em função do acúmulo de riquezas e dominação? A natureza é massacrada. Considera-se sua preservação entrave ao progresso ou objeto de discursos demagógicos. Inverteu-se a axiologia. O homem existe em função dos planos de poucos. Não falta quem queira impor suas ideias e vontades aos demais. Isso é anticristão. Jesus não impunha, propunha. “Se alguém quiser me seguir...” (Mt 16, 21). Fala-se tanto em democracia, todavia muitos a golpeiam e tentam destruí-la. A honestidade intelectual agoniza. Felizmente, a espiritualidade sobrevive, sendo da essência da vida, altar de incontáveis valores. Contudo, busca-se um sustentáculo para o egocentrismo, a volúpia do poder e exaltação dos interesses grupais e partidários. Hoje, segmentos e projetos ideológicos têm mais importância que a Pátria. Priorizam-se esquemas partidários em detrimento de autênticas políticas públicas. Mas, há os que dão exemplo de altruísmo e fraternidade. Como não lembrar Padre João Maria, Irmã Lúcia Vieira, Irmã Dulce e tantos outros? Suas opções originaram-se da força transcendental da fé, impulsionando a caridade. Assiste-se à mercantilização dos bens da vida, das relações sociais. Observa-se a política desprovida de sensibilidade e preocupações comunitárias. Surgem posturas maniqueístas. Declina-se do irrenunciável dever de encontrar as causas e soluções dos males. Os simplistas afirmam a necessidade de resignar-se à vontade divina e orar por um milagre. Tem-se a sensação de um Brasil em derrocada. Predomina o sentimento de incredulidade e negativismo. É a distopia, minando a estima. Muitos cristãos carecem da esperança, uma virtude teologal. Revoltam os gastos excessivos e o desperdício do dinheiro público diante da fome e da precária assistência na saúde, educação e segurança. Causa asco o cinismo dos infratores, acrescido da demagogia e politicagem com interesses espúrios. O povo fica perplexo e apoplético. Resta-lhe apenas calar-se diante da liberdade sufocada, da insegurança reinante. Presencia-se a queda dos princípios pelas conveniências, do Bem pelos bens. A Bíblia contém vários exemplos de desalento, como o que se vive hoje. A saída não depende deste ou daquele partido. E sim da consciência e união de todo o povo, embasadas numa maneira digna e autêntica de pensar e agir, inspiradas em postulados éticos. Cristo não teve pressa em instaurarseu Reino. Adotou uma atitude que possibilita e efetiva a perseverança. Reuniu discípulos e plantou sementes de uma filosofia de vida. Esta se alicerça no amor, respeito ao outro, compaixão, solidariedade e partilha. Não se pode esquecer a verdade do salmista: “Senhor, todos os que esperam em Ti não serão confundidos” (Sl 25/24, 3). Cristo assegura-nos: “Estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).
Derrubar muros e barreiras Padre João Medeiros Filho Nos idos de 1960, quando estudante na Bélgica, ouvia colegas europeus, notadamente alemães, discutir sobre o Muro de Berlim. O objetivo deste era separar os habitantes daquela cidade germânica, por razões políticas e ideológicas. Ficava pensando como isso acontecera num país considerado civilizado e desenvolvido. Não poderia imaginar que, décadas depois, veria algo semelhante, em meu país. Atualmente, há no Brasil um muro, de difícil demolição. Foi construído, não com pedra, ferro e cimento, mas com intransigência, radicalismo, rancor e ódio, tornando irmãos e compatriotas em inimigos. Infelizmente, passados tantos anos, a civilização contemporânea não conseguiu ainda fazer com que avanços tecnológicos e científicos fossem acompanhados de posturas humanistas e éticas, capazes de demolir paredões fraticidas para estabelecer vínculos entre as pessoas. Cada vez mais, verificam-se cenários de conflitos e diferentes modos de exclusão social. Os discursos e propostas tornam-se repetitivos, obsoletos, estéreis e demagógicos. A sociedade paga um alto preço por sua deterioração social. Ocorre uma inércia ético-moral, neutralizando ações de efetiva solução dos graves problemas e fragilizando iniciativas para o enfrentamento de crises. Há falta de união, racionalidade, interesse e solidariedade, até mesmo para aniquilar um mosquito. Mais do que descuido administrativo, configura-se na carência de sensibilidade humana e espiritual. Isso gera incapacidade para diálogos indispensáveis à ruína de vários muros. Muitos deles são erguidos em nome do bem-estar e proteção à democracia. Outros, com tons de “apartheids”, inviabilizam o respeito à liberdade ou dignidade humana. Recorde-se a Palavra inspirada: “Irmãos, exorto-vos a ter cuidado com os que causam divisões e colocam obstáculos em seu caminho” (Rm 16, 17). Apesar do progresso e desenvolvimento tecnológico, científico e socioeconômico, o Brasil ainda padece de muitos males, cuja solução necessita de diagnósticos precisos, lúcidos e ações eficazes. Poder-se-ia citar um conjunto de barreiras sociais que se levantam, inviabilizando pontes. Dentre elas, incluem-se a apatia e a anestesia social, que fazem crescer a indiferença, criando obstáculos entre os indivíduos. A esperança para a queda dos muros reside na convicção e vivência da fé. Esta poderá apontar saídas justas e humanizadas para as diferentes situações desoladoras, aparentemente insuperáveis. O saber técnico, o desempenho político e outras habilidades são importantes. Todavia, têm-se mostrado ineficientes diante de singularidades da existência humana e complexidades do funcionamento das instituições. A fé e a espiritualidade trazem alentos e sentidos existenciais, alargam o horizonte para cada um tomar consciência do seu relevante papel de agente do bem e da paz. Exorta o apostolo Paulo: “Não haja divisão entre vós. Ao contrário, sede bem unidos” (1Cor 1, 10). A fé proporciona ao ser humano ir além do território do seu próprio bem-estar. É com ela que se aprende a praticar e demonstrar o amor fraterno, superando o anseio de destruir o semelhante. Viver a espiritualidade e a autêntica crença religiosa consiste em cultivar uma abertura para todos, efetivando a derrubada de barreiras e a edificação de pontes. Para tanto é indispensável ultrapassar a lógica materialista, a dinâmica interesseira e as conveniências ideológicas e partidárias. Cabe lembrar que Cristo é o Pontífice. Este termo etimologicamente significa aquele que faz pontes. Segundo a teologia, a Igreja é sacramento de nosso Salvador, portanto deve ser construtora de união. Nisto compõe-se também a sua missão. Será que está acontecendo assim no Brasil atual? Como faz falta uma ponte. Que o digam os viajantes, de dias passados, com destino de Mossoró a Natal e vice-versa. Sua inexistência torna a viagem mais demorada e talvez perigosa. Assim é o mundo sem Deus. E para se achegar a Ele, precisa-se recorrer ao Pontífice: Jesus. A ausência de ligações leva ao monólogo, fomentando a insensatez de eliminar os outros. Há muros e fossos construídos, colocando em lados opostos e incomunicáveis indivíduos e grupos. Essa divisão é semanticamente diabólica. Diabo (em grego diábolos) quer dizer separação. Cristo rezou: “Pai que todos sejam um como Eu e Tu” (Jo 17, 21). Somente a vivência da fé e a espiritualidade poderão derrubar muros ou cercas e construir vínculos. Urge edificar pontes de confiança, diálogo, entendimento, reconciliação e paz. Esta “nos é dada [por Deus], não como o mundo no-la dá” (Jo 14, 27).

quinta-feira, 9 de maio de 2024

JOSÉ MARTÍ, POETA E LIBERTÁRIO Horácio Paiva * Nos meus tempos de militância, em que mais estive envolvido com as questões sociais de nosso País, sentia-me inspirado pelas ideias e pela ação de três grandes personalidades históricas que admirava e ainda hoje admiro: Santo Agostinho, Gandhi e José Martí. Serviam-me de exemplo e os conduzia como flâmula libertária em meu coração. José Martí foi um dos grandes heróis da independência cubana em relação à Espanha. Além de excelente poeta, era um sábio, um autêntico humanista. E quanto à sua espiritualidade, como destaca o pesquisador, professor e escritor Werner Altmann (in “Martí Revolucionário”), “livrou-se de todo o dogma e liturgia para transformar sua fé em força moral incorporada à sua religiosidade, à qual vinculou, por toda a vida, o espírito de liberdade, justiça e dignidade. Em virtude disso, sua religiosidade não pode ser dissociada de sua ética nem de seu pensamento político-social.” E cita o eminente ensaísta e poeta argentino Ezequiel Martínez Estrada (in “O Pensamento Político e Religioso de José Martí”), que aponta para duas influências decisivas experimentadas por Martí, ao ler a Bíblia: “a de Moisés, na identificação da Vontade de Deus e a Lei, e a dos Profetas e Juízes, no sentimento insubornável da Justiça.” Martí, um revolucionário não sectário, não promovia o ódio. Não respondia ao ódio com o ódio. Ao contrário, cultivava o amor e o dirigia até mesmo aos seus adversários, como expressa nesse seu belo e famoso poema, “Cultivo uma rosa branca”, aqui transcrito na tradução de Fábio Malavoglia: CULTIVO UMA ROSA BRANCA Cultivo uma rosa branca em junho como em janeiro para o amigo verdadeiro que me dá a sua mão franca. E para o cruel que me arranca o coração com que vivo, nem cardo ou urtiga cultivo; cultivo a rosa branca. Há uma frase desse humanista e grande poeta que sempre trago comigo e que diz: “No hay más que un medio de vivir después de muerto: haber sido un hombre de todos los tiempos - o un hombre de su tiempo” (“Não há mais que um meio de viver depois de morto: haver sido um homem de todos os tempos - ou um homem de seu tempo”). Tenho-a não apenas no coração, mas também num quadro, um cartaz feito a bico de pena pelo célebre pintor cubano René Portocarrero, já falecido. E foi-me presenteado por alguns artistas cubanos em 1989, quando estiveram em Natal e aqui participaram da I Semana de Arte Cubana, com exposição na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN - e recital de poemas na AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), com minha participação como tradutor. O grande poeta e ensaísta Félix Contreras capitaneava essa boa turma. Neste mês de maio, aniversário da morte de Martí, será lançado em Havana um livro físico em homenagem ao grande poeta cubano, pela ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE TROVADORES - OMT. O livro, também será lançado pela editora da Amazon, em formato de e-book, posteriormente. O que há de novo nesse lançamento é a presença, no livro, de 5 escritores potiguares. São eles: Horácio de Paiva Oliveira (AMLA, UBERN, IHGRN), Marcos Antonio Campos (UBERN, ATRN, SPVARN), Francisco Gabriel (ATRN, Casa do Cordel), Aída Maria de Faria (ATRN), Edson de Paiva (SPVARN). A obra conta com escritores da: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, Israel, México, Peru, Uruguai e Venezuela. A publicação é bilíngue em espanhol e português. Concluo com poesia, com minhas trovas nesse livro histórico: JOSÉ MARTÍ, LIBERTADOR Homem de todos os tempos há de ser um humanista um líder sem contratempos além dos passos do artista Girassóis e rosas brancas são recados de amizade e os poemas cartas francas flâmulas da liberdade ........................................................................................................................ *Horácio de Paiva Oliveira é poeta, advogado, escritor, presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA, membro da União Brasileira de Escritores – UBE/RN, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

A permanência do conhecimento e do humanismo na vida do professor Alberto Campos Na “capital” do Seridó, Alberto faz duas amizades improváveis que mudariam sua vida. gazeta de macaugazeta de macauAbr 26, 2024 - 17:0358 Facebook Twitter A permanência do conhecimento e do humanismo na vida do professor Alberto Campos Por Carlos Lucas* Passar em revista a vida do odontólogo e professor Alberto Campos, mesmo em poucas linhas, equivale a caminhar no terreno pavimentado do conhecimento e do humanismo. Antes do profissional conceituado e do professor laureado, temos o homem educado, cordial e elegante no trato. Um cavalheiro na humana arte da convivência. Alberto Campos viu luz pela primeira vez em 20 de outubro de 1909, no bairro de Afogados, no Recife. Os estudos secundários foram feitos no Colégio Marista, onde teve uma consistente educação religiosa, a ponto de se tornar seminarista na capital de Pernambuco, o que lhe rendeu grande trato com o latim. O esporte também fez morada na vida do jovem Alberto Campos. Na Veneza brasileira, vestiu as cores do Sport Club do Recife, pelo qual foi ponta esquerda. Filhos de pai português de pouco estudo, mas empreendedor, Alberto e seus cinco irmãos ganharam uma polpuda herança quando da morte do genitor. Todavia dilapidaram a fortuna como se não houvesse amanhã. Os herdeiros gastaram a dinheirada com coisas mundanas e avistaram nuvens plúmbeas no horizonte. Nas idas e vindas da vida, o ex-seminarista recebe outro chamado: o da Odontologia. Ingressa na Faculdade de Medicina do Recife e cola grau a 7 de dezembro de 1933. Tão logo empunha o diploma monta consultório na capital, onde clinica por pouco tempo. Casa-se em primeiras núpcias com Maria José Granja, com quem teve uma filha por nome Dejardiére. O casamento não vai à frente. Em seguida, parte para Igarassu, na Região Metropolitana. E da cidade litorânea pernambucana segue para Caicó, destino de quem saia do Recife, via Igarassu. Na “capital” do Seridó, Alberto faz duas amizades improváveis que mudariam sua vida. Conhece os próceres da política potiguar, notadamente Dinarte Mariz e Walfredo Gurgel. Visando voos mais altos, Campos se muda para Natal, onde monta consultório em um prédio de dois pavimentos na avenida Rio Branco com a rua Ulisses Caldas. Ingressa na política e se candidata a deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Não obtendo êxito, vai trabalhar na Legião Brasileira de Assistência (LBA), à época situada à avenida Bernardo Vieira, hoje Nevaldo Rocha. Egresso da LBA, ingressa na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Carreira Na UFRN, Alberto Campos deixou seu nome no panteão daquela instituição de ensino, onde exerceu diversos cargos. Em 1948 é nomeado para reger a Cadeira de Clínica Estomatológica da Faculdade de Odontologia, por ato do Governador José Augusto Varela. Dez anos depois, em 1958, recebe outra nomeação. Desta feita para o cargo de Dentista, do Quadro Geral de Pessoal do Serviço Social da Indústria (SESI). No ano de 1960, nova nomeação para a função de Dentista pelo então Governador Dinarte Mariz. Em 1966, Campos é designado pelo Magnífico Reitor da UFRN, Onofre Lopes da Silva, para ser coordenador de Odontologia junto ao Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (Crutac). Notável em seu campo de trabalho, toma posse no ano de 1967 como Diretor da Faculdade de Odontologia, ficando no cargo até 1971. Um ano depois assume o posto de Professor Titular da citada faculdade. No mesmo 1972 é nomeado professor Catedrático da UFRN. No período de 1974 a 1976, assume a chefia do Departamento de Odontologia Clínica. Dois anos se passam, e em 1978 o professor Campos recebe a Medalha do Mérito Universitário, no Grau de Oficial. Para coroar a carreira na academia, em 1980 granjeia o título de Professor Emérito da UFRN. Ainda na academia, Alberto Campos foi chefe de gabinete de vários reitores, especialmente Onofre Lopes, Genário Fonseca e Domingos Gomes de Lima. A sua contribuição para o crescimento do Curso de Odontologia é inegável. Por meio de suas iniciativas, capacitou e qualificou incontáveis profissionais para o mercado de trabalho. Com a construção da nova sede da Faculdade de Odontologia, na avenida Salgado Filho, em amplas e modernas acomodações, cresceu a necessidade de aumentar o quadro docente com Curso de Pós- Graduação, assim como qualificar o existente. Pensando sempre na excelência dos profissionais, Alberto usou a Pós-Graduação em Odontologia, na cidade de Bauru, no interior do Estado de São Paulo, como porta de acesso para que os recém-formados em Odontologia ingressassem na docência da Faculdade. Pelos notáveis e relevantes serviços prestados à Faculdade de Odontologia, empresta o nome à Biblioteca Setorial. Também é homenageado com o nome de rua Professor Alberto Moreira Campos, CEP: 5908-520, no bairro de Nova Parnamirim, na zona Sul. Campos também foi presidente da Comissão Permanente de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva (Copertide), que, à época, cuidava da avaliação e concessão do regime de trabalho dos professores da UFRN, tempos depois rebatizada de Comissão Permanente do Regime de Trabalho. Nos dias de hoje recebe o nome de Comissão Permanente de Pessoal Docente (CPPD). Alberto Campos trabalha na UFRN até atingir a idade da aposentadoria compulsória, aos 70 anos. Incapaz de viver longe da academia, regressa à Universidade, sem ônus, para prestar serviços na Coordenação dos Campi, que funcionava em uma pequena edificação com pouco mais de 60 metros quadrados, próxima ao Setor de Aulas Teóricas I, no Campus Central da UFRN. Honrarias O professor Campos já fazia parte e movimentava-se com desenvoltura no seio da sociedade natalense, quando em 25 de janeiro de 1967 o seu nome foi proposto para integrar o Quadro de Maçons da Loja Maçônica Bartolomeu Fagundes, que pertence ao Grande Oriente Independente do Estado do Rio Grande do Norte (Goiern). A apresentação do nome de Alberto coube ao amigo e colega de profissão, Ascendino Henriques de Almeida Junior, sendo aceito, por fim, em sessão realizada a 5 de abril de 1967. A iniciação ocorreu no dia 5 de agosto do mesmo ano, no grau de Aprendiz. No ano seguinte, passou ao grau de Companheiro para, em seguida, passar a Mestre Maçon. Na Maçonaria, Alberto percorreu uma trajetória de sucesso, ocupando vários cargos, tanto no âmbito da sua loja Maçônica, como no âmbito do Goiern. Foi Primeiro Experto, Orador, Secretário, Conselheiro Estadual e Deputado na Soberana Assembleia Legislativa Maçônica por várias legislaturas, chegando ainda a Grande Inspetor da Ordem (Grau 33). Por tudo que representava para Natal, o reconhecimento de Alberto Campos veio com o Título de Cidadão Natalense, proposto pelo vereador e amigo José Elesbão de Macedo, que por muitos anos exerceu atividades na antiga Faculdade de Odontologia. A proposta foi aprovada por unanimidade dos vereadores presentes à sessão, e o Título entregue em Sessão Solene, na Câmara Municipal do Natal, numa época em que a sede do legislativo municipal funcionava na Praça André de Albuquerque. Registre-se, ainda, que na Academia Norte-Riograndense de Odontologia, Alberto Moreira Campos é o Patrono da Cadeira 34. Vida pessoal Logo que chegou a Natal, Alberto Campos conheceu a jovem ceará-mirinense Geny Brandão, escrevente da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA). O primeiro alumbramento foi nas areias escaldantes da praia, hoje conhecida como dos Artistas. E o amor à primeira vista logo tomou morada no coração do pernambucano. Ainda na praia, quando deu sua hora, Geny recolheu seus pertences para voltar para sua residência na avenida Presidente Bandeira. Morava com a família. Alberto a seguiu e nas proximidades da casa da pretendida, pediu a um adolescente para levar um bilhete até as mãos de Geny. A investida não surtiu efeito de imediato. Após novas tentativas e de paciência bíblica, Alberto, com muito tato, conquistou o coração de sua amada para sempre. Consolidado o matrimônio, o casal vai morar na rua Trairi, no bairro de Petrópolis. Em seguida, na rua Senador Guerra, na Cidade Alta, avenida Presidente Bandeira, no Alecrim, voltando para a rua Trairi. Ainda em Petrópolis, Alberto, Geny e filhos moram em três casas distintas na rua Ana Neri, e, finalmente, em 1967, o odontólogo adquire uma casa própria na rua Tenente Brandão, no Alecrim. Do laço matrimonial entre Alberto e Geny, nasceram sete rebentos, nomeadamente Roberto Campos (morto prematuramente), Sônia Paiva Campos, Lígia Campos, Geniberto Campos, José Ferreira Campos, Paulo Roberto Paiva Campos e João Maria Paiva Campos (Joca). Amigos e familiares descrevem Alberto Campos como um homem elegante e de bom coração. Era um cidadão solar. Apreciava dias ensolarados na sua casa da cidade, na granja ou na casa de praia. Mas ao cair da tarde era tomado de uma melancolia que só encontrava consolo em Geny. Cidadão de hábitos simples, no meio da semana gostava de fazer compras de mantimentos para a casa. Escolhia mercadinhos de bairro, em vez de supermercados. Optava por comprar um item por dia para ter o que fazer todos os dias da semana. Aos domingos costumava fazer compras em uma feira instalada na rua São José, entre as avenidas Bernardo Vieira e Antonio Basílio. A 17 de janeiro de 1987 faleceu Alberto Campos, há menos de um ano do encantamento de Geny, em 1986, por complicações decorrentes de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Com a partida da amada, o professor tornara-se um homem melancólico, ensimesmado. Era difícil viver sem a presença física da companheira de longa data. Se a rotina perfeita é Deus, Alberto foi se encontrar com Geny nos braços do Senhor para lá continuarem a se amar. Carlos Frederico Lucas é articulista, poeta e contista.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Jair Eloi de Souza 30 de abril às 12:26 · ASSIM ESCREVI: SOBRE OS CABRAS MATADORES DE ONÇA NO SERTÃO, DESTAQUE PARA O CAPITÃO CAZUZA SÁTIRO*. O Ciclo do Gado nos sertões do Nordeste Brasileiro, foi o lapso temporal mais reflexivo e importante da história da ocupação dos grotões do cinzento. Ressalte-se que neste contexto épico, se nutriram heróis anônimos, ícones das populações rurícolas, ribeirinhas, nos mais distantes e pobres grotões do semi-árido brasileiro, dentre os quais se revelaram os bons vaqueiros catingueiros, alguns brancos, outros, a maioria, negros, cafuzos, pardos ou sararás, saídos dos quilombos ou dos caburés., Gente de pouca pabulagem e de muito agir. Cangaceiros, cantadores, e os famosos, renomados cabras onceiros, valentes, audazes, destemidos, homens de referência na proteção do rebanho bovino, usando o clavinote com pequenas adaptações e a zagaia, ajudados por cachorros comuns, “viralatas”, porém, adestrados no trato da caçada à onça entocada, quando adentravam nas furnas penhascosas. Nesse assunto, não precisei de folhetos cordelistas, histórias de repentistas ou de cegos cantadores nas feiras livres. O velho matuto Eloi Gonçalves de Souza, gente do clã dos Gonçalves da Ribeira meã do Piranhas, confins do Seridó, com suas narrativas da lavra sertaneja, sendo comboieiro, afeito aos caminhos agrestes do sertão, que nas grandes secas se fazia tangerino “oficial” do coronel Marinheiro Saldanha, quando era responsável pelas “retiradas”, para salvar parte do gado, especialmente quando tomava o rumo das serras paraibanas e cearenses, sempre foi minha grande fonte de informação, quanto à vida de cantadores, dos vaqueiros catingueiros e pegas de barbatões, amansadores de poldros, cangaceiros e dos caçadores de onça, tanto nos sertões potiguares, quanto no cinzento paraibano. Na verdade dois agentes predadores sempre fustigaram os rebanhos: em princípio, o índio entocado e faminto, nos últimos redutos, em sovacos de serras, nos épicos anos setecentista e primeira metade dos anos oitocentistas. E por último, com recrudescimento de ataques aos rebanhos bovinos, por toda a segunda meação do século dezenove e as primeiras décadas do século vinte, pela onça preta ou pintada, a suçuarana, parda ou vermelha. Segundo o velho Eloi de Souza, matuto por ofício, que conhecia as travessias e os penhascos carrasquenhos, os peadores e os pontos de arranchação mais seguros dos sertões do Seridó, quando vinha para o Curimataú da terra de Zé Américo e nos sertões paraibanos e cearenses, quando buscava rapadura e farinha no Carirí do “Padim Cíço” Romão, a introdução ou mesmo a substituição do “gado peduro”: orelha curta e arredondada, manteúdo, de pouco leite, dócil e de bom traquejo, pelo mestiço de “indu-brasil”, este de orelha estirada na vertical, malabá, tetas grandes e grossas, os rebentos nasciam moleirões, bezerros graúdos, as vezes e não era raro, não conseguiam mamar. A mãe, após a limpeza do rebento, recolhendo os resíduos da bolsa placentária, “pelejava” o dia inteiro, protegendo o filhote, sem comer nem beber, porém dado momento e ao entardecer, tinha que se ausentar para se alimentar e beber no choradouro mais próximo. Era nessa hora que a onça preta ou pintada, suçuarana ou parda, atacava a cria desnutrida, primeiro sagrava e com o chegar da noite fosca, carregava no lombo para os seus covis, não raro, utilizando de suas garras alongadas, atravessava quando existentes, cercas de pedras. Aí, dizia o velho confidente e prosador, é quando entram em cena os cabras onceiros. Nos sertões potiguares, destaque para Miguelão das Marrecas, na Serra do Doutor, morador de Joaquim Teles, coisas dos confins da Borborema Potiguar, cujo ofício era atender aos fazendeiros do Seridó nascente, e com maior desenvoltura para José Sátiro de Souza, o afamado Capitão Cazuza Sátiro, legenda máxima naquele ofício, nos confins do Seridó oeste e nas serras paraibanas, adjacências das terras potiguares, sendo um habitante da Ribeira do velho Espinharas, na Fazenda tronco, no pé da serra do mesmo nome, dista cinco léguas da cidade de Serra Negra, já no Município de Pombal, (PB). Sobre esse dois ícones da população sertaneja, afamados matadores de onça, Frederico Pernambucano de Melo, na sua obra Guerreiros do sol, em notas e referências, fls. 335 a 336, citando o velho seridoense Juvenal Lamartine, em sua obra “Velhos Costumes do meu Sertão, traz os versos: “O Miguelão das Marrecas Vei`da serra do Doutor Chamado por Joaquim Teles Para ser seu morador, Porque perseguia onça Como um herói lutador E quanto ao capitão Cazuza Sátiro, morto em l911 já pegando os 83 anos de idade, este sentido preito sertanejo: Em novecentos e quatro Cazuxa tinha encostado As armas de matar onça Estava velho e cansado Findou doente de asma Pelo serviço pesado Morreu o Cazuza Sátiro O nosso herói do sertão Grande matador de fera, Limpo na sua missão, Merecia uma estátua Com a zagaia na mão”. Dois aspectos merecem destaque, para justificar a presença nos sertões nordestinos dos matadores de felinos. Primeiro, a pecuária era extensiva, criação em campos abertos, isentos de cercas demarcatórias, o gado era “passado” pelos seus donos, nas festas de apartação nos fins das águas, ou criado nas grandes “mangas”, mata fechada e com a presença de penhascos e serras cheias de furnas naturais ou covis, mas, onde havia a presença de ramas ricas em proteína, como o camará, o mororó, a caatingueira e a jurema. E nas terras de baixios, aluvião e áreas ribeirinhas, destaque para a presença das canafístulas, ingazeiras, juazeiros, e finalmente nos ante-planos, as gramíneas como a milhã, o pé-de-galinha e o velho panasco, de degustação palatável pelo rebanho, quando da estação chuvosa. Sem prejuízo da presença dos “choradouros” ou “Olhos d´água, onde a manada bebia. O segundo aspecto, conseqüência do primeiro, é que não havia o manejo diário ou semanal das manadas do gado vacum, em razão de que, sempre surgiam “barbatões”, animais rebeldes, outros se tornavam touros guias, e passavam a comandar e proteger o rebanho ou parte deste, ganhando os grotões quase inacessíveis. Saliente-se que eram sensíveis às incursões dos felinos, quando sentiam ou ouviam os esturros ameaçadores destes, ocasião em que arrebanhavam a manada em vigilância circular, em que pesem a existência de desavenças por liderança, nessas horas, davam prioridade a integridade do rebanho. Porém, algumas reses desavisadas, e não raro acontecia, caiam nas garras dos felinos, com isso, esses carnívoros dotados de uma esperteza e mobilidade aguçadas, passaram a acompanhar os rebanhos e atacá-los de forma devastadora, com preferência por ocasião das grandes secas, com prejuízo para os fazendeiros da época. Em sendo assim, os criadores sertanejos, além da necessidade da presença do vaqueiro, para a faina diária no traquejo dos animais, passaram a contar com a presença dos valentes caçadores de onça, alguns com exclusividade, na proteção dos seus rebanhos, e a cada felino morto crescia o fetiche das populações rurícolas pelos heróis das zagaias, o prestígio e a fama destes, eram cantadas e decantadas em folhetos nas feiras livres das freguesias, pelos emboladores de cocos e cegos rabequistas. Poucos escribas em suas crônicas da cena sertaneja, evidenciaram na forma amiudada, como transcorreu a gesta dos cabras onceiros, é bem verdade que estes deixaram rastro de feitos heróicos, façanhas para poucos destemidos, mas é preciso que se entenda epicamente a razão da existência desses heróis anônimos e a forma como se dava a atuação desses, na agresteza dos rincões mais distantes nas terras ínvias do semi-árido nordestino. A faina do traquejo do gado, era tarefa para os vaqueiros, tangerinos, rastreadores, tratadores sedentários, mas, nenhum desses tipos, tinham aptidão, para enfrentar as feras famélicas, nos anos de secas, em seus covis nas entranhas dos penhascos, como faziam os cabras onceiros. Geralmente agiam aqueles em grupos, encourados com gibão, perneiras, peitoris, montados a cavalo ou em burros mulos. Já estes, eram heróis solitários, ganhavam os boqueirões, desfiladeiros e abas de serras, penhascos íngremes, quase inacessíveis. Entre os poucos dos que oficiavam na caça à onça faminta, parte era composta de agregados de médios e grandes criadores, viviam na miséria, recebendo pouco pela faina perigosa, embora fossem sempre ovacionados e decantados pelas populações sertanejas. Mas, quando chegavam à ante-sala da velhice, baixavam as armas, às vezes seqüelados, passavam a viver de favores da família. O velho Eloi de Souza, que se iniciara muito cedo na vida de comboieiro como matuto almocreve, conhecendo os caminhos entrecortados pelas serras paraibanas e cearenses, peadores e pontos de arranchação, quando das idas ao Cariri, e especialmente nas grandes secas de quinze e dezenove, e cá já nas eras de trinta, exercendo o ofício de tangerino, responsável pelas “retiradas” do Cel. Plínio Dantas Saldanha, o velho Marinheiro, para a Ribeira do Espinharas a começar das goelas do Teixeira. Conviveu com muitos que conheceram o Capitão Cazuza Sátiro, exímio matador de onça, que dava persiga às reses naqueles sertões bravios. Era um dos poucos aquinhoados, a exemplo dos Pereira Valões, nos sertões de Pernambuco. Pois, possuía uma bela semente de gado, pastando nas encostas da Serra do tronco onde tinha fazenda de mesmo nome. Portanto de entender-se que tinha no ofício de matar onça, a áurea de um guerreiro valente à moda sertaneja, que desdenhava dos riscos sempre presente. Por outro lado, não havia em si, uma matança indiscriminada, a ação exterminadora era direcionada ao felino faminto e agressivo ao rebanho. Ouviu o Velho matuto seridoense da ribanceira do Rio de Piranhas, muitos histórias da gesta do renomado caçador de onça naqueles rincões. Contara que certa vez, tendo sido aquele convocado a “dar cabo” de onça-parda, que dizimava o rebanho na aba de uma das serras do Catolé do Rocha, trecho que não lhe era familiar, mas tinha o adjutório de positivo rastreador da região, depois de vários dias de levantamento dos covis, de trabalho rastreador ao felino marcado para morrer, sem sucesso na empreitada, chega finalmente ao quinto dia e ao penhasco onde estava o animal enfurnado. Sentindo sua presença, a fera dava esturro de intimidação ao estranho que ameaçava seu território, não sabia aquela que estava diante do seu maior e mais temível inimigo, o velho experiente, Capitão Cazuza Sátiro. Apesar dos esturros ameaçadores, não dava sinais de sair da furna pedregosa. Isso preocupava o velho onceiro, que de logo tratou de acomodar seus cães, e fazer rápida incursão para desvendar o mistério. Pela fresta de rochedo à carga, próximo a gruta, percebeu tratar-se de fêmea parida, com dois filhotes a amamentá-los. A alma sertaneja valente, do velho e audacioso Cazuza partira-se. É que nunca deixara de ter respeito por mulher prenha ou dando leite a “menino de colo”. Relutante em princípio, era a primeira vez que se encontrava com uma fera e não fazia o “trabalho”, apesar de exposta. Logo tomara a decisão mais travosa de sua vida, justamente ele que sempre teve alma de aço e de luta. Era um colecionador de carcaças dos felinos abatidos, agia quase sozinho na hora “H”, embora tivesse um ajudante de sua confiança e seus cães adestrados, fustigadores de felinos. “Batera em retirada”, a caminho de volta para casa do fazendeiro solicitante. E ao chegar, antes de ser provocado, indagara daquele: Se lhe confiava em venda dois carneiros “iguaiados”, e se podia abatê-los ali mesmo, precisava alimentar uma mãe com filhos pequenos. O contratante não se opôs, mas indagou-lhe, deu cabo da fera? Respondeu o velho onceiro: "Minha alma é valente e destemida, mas sepultar crianças, é uma tarefa penosa, venho nos “fins das águas” e faço o serviço, não lhe custa nada". Ao ouvir o relato desse meu ancestral de “quatro costado”, o velho Eloi Gonçalves de Souza, a minha grande universidade da vida, quanto aos informes dos sertões bravios, como jovem escriba, entendi porque a gesta sertaneja dos cabras onceiros, é magnânima. ."É que tem suas tipicidades valorativas na saga única de um povo com bravura diferente". Professor JAIR ELOI DE SOUZA UFRN - CURSO DE DIREITO

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Relíquias de Santa Teresinha Padre João Medeiros Filho As relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus estarão expostas à visitação, de um a cinco de maio próximo, na Arquidiocese de Natal (RN), mormente no Carmelo de Emaús (Parnamirim). Guardamos com carinho lembranças materiais inestimáveis de nossos pais e pessoas queridas. Assim age a Igreja com os restos mortais dos santos e beatos, bem como objetos por eles usados. São sinais indicativos para a veneração dos fiéis. De Leão XIII a Francisco, os pontífices manifestaram encantamento com o testemunho cristão da Santa de Lisieux. Esta entrou para a vida religiosa, aos quinze anos de idade, com o beneplácito de Leão XIII. “É a maior santa dos tempos modernos”, declarou Pio X, exaltando a profunda espiritualidade da jovem carmelita. Um dos últimos atos desse Pontífice foi abrir o processo de beatificação da jovem religiosa. Bento XV introduziu a expressão teológica “infância espiritual”, referindo-se à vivência mística de Thérèse Martin. Ela seguiu o ensinamento do Mestre: “Se não vos converterdes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). A infância espiritual consiste na confiança em Deus e no entregar-se nas mãos do Pai. Pio XI chamava Teresa de Lisieux “Estrela do meu pontificado.” Mesmo antes de ocupar o trono de Pedro, devotava-lhe profunda reverência. Elevou-a à honra dos altares, aos 17 de maio de 1925, constituindo-a padroeira das missões, em 14/12/1927. Desde cedo, o culto àquela eleita de Deus se fez presente no RN. Nosso terceiro bispo diocesano, Dom José Pereira Alves e o primeiro arcebispo metropolitano, Dom Marcolino de Souza Dantas, dedicavam-lhe especial devoção. O primeiro educandário feminino de Caicó, construído em 1925 pelo Cônego Celso Cicco recebeu, por sugestão de Dom José Pereira, o nome de Santa Teresinha. Em 1930, Dom Marcolino inaugurou o Santuário do Tirol, elevando-o posteriormente à condição de paróquia. Apôs o nome da santa carmelitana como copadroeira. Ela marcou tanto a piedade dos fiéis, a ponto de denominarem até hoje Igreja de Santa Teresinha, geralmente omitindo Nossa Senhora das Graças, também co-patrona. Pio XII manteve correspondência assídua com o Carmelo de Lisieux. Enquanto cardeal, ali esteve diversas vezes a fim de presidir solenidades. Em 1934, foi designado legado papal “a latere” no Congresso Eucarístico Internacional de Buenos Aires. Levou consigo uma relíquia de Teresa à qual confiara a sua missão. Durante o tempo em que viveu no Vaticano, mantinha contato com as carmelitas Pauline (Madre Agnes) e Celine (Ir. Geneviève), irmãs biológicas de Teresinha. “Esta discípula do Menino Jesus nos conduz ao porto seguro”, assim se expressou João XXIII. Na audiência geral de 16 de outubro de 1960, proclamou: “Ela foi grande por ter sabido, na humildade, simplicidade e constante abnegação, colaborar para o bem de inúmeros fiéis.” Paulo VI chegou a afirmar: “Nasci para a Igreja no dia em que Teresinha partiu para o céu.” Reconheceu que a humildade é o espaço do amor. A intimidade com Deus inspira a transcendente caridade. João Paulo I, quando Patriarca de Veneza, fez uma conferência por ocasião do centenário do nascimento de Teresa, escrevendo-lhe uma carta em seu livro “Illustrissimi”. Confessa ter lido “História de uma alma”, aos dezessete anos. Em 1977, ao proclamá-la Doutora da Igreja, João Paulo II efetivou o sentimento de seus predecessores. Na audiência geral de 6/4/2011, Bento XVI pronunciou significativa alocução sobre Teresinha. Antes de morrer, rezou como ela, olhando para o crucifixo: “Meu Deus, amo-Te.” O ato de amor, expresso no último suspiro, traduzia o incessante balbuciar de preces de Teresa e Joseph Ratzinger. Em 2023, por ocasião do sesquicentenário de nascimento da Santa de Lisieux, Francisco dedicou-lhe a Exortação Apostólica “C’est la confiance”. Assim escreve: “Em nossa existência, onde muitas vezes, nos dominam medos, desejo de segurança humana, necessidade de ter tudo sob controle, a entrega a Deus liberta-nos de cálculos obsessivos, preocupação constante com o futuro e medos que nos tiram a paz.” “Teresa do Menino Jesus é um mimo de Deus para nós, suas crianças”, pregou Dom Nivaldo Monte, por ocasião do centenário natalício (1973) da filha dos Santos Luiz e Zélia Martin. “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5, 48), recomendou Cristo aos discípulos
É PRECISO DESARMAR OS RESSENTIMENTOS Valério Mesquita mesquita.valerio@gmail.com O conhecimento e as razões dos fatos da vida pública nós já temos. Mas, qualquer pessoa que procure entender é suspeito de estar contra eles. Não temos nenhuma idéia preconcebida sobre as pessoas e as coisas que nos rodeiam. Não serão as versões de terceiros que irão impedir que tenhamos nossa própria opinião. O orçamento estadual para 2021, por exemplo, foi tão convulsivo que não impediu que fosse desligado o redutor de ansiedades. Mas é isso mesmo, em estado depressivo foram criadas sinfonias, poemas comoventes e pinturas imortais. Da maneira como o legislativo concebeu e aprovou desembocou em questionamentos. Virou para o executivo potiguar um monólogo shakespeariano: ser e não ter. Passamos a compreender que orçamento público é metamorfose. São constituídos de números cheios de contradições. Não vamos exagerar a impressão de parecer medíocre, trivial, para ser popular. Quem absolve o político não é o povo, é a confissão. Na complicada arte de governar ser natural é a mais difícil das poses. Nenhum político e/ou empresário são suficientementes ricos para comprarem o seu passado. Quantos não podem dizer “nada anseio, nada temo – sou livre”. Por isso, é que definem dinheiro como adubo: só serve quando espalhado. O escritor Oscar Wilde colocou na boca de um rico, a seguinte frase: “não quero ir para o céu. Nenhum dos meus amigos está lá”. Ora, como no Jardim do Éden, Franz Kafka disse que “a mediação da serpente foi necessária. O mal pode seduzir o homem, mas não pode se transformar em homem”. Delírio kafkeano, delírio, apenasmente... O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificados pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos. Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro. E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão “imortal” quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais etc). Daí deduzir que toda celebridade no Rio Grande do Norte quando não é célere é celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as “glórias e grandezas” de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela “revolução” dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade. Aí, instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza a política como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Isso tudo porque desamou os frutos e deixou prevalecer os rancores. (*) Escritor

quarta-feira, 24 de abril de 2024

TACADAS DE MESTRES Valério Mesquita* Mesquita.valerio@gmail.com 01) Há alguns anos, fui ao lançamento do livro do jornalista Paulo Augusto sobre “Zé Areia, o bufão de Natal”. Ótima iniciativa do editor Abimael Silva. Paulo Augusto com a sua verve e estilo inconfundível narra fatos pitorescos e incríveis idos e vividos pela figura de Zé Areia, lenda e legenda do humor natalense. Pesquisou e reuniu em livro tudo o que foi e representou esse “sábio” e sabichão chapliniano das Rocas, Ribeira e Cidade Alta. Esticando a conversa, Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia de Letras do Rio Grande do Norte, lembrou que Zé Areia tinha o hábito de entrar de fininho na casa de Câmara Cascudo, na Junqueira Aires, só para surpreendê-lo de modo bizarro ou atípico. Calçar as meias do mestre, quando se achava sentado ao birô, de pijama, datilografando seus trabalhos. Com certeza, Zé Areia, com o gesto, incluía-se, na sua “acta diurna”. 02) Certa vez, Zé Areia, cortava o cabelo da turma da penitenciária “João Chaves”, ali onde hoje é o Centro de Turismo, em Petrópolis. Trabalho árduo e perigoso. Zé suava às bicas com medo dos erros de cálculo. Baracho, Pé Seco, Lolô, entre outros lampiônicos, eram mais terríveis do que os da chuva de balas no país de Mossoró. Certo dia, casualmente, encontrou-se com o monsenhor e governador Walfredo Gurgel. Incontinenti, pediu clemência e ingressou oficialmente com petitório incomum: “Padre, me aposente logo dali que eu lhe prometo só viver dois anos!”. 03) Dos arquivos implacáveis do saudoso tabelião Raimundo Barros Cavalcante, chegou-me essa história narrada pelo seu filho Paulinho sobre o folclórico Zé Areia. Homem pobre, Zé sempre recorria aos amigos pedindo ajudas providenciais. No cartório de Raimundo ele era “mensalista”. Todo fim de mês a tabeliã substituta Dione Macêdo estava autorizada a proceder o pagamento. Zé Areia chegava de mansinho, sentava, aguardava, recebia e ia embora. Mas, em dezembro ele recebeu a ajuda e permaneceu sentado e calado. Dione curiosa, perguntou: “Seu José o que está faltando?”. Zé Areia com aquela seriedade teatral responde sem perder a calma: “O décimo terceiro”. Raimundo, consultado, mandou pagar imediatamente. Zé Areia havia ingressado solenemente na folha salarial do cartório. 04) Lembrei-me da figura poética e etílica do grande Newton Navarro, mergulhando nas madrugadas profundas das Rocas, Quintas, Canto do Mangue, sem se aguentar mais em pé, sem companhia, sem proteção, sem táxi, exposto ao perigo, naquele baixo clero. De repente, impetra um inaudito habeas corpus que só aos poetas do seu porte é dado o privilégio: chamou o carro da polícia para deixá-lo em casa. E sempre foi obedecido. Era a proteção do estado à incolumidade física e intelectual do poeta da cidade. 05) Numa conversa descontraída, perguntaram ao ex-conselheiro do TCE Manoel de Medeiros Brito qual a sua definição sobre o casamento. De bate pronto, fulmina: “uma ilusão gratulatória”. De outra feita, Afonso, um dos seus motoristas da atividade oficial, recebeu dele um apelido que exprimia fielmente o significado de suas proezas de paquerador. Afonso era baixinho, entroncado, mas era querido do mulheril funcional que beirava a menopausa. E Afonso “passava” as gordinhas, mal-amadas, pernetas, num comovente “ofício de caridade”. Sabedor de suas façanhas, Brito desfechou-lhe um apelido definitivo: “Areia de Cemitério”. Come tudo. (*) Escritor

terça-feira, 16 de abril de 2024

Irmã Lúcia, apóstola de Caicó Padre João Medeiros Filho A população caicoense pranteia a perda de Irmã Lúcia Vieira, uma mulher de palavras suaves, gestos ternos, coração misericordioso e cheia de Deus. Durante mais de meio século, marcou Caicó, especialmente o bairro do Abrigo Pedro Gurgel. Animadora vocacional e pastoral, amiga e confidente de muitos, evangelizadora da juventude, anjo dos idosos e desvalidos, assim era a nossa saudosa freira. Trocou o clima serrano, onde vivia, no Ceará pela canícula de Caicó. Revelou um amor ardente pelos pobres, tal qual a temperatura cálida do sertão. Viveu a recomendação de São Vicente de Paulo a Luísa de Marillac: “Tereis por mosteiro a casa dos pobres; por claustro, as ruas da cidade; capela, o quarto dos enfermos; por hábito, a modéstia; e regra, o rosto dos sofridos.” Irmã Lúcia irradiava felicidade, fruto de sua intimidade com Deus e seu amor à Eucaristia. Ensinou às pessoas de seu tempo, sedentas de poder, bens materiais e opulência, que o essencial é a caridade. “Onde estão o amor e a caridade, Deus aí está” (cf. 1Jo 4, 8), cantamos nas celebrações litúrgicas. Ela via Cristo nos deserdados da sorte. Estes eram seus senhores e credores. Escutava-os, servia-os, curava-lhes as chagas do corpo e da alma. Tratava a todos igualmente, com carinho e consideração, pois vivia o Evangelho: “O que fizerdes a um destes pequeninos é a Mim que o fazeis” (Mt 25, 40). Encontrei Irmã Lúcia, pela vez primeira, em 1953, na missa solene de Nossa Senhora das Graças, celebrada por Padre Guilherme Lantman, no Abrigo, onde ela havia acabado de chegar. Anos depois, como sacerdote, estive várias vezes com a religiosa. Quando coordenador da pastoral diocesana, tive, em diversos momentos, a alegria de sentir a grandeza de Irmã Lúcia. Enquanto pároco de São José de Caicó, pude acompanhar de perto o profícuo apostolado da Filha de São Vicente. Meu primeiro secretário paroquial em Caicó, Osvaldo Oscar de Araújo, me aproximou ainda mais daquela santa freira. Certa feita, ela pediu-me para ajudar a pagar a conta de luz do Abrigo, onde residia. O valor da fatura era um pouco elevado. Irmã Lúcia mantinha ali uma sala bem iluminada para que os estudantes carentes (não dispondo de boa iluminação doméstica) tivessem melhores condições para estudar à noite. Solicitou-me ainda que mandasse fazer cópias das chaves de entrada do Abrigo-Dispensário. Desejava que os estudantes entrassem e saíssem discretamente sem despertar a comunidade religiosa e os idosos que lá habitavam. Outra ocasião, pediu-me que eu solicitasse a Dr. Vivaldo Costa para atender os velhinhos do Abrigo. Adverti que ele era pediatra. Retrucou, dizendo: “Para Deus, todos são crianças.” De profundo respeito aos cristãos, evitava qualquer gesto de divisão partidária. Não queria ligar a imagem das religiosas a líderes políticos. Por esse motivo, acompanhei as primeiras visitas do médico deputado com quem sempre tive laços de amizade. Por conta de um acaso ou desígnio de Deus, foi ela a autora do epíteto de Dr. Vivaldo, como “médico da mãe pobre”. Ao comentar a dedicação do referido pediatra com os menos favorecidos, usou a expressão e um jovem estudante ouviu de soslaio a referida frase, divulgando-a, assim consagrando a alcunha do atencioso médico. Irmã Lúcia faleceu em Natal, no dia seis deste mês, com noventa e nove anos, dos quais sessenta e quatro, marcados pela caridade e dedicados à juventude, aos idosos, carentes, esquecidos, doentes e excluídos de Caicó. Foi a sua grande missionária. Viveu uma “Igreja em saída”, segundo as palavras do Papa Francisco. Certa vez, um dos líderes políticos teceu uma crítica ao clero caicoense: “Alguns padres fazem o enterro dos importantes e ricos. Os pobres são encomendados por Irmã Lúcia. Ela assiste e socorre os desvalidos na vida e na morte.” A religiosa não poupava tempo e saúde. Acreditava que teria a eternidade para repousar. Em nossa última conversa externou o desejo de ser sepultada em Caicó. Mas, abnegadamente ponderou: “Não me pertenço. Sou de Deus e da Igreja.” Seu corpo descansa em Natal. Sua mensagem povoa o coração dos caicoenses. Sua alma está contemplando Deus. Indubitavelmente, ouviu de Cristo: “Vem participar da alegria do teu Senhor” (Mt 25, 21)

sexta-feira, 12 de abril de 2024

QUANDO TUDO COMEÇA APODRECER Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com O homem social hoje virou ambiguidade ficcional. Previna-se o leitor: não confundir amizade social com solidariedade humana. São manifestações caracterológicas do vivente completamente heterogêneas. O egoísmo, a acomodação, modificadas pelo tom da luz reinante destruíram o sentimento cristão do mundo. O homem cresce, vive e morre numa jaula, limitado às imposições de sua vida miúda, repleta de frustrações e às circunstâncias. Há pessoas que pensam que não vão morrer nunca. Principalmente os que são ricos ou que, pelo menos, pensam. Assim imaginam muitos empresários, políticos, socialites, médicos, usineiros, juristas e outros nomes, renomes e pronomes suspeitos. Às vezes, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras no mais profundo silêncio e na mais abominável indiferença. A postura ante o mundo é de desamparo e desalento. Não há lógica própria nessa conduta centrada unicamente na anormalidade do desvio comportamental porque a amizade virou interesse, esbulho, vantagem, lucro. A humildade e a caridade cristã teriam sido substituídas pelo messianismo dos “pobres de espírito”? Seria ataraxia, morbidez ou equívoco trágico imaginar que ninguém seu morrerá nunca? Mas a vida é um labirinto movida por difusa fluidez temporal, constituída de fases e de fezes (no sentido consumista, digestivo da palavra). E eu pensava nesse turbilhão do tempo, dos modismos, que o exercício da amizade fosse contínuo, mas é tão “imortal” quanto a hipocrisia de acreditar nos homens que integram as instituições públicas e privadas (culturais, políticas, empresariais, etc). Daí deduzir que toda celebridade quando não é célere e celerada. A corrosão cotidiana da busca pelo dinheiro e pelo poder enferruja com rapidez as “glórias e grandezas” de alguns profissionais que se julgam donos do mundo, quando pensávamos justos e coerentes. As mutações históricas dos valores da personalidade humana, ao que me parece, foram provocadas pela “revolução” dos costumes sociais, principalmente o comodismo, a apatia pelo semelhante, o medo de morrer, as fobias e a falta de religiosidade. Aí instaura-se um jogo de buscas. O coração desumanizado do selvagem habitante da cidade, que segrega o próximo jamais conhecerá qualquer modalidade de amor, principalmente na noite sem face e derradeira do ataúde, porque em vida foi ausente, insensível, reduzido à condição de bicho. Esse será o calvário do insensato, do que utiliza o poder público como negócio, como moeda de troca. Vai vagar como Caim na noite gelada do tempo sem jamais achar abrigo. Vale relembrar a canção de Chico Buarque de que “apesar de você, amanhã há de ser novo dia, sem precisar de pedir-lhe a licença para este dia amanhecer...”. É preciso preconizar mudanças, alternância de poder, não a reeleição... O poder nas mãos de um só ou de uma família, sem interregno de oposição, de luta, de sofrimento, vira casta, vício redibitório, potestade maligna e imoralidade insepulta. Vale relembrar aqui a desfaçatez de Frederico II, rei da Prússia, que poderia ser brasileiro: “Tudo para o povo, mas sem o povo”. Judas Iscariotes começou furtando um pouco o dinheiro da bolsa comum. Isso não parece dizer nada para certos gestores, prefeitos, vereadores, dirigentes de autarquias e demais autoridades parlamentares. O dinheiro é o verdadeiro inimigo e único rival de Deus. O dinheiro é o “deus visível” em oposição ao verdadeiro Deus que é invisível. Em 1 Timóteo 6:10, “O apego ao dinheiro é a raiz de todos os males”. Daí a mudança ser tão convidativa em nossos dias quando enxergamos, à olho nu, certos administradores do dinheiro público. (*) Escritor.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Radicalismo e polarização Padre João Medeiros Filho O Brasil contemporâneo sofre de fortes manifestações de radicalismo. Talvez não tenha aprendido as lições do passado. A violência tem estado presente nas últimas décadas. As conquistas científicas e tecnológicas não impediram a disseminação de barbáries. Verifica-se o crescimento de irracionalidades, manifestadas em fanatismos, preconceitos raciais, sociopolíticos, econômicos, religiosos e culturais. Necessita-se de sólidos investimentos humanísticos para combater tal fenômeno. Sem isto, a pátria, apesar de tantos avanços técnicos, continuará padecendo de inconcebíveis retrocessos. Dentre os males que abrem feridas sociais está o extremismo, nutrindo insanidades ideológicas, absurdos partidários e provocando perdas irreparáveis. Problemas conjunturais agravamse e o Brasil hodierno não consegue dar novos passos, indispensáveis à dignidade humana. Conta muito a formação das consciências para superar os descompassos alimentados na mente das pessoas. A busca por grupos com força destruidora é a opção de parcela da sociedade. Tais segmentos acreditam que seus juízos sobre a realidade são intocáveis e irrefutáveis. Trata-se de uma postura que faz propagar arrogância, opressão, injustiça e desigualdade pelos recantos do país. Cabe citar Exupéry: “Para alguém compreender melhor e tocar outrem, necessita de uma transformação interior.” Há quem crie um ambiente propício a agressões e ataques demolidores, ao definir o próprio ponto de vista como o exclusivo critério de objetividade, realismo e verdade. Tomado por um espírito beligerante na defesa de suas convicções, perde o irrenunciável compromisso com o respeito ao semelhante. O postulado de muitos é destruir quem diverge e pensa diferente. Há cristãos que trocaram a espiritualidade pela ideologia, a prece pelas reuniões, a teologia pela sociologia, a fé pelo tecnicismo, a ética pela conveniência, a solidariedade pelo interesse grupal, a verdadeira caridade por atos demagógicos. Existe uma cegueira, impedindo de identificar corretamente perspectivas divergentes. Faltam ações que construam alicerces para o convívio humano. Os dissensos e discordâncias podem existir, mas nunca justificar agressões, violências e destruições. Cristo pregou abertura e compreensão: “A nós, portanto, cabe acolhê-los para sermos cooperadores com a verdade” (3Jo 1, 8). É necessário investir no respeito à vida, superando divergências e intolerâncias. Nesse caminho, importa cuidar para não eleger sua própria concepção como norma absoluta na interpretação da realidade. Apegar-se cegamente aos próprios conceitos, desconsiderando o semelhante, é pavimentar a estrada da polarização. Esta sói expressar-se de muitas formas, mormente no partidarismo intransigente, levando a movimentos agressivos e disputas fratricidas. É preciso edificar as bases da estima pelo outro. Sem o compromisso com a paz e o apreço ao próximo, simples divergências poderão agigantar-se, desencadeando ataques à integridade humana. O partidarismo aceita apenas o que endossa ou reforça a sua visão, negando outras perspectivas sobre os fatos. Percebe-se que para superar o extremismo é necessário exercitar a crítica das influências abscônditas nos porões do pensamento. Nesse exercício, deve-se cultivar o que gera a paz. Para isso é preciso estar vigilante para não se tornar hospedaria de ressentimentos motivados por opções ideológicas, inviabilizando a amizade social. Assim é possível ver com mais nitidez. Mister se faz contribuir para transformar a própria casa num território de fraternidade. Não se derrota o mal com a maldade, que sempre conduz a combates violentos e desavenças homicidas. O bem é alcançado com a bondade, rompendo o círculo vicioso da mágoa e do ódio. As virulências do radicalismo, não raro promovidas por interesses econômicos e políticos, pela vaidade da fama, por uma busca pela manutenção das “zonas de conforto” e por desvios psicológicos, deverão ser enfrentadas com verdade e justiça. A procura pela promoção do autêntico humanismo apresenta-se como um importante caminho nesse desafio. A sociedade pode aproximar-se dessa visão humanista ao reconhecer a sacralidade de cada pessoa. Nisto consiste igualmente a espiritualidade cristã e a mensagem do Evangelho. Esses passos dependem do cuidado com os códigos que regem o coração humano, o qual não pode deixar-se contaminar por pessoas e movimentos, eivados de hostilidades. Necessita-se pautar a convivência pelo respeito às diferenças, contribuindo para consolidar no mundo a paz e a amizade social. Tenhamos sempre diante de nós a recomendação do apóstolo Paulo: “Suportar as fraquezas e não buscar em outrem apenas o que nos agrada” (Rm 15, 1)

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Um bispado para Assú Padre João Medeiros Filho Câmara Cascudo, ícone da erudição e cultura potiguar, em “História do Rio Grande do Norte”, menciona a paróquia de São João Batista de Assú, como a segunda a ser criada em nosso estado. Isto ocorreu em 1726, no pontificado de Dom José de Fialho, bispo de Olinda. Seguiu-se à provisão canônica um decreto régio, em virtude da vigência do Padroado em Portugal. Entretanto, o historiador caicoense Monsenhor Francisco Severiano de Figueiredo assegura, em “História Eclesiástica da Parayba”, que Goianinha é canonicamente a segunda paróquia norte-rio-grandense. Em 1690, Dom Matias de Figueiredo e Mello erigiu aquela freguesia, dedicando-a a Nossa Senhora dos Prazeres. O citado sacerdote aventa a hipótese de extravio da documentação na Corte, não tendo recebido o edito real, perdendo a validade por força da Concordata. O ato oficial civil só veio a ser publicado em 1746, após a recomposição do processo e as tratativas de Dom Luiz de Santa Teresa da Cruz, quando bispo olindense. O sucessor de Dom Matias Figueiredo foi o religioso carmelita Dom Francisco Lemos. Este incentivou os confrades (por ele enviados à região mossoroense) a pensar numa futura paróquia. Favorecia a localização de Assú, no centro da Província. Ali, eram missionários os jesuítas, destacando-se em 1714 o Padre Miguel de Carvalho. O processo teve tramitação célere, em razão da distância de Natal, sede da única paróquia. Há mais de oito décadas, não se erige no território potiguar uma diocese. A população norte-rio-grandense em 1940, quando da instalação do bispado caicoense, contava 768.018 habitantes. Em 2021, consoante dados da Santa Sé, reproduzidos pelo site “Catholic Hierarchy”, o estado potiguar detinha 3,4 milhões de habitantes, dos quais 85% católicos. Hoje, apenas a população da diocese mossoroense ultrapassa o número de habitantes do RN naquele ano. É importante que os pastores atuais possam dizer, como Cristo: “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10, 14). Dom João dos Santos Cardoso, arcebispo de Natal, sabiamente em sua primeira Carta Pastoral aos cristãos potiguares, manifesta o desejo de criar mais um bispado com terras desmembradas da arquidiocese. Expressa-se o nosso metropolita, no item 165 daquele documento: “Iniciar o processo de criação de uma nova diocese para melhor atender as necessidades específicas das regiões pastorais.” Referiu-se a um ponto fundamental: a especificidade das microrregiões. A paróquia de São João Batista de Assú canonicamente pertence à diocese de Mossoró. Caberá, portanto, a seu bispo pleitear a constituição de uma nova igreja diocesana. Para tanto deverá ter o assentimento dos titulares de outros bispados, caso algumas das paróquias de suas jurisdições venham a integrar a futura circunscrição. Desde 2001, tenho me manifestado sobre o assunto, em artigos publicados nos jornais: A Verdade, Jornal de Hoje e Tribuna do Norte. Atualmente, a densidade demográfica das dioceses potiguares (1, 1 milhão de hab.) supera a média nacional (750 mil). Caso sejam criadas mais duas sedes episcopais no RN, resultaria numa média de setecentos mil habitantes por circunscrição eclesiástica. De acordo com estudos do Vaticano, o ideal em população para uma diocese é não ultrapassar quinhentos mil habitantes. É relevante também o fator da distância. Por exemplo, São Rafael dista 220 km da sede arquidiocesana. “Não há quem não compreenda quão útil seja para as igrejas demasiado extensas a divisão em novas dioceses”, escreveu São Paulo VI, na Bula “Quantum conferat”, erigindo a diocese de Jundiaí (SP). Assú é polo regional, em torno do qual gravitam vários municípios. Sua vocação de liderança manifesta-se no comércio, na indústria, atividade agropastoril, fruticultura e oferta de serviços. Trata-se de um centro cultural e acadêmico com instituições de ensino públicas e particulares de nível fundamental, médio e superior. Acolhe muitos funcionários de empresas sediadas em municípios vizinhos, tendo a vida familiar, social, financeira e religiosa voltada para “a terra dos poetas”. Esta possui hoje uma população (58 mil) cinco vezes maior que a de Caicó, ao se tornar bispado e quase o triplo de habitantes de Mossoró, quando constituída em sé episcopal. Natal, ao ser alçada à condição de bispado, tinha menos de trinta mil pessoas. Disse Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15).

domingo, 31 de março de 2024

Cartas de Cotovelo – Outono de 2024 – 06 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
A PÁSCOA DE CADA UM É do costume judaico-cristão a comemoração da Páscoa, representando um registro de passagem de libertação do povo Hebreu ou da Ressurreição de Jesus Cristo. Em minha reduzida percepção teológica, considero como Páscoa, embora em outra dimensão, a passagem de quem está perto de nós para um outro plano, este de plenitude espiritual, mas igualmente marcante de um momento triste, como poderia ser de alegria, enfim, uma passagem de acontecimento relevante. Dentro dessa concepção, registro hoje uma passagem de lembrança, de tristeza mesmo, mas de exemplo de vida bem vivida, de compartilhamento muito isonômico de amor, caridade e solidariedade que durou no plano terreno exatamente até 31 de março de 2019, quando não despertou do sono natural dos viventes a minha companheira de 71 anos de convivência THEREZINHA ROSSO GOMES. São cinco anos da viagem final dessa criatura de Deus, de quem tive a dádiva de receber como presente para tanto tempo de caminhada. Chorei muito, mas hoje procuro celebrar sempre a sua partida como uma passagem e, por esse motivo, comemoro o fato como Páscoa, sem medo de cometer qualquer sacrilégio. Por essa razão, substituí a dor pela esperança e pela alegria de poder manter no meu santuário particular uma mulher que tudo fez pela família e pelo próximo. Até os mendigos lamentam a sua ausência, pela bondade e pela luz que transmitia em todos os seus gestos. É bem de ver, entretanto, que não posso evitar alguma lágrima atrevida no instante em que redijo essa crônica de saudade. FELIZ PÁSCOA DONA THEREZINHA.