Cachaça,
história, elemento cultural
Padre
João Medeiros Filho
Pode parecer insólito um clérigo abstêmio abordar tal
assunto. O tema chamou minha atenção, quando criança. Presenciava mamãe
discutir com papai por conta da embriaguez de alguns operários. Ele simplesmente
respondia: “É a única alegria deles, ao terminar a semana, neste fim de mundo (Jucurutu).”
Minha curiosidade foi aumentando. Anos depois, como servidor público, recebi do
MEC a incumbência de verificar a possibilidade da implantação de cursos de
nível superior nessa área. Passei então a ter sobre o assunto um olhar mais técnico,
cultural e científico. Segundo os evangelistas, Cristo transformou a água em
vinho e o transubstanciou em alimento espiritual (Jo 2, 1-12; 6, 55-57). Admiro
a autenticidade de Padre Gleiber Dantas de Melo degustador da bebida, segundo a
cultura e tradição seridoense.” As narrativas neotestamentárias deixam a entender
que Jesus apreciava um bom vinho. Seus adversários O atacavam, chamando-O de “comilão
e beberrão” (Mt 11, 19).
Outro motivo levou-me
ao estudo do destilado. Foi o uso medicinal por Monsenhor Walfredo Gurgel,
diretor do Colégio Diocesano de Caicó (RN). O cardiologista lhe prescreveu uma
dose diária de uísque. Como era caro, o eclesiástico solicitou comutá-lo por
cachaça. Um amigo e político paraibano o presenteava com garrafas da famosa “Rainha”,
oriunda de Bananeiras (PB). O sacerdote visitava à noite sua genitora “Mãe
Quininha”, residente na mesma cidade. Na ocasião reunia-se com amigos, na
calçada da residência materna. Os alunos do educandário aproveitavam esse
momento para se apropriarem de algumas garrafas. Notando a falta, o padre passou
a guardar a bebida na casa de sua genitora e comigo. Deve-se ao Monsenhor,
por sugestão de Dr. Manoel de Medeiros Brito, a introdução de um trago da bebida no cardápio dos almoços nas reuniões governamentais
da Sudene.
O Instituto Brasileiro da Cachaça-IBRAC registra que ela
foi o primeiro destilado das Américas, fabricado em 1516 na Ilha de Itamaracá
(PE). Entretanto, segundo o eminente pesquisador Câmara Cascudo, autor da obra
“Prelúdio da Cachaça”, passou a ser nacionalmente consumida em 1532. Surgiu nos
engenhos de açúcar do litoral nordestino, obtido da fermentação e
destilação do caldo de cana.
Produzida exclusivamente no Brasil, é considerada bebida nacional.
Provém do mosto da cana, com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume a
20°C, podendo incluir até 6 g/L de açúcares em sacarose. Diferente da
aguardente (oriunda de fontes variadas), ela provém apenas do caldo fresco de
cana, gozando de proteção legal, desde 1951. Tampouco trata-se de rum, que utiliza
outras matérias primas. Estudiosos elencam cinco tipos principais de cachaça: a)
prata/branca, quando a bebida não é envelhecida, armazenada em inox,
transparente, com aroma e sabor mais intensos de cana; b) ouro/amarelada,
envelhecida até um ano em madeiras (imburana, carvalho, bálsamo etc.), possuindo
cor dourada e notas amadeiradas; c) premium, com envelhecimento de um a dois
anos. É mais suave e aromática; d) superpremium, envelhecida de dois a três
anos, com equilíbrio de sabores e) reserva especial/blend, envelhecimento
superior a três anos. Existe a orgânica, produzida sem fertilizantes químicos
ou agrotóxicos no cultivo da cana-de-açúcar, seguindo padrões sustentáveis em
toda a cadeia produtiva, do plantio ao envase.
De acordo com o Anuário da Cachaça, de 2025, o Brasil conta
com 1226 produtores, espalhados em vários estados. Minas Gerais é o maior
fabricante com 501 estabelecimentos. Isso permite alta competividade na
produção, aumento de comercialização e aprimoramento na fabricação. Em 2024,
foram envasilhados quase dois bilhões de litros da bebida, contabilizando sete
mil marcas. Parte da produção destina-se ao exterior. Em 2025, o comércio no
Brasil chegou a movimentar perto de 20 bilhões de reais. Algumas garrafas têm
alto preço: a) Weber Haus Extra Premium (RS), edição limitada, ultrapassando R$
15.000; b) Havana 75 anos (MG) custa em torno de R$ 11.000. Vale Verde 18 anos
(MG) é vendida por RS 7.500. Alguns brasileiros (sobretudo os “nouveaux riches”)
procuram esnobar com destilados importados (por vezes de qualidade duvidosa), menosprezando
nossas tradições e valores.
Lembrava o apóstolo Paulo a Timóteo: “Não bebas somente água; toma também um
gole de vinho, por causa de tuas enfermidades e fraquezas frequentes” (1Tm 5, 23).
Nenhum comentário:
Postar um comentário