quarta-feira, 8 de julho de 2026

 

A nova Encíclica

Padre João Medeiros Filho

Destacam-se, do ponto de vista teológico, pastoral e metodológico os artigos de nosso Arcebispo Dom João Santos Cardoso sobre a Magnífica Humanidade, publicados na Tribuna do Norte em 12, 19 e 26 de junho próximo passado. Ensinamentos preciosos e oportunos. Apenas desejo pinçar alguns trechos de Leão XIV, que considero relevantes. “O verdadeiro desenvolvimento humano não pode ser medido apenas por eficiência técnica ou crescimento econômico.” A humanidade deve sedimentar sua dignidade, seu compromisso moral e necessidade de reconstruir relações fundadas na verdade, justiça e partilha. Em meio às incertezas da era digital, o documento enfatiza: “Nenhuma automação poderá substituir a experiência humana de amor, misericórdia e interação entre as pessoas.” A Igreja e os povos são convidados a refletir sobre o tipo de civilização que se constrói. A capacidade de amar, transmitir a verdade, viver em comunhão com Deus (próprio do ser humano) é inegociável e não poderá ser absorvida pela tecnologia. Diz o relato bíblico: “Deus criou o ser humano à Sua imagem” (Gn 1, 27).

O Santo Padre adverte sobre “formas de apropriação da inteligência artificial, acentuando cenários de exclusão.” Não raro, concentram riquezas nas mãos de poucos, impondo sacrifícios a quem já padece de pobreza e exclusão. Ademais, enfatiza que o avanço tecnológico migrou da esfera estatal para a privada. Apresenta-se, muitas vezes, “transnacional, dotado de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos governos.” Destarte, o poder tecnológico assume uma identidade inédita, predominantemente privada, talvez mais difícil de orientá-lo para o bem comum. Diante disso, indaga-se: a quem servem tais avanços e seus reais propósitos? 

No afã de abraçar uma tecnologia aprimorada, o homem sujeita-se a certos perigos, oriundos da irresponsabilidade ética. Tal postura poderá afastá-lo de seus autênticos interesses e torná-lo totalmente desprovido da pertença a uma comunidade. Tal situação oferece-lhe mais condições de considerar as necessidades dos mais pobres e incautos, inclusive no que tange a seu futuro.

Após citar aspectos éticos, sociais, educacionais, culturais, políticos, dentre outros, o Pontífice aponta para a vocação universal dos cristãos a fim de edificar a “civilização do Amor”. Esta torna-se ainda mais necessária, “quando o ódio vai se apoderando fortemente do coração humano e da mente daqueles que, em posições de prestígio ou poder, validam iniciativas catastróficas.” Estas revelam insensibilidade ao sofrimento alheio. A Encíclica suscita nas pessoas de boa vontade o desejo de ir além. Não basta se deter na resignação, é preciso contar com as forças do Bem e do Amor, mesmo enfrentando novos tipos de ataques e golpes à dignidade humana.

Importa aos cristãos olhar para as transformações tecnológicas com ética, responsabilidade social, discernimento espiritual e zelo pela dignidade humana. O Papa convida os fiéis a voltar-se para a contemplação, interioridade e presença real (não apenas virtual). Isso facilitará um ambiente cultural propício à reflexão sobre sua essência. O texto papal insiste sobre a urgência de estruturar “uma sociedade mais justa e fraterna, nascida de vínculos vividos em família, no trabalho, na convivência, na educação e política.” A partir dessa perspectiva, a Encíclica assinala que cada pessoa possui responsabilidades concretas na elaboração e fortalecimento da “civilização do Amor”. Além disso, a Magnífica Humanidade reitera que a tecnologia jamais poderá substituir “aquilo que pertence à essência humana: compaixão, amizade, sofrimento compartilhado, misericórdia e comunhão com Deus.” Atente-se à recomendação do apóstolo Paulo aos coríntios: “Santo é o santuário de Deus, que sois vós” (1Cor 3, 17).

COMPLEXO HIDROSSOCIAL DOM JOSÉ DELGADO 
Breve histórico 

Deflagrada a seca de 1951, Dom José de Medeiros Delgado, bispo diocesano de Caicó, já nomeado arcebispo metropolitano de São Luís (MA), reuniu as lideranças do Seridó para discutir sobre o que poderiam fazer para amenizar o flagelo da estiagem. Convocou uma reunião, na Fazenda Baixio, de propriedade de seu amigo Stoessel de Brito, então deputado estadual. Havia vários prefeitos, vereadores e outras autoridades regionais. Discutiram bastante. Há quem propusesse frentes de trabalho, tais como construção de estradas, prédios etc. Dom Delgado apresentou a sugestão de se construir um açude a fim de armazenar água para consumo e plantação. Os presentes votaram a favor da construção de uma barragem no município de Jucurutu, perto do povoado de Barra de Santana. A barragem seria edificada sobre o Rio Piranhas-Açu. Dom Delgado ficou encarregado de falar com as autoridades federais. Sendo muito amigo de José Américo de Almeida, coordenador da Inspetoria Federal de Obras contra as secas, conseguiu rapidamente os primeiros recursos para as obras. Futuramente foi nomeado Ministro do Interior, Viação e Obras Públicas. Dom Delgado era amicíssimo de José Américo, que fora com ele seminarista e tinha dois tios padres, (Monsenhor Odilon Benvindo de Almeida e Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal). O primeiro cuido junto com o então Padre Delgado da Paróquia de Campina Grande (PB). Os trabalhos começaram. Dom Delgado solicitou ao pároco de Jucurutu, Cônego Deoclides de Brito Diniz, dar assistência religiosa aos operários. Este celebrou uma missa sobre o canteiro de obras, durante a qual leu uma mensagem do bispo diocesano, com estas palavras: “O suor de muitos aqui derramado vai se converter em água abundante para matar a sede de nosso povo e fecundar a terra, que produzirá alimentos para a região.” O tempo foi passando. Várias vezes, as obras pararam. Houve, como sói acontecer, nesse tipo de iniciativa, muita exploração e corrupção, durante a realização das tarefas. Em governos passados, chegou-se a dar o nome de “Barragem “Iberê Ferreira”. Tendo sido ideia e iniciativa da Igreja, Padre João Medeiros Filho solicitou ao deputado Nelter Queiroz para apresentar projeto de Lei denominando a barragem, vila e plantações etc. de COMPLEXO HIDROSSOCIAL DOM JOSÉ DE MEDEIROS DELGADO. A Lei foi aprovada e sancionada, publicada no Diário Oficial do RN, de 31 de março de 2026 (Lei 12.680). Ela tenta corrigir uma injustiça histórica e restaurar a verdade. A Igreja foi a mentora de tudo. O Monsenhor Raimundo Sérvulo da Silva, pároco emérito de Acari, quando jovem trabalhou no canteiro de obras. Ali foi acidentado, guardando em seu corpo as marcas e cicatrizes. O ilustre sacerdote junto com o autor da ideia sequer foi lembrado nem citado na inauguração. Eis o relato fidedigno. Eu estava presente no Sítio Baixio, ainda criança, posto que os proprietários eram meus padrinhos de batismo e ali fui levado por meu pai, que era prefeito em exercício de Jucurutu, para tomar a benção ao bispo e meus padrinhos. A reunião aconteceu no dia 7 de abril de 1951, num sábado pela manhã. Emaús-Parnamirim (Recanto Santa Marta), julho de 2026. 
Padre João Medeiros Filho