quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

A Justiça ficou em “chamas” depois que o ministro Marco Aurélio Melo mandou soltar o mandante do assassinato da americana Dorothy, lá no Pará. Outro “homem errado” é o Dias Toffoly, aquele do “pacto sinistro” como verdadeiro “advogado do diabo” do mensalão para depois ser ministro do STJ e viver a “tortura do silêncio” por não arguir sua suspeição. Que horror! O núcleo operacional do mensalão começa a ser alforriado. Ricardo Lewandowski já começou a largada das “grandes manobras”, não condenando o deputado federal João Paulo Cunha e Marcos Valério. A lei propriamente dita é um “brinquedo proibido”. “A maior história de todos os tempos” já narrada no Supremo está fazendo o povo brasileiro enxergar o “horizonte perdido” de suas crenças.
Apenas o poder de mando e a vaidade pífia das compensações interessam. Pela “janela indiscreta”, dá pra ver o “crepúsculo dos deuses”. Certa vez, a presidente Dilma Rousseff recebeu o título, não sei por quem outorgado, da terceira mulher mais poderosa do mundo. Ora bolas, em qualquer pais “a felicidade não se compra”. Seria poderosa sim, se a saúde e as universidades públicas não estivessem sucateadas, faltando remédios. Pelas drogas nas ruas “disca-se M para matar” ou quando não, um “corpo que cai”, é sempre um “terceiro tiro” que derruba um inocente. Nesse “interlúdio”, a “dama oculta” não exibe o seu poderio para controlar esse “inferno dezessete”. E haja “psicose” de crack e “pacto de sangue” ocupando as ruas e avenidas.
Enquanto isso, a campanha eleitoral do Rio Grande do Norte ganhou o desencanto dos eleitores. A maior “novidade do front” está sendo “a grande ilusão”, semelhante às “noites de Cabíria” ou ao delírio de “quanto mais quente melhor”. Trouxeram para as “luzes da ribalta” e da discussão pública o aborto e o homossexualismo, temas que já integram a legislação nacional com decisões recentes dos tribunais superiores. Como se na “roda da fortuna” da cidade do Natal não existissem problemas estruturais: ruas esburacadas, saúde derrubada, desemprego, trânsito estrangulado, educação descompassada, insegurança em “eclipse” e somente o “sol por testemunha”. Vale dizer, para concluir, que “por ternura também se mata” em Natal, que vive fase “sem lei e sem alma”, apenas prevalecendo o “estigma da crueldade” entre “pistoleiros do entardecer”.
Ficha suja, ficha limpa, tanto faz uma como a outra, pois longe de se oporem, se harmonizam e se entrelaçam. De nada adianta julgar, pois somente a vontade é lei. Neste “céu amarelo” mandam as “consciências mortas” desde o “tempo das diligências”. O “testemunho de acusação” morreu no processo de “Kafka”. Quem diabo inventou essa lei confusa, complexa, contraditória, opaca, empírica e ainda por cima onomatopaica e que vai morrer amanhã de inanição nas mãos dos próprios julgadores? Jamais ela se transformará na “árvore dos enforcados”. Também não chegará o tempo para o seu “sangue semear a terra” de probidade e lisura com o trato da coisa pública. E viva a liberdade dos “galantes aventureiros” na “montanha de sete abrutes”.
Nota do autor: Este texto foi elaborado com fulcro nos títulos dos melhores filmes da sétima arte (aspeados) que retratam os dramas, as comédias e as tragédias da vida comum. Afinal, a política e a justiça, às vezes, neste país, não são obras de ficção? Viva ao cinema!!!

(*) Escritor.

 POUCAS E BOAS  CARNAVALESCAS 


Valério Mesquita

01) O deputado Ricardo Mota observador atento da cena e espirituoso como sempre, certa vez,  retornando a Natal após passar o Carnaval em São Paulo, foi indagado se havia assistido o desfile do Salgueiro onde desfilaram Garibaldi e Vilma Maia. Motinha, sem perder a calma, gracejou sem pestanejar: “Vi... Lampião e Maria Bonita...”. 

02) Uma das figuras significativas e populares do carnaval de Macaíba não poderia faltar a essa galeria: José Batata. Zé Batata, já falecido, era eletricista da Cosern. Dos anos sessenta aos noventa animou a folia de rua com a sua tribo de índios, da qual era o cacique e senhor de todos as pajelanças. Gostava de exagerar nos adornos até mesmo fora do tríduo momesco, exibindo uma enorme aranha preta no peito, mesmo vestido com a farda do trabalho. Batata era também um boêmio consumidor do conhaque de Alcatrão de São João da Barra, néctar dos índios civilizados. Certa vez, foi escalado para cortar a energia elétrica da Fazenda Arvoredo, propriedade de Leonel Mesquita. Era o governo de Monsenhor Walfredo, cuja diretoria da estatal não prezava muito os inadim-plentes com o consumo. Zé Batata conhecia bem o temperamento do dono de Arvoredo e por isso pediu sua dispensa da missão. “Ordem é ordem”, protestou o chefe do escritório local da Cosern. “Por que tu não “vai”?”, ponderou Batata, que nessa hora não tinha nada de índio besta. E aí lá se foi Zé, com um acompanhante para segurar a escada. Quando já estava no topo do poste e olhou para baixo, viu Leonel Mesquita de revólver em punho, ameaçar: ”Desça já, seu f.d.p., ou atiro nas suas pernas!!”. “Pode deixar comigo, Seu Leonel, é ligeirinho, ligeirinho”. Já “aterrissado” de nada adiantaram as suas justificativas. Zé Batata retornou com um sermão de Leonel de que aquilo era perseguição política. Está escrito: Cara pálida nunca se entendeu mesmo com pele vermelha.

03) Outra figura carnavalesca era o saudoso amigo  Diógenes Correia de Almeida. Ele era um carnavalesco atípico, solitário e original. Vestia uma quase sumária roupa feminina para exibir as suas musculosas pernas, com todos os balagandães femininos: seios postiços, batom, rouge, touca e sandálias. O seu passe era disputado pelas Escolas de Samba como destaque nos desfiles. Acabava o carnaval, Diógenes retornava ao trabalho da sua destilaria no fabrico de zinebras, aguardentes, conhaque e tudo o mais que embriaga e faz cair. Entre os anos 50 e 60 foi vereador e protagonista político de inúmeras peripécias. E como tal, foi perseguido pelos donos do poder pela desfaçatez e esperteza de enganá-los como oposicionista, principalmente nas eleições para presidência da Câmara. Dele eu posso dizer o seguinte: Diógenes, que tantos homens foi, na pluralidade de suas dimensões caracterológicas, em mim e em muitos ficou a imagem do folião inigualável, primeiro e único na coragem de se exibir, por tantos anos, vestido de mulher para espanto de uma sociedade reacionária. 

04) Natal boêmia dos anos cinqüenta. Natal lírica que se reunia toda no Grande Ponto. A história é desse tempo. Era carnaval no reinado do inesquecível Severino Galvão, amigo de Luis de Barros e Roberto Freire. O saudoso amigo e compositor Dosinho lançava os seus últimos sucessos carnavalescos. E a animação tomava conta da capital que exportava folia. Tanto assim, que os jornais anunciaram a visita do Rei Momo, primeiro e único Severino Galvão, à capital do Oeste – Mossoró, levando toda a sua corte. Não podia haver notícia melhor para o estreitamento das relações entre Natal e Mossoró, pois andavam tensas por causa das estórias que os maledicentes inventavam com os mossoroenses. Tudo pronto, transporte providenciado, discurso afiado do monarca nos trinques, parte a caravana real com confete e serpentina. Mas, em todo reino que se preza, sempre há um vilão à espreita que desmancha prazer e ameaça a coroa. O folião de longo curso Roberto Bezerra Freire resolve bagunçar o coreto e a viagem. Irreverente e brincalhão o engenheiro natalense enviou telegramas urgentes a Mossoró para o prefeito e o delegado de Polícia alertando que “O Rei Momo que está chegando aí é um impostor”. “Inclusive”, prossegue o teor telegráfico, “ele vai insultar Mossoró urinando  na Praça Rodolfo Fernandes”. Continua: “Trata-se individuo perigoso e todo cuidado é pouco. Saudações Roberto Freire”. Ora, o mossoroense habituado, desde a resistência a Lampião, a reagir a provocação, entrou em estado de alerta para não dizer de “sítio”. A chegada que se prenunciava triunfante foi tensa e hostil com todo o destacamento local formado para repelir os embusteiros. Detido o ônibus real do soberano Severino Galvão, ante a sua incontida perplexidade, não precisa dizer que a rainha e os súditos permaneceram prisioneiros no coletivo enquanto o rei momo era conduzido à delegacia para dar explicações sobre a inditosa viagem e o telegrama delator. Só depois de muita negociação diplomática foram liberados. Não havia Telern ainda e o discurso real foi transformado em desculpas intermináveis ante o lamentável incidente que abalou as ligações entre os dois povos.




(*) Escritor