quarta-feira, 29 de julho de 2026

 DEMÊNCIA

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Eu não disse? Começou a guerra civil no Brasil. Rio de Janeiro e São Paulo acenderam o estopim. Ela já se expande pelo resto do país, paulatinamente. A luta armada é travada entre grupos ou facções de fora e de dentro dos presídios (ora, imagine só!). Os facínoras ou revolucionários detêm munições e armas de primeira geração, capazes de disputar guerras sofisticadas em qualquer continente. O alvo predileto e cotidiano, em escala crescente, são a polícia e o cidadão comum, além do patrimônio público e privado. Está faltando pouco para o assalto sonhado: tomar o Planalto, as sedes do STF, STJ e o Congresso Nacional. O chamado crime organizado, para tanto, obteve ficha limpa e registro nos tribunais.

A ausência de um comando nacional que interaja e unifique ações de combate eficaz contra o violento anarquismo é uma situação que estimula e facilita a subversão. Os juristas que elaboraram o anteprojeto do Código Penal Brasileiro, pelo texto dado a conhecer, vê-se que não olharam as ruas, mas, unicamente, as requintadas bibliotecas dos gabinetes refrigerados e alcatifados. Antigamente, nos ambientes simplórios, dos primórdios da civilização, escreveram códigos imortais até hoje celebrados, como o de Hamurabi, o do mundo helênico, o romano, etc. E até o código Morse. O Código Penal Brasileiro já entrou na compulsória: há mais de oitenta anos com algumas atualizações em 2019. Os congressistas e os juristas não descobriram ainda, por miopia, os bolsões das periferias urbanas onde os menores são treinados e paridos para o crime comum.

Se a Justiça não corrigir e estancar com uma legislação punitiva exemplar e um sistema penitenciário sério, condigno, bloquei o comércio de armas aos civis, o policial vai ter mesmo que matar para não morrer na hora ou no dia seguinte. O Brasil carece de hospitais e penitenciárias! Por quê? Porque a população aumentou geometricamente, o número de veículos quintuplicou e o trânsito virou outro homicida tão perigoso quanto aquele que se organiza para matar, estuprar e roubar. Hoje a polícia tem razão até quando erra. Coloque-se no lugar do soldado. Na hora em que ele veste a farda, o relógio começa a sua contagem regressiva nesse mundo. No Rio de Janeiro, três mil menores de dezoito anos se tornaram criminosos, vítimas do jogo dos traficantes de drogas. Os alvos preferidos deles são os policiais.

No mundo, a humanidade mata por questões religiosas. Guerras intestinas em países do Oriente Médio, da Ásia, da África e agora na Rússia, exterminam milhares de inocentes. Para onde caminha a humanidade? Se as elites dirigentes continuarem a pensar somente em si mesmas, o país marchará para o caos econômico, social e financeiro. O nosso tempo tem grandiosidades e tragédias. Só a vida humana se tornou fuleira. Criança, idoso, mulher, homem – para o transviado, o drogado, o subversivo – tudo é carniça. Dá medo assistir aos noticiários das tevês. Sair à noite é uma temeridade. Mas, à luz do dia, virou também audiência em ondas médias e curtas da cidade ao sertão. Um viva às polícias do Brasil! Um viva às Forças Armadas! A vida humana não pode ser um caso liquidado. Se elas não existissem, o presidente do Brasil seria Fernandinho Beira Mar. A China como potência econômica e ateia ameaça o Ocidente. E o outro perigo vem da guerra religiosa e fanática do expresso do Oriente muçulmano. Começou o extermínio do Armagedon? É por aí... No Brasil outra demência vem da Câmara Federal: um bilhão e duzentos milhões de reais em emendas parlamentares sem o nome do autor. Orçamento secreto ressuscitado. Demência total!!!

 

Dom Heitor, um século de vida

Padre João Medeiros Filho

Dom Heitor de Araújo Sales é um dos grandes nomes da Igreja do RN. Participou de momentos significativos de sua história. Com 75 anos de sacerdócio, sendo 48 de episcopado, completa dez décadas abençoadas, com saúde, lucidez e alegria de viver. Acompanhou o pontificado de nove papas: quando jovem, Pio XI; enquanto sacerdote, Pio XII e João XXIII; como bispo, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II; já emérito, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. Sua nomeação para o episcopado representa um dos marcos memoráveis de seu sacerdócio. Na diocese de Caicó, esteve por quinze anos. Na arquidiocese de Natal, um decênio de pastoreio. Tem carinho pelo Seridó, berço dos ancestrais maternos.  Guarda com afeto as conexões humanas construídas como presbítero e bispo. Irmão do Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo do RJ durante trinta anos, uma das figuras mais notáveis da Igreja.

Como padre serviu abnegadamente ao Povo de Deus, desempenhando as funções de vigário paroquial em Nova Cruz, pároco de Santa Teresinha (Natal), capelão dos Colégios Marista e Nossa Senhora das Neves, vigário episcopal para os religiosos e também vigário geral do arcebispado natalense. Integrou a equipe de formação do Seminário de São Pedro, como diretor espiritual e docente. Ali, tive o privilégio de ser seu aluno. Exerceu o magistério superior na Escola de Serviço Social e Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Primeiro docente desta instituição, com o título de doutor, obtido na Pontifícia Universidade Lateranense (Roma). Pertence à Sociedade Brasileira de Canonistas e à Academia Norte-rio-grandense de Letras, nesta como sócio de honra.

Dom Heitor vivencia as palavras do Mestre: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Terno e misericordioso, tratando todos com elegância e atenção, transmite a lição bíblica da simplicidade e compreensão. Em Caicó revelou-se pastor solícito e dinâmico, reorganizando a diocese, reabrindo o Seminário Cura d’Ars, restaurando o diaconato permanente. Construiu o Centro Pastoral Dom Wagner (sede dos órgãos administrativos diocesanos), o Mosteiro das Clarissas, a nova Residência Episcopal e instalou a Rádio Rural FM de Caicó. No seu pontificado no Seridó, o clero passou a dispor de um plano de saúde. A diocese caicoense lhe deve, em especial, o exemplo de desprendimento, dedicação e humildade. A riqueza interior não faz alardes. Sua capacidade de doação e caridade recorda-nos o apóstolo Paulo: “Para todos eu me fiz tudo, para salvar alguns” (1Cor 9, 22).

Na Arquidiocese de Natal, organizou o dízimo das paróquias para manter o culto divino e as obras sociais da Igreja, redimensionando o patrimônio da mitra. Deu atenção às necessidades administrativas, pastorais e espirituais do arcebispado. Trouxe o Seminário de São Pedro de volta à sua sede, na Campos Sales. Durante seu episcopado, aconteceu a beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em 5/3/2000. Entregou a arquidiocese com as finanças saneadas a seu sucessor e ex-aluno Dom Matias Patrício de Macêdo, assim como a Rádio Rural de Natal, engajada numa profícua programação evangelizadora. Nos dois bispados ordenou quarenta e quatro padres e criou quinze paróquias. Na emeritude, edificou o Carmelo em Parnamirim (RN).

Tais feitos são centelhas da grandeza de sua alma, generosidade e capacidade de servir. Um homem escolhido por Deus e devotado à Igreja. Cultura e erudição povoam sua mente. Com cem anos goza de memória e lucidez admiráveis. Dedica-se à leitura cotidiana e mantém-se atualizado. Sempre disposto a ouvir, consolar, irradiar luz e paz aos que dele se aproximam. Sua disponibilidade toca. Sua humildade encanta, pois é a linguagem dos filhos de Deus. Poderá dizer: “A minha alma engradece o Senhor, pois Ele fez por mim grandes coisas, santo é seu nome” (Lc 1, 46;49).