terça-feira, 10 de janeiro de 2023

 

O Papa Francisco renunciará?

Padre João Medeiros Filho

Sempre acessível à imprensa, Francisco concede entrevistas a jornalistas de diversos países. Costuma recebê-los na Casa Santa Marta, onde mora. Seu bom humor contribui para a conversa fluir descontraidamente. Avesso a certos protocolos, sequer exige perguntas enviadas com antecedência pelos entrevistadores, como sói acontecer com muitos dignitários. Por isso, vários comunicadores sentem-se à vontade para tratar de assuntos delicados. Num desses encontros foi questionado sobre sua possível renúncia. A entrevista era concedida a um canal lisboeta de TV. Ao ser indagado, se iria a Portugal em 2023 para conduzir a Jornada Mundial da Juventude, respondeu em tom bem-humorado: “O Papa irá. Ou eu ou João XXIV.” A partir de então, sobretudo após a morte de Bento XVI, aumentaram as especulações sobre sua abdicação ao trono de São Pedro.

Poderá parecer mais um gracejo do atual Pontífice. No entanto, a resposta contém algo mais profundo. Francisco nunca escondeu sua admiração por João XXIII, a quem canonizou por “equipollenza” (equivalência). Tal procedimento canônico dispensa o candidato aos altares da realização de milagres para sua beatificação e canonização. A legislação eclesiástica prevê tal isenção, quando houver: “a) prova da constância, antiguidade e amplitude da devoção ao futuro santo, b) comprovação de suas virtudes e vivência exemplar da fé católica.” Bergoglio agiu deste modo na canonização de seu confrade jesuíta José de Anchieta, em 2014. Tal argumentação canônica poderá ser apresentada para a canonização de Padre João Maria, antigo pároco de Natal (RN). Sua fama de santidade é secular, resultando em grande devoção popular e consciência dos fiéis quanto ao seu testemunho heroico das virtudes cristãs, máxime da caridade. Eis uma das metas para o próximo arcebispo natalense.

 No início do pontificado de Francisco, muitos chegaram a afirmar que seu papado seria semelhante ao de Paulo VI. Mas, após anunciar reformas, ficou evidente que ele imprimiria uma marca análoga ao pastoreio de João XXIII. Francisco alude constantemente à colegialidade sobre a qual foram lançadas as bases doutrinárias e pastorais da Igreja primitiva. Verifica-se essa tendência, quando em 1959 João XXIII anunciou o Vaticano II. Segundo as palavras do “Papa Bom”, seria um concílio em prol “da unidade e da graça”. Realmente, o Vaticano II teve a maior participação de bispos em eventos conciliares na história do catolicismo. Não existiram forças antagônicas querendo acabar com a Igreja, segundo a interpretação equivocada de alguns. O pontificado de Francisco inspira-se em muitos aspectos no papado de João XXIII. Na verdade, o Pontífice reinante recorre à própria Tradição, quando impulsiona a Igreja nessa direção. Bergoglio vem escolhendo cardeais de diversos matizes pastorais, culturas e nacionalidades. As suas nomeações seguem, principalmente, o critério da pluralidade eclesial. Se a Igreja é universal, os conselheiros e colaboradores próximos do Papa devem ter a dimensão da catolicidade.

Nos sonhos do atual Pontífice, um “João XXIV” seria ideal para dar continuidade às suas reformas. Ele trabalha para isso. Entretanto, como homem de fé, está consciente de que a instituição, a depender “dos sinais dos tempos”, poderá avaliar o contrário. Também hoje, há quem diga: “eu sou de Paulo; outro, sou de Cefas; um terceiro, sou de Cristo” (1Cor 1, 12). É a Ele que pertence a Igreja. Percebe-se que nos tempos hodiernos, os católicos parecem não desejar mais um “monarca”, mas um verdadeiro pastor. Quem continua apegado aos vícios das cortes da nobreza, ligado ao tradicionalismo cismático, à espiritualidade ideológica e à religiosidade estética, não entendeu a missão da Igreja. Esta, sem distanciar-se da Escritura e Tradição que a fundamentam, esforça-se para ser sacramento de Deus e promotora da dimensão transcendental dos homens e do mundo.

Além das comorbidades naturais de um ancião, Francisco tem apenas um pulmão. Segundo opiniões médicas, suas condições clínicas desaconselham uma cirurgia em seus joelhos. Ele nunca revelou apego ao poder. Renunciará, se não puder mais exercer satisfatoriamente o seu ministério ou se, com suas limitações, vier a prejudicar a caminhada da Igreja, necessitada de purificação de erros e deslizes. Num gesto de humildade e grandeza, como seu antecessor, entregará o báculo a outro pastor.  “Paulo planta, Apolo rega, mas Deus é quem faz crescer” (1Cor 3, 6).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A PAQUERA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Lá pela metade dos anos 70, o Rio Grande do Norte vivia um período pré-eleitoral. Entra em cena o velho e tradicional município de Patu com a sua política extremada que não diferia dos demais da região oeste. Ali pontificava uma liderança emergente representada no universitário de Farmácia João Ismar de Moura. Atritos e divergências entre partidários com a parcialidade da política eram comuns. Certa vez, um primo do nosso João foi agredido por um soldado. Avisado do fato o jovem político veio em defesa do parente. E recorreu ao deputado federal Vingt Rosado em Mossoró, para mandar tirar a farda do militar.

O líder mossoroense, como de costume, atendeu ao correligionário e passou a diligenciar os procedimentos. Enquanto isso, em Patu, João se sentia perseguido pelo soldado que acompanhava os seus passos a todos os lugares públicos da cidade. Temendo uma iminente agressão do praça e conhecendo muitos exemplos acontecidos ali mesmo e adjacências, recorreu a um amigo comum e ex-prefeito de Natal Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, bastante ligado ao então secretário de segurança. “Jorge Ivan, esse rapaz se põe em pé, diante de mim, aonde eu chego e estou temendo já ser fuzilado”, queixou-se. Preocupado com a ansiedade e temor levou o problema diretamente ao coronel João Pinheiro da Veiga para receber o acadêmico e líder patuense.

Em Natal, na sede da SSP, João foi recebido em audiência. O ambiente era tenso, pois se temia uma violência presumível ante qualquer providência que se tomasse contra o militar agressor. Isto posto, inicia-se o diálogo. O coronel Veiga pedia detalhes para ajuizar melhor na decisão. “Mas, quando o senhor se encontra em lugares públicos, restaurantes, bares, farmácias, lojas, o soldado assume alguma atitude hostil, faz gestos ameaçadores ou o que ele lhe dirige?”, pergunta o secretário de segurança já curioso. João Ismar de Moura fez silêncio e sublinhou: “Olhares”. Risos. Salomonicamente, Veiga transferiu o soldado de Patu para Mossoró a fim de acabar com as suspeitas. Meses depois, João Ismar em Mossoró se encontra com o mesmo soldado. Reviveu temores antigos mas o gelo foi quebrado. O militar se dirigiu a ele e falou franco: “Doutor João, não queira saber o favor que o senhor me fez, arranjando a minha transferência aqui para Mossoró. Tô muito feliz com a minha família”. João deixou escorrer pelo abdômen e entrepernas aquele suor frio mas gostoso e pleno de alívio.

 

(*) Escritor.

 


 

Sábio Francisco
​Outro dia, em Natal/RN, cascavilhando as livrarias católicas da Cidade Alta, acabei adquirindo uma edição de bolso de “Filoteia, ou introdução à vida devota” (Editora Vozes, 2021), do grande São Francisco de Sales. Ando, vez por outra, xeretando o pequeno grande livro.
​Para quem não sabe – e é fundamental não confundir os vários santos Franciscos, o de Assis, o de Paula, o Xavier e por aí vai –, “São Francisco de Sales nasceu aos 21 de agosto de 1567. Foi ordenado sacerdote em 1593 e em 1602 foi consagrado bispo de Genebra, onde trabalhou até sua morte. Faleceu em 1622, com 55 anos de idade. Foi canonizado em 1665 pelo Papa Alexandre VII, e nomeado Doutor da Igreja por Pio IX. Em 1923 Pio XI o declarou Padroeiro da Boa Imprensa e dos jornalistas católicos”. Li isso já na contracapa do meu exemplar.
Filoteia é um livro que carrega muita sabedoria, embora escrito há vários séculos e por um homem cuja fé em seu Deus condicionava sempre o sentido dos seus próprios juízos. É um livro que devemos ler hoje adaptando às nossas circunstâncias de tempo e lugar, claro.
Peguemos logo dele um exemplo marcadamente jurídico, que gira em torno da passagem bíblica “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados” (Lucas 6:37). Quanto a ela, afirma São Francisco de Sales: “Oh! Quantos juízos temerários desagradam a Deus! São temerários os juízos dos filhos dos homens, porque não são juízes uns dos outros, e, julgando, arrogam-se o direito e o ofício do Nosso Senhor”. E mais até: “Então nunca podemos julgar o próximo? Nunca, Filoteia; mesmo nas sentenças do tribunal humano é Deus quem julga. É verdade que são os juízes que aí aparecem e fulminam a sentença, mas eles são apenas os ministros e intérpretes de Deus e nunca devem pronunciar um juízo que não seja segundo a sua lei, e suas sentenças são os seus próprios oráculos”. Esses “juízes dos tribunais humanos” nunca devem se afastar da lei de Deus, “seguindo suas paixões”, é o que recomenda o santo, até para não serem, eles próprios, os juízes, também julgados. Se substituirmos Deus por Constituição/Legislação, que lição de direito temos. Meditemos! Todos!
Eis mais um trecho de Filoteia, que também se relaciona com o direito, desta feita interpretando a passagem bíblica “do argueiro no olho do próximo e da trave no nosso” (Mateus 7:3-5), uma das famosas denúncias à hipocrisia/injustiça humana: “Nós costumamos acusar o próximo pelas menores faltas cometidas e a nós mesmos nos escusamos de outras muito grandes. Queremos vender muito caro e comprar o mais barato possível. Queremos que se faça injustiça a outros e que se façam graças a nós. Queremos que interpretem as nossas palavras benevolentemente e com o que nos dizem somos suscetíveis em excesso. (...). Defendemos com acurada exatidão os nossos direitos e queremos que os outros, quanto aos seus, sejam muito condescendentes. Mantemos os nossos lugares caprichosamente e queremos que os outros cedam os seus humildemente. Queixamo-nos facilmente de tudo e não queremos que ninguém se queixe de nós. Os benefícios ao próximo sempre nos parecem muitos, mas os que os outros nos fazem reputamos em nada. Numa palavra: nós temos dois corações, como as perdizes da Plafagônia; um, doce, caridoso e complacente para tudo que nos diz respeito, e outro – duro, severo e rigoroso para com o próximo. Temos duas medidas, uma para medir as nossas comodidades em nosso proveito e outra para medir as do próximo, igualmente em nosso proveito”.
E, para superar essa hipocrisia ou injustiça, São Francisco de Sales vaticina: “Filoteia, sê igual e justa em todas suas ações. Toma o lugar do próximo e põe-no no teu, e sempre julgarás com equidade. Ao comprares, põe-te no lugar do vendedor, e, em vendendo, no lugar do comprador, e teu negócio será sempre justo”. O Santo, mesmo que de forma rudimentar, antecipa o imperativo categórico kantiano (que é mais sofisticado, em explicação, âmbito e consequências, por óbvio), imperativo esse que relutamos, todos, até hoje, a razoavelmente exercer. E eu assim apenas repito: sobre a Bíblia, São Francisco de Sales e Kant, meditemos! Todos!
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

ILUSÕES GRATULATÓRIAS

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

De anotações feitas à hora do crepúsculo em livros idos e vividos, pincei uma frase que me remete ao delírio das coisas de querer ter sido e não fui: “Eu que tantos homens fui, não fui aquele em cujos braços desfalecia Matilde Ubach”. Pensamentos fluidos, na verdade, de reencarnações em lugares e tempos, sonhos e fugas do real ou transposições de corpo e espírito para lugares onde nunca naveguei, muito além da ponte de Igapó.

Ter sido, por exemplo, acompanhante do Cristo nas peregrinações e presenciado seus milagres para não me dividir hoje, nos conflitos das igrejas do mundo; gostaria de ter sido expectador do teatro shakespeareano e tê-lo conhecido de perto e acompanhado todos os seus porres nas tabernas escuras da Londres elizabeteana; como amaria a passagem pelos estúdios de cinema dos anos trinta e quarenta só para ver Charles Chaplin, Stan Laurel e Oliver Hardy; ter aspirado o odor dos charutos de Getúlio Vargas, Winston Churchill  e escutado em dó maior as gargalhadas prazenteiras; ou como figurante dos filmes de John Ford, viajado nas diligências do tempo pelas pradarias do oeste; de Juscelino a companhia e as conversas dele com o que havia de melhor no PSD daquela época: Israel Pinheiro, Amaral Peixoto, José Maria Alkmin, Benedito Valadares, Tancredo Neves; ou de um pólo para outro, muito me ufanaria haver morado no Rio de Janeiro só para ouvir os discursos do bruxo Carlos Lacerda e acompanhar as suas ações como governador com “M” maiúsculo do estado da Guanabara. Eu, que tantos homens fui, não fui aquele que conviveu mais tempo com Câmara Cascudo, pois considero privilegiados os que receberam essa oblação; quantas vezes não me vi nos shows dos Beatles, na fila do gargarejo, ou no programa Jovem Guarda de Roberto Carlos das tardes de domingo; e quanto fascínio não exercem sobre mim as cidades interioranas da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Minas, Bahia, das moças namoradeiras, das praças, dos olhares furtivos e ofertantes como se eu quisesse, de repente, paquerá-las todas ou me compensar, ao menos, em contemplá-las lindas e infinitas, renascidas de minhas ilusões de adolescente.

Ah! Como esse mundo de hoje dói. Não há mais líderes. A violência urbana e a guerra mataram os sonhos e as ilusões castas dos nossos pensamentos. É um mundo de aparências, de vaidades e iniqüidades. “Olhe, aquele ali é Dinarte Mariz e com ele Aluízio Alves”. Faltou-nos alguém que lembrasse. Naquele tempo, nessa visão dos dois monstros insuperáveis da política potiguar. E se o sonho triunfar sobre a verdade, posso dizer nesse final que assisti padre João Maria sarar os enfermos; preguei com Frei Damião na noite litúrgica e estrelada de Macaíba; que vi subir o balão de Severo e que assisti o último suspiro de Auta de Souza. E se o leitor me acreditar, conheci Lincoln na guerra da Secessão; vi Roosevelt, Getúlio, Tyronne e Evita na Ribeira de guerra. Se todas essas reflexões são febris ou inverossímeis, é preferível crê-las e esquecer as bestas do apocalipse que estão soltas no Brasil, no Oriente e no Ocidente. As imagens da televisão sujam de sangue as nossas ilusões por um mundo de paz.

Essas coisas findas muito mais do que lindas, elas ficarão. “Que ninguém ouse roubar a minha solidão se não for capaz de me fazer real companhia”, disse o filósofo pensador Nietzsche. Não vou parar de forma alguma, pois vejo um amanhecer. Agrada-me a modéstia, a minha pequenez, as minhas provações, as minhas dúvidas e dívidas. Porisso e que escolhi a memória como uma singularidade secreta. As histórias só viverão para sempre se me dispuser contá-las.

 

(*) Escritor.




segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

 

Feliz ano
​A literatura brasileira possui dois livros famosos cujos títulos – e ao menos parte dos seus conteúdos – são curiosas “homenagens” à inexorável passagem de um ano a outro. Àquilo que chamamos de Virada do Ano, Ano Novo ou, festivamente, de Réveillon. Convencionalmente, uma das mais relevantes “passagens do tempo”, afinal, queiramos ou não, a marcação do ano civil é importantíssima, do ponto de vista prático, para as nossas vidas. E, ludicamente, um momento em que brindamos, nos confraternizamos e muitas vezes fazemos promessas (sobretudo a nós mesmos) de darmos um giro positivo nas nossas vidas.
Os livros são “Feliz Ano Novo” (1975), de Rubem Fonseca (1925-2020), e “Feliz ano velho” (1982), de Marcelo Rubens Paiva (1959). Curiosamente, entretanto, ambos são livros muito “negativos”, no sentido de mostrar o lado sombrio da vida. Tristes, posso dizer, sobretudo quanto ao segundo, cujo título não faz qualquer questão de isso esconder.
Formado em direito, Rubem Fonseca foi um gigante das nossas letras. Ficcionista multipremiado, ganhou o Jabuti (umas seis vezes), o Prêmio Camões e o Prêmio Machado de Assis da ABL, entre outros. “A Grande Arte” (1983), “Agosto” (1990) e “O seminarista” (2009) são alguns dos seus melhores romances policiais/detetivescos. Sua personagem Mandrake, o advogado detetive, protagoniza várias aventuras. “Feliz Ano Novo” é um livro de contos, cujo título decorre do primeiro deles, uma estória de crime e violência que se passa exatamente numa virada de ano. Crime, violência, sexo, traição, miséria, conflito de classes são alguns dos temas dos vários contos. Best-seller em 1975, foi censurado pela ditadura. Supostamente atentava contra “a moral e os bons costumes”, seja lá o que isso for, sobretudo na arte. A coisa foi parar nos tribunais. A ditatura levou um pé na bunda. O autor ganhou a causa. E o livro foi reeditado em fins dos anos 1980. Mas isso é outra história.
Já o xará Marcelo Rubens Paiva é um dos nossos grandes escritores da atualidade. Romance, teatro, roteiro de cinema, jornalismo (no Estadão, se não me engano), entre outras coisas. É filho do ex-deputado Rubens Paiva (1929-1971), que foi cassado, exilado, preso e covardemente assassinado pela infame ditadura militar. Uma segunda tragédia marca a vida de Marcelo Rubens Paiva: quedou-se paraplégico, aos 20 anos, após saltar, batendo a cabeça e fraturando a coluna, em um lago pelas bandas do estado de São Paulo. “Feliz ano velho” é um romance autobiográfico. Conta essas tragédias. Conta suas circunstâncias. O antes, o durante e o depois. Os amores, as amizades. Os medos, o sofrimento. O tratamento, as lutas. Há um certo bom humor. Mas é um livro triste. Pelo menos eu acho. E não poderia deixar de ser, pelo que conta. Li-o ainda na década de 1980, com deleite e angústia, se é que esses dois sentimentos podem ser vividos juntos. “Feliz ano velho”, livro de estreia do autor, continua sendo a sua “obra-prima”.
Ademais, lembro-me de então haver assistido à adaptação para o cinema de “Feliz ano velho”, de 1987, com a direção de Roberto Gervitz. Ganhou vários prêmios, em Gramado e no saudoso Festival de Cinema de Natal (em 1988), tão bem comandado pelo nosso Valério Andrade. O filme tinha Malu Mader em um dos papéis principais. Ela no auge. Fera radical. Lindíssima. Ponha linda nisso. Adolescente à época, comparecendo ao festival naquele ano, lembro-me de haver sido apresentado à beldade. Malu me deu uma “bicoca” (ou “selinho”, para quem não é desse tempo). Acho que era moda ou costume dela. Sem censura. Que “feliz ano velho”. Aqui, no meu caso, no sentido mais feliz do termo.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sábado, 31 de dezembro de 2022

 


Mensagem do Ano Novo de 2023

 

No alvorecer de um Novo Ano, celebram-se o Dia Mundial da Paz e a solenidade cristã de Maria, Mãe de Deus, portadora da Paz. Na Virgem Santíssima aproximaram-se o Criador e a criatura. No seu coração palpitavam o Eterno e o temporal. Nela, o Onipotente uma vez mais demonstrou sua vontade de nos amar. Maria é plena de Graça. O que nos leva à violência é a ausência de Deus, deixando a criatura humana sem rumo. O pecado gera a guerra, qualquer que seja a sua dimensão. Maria é a Mãe e Rainha da Paz.

Desejamos a todos um ano de graça e concórdia, diálogo e encontro. Que em 2023 sopre constantemente a brisa suave da Paz, da alegria, da esperança; nos embalem ondas de amor, ânimo e coragem e a saúde faça sua morada em nosso corpo e em nossa mente. Que desvaneçam a mentira, as agressões, a desarmonia, a injustiça e o espírito de vingança. Possa a fé nos envolver e fortalecer para enfrentar os desafios do Novo Ano que desponta. E que as maravilhosas bênçãos de Deus se irradiem por toda a humanidade e pelo mundo inteiro. Um Ano Feliz para todos, fecundo de Deus, sem tristezas e sofrimento e com um bom inverno. São os votos de Padre João Medeiros Filho e seus familiares. Um abraço fraterno e minha bênção sacerdotal, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém

 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

 

SEGUIR JESUS

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

Ouço uma voz que me diz, lá dos confins do mundo, que a única lição importante é seguir Jesus. No Brasil, a força da mídia eletrônica influencia mais que a religião. Impõe vícios, deturpam hábitos, derrubam códigos e mandamentos. A necessidade vital de se fazer conhecer a pessoa e a mensagem de Jesus, está sendo suplantada pela liberalidade dos costumes e vícios. O postulado institucional da família com Deus está sendo mutilado. Jesus já não constitui o melhor que temos nas igrejas e o melhor que podemos oferecer hoje à sociedade moderna. E Ele continua ainda o melhor que a humanidade já produziu. Jamais deixou de ser o potencial mais admirável de luz e de esperança que os seres humanos podem contar. Somente tenho a deplorar, que sem Ele, o horizonte da história se empobrecerá caso caia no esquecimento. 

A luta que se trava no país para substituir a família constituída no casamento por um homem e uma mulher, não pode submergir na crise e na confusão dos sexos. A família brasileira sofre a hostilidade ostensiva dos desajustados sob a passividade das igrejas que não se entendem. Preferem o duelo das escaramuças dogmáticas no pretório das iniquidades. Onde está o maior inimigo hoje da família propugnada nos ensinamentos cristãos? Quem levanta as multidões nas ruas para consagrar a sodomia, a droga e a subversão das leis e dos bons costumes? Todos sabem. Não preciso apontar. São pouquíssimos os religiosos que se levantam no púlpito para defender o seguimento fiel do legado de Jesus quando se contesta hoje nas ruas seus ensinamentos. Se as igrejas se unissem no plano das ideias e dos postulados bíblicos, tal decisão mudaria tudo. Se separadas, são fracas, litigantes elas não representam nada. Os cardeais, os arcebispos, bispos, pastores, apóstolos, sejam quais forem os títulos das denominações devem se unir, na hora premente e presente, para reencontrarem o eixo, a verdade, a razão e o caminho.

Sentados à mesa, devem ficar, iguais a Jesus quando instituiu na santa ceia a eucaristia. Com o exemplo oferecerão ao país e ao mundo um conteúdo realístico de adesão a Deus. É possível a unicidade: segui-lo por caminhos eclesiásticos diversos. Os aspectos e matizes do serviço a Jesus Cristo para o reino de Deus, é único e básico para todos. Neste momento crucial, em que periga a fé – com tendência a piorar – é imperativo assumir sua defesa. Seguir Jesus, defende-lo, significa eliminar a descriminação. Fazer nosso, o cristianismo – sem barreiras fronteiriças – o seu projeto integrador e includente de construção de pontes, sem conviver com mentalidade de seitas. Dos congressistas brasileiros, pouco ou quase nada se deve esperar. O papel de postular, de rebater, de se contrapor ao ilícito, cabe mesmo as igrejas que professam e crêem no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Se são três numa só pessoa, porque não uma vintena de igrejas num só ideal, sem perda da contextura de cada uma, no instante em que as luzes do mundo novo tendem a se apagar! 

O propósito fundamental desse texto, neste final de ano, é sugerir uma reflexão um caminho pelo qual as igrejas cristãs possam inaugurar os primeiros passos em direção ao mistério da aproximação histórica, por mais difíceis que sejam os obstáculos. Comunidade cristã nenhuma pode ser empresa, nem exercitar-se como tal. No plano das idéias e dos postulados cristãos quando ameaçados, é possível a união em torno da mensagem do Mestre. Jesus amparou pecadores de todo gênero, publicanos, eunucos e prostitutas, sem discriminar ninguém. Instruiu aos seguidores para que fizessem o mesmo. Quando se trata de desrespeito a Bíblia e as leis vigentes no país, as igrejas devem se fortalecer, advogar fielmente os propósitos das Escrituras. Hoje, correntes sociais se organizam, invadem, depredam, tudo para defender reivindicações políticas, futebolísticas, culturais, comportamentais, profissionais e sexuais, etc. Mas, não é crime agredir a Deus, difama-lo publicamente. Tudo cai na vala comum do direito ou opção individual de cada ser. Agridam Maomé, no mundo mulçumano, pra verem a reação? Apesar das diferenças de raça, culto, civilização e raízes culturais. O respeito às instituições valem mais. Jesus em Mateus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo. Porque o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Capítulo 11, versículos 28, 29 e 30). Feliz Ano Novo!

(*) Escritor.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

 




CARTAS DE COTOVELO - VERÃO DE 2022/2023 - 1

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            

Acabo de chegar ao meu ninho de repouso - Cotovelo e, ao ligar a televisão para testar o meu aparelho de TV, me deparo com a triste notícia da morte de Edson Arantes do Nascimento - PELÉ, jogador inigualável, que guardo na minha mente desde a sua estreia no histórico campeonato mundial de 1958. Nunca o perdi de vista. E estava orando para que Deus desse a ele o melhor caminho para o desfecho de sua vida.

            Há poucos dias tive a oportunidade de escrever um artigo sob o título: MEUS ÍDOLOS ESTÃO PARTINDO, onde lamentei a perda, em curto espaço de tempo, de amigos/amigas em variados campos da cultura e da vida.

            Agora, no findar deste não muito promissor de 2022, temos esse novo desfalque para o futebol brasileiro, deixando um vácuo que dificilmente será preenchido neste milênio, pois a tecnicidade no esporte chegou a um nível tal, que está perdendo o encanto da espontaneidade, da naturalidade e da singeleza.

               Sei que outros craques virão, mas a essência da grandeza de um Pelé ou de um Carlitos, não acredito que seja repetida.

  Tenho pouca esperança, que tenha o ensejo de assistir outro Campeonato de Futebol - isso é decisão do Criador, mas ainda que isso seja possível, não vou encontrar outra figura emblemática como o nosso Deus do Futebol.

                  Resta-nos guardar a sua memória de grande profissional, cidadão, e patriota, promovendo uma despedida inesquecível para perpetuar na história do esporte bretão - que um dia existiu no mundo um menino brasileiro, de origem pobre, afrodescendente, que chegou aos píncaros da glória, sendo merecedor da coroa de louro e, também de ouro, para gravar a sua eternidade de existência nos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

 

 

Viver

 

Berilo de Castro

A vida nos traz momentos de alegria, de felicidade, de paz, como também de tristeza, de sofrimento e de depressão. Não poderia ser diferente. Ela (a vida) gira como um carrossel no parque da existência humana.                         

Há momentos felizes e tristes, todos eles com início, meio e fim. Ninguém escapa, ninguém foge deles.

O isolamento social, o avançar da idade, a falta do que fazer pesam muito, e em certos momentos podem chegar à tristeza e à solidão, mas nada que não possam ser administrados, dominados e vencidos. É preciso, sim, coragem e enfrentamento.

São momentos, muitas vezes, inesperados. Na verdade, somos seus alvos centrais. Não escolhemos o momento exato de assumi-los e absorvê-los.

Chegam sorrateiramente e, na maioria, em ocasiões inesperadas e de incertezas.

À medida que envelhecemos, passamos a ficar mais vulneráveis; a solidão passa a se aproximar e fazer morada ao nosso lado; o ócio é danoso, não salutar e angustiante; é aí que a depressão pede passagem, provoca e nos povoa. E, assim, se inicia o caminho, e se constrói a estrada para aqueles que se entregam e se alinham nessa vereda triste e melancólica que é a depressão.

É preciso reagir e vencer esse mal milenar, cada vez mais vivo e ameaçador nesse mundo globalizado de hoje. Vamos à luta, afastar e vencer esse embate cruel que crucifica a vida.

A vida precisa e deve ser vivida em sua plenitude, em todas as suas fases e etapas com alegria e desprendimento. Não se justifica o sentido inverso.

Vamos viver felizes, cada dia, cada minuto, cada segundo como se eles fossem os derradeiros. A vida é uma passagem curta, sem parada e sem volta. Aproveitemos enquanto o trem não para.

 

O SONHO DO POETA

 

                                               -  Horácio Paiva*

 

                        Há na poesia do saudoso amigo e poeta Gilberto Avelino, que releio neste Natal de 2022 (vinte anos após sua morte), a sensação de profundidade espiritual, de evocação de instantes perdidos, porém magicamente recuperados na memória lírica.

 

                        Recordo o nosso último encontro pessoal, em nossa querida e lendária Macau, centro do mundo, porto a que sempre ancorávamos em nossas divagações existenciais. E isto, certamente, mais uma vez nos colocava em harmonia com a eternidade.

 

                        Mas não sabíamos que ali havia, também, uma despedida, um adeus, já que logo, em 21 de julho de 2002, o poeta faleceria. E vivemos aquele encontro na plenitude da poesia e do trabalho profissional.

 

                        Chegara à sua casa da Rua Pereira Carneiro às nove horas do dia 17 de julho, uma quarta-feira, e a encontrara iluminada com a sua alegria.

 

                        Gilberto, embora muito bem humorado, estava ansioso por revelar-me um sonho que tivera na noite anterior e, antes da leitura de seus novos poemas, passou a narrá-lo. Contou-me que tivera um sonho impressionante com o meu pai, Horácio de Oliveira Neto, já falecido. Durante toda a noite sonhara com ele, nos velhos tempos da agitada política macauense. E este, insistentemente, chamava-o: “Preciso de sua assessoria, com urgência, aqui.” Ao que respondia o poeta que logo iria, assim que concluísse determinado trabalho.

 

                        Gilberto admirava o meu pai, o seu caráter, a sua idoneidade, a sua coragem pessoal. Ingressara na política macauense através dele, ainda muito jovem, acadêmico de Direito. Prestava-lhe preciosa ajuda, com o seu talento e habilidade, porque acreditava nele e o julgava o mais apto para administrar Macau.

 

                        O escritor argentino Jorge Luis Borges, em seu “Libro de Sueños”, narra inúmeros e impressionantes sonhos de vultos históricos, sem adentrar-se em interpretações. Ali há relatos magistrais de sonhos de  Nabucodonosor, Jacó, José, Salomão, Confúcio (que sonhara com a própria morte), Cipião, Coleridge, Abraham Lincoln, dentre outros.

 

                        Eu e Gilberto também não nos fixamos em interpretações e, logo após a sua curiosa narrativa, passamos a outra modalidade de sonho: a poesia. Em seguida, o labor profissional da advocacia consumiu o restante do dia, para sempre memorizado.

 

                        Mas não quero terminar sem antes pôr em relevo a beleza e a lúcida singularidade desses versos do grande lírico espanhol Juan Ramón Jiménez, que tanto falam ao meu coração:

 

“Como aprendemos a morrer em ti, sono!

Com beleza magistral

nos vais levando  -  por jardins,

que parecem cada vez mais nossos  -

ao conhecimento profundíssimo da sombra!”

 

                        Relembro a nossa profunda amizade, que a morte não acabou, as nossas conversas infindáveis, as nossas divagações sobre política e projetos para Macau, sobre literatura, sobre o amor, sobre Deus. Relembro quando dizíamos que, assim, conversaríamos eternamente.

 

                        Macau e a poesia não perderam: ganharam Gilberto.

 

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(*) Horácio de Paiva Oliveira  -  Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

 

A  antecipação no futebol

BERILO DE CASTRO

Tenho ativamente acompanhado o futebol nacional e internacional. Faz parte do expediente de um aposentado caseiro.

Como ex-atleta, tenho e sinto minhas alegrias e minhas frustrações, claro!  Me considero, de uma certa forma, um exigente e “chato” quando analiso uma partida de futebol, principalmente agora, quando vejo que ali estão os “abençoados” que recebem oceanos de euros (os super valorizados e não tanto justificados).

Tenho observado e dedicado maior atenção às ações do sistema defensivo das equipes; até pelo fato de ter sido um jogador defensivo.

Hoje, o futebol, na exigência dos seus treinadores e do próprio momento atual, não admite mais um sistema defensivo com jogadores de meia estatura (digo, de meia estatura, baixa, nunca!). Tudo bem, é óbvio! Então, vamos encher de “galalaus” as áreas defensivas. No entanto, existe uma coisa muito simples na prática do futebol: o chamado “fundamento”. O bom futebol é praticado tão somente em cima de uma boa e perfeita aplicação de seus fundamentos básicos.

Não adianta uma equipe ter em seu sistema defensivo jogadores de grandes estaturas, se esses não souberem e não praticarem o exercício do bom tempo de bola, aquele bendito e correto momento de chegar primeiro – a conhecida “antecipação”. Cito um exemplo típico e muito bem lembrado e praticado pelo excelente defensor da seleção paraguaio Gamarra e do Flamengo, carioca; de pouca estatura, mas de um senso de antecipação nunca visto, impressionante! E tem mais, sem cometer infração alguma. Foi bonito ver atuar!

Infelizmente, hoje pouco se pratica esse importante e eficaz recurso técnico, e quem agradece de coração feliz e pernas livres e soltas são os atacantes, que passaram a marcar muito mais gols.

 

sábado, 24 de dezembro de 2022

 

          



 

Versos minúsculos (carlos para therezinha)

na lembrança - a tristeza,

que trago nas lendas,

que guardo nas fendas,

da minha natureza.

 

um sonho distante,

daquela criança em flor

indiferente à dor

escrava e senhora num só instante

 

aqui estou na vã espera,

com o coração fora do peito,

amargando o findar daquele amor perfeito,

triste contraste nesta vida de quimera.

 

até quando guardarei, deserta,

na minha solidão infinda,

esperança de vê-la, desta dor liberta.

 

Enfim, nestes versos desbotados,

na vida sofrida, que continua

sem ver ou ter a imagem tua.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

 

SÍNTESE DE UMA VOCAÇÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

O colega acadêmico padre João Medeiros Filho é do sertão, lá de Jucurutu, onde, Deus o sustentou na fé desde que nasceu. Sempre, manteve reflexões espirituais diante dos fatores imanentes e iminentes da vida. 

É um simples, não gosta de reuniões onde desfilam egos inflados. Suas crenças básicas estão fincadas na desafetação da vida como perpétuo e inalienável direito de existir, misturado ao povo miúdo, imagem e semelhança do Cristo, seu irmão. Nunca exercitou artificial adesão ao modismo litúrgico, plástico, aeróbico, difuso e mítico. No altar do Senhor ele é o donatário da capitania de Jesus ou capataz dos mistérios circundantes da fé. A sua homilia contêm a alma e o sumo das descobertas, interpretando em Mateus, persegue pontualmente os significados, a Lucas, Marcos, João e Paulo, tudo que o Espírito Santo falou. O padre apenas humana palavra necessária que todos queremos ouvir. No altar, nos repassa a unção e a certeza de que Deus existe.

A sua vasta experiência em vida acadêmica, direção e assessoramento superior em inúmeras instituições de ensino público e privado, oferecem-nos uma exata dimensão de sua experiência administrativa e cultural em cargos que ocupou.

O mais importante é que, com ele aprendi que soube sempre viver a alegria de sua pobreza material, território dos seus vãos e desvãos. Aqui e acolá fantasmas líricos apareceram para testemunhar o seu caminho de retidão. Triunfou sobre tudo, porque a sua angústia factual como sacerdote reside na tristeza de que o ser humano coisificou-se. Muita gente, perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem realmente a história da humanidade comum.

Nessa longa trajetória, sempre combateu o bom combate e nunca perdeu a lâmina da alma. Na atividade bibliográfica o seu labor foi extenso e genuíno nas origens e nas vertentes. Dos vinte livros publicados, três deles em idioma francês, versaram sobre temas sociais, religiosos, memorialísticos, históricos, publicados por editoras de prestígio nacional e internacional.

No céu estrelado de nossa amizade pessoal e litúrgica, ela passeia pela nostalgia que provém das nossas heranças telúricas de um tempo que a memória ainda não desfez. Juntos abominamos a marginalização dos pobres deste mundo que são hoje os mártires de ontem. Unidos, ainda procuramos nas conversas a terra habitada pelo silêncio e pela distância das coisas, porque o nosso grito é cárcere privado e já não se faz pouco ouvido, nesse mundo de contradições de todo o gênero. Vejo-o e sinto-o ainda, até hoje, moderado e modesto como sempre o conheci. Tão sem vaidades que gosta de ser anônimo, fulano de um mundo diferente, distante, coletivo. Em Emaús, onde Jesus mandou Nivaldo Monte deixá-lo, ele sonha com as madrugadas de silêncio, como se estivesse numa pracinha do interior, povoada de alegrias simples de viver.

O que gosta mesmo é de conviver ao lado da gente simples, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleito antes da hora, e nem foge de sua mortalidade, tal como pensou e escreveu o grande Mário de Andrade. Ele ama a solidão consentida para ouvir e falar melhor com Jesus. Vez em quando, de Emaús em Parnamirim, vem a Natal para rezar missas gratuitamente e rever amigos. Está consciente que completa mais um périplo em torno do tempo, sem nunca haver desamado os frutos de sua vocação. João Medeiros guarda em si a beleza aflita dos despossuídos. Um salmo invisível resplandece sempre em seus gestos e movimentos cadenciados de humildade cristã. Eis a minha homenagem.

 

(*) Escritor.