AQUELE SONHO
Tenha aquele sonho iluminado durante todo o seu dia
Precisou despertar? Sem problemas
Mas não esqueça aquele sonho
A salvação de seu dia está naquele sonho
O tempo está quente ou frio
Há turbulências no ar
E você não conseguiu sair
Não deixe que nada o perturbe
Que o grito insano o assuste
Não esqueça aquele sonho
Não se distraia e novamente
Não se perca no labirinto
Lembre-se que você tem aquele sonho
Não esqueça aquele sonho
(HORÁCIO PAIVA)
segunda-feira, 2 de maio de 2022
HÁBITOS E FUNÇÕES SEMIDESAPARECIDAS
Diogenes da Cunha Lima
As mulheres brasileiras costumavam cumprimentar com dois ou três beijinhos no rosto. Essa prova de afetividade natural surpreendia os estrangeiros que aqui chegavam. A pandemia fará desaparecer também a ternura?
Herdamos dos tupis o hábito de tomar um ou vários banhos por dia. A globalização e a carência de tempo estão diminuindo a frequência dessa saudável higiene corporal.
A Lei concede licença de paternidade, o que nos faz relembrar um ritual tupi: Logo depois de parir, a mulher ia trabalhar, enquanto o pai da criança, sentindo-se exausto, deitava-se na rede e recebia parentes e amigos. O filho era apenas semente do pai.
A tecnologia e as novas profissões aboliram antigas formas de estudar. A escola de datilografia de Dona Glorinha de Seu Heráclito conferia aos habilitados solenes diplomas. Havia forte demanda de um bom datilógrafo.
O leiteiro entregava as garrafas de porta em porta. Tive o privilégio de ser substituto de leiteiro, quando ele faltava ao serviço.
Telegramas e telegrafistas perderam o prestígio. As cartas comunicavam emoções de literatura.
Galena, ancestral improvisada do rádio, funcionava. As emissoras de rádio faziam programas de auditório, exibiam novelas e contratavam bons cantores.
As missas eram celebradas em latim. Quase toda igreja tinha o seu sacristão. Alguns ganhavam, apenas, quando badalavam os sinos. Na Semana Santa, os sinos tenores calavam dando lugar ao baixo das matracas.
Nas mãos dos doentes terminais colocavam-se velas acesas, que talvez evitassem o escuro da morte. Anoitecia na casa de Tambaú. O escritor apontou para a Estrela D’alva recitando: “Quando partir dessa vida / não precisa vela, não / pois esta estrela querida / é vela na minha mão. ”
O calendário era diariamente consultado. Retirava-se uma folhinha com o nome do santo do dia.
As lojas de tecidos tomavam conta do comércio, não faltava trabalho para as costureiras, até que surgiram as roupas feitas.
No tempo da locomotiva maria-fumaça, havia a profissão de foguista, que punha lenha para alimentar o fogo e fazer fumaça. O chefe da estação mandava o guarda-trilhos conferir a limpeza da linha. O funcionário acionava o trolley com uma longa vara.
As crianças produziam seus próprios brinquedos: bois de barro ou de cactos, bozós (dados) de batata, bolas de meia. Jogavam castanhas, com tila e castelo. Capa de carteira de cigarro era dinheiro, colecionado.
A cultura era difundida em saraus, partilhando-se poemas e músicas.
O Homem faz mudanças, adaptações. Criaram a teoria do retorno. Se voltarem funções e hábitos, voltarão repaginados.
quinta-feira, 28 de abril de 2022
DUAS HORAS
Pas de Deux
A HORA RASA
não há mais
onde abrigar-se
o quarto é um
símbolo mudo
e a calmaria
sinal de
perigo
os odres
estão vazios
e muita
cautela é preciso ao pisar
as nuvens de
silêncios inflamáveis
outrora havia
rumor de tambores
que
anunciavam a chuva
mas os
ventiladores pararam
o quarto está
despido
sem sombras e
sem luz
sem qualquer
movimento de espera
exceto a
expectativa
de que uma
porta se abra
e exponha o
jazigo
à
exterioridade dos ruídos
- Horácio Paiva (Brasil)
É ESTA A
HORA...
É esta a hora
perfeita em que se cala
O confuso
murmurar das gentes
E dentro de
nós finalmente fala
A voz grave
dos sonhos indolentes.
É esta a hora
em que as rosas são as rosas
Que floriram
nos jardins persas
Onde Saadi e
Hafiz as viram e as amaram.
É esta a hora
das vozes misteriosas
Que os meus
desejos preferiram e chamaram.
É esta a hora
das longas conversas
Das folhas
com as folhas unicamente.
É esta a hora
em que o tempo é abolido
E nem sequer
conheço a minha face.
- Sophia de Mello Breyner (Portugal)
EXPLICAÇÃO
NECESSÁRIA
Valério Mesquita*
Revisito
o poeta Orides Fontela que, parafraseando o Eclesiastes, nos lega uma lição
maravilhosa de vida quando diz que “há um tempo para desarmar os presságios; há
um tempo para desamar os frutos e também um tempo para desviver o tempo”. Nos
meus 50 anos de vida pública vivi a minha circunstância, no melhor dizer
orteguiano: “ Eu sou eu e minha circunstância. E se não a salvo, não me salvo eu”.
Sempre assumi riscos no jogo da política. Convenci-me do pensamento de Corneille
de que “Vencer sem perigo é triunfar sem glória”. Conforta-me haver atravessado
as noites escuras do tempo sem haver sofrido nenhuma derrota eleitoral em minha
terra, à despeito do quinhão usual de tristezas, de alguns equívocos, produzidos
pela difícil condição humana e política de ser.
Heródoto,
historiador grego, deixou escrito que “são as circunstâncias que governam os
homens e não os homens que governam as circunstâncias”.
Em
1970, ingressei no meu primeiro partido, a Arena, tendo me elegido prefeito de
minha terra. Com a sua extinção, fiquei no PFL e nessa legenda conquistei o
primeiro mandato de deputado estadual em 1986. No ano seguinte, por ter sido
preterido na eleição da Mesa da Assembleia Legislativa, rompi com o partido e
filiei-me ao PL, uma costela do PFL, ou uma dissidência em forma de legenda,
àquela época. Neste partido aprendi uma amarga lição de que “na política não há
só amigos e inimigos, mas conspiradores que se unem”. Nesse partido me reelegi
deputado em 1990. Nele fui punido por ser livre e por não ter deixado de me
indignar com os medíocres e superficiais. Permanecendo no mesmo sistema
gravitacional da política do Estado, voltei ao PFL. Descartei os convites que
me fizeram à época outras legendas. Retornei às origens para retomar o ritmo e
fui em busca do tempo perdido, à maneira proustiana.
Mas
se a política não fosse um jogo de conquistas, ela não seria tão fascinante. É
justo que todos tenham pretensões no limite exato em que não prejudiquem a concorrência
dos outros. Lembra-me Sartre ao dizer que: “O inferno são os outros”. Porisso é
que, existem ambiciosos tanto para o bem como para o mal. Vi-me nesse processo
eleitoral no dilema que me fez recorrer ao estadista Tancredo Neves depondo
sobre Petrônio Portela: “Ele nunca foi arenista, governista, oportunista ou
coisa que o valha. Ele teve o senso da sobrevivência. E o político que não o
tem está morto”. Mesmo dissidente do PFL nas eleições de 1994, conquistei o terceiro
mandato que o povo me conferiu por ter aprovado a minha atuação nos dois
mandatos anteriores de deputado estadual.
Por
fim, em 1998, cheguei pela quarta vez a Assembleia e posso, como poucos, após
todo esse tempo de vida pública, proclamar que trabalhei pelo Rio Grande do
Norte e tenho uma imensa gama de serviços prestados a minha terra Macaíba no
âmbito da cultura, do social, da saúde e da educação. É o patrimônio mais expressivo
que posso deixar para os meus filhos. É a minha paz cósmica satisfeita, lição
maior do meu pai Alfredo Mesquita Filho que morreu pobre e com a dignidade
intacta.
No
começo do ano 2000, fui indicado por unanimidade pelo Poder Legislativo para
servir ao Tribunal de Contas do Estado por quase 12 anos e lá me aposentei ao
completar 70 anos, servindo-o também como presidente. Sou servidor público de
uma só aposentadoria, pois no desempenho do meu segundo mandato parlamentar
votei contra a aposentadoria de deputado. Deixei a vida pública. E assim
respondo a legião de amigos que me indagam o retorno e a razão do porque
recusei convites para disputas de mandatos eleitorais.
(*)
Escritor
Monsenhor Flávio Medeiros, protonotário apostólico
Padre João Medeiros Filho
Talvez, poucos tenham conhecimento dessa honraria e sua importância
na História Eclesiástica. Depois do cardinalato, trata-se da mais elevada distinção
que a Igreja concede a seus clérigos. O episcopado não é título honorífico, mas
o último grau do sacramento da Ordem, portanto, um ministério a ser exercido
junto ao Povo de Deus. Recentemente, o Papa Francisco nomeou Padre Flávio José
de Medeiros Filho cônego efetivo da Basílica de São Pedro (Vaticano), elevando-o
consequentemente e “pari passu” à dignidade de protonotário apostólico.
Atualmente, este galardão só é concedido a eclesiásticos membros da diplomacia
e a servidores da Santa Sé. Monsenhor Flávio tem suas raízes em Acari. Há quase
dezessete anos, vem prestando relevantes serviços à cúpula da Igreja, notadamente
como cerimoniário papal. É um representante do Rio Grande do Norte, no
Vaticano. Há unanimidade em apontar sua fidalguia e presteza. Cabe ressaltar o seu
empenho para que a Sé Apostólica elevasse à qualidade de Basílica Menor a
Matriz de Nossa Senhora da Guia do Acari, pertencente à diocese de Caicó. “O zelo de tua casa me devora” (Sl 69/68,
10).
Os protonotários apostólicos podem igualmente ser chamados
de prelados, o que, por vezes, dava margem a dúvidas de que fossem bispos. Isso
acontecia devido às vestes, insígnias e a alguns privilégios, como o uso da
mitra episcopal, em missas solenes. Há mais de meio século, o Rio Grande do
Norte não conhecia eclesiásticos com tal distinção. Foram os últimos: Monsenhores
José Alves Ferreira Landim, falecido em 1968 e Paulo Herôncio de Melo, que nos
deixou em 1963, tendo sido o primeiro (do qual se tem notícia) José Paulino de
Andrade, em1904.
Até Paulo VI, havia três categorias de monsenhores: os camareiros
secretos de Sua Santidade, os prelados domésticos e os protonotários
apostólicos, subdivididos em: numerários (apenas sete, exercendo funções
importantes na Cúria Romana) e os supranumerários, podendo residir, fora de
Roma. Paulo VI modificou a nomenclatura, denominando os camareiros secretos capelães
de Sua Santidade e prelados de honra os prelados domésticos. Esta última classe
foi extinta pelo Papa Francisco. Este modificou as normas para a concessão do
título de capelão de Sua Santidade e restringiu a outorga de protonotários
apenas a clérigos diplomatas da Santa Sé ou exercendo funções específicas, em
órgãos do Vaticano.
Câmara Cascudo escreveu em sua Acta Diurna um magistral texto
intitulado “O primeiro norte-rio-grandense com o título de bispo?” Nele, procurou
esclarecer dúvidas e elucidar uma questão local. O historiador potiguar explica
o uso da expressão “prelado urbano”, como era chamado Monsenhor José Paulino de
Andrade, um mipibuense, nascido em 1861. Nas primeiras décadas do século XX, assim
eram denominados os protonotários para distingui-los dos prelados domésticos.
Muitos imaginavam ter sido ele o primeiro potiguar a ascender ao episcopado. Por
algum tempo, Padre José Paulino foi pároco de Pouso Alegre (MG), hoje sede
arquiepiscopal. Naquela cidade, nosso conterrâneo dinamizou a paróquia para
torná-la sede diocesana. Recebeu os incentivos do bispo de Mariana (Dom
Silvério Gomes Pimenta), ao qual estava subordinado. Padre José Paulino
preparou com esmero a matriz pouso-alegrense para se tornar catedral, construiu
o seminário e o paço episcopal, organizando o patrimônio do futuro bispado. Seus
paroquianos esperavam que o ilustre norte-rio-grandense fosse escolhido bispo
pelo seu dinamismo pastoral.
A nova diocese mineira foi criada em 4 de agosto de 1900.
Entretanto, em maio de 1901, o Papa Leão XIII designou Dom João Batista Correia
Nery seu primeiro bispo, transferindo-o de Vitória (ES). Padre José Paulino
deixou o sul de Minas, retornando ao RN. A pedido de Dom Nery e dos fiéis da
sua antiga paróquia, ele voltou às Gerais, em 1904. Numa tentativa de fixá-lo
em sua antiga paróquia, foi muito festejado e agraciado com as honras de
protonotário apostólico. Foi o reconhecimento pela sua dedicação à Igreja. O
eminente potiguar retornou a Natal, onde terminou os seus dias. Em Pouso
Alegre, é nome de rua e de escola. É preciso ter sempre em mente o que escreveu
o apóstolo Paulo: “Tudo o que fizerdes,
fazei-o para o Senhor e não para os homens” (Col 3, 23).
SALTO ALTO É SÓ SALTO ALTO
Tomislav R. Femenick - Jornalista
Minha primeira viagem de avião foi em 1946. Eu e minha mãe fizemos uma viagem fantástica. De madrugada, tomamos um voo da Cruzeiro do Sul no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com escala em Vitória, Ilhéus, Salvador, Aracajú, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e, finalmente, Mossoró, nosso destino final. Tudo era novidade. No Rio eu estudava interno no Instituto Guararapes, em Lins de Vasconcelos, então quase zona rural da antiga capital federal. O que me fascinou foi um fato inusitado para mim: todos os passageiros homens usavam ternos brancos, gravatas e sapatos pretos. Parecia uma farda.
Como minha mãe tinha enviuvado recentemente, em Mossoró fomos morar na casa de meus avôs, o coronel José Rodrigues e Dona Mariquinha. Solteiros lá moravam, também, os meus tios Mota Lima e José Vicente. Todas as noites eu os via vestir seus ternos brancos, de linho irlandês S120, calças suas meias Lupo e seus sapatos Fox pretos, para fazer o footing na Praça Vigário Antonio Joaquim.
As mulheres usavam mais variedade. Seus vestidos iam da saia e blusa, tradicionais, aos tubinhos franceses e melindrosas “made in USA”, porém adaptados; menos apertados e com saias abaixo do joelho. Já os sapatos femininos eram um caso à parte. Sandálias, só em casa e em convívio amigo. Fora disso, sapatos de salto alto, por mais incômodos que fossem O importante era seguir o império da moda.
Em determinado instante, tudo mudou: os hippies impuseram as calças jeans (depois os estilistas e a indústria delas se apropriaram), as camisetas e os tênis viraram peças unísseis. E os ternos brancos? “Morreram de morte morrida”.
Daquela época, somente os saltos altos sobreviveram. As mulheres continuam fiéis a esse instrumento de tortura. Porém o mais bizarro é que nós, os homens, também os usamos. Aliás, para quem não sabe, eles foram inventados no século XVI para uso masculino, para os soldados de exércitos asiáticos. Chegaram e se instalaram na realeza europeia. Basta ver os retratos dos reis franceses pintados por pintores famosos.
Mais recentemente, na segunda metade do século passado, houve uma verdadeira febre em busca de botas com salto carrapeta, principalmente as fabricadas pela Motinha, uma indústria paulista, que apresentava um pequeno salto externo e mais uma espécie de plataforma interna, escondida no calçado. Nos bailes do América era só o que se via, era uma febre, parece que contagiosa.
Já falei neste espaço sobre a minha insônia, em média somente conseguia dormir três horas. Hoje durmo um pouco mais. Lá na minha Mossoró eu tinha um colega da mesma irregularidade. O meu amigo Rafael Negreiros também dormia pouco e, como morávamos bem perto, usávamos essas horas para conversarmos. Certa noite começamos a falar de um fato que dominava as conversas da cidade: um amigo comum que havia sido nomeado para um importante cargo na Prefeitura, só recebia os subordinados e munícipes com hora marcado e exigia ser tratado por DOUTOR. O diagnóstico de Rafael foi preciso: “subiu nos saltos altos”.
De lá para cá sempre que me deparo com alguma arrogância, uma suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, classifico tudo como o que realmente é: prepotência, desprezo aos outros, orgulho ostensivo, altivez besta.
Tribuna do Norte. Natal, 27 abr. 2022
Os conselhos de educação
Padre João Medeiros Filho
Em maio próximo, o Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Norte –CEE/RN fará sessenta anos. Criado pela Lei 2.768/62, abriga, ao longo desse período, inúmeras histórias de notáveis educadores, comprometidos com a lide educacional de interesse coletivo. Atendendo a amigos e pessoas ligadas e estudiosas do tema, estou publicando este texto, parte de um pronunciamento proferido, há alguns anos, naquele colegiado. Os conselhos de educação (nacional, estaduais e municipais)são órgãos de Estado, não de governos. Têm por finalidade precípua representar a sociedade civil. Constituem-se em fóruns representativos da vontade plural para superar o arbítrio do desejo singular. Objetiva propor a estratégia de continuidade das políticas públicas no campo educacional. Por isso, é de bom alvitre e desejável que a indicação de seus membros busque a renovação não coincidente com os mandatos dos governantes, evitando-se a quebra de continuidade. Tais colegiados devem ser constituídos de pessoas de notório conhecimento teórico e comprovada vivência no campo pedagógico para refletir a concepção educacional da sociedade como um todo e não de uma fração dela. Os conselheiros são designados e não nomeados pelos agentes executivos. Do ponto de vista administrativojurídico, distinguem-se designar e nomear. Há que ter em mente o caráter normativo, deliberativo e consultivo dos conselhos na regulação de políticas públicas, em termos da oferta de ensino. Sua missão é alvidrar a legislação de regência, interpretando-a e iluminando a caminhada das instituições educacionais, por meio de normas claras e atualizadas. Portanto, para cumprir seu papel um conselho de educação necessita de autonomia plena em suas funções e competências próprias. Não deve ser um apêndice da estrutura administrativa de governos. Estes, não raro, são tentados a representar um segmento da sociedade. Não cabe ao poder executivo interferir direta ou indiretamente em assuntos de competência própria e privativa dos colegiados. Estes, enquanto órgãos de Estado, caracterizam-se como espaço de diálogo, exercendo função mediadora entre o ente público e a sociedade. Eles não comportam debates característicos da Academia, onde costumam avolumar-se questionamentos, teorias, hipóteses, correntes e metodologias. Tampouco, podem tornar-se instrumentos meramente políticos, refletindo posições e posturas de setores governamentais. São essencialmente órgãos normativos, cuidando da legislação edo estatuído como política educacional de Estado. Não se pode esquecer o que está determinado em leis e deverá constar de seu corpo regimental. Trata-se de um colegiado responsável e capaz, nos termos da legislação de regência, de assegurar a legítima e efetiva participação da sociedade na execução e no aperfeiçoamento da educação. No que tange aos diplomas legais vigentes, vale ressaltar que a Carta Magna se refere aos sistemas de ensino nos Artigos 211 e 212, ao tratar de sua organização. O Artigo 8º, da Lei 9394/96, em vigor, também trata do mesmo tema. Cabe destacar o estabelecido nos Artigos 9º, 10 e 11 do citado diploma, conferindo aos entes federados, por meio de seus sistemas de ensino (nos quais se inserem os conselhos) as incumbências de regular, supervisionar, avaliar e editar normas complementares para o funcionamento de instituições educacionais e cursos a elas vinculados. Outrora, Louis Pasteur sugeriu gravar no pórtico de um hospital parisiense estes dizeres: “Ao paciente: Não quero saber qual é a sua etnia, religião ou ideologia. O que interessa é a sua dor”. “Mutatis mutandis”, palavras similares poderiam se inserir no direcionamento dos conselhos de educação. Não importa se a escola é pública, particular, confessional ou filantrópica. O que deve contar é o propósito sério de educar, a busca incessante da qualidade de ensino e o cumprimento das normas que visam ao bem comum. É oportuno lembrar as palavras de Ariano Suassuna: “Vivemos de modismos e nomes, faltam-nos princípios e convicções. Pensamos que isto é educar. Neste país, criam-se ídolos e se desconhecem os esforços anônimos e edificantes de plêiades de mestres abnegados fincados nesses sertões brasileiros. Quem educa mais: o modismo ou o amor de quem transmite o saber? Quem sabe, não repete coisas ultrapassadas”. Aos educadores convém lembrar o ensinamento bíblico: “Ensina ao jovem o caminho certo a seguir e ele não se desviará, mesmo quando envelhecer” (Pr 22, 6).
Uma voluntária da pátria Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN
Diante da fraqueza das forças armadas brasileiras, no tocante a armas e a efetivo, o Império do Brasil, à frente o grande Dom Pedro II, a fim de se preparar para a Guerra do Paraguai (de 1864 a 1870), abriu o voluntariado para homens aptos para esse desafio. Estava criado o Corpo de Voluntários da Pátria, e o primeiro a se alistar foi o próprio Imperador, que chegou a atuar na frente de batalha. Cabia aos Presidentes das províncias, nomeados pelo Governo central, a formação dos seus grupos de Voluntários da Pátria. À época da guerra do Paraguai, o presidente da província do Piauí era Franklin A. de Menezes Doria, futuro barão de Loreto, que permitiu a uma mulher sentar praça no batalhão de V. da Pátria, no posto de segundosargento. Tratava-se da cearense Jovita Alves Feitosa (1848-1967), que fora morar no Piauí a fim de se alistar para participar da guerra contra o Paraguai, principalmente para defender a honra da mulher brasileira, vítima das atrocidades dos invasores. No intuito de ser logo aceita como V.P., Jovita cortou o cabelo e vestiu roupa de homem, pois a missão era vedada às mulheres. O disfarce deu certo e Jovita Alves Feitosa foi aceita como voluntária. Porém, durou pouco seu regozijo, pois alguém notou suas orelhas furadas e a presença de seios, motivos para a rejeição do seu sonho. Mas a Joana d’Arc (1412-31) brasileira não desistiu do seu heroico intento e apelou para o Presidente da província do Piauí, que, sensível ao gesto, ordenou a inclusão da jovem de 17 anos, ao segundo grupo de Voluntários da Pátria. A essa altura, Jovita já recebia muitos aplausos públicos, na condição de heroína nacional. O segundo corpo de Voluntários do Piauí, com 460 praças, entre eles, a segundo-sargento Jovita Alves Feitosa, partiu de Terezina a 10 de agosto de 1865. O destino era o Rio de Janeiro e o percurso, feito de navio, levou 37 dias, com escalas em São Luís, João Pessoa, Recife e Salvador. Em cada uma dessas cidades, Jovita recebeu grandes homenagens das autoridades e do próprio povo. Em São Luís, o grupo foi homenageado em peça teatral e, ao final, foi exigida a presença da segundo-sargento no palco, quando a cobriram de flores, sob intensos aplausos. No Recife, Jovita foi hospedada no Palácio do Governo, e, no Teatro Santa Isabel, houve um espetáculo em sua honra, inclusive declamações de poesias. A 04 de setembro, o vapor chegou a Salvador, e a voluntária voltou a receber grandes homenagens. No entanto, como sempre existem as “vozes dissidentes”, foi o que ocorreu com todo aquele louvor à figura de uma mulher humilde, nordestina, além de pouca instrução, e Jovita Alves Feitosa sofreu muitas decepções (assunto para outra crônica). Mas seu nome consta, desde 2018, no Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Texto publicado na Tribuna do Norte, em 28/04/2022
segunda-feira, 25 de abril de 2022
RELEMBRANDO TIA SOFIA DE ANDRADE DUARTE
Valério Mesquita
Mesquita.valerio@gmail.com
Rua Voluntários da Pátria 722, Cidade
Alta, Natal. Telefone: 2901. Era o endereço do casal Temístocles Duarte e Sofia
de Andrade Duarte. Corria o ano de 1954. Eu chegara de Macaíba aos 12 anos para
estudar no Colégio Marista e neste lar me hospedei, trazido pelos meus pais.
Sofiinha, assim chamada carinhosamente por todos, era a filha caçula de Dario
Jordão de Andrade e Sofia Curcio de Andrade, filha de imigrantes italianos.
Mas, em minha tia, pontificavam os traços ineludíveis dos ancestrais europeus,
cuja juventude em Macaíba e Natal chamava a atenção pela beleza. Herdou, ainda,
de sua mãe a coragem espartana, quando enfrentou a viuvez – ainda muito jovem –
genitora de uma prole de seis filhos: Clóvis, Nair (minha mãe), Dario,
Floriano, Nilda e a própria Sofiinha.
Clóvis Jordão de Andrade foi
funcionário federal da Alfândega em Recife, além de escritor e poeta com vários
livros publicados. E Dario Jordão de Andrade destacou-se na magistratura como
juiz de Direito e jurista de reconhecido valor no Rio Grande do Norte. Do
casamento com Temístocles, funcionário concursado do Fisco Estadual, nasceram
Sililde e Ticiano Duarte. Emerge, agora, como uma saga da memória, a primeira
residência à rua 13 de Maio, hoje Princesa Isabel. Ali próxima, a modesta
mercearia de minha avó, pois, a família Andrade sempre foi unida e pacífica sob
o comando seguro da sua matriarca. Mas, Sofiinha, era a líder inconteste dos
irmãos. A sua palavra soava como a última em qualquer assunto, fosse familiar,
político, religioso, comercial, etc.
Recordo o seu desempenho pragmático e
ostensivo quando saía às compras com a mana mais velha Nair. Na “Nova Paris” de
Nivaldo Bonifácio, avenida Rio Branco, após a sessão de prova de perfumes,
minha mãe, antes de escolher, por hábito consuetudinário, consultava a irmã:
“Sofia, esse perfume parece o melhor. O que acha?”. Sofiinha, envolvente e
itálica, gesticula e convence: “Nair, minha mana, é porque você não provou
este”. Sob o olhar curioso de Nivaldo, a obediente Nair assentia docilmente.
Relembro Sofiinha, católica
apostólica romana e sua fé fervorosa na Virgem Maria. Acompanhava-a no terço
semanal do Patronato da Medalha Milagrosa, na Praça André de Albuquerque. Ela
se destacava pelo espírito nato de liderar, opinar e persuadir. Sililde,
Ticiano e eu não escapávamos de suas repreensões domésticas. Ali perto, na
Voluntários da Pátria, a vizinhança amiga, a Padaria União de Avelino Teixeira
Filho, e seu marketing aliciante: “Impera pelo estoque, domina pelo trato e
convence pelo preço”.
Por outro lado, testemunhei sua
altiva disposição de luta e coragem espiritual na superação de obstáculos que
ficaram em mim como radiosas manifestações do seu temperamento peninsular. A
propósito dessa imagem recorrente, foi singular sua atitude de socorrer em
Recife o irmão Clóvis, gravemente enfermo, tal qual uma rosa mística. O
primogênito faleceu segurando as suas mãos samaritanas num momento trágico e
emocional. Sofiinha me impressionava pela visão beatificadamente lírica da fé
cristã, no exercício diuturno da recitação do terço e da condição humanitária
de ser.
Outra postura de sua incomparável
beleza de procederb era a dramática e quase teatral exibição de se confessar
macaibense, como se quisesse provar uma verdade científica, universal e
superior de sua cidadania. Isso, comovia a todos. Ela foi, apenas, uma mulher
simples, do lar, da gente, despretensiosa, mas líder e responsável pela
integração democrática da família que irradiava luz rara e personalíssima.
OS
BAOBÁS BRASILEIROS
Diogenes
da Cunha Lima
Por
serem árvores sagradas na África, os baobás não podem ser cortados, danificados
e merecem homenagens místicas, velas votivas, fitas e outros louvores. Perto
deles não há maldade que resista, cura mau-olhado, alegra a vida. É símbolo
reconhecido da resistência negra. Ao contrário das pessoas, não são, pois,
discriminados, excluídos na participação social.
Hoje, o baobá é brasileiro. Tanto quanto os afrodescendentes.
Aqui vivem, multiplicam-se nos Estados, são estimados. Viram poemas, músicas,
estudos biossociológicos.
Há 30
anos, comprei um terreno na rua São José para, assim, evitar a construção de um
belo edifício, salvando o mais antigo habitante da nossa cidade, chamado de “O
Baobá do Poeta”. Venho pagando, sem sofrer, o imposto predial devido porque, em
três décadas, a árvore só me tem dado alegrias.
Professores
e alunos de colégios potiguares fazem a festa ao seu redor. Então, converso com
eles sobre a preservação da natureza, a beleza das flores que a árvore produz,
a história de “O Pequeno Príncipe”. Normalmente, as crianças retribuem com
desenhos, pinturas, observações graciosas e muitas perguntas.
No local, são promovidos eventos especiais:
apresentação de teatro infantil, lançamentos de livros, acontecimentos
culturais variados. Entre os quais, são notáveis o circuito de bike, do baobá de
Natal ao baobá de Nísia Floresta; celebração da consciência negra e festa de
instituição de invisuais, os cegos.
O
baobá de Natal inspirou o conjunto de danças Cisne Negro, que fez 50
apresentações do espetáculo em São Paulo. A exposição do tema no Ibirapuera atraiu
milhares de visitantes.
Jornais
e revistas do Brasil e de vários países registram e celebram o maior baobá do
país, com seus 19,5 metros de circunferência. Ele é mulher. No documentário
elaborado por Woldney Ribeiro, a atriz afrodescendente Tony Silva sai de dentro
da árvore e conta magistralmente a história do “Baobá do Poeta”. Ganhador de
prêmios, o curta-metragem foi apresentado no Festival Brasil-Áustria, em Gmund,
cidade das artes, e aplaudido de pé. Com legendas em alemão, foi exibido em
escolas.
Ativistas
e idealistas criaram o Fundo Baobá para a equidade social, construindo um senso
de justiça e o reconhecimento das virtudes da negritude brasileira.
O
Brasil teve cinco Independências: a comercial, a política, a heroica formal, a
estética e a Independência negra, que ainda se busca alcançar. Todo brasileiro
é beneficiário das origens africanas nos costumes, nas artes, na dança, na
música, na literatura. Precisamos retribuir, abraçando a nossa identidade
africana.
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