quinta-feira, 31 de março de 2022

 

A respeito dos vocábulos política e político

Padre João Medeiros Filho

Quando residia no Rio de Janeiro, vez por outra, encontrava no escritório da Editora Vozes o professor Junito de Souza Brandão. Foi um dos brasileiros mais versados em língua e literatura helênicas. Autor de uma obra notável sobre a mitologia grega. Transitava facilmente da semântica e etimologia do idioma de Aristóteles à filosofia pré-socrática. Discorria sobre a tragédia, a comédia e os arquétipos, objeto de estudos e pesquisas de psicanalistas e psicólogos. Com frequência, era convidado para ministrar cursos e palestras na Sociedade Junguiana do Rio de Janeiro.

A origem de nossos vocábulos era uma de suas paixões e preocupações. Discordava da definição de certos autores a respeito da palavra política. Insistia peremptoriamente ser ela derivada de “polis” – que significa cidade, em grego – e trata-se da arte correta da convivência social. Sua consequência é a Ética. Todo político deve ser um autêntico cidadão. Necessita estar familiarizado com os assuntos citadinos: linguagem, direitos, deveres, objetivos, problemas, possibilidades etc. Argumentava o professor Junito: “político, na sua essência, é alguém voltado para a cidade e não para um partido, que é apenas (etimológica e ontologicamente) parte.” A “polis” originária era configurada em oposição ao campo. O rurícola, por viver em grupos restritos e geralmente familiares, carece de uma visão mais ampla e diferenciada da vida em sociedade.

Segundo etimólogos, o adjetivo polido e o verbo polir derivam da mesma raiz “polis”. Portanto, o político deve ser detentor de polidez, educado, fino, urbano em palavras e atos. O que se nota muitas vezes é o contrário. Muitos deles são agressivos e radicais. Frequentemente, são aplaudidos, quando desfiam impropérios, atacam a honra alheia e procuram destruir a reputação dos outros. Não basta discordar, há que aniquilar o oponente, não importando os meios e métodos. De elegante o político passou a ser sinônimo de empedernido, obtuso ou recalcitrante. No entanto, deveria primar sempre pela urbanidade, sendo capaz de escutar, dialogar e buscar soluções em conjunto. Querer respostas para problemas sociais isoladamente, partindo apenas de um grupo (sem consenso), revela síndrome do autoritarismo e corrói as bases da democracia.

Segundo o professor Brandão, a “polis” opunha-se à cidadela (muralhas etc.), onde seus ocupantes encastelados permaneciam alienados sobre os verdadeiros assuntos e problemas urbanos, pois estavam totalmente focados na defesa contra ameaças de invasão. Em latim, existe o termo “civitas”, correspondente à palavra grega. Era o local dos civis (em oposição aos ocupantes das fortalezas), marcados pela civilidade. A verdadeira cidadania implica em conhecimento e vivência de atos civilizados. Mas, nem sempre acontece assim. Os políticos, por excelência, devem ser citadinos na mais genuína acepção do termo. Entretanto, desconhecem, não raro, as regras mais comezinhas do conviver, sentindo-se senhores (ou donos) e não participantes da vida social ou comunitária. A “polis” e a “civitas” nasceram como alternativa às cortes. Infelizmente, hoje, certos detentores de mandatos vivem como se nobres medievais fossem, tratando os concidadãos como seus vassalos. Há décadas, houve quem definisse o senado brasileiro como sendo o céu, em razão dos privilégios. Isto opõe-se ao Evangelho: “Vim para servir.” (Mc 10, 45). O professor Junito denomina tais pessoas sectários ou partidaristas.

Talvez, a leitura de Santo Agostinho nos ajude a entender melhor a realidade. Para ele, “a cidade é a reunião dos homens em comunhão de pensamentos e planos, unidos em função do bem-comum, dos anseios e objetivos humanos.” É importante sempre ter em mente o que proclama o salmista: “Se o Senhor não guardar a cidade, debalde vigiam as sentinelas.” (Sl 127, 1). Aliada à política deve vir a economia. Esta provém do termo grego “óikos+nómos”, que significa gerir uma casa. Isso confunde alguns que devem cuidar da cidade. A tentação de individualizar “casa” permeia o pensamento de muitos ocupantes de cargos públicos. Esquecem que “a nação ou província é a casa comum”, na expressão do Papa Francisco. Muitos exercem a política, pensando em administrar “a sua casa” (constituída apenas dos interesses pessoais, dos amigos e partidos, incluindo a sua ideologia). Convém lembrar as palavras do apóstolo Paulo: “Há uma diversidade de dons. Há diferentes atividades, mas tudo é dado para o bem de todos.” (1Cor 12, 4-7).

 

TAMBORES DE GUERRA E DE PAZ

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Macaíba precisa ser considerada acima dos nomes que postulam a prefeitura e dos partidos. Acompanho, preocupado, a luta sucessória. Já se perdeu muito tempo com divergências e querelas paroquiais. Elas não levam a nada. Apenas alimentam vaidades. O município está empobrecido. A população deve cobrar dos seus agentes políticos propostas concretas e não promessas que resolvam problemas pontuais tais como: o das enchentes, o da saúde pública (Hospital Alfredo Mesquita), empregos, segurança, tráfico de rogas, educação, melhoria de vida das comunidades suburbanas e interioranas, além de outras ações voltadas para a cidadania.

Macaíba atravessa uma quadra atípica e grave de sua vida. Ela precisa de uma liderança que possa reordenar e comandar as ações políticas, governamentais em favor da população. Saí dessa atividade mas não deixo de me afligir como cidadão, eleitor, ex-prefeito, ex-deputado e filho de Macaíba. Onde estão os que arrecadaram votos na última eleição para senador, deputado federal e estadual que não cobram da governadora e do presidente a solução dos problemas? Por que os outros municípios da Grande Natal são atendidos e Macaíba não?

Tempos atrás, encontrei-me casualmente com a governadora e conversamos sobre Macaíba. Abordamos assuntos de natureza administrativa porque me são pertinentes e não os de características eleitorais. Visualizei para a chefe do executivo todas as carências que citei no início. Mas, reconheço que a tarefa não me cabe mais. Entendi que o apreço da governadora se constituiu numa deferência especial em função do meu passado político e por assimilar que o momento exige a participação e o somatório de todos que têm uma parcela de responsabilidade nos destinos de Macaíba.

Escrevo para pedir um momento de reflexão aos meus conterrâneos. E, por extensão, à classe política da terra de antepassados tão notáveis que não precisam ser mencionados. A defasagem no seu crescimento econômico é tão acentuada que qualquer administração convencional não recupera o tempo perdido. As ações governamentais, por isso, devem ser urgentes e estruturais. Nenhum município pode prescindir do apoio do governo do estado e nem este da presidência da república. Não temos recursos extras que possam ativar o desenvolvimento municipal. Daí ser preciso, inadiável, um pacto pelo desenvolvimento de todas as forças políticas e das classes produtoras, além de segmentos da cultura, da educação, da juventude, dos profissionais liberais pela salvação de Macaíba que dorme e geme num berço esplêndido. Comecem a bater os tambores do diálogo e da paz.

 

(*) Artigo Publicado no livro “INQUIETUDES” - 2004

 Clarice Lispector e Natal/RN (2) Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN No dia 29 de julho de 1944, Clarice Lispector deixou Natal, em voo para Lisboa. Foi uma viagem longa, com escalas na Libéria, no Congo e Dacar, só chegando a Lisboa em 02 de agosto. Em Lisboa, onde permaneceu por nove dias, manteve contato com escritores portugueses, entre os quais João Gaspar Simões e a poeta Natércia Freire. Seguiu em voo para Nápoles, com escalas e pernoites em Casablanca, no Marrocos, e em Argel, enfim, de Natal para Nápoles foram cerca de 25 dias de viagem. Em setembro de 1944, de Nápoles, Clarice escreveu para Lúcio Cardoso, e voltou ao tom depreciativo sobre a nossa querida cidade de Natal. Parece até que Clarice ficou de mau humor, desde que o marido Maury embarcou em Natal, a caminho de Nápoles. Vejamos o que ela escreveu em carta para as irmãs Elisa e Tânia, de Lisboa, a 7 de agosto de 1944: “Cheguei finalmente a Lisboa. Não me agradou. Eu pensava encontrar coisa diferente. O Rio é milhões de vezes mais bonito e mais cidade. Os portugueses são paus. As portuguesas não se vestem bem, têm todas (...) e rosto meio duro. Estou chateada aqui”. Mais adiante, ela revela seu cansaço e seu estado de humor: “gostaria de estar aí com vocês ou com o Maury. O mundo todo é ligeiramente chato, parece”. A cidade de Natal aparece poucas vezes e de forma pontual, na obra de Clarice Lispector. Na sua passagem por aqui, se ela tivesse mantido contato com escritores potiguares, a exemplo de Palmyra Wanderley e de Câmara Cascudo, talvez a cidade de Natal tivesse recebido diferente atenção e respeito. Trago hoje um belo depoimento de uma colega médica, confreira da Academia de Medicina do RN, Emília Trigueiro. Em 1976/77, Emília, já aluna do curso médico, gostava de passar férias no Rio de Janeiro, em casa de parentes, os quais residiam no Leme, na rua Gustavo Sampaio, 88, no mesmo prédio onde morava Clarice Lispector. Segue o resumo do belo texto que Emília me enviou, após a leitura de crônicas minhas sobre C. Lispector: “Eis um depoimento que ficou guardado na minha memória, ao longo desses anos, e que agora aflorou com os seus escritos. Era pelos idos de 1976/77. No elevador, encontrei uma mulher esbelta e alta, toda vestida de preto, boca de um batom escarlate, olhar fuzilante e inquisidor. Nesta primeira vez ousei dirigir um bom dia tímido. Confesso que inicialmente tive receio, senão mesmo medo de a incomodar, e me veio dúvidas de entrar ou não no elevador naquele momento, mas o fiz. Éramos apenas as duas. Permaneci quieta, mas sentindo-me observada. Esse foi o primeiro de outros encontros fortuitos no elevador. Aquele sentimento de receio e medo foi logo substituído pelo de admiração. E de honra por estar ao lado da grande Clarice Lispector, ainda que por poucos minutos, na celeridade de uma subida ou descida de elevador. Fosse hoje, arriscaria um pequeno diálogo, e teria bem mais para contar”. Texto publicado na Tribuna do

 

AMIGOS FAZEM FALTA

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

Quando eu era repórter do Jornal de Alagoas, Maceió era uma cidade pequena, com algo em torno de cem mil habitantes. Poucas eram as notícias que não se originavam na própria província. Como eu morava perto do Hotel Atlântico, criei o hábito de passar por lá para saber dos hóspedes do que era, então, um dos melhores hotéis da terra dos marechais.

Um dia, vendo o livro de registro, deparei-me com um nome, José Pancetti.

– Seu Miranda, qual o quarto desse hóspede? - Perguntei.

– Ah! É um pintor de paredes. Está no porão – Foi a resposta.

Só que Pancetti era um dos maiores artistas plásticos do Brasil. Fiz uma entrevista com ele e me transformei no descobridor de Pancetti, em Alagoas. Esse foi o início do meu convívio com os artistas da pintura. Depois estreitei meu relacionamento com Pierre Chalita, Maria Tereza e outros “pratas” alagoanos. De lá para cá sempre procurei cultivar o convívio com esses seres tocados pelo dom de captar instantes de vida ou dos outros seres, dando-lhes realce e cor com uma simples pincelada. Até Goreth, minha mulher, era pintora.

Mas, voltemos à história. Retornando para o Rio Grande do Norte, fui morar na minha cidade, Mossoró. Entretanto sempre vinha a Natal, onde conheci e fiz amizade com Newton Navarro. Em uma manhã de um dia de outubro de um ano que já vai longe, 1961, estávamos eu e Newton tomando uns chopes na Confeitaria Cirne, ali na João Pessoa, no Grande Ponto, o ponto onde tudo acontecia ou onde tudo era comentado em Natal, quando ele me apresentou a duas figuras que, como ele, pontificam na história da cultura do Rio Grande do Norte: Veríssimo de Melo e Dorian Gray Caldas. Com aquela sua peculiar capacidade de descrever as coisas com um simples rompente verbal, Newton foi sintético no descrever dos personagens:

– Dorian pinta com cores encantadas que eu gostaria de copiar. Veríssimo escreve com saberes que eu gostaria de saber dizer.

Como é próprio a uma mesa de bar, a conversa fluiu fácil e solta. Navarro queria que eu, um jovem repórter, escrevesse um romance, tendo como pano de fundo as salinas de minha terra. Dorian disse que faria as ilustrações, pois um livro desses haveria de ter muitas imagens fortes. Por sua vez, Vivi, antecipadamente, comprometeu-se a escrever o prefácio de um livro que não existia, dizendo, mais ou menos, que começaria assim: “A força dos homens sempre está na sua disposição de luta, ainda mais quando...”

O livro nunca foi escrito, o prédio da Confeitaria Cirne hoje é ocupado por uma loja, Newton virou nome de ponte e, como ele, Veríssimo e Dorian não estão mais entre nós. Deles tenho a lembrança, a saudade e os seus livros autografados que ganhei naquele dia; “O solitário vento de verão” e “Cantadores de viola”. Quando vejo as obras de Dorian sempre me curvo perante aquelas cores de que Navarro falava. Cores vivas ou pastéis, mas que expressam um estado de sentimento; que fazem a interface entre o artista e o público. Cores do Nordeste, cores do Rio Grande do Norte. Cores de Dorian Gray Caldas. Seu vermelho ocre, seu verde cambiante, seu amarelo entremeado de uma variedade quase infinita de tons laranja e avermelhados e seu azul, vezes fulgente e outras quase mórbido, constroem um mundo de uma beleza que é só dele, o artista que extravasa talento, que disciplina a técnica para que ela não iniba a sensibilidade de quem, além de pintor, era escultor, tapeceiro, escritor, poeta, imortal e meu amigo por quase meio século.

Todos já partiram para o campo dos lírios do Senhor; somente eu ainda estou por aqui. Como era bom ter amigos desse naipe.

Tribuna do Norte. Natal, 25 mar. 2022

 



THEREZINHA ROSSO GOMES

TRÊS ANOS DE SAUDADE

            É um dito popular – Nunca morre quem é lembrado. Isso se confirma com a pranteada criatura de Deus, que virou estrela em 31 de março 2019.

            Somente quem vive essa passagem tem a dimensão da importância das pessoas que convivem no seio da família – o sorriso permanente, o humor, a gentileza, a bondade, a referência, a harmonia, a companhia, a cumplicidade, o amor – e se mais mundo houvera lá chegara.

            Tivestes da flor o melhor perfume

 Hoje ausente do meu jardim

            Esperança que em qualquer instante

 Retornes sorrindo para mim.

        Enviada a este mundo numa missão  

Zodíaco do destino meu       

           Iluminando sempre meu caminho            

Nas noites de infinito breu.

          Haverás de ser sempre a estrela guia

              Até que em breve termine o nosso adeus.

            Não sou poeta e somente a força do amor é capaz de, num imenso esforço, tentar enviar para ti, em versos, toda a saudade, toda a lembrança, toda a tristeza que sinto por não estás aqui.

UM BEIJO DAQUELE QUE A AMOU INCONDICIONALMENTE POR 71 ANOS, MAS CONTINUA NO MUNDO DA ESPIRITUALIDADE, SEU PRETO, CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES.

                

quarta-feira, 30 de março de 2022

 

Novas Cartas de Cotovelo – OUTONO de 2022-11

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

 

                Terminou o verão com grandes águas de março. O dia de São José apontou a possibilidade de um bom inverno, o que parece se concretizar com sucessivas e constantes chuvas que estão caindo, em volume considerável. É mais do que o tempo para a revisão de telhados, tirando goteiras e outras mazelas comuns no inverno que se aproxima.

         Na minha morada de Cotovelo tudo vai muito bem, não fosse o lamaceiro da rua, por minha culpa, que em frente a casa coloquei uma carrada de barro, de difícil absorção das águas da chuva.

         Infelizmente, o mesmo não acontece com a minha outra morada de Natal, no Barro Vermelho, cujo nome corresponde ao fato do seu solo e empoçamento das águas pluviais, quase impermeabilizando o solo e exigindo a colocação de drenos de esgotamento para não acontecer alagamentos na casa, construída em terreno com declive.

         A propósito, a Prefeitura de Natal fez uma vistoria do imóvel e me obrigou a assinar um TAC para que eu fechasse as saídas dessas águas para a rua, visando o seu aproveitamento no lençol freático. Logo nas primeiras chuvas fui forçado a desobstruir esses drenos, pois a dificuldade de absorção do terreno de barro criou um excesso que ameaçou o apavorante alagamento, como já ocorrera num passado remoto, eis que a construção data do ano de 1966, antes de existir a tal lei invocada para as posturas de construção, a qual, em meu sentir não pode ter efeito ex-tunc, pois assim, todas as casas antigas, inclusive os prédios históricos como o Palácio da Cultura, Quarteis militares, Igrejas e a própria sede da Prefeitura teriam de ser readaptados às novas regras, o que não aconteceu. Sobrou prá mim???

         Certamente o entendimento da Prefeitura merece ser revisado, pois nenhum sumidouro terá a capacidade de resolver o problema, pelo motivo declinado – a qualidade do solo.

         É princípio fundamental do Direito, que a lei não pode retroagir para prejudicar. Vamos tentar uma solução racional pela via administrativa ou temos que judicializar a questão, tirando o sossego de um ancião de 83 anos, com 53 anos de residência no mesmo imóvel.   

quinta-feira, 24 de março de 2022

 

O PARAÍSO PERDIDO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Aprendi nos compêndios de geografia no Colégio Marista que “o Brasil é um país essencialmente agrícola”. Essa teoria mudou radicalmente nesses últimos 60 anos. Principalmente no Nordeste, grande produtor de cana de açúcar, banana, algodão, milho, feijão, mandioca, etc. Particularizando o Rio Grande do Norte, podemos dizer, sem medo de errar, que o produtor rural está falido.

Quem faliu a atividade agrícola? Ora, o Governo Federal, através dos seus próprios instrumentos: o Ministério da Agricultura, os juros bancários e o calote das usinas de açúcar aos produtores de cana.

O produtor rural é hoje um refém permanente dos bancos oficiais. Além das dívidas padecem as dúvidas do tempo, da ausência de uma política agrícola definida que objetive a produtividade. Quem cair na arapuca do empréstimo agrícola em banco do governo se arrisca a perder a propriedade. Nesses tempos alternativos, para sair do buraco, ou o proprietário rural faz acordo com os sem terra para invadirem sua propriedade, ou, quem tem nome/sobrenome arranja um gancho de um financiamento a fundo perdido, tipo “reflorestamento”, que já salvou, pelo “ladrão”, muita gente boa. O mais, ser produtor rural é padecer num paraíso perdido.

E a SUDENE? Pergunta um idiota chapado. Evadiu-se nas vagas vazias e vadias da incredibilidade, da inconsequência e da incompetência. Morreu de inanição sem se aperceber que a próxima crise mundial será a da escassez de alimento. No Rio Grande do Norte, se não fosse o programa do leite todos os produtores rurais, sem exceção, já teriam se enforcado. Desde o Governo Sarney, quando foi extinto o subsídio agrícola a atividade rural nesse país entrou em colapso. Na ANORC (Associação Norte-Rio-Grandense de Criadores) ou fora dela, a maioria dos agropecuaristas está vendendo o rebanho para pagar o banco. Para se viver honestamente, tirar da terra o sustento, acreditar que somos essencialmente um país agrícola, sem bandalheira, sem maracutaía, sem empréstimos dadivosos a fundo perdido com o dinheiro do contribuinte, o que fazer? Só há dinheiro para a atividade industrial urbana, fábricas, pólo-gás-sal, etc., e o campo vai se esvaziando, se erodindo...

Dir-se-á que o país todo se urbaniza e as propriedades rurais vão ficar mesmo para os sem-terras que irão se decepcionar e constatar que o trabalho agrícola é mesmo uma atividade marginal nesse país. Aí virá o Evangelho e Cristo dirá novamente: “Naquele tempo...”. O Nordeste será a Galiléia.

 

(*) Escritor.

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

 

Qual é o seu Deus?

Padre João Medeiros Filho

Não raro, escutam-se pessoas de todos os níveis socioeconômicos e culturais, afirmando: “Sou um ateu. Não creio em nada.” No entanto, cabe perguntar: em qual Deus não acreditam? À luz do Evangelho, é difícil crer em um deus cultuado em certos parlamentos, tribunais e órgãos públicos. Também é inaceitável uma divindade venerada pelos que praticam a injustiça e a exploração. É hipocrisia curvar-se diante de uma deidade imposta pelos insensíveis aos sofridos, injustiçados e incompreendidos. Enfim, é insensato ajoelhar-se ante um nume incensado por sedentos de ostentação, luxo e pompas. Somos discípulos de Jesus Cristo que, embora sendo profundamente fiel à crença e à espiritualidade judaica, combateu a forma de religião do Templo de Jerusalém, denunciando como hipócritas os chefes religiosos de sua época. É incabível prestar culto a um ente que se manifesta desumano na práxis daqueles que ignoram a solidariedade e a fraternidade. Tampouco sabem ouvir o grito dos oprimidos. Não é correto reverenciar uma divindade refém da intransigência e intolerância de alguns. Não é digno de fé um deus adorado pelos vaidosos, celebrado em liturgias vazias de mística, reluzentes de ouropéis e ritos primorosos, mas distantes da cotidiana dor dos irmãos.

Num mundo, no qual governantes se dizem cristãos, porém mostram-se sectários, discriminatórios, menos solidários que os não crentes, urge propor e pregar outra forma de testemunhar Deus. Em 2012, pouco antes de sua morte, Dom Carlos Maria Martini, exegeta e teólogo, cardeal arcebispo emérito de Milão, afirmava que muitos fiéis temem as transformações. Lembrava amiúde aos seus diocesanos: “Deus não tem medo de mudanças. Ele gosta de novidades, pois o Evangelho é a Boa Nova.” Aliás, o eminente purpurado chocou alguns de seus colegas, quando proferiu uma brilhante conferência intitulada: “o ateu que existe em nós.” Há pouco tempo, aquele eclesiástico teve publicado no Brasil um livro escrito em parceria com Umberto Eco, intitulado: “Em que creem os que não creem?” Trata-se de uma coletânea de artigos que ambos publicaram em revistas italianas. O professor Eco representou um descrente dialogando com um crédulo. Não resta dúvida de que Martini se manteve dentro dos limites da ortodoxia cristã. Diverge de alguns teólogos, quando estes sustentam a impossibilidade de uma ética sem vínculos religiosos. Em resposta a eles, Dom Carlos ensinava que todos são filhos do Eterno e Misericordioso e ninguém tem a exclusividade do Sagrado e Divino, como muitos pensam e ensinam. Cada ser humano é plasmado à imagem do Onipotente e carrega dentro de si os traços do Sobrenatural e Infinito.

Em 2014, para o encerramento da primeira fase do sínodo dos bispos, foram convidados ao Vaticano líderes religiosos e leigos de vários credos e nacionalidades. Eles deviam falar de suas lutas pacíficas por um mundo mais justo e fraterno. Praza aos céus que muitos fiéis – membros da hierarquia ou não – ávidos de documentos moralizantes, disciplinares e ritualísticos sejam menos críticos ou mais indulgentes e sigam o exemplo daqueles que se dedicam sem subterfúgios em prol do bem-estar da humanidade. 

Todas as tradições espirituais têm como meta construir a morada divina no mais profundo do ser humano, como a primeira semente para transformar as estruturas do mundo. Todavia, enquanto a religião predominar em seus aspectos superficiais e não mudar profundamente o coração de cada pessoa, não atingirá a sua meta. O projeto divino consiste na construção de um mundo renovado na base da justiça e da paz, do diálogo e respeito ao próximo e à natureza. Os cristãos devem dar testemunho desse projeto, começando por eles mesmos a trilhar o caminho do amor, da fraternidade e partilha. Simone Weill, mística e pensadora francesa do século passado, afirmava em “Attente de Dieu” (Espera de Deus): “Conheço quem é de Deus, não quando me fala Dele, mas pelo seu modo de ser solidário e amoroso com os outros.” Não se deve esquecer as palavras do Mestre, citando o profeta Isaías: “Este povo me honra com os seus lábios, mas seu coração está longe de mim. Em vão, me prestam culto.” (Mt 15, 8-9; cf. Is 29, 13).

domingo, 20 de março de 2022

 ENQUANTO OUTUBRO NÃO VEM

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

O Rio Grande do Norte é conhecido e estigmatizado por gastar o tempo com discussões marginais, supérfluas e estéries. Soou a trombeta eleitoral do inicio da campanha do ano 2.022. E com ela fica decretado que os homens públicos estão livres do jugo da ação da mentira. Não mais será preciso usar a carcaça da desfaçatez para denegrir o seu semelhante. A praça pública não pode transformar-se em rinha real, escarlate, com suas armadilhas e surpresas. Que a baba e a saliva dos profissionais da política não estilhacem vidraças. E que os ácidos laboratoriais com seu chiado contínuo e enfadonho não prevaleçam sobre os lares honrados.

 

É preciso exorcizar as teorias esquisitas do pântano enganoso das bocas detratoras. Pelos caminhos do litoral e do agreste não vamos esquecer o andarilho alísio caminheiro portador de boas novas de milho e feijão verde. Do Mato Grande o vento carpidor e viajante vai modelar no dorso a canção triste de antigas estiagens. No palanque do dono da eleição nenhum vento plangedor romperá a brida do cavalo aboiador.

 

Nessa eleição é preciso que a verdade seja servida antes da sobremesa. Lembrem-se que candidato e eleitor são lobo e cordeiro e que jantarão juntos . O pasto do político é qualificado mas ele sabe que a fome é certa. Determinados candidatos possuem uma malandra e esperta fome de guaxinim. E o eleitor sempre foi um ser privatizável, inconsciente e circunstancial. Vamos cultivar as boas ações. Tudo vai passar. Aquelas de melhores dividendos serão leiloadas pelo Banco da Providência. Imprivatizável. Indevassável. Anti-Proer. Inassaltável. Lugar onde o dinheiro jamais poderá comprar o sol das manhãs vindouras. Local onde os moedeiros falsos do papel podre do FPM, do ICMS, do FUNDEF jamais entrarão. Mesmo diante do difícil e corruptível instituto da reeleição, que os eleitos saiam das urnas limpos e acreditados. O processo eleitoral não pode se cobrir de manchas e distorções irreparáveis. O político é um ser que ama somente a si mesmo. É tempo de divórcio. É obrigatório flertar com o povo porque no baile da eleição é proibido o uso de máscaras. Passou a pandemia.

 

(*) Escritor

 

 


 


Novas Cartas de Cotovelo – verão de 2022-10

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

 

         Este ano não tenho sido persistente em escrever minhas Cartas de Cotovelo. Não é preguiça, mas os assuntos que me chegam não são tão construtivos que mereçam algum comentário.

         Contudo, com as chuvas ocorridas no dia de SÃO JOSÉ, decidi fazer o registro do fato que, para nós nordestinos, é de máxima importância.

         José, afinal, é o Santo dos Santos, pois escolhido para ser o pai adotivo de Jesus. Aquele que o criou, ensinou os primeiros passos, as primeiras palavras, a letras iniciais, a informação da sua missão na terra. Cuidou do menino com coragem e destemor, livrando-o das garras de Herodes.

         JOSÉ foi um homem de silêncio, recatado, mas uma criatura de ação, de grandeza e de santidade, merecedor, portanto, do respeito de todos os cristãos de qualquer de suas vertentes.

         Mas o que eu quero hoje invocar é a relação de São José com o inverno. Verdade científica ou apenas crença?

         O certo é que o Dia de São José é comemorado no dia 19 de março, coincidindo com a esperança na tradição dos católicos, em especial os do nordeste brasileiro, que acreditam que se chover até essa data é sinal de um bom período de precipitações.

         Historicamente, esse acontecimento tem dado certo na maioria esmagadora das vezes, não há porque se desprezar a crença.

No campo da ciência, acontece um movimento da Terra, denominado equinócio de outono, onde os dois hemisférios terrestres estão igualmente iluminados pelo sol – há equilíbrio temporal entre o dia e a noite.

Da sabência popular, divulgada abertamente nas redes sociais: “Existe a religiosidade que a gente respeita, com toda certeza. O dia 19 de março é próximo ao equinócio, que é quando o sol, na sua órbita aparente, passa a influenciar o hemisfério norte. Uma outra questão é quanto ao posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Se, até março, que é a metade da estação chuvosa, ela não tiver contribuído para chuvas no Nordeste, isso acaba frustrando a qualidade da quadra chuvosa”, comenta”.

Seja como for, Ciência e fé se irmanam na crendice do povo e os fiéis honram o Padroeiro das Chuvas, na esperança de dias melhores.

Este ano a chuva foi bastante, enchendo açudes, regando os vales, renovando a esperança de que teremos um novo e radioso tempo, compensando as desgraças que assolam outros recantos da terra. OBRIGADO SENHOR. 

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Pintura do articulista.


quinta-feira, 10 de março de 2022

 

Os loucos estão voltando?

 BERILO DE CASTRO

Depois de mais de dois anos de pandemia avassaladora causada por um vírus provavelmente proveniente do morcego, que vazou do laboratório de pesquisa virótica em Wuhan/China, com números espantosos e arrasadores de mortes: no mundo chega a mais de 5 milhões e no Brasil está à beira de 700 mil, com centenas e mais centenas de sequelados submetidos a permanentes cuidados médicos e psicólogos..

Entramos no ano novo 2022 olhando para trás e com um certo alívio, na esperança de tudo ter passado, de tudo ter chegado ao fim.

Graças à ciência, com o emprego da profilaxia vacinal, com o rigor no cumprimento das exigências sanitárias, já estávamos respirando melhor e mais tranquilos, sonhando com o final da sofrida etapa mortal virótica.

Entretanto, em um passe rápido (de muita loucura), vem a “lei da série”: coisa ruim atrai coisa ruim. Fomos todos, de maneira assustadora, surpreendidos com os noticiários locais e internacionais da invasão da Rússia à Ucrânia.

Nesse  momento muda tudo e começa tudo novamente; a pandemia, já não se fala mais, já não desperta mais atenção. Passamos a ver e acompanhar atônitos as atrocidades provocadas pelas tropas russas invasoras e seus violentos e mortais ataques aéreos à Ucrânia. Destruição em massa da cidade invadida; colégios, creches, residências, prédios, casas religiosas. Famílias destroçadas, pais para um lado, filhos para o outro; fugas em massa. Fugir? Como fugir? Para onde fugir?

A Rússia promove um verdadeiro genocídio; muitas mortes, inclusive de crianças. Uma crueldade imensurável! Que é isso, meu povo! Onde anda o diálogo, o bom senso, a  serenidade? As cabeças pensantes? Estamos vendo voltar o tempo e o momento que antecedeu a 2ª Grande Guerra Mundial?

Enfim, a quem beneficiará hoje um conflito mundial, sabendo que é ruim para todos, e que terá com certeza um final devastador e ultrarrápido sobre todo o universo? O mundo gira através dos seus bons e salutares diálogos diplomáticos. Levar vantagem é coisa de “cigano”; o negócio é bom quando satisfaz as duas partes. A guerra é um ato de loucura, de desespero, de ganância e de  egos.

Será que estão voltando as mentes doentias, os psicopatas do mal, que envolveram com suas loucuras e seus delírios mórbidos o Mundo com a deflagração da  2ª Grande Guerra Mundial? Esses loucos costumam criar e armar os seus circos e, quando percebem que as lonas estão pegando fogo, se afastam do espetáculo, dão um tiro de pistola no ouvido e pronto, deixam a “titica” na mão dos outros.

       Será mesmo que esses loucos estão voltando? Só que o tempo é bem diferente e,  pior ainda, muito mais perigoso.

 

RELEMBRANDO TICIANO DUARTE

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Certos homens adquirem uma visibilidade tão marcante em seu campo de atuação que se tornam imprescindíveis aos seus contemporâneos, na medida em que suas opiniões e convicções passam a determinar modos de ver e de interpretar os acontecimentos da vida social. É que aos olhos deles nada daquilo que importa passa ao largo.

Assim vejo e identifico o meu primo-irmão Ticiano Duarte. Desde a antiga Rua 13 de Maio, depois Princesa Isabel, quando o conheci efetivamente e melhor, lá pelos idos de 1950. De 1954, em diante, fui revê-lo na Rua Voluntários da Pátria, no 722, Cidade Alta, telefone 2901. Ele era já expressão do “bate-papo” no Grande Ponto, seu fiel ancoradouro, onde se tornara notário público e destemido navegante das ruas e avenidas da política potiguar. Bacharel em Direito da Faculdade de Maceió, tornou-se decano do jornalismo da imprensa potiguar, atividade da qual desfrutou de ilibada notoriedade por sua isenção e imparcialidade nos juízos dos acontecimentos da política. Seumemorialismo ganhava ritmo de crônica e embasamento de historiador. Em seus escritos é possível intuir aquele saber de experiências, traço que distingue o verdadeiro homem de visão de um mero prestidigitador de quimeras.

Foi presença fecunda na imprensa norte-rio-grandense. A colaboração de Ticiano Duarte para a Tribuna do Norte rendeu, numa primeira seleção, o livro “Anotações do meu caderno” (Z Comunicação/Sebo Vermelho, 2000), reunindo os principais fatos políticos dos últimos 70 anos do século passado no Rio Grande do Norte. A precisão das análises, a escolha dos protagonistas, a evolução dos acontecimentos e o retrospecto dos episódios que marcaram profundamente as vicissitudes da política potiguar encontraram ali o seu cronista mais atento e informado, imparcial e verdadeiro. Nesse livro, objetivamente intitulado “No chão dos perrés e pelabuchos”, avultam as mesmas qualidades que consagraram “Anotações do meu caderno”, com a única diferença de que agora ele se deteve com mais vagar na descrição de perfis e na análise comparativa dos fatos, mesmo separados por décadas. Vultos inesquecíveis da vida pública estadual, como Djalma Maranhão, Georgino Avelino, Café Filho, Aluízio Alves, Odilon Ribeiro Coutinho (“mistura de tabajara e potiguar”), Tales Ramalho (“paraibano por acidente, norte-rio-grandense pelas grandes ligações familiares, e pernambucano por adoção”) são algumas das estrelas de primeira grandeza dessa constelação de escol. Cronista, para quem a política não pode se dissociar da ética, sob pena de naufragar nos desmandos de governantes e correligionários, Ticiano fez o elogio dos políticos exemplares perfilando a figura de Café Filho porque, justifica, “o povo espera dos homens públicos exemplos. E alguém disse, com muita propriedade, que o importante não é só pregar moral apenas para os outros, censurando nos outros o que silencia entre amigos e parceiros”. Ao fazer o elogio da lealdade e da coerência, ele retirou do limbo o nome de Walfredo Gurgel, ressaltando que “o seu governo foi um exemplo de seriedade no trato e na gestão da coisa pública. Todo o Rio Grande do Norte sabe desta grande verdade, mesmo seus adversários não podem omiti-la, por mais que o tenham combatido no campo das ideias e das diferenças partidárias”.

Em “No chão dos perrés e pelabuchos” ainda é possível encontrar silhuetas de políticos esquecidos pela História, mas preservados, por exemplo, numa Acta Diurna de Luís da Câmara Cascudo, como Hermógenes José Barbosa Tinoco, deputado do Partido Liberal que a voragem do tempo soterrou; os entreveros entre pelabuchos e perrés que incendiaram o paiol das agremiações políticas dos anos 1930, que não escaparam à argúcia focada por Ticiano sobre os atores da nossa história.

Ele propõe e reforça as teses daqueles que defendem a necessidade de uma urgente reforma política a fim de repor o país nos trilhos da ética e inaugurar uma nova era na vida política brasileira. O seu olhar espelha nesse livro o brilho e a lucidez dos seus brancos cabelos, como testemunhos da vida e do mundo.

(*) Escritor




WALTER, SOUTINHO E O CAMINHAR DA VIDA

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

No longínquo ano de 1955, eu e o meu amigo Walter Gomes inventamos de abrir uma agência de publicidade em Mossoró. Ambos trabalhávamos no jornal O Mossoroense, dirigido pelo “velho” Lauro da Escossia e seu filho Lauro Filho. Eu, como repórter, e ele, com uma coluna diária que misturava tudo: crônica social, política, negócios etc. Só não falava de casos policiais. Dizia que dava azar. Então resolvemos encontrar um meio de ganhar alguns trocados a mais, publicando cadernos especiais. Dessa ideia saíram edições sobre indústria, comércio, agricultura e administração pública.

Nos reuníamos nas mesas do Bar Suez, da ACDP e, vez ou outra, nos cabarés Brahma e Copacabana. As ideias que ali nasciam precisavam ser aprovadas por Lauro Filho, que geralmente aceitava nossas sugestões. Só me lembro de um veto: um lançamento que propusemos de um caderno sobre a vida alegre no Alto Louvor, o bairro do alto meretrício. Além de escrever os textos, nós tínhamos que conseguir os anúncios. Aí é que nós ganhávamos uma comissão, sobre o faturamento dos anúncios.

            Um ano depois, nós, eu e Walter Gomes, resolvemos institucionalizar o negócio e criamos a Propag; se não a primeira, seguramente a segunda empresa de publicidade do Estado, com registro na Junta Comercial, endereço, instalações, telefone (na época um artigo de luxo), secretária e outras coisas mais. O problema era que não tínhamos dinheiro para isso tudo. Fomos para o Bar Suez para ruminar a solução. De repente, junta-se a nós um cidadão de quem não me lembro o nome, e resolveu a questão, dizendo: “homem de dinheiro em Mossoró é Soutinho”. Não dissemos nada, mas ficamos olhando um para o outro. Logo fomos, ligeirinhos, falar com Francisco Ferreira Souto Filho, com quem tínhamos amizade. Expusemos a nossa necessidade de grana para fundar a empresa e, por isso, queríamos um financiamento do Banco de Mossoró, então controlado por ele. “E se a empresa quebrar?” – Perguntou-nos. Então viramos sócios; Eu, Walter Gomes e Soutiho. A Propag viveu até eu fazer concurso e passar para assumir o cargo de escriturário no Banco do Nordeste.        

Mas a vida dá muitas voltas. Walter foi para o Rio de Janeiro, voltou para Natal e depois se instalou em Brasília, sempre perseguindo as notícias e suas fontes. Eu pedi demissão do BNB, entrei em outros negócios e, depois, deixei minha terra natal e fui para São Paulo, afastei-me do jornalismo e entrei de cabeça no mundo dos altos negócios, via auditoria contábil, econômica e administrativa. Uma vez recebi sua visita em meu escritório na Av. Paulista e ele foi jantar na minha casa. Quando eu ia à Brasília, também o visitava. Quanto a Soutinho a distância nos unia. Ele e Edith eram padrinhos de batismo da minha filha. Sempre que ia a Mossoró, visitava-o em sua casa, onde uma vez, se me recordo bem, provei um impensável soverte de pitomba.  

Porém, nada é mais inexorável do que o caminhar da vida em direção à morte. Tudo o que é vivo anda nessa direção. Desde os gigantes baobás africanos e nordestinos, até os diminutos vírus. Um dia todos desaparecerão.

Em poucos dias foram-se desta existência Walter, o buscador de fatos e notícias desta “República Surrealista” do Brasil, e Soutinho, o realizador e desbravador das lides salineiras. Um perseguia os homens que fazem as leis, que as executam e, também, que impõem o seu cumprimento. O outro buscava fazer com que o sal se transformasse em uma riqueza da nossa terra, fazer com que o nosso se transformasse no sal da nossa vida.

O que nos entristece, mais ainda, é viver em uma época de tantos homens sem serventia e ver que, logo eles, homens de valor exemplar, tenham nos deixado.

 

Tribuna do Norte. Natal, 10 mar. 2022.

terça-feira, 8 de março de 2022

 


     O DIA INTERNACIONAL DA MULHER não nasceu de uma benesse escolhida pela beleza ou pelo talento, mas foi um movimento reivindicatório das mulheres em 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova York exigindo a redução das jornadas de trabalho, salários melhores e direito ao voto. Um ano depois, o Partido Socialista da América declarou o primeiro Dia Nacional das Mulheres.

    Contudo, com a crescente valorização da mulher, oriunda de lutas e conquistas, hoje o dia é internacionalmente apontado como o DIA em que a MULHER deve receber uma homenagem especial, embora ela deva ser reverenciada todos os dias, pelo trabalho, pela sua responsabilidade para com a família e equilíbrio emocional dos que vivem sob sua tutela ou relacionamento.

    Para mim, é de maior gosto abraçar virtualmente as minhas filhas, as minhas irmãs, parentes, amigas, colegas das entidades de educação e culturais, às quais agradeço a convivência e o bálsamo que me oferecem para amenizar a minha recente e maior perda - THEREZINHA, a quem, espiritualmente continuo ligado, pedindo orientação, e cultuando um amor imortal.

Beijos e abraços para todas.

 

 

 

 

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "ORDEM E PROGRESSO DESORDEM E DECADÊNCIA Femenick Tomislay R."


Desordem e decadência
Tomislav R. Femenick – Historiador e jornalista
Não sei quantas vezes me ufanei pelo fato de ser brasileiro, de ter nascido em uma terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Viajando pelas minhas lembranças, acho que a primeira vez foi em 1945, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, então a capital federal, quando assisti ao desembarque dos soldados brasileiros que tinham lutado na Europa contra o nazifascismo. Eu fui contagiado pelo entusiasmo das pessoas.
Outra vez, em 1950, foi no Colégio Santa Luzia, lá em Mossoró-RN, durante uma aula de ministrada pelo padre Cornelio Dankers – um holandês que foi parar nas frondes da caatinga nordestina. Após descrever o Brasil, sua geografia, seu povo e sua história, disse ele que nós tínhamos todos os motivos para termos orgulho de uma pátria tão maravilhosa. Falou ainda da nossa bandeira, que possui formas geométricas combinadas e belas, uma das poucas, se não a única, que tem um dístico filosófico, Ordem e Progresso, que se reportava ao Positivismo de Auguste Comte. Eu passei a sentir que éramos um país único.
Logo depois, ao ler “Brasil, país do futuro” – livro escrito nos anos 1940 pelo judeu-austríaco Stefan Zweig, um retrato do nosso país naquele tempo – convenci-me que um dia eu viveria em um país esplendoroso. Mas, o Padre Mota abriu meus olhos para a vida real: “Não se entusiasme demais, o otimista sempre se frustra; mas não perca a esperança, o pessimismo embota as boas iniciativas”; foi mais ou menos o que ele me disse.
De lá para cá tenho vivido numa espécie de montanha russa. Caí no fosso com o golpe militar, subi às nuvens com o movimento das diretas já, decepcionei-me com os planos de Sarney e de Collor, encantei-me com o Plano Real, até que o Lula subiu a rampa do Planalto. Embora não tenha votado nele, tive um momento de expectativa. Gostei quando Lula manteve a matriz econômica do governo FHC e mudei de opinião com os escândalos e com o sectarismo de alguns petistas históricos ou novatos. Voltei a ter alguma esperança quando meu ex-professor Guido Mantega foi nomeado ministro; afinal ele ERA um homem probo, honesto, honrado. Outro engano, outra decepção. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, elevou (um pouco) meu ânimo. Do jeito que estava, qualquer coisa melhoraria o cenário do futuro.
Mas o Brasil parece que não tem jeito. Há pouco tempo estávamos no elevador que nos levaria a um futuro radioso, a economia estava bombando, a indústria estava produzindo perto de sua capacidade máxima, o comércio estava vendendo mais e mais, todos estavam comprando e os mais pobres estavam andando de avião, o nosso presidente “era o cara”... até que se revelou que tudo era artificial e veio a crise que levou quase quinze milhões de pessoas ao desemprego. Em paralelo, o serviço de saúde entrou em colapso, o ensino nacional é um dos piores do mundo e a segurança pública quase que não existe.
Mas era pouco e vieram dois tsunamis: as delações da Odebrecht e da JBS. Se juntarem as duas delações, talvez não escape nenhum político, talvez todos estejam nas mãos de empresas poderosas – “empresas campeãs” criadas pelos governos petistas, financiadas pelo BNDES e outras instituições públicas.
Nesse vai e vem, chegamos ao ano de 2018. De um lado, um poste de Lula; de outro um deputado do baixo clero e ex-tenente. Votar em quem? Tive que votar em Bolsonaro. Lamentavelmente, o que era o homem certo na hora certa, tem se mostrado um histrião boquirroto, adepto de pensamentos controversos, que governa para o seu “cercadinho” e não para o povo, que não se comove com a morte de centenas de milhares de brasileiros e posa de farofeiro.
Isso já bastaria para que os outros poderes procurassem por um pouco que seja, de juízo no homem. Mas os ocupantes de Parlamento estão muito ocupados em buscas de verbas, se possível secretas, evidenciando que o que lá há são frequentadores de balcão de negócio. Quem der mais leva votos e almas dos homens e mulheres que foram eleitos para defender o povo, mas que preferem se aboletar com recursos orçamentários. O STF tentou, mas, com o histórico de alguns ministros, viu seu telhado de vidro ser atingido pelas pedradas do Presidente e de seus apoiadores. Entramos em um ciclo de desordem e decadência. Mesmo assim, ainda acredito no meu país. Sou um otimista incurável, inveterado.