domingo, 31 de janeiro de 2021

 

 


Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-10

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

            Em todas as cidades são conhecidas as figuras especiais, seja pela inteligência, presença de espírito, dedicação e força de trabalho. Elas ficam registradas no tempo e, de vez em quando são invocadas como exemplo do seu tempo. Natal tem inúmeros nomes sempre relembrados.

        Se a cidade é mais provinciana ou mesmo um “lugarejo”, tais criaturas são ainda mais enaltecidas. Entre essas comunidades coloco as praias, pela sua vida pacata, onde a natureza tem lugar de destaque.

        Aqui em Cotovelo, dentre outras figuras, uma vem se destacando, sobretudo nos veraneios, pelo seu espírito expansivo, dinâmico, inquieto, agregador e amigo, possuidor de habilidades singulares com o microfone e com a arte do papel, ou origami, que desenvolve com perfeição em todos os encontros com amigos, turistas, crianças e curiosos. Com tais predicados creio que todos já sabem a quem me refiro. Sim, a EUGÊNIO BATISTA RANGEL, seridoense e apaixonado pela arte oriental.   Segundo o conhecimento público, “Origami” é uma arte educativa visual, de origem oriental, que consistem em fazer dobraduras de papel, formando assim pequenas esculturas. (O papel foi originado na China, por volta de 105 d.C. Assim, a partir do século VII, os monges budistas chineses teriam levado o papel e as técnicas de dobradura para outros países do Oriente, entre eles, o Japão).

        Sua etimologia vem da junção dos termos em japonês ori, "dobrar", e kami, "papel" e, tradicionalmente resultam em figuras da natureza, como animais e plantas, cada um com o seu significado específico.

        Pois bem, o nosso homenageado faz suas apresentações em escolas, clubes e lugares de pessoas carentes ou deficientes, com um resultado animador, daí cada vez mais recebe requisições.

        Nos encontros sociais, enquanto a conversa vai caminhando, ele de maneira imperceptível vai desenvolvendo o seu talento e, lá às tantas, presenteia alguém com uma figurinha.

        Particularmente, registro uma imagem de Nossa Senhora que ele fez numa conversa em minha casa, na presença da minha eterna amada THEREZINHA, após o que lhe presenteou. Essa miniatura encontra-se na cristaleira da nossa sala de jantar que, a um só tempo, faz lembrar o artista e a presenteada.

        É possível que, inusitadamente alguém não curta esse trabalho – tudo bem, o que, certamente, não retira o seu valor e não tem o apoio do resto da comunidade.  Eugênio, como pessoa educada, recebe alguma dissidência com altivez e em resposta envia sua mensagem de paz, com a figura de uma Tsuru – “ave sagrada do Japão. É o símbolo da saúde, da boa sorte, felicidade, longevidade e da fortuna. Conta a lenda japonesa que o tsuru pode viver até mil anos. É considerado o pássaro companheiro dos eremitas que se refugiavam nas montanhas para meditar, acreditando possuírem poderes sobrenaturais para não envelhecer”.

        Parabéns amigo, você é show – Eugênio é um gênio.

 

 


 

Um país errático

Tomislav R. Femenick – Jornalista, historiador

 

Se, por uma dessas coisas que somente acontecem no realismo fantástico, fosse-me dada a oportunidade de voltar no tempo e escolher o local para nascer, apagando toda minha existência, não pensaria muito para dar a resposta. Não escolheria a Europa, pois tinha sido palco da Primeira Guerra Mundial e ajeitava os preparativos para a Segunda. Tampouco daria preferência pelos Estados Unidos, onde ainda respingavam os resultados da grande depressão, gerada pela quebra da Bolsa em 1929; e onde também imperava uma odienta segregação racial. Também refutaria a Ásia, onde Índia, China e outras regiões eram palcos de acirradas lutas intestinas e de disputas entre as potências ocidentais da época. Do mesmo modo, deixaria de fora a União Soviética e Japão. África, nem pensar. Não pela sua natureza e seu povo, mas pelo imperialismo europeu que os explorava e subjugava. Até pela lógica, escolheria o Brasil. Mesmo não tendo tido esse direito de escolha, eu me orgulho de ser brasileiro. E não é por ufanismo barato. Os fatos comprovam: milhares de europeus e asiáticos (principalmente japoneses) emigraram para o nosso país durante o século passado. Meu pai foi um desses europeus. Todos vinham em busca de uma nova terra; uma nova e melhor maneira de viver.

Ressalto outra faceta dessa experiência: eu, outra vez, teria que ser potiguar e nasceria em Mossoró. Teria que ter os mesmos pais, padrasto, esposa, avós, irmãos, filha, netos, tios, sobrinhos e primos. Amigos – daqui e de longe – eu os tenho poucos, porém bons, de 24 quilates. Assim, eles também estariam no pacote. Isso para eu ter, em “repeteco”, as mesmas aulas que tive com o Padre Mota, com o Padre Sales e com meu padrasto Xavier Vieira; as mesmas infindáveis conversas e brigas que tive com Rafael Negreiros (esperando as nossas insônias passarem); tomar as mesmas “geladas” no Bar Suez; namorar as mesmas meninas nas tertúlias dançantes do América, aqui em Natal, ou da ACDP, lá em Mossoró.

Apenas uma mudança eu desejaria: que os governantes desse maravilhoso país tivessem vergonha na cara e se portassem como gente séria. Que Jânio Quadros bebesse menos e governasse com seriedade; que Jango Goulart fosse responsável e não se fingisse de esquerdista; que Costa e Silva não impusesse sua candidatura a presidente, mesmo contra a vontade de Castelo Branco (sobre Médici, Geisel e Figueiredo não preciso nem falar); que Sarney ficasse em seu “não saber” e parasse de bancar o entendido do que nunca entendeu; que Collor caçasse os Marajás do serviço público e pensasse menos na casa da Dinda; que Lula e Dilma roubassem menos e impedissem que outros roubassem; que Bolsonaro assumisse de fato a presidência da República e deixasse de bancar o marechal de uma guerra bracaleônica.

Na verdade, penso que o cargo de presidente do nosso Brasil tem uma urucubaca danada. A pessoa que lá chega logo muda de penugem e passa a se portar de forma diversa daquela que era antes. Os únicos que não mudaram, e continuaram como de sempre, foram Fernando Henrique Cardoso (apesar de ter pedido que esquecessem o que ele tinha escrito antes) e Jair Bolsonaro, este, em parte. O primeiro, com o Plano Real, acabou com a inflação (ainda quando ministro da Fazenda de Itamar Franco) e instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal. Com isso, provou que ser intelectual não é crime e que inteligência faz bem, embora nem todos concordem. Bolsonaro, é verdade, acabou com a corrupção escancarada, mas se senta sobre as “rachadinhas” suas e de familiares seus. E agora peca em outro pecado grave. Na campanha que o elegeu, propalou ser contra a prática do “é dando que se recebe” e agora se tornou adepto fiel dessa seita. Troca cargos do Executivo por votos na Câmara e no Senado. Para conseguir maioria, faz qualquer coisa. Vai da liberação de verbas orçamentárias a afagos pessoais. Se nos debruçarmos sobre sua história parlamentar, veremos que ele sempre foi assim. Não mudou nada. É coerente com o seu passado, a polêmica sempre foi o seu principal cabedal político.

Só para esclarecer: eu votei em Bolsonaro para presidente, não por suas qualidades, mas para evitar o retorno do PT, da esquerda. Assim fizemos milhões de brasileiros.

 

Tribuna do Norte. Natal, 31 jan. 2021

 

 

 

 


“Irmão Horácio Paiva, que grande orgulho para mim: você, Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira são os poetas brasileiros parabenizados numa tertúlia que fazem professores de literatura aposentados, no município Praia de Havana (Província de Havana). Eles fizeram um lindo caderno com os poemas: Balada para Isabel, de Bandeira, Tu nombre, de Vinicius, e Cena con vino y estrelas, o seu. Você merece. Abraços.”

Antes, outros poemas meus já haviam sido publicados na revista “Bohemia”, a mais antiga e tradicional publicação cultural cubana, editada desde 10 de maio de 1908 (quase 113 de circulação), e na revista de vanguarda “El Caimán Barbudo”.


CENA CON VINO Y ESTRELLAS

(Oda a la celebración del amor profano)

 

Ven, amor,

olvidemos el futuro

y que no caigan vaticínios

en cada tasa de vino servida.


Celebremos la vida

larga y infinita

y el  arte de amar

que adorna su ritmo.

 

Sièntate en mi regazo

y dèjame penetrar

en la  sonora y cálida fuente

en la suavidad lunar

donde éxtasis nocturnos

convidan a vino

y estrellas.

 

Cómo fijar reglas

para sueños y

deseos indomables?

 

La noche y el dìa se entrelazan

en amplitud superior a lo que somos

y soy capaz de pensar

que te quiero más de lo que siento.

                       Horácio Paiva

- Tradução de Félix Contreras –

 

 

 

 

sábado, 30 de janeiro de 2021

 IDENTIFIQUEM ESTAS TURMAS MARAVILHOSA DE NATAL NOS BONS TEMPOS




 

Benditas sejam as equipes de saúde

 Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN

 Ao ver os dramas humanos, no decorrer da Covid-19, com ênfase para as cenas mais recentes vistas na cidade de Manaus, ecoam na minha mente e no meu coração as angústias vividas pelos doentes graves e por seus familiares. Afinal, nas minhas lides de médico, procurei sempre me ver no lugar do próprio doente, a fim de bem exercer a profissão. Quando eu era professor de medicina, em uma aula prática ao redor de um leito, um aluno cometeu um deslize ético. Ao final da aula, só com os alunos, fiz a devida orientação, na qual afirmei que o médico deve sempre tratar os seus pacientes como gostaria de ser tratado, ou um dos seus familiares mais queridos. Muitos anos depois, um jovem médico disse-me que jamais esqueceria aqueles conselhos. Assim, também ecoam em mim as agruras dos que integram as equipes da linha de frente do atendimento a esses pacientes graves, desde os das mais simples funções aos das mais complexas. Esses profissionais das equipes de saúde, principalmente os que atuam em hospitais, aprendem a lutar contra a morte e a angústia, dois eventos que, nessa pandemia, estão se tornando banais. Contudo, é só prestar atenção na face dessas pessoas para sentir os sofrimentos que lhes invadem a alma no dia a dia do trabalho. Sem contar com o estresse e o medo de se contaminarem com o Sars-CoV-2 e entrarem para o grupo dos que precisam receber as atenções e os cuidados dos colegas de profissão. Quantos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, paramédicos, maqueiros, profissionais outros da área da saúde morreram ou ficaram com sequelas graves, na luta para salvar vidas das garras dessa virose, ou para minorar a dor alheia, no estrito cumprimento do dever e movidos pelo sentimento de compaixão e de amor ao próximo. Lidar com a morte é sempre um tormento para todos os profissionais da área da saúde. Alguns estudantes dessa área largam o curso, quando não conseguem vencer os primeiros impactos desse encontro. A Covid 19 veio provar a importância desses profissionais nos serviços públicos e nos privados. Os confrontos políticos e ideológicos levados para a arena das batalhas contra a pandemia têm sido nefastos para o êxito que o povo brasileiro espera e precisa. Mas não há como negar a emoção de ver a imagem de uma mulher negra, Mônica Calazans, enfermeira que atua na linha de frente no combate à Covid 19, a primeira pessoa a receber a vacina no Brasil. Dessa forma, nada mais correto do que eleger esse grupo como o primeiro a se vacinar. Desde o século XVIII, com a varíola, o homem aprendeu que a única maneira de controlar as doenças epidêmicas é por meio de vacinas, e, desta feita, também será assim. Benditas sejam as pessoas que integram as equipes de saúde neste imenso Brasil, pela coragem e pelo amor à profissão, no afã de combater a Covid 19, terrível virose que tantos males tem causado aos seres humanos de todo o planeta. Texto publicado na Tribuna do Norte em 28/01/2021.

 


GASTÃO, UM ARTESÃO DA AMIZADE


Valério Mesquita

Conheci Gastão Mariz de Faria em 1954, na rua Apodi, quando fui estudar em Natal. Era a casa de D. Paulina Mariz de Faria, sua mãe, amiga e vizinha de minha avó materna Sofia Curcio de Andrade. Alto, magro, gestos comedidos e corteses, foi um embaixador itinerante da fidalguia, reconhecido por gregos e troianos. Impôs uma marca registrada – a cordialidade, numa terra inflamada pelo radicalismo político durante muito tempo. 

Gastão desfrutava da amizade dos Alves, apesar de tudo, sem deixar de ser fiel ao tio Dinarte Mariz. Por isso, disseram sobre ele – "era uma das raras unanimidades da cidade". Exerceu a vereança em Natal, além de deputado estadual. Fui seu colega na Assembleia. Cadeiras vizinhas durante quatro anos. “Toda instituição é a sombra prolongada de um homem”, no dizer de Emerson. O Detran, reestruturado, reordenado, revivido, foi herança de Gastão. Sua obra administrativa, sua logomarca indissolúvel.

O Gastão humano, fraterno, boêmio, fez-me lembrar uma tarde numa varanda diante do mar de Cotovelo. Chegou como que de repente, de assalto. Trazia consigo alguns amigos e várias canções. “A visão milagrosa do oceano beatifica o pecador solerte”. Ali estávamos nós, inspirados pelos bons uísques que entram mais na alma do que certos poemas e livros santos a cantar a vida, o mar, as ilusões. Nunca mais vou me esquecer Gastão, quando interpretou Orlando Silva, sem gaguejar, na letra foi compenetrado e dócil como o seu temperamento, e afinado e leal ao violão como a sua política. “Nada além, além de uma ilusão...”.

Parnamirim era o seu time de futebol querido e a sua cachaça predileta. Muito se identificou com a terra e com a gente. Autor da lei da emancipação política do município, tinha pela cidade um amor filial. Está identificado com essa terra, nas suas entranhas, tanto quanto os velhos pioneiros e os primeiros líderes de Parnamirim.

(*) Escritor