A medicina passo a passo
sexta-feira, 15 de setembro de 2023
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
RESENHA DA REUNIÃO DA ASSEMBLEIA GERAL DA ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS REALIZADA NA RESIDÊNCIA DA VICE-PRESIDENTE ODILEIA GOMES DA COSTA, NO DIA 23 DE AGOSTO DE 2023.
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Aos 23 dias do mês de agosto de 2023, pelas 15,30 horas, na residência da Acadêmica Odileia Gomes da Coista, sita à Av. Nilo Peçanha, 301 – Edifício Desembargador Floriano Cavalcante, compareceram os Acadêmicos da Academia Macaibense de Letras Francisco Anderson Tavares de Lyra, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Valério Alfredo Mesquita, Rui Santos, Racine Santos, Hailton Alves Ferreira Mangabeira, Maria Luzinete Dantas Lima, Sebastião Palhares. Osair Vasconcelos, Carlos Alberto Josuá Costa e Odileia Gomes da Costa, tudo conforme convocação feita no grupo oficial de WhatsApp a seguir transcrito: ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS, Caros Confrades, boa noite. Convido a todos a se fazerem presentes na próxima quarta-feira, dia 23 de agosto, a Assembleia Geral Extraordinária, que será realizada no edifício residencial Floriano Cavalcante, avenida Nilo Peçanha, 301 (Residência da acadêmica Vice-Presidente Odileia Costa), em primeira chamada às 16h e em segunda chamada às 16:30. Atenciosamente, Anderson Tavares de Lyra, Presidente da AML. Assembleia Geral da AML, Data: 23 de agosto de 2023, Local: edifício residencial Floriano Cavalcante, Av. Nilo Peçanha, 301, Hora: 16h. Para tratar de assuntos relativos à posse dos novos acadêmicos eleitos, com solenidade aprazada para o dia 13 de setembro próximo vindouro. Os trabalhos foram iniciados pelo presidente da AML que expôs a necessidade de cumprimento das disposições estatutárias, respeitando-se os prazos e os regramentos nelas contidos e que esperava que assim fosse seguido por todos. Em seguida foi levantado o assunto pertinente a notas publicadas na imprensa local dando conta de atos de excesso de poder do Presidente ao promover a eleição para a cadeira nº 8, cujo Patrono é o intelectual Edilson Cid Varela, sendo que essa cadeira já está ocupada pelo escritor Marcelo Augusto Medeiros Bezerra, tanto que o intelectual Tiago Tadeu, eleito para a referida cadeira, tomou a iniciativa de renunciar a cadeira, em documento de 18 de agosto do ano corrente. Na ocasião foi travado um debate sobre os documentos relativos ao fato em discussão, tendo o Acadêmico Carlos Roberto de Miranda Gomes apresentado cópia da minuta da ata do dia 27 de agosto de 2011 e do ato de posse ocorrido no dia 11 de setembro de 2011, além do que existem fotografias dando conta da referida posse do Acadêmico Marcelo. Todos os presentes tiveram a oportunidade de manifestação sobre o assunto, destacando-se os pronunciamentos dos acadêmicos Carlos Gomes, Rui Santos, Racine Santos, Carlos Josuá, Osair Vasconcelos, Odoleia Gomes e Valério Mesquita todos acatando os documentos apresentados como verdadeiros e comprobatórios de que Marcelo Augusto é o titular da cadeira, enquanto Hailton Mangabeira insistia em que fosse dado um prazo ao interessado Marcelo Augusto para enviar a sua defesa. O Presidente Anderson declarou que fez tudo de acordo com o Estatuto e que houve a manifestação escrita da Comissão de Inscrição sem nominar o preenchimento da cadeira 8 e afirmou que pretendia renunciar ao seu mandato, no que foi apartado pelo Acadêmico Valério Mesquita dando conta que o momento não era oportuno. Os demais presentes não se pronunciaram. Após um período de reflexão foi posto o assunto em votação e foi votado pelo reconhecimento de que a cadeira 8 pertencia a Marcelo Augusto, no que o Presidente e o Acadêmico Hailton Mangabeira acataram. Nada mais havendo a tratar foi encerrada a reunião, do que, para constar, foi lavrada a presente ata, que vai assinada pelo Presidente Anderson Tavares de Lyra e por Odileia Gomes da Costa, esta na condição de secretária da reunião, por designação da presidência.
_____________________________________ Francisco Anderson Tavares de Lyra, Presidente da AML
______________________________________Odileia Gomes da Costa, Secretária designada para a sessão.
PARA CONFERÊNCIA DOS QUE ESTAVAM PRESENTES
terça-feira, 12 de setembro de 2023
Esperando o novo arcebispo
Padre João Medeiros Filho
O profeta Isaias põe nos lábios de Deus Todo-Poderoso asseguintes palavras: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, os vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Deus não se prende à vontade dos homens. Realiza o que lhes pode trazer alegria e paz. Está escrito no Evangelho de João: “O espírito de Deus sopra onde quer” (Jo 3, 8). A designação do novo arcebispo de Natal, anunciada em julho próximo passado, corrobora a afirmação bíblica. Convém registrar que as quatro sedes arquiepiscopais, integrantes do Regional Nordeste II da CNBB, são ocupadas por arcebispos oriundos de outros estados. Os metropolitas da Paraíba e do Rio Grande do Norte são naturais da Bahia. Os de Pernambuco e Alagoas são paraibanos. Atualmente, nas capitais brasileiras, apenas cinco prelados nasceram no próprio estado. “Importa que o pastor não siga uma vida, nem possua uma mentalidade de príncipe”, recomenda o Papa. As entrevistas concedidas pelo nosso novo antístite denotam simplicidade. Seu ministério episcopal foi exercido em duas dioceses, em meio à gente humilde, sedenta de Deus e do Evangelho. Na opinião de estudiosos, a indicação de Dom João dos Santos Cardoso faz parte do processo de renovação pastoral dasigrejas diocesanas. A Santa Sé, por meio de seus organismos, tenta aliar à mensagem evangélica as necessidades espirituais e socioculturais dos bispados. Assim, escolhem-se pastores que possam fomentar colegialidade e entendimento interno nas igrejas. O Concílio Vaticano II despertou uma abertura maior para o mundo. Durante quase sete décadas, a arquidiocese de Natal esteve sob a liderança de prelados provenientes do seu próprio presbitério, calcado em sua visão eclesiológica. Foi importante e providencial. Mas, a Sé Apostólica julgou relevantes novos rumos. O período de pastoreio dos potiguares – de 1954 a 2023 – foi propício à assimilação de muitos valores religiosos. Entretanto, segundo teólogos, era preciso manifestar outras faces da Igreja de Cristo. A história eclesiástica do Brasil vem mostrando isso. Por exemplo, em João Pessoa, após mais de sessenta anos (1894-1959) da mesma orientação pastoral, a Santa Sé resolveu mudar. Igualmente, pode-se verificar em outras dioceses brasileiras. Foi o caso de Caicó, onde de 1952 a 2006, os pastores provieram do clero natalense. Seja bem-vindo, Dom Cardoso. Enquanto pesquisador, ex-professor de uma instituição universitária pública, olhe com carinho para o nosso mundo acadêmico. Constitui uma das maiores paróquias de seu novo rebanho, contando com mais de setenta mil pessoas. Outrora, havia dezesseis padres dentre os docentes do ensino superior para cerca de dez mil alunos. A presença sacerdotal era marcante na academia, contribuindo para a formação de líderes e cristãos. Muitos ajudaram a construir o Movimento de Natal. Hoje, a Igreja arquidiocesana detém apenas um sacerdote e um diácono permanente inseridos no ensino universitário. Em 1929, Dom Marcolino Dantas (quarto bispo e primeiro metropolita do RN), natural da Bahia, ao assumir a diocese – compreendendo todo o território de nosso estado – encontrou uma população de aproximadamente seiscentos mil habitantes. Hoje, o arcebispado (sem as dioceses sufragâneas) conta com mais de um milhão e meio, sendo um dos maiores do Brasil em extensão geográfica e densidade populacional. Dom Marcolino empenhou-se na criação de dois bispados no solo potiguar. Hoje, pela sua população e superfície territorial comporta mais dioceses. Espera-se que o novo antístite, a exemplo de seu conterrâneo, aceite o desafio de propor a criação de novas circunscrições eclesiásticas. Nosso quarto bispo repensou também a formação do clero, simbolizada na construção do atual prédio do seminário. Há que olhar para a unidade da família norte-rio-grandense, clamando por harmonia, hoje ressentida por razões ideológicas. A pastoral das peregrinações pede atenção. Nossa Senhora é a Mãe da Igreja. A devoção a Maria merece ser aprofundada, mormente nos santuários.Cabe lembrar que foram devotos da Virgem Santíssima (como Otto Guerra, João Wilson e uma plêiade de marianos) os pilares da renovação da Igreja em Natal e do Movimento que leva esse nome. Dom João, a grei do Senhor carece cada vez de solicitude amorosa e paciente. Ela tem fome do Divino. Deseja-se que futuramente a história possa registrar: “Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João” (Jo 1, 6).
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
O TEMPO DE DEUS
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
“O tempo de Deus não é o nosso tempo! O tempo de Deus é perfeito, não há atrasos (Gálatas 4:4). O tempo de Deus está relacionado ao tempo oportuno para cumprimento do Seu propósito ou vontade. Não pode ser medido ou cronometrado, mas atua na nossa história consoante à Sua vontade. “
A razão dessa premissa é ter chegado aos 84 anos de idade, isto é, 14 anos além da idade bíblica.
Família reunida, amigos atentos enviando mensagens e a minha saudade e solidão interior – faltava a peça principal dessa caminhada, a minha inesquecível THEREZINHA.
Tal qual um ator, sorri e fingi alegria. Contudo, a realidade chegou após às 21 horas quando voltei ao meu exílio voluntário para meditar e dormir. Consegui os dois até que nasceu o sol do dia seguinte, quando senti a realidade – continuava só.
Aqui não dou conselho para ninguém seguir o meu caminho, porquê ele parece patológico para muitos. Para mim foi uma escolha de amor eterno, onde a felicidade que foi vivida não se apaga.
Às vezes penso em fazer uma troca – todos os anos de vitórias, títulos e honrarias, por uma casinha modesta de praia com o espírito da composição de Chico Elion, sentido a brisa do mar, o regaço da lua, o calor do sol e pés molhados pela natureza do mar, como fora no passado na velha Redinha da minha adolescência, mas com a presença da mulher amada.
Sendo isso possível somente no sonho delirante, ponho-me a pintar, qualquer coisa que seja, para ocupar o grande espaço que resta da minha vida.
Constatei que se afastou de mim o espírito de Don Quixote e ficou o de Sancho Pança, até no aspecto físico.
Nada tenho a reclamar, pois o tempo é de Deus: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Tem razão o poeta lusitano Fernando Pessoa!
sábado, 9 de setembro de 2023
NOSTALGIAS
Valério Mesquita
Vivo o desconforto e a nostalgia de mim mesmo ao me deparar com o sonho dos meus vinte anos que a idade madura não confirmou. Sinto-me disperso, irrealizado, quando retorno às minhas origens telúricas. A meta de trazer o passado ao presente, reconstruí-lo pela palavra e pensamento a fim de reconquistar a minha autoestima, parece-me uma tarefa hercúlea porque constato que o personagem não sou eu mas, sobretudo, o tempo. Deduzo que, precisaria recriar os fatos e renascer as pessoas. Verifico que sou o resultado de todas as convivências e acontecimentos afins do passado. Por isso o vácuo e a irritação me arrastam ao entendimento inconcluso de que tudo foi ilusão e fantasia, ou infecção sentimental.
Mas, o patrimônio existencial da terceira idade, onde a memória olfativa, a auditiva e, principalmente, a visual, procuram restituir-me o universo perdido das fases inaugurais da vida. Aquela lua cheia, por exemplo, vista do cais do rio Jundiaí em Macaíba, como se estivesse pendurada por fios invisíveis, atrás dos coqueiros e eucaliptos, infundia-me na adolescência negro mistério do tempo da colonização dos escravos, índios e colonos, de escuridão e medo, como se as fases da lua chegassem naquele tempo por édito imperial. Como me perco na contemplação do Solar do Ferreiro Torto e os seus sortilégios de poder, carne, cobiça e paixão. E a descortinação surpreendente do Solar dos Guarapes. Quantas perguntas insaciadas não existem sobre o que ocorreu ali? Os seus fantasmas que subiam e desciam a colina sob a batuta do senhor de engenho numa cosmovisão ora polêmica, ora lírica, dentro do abismo da memória? “Tu não mudas o mundo. Mas o mundo te muda”. Talvez essa frase de Otto Lara Rezende explique e me convença que o futuro nada tenha a ver comigo, porque o passado está mais presente em mim do que o próprio presente. Em cada rua onde passo em minha terra revisito os mortos na lembrança tentando reconstituir os fatos com os quais dividi o tempo. Adquiri o hábito de rezar por quase todos eles, todas as noites. Faço-os prolongar no meu convívio pela relembrança. Para mim o chão dos antepassados é sagrado, mesmo que estejam sepultados nele resquícios enferrujados e rangentes de um antigo fausto. Mesmo debilitada pela decadência física, da feição das caras e das coisas, o que mais me dói nele é decadência das mentalidades e dos antigos costumes, como se fosse hoje um porão cheio de escuro, melancolia e solidão. Nostalgias, nada mais.
(*) Escritor.
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
“Porque me ufano do meu país”
Padre João Medeiros Filho
Dr. Hélio Galvão, quando professor de literatura brasileira no Seminário de São Pedro, em Natal (RN), indicou-nos a leitura do livro de Afonso Celso, cujo título é o mesmo do presente artigo. Tal fato ocorreu, por ocasião da Semana da Pátria, nos idos de 1950. Com várias edições, a obra em questão tornou-se cartilha de patriotismo. A partir de então, o termo ufanismo popularizou-se como amor exacerbado à pátria. Posteriormente, a publicação e o autor deixaram de ser apreciados, passando a ser contestados. A visão pouco realista de certos compatriotas, em não perceber aspectos sombrios do país, instigou os críticos. Décadas depois, o humorista Ary Toledo apresentou um espetáculo, tendo por título a mesma frase. Entre cantos e piadas de sua autoria, teceu comentários depreciativos sobre as ideias de Afonso Celso, assim como as de seus opositores. O ator desdenhou também a tendência dos que imitam os estrangeiros, subestimando a própria cultura, incorporando na dança e música elementos de outras nações, inclusive termos linguísticos e menosprezando o que é genuinamente nosso.
Nesta Semana da Pátria sente-se dificuldade de ufanar-se do país em vários aspectos. Mas, como devo e desejo encontrar razões para orgulhar-me da terra onde nasci e vivo. O país está dividido, polarizado e cindido em seu tecido social. Não se pensa prioritariamente na pátria, mas em conveniências e interesses políticos. Há os que defendem uma posição universalista, desejando abrir mão de nossas riquezas, patrimônio e território.
A alegria cedeu lugar à tristeza. A violência grassa, asfixiando a paz. O desânimo se instalou no lugar da esperança. A fé é solapada diante dos cenários de injustiças, fome, desemprego, demagogias, doenças, em suma, profundo desrespeito ao ser humano. Quem poderá se orgulhar, vendo corredores de hospitais, cheios de pacientes sem atendimento adequado? Qual a reação esperada diante de tantos desempregados e irmãos dormindo ao relento? Enquanto isto, bilhões do dinheiro público escoam para o fundo partidário. Milhões são gastos em publicidade dispensável. Toda essa quantia serviria para amenizar problemas graves e urgentes da população, por exemplo: segurança, habitação, água, educação e saúde.
Mergulhados em tristeza e desesperança, não se consegue vislumbrar uma solução a curto prazo para as ingentes desigualdades vivenciadas atualmente. Onde estão a fraternidade e a justiça, pregadas pelo cristianismo, religião da maioria dos brasileiros? “Todos vós sois irmãos” (Mt 23, 8), apregoou o Mestre. Como Irmã Dulce, Padres João Maria, Ibiapina e tantos outros apóstolos da caridade fazem falta! Deve-se cruzar os braços e lamentar o infortúnio deste torrão natal tão amado? Não, ao pensar nas centenas de voluntários que se organizam e assistem as comunidades mais carentes. Não igualmente, ao fixar o olhar sobre tantos médicos e profissionais de saúde, que se arriscam nos hospitais para salvar vidas ameaçadas. Não, ao ver mestres dedicados à educação da juventude. São samaritanos sem condições condizentes de trabalho, com salários atrasados ou mal remunerados. Não ainda, quando se vê uma multidão que acorda cedo, viajando amontoada em transportes precários, trabalhando com dignidade e amor para nutrir e educar sua família, malgrado o descaso dos entes públicos e seus dirigentes. Não, ao saber de milhares de policiais que expõem e perdem sua vida para defender e salvar a população da violência.
O melhor do país está na bravura de muitos, lutando contra desmandos e arbitrariedades. É gratificante ver tanta gente travando uma batalha cotidiana e intensa para dominar a fome ou a doença. Encanta ver uma multidão que luta pela vida, repartindo o pouco que tem com os outros. É bom saber que há pessoas capazes de cantar e animar, mesmo em meio à tristeza. Esse povo é a reserva de esperança para o Brasil. É motivo para dele orgulhar-se. Esses cidadãos (cujo valor talvez não apareça) fulgem, apesar de tudo, com seu caráter, generosidade, solidariedade e otimismo. Por esses compatriotas e com eles, faz sentido celebrar o Dia da Pátria. Não se deve esquecer a Bíblia: “A justiça engrandece uma nação. Mas, a desigualdade é a sua vergonha” (Pr 14, 34).
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
Relendo Confissões de Santo Agostinho
Padre João Medeiros Filho
Agostinho Aurélio nasceu em Tagaste (antiga Numídia), aos 13 de novembro de 354, falecendo em Hipona (Argélia), aos 28 de agosto de 430. Foi um dos importantes pensadores dos primórdios do cristianismo, cujos escritos influenciaram sobremaneira o desenvolvimento da fé e o pensamento ocidental. Dentre as publicações católicas, talvez as obras agostinianas, destacando-se Confissões, sejam as mais publicadas, depois da Bíblia e da Imitação de Cristo. Pela densidade poética e originalidade representa um marco na história da literatura religiosa do Ocidente. Elaborou uma nova forma de fazer filosofia e teologia. Não prioriza o ensino calcado em deduções e conceitos abstratos, enfatizando a observação de reações e motivações interiores, do significado dos fatos e gestos cotidianos. Segundo estudiosos, Confissões é uma das primeiras autobiografias de que se tem notícia. Aos olhos de certos terapeutas, pode ser considerada precursora de métodos psicanalíticos. Agostinho despe-se aos olhos dos leitores com a humildade e serenidade de quem se encontrou na estrada da vida. Deixa transparecer a influência do cristianismo em sua caminhada intelectual. Transita pela poesia, psicologia, ética, mística, filosofia e teologia. Relevante é a sua contribuição como teólogo, tendo levado a Igreja a pensar. Em Confissões é possível encontrar o que a psicologia analítica chama “escuta de si mesmo”. O autor já passara dos quarenta anos de idade, quando começou a escrever o seu tão difundido livro, cuja atualidade permanece, passados dezesseis séculos. Desde cedo, o jovem de Tagaste revela sua personalidade e autenticidade, recusando uma proposta de pagar alguém para conseguir vencer um concurso de poesia dramática. A espiritualidade do filho de Santa Mônica é fundamentalmente evangélica, própria de quem se sente “morada divina” (Jo 14, 23). Ele tem consciência da graça de Deus em sua vida: “Senhor, tu não abandonas tuas criaturas como elas esquecem o seu Criador.” E num impulso de manifestação sobrenatural, exclama: “Onde estavas quando te procurava? Tu estavas diante de mim. Mas, eu me afastei até de mim mesmo e não me encontrei, quanto menos a ti! Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora!” Desabafo que chega a impressionar até psicanalistas agnósticos. Em abordagem sócio-política, o Santo de Hipona critica os discursos lisonjeadores, demagógicos e oportunistas. Assim, relata: “Como eu era miserável, quando me preparava para fazer o elogio do imperador Valentiniano II, em que haveria de proferir mentiras para ganhar a aprovação dos poderosos.” Sente-se vazio e infeliz, confessando uma certa inveja de um boêmio que cantava e ria pelas ruas de Milão: “Ele era mais feliz do que eu, pois transbordava de alegria, enquanto eu era dilacerado por preocupações. Ele ganhava bebida, desejando felicidade aos outros, e eu buscava a vanglória, mentindo.” A respeito de tais palavras, afirmou Carl Gustav Jung: “Estamos diante de uma humanidade despida.” Em Confissões pode-se encontrar um tocante discurso contra a arrogância, corrupção, deterioração e abuso de poder. Elogia a postura ética de seu amigo Alípio, assessor do Chefe do Tesouro da Itália, de sua época. Assim escreveu: [Era] “um senador poderosíssimo, que a muitos dominava pelos benefícios ou subjugava pelo medo. Valendo-se de seu poder, pretendia que Alípio fizesse algo ilegal e antiético. Prometera-lhe um prêmio, o que foi resolutamente rechaçado. Fizera-lhe ameaças, mas Alípio reagiu com energia incomum, maravilhando a todos por contrariar e não temer como inimigo um homem tão poderoso, reconhecido pela reputação de dispor de inúmeros meios para favorecer ou prejudicar alguém.” Vale a pena meditar sobre as palavras de Santo Agostinho, referindo-se ao Deus Onipotente. Seus textos-orações possuem, além da profundidade teológico-espiritual, uma beleza poética: “NELE brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata e exala um perfume que o vento não dissipa, em que se saboreia um alimento que a sofreguidão não diminui e se vivenciaum contato que a saciedade não destrói.” Ao ler tais palavras agostinianas, parece ouvir-se o canto do salmista: “Quão grandiosas são as tuas obras, Senhor, quão profundos os teus pensamentos” (Sl 92/91, 5).
quinta-feira, 31 de agosto de 2023
SOMBRAS DA CIDADE
Valério Mesquita
O progresso é um cárcere privado, muitas vezes, ominoso e fatal para os telúricos, os proustianos como eu. Nasci na antiga Rua do Comércio, hoje, Nair Mesquita, em Macaíba. O local é um sobrado que não resistiu numa rua de casarões destruídos ou desfigurados. Assim ocorreu com os sobrados onde nasceram na mesma rua: Auta de Souza, Henrique Castriciano, Augusto Severo e Alberto Maranhão.
Da ponte sobre o rio Jundiaí, até a Igreja Matriz em frente a antiga prefeitura, na avenida Nossa Senhora da Conceição - berço histórico, social e cultural da cidade - todo o passado está sepultado sobre o asfalto e edificações novas em nome do progresso. É um visual que choca, punge, frustra. E como são falsas e hipócritas as coisas novas. Esse trecho parece com o bairro do Alecrim, burguês, atrofiado, tumultuado e disforme.
Macaíba perdeu a elegância clássica, altiva, portentosa, de cidade antiga nascida às margens de um rio. Cidade dormitório, super povoada, crescimento desordenado, são outras chagas doloridas de sua deformação permanente. No centro investiram no seu futuro matando o antigo, o passado, o histórico, como se não valessem. Destruíram a sua identidade. Não conheço mais a minha cidade, porque baniram as antigas tardes silenciosas e as manhãs contemplativas das velhas figuras da cidade que tanto encantavam os meus olhos de menino: Olimpio Maciel, Euclides Ribeiro, Emídio Pereira, Manoel Alves, Severino Aleixo, Francisco Moura, Isbelo Vieira, Alfredo de Almeida, José Benevides Campos, Luiz Cúrcio Marinho, Magno Tinôco, José Augusto Costa, Agnaldo Ferreira, João Fagundes, Luiz Marinho de Carvalho (tenho dezenas de outros nomes que se torna enfadonho declinar), sem esquecer as folclóricas: Maria Cabral, Pachêco, Cabeção, Sérgio Cabeceiro, Zé Bomba, Sabiá, Pirôba, Núbia Lafayette, Luiz Bicho Feio, Manoel Dedo Melado, Zé Distinto e tantos outros.
Vivo e convivo com todos esses fantasmas da cidade na minha mente. São sombras que não se desfazem com o tempo porque viveram momentos profundos, densos e intensos. Por mais que Macaíba desintegre a sua configuração urbana elas estão impregnadas nas paredes e refletem no chão dos antepassados, tudo o que já foi. Ninguém pense que sou contra o progresso. Não. Espero que entendam o meu sentimento. Registro o fato como quem fotografa um instante, um instante triste, de um universo perdido de sonhos e ilusões. Uma canção ligeira em louvor de tantos - simples e sábios - hoje, sombras, nada mais.
É nesse vácuo que reside a minha perplexidade. Um silêncio dominado pelo abandono e a indiferença. Ninguém coloca em cena a coragem de contemplar restituído, o universo oculto de Fabrício que fez brilhar o nome de Macaíba dentro e fora do Rio Grande do Norte, na segunda metade do século dezenove. Não bastam, apenas, reprisá-lo com lendas e narrativas, como tivesse sido um mundo de ficção. Melhor que a dispersão da palavra solta, é ouvir o eco de suas paredes reerguidas, das vozes trazidas pelo vento das vidas que não se pulverizaram mas renasceram pelas mãos das novas gerações. Esse universo semi-desaparecido, clamo por ele, aqui e agora, afirmando que a melhor imagem de um homem, após a morte, não são as cinzas, mas a obra que legou à posteridade, revivida e restaurada como reconfortante e fiel fotografia de sua história e vida.
(*) Escritor.
domingo, 27 de agosto de 2023
Carta de Lembranças
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Outro começo de semana, às vésperas do mês de setembro quando completarei 84 anos, posso dizer bem vividos pela Graça de Deus.
Não é fácil chegar a essa idade, quando você perdeu a sua metade (Therezinha) e manuseia a mídia diariamente, assistindo a partido dos seus ídolos e dos amigos com idades nos espaços dos anos 60 e 70 anos, trazendo a preocupação de quando chegará a minha vez.
Sou uma pessoa lúcida, mas racionalmente sei que se aproxima o momento e por isso procuro levar a minha vida arrumada para partir em paz.
Tais pensamentos são reapresentados todas noites na minha solidão voluntária e a preocupação é constante não com o medo da caetana, mas pelos problemas que poderei estar deixando por resolver em relação à família.
Espero que os meus amigos entendam esse sentimento que venho atravessando e me apoiem com mensagens de carinho e incentivo para que eu não pare, até porque tenho a idade mental de 50 anos num corpo de 100.
Fico feliz quando ainda posso fazer alguma coisa na vertente da ajuda humanística e, em especial, na da cultura, com crônicas, pinturas e prosas.
Como todo brasileiro relapso, desde o falecimento da minha querida Teca passei a estreitar os meus laços com as igrejas (sou ecumênico) onde tenho a oportunidade de orar pelos amigos e amigas ainda nesta dimensão da existência, enfermos ou não e pelo que partiram, conhecidos ou fora do meu convívio social.
Reforcei a capacidade de perdoar os soberbos e aos indiferentes, que se incomodam com algum prestígio que possa merecer na trilha da cultura, não divulgando o que escrevo ou errando nas notícias de eventual lançamento. O que me satisfaz é o resultado e o comentário ao pé do ouvido - poucos, mas que incentivam a continuar.
Nada melhor num final de vida e carreira do que viver a simplicidade, com amigos igualmente sem ambição, porque eles terão um bom lugar na Mansão Celeste, a qual pretendo habitar um dia.
Vários amigos me cobram as Cartas de Cotovelo. Vou atendê-los a partir de novembro, com o meu regresso à minha pasárgada litorânea. Por enquanto algumas poucas cartas avulsas, para evitar a prescrição.
A rede e a brisa me esperem, Estou voltando.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
CHEIRO DE SAUDADE
Valério Mesquita*
01) Sempre que me encontro com minha irmã Nídia Mesquita, vivemos reminiscências. Conversas soltas, assuntos de ontem e de hoje, que reabastecem as gastas baterias do viver. Aqui e acolá, mergulhamos nas lembranças de Macaíba, da fazenda Uberaba do nosso pai, onde vivemos momentos intensos de infância e juventude. Daí, um pulo retornar aos álbuns antigos de fotos, “à la recherce du temps perdu”. Ai me detive numa foto tirada em Natal, há mais de trinta anos passados. Nela, figuravam o embaixador Ney Marinho, Nídia, Onfália Tinôco e o inexcedível Milton Santos de Almeida que visitava Natal numa temporada de reencontro e apresentações artísticas. Sobre ele já disseram que “cantava samba tão bem que a metade já seria suficiente”. Trata-se de um valor definitivo dentro da arte musical brasileira, dono de uma voz personalíssima. Ali estava, é claro, mais jovem, vitaminado, como diria a crônica paroquial, atraído por Ney que pertenceu ao trade boêmio e acolhedor da cidade na arte de recepcionar iguais e gloriosos nomes da música popular brasileira de outrora, tais como, Silvio Caldas, Orlando Silva, entre outros. Mas, o leitor, adivinho, já me pergunta: "Quem diacho é Milton Santos de Almeida?" Não poderia ser outro que não Miltinho, aquele sambista que tinha balanço todo pessoal e agudo senso rítmico. Diferente e comunicativo na interpretação mas, acima de tudo, de profunda honestidade artística. “Lembranças”, “Mulher de Trinta”, “Recado”, “Lamento”, “Cheiro de Saudade”, “Formosa”, “Boneca de Pano”, “Fita Amarela”, “Agora é Cinza”, todas interpretações com o seu timbre inconfundível e estilo inimitável. Para chegar ao podium da consagração nacional, Miltinho enfrentou árdua jornada desde o tempo dos conjuntos vocais Namorados da Lua, Anjos do Inferno e Quatro Azes e um Coringa. Temperado no sereno de muitas madrugadas daquele tempo, explodiu para o sucesso com a composição de Luis Antônio “Poema do Adeus” em 1960 e daí em diante para outros grandes êxitos que marcaram sua carreira. Dele tenho em CD com as principais músicas do seu variável repertório. Curto-o em casa como valor autêntico, irretocável e justo. Descobri que faleceu no Rio, com 86 anos, em 2014. Fiz ver a Nídia que Miltinho pertence ao patrimônio emocional de minhas doces recordações. E juntos, testemunhamos nossas eternas preferências musicais de ontem e de hoje: Isaurinha Garcia, Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Alcides Gerardi, Luiz Gonzaga e Nelson Gonçalves, além de muitos outros. A tarde descia preguiçosa pelos morros do Tirol. Uma brisa carpideira soprava pelas janelas do apartamento. Fechamos os álbuns e nos despedimos. Sai assobiando Miltinho sentindo intensamente, irresistível cheiro de saudade…
02) Fato humorístico, hilariante, pode ocorrer no lar, na rua, no trabalho, enfim, em qualquer lugar, porque é um fenômeno humano que não tem idade. Minha mãe, Nair de Andrade Mesquita, aos 98 anos, à época, operada de catarata, teve sua vista bastante reduzida. Morando na cidade de Macaíba, todos os dias, eu ia almoçar ou jantar ao seu lado, cumprindo o dever filial. Certa vez, estenderam roupas no varal situado no quintal perto da sala de copa onde invariavelmente permanecia sentada. Ao contemplar a paisagem enxergou uma vaca no quintal. A enfermeira que lhe assistia, procurou dissuadi-la. “Por que Valério comprou uma vaca? Ele não tem fazenda?”. Repetia insistentemente. No almoço, como não poderia deixar de ser. a pergunta veio inapelavelmente: “Meu filho, de quem é aquela vaca lá no quintal?”. “Vaca, que vaca?”. Tive que explicar direitinho que foi um erro de visão dela, etc. Ao cabo de cinco minutos, voltou ao assunto: “Eu só tenho receio que essa vaca vá estragar o meu jardim”. Tornei a repetir que não existia vaca nenhuma. Tudo era produto de sua imaginação. Continuamos o almoço. Ao cabo de pouco tempo, fitando-me com seriedade me inquiriu: “Meu filho, você já tem comprador pra essa vaca?”. Com indulgente paciência filial esclareci que não existia vaca, pois estava equivocada. Na hora do cafezinho, quando preparava nova pergunta, resolvi convidá-la para ir ver a vaca. Pelo menos não iria ver e deixaria de vez a “invenção”. Conduzi-a até o quintal. Apontei para todos os recantos e mandei retirar as roupas estendidas. “Tá vendo como não existe vaca nenhuma?”. “Sim meu louro, já sei o que você fez. Mandou retirar a vaca para a fazenda de Nídia, sua irmã!”. Diante da impossibilidade de convencer tive que admitir a existência da vaca ficcional. “Mãe é mãe”.
(*) Escritor.
Aproximando e aprendendo

