quinta-feira, 20 de outubro de 2022

 

AVE, PÁSSARO!

 

Diogenes da Cunha Lima

 

         Ninguém teve maior sabedoria do que Jesus Cristo. Um dia ele ensinou: “Olhai os pássaros do céu. Eles não plantam nem colhem, nem guardam alimentos em celeiros, pois seu pai certamente os alimenta.” Na mesma linha, Ele orienta sobre a beleza dos simples: “Olhai para os lírios (xananas) do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam. Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles."

         Na sabedoria popular dinamarquesa existe um ditado dizendo que Deus dá comida aos pássaros, mas não dentro do ninho. Ou seja, esta função é dos pais.      

A oração de louvor à Nossa Senhora tem o título de saudação. Ave (que quer dizer salve) Maria. As aves não existiriam para louvar a mãe de Jesus?

         Um menino caçava passarinhos de baladeira. Comia coração de beija-flor para ter mão certeira. Chegou em sua casa com as rolinhas mortas. O pai reclamou: “como você tem coragem de matar os bichinhos que Deus fez para serem bonitos?” Envergonhado, nunca mais caçou. Hoje, adulto, sente-se feliz ao contemplar pássaros e servir alimentos escolhidos para serem ao gosto deles.

         No dilúvio, Noé conseguiu salvar um casal de cada espécie de animais, mas as águas cobriam toda a face da Terra. Ele precisava ter para ele, e todos os bichos, algum sinal de esperança. Soltou uma pomba e depois ela voltou dando esperança de terra firme, uma folha de oliveira no bico.

         Os pássaros se comunicam através do canto e dos gestos. Falam buscando parceria amorosa, advertem do perigo, talvez cantem pela alegria que o som lhe transmite. Galos e bem-te-vis cantam na madrugada para avisar do seu território. Enfim, segundo suas espécies, os pássaros exercitam linguagem própria. Está no Talmude que a sabedoria que Deus concedeu a Sansão incluía o entendimento da língua dos pássaros. Os celtas antigos acreditavam que os pássaros eram profetas vestidos de penas. Seria preciso muita habilidade para que os homens entendessem o sentido das profecias, encobertas no canto.

         Na mitologia grega, a matéria-prima da figura de proa do barco de Jasão era feita da madeira do bosque sagrado. E pelo fato mesmo, poderia falar a língua dos pássaros.

Da mesma maneira que Santo Antônio falava para os peixes, São Francisco, o padroeiro da ecologia, falava com os pássaros, que lhe seguiam os passos.

Na Cabala, a língua dos pássaros, langue verte, era perfeita e secreta. Seria a chave do máximo conhecimento.

Nos hieróglifos egípcios, há muitas representações de aves. Eles falariam a linguagem divina. A escrita seria O Alfabeto dos Pássaros.

De onde se conclui que ouvir o canto dos pássaros é aproximar-se de Deus.

        

 

 

 

Desintoxicar-se e desapaixonar-se

Padre João Medeiros Filho

Após o primeiro turno das eleições, vamos dar uma chance à paz, desarmar os corações e serenar os espíritos. Urge desintoxicar-se e desapaixonar-se. Cristo pregou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra” (Mt 5, 9). Não esqueçamos que somos todos brasileiros e irmãos (para quem professa o cristianismo). As eleições devem ser concebidas como espaço da democracia. É assim que se precisa entender. Vivemos dias e semanas apreensivos, num clima raivoso, de intimidação, desconstrução de pessoas, radicalismo e agressões. Não é justo nem salutar quebrar os laços familiares e de amizade, dividindo o nosso lar, odiando nosso próprio sangue por conta de política. Podemos ser adversários, mas nunca inimigos. É necessário que assim ajam as pessoas civilizadas e cristãs. O ódio não faz bem, por isso foi condenado pelo Mestre da Galileia. “Fazei o bem aos que vos odeiam. Abençoai os que vos amaldiçoam. Orai pelos que vos caluniam (Lc 6, 27-28). Durante a campanha, sofismas e mentiras confundiram, desorientaram, desvirtuaram fatos e enlamearam pessoas.

Como fazer cessar a aversão e a ira, o desrespeito vil e a agressividade?  Primeiramente, é preciso desarmar os corações. Somos efêmeros, peregrinos na vida, “cidadãos de uma outra pátria” (Fl 3, 20). E para fazer esta experiência é necessário envolver-se e conviver. O que nos une, supera aquilo que nos separa. Somos participantes de uma mesma natureza, temos problemas idênticos ou semelhantes, dificuldades análogas, pertencemos a uma só família. Deus nos dá a chance de nos realizar juntos, apesar de nossas limitações e pecados. Saibamos compreender e perdoar. “Ninguém é perfeito no país dos homens”, afirmava o Pequeno Príncipe. Ou como proclama com mais precisão o Evangelho: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8, 7).

Durante a campanha eleitoral, talvez tenhamos caído na armadilha de alguns, que em vez de unir, nos polarizaram. Em lugar de agregar, nos tornaram inimigos, desejando que eliminássemos com violência e rapidez os rivais. Esqueceram que precisamos de todos para superar e sair das ruínas, juntar os cacos deixados pela pandemia e outras desgraças que possam nos ter atingido. Importa desintoxicar-se de tanta coisa que veicularam as redes sociais e a mídia. Vamos nos voltar para as nossas tradições de povo pacífico, generoso, hospitaleiro e fraterno. As campanhas passam. O poder não é eterno. Lembremo-nos da imagem de Cristo do Corcovado, plantado como símbolo e ícone de nossa hospitalidade e do acolhimento cristão. Ele está de braços abertos para nos receber.

A filosofia ensina que o homem é um ser inacabado. Necessita dos outros para se completar. Por isso, é preciso aprender a dialogar, buscar convergências, transigir, unir e aproximar. É ilusório pensar que o vencedor nas eleições só receberá os louros. Ele terá diante de si antigos, novos e gigantescos desafios.  Quem foi derrotado nas urnas, não pode fazer uma oposição irresponsável e raivosa. Não sejamos egoístas, pensando tão somente em nós, em nossos interesses e partidos. O Brasil vale mais que as ideologias e suas concepções. É preciso ter em mente o futuro. A pátria não pertence apenas aos que vivem agora. Não há nenhuma escritura passada em cartório de que grupos, pessoas ou partidos são proprietários desta rica e querida Terra de Santa Cruz. Vencedores e vencidos precisam estar conscientes de que o Brasil é de todos!

É hora de pensar alto e grande, como fazem os verdadeiros políticos, estadistas e pacifistas da história. Sigamos os ensinamentos de São Francisco de Assis: “Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor”. Nossa pátria precisa de serenidade. O Brasil é um país cristão.  Jesus não veio incendiar o mundo com rancor e violência. Pregou e ensinou o amor. “Nisto conhecerão que sois os meus discípulos, se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo 13, 35). Que Deus nos conceda alegria, esperança e coragem, para trilharmos juntos um caminho de união, justiça, paz e solidariedade. E que o Senhor esteja sempre no meio de nós. Meditemos as palavras do salmista: “Vede como é bom e agradável os irmãos viverem unidos” (Sl 133/132, 1).

 TEMPO DE OUVIR SINAIS

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Guatama é a personagem histórica que fundou o budismo no século V antes de Cristo. Essa religião, que se opôs ao bramanismo, conta com mais de quinhentos milhões no Extremo Oriente, incluindo-se Índia, China e Japão. Já Maomé, profeta e fundador do islamismo, lá pela era de 632 D.C., domina, hoje, dezenas de países muçulmanos. Pois bem. Não se vê ninguém sistematicamente refutar, distorcer, incriminar, blasfemar através da literatura mundial, sobre a vida pregressa dos fundadores das duas religiões. Apenas, como objetivo deliberado de desmerecer e lambuzar o culto, de desestabilizar a fé, assiste-se, apenas, tal proceder, através de festejados escritores com relação à vida de Jesus Cristo, imputando-lhe comportamento mundano, incompatível com a imagem santa traduzida e ensinada pelo Novo Testamento das Sagradas Escrituras.

Os milhões de cristãos do mundo, entre católicos, evangélicos, ortodoxos, etc., já começam a indagar: por que? Cumprem-se as profecias dos anticristos? A própria Bíblia previu, em várias situações, tanto no Antigo como no Novo Testamento, o aparecimento dos perseguidores do Cristo, que jamais deixou de admitir a influência de Satanás sobre os humanos. Ele próprio sofreu a tentação do maligno e triunfou com o seu poder de Filho de Deus para que se cumprissem as escrituras. Ora, a minha indignação é contras as maledicências de obras ficcionistas de livros e filmes que procuram imprimir comportamentos duvidosos e profanos em Jesus Cristo, tais como: conjunções carnais com Maria Madalena e que foi casado, pai de filhos. Além do mais, desacredita a Bíblia cristã ao afirmar que o imperador de Roma, Constantino, autorizou a elaboração de uma nova, a fim de ocultar informações depreciativas sobre Jesus. Todas essa alegações e outras, integram a trama literariamente bem urdida, porém corrupta, porque falseia, calunia uma verdade histórica que muitos pensadores e gênios da humanidade, através dos tempos, jamais contestaram. Creram.

As minhas despretensiosas assertivas não constituem crítica literária e nem é esse o meu propósito. Agora, difamar a vinda do Cristo subvertendo a vida e a mensagem legadas, sem apresentar qualquer prova documental, histórica, nenhum estudo, pesquisa ou descoberta antropológica,  para exercício de vaidade cultural, literária, com o fito de vender o livro, é ser trapaceiro. É crucificar Jesus de novo.

Minha decepção com o mundo de hoje também se fundamenta no fato de que mais de dez milhões de livros já foram vendidos. Deve ter atingido aquela faixa populacional que só se lembra ou invoca Jesus quando está morrendo no hospital. Ou, quando não, pede para que os serviços religiosos sejam ministrados após a morte, criteriosamente e por via das dúvidas. Só me resta como cristão pedir a Jesus que venha logo desbaratar essa quadrilha de hereges. Fortalecer os seus missionários aqui na terra, sacerdotes, pastores, com a luz do Espírito Santo. Senhor, permitam que aconteçam mais milagres, aparições, porque a incredulidade campeia. O Senhor procedeu assim naquele tempo. E agora, após a população do planeta ter crescido tanto, a ciência, a tecnologia, os anticristos, não seria oportuno ver e ouvir seus sinais?

No Apocalipse 22, versículos 12 e 13, disse Jesus: “E eis que cedo venho e o meu galardão está comigo para dar a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Derradeiro”. Palavras fortes que para um bom entendedor, bastam. Estariam os cataclismas no mundo inteiro acontecendo sem a permissão do Senhor para testificar a segunda e anunciada vinda de Jesus ao mundo em transe? Por acaso, a primeira vinda não foi tão meticulosamente planejada, desde o Gênesis, o Êxodo, o Deuteromonio, passando pelos profetas da anunciação, até o Novo Testamento com intercorrências de muitas catástrofes?


(*) Escritor.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

 

  • SALDO DE RETALHOS

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Fotos, recortes amarelecidos de jornais, álbuns perdidos, lembranças mortas, tudo se resume no que ficou de mim no caixote que mandei buscar em Macaíba. Quase cinquenta anos estavam ali amontoados sem me passar a certeza de que fui feliz. Viagens, lugares, reuniões, festas, política e políticos, o lar, as pessoas, o trabalho, os entes queridos, a entrevistas, os fatos, os enganos e os engodos, as ações e as traições, as frustrações, tudo, enfim, um baú de vida tecida e vertida em momentos fugazes mas com profundidade. Mesmo assim, era o meu inventário de aparências. O revelado e o relevante. Sim, porque as verdadeiras ações ficaram no pensamento, no que quis realizar e não consegui: porque o melhor de todos nós se encontra no irrevelado.

Sobre a mesa, o pacote empoeirado desafiava-me a memória. De plano, lembrei-me que muitos desses documentos foram náufragos há mais de quarenta anos, aproximadamente, de uma enchente que inundou a rua Francisco da Cruz nº 39, de minha mãe. Com a permissão do destino os papéis não foram afetados menos outros, levados pela correnteza. Naqueles ali apenas constatei o pó e a pigmentação do tempo. Estava diante de mim mesmo resumida a maior parte de minha vida? Perguntei-me. Vejam mesmo, meus caros leitores, o quanto é fuleira a vida quando a colecionamos ou a resumimos em vaidades. Era feliz e não sabia? Frase babaca essa e desnecessária ao texto. O fato é que enfrentei a memória contextual, os meus pedaços de vida, soltos, saídos do útero da casa mater, como único e suficiente tesouro do eterno aprendiz.

Um pacotaço maior e robusto havia me surpreendido à esquerda, naquela tarde de redescobertas. Tratava-se da coleção de diplomas, condecorações, títulos, troféus, placas, medalhas, etc. Era a coleção “vanitas, vanitatis”, que pendurara, ao longo do tempo, nas paredes da sala da frente. Testemunhas documentais de homenagens passageiras. Do mérito bajulatório umas e de fieis reconhecimentos, outras. Enfim, passatempos. De que me servirá hoje tudo isso porquanto só a mim interessa? Penso assim, porque sempre o mundo dá e ele mesmo tira. O que importa é que agora sem a casa de Macaíba não tenho onde colocar meus inúmeros penduricalhos. Resido em casa menor, despojada de arquitetura senhorial que abrigava com pompa e circunstância meus escombros de guerra.

Mas, há algo que lá deixei, além das sementes e da vida dos meus pais, em cada parede, sala e jardins. Uma iniciada biblioteca constituída de bons livros de autores nacionais e principalmente do Rio Grande do Norte. Nas boas mãos de uma bibliotecária pode representar um bom começo para os futuros habitantes. Doei a Fundação José Augusto e a  Casa da Cultura de Macaíba “Nair de Andrade Mesquita” na expectativa maior de que os jovens conheçam mais os autores potiguares. Em suma, eis o meu inventário. Modesto, raquítico, dietético, extraído daquele casarão onde habitou tanto amor, enxugou muitas lágrimas e perfumou sorrisos. Mas, ali tudo era assim mesmo: modesto, pobre, sem ostentação. Era verdadeiramente a casa do povo e que se tornou da cultura municipal, sem deixar de ser do povo. Não sei, mas sinto que há desígnio superior em tudo isso.

 

(*) Escritor

domingo, 16 de outubro de 2022

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

 

 


Missa de 30º dia






INÁCIO MAGALHÃES DE SENA

Os amigos de Inácio convidam para a Missa de 30º dia

que mandarão celebrar em sufrágio da alma do

pranteado confrade e agradecem aos que

comparecerem a esse ato de piedade cristã.

DATA: 18 DE OUTUBRO (terça-feira).

LOCAL: Igreja de SANTA TERESINHA (TIROL)

HORÁRIO: 17,30 horas.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 SENTIMENTO TELÚRICO 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Conversa recente num encontro social, motivou tema interessante ainda não suficientemente estudado. Quais os estados brasileiros bairristas, dotados de forte sentimento de teluricidade? No nordeste, à primeira vista, a Bahia, o Ceará e Pernambuco assumem e assomam o patamar dos notáveis. Pernambuco, por exemplo, existe o “senso de pernambucanidade”, permanente disposição afetiva e “patriótica” em defesa das coisas da terra, com tal entusiasmo e emoção que até parece religiosidade. Assim também se diz do bahiano e cearense que exageram seus intrínsecos valores de ordem intelectual, espiritual, consuetudinários e econômicos a extremos, ao ponto de menosprezar e hostilizar tudo que se refira as demais unidade federativas.

O médico e articulista Elmano Marques suscitou o assunto com relação as regiões e municípios do Rio Grande do Norte. Existe aqui comportamento bairrista e onde? De antemão, estabeleceu-se a premissa do potiguar não ser um telúrico como o gaúcho. Poderia sê-lo, posto que, motivações religiosas, culturais, históricas, econômicas, além de belezas naturais sem fim, constituírem o seu rico patrimônio universal de orgulho e auto-estima. Mas, quais os “bolsões” de bairrismo acendrado existentes? Natal primeiramente, assume essa identidade de cidadela querida e resguardada pelos seus habitantes? Pouco provável porque as opiniões são díspares. Que causas inibem a maioria dos natalenses em manifestar seu sentimento pela capital como fazem os cearenses, pernambucanos e bahianos? O problema é que quando assim procedem, se mostram tímidos, sob tensão de notório complexo de inferioridade. Bem, o que afirmo é uma impressão. Pode ser que outros não enxerguem assim.

Todavia, a razão de trazer à baila a discussão desse assunto é para suscitar entre os sociólogos, professores e pesquisadores sociais a elaboração de um trabalho ou de uma tese. Por que Mossoró é tida e havida como cidade bairrista? Que sentimentos alimentam o seu povo para assim se conduzirem? Emulação com Natal? Perscrutar a psique social é uma tarefa para os cientistas dessa área. A antropologia cultural, por outro lado, irá apreciar as características inerentes a cada homem no que tange aos costumes e as crenças, de par com outras ciências, a fim de determinar a teluricidade comportamental dos naturais de cada município ou região. Trata-se de apaixonante assunto que acredito interessar a todos os interioranos do Rio Grande do Norte. Macaíba, Parnamirim, Ceará-Mirim, São Gonçalo, que integram a região metropolitana preservam algum bairrismo? Ou a proximidade com a capital é motivo de dispersão ou de falência sentimental? O que dizer do Seridó, região mais hermética e de características sociais atípicas? E como a abordagem é perfunctória e indagativa, que outros ingredientes como o clima e o solo influem na formação do sentimento telúrico? Ficam as indagações para os estudiosos.

 

(*) Escritor



 

COISAS DO TREM DE PRATA

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

O início dos anos 1970, quando fui morar em São Paulo pela segunda vez, fundei a Entreprise Press, uma agência jornalística que fornecia notícias, crônicas e ”conteúdos” para mais de quarenta jornais do país; de Manaus a Porto Alegre. Era uma época diferente da de hoje. O grande problema foi como montar a logística para fazer as matérias chegarem aos jornais. Tudo era difícil, não havia internet e o grande instrumento de comunicação – restrito para somente algumas empresas – era o teletipo; e essa foi a nossa grande arma.

Por indicação do meu amigo Dorian Jorge Freire, fui buscar o jornalista Fausto Cesar Alcazar, que trabalhava como “freelance” nas revistas Veja e Realidade, da editora Abril, para se juntar a nossa equipe. Como se diz, “foi um grande achado”, principalmente no setor de “conteúdo”, algo relativamente inusitado na imprensa brasileira. Tradicionalmente, as agências nacionais distribuíam quase que somente notícias prontas e nenhuma fornecia conteúdos, ou seja, não forneciam os tópicos que compõem as notícias, tais como as fontes, as divergências de intepretações, o significado e mesmo a sua importância em contextos diversos, de tal forma que, em jornais diferentes, o mesmo fato poderia aparecer de forma diferente, conforme a sua interpretação, dando relevância latente às palavras.

   O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e a Folha de São Paulo, na capital paulista, eram os nossos maiores clientes de “conteúdos”, e isso exigia reuniões frequentes entre nós e as chefias de redação desses jornais, pois se as notícias são fluidas, os “conteúdos” são mais que isso, são voláteis. Depois das matérias serem divulgadas, elas despertam pouco ou nenhum interesse do público, a não ser que haja fatos novos que lhes deem substância e continuidade.

O Jornal do Brasil era o cliente que mais exigia reuniões para discutir os conteúdos, mesmo que nunca tenha tido êxito nos seus questionamentos. Por conta dessas ocorrências, quase que passamos a morar nos aeroportos de Cumbica e Santos Dumont. Não suportávamos mais o barulho das turbinas da Ponte Aérea São Paulo-Rio de Janeiro-São Paulo, os cafés frios e os pães de queijo amassados e caros, vendidos nas áreas de espera, o ambiente gélido da madrugada nos aeroportos, vez que as reuniões sempre eram marcadas para as primeiras horas do expediente da manhã.

Eis que descobrimos o serviço ferroviário chamado de Trem Santa Cruz (depois de Trem de Prata), que fazia o mesmo percurso Rio-São Paulo-Rio. Mais barato e com lampejos de luxo. Destinados aos passageiros, havia vagões dotados de cabines com dormitórios e um carro-restaurante, tudo servido por cerca de vinte tripulantes. Experimentamos uma vez e logo o adotamos como o nosso meio de ir e vir entre as duas cidades. Logo ficamos conhecendo os outros passageiros habituais. Havia Júlio, um alegre e comunicativo representante comercial, o padre Alberto, Mussum dos trapalhões, Dona Arlete, uma senhora dona de uma confecção e outros mais. Mussum ia dormir logo depois do jantar. Com os outros ficávamos conversando e, vez por outra, jogando um biriba despretensioso, apostando caroços de feijão, pois se convencionou que era proibido jogar a dinheiro. Um dia ficamos sabendo (dito pelo colega que o substituiu) que Júlio tinha ficado doente de meningite, coisa greve mesmo, a ponto de ter recebido a extrema-unção. Só estavam esperando a sua morte.

Meses depois ele reapareceu no trem. Magro, trazendo na face o resultado da doença, mas ainda alegre e conversador. Contou-nos sobre os dias que esteve hospitalizado, as dores horrendas e o medo de morrer. Em seguida perguntou sobre o padre Alberto, pois queria pedir-lhe um favor. Logo em seguida, como se fosse numa deixa de teatro, o padre Alberto entrou no vagão-restaurante, dirigiu-se ao nosso amigo e o abraçou. Júlio, como bom brincalhão que era, disse-lhe.

   – Padre dá para anular a extrema-unção, que me deram? Eu desisti de morrer. Pelo menos por enquanto. 

 

Tribuna do Norte. Natal 12 out. 2022.

 

 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

 

Professor Severino Lopes, o desportista      

 

 

Severino Lopes da Silva (Dr. Severino, Professor Severino) nasceu no município de Macaíba, em 1924. Conheci-o no começo da década de 1960, quando iniciava a minha jornada como profissional do futebol, na simpática e admirada equipe verde-branca do bairro mais popular e populoso da cidade, o Alecrim FC. Há relatos de que  foi um bom jogador, defendendo a equipe esmeraldina e, inclusive, em passagem em terras da Espanha, durante o tempo da sua pós-graduação; um atleta viril, brigador, duro nas jogadas, porém, um obediente e disciplinado jogador dentro das quatro linhas. Fizemos uma boa, sólida e fiel amizade no campo do futebol e da medicina.

Na época, o professor Severino já fazia parte como um dos abnegados cardeais do time “periquito”, chegando a sua presidência.                                                                         

Conseguimos juntos o primeiro bicampeonato oficial de futebol da cidade (1963/4). Em plena efervescência da disputa do título do bi, fui aprovado para fazer o curso de medicina; o tempo passou a encurtar, a apertar para poder conciliar a “bola e o estudo”. Porém, fui sempre aconselhado e orientado pelo professor, nas buscas das soluções.

Como seu aluno na cadeira de Psicologia Médica, relembro algumas passagens interessantes: ele gostava de convidar um grupo de estudantes para jogar uma “pelada” em sua fazenda, na Lagoa do Bonfim. O time dele nunca perdia (de maneira superesportiva). Sempre arranjava um jeito de sair vitorioso no final do embate. O local era super arenoso, com areia frouxa e muito quente (a pelada sempre começava depois das onze horas); convidava e levava alguns bons jogadores do time do Alecrim, de solado grosso, que corriam na areia quente e fofa, como se estivessem correndo em cima de um excelente gramado sintético em noite fria. Não dava outra, ganhava todas. Não sabia o que era derrota. Contam que, certa vez, convidou para uma arrojada peleja, um time de peladeiros, cujo goleiro era o bom e famoso Bastos (Alecrim FC); início de jogo, o goleiro intransponível, não entrava nada, nem vento! Preocupado, pensando em perder a longa invencibilidade, o professor Severino “deu uma de doido”, lembrou-se do valente e feroz cão da fazenda. Não deu outra, foi apanhar o cachorro e amarrou na trave do bom goleiro. O defensor arregalou os olhos e chispou, abandonando a trave. Aí, pegue a entrar gols e mais gols, final da peleja: uma senhora goleada, tendo como grande protagonista o valente cão artilheiro que ele chamava de Bozó II (alusão ao bom ponta direita Bozó do Alecrim FC, seu contumaz convidado). No final, todo mundo morto de sede, fome e muito bem derrotado, e ele sorrindo à toa, descascava pacientemente um abacaxi para distribuir com todos. Era pouco abacaxi para muitos derrotados e esfomeados.

Na nossa convivência no Magistério Universitário, ele na chefia do Departamento de Medicina Clínica, me indicou para a vice-diretoria do Hospital Universitário Professor Onofre Lopes, o que muito me honrou e enalteceu.                                           

No seu currículo, constam trabalhos pioneiros da mais alta relevância em prol da psiquiatria do Estado: a criação do primeiro hospital de psiquiatria – a Casa de Saúde Natal, (1956) – hoje, Hospital Psiquiátrico Professor Severino Lopes; o primeiro curso de residência médica em psiquiatria; a criação e fundação da Clínica Pedagógica Professor Heitor Carrilho, instituição de caráter filantrópico, onde presta atendimento eficaz e humanizado às crianças excepcionais, dando-lhes total apoio psicopedagógico, e a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). O professor Severino sempre enxergou e usou o trabalho, o esporte e o lazer, como elementos fundamentais e coadjuvantes na terapia psiquiátrica.

Deixou um imensurável legado para psiquiatria do Estado, com a formação de gerações e gerações de seguidores. Sua imagem, sua figura, sua pessoa, suas ações jamais serão esquecidas.

Faleceu em 2002, aos 78 anos, vítima de infarto do miocárdio, na Casa de Saúde São Lucas; era portador de diabetes. Foi casado com a farmacêutica Isabel Fernandes de Góis Lopes, com quem teve cinco filhos: Carlos, Márcia, Marcos, Cláudio e Cláudia Lopes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

 

O futebolês

 

 

Ultimamente, os canais de televisão têm ocupado grande parte dos seus horários às narrações, discussões e aos comentários sobre o futebol. Não falta pano para manga. Haja torneios, copas, taças e campeonatos nacionais e internacionais, todos transmitidos pela mídia esportiva. Coisa de louco! Alguns canais são específicos e chegam a ser enfadonhos, é o dia todo e todos os dias, só futebol e mais futebol. Com isso, temos observado que o vocabulário da pelota tem se enriquecido, se inovado e ampliado bastante, com inovações bem interessantes e curiosas.

Passamos, dessa forma, a ter mais uma nova variedade da nossa língua-mãe – o futebolês.

Assim, quando assistimos ou ouvimos uma transmissão de futebol e seus comentários, ficamos surpreendidos com essa nova linguagem, que chega a nos tirar de tempo; daí a necessidade de uma boa reciclagem para entender esse rico e variado palavriado. Vamos ao que escutamos:

 

– É um jogador cascudo; o time foi muito cirúrgico, usa muito a transição ofensiva; aproveita bastante a linha vertical; foi muito agudo no transcorrer da partida; o time iniciou usando muito a linha baixa; o adversário preferiu a linha alta; o time está precisando de um 9 plantado e terminal; tem que jogar enfiado; está faltando um bom meia de contensão; o meia de armação está fugindo do seu quadrado; tem que flutuar; a transição não está perfeita; é preciso manter a retenção; tem que fazer o facão para poder guardar na casinha; o ala tem que se apresentar bem na linha do gramado; a aproximação tem que ser feita no losango; o volante tem que cobrir o corredor; o jogador tem pouca minutagem; tem que se manter com jogo apoiado e reativo; ocupar bem o terço final; dar sempre amplitude; exercer sempre a contrapressão, usar bem os externos desequilibrantes; o primeiro e o segundo volante têm que ocupar o triângulo central; bom de vestiário; boa atmosfera.

E, por aí segue a nova comunicação na mais pura e moderna linguagem – o  futebolês. Difícil de entender, não?

O que diria o nosso filósofo maior do futebol, o carioca botafoguense Neném Prancha, e o nosso lendário narrador mineiro e flamenguista até a medula Ary Barroso, com sua inseparável, insuperável e precisa gaita, diante dessa estranha narração: – o jogador, cascudo e terminal, invadiu pela vertical de forma aguda, envolveu o time adversário em linha alta, flutuou no losango, fez o facão e com ação cirúrgica guardou na casinha?

No mínimo, achariam muito estranho e inconcebível e teriam enfarte fulminante em suas coronárias.

 

Saidinha equivocada
​Do meu tempo de doutorado em Londres, recordo-me, com saudade, de haver estudado bastante em duas maravilhosas bibliotecas: (i) a Biblioteca do Instituto de Estudos Jurídicos Avançados da Universidade de Londres, que se acha situada no número 17 da Russell Square, no charmoso e mui visitado bairro de Bloomsbury; (ii) e a queridíssima Maughan Library, uma das nove bibliotecas do King’s College London – KCL (no qual fiz o meu doutorado), localizada na Chancery Lane (rua famosa da “Central London”), que é por muitos considerada a mais bela biblioteca do Reino Unido.
​E se outrora já escrevi sobre essas duas maravilhas, eu hoje vou contar um causo sucedido comigo, relacionado a uma longa noite de estudos passada na Maughan Library.
No Reino Unido, nos últimos meses do período letivo, coisa de maio e junho (o ano letivo lá começa em setembro), as bibliotecas universitárias restam abertas 24 horas. Dão uma redonda, como dizemos, embora para outros fins, digamos mais festivos.
Esse era o caso da tal Maughan Library, onde começa o meu causo. No doutorado, foram dias e noites habitando entre aquelas estantes, muitas vezes perdido no labirinto de salas e corredores, lendo e escrevendo, sempre na boa companhia dos autores e dos livros de minha predileção. Como morava perto, dava até para fazer três expedientes de estudo, misturados a uma boa caminhada ou a uma siesta à moda espanhola. Maravilha!
​Acontece que a ambiência da Maughan Library, embora belíssima, é também meio “sinistra” no sentido “Harry Potter” ou “O nome da rosa” do termo. Tudo lá é meio “fantástico”. As suas primeiras edificações retroagem ao período medieval. O prédio principal foi edificado nos anos 1850 para abrigar o Public Record Office do Reino Unido. O complexo foi adquirido pelo King’s College em 2001. Reformado (é um edifício tombado), foi reinaugurado em 2002, como biblioteca, com a presença da Rainha Elizabeth II (1926-2022). Seu interior é antigo e austero. Imensas portas de madeira antiga ou de ferro fundido separam um ambiente do outro. Só as janelas enormes, algumas preenchidas com vitrais, nos roubam a sensação de isolamento. Apesar das orientações, é bem labiríntico. E, se é para misturar realidade e fantasia, Robert Langdon e Sophie Neveu, em “O código Da Vinci”, de Dan Brown (1964-), estiveram xeretando por lá. Inconscientemente, vez por outra nos vem à mente (vinha à minha, ao menos) os sete dias de “crimes e castigos” imaginados por Umberto Eco (1932-2016) em uma antiquíssima abadia medieval e sua biblioteca. Esquisito! E isso tem a ver com o meu causo.
​O fato é que, em certa ocasião, já bem tarde da noite, cansado, exausto mesmo, saí da Maughan Library em direção à minha casa. No caminho, tive vontade de ir ao banheiro. Como tinha um McDonald’s na rua, tive a péssima ideia (vendo agora retrospectivamente) de entrar ali para, rapidinho, fazer o número 1. Dei aquela fingida de estilo, de que iria escolher algo, e parti em direção ao subsolo do prédio.
​
Em Londres (e nas demais metrópoles europeias), em cafés, bares e comércios de estilo, os subsolos são normalmente destinados para os banheiros necessários aos clientes, aos turistas ou, quiçá, aos estudantes exaustos como eu. Mas é uma adaptação. Meia boca. As localizações são confusas. Labirínticas, diria, como no caso da minha Maughan Library. Esquisito!
​Bom, achei o banheiro. Fiz meu pipi em um dos vasos pregados na parede. Até aí tudo bem. O infortúnio aconteceu na saída do banheiro. Quando empurrei a porta, ela não abria. O pior: havia alguém segurando ela do outro lado. E com muita força. Naquele momento, em questão de segundos, tudo me passou pela cabeça (que já não andava bem). Querem me assaltar. Me violentar. Me matar. Meu corpo será encontrado em uma terra que não é a minha. Imaginei o desespero dos meus pais. E comecei a gritar: “Help! Socorro! You are crazy, man!”. E tudo mais que sabia em inglês, português e nas demais línguas da Torre de Babel. Tudo alto e desesperadamente! Nesse desespero, tive mais forças que o meu oponente. Abri a porta violentamente!
​Graças a Deus, pelo menos para mim, tudo não passava de um engano. Exausto, misturando os labirintos de “O nome da Rosa” e do subsolo do McDonald’s, confundi as portas de saída e da casinha do sanitário. Estavam em lados opostos. Fui para o lado errado. Do outro lado da porta, que rompi aos berros numa mistura de línguas incompreensível, de olhos esbugalhados, estava um homem moreno (talvez estrangeiro como eu, da África ou do Subcontinente Indiano), sentado no bojo, calças arriadas, tentando fazer o seu número 2. Veio a epifania...
​Desde então, comparando com o meu, imagino o desespero desse cidadão, calças arriadas, indefeso, lutando com um maluco à sua porta que gritava coisas nonsense. Pelo que me recordo, disse um “Sorry” pelo meu “crime” e saí correndo, fugitivo, Londres noite afora, com o medo de um “castigo” deveras merecido.
​​
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sábado, 8 de outubro de 2022

                

Novos, baratos e sem dissabores
Sebos vendem livros usados e, por isso mesmo, mais baratos (tirando o caso das obras raras e colecionáveis, por óbvio). Essa é a ideia por detrás desses comércios. Uma excelente ideia, diga-se de passagem. Eu adoro os tais dos sebos.
Todavia, existe um outro tipo de comércio, comum no exterior, que é especializado em vender livros novos, mas que, por motivos variados – edições mais em conta, edições mais antigas, edições atemporais, obras que já caíram no domínio público, obras que não tiveram grande apelo comercial e por aí vai –, são também deveras baratos. A esses livros são dados descontos – enormes descontos, aliás – nos seus valores de “face”. Em inglês, esses comércios de livros/livrarias são normalmente chamados de “discount booksellers”. Eu também amo esses comércios.
Certa feita, nos EUA, começando uma viagem pela Flórida, dei de cara com uma loja da Book Warehouse, que se diz “a líder nacional entre as discount booksellers” naquele imenso país. Era já em Orlando, o primeiro destino do nosso périplo norte-americano. Comprei bastante. Em seguida, já na Geórgia, comprei mais um bocado de volumes. Foi muito bom e muito ruim. Como íamos rodar boa parte do sul dos EUA, isso causou dissabores à minha mulher. Enchi as malas e a mala (do carro, que fique claro) com “coisas supérfluas”. Paciência.
Mas foi em Londres, quando lá fazia o doutorado, que me familiarizei com esse tipo de comércio. Entre outras paragens, morei por um ano em Bloomsbury, que é um bairro com fama – justa fama, aliás – literária/acadêmica. Ali está a sede da Universidade de Londres e estão muitos dos seus colleges. Pelas imediações também fica a Biblioteca Britânica e, defronte a esta, no meu tempo, havia vários pequenos comércios vendendo livros novos a preços especiais (por 2 ou 3 libras quiçá). Já não me recordo dos seus nomes, mas eram/são facílimas de encontrar na Euston Road, onde fica a biblioteca (que, por óbvio, também deve ser acadêmica e turisticamente visitada).
Sobretudo havia, na rua onde eu morava, a Southampton Row (e acho que essa parte da rua já ficava no bairro da Holborn), uma das muitas lojas, em Londres, da rede The Book Warehouse (que, apesar do nome, não acredito ter qualquer relação legal com a homônima americana). Era muito conveniente, pois ficava aberta até às 22 horas (acho que ainda fica, pelo que andei vendo), o que é raro no comércio londrino. Quando estava “cansado” de Londres, se é que isso é possível (acredito no Dr. Johnson), matei muitos dos meus fantasmas por lá. Era pequenina (suponho que ainda seja), com apenas um pavimento térreo, mas vendia livros novos, de diversos tipos, a preços promocionais, muito mais em conta do que nas livrarias tradicionais. Comprei boa parte da minha coleção de clássicos ingleses, em edição de bolso (em papel jornal, bem leves, mas cuidadosamente produzidos), por lá. Publicações Penguin Popular Classics, Oxford Word’s Classics, Wordsworth Classics, Collins Classics, todas muito conhecidas. Coisa de 1 ou 2 libras. Comprei também bastante daqueles livros grandões e pesadíssimos, em papel couchê, com muitas fotografias, belíssimos, que usamos mais para decorar do que para ler (tudo tem sua utilidade). E tinha também muitos livros de iniciação/divulgação científica (para as mais diversas ciências), também com várias fotografias (o que é um critério importante para mim), que sempre adorei. Tudo deveras em conta. Era uma maravilha para gente como eu (“econômica”, embora as más línguas exagerem nessa qualidade). The Book Warehouse me causava alguns problemas, entretanto. Malas carregadíssimas para levar meus mimos ao Brasil. Ou mesmo ter de me socorrer do serviço postal do Reino Unido, o Royal Mail, que era/é muito eficiente, mas pesadamente caro.
As “discount booksellers” não são muito comuns no Brasil. Pelo menos essa é a minha impressão. Recordo-me de uma livraria, até grande, que frequentei no shopping RioMar em Recife antes da pandemia, e de pequenos comércios e feiras que vez por outra estão nos nossos Midway ou Natal Shopping. Mas são quase itinerantes. Ou abrem e fecham muito rápido.
Dito isso, eu rogo aqui por muitas “discount booksellers” no Brasil. Lojas físicas mesmo, onde poderíamos xeretar e comprar alegremente. Elas semeariam livros, como queria o nosso Castro Alves. E evitariam malas inconvenientes e outros dissabores em viagens.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
1