sábado, 11 de dezembro de 2021

 


 

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-50

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

MÁRTIRES E SANTOS

         Este sábado dia 11 de dezembro de 2021, em pleno Tempo do Advento, estão sendo realizadas comemorações em louvar da Padroeira e do copadroeiro da Igreja de Pium, dois mártires da Igreja Católica, em momentos diferentes, respectivamente SANTA LUZIA e SANTO JOÃO LOSTAU NAVARRO.

Sobre Santa Luzia, registra-se seu martírio por defender a virgindade eterna em nome da sua total devoção à fé e distribuir seus bens com os pobres, pelo que foi condenada à tortura, com a sua colocação em prostíbulo, depois queimada em fogueira, posteriormente a retirada dos seus olhos, tudo porque logrou a proteção Divina e não sucumbiu, dando continuidade à sua missão sagrada, até ter a cabeça decepada.      

João Lostau Navarro, por sua vez, abrigou e protegeu os cristãos perseguidos pelos calvinistas liderados por Jacob Rabi nos idos de 1645, - tempo da invasão holandesa, o que lhe custou a prisão no Forte dos Reis Magos e depois a vida de maneira trágica no massacre de Uruaçu.

         Em missa realizada nas ruínas da Casa de Pedra assisti coroado o meu esforço de cinco anos batalhando pelo reconhecimento do valor histórico das ruínas daquele lugar de Pium, quando publiquei vários artigos nas Revistas do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da Academia Norte-riograndense de Letras, no jornal A Tribunal do Norte, em blogs e sites potiguares, rádio Mar e Campo, enaltecendo o valor do imóvel e do seu proprietário. Já perdia a esperança em dar notoriedade a um tema de tanta importância para a religião da localidade e para o turismo religioso das praias do Sul – Pium, Cotovelo e Pirangi, divididas entre os municípios de Nísia Floresta e Parnamirim.

         Foi quando a Arquidiocese de Natal realizou um grande evento diretamente das ruínas da Casa de Pedra e deu a notoriedade ansiada para aquele equipamento urbano, de grande valor histórico e religioso, tanto que Dom Jaime, no decorrer da missa, confessou humildemente que era a primeira vez que tomava conhecimento do valor daquele lugar, tornando-se o primeiro dirigente da Igreja a dar testemunho desse valor incomensurável.

         Não vou aqui detalhar o valor histórico da Casa de Pedra nem dos gestos de coragem cristã do Santo João Lostau - isso já o fiz, mas agradecer aos Santos Mártires da Igreja Católica, Santa Luzia e Santo João Lostau Navarro, pela possível intercessão deles para que essa visibilidade ocorresse.

         Vale, por fim, invocar a pregação de São Paulo na Carta aos Coríntios:

Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados.

Somos abatidos, mas não somos destruídos.

Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus,

para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.

        

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

 

LE STYLE C’EST L’HOMME MÊME


Valério Mesquita


Dos ex-governadores do Rio Grande do Norte, nenhum teve tanto apreço por vereador como o saudoso Lavoisier Maia. Era o seu estilo. O velho Boileau já dizia que “le style c’est l’homme même”. 

O Dr. Aluízio Magalhães, saudoso secretário de Cultura do MEC e presidente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que Collor destruiu depois, havia visitado a nova passarela do Forte dos Reis Magos. Culto, falava quatro idiomas, escritor e intelectual dos mais lúcidos do país, comprometera-se com a restauração da Cadeia Pública de Mossoró, hoje Centro Cultural. Pediu-me para procurá-lo na primeira viagem que fizesse a Brasília, pois, com o projeto já aprovado, liberaria os recursos. Com vinte dias, fui a Brasília. Na sede do IPHAN, pela amizade que fizera com ele, fui logo conduzido ao seu gabinete. Encontrei-o falando fluentemente o francês com três senhores que o visitavam. Para não ficar ouvindo o que não entendia, aproveitei a presença da secretária a fim de me ligar com o governador do Rio Grande do Norte. Queria, na verdade, buscar reforço político instantâneo para a reivindicação que ia fazer, colocando-o em contato com o secretário de Cultura do MEC. Miriam, secretária de Lavô, transferiu a ligação: “Governador, aqui é Valério, estou em Brasília, no IPHAN-Pró-Memória...”. “Tá onde?”. Cortou o governador. “Brasília?”. Admirou-se Lavô e arrematou: “Mas, você viajou e não resolveu o problema do vereador Manoel Ferreira, do PDS!”. “Mas governador eu estou...”. “Manoel não pode sair do PDS”, interrompe Lavô em tom político-pedagógico. “Governador, quando eu voltar...”. “E volte logo!!”. “Mas desejo que o senhor fale com o Dr. Aluízio Magalhães, é sobre Mossoró, Mossoró!!”, enfatizei para despertá-lo.  

Aí ele abrandou. Esqueceu o vereador e lembrou-se da restauração do monumento. Depois, pensei comigo que o vereador Manoel Ferreira quase fazia o que Lampião não conseguiu: bagunçar a Cadeia Pública de Mossoró.

(*) Do livro "Pisa na Fulô - Anedotário Político e Social de Macaiba e Adjacências".



segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

 

Minhas Cartas de Cotovelo – verão de 2021-49

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

    Já está chegando o verão! E a PROMOVEC fez a sua abertura oficial em um churrasco em sua sede, organizado com muito carinho pelo presidente Octávio Lamartine.

    Os que compareceram superaram a estimativa, mas sentimos a falta de muitos associados tradicionais.

    De qualquer forma, foram horas agradabilíssimas, com boa música, ótima comida e excelente camaradagem.

    Como não poderia faltar, Eugênio Rangel fez suas entrevistas que estão sendo divulgadas para Cotovelo e para o mundo em seu site.

    Lá estive com a minha irmã Lêda (90 anos), meus filhos Carlos Rosso e Rosa Ligia, acompanhados do meu genro Ernesto Flor e do meu neto Carlos.

    Foi uma manhã/tarde de muita alegria e confraternização, dando mostras que teremos um veraneio promissor em nossa PROMOVEC.

    Parabéns meu amigo Octávio. Parodiando Eugênio, Você é um Show! 







 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

 

 


A história é um ofício, fala proferida em razão do recebimento do título de sócio benemérito do Instituto Histórico do Rio Grande do Norte

Foi em busca dos livros que entrei pela primeira vez nesta Casa. Horas e horas debruçado nas mesas de pesquisa, consultando livros, as edições da revista e os jornais antigos; e do leitor e consulente, fez-se então e, portanto, aquele que doaria seus próprios livros à biblioteca e transportaria os livros do acervo como quem carrega tesouros.

 

E foi deste ato que me tornei diretor de biblioteca, arquivo e museu. Era o começo e parte de uma trama na que também se inclui o fazer revistas como quem constrói uma continuidade que também me levou à criação de um pequeno grupo de estudos que então se tornou um espaço para reflexão para além do fazer do dia-a-dia que é o trabalho infinito de organização de um acervo.

 

No caminho, construímos, e foi o primeiro, e na companhia de Maria Simões, um pequeno catálogo das peças do museu e mapeamos os institutos do Brasil, tarefa do grupo de estudos que resultou numa publicação impressa. Também fui buscar aqueles que ergueram tudo isso e saiu o ensaio Os Fundadores que escrevi.

 

 Cada coisa era uma peça em um emaranhado de ações enquanto também na biblioteca, no arquivo e no museu executávamos o silencioso e continuo trabalho de organizar acervos e os relatórios começaram a costurar o trabalho em cada passo do que se fazia.  O livro de visitação passou a refletir o momento e os jornais começaram a estampar os resultados. “Instituto revigorado” é um dos títulos.

 

Organizamos exposições, empregamos nossos esforços nos pequenos e em todos os detalhes, tudo que era preciso e necessário. E veio a cultura popular, danças e apresentações folclóricas ocupar o largo por um dia, processo que organizei, idealizei, propus e nomeei Ocupação.  Andei museus e centro de pesquisas como inspiração e referência a apreender o que faziam para o trabalho que fazíamos; conversei com arquivistas, bibliotecários, técnicos em conservação e preservação, pois lidar com acervos é um trabalho que nunca termina.

 

Representei a instituição no encontro de institutos no Recife, comemoração do bicentenário da Revolução de 1817, articulando a proposta de uma carta aberta de intenções, nunca enviada, processo que levamos adiante em contato com o Senado Federal para modificações nas leis de incentivo à cultura, destinando um percentual para investimento em bibliotecas, arquivos e museus. Elaboramos também uma política para a biblioteca e incentivamos pesquisadores a escrever sobre o Instituto.

 

Avançamos no processo de digitalização e desenhei as seções do site, redigi todos os textos necessários, selecionei as imagens e criei o repositório, imprescindível. E, na revista, por minha iniciativa editorial, voltamos a publicar documentos históricos, cumprindo mais uma missão do Instituto.

 

É certo que a história se firma pela presença e pelas ausências de vestígios, indícios ou rastros, e vai constantemente sendo escrita.  A história luta contra o esquecimento e é processo, fluxo continuo. Não existe história inteligível sem a ordenação dos fatos que a narrativa é capaz de orquestrar. É pelo pensamento e a memória que a realidade é revelada e pela escrita que é posta. Sem a escrita a história não existe.

 

Já não é possível escrever a história sem levar em conta as mudanças. Os estudos sobre as mulheres já são uma realidade, as conquistas das minorias, alijadas da história, as histórias não contadas, as figuras esquecidas e as apagadas. É preciso dialogar com outras formas de pensar e escrever para que se torne possível escrever uma nova história e também uma outra história, pois não há como deixar de pensar a história sem olhar para o nosso próprio tempo.

 

 O historiador Evaldo Cabral de Melo alertou que sempre haverá a necessidade de tratar o passado em função do que se passou e não em função de leis ou de teorias gerais ou de grandes conceitos teóricos. É preciso independência do pensamento e a conquista de novos paradigmas sem escola ou partido. É preciso agirmos como sempre agimos aqui, juntos.

 

O Instituto é espaço livre para as ideias, para unir o pesquisar, o pensar e o escrever.  Mas é preciso ainda se perguntar: Qual o lugar e o papel do Instituto hoje? Como atualizar, manter e preservar o acervo? Que história o Instituto deve contar? Que pesquisas deve desenvolver? E como avançar e superar os eternos entraves e problemas?

 

A memória pessoal é por sua natureza falha. Restam os relatórios e as atas que deixei, acreditando também que são capazes de nos remeter aquele presente que fixaram.  E se hoje voltei a um pouco do que fiz e do fizemos todos nós que aqui estamos, juntos, voltei para poder hoje dizer alguma coisa que pudesse e reencontrei o que já é passado.

 

Acredito, e  não estaria certo se não acreditasse, que não há nada mais difícil de se alcançar, advento do futuro, que se lançar a algo novo e tentar alcançar uma nova ordem para as coisas, por isso, termino eu inspirado na máxima latina de Vicente Lemos, dos fundadores, que diz mais ou menos assim: façam o que melhor puderem, eu, eu tentei fazer o melhor que pude. E continuo, pois a história é aqui e sempre será um ofício.

 

Discurso proferido em 01 de dezembro de 2021, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte pela concessão do título de sócio benemérito em razão dos relevantes serviços prestados à instituição.

 

Para ler este e outros escritos, acesse: gustavosobral.com.br

 

 


LIBERALISMOS

Valério Mesquita*

Do ponto de vista econômico, cultural, jurídico, político, social, religioso, consuetudinário, todos, enfim, que neguem os valores da Bíblia irão destruir a própria humanidade, ao longo do tempo. É uma questão lógica e não pessoal. Ou profética. Afirmam que é a evolução, a modernidade. De retrógado e conservador serão acoimados quem apontar os perigos do “liberou geral”. Não falo somente sob o aspecto espiritual, pois não sou teólogo, padre ou pastor. “Trata-se de um determinismo histórico”, dirão outros interessados em coonestar o excesso comportamental do mundo profano de hoje. Até na filosofia vão pescar fundamentos para alimentarem a subversão e o negativismo dos valores humanos como ultrapassados.

Na Europa o ensino religioso para preservação dos princípios da moralidade, da família, da ordem pública, da fé cristã, estão sendo derrubados, e, discriminados quem os defender. As igrejas, tantos as católicas quantos as evangélicas estão sendo vendidas ou substituídas por templos muçulmanos (Inglaterra, principalmente), ou transformadas em boates. Nos Estados Unidos, pátria do protestantismo, elas já exibem nos frontispícios a expressão “dead church” ou templo morto, ou ainda melhor: fechadas. A identidade divina de Jesus Cristo começou a ser substituída pelo personalismo de “apóstolos”, “bispos”, “missionários”, portadores e medianeiros de graças e bênçãos sobrenaturais. O curandeirismo exagerado oculta o verdadeiro ensinamento do Novo Testamento. 

O liberalismo da legislação penal brasileira é outra aberração. A marginalidade fixada no patamar dos dezoito anos é incompatível com a realidade. Na Câmara Federal um deputado evangélico é linchado moralmente todos os dias somente porque é contrário ao casamento homossexual mas, no entanto, outros parlamentares condenados pelo STF por corrupção são tolerados. Apupa-se a liberdade de pensamento mas aplaude-se o ladrão do erário. País controvertido esse nosso. E por que os congressistas não votam imediatamente a redução da penalidade do menor logo para os quatorze anos! Para os dezesseis anos ainda é pouco. Com essa idade ele já vota pra presidente, governador, senador e o escambau. E o menor ainda quer exercer o privilégio de matar impunemente com a complacência dos políticos e muitos juristas de plantão.

O liberalismo no Brasil – pátria amada das permissividades – objetiva agora, através de um obscuro deputado federal, acabar com o poder de investigação contra os crimes de corrupção no país (PEC 37), por parte do Ministério Público. Retirar do MP esse atributo é um desserviço à nação e um desrespeito ao povo que deseja ver na cadeia aqueles que furtam diariamente o seu dinheiro. Por fim, a desconfiança em Deus, a fuga das igrejas, levam muita gente a aceitar toda espécie de desatino, sem reagir - omitindo-se. Por exemplo, a união homossexual é um problema das partes envolvidas. Sexo é prática privada. Agora, não precisa ser motivo de apologia midiática, prodigalismo, sensacionalismo, modelo a ser seguido ou integrar o currículo nas escolas de primeiro grau. Todo excesso é censurável. Não precisa ser “o galo das trevas” como diria Pedro Narva que restringia com um zelo cada vez maior a convivência com os humanos. Todo liberalismo é babilônico e perdulário com o dinheiro público.

(*) Escritor