sexta-feira, 24 de setembro de 2010



DIVAGAÇÕES DE PRIMAVERA

E a primavera chegou!
Viço, cheiro, amor,
Gozo, prazer embriagador,
Sonho, esperança, esplendor.

Tudo isso nos trazem os sentidos,
Nos mostram os tempos idos,
Numa saudade que o tempo preservou.
________________________
Carlos de Miranda Gomes (14/9/2010)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010



GRITO DE ALERTE - AINDA SOBRE O MUSEU NILO PEREIRA

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e membro do IHGRN e da UBE-RN)
Semana passada novamente estive de passagem pelos escombros do museu Nilo Pereira, como sempre acontece quando retorno de minha chácara, e algo me chamou a atenção. Pude ver ao longe algumas barracas armadas junto ao muro do casarão, que se destacavam por serem de lona azul. Otimista, imaginei que podia está sendo iniciada a tão sonhada recuperação do casarão. A vegetação em volta havia sido podada dando a impressão que seria instalado um canteiro de obras. Como tive notícia recente que havia sido alocada uma verba no valor de R$ 300 mil para as obras de recuperação do museu, não tive dúvidas: manobrei o carro e rumei pela estradinha de acesso e fui ver de perto o que me parecia ser o início das obras.
Quando me aproximei do local pude perceber o meu engano e logo a esperança se transformou em mais uma decepção. As barraquinhas que eu pensava tratar-se do início de um canteiro de obras eram a cobertura de um “refeitório” improvisado para os bóias-frias, contratados pela usina, que estavam trabalhando no plantio de cana-de-açúcar nas terras em volta do velho casarão. Desci do carro, me aproximei das barracas que coladas ao muro estavam vazias. Fiz questão de registrar tudo com fotografias. Poucos metros ao lado do “refeitório” outra barraca foi armada para ser utilizada como latrina. Chamou-me a atenção um forte cheiro de fumaça que vinha da parte de trás da casa e resolvi investigar. No alpendre, em cima do piso de ladrilhos centenário, foi improvisado um fogão com trempe de pedras que havia sido utilizado recentemente. Ainda havia restos de lenha queimada e muita sujeira em redor.
Quando cheguei ao museu tinha esperança de encontrar pelo menos o local limpo e vigiado. Esta simples providência já inibiria a ação dos vândalos que por ali passam e sempre encontra um jeito de maltratar ainda mais aquele patrimônio cultural.
A minha maior preocupação com o Guaporé é que os novos donos da Usina, empresários de Fortaleza, que além de não ter nenhum compromisso com aquele monumento histórico, talvez não conheçam a história nem a importância do Guaporé. E isso deixa espaço para num ato de desatino ou ignorância, algum capataz da usina, querendo mostrar serviço ou agradar ao patrão, possa com suas máquinas pesadas, destruí-lo num abrir e fechar de olhos, alegando que “aquela casa velha” estava atrapalhando o plantio da cana; a distribuição dos canos para irrigação da área ou mesmo a movimentação dos tratores. Não é difícil conseguir motivos para justificar atos insanos.
Na tarde de 13 de março de 1979, foi entregue oficialmente a população, totalmente recuperado, o solar do Guaporé. A cerimônia foi presidida pelo governado do Estado do Rio Grande o Norte, Dr. Tarcísio de Vasconcelos Maia, que estava encerrando o mandato. Também compareceram o vice-governador Geraldo José Melo, o Prefeito do Ceará Mirim, Edgar Varella, o professor e acadêmico Onofre Lopes, presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o advogado e historiador Enélio Lima Petrovich, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, o escritor e poeta Franco Jasiello, presidente da Fundação José Augusto, o escritor e poeta Homero Homem, os poetas e acadêmicos Diógenes da Cunha Lima e Sanderson Negreiros, ex-presidente da Fundação José Augusto, o Cônego Rui Miranda, vigário do Ceará Mirim, o deputado Ruy Pereira Júnior, o senador Aluísio Chaves, do Pará, os advogados Heitor Varella e Hélio Dantas, e tantas outras pessoas do povo que acorreram ao solar para prestigiar o grande acontecimento sociocultural.
No discurso de entrega, após sua restauração, o saudoso e visionário Nilo Pereira já prognosticava: “Se a casa não tiver uso, voltará à ruína”. Sábias palavras. Como podemos ver, não demorou muito para acontecer o que ele temia.
Em 1978 o ex-governador Geraldo José de Melo, então proprietário da Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim- Usina São Francisco - a quem as terras pertenciam, repassou por comodato, a Fundação José Augusto e a Prefeitura de Ceará-Mirim pelo período de 99 anos, tempo máximo permitido, a área que compreende o antigo casarão e a casa de banhos. Tanto a Fundação José Augusto como a Prefeitura de Ceará-Mirim foram totalmente negligentes em suas responsabilidades permitindo que a situação chegasse a esse ponto.
Essa destruição e abandono das belas construções dos antigos engenhos de cana-de-açúcar no vale do Ceará-Mirim constitui-se em prática bastante comum. Basta ver o que resta do que outrora foram as casas grande dos engenhos Ilha Bela, fundado em 1888; Diamante, que teve sua casa grande derrubada logo após ter sido vendido pelos seus proprietários; a casa grande e a capela do engenho Cruzeiro; a casa grande do Barão de Ceará-Mirim; a do engenho Carnaubal, fundado em 1840; do engenho Capela, fundado em 1868; do engenho Oiteiro, fundado em 1889 e tantos outros engenhos que desapareceram totalmente da paisagem do vale.
Quem anda pela região do baixo vale, a todo instante descobre dentro da vegetação crescida, restos de chaminés dos antigos engenhos que vencidos pelo tempo não resistiram ao abandono dos herdeiros de seus fundadores. Melancólica visão. Outrora aquelas chaminés propiciavam rara beleza quando suas fumaças turvavam o azul do céu nas tardes preguiçosas nos períodos de moagem. O ar se enchia do cheiro doce que vinha tanto das casas de purgar onde o açúcar mascavo descansava nas formas de madeira, purgando “mel de furo”, como da bagaceira que secava nos pátios dos engenhos para alimentar as caldeiras. Eram esses engenhos responsáveis pelo enriquecimento da região que além de empregar centenas de famílias, davam charme e beleza a quem visitava o vale de Ceará-Mirim.
Esse “grito de alerta” sobre o museu Nilo Pereira tem como objetivo continuar denunciando o descaso das autoridades e também chamar a atenção para que algo urgente seja feito no sentido de, pelo menos, não permitir que se deprede ainda mais aquele patrimônio, para que haja tempo de aplicar os recursos conseguidos.
Estou fazendo a minha parte. Denunciarei todas as vezes que for necessário. Semanalmente estarei visitando o local e rogo a Deus e aos “homens de boa vontade e também de responsabilidade” que em breve possa transformar essas visitas que atualmente só trazem tristeza e decepção em visitas de esperança e júbilo.
Espero sinceramente que em muito breve, ao passar em frente ao casarão do Guaporé, possa visualizar ao invés de latadas e latrinas, pedreiros e restauradores trabalhando na recuperação daquele belo monumento, orgulho de todos Norte-Riograndense, principalmente os nascidos em Ceará-Mirim ou os que com eu, tomaram por sua, a bela terra dos verdes canaviais.
Natal 17 de setembro de 2010.
Vídeo de vândalos depredando o museu - youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=lE5lMb7DvNc

quarta-feira, 22 de setembro de 2010



ATOS FINAIS
Ciro José Tavares
In Além da Rosa- dos –Ventos, 1990


Navega-me Phlebas,
amargurada gênese fenícia de Eliot.
Submersos assistimos livros resgatados
às empoeiradas prateleiras da terra desolada
Um dia, quem sabe?
Teu galeão conduzirá
derradeiros utensílios e ossos.
Reserva-me parte da carcaça
para sepultar nas sombras velhos sonhos.
E cabides.
Cabides, sobretudo!
para exposição das roupas abandonadas e poídas.
Lava meu corpo com o sal das preamares oceânicas,
retirando o mofo transpirado através das brechas seculares.
Acorrenta-me aos milimétricos desenhos,
gravados nos mosaicos.
Quero-me, limitado, escalar pálidas paredes
e tocar roofs beijados de chuvas.
Viajo-te, Phlebas,
para que possas escorar tuas ruínas,
viajando minhas dores infinitas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010




III ENCONTRO POTIGUAR DE ESCRITORES – III EPE
De 26 a 28 de outubro de 2010

Coordenador Geral:
Eduardo Antonio Gosson
Coordenadores Adjuntos:
Aluízio Mathias
Carlos Roberto de Miranda Gomes
Francisco Alves da Costa Sobrinho
Maria Rizolete Fernandes
Comissão de Divulgação
Cid Augusto
Carla Sousa (Assessoria de Imprensa)
Nelson Patriota (Diretor de Divulgação)
Francisco Alves da Costa Sobrinho
Paulo Macedo
Paulo Jorge Dumaresq
Lívio Alves Oliveira
Jania Maria de Souza
Lucia Helena Pereira
Maria Vilmaci Viana
J. Pinto Júnior
Local: Auditório da livraria Siciliano (G5), no shopping Midway Mall

Data: 26 a 28 de outubro de 2010
Hora: 10h às 18h.

III ENCONTRO POTIGUAR DE ESCRITORES- III EPE
PROGRAMAÇÃO

26.10.10, terça-feira:
10h – Abertura Solene
(Eduardo Gosson – Presidente da UBE/RN)
11h30 – Jornalismo Político ontem e hoje
(Agnelo Alves, Woden Madruga e Ticiano Duarte)
Moderador: Tácito Costa
15h – Nossa Editora: uma proposta editorial
(Pedro Simões)
16h - Três leituras sobre o Dilúvio: Gênesis, Miguel Torga e Machado de Assis
Araceli Sobreira Benevides
17h – Cultura Mossoroense em Questão
(Crispiniano Neto , Caio César e Clauder Arcanjo)
Moderador: Cid Augusto
18h30 – Lançamentos de livros e sarau com a Academia de Trovas RN (Coordenação José Lucas de Barros)

27.10.10, quarta-feira:
10h – Centenário de Américo de Oliveira Costa
( Anna Maria Cascudo, Nelson Patriota e João Eduardo de Carvalho Costa)
Moderador: Jurandyr Navarro
11h30 – Contribuição dos dramaturgos nordestinos para o Teatro Brasileiro
( Henrique Fontes, Clotilde Tavares e Racine Santos)
Moderador: Sonia Othon
15h – Jornalismo Cultural: ontem e hoje
(Cinthia Lopes, Franklin Jorge e Sérgio Vilar
Moderador: J. Pinto Júnior
16h30 – Projeção do conto de José Saramago – A Maior Flor do Mundo
16h35 - Literatura Infantil Potiguar
(Bartolomeu Melo, Jânia Souza e Nivaldete Ferreira)
Moderador: Aluízio Mathias
18h - Lançamentos literários e sarau com a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins (Coordenação Geralda Efigênia)

28.10.10, quinta-feira:
10h – A Importância dos Estudos Genealógicos
(Ormuz Simonetti, Clotilde Santa Cruz Tavares, Antônio Luís de Medeiros e Joaquim José de Medeiros Neto )
Moderador: Carlos Gomes
11h30 – Debate da Rede Nordeste da Literatura, do Livro e da Leitura.
( Mileide Flores, Rosemary Guillén e Rildeci Medeiros)
Moderador: Francisco Alves da Costa Sobrinho
15h - Compra do livro regionalizado no Nordeste
Informes sobre a Feira do Livro de Frankfurt 2013
(Tarciana Portela, Mileide Flores e Crispiniano Neto)
Moderador: Roberto Azoubel
16h30 – Madelena Antunes no Contexto da Literatura Potiguar
(Lucia Helena Pereira)
17h30 – A Nova Poesia do Seridó
(Iara Maria Carvalho, Wescley J. Gama e Ana Lúcia Henrique)
Moderador: Geralda Efigênia
18h30 – Lançamentos de livros e sarau com o grupo Casarão de Poesia
Coordenação: Aluízio Mathias

domingo, 19 de setembro de 2010

“ENTRE O MAR E A ROCHA” – O PACIENTE
Diz o ditado popular que “entre o mar e a rocha quem sofre é o marisco”. O mesmo pode se dizer da saúde pública no Brasil e, em particular, no Rio Grande do Norte. Vejamos a situação atual da “nova” greve dos servidores da saúde. De um lado a Prefeitura dizendo que a greve é ilegal, que o sindicato não respeita os 30% (trinta por cento) mínimos de médicos trabalhando, ajuizando, por meio da Procuradoria Geral do Município, ação civil pública para que a greve seja declarada ilegal.
Alega ainda a edilidade municipal que a atitude dos profissionais da saúde está paralisando a maternidade das Quintas e a Leide de Morais, na zona norte, onde não está havendo atendimento obstétrico, o mesmo ocorrendo nas unidades básicas e ambulatórios do distrito Oeste.
Já o SINMED afirma que o movimento é fruto da confessa deficiência da rede de saúde pública, com salários pouco atrativos e péssimas condições de trabalho e que o PCCV (Plano de Cargo, Carreira de salários) não atende aos reclamos da categoria, além da intenção crescente de terceirização da rede, como ocorre com a UPA.
Enquanto a prefeitura e os médicos se degladiam, mais uma vez os pacientes sofrem com a diminuição da qualidade de um serviço já notadamente deficiente, não podendo ter o pré-natal realizado de forma correta, colocando em risco os seus bebês, tampouco são realizados exames dos mais simples.
Estamos em ano de eleições e se pergunta: qual a proposta concreta dos candidatos para a saúde? Será que teremos sempre que ver o atendimento paternalista e pontual de exames e tratamentos médicos nas vésperas das eleições? Será que o povo não enxerga tanto canalhice?
No final da década de 80 foi anunciada mudança substancial no campo da saúde pública no Brasil. Era criado o Sistema Único de Saúde - SUS, fruto das lutas históricas do movimento sanitarista e dos segmentos menos favorecidos da sociedade, os quais, organizados em associações comunitárias, reivindicavam a construção de um modelo de saúde que superasse as práticas assistencialistas que, até então, não respondiam às expectativas e necessidades das pessoas.
O SUS trouxe consigo princípios básicos, como universalidade, integralidade e equidade. A saúde, como direito de todos, passou a ser defendida, inclusive no campo político, numa perspectiva ampla.
Todos os problemas aqui enumerados já são conhecidos por nós. Porém, agimos com letargia, nos conformamos com as migalhas que o sistema nos oferece. Será que sabemos de verdade como está sendo tratada a questão da proteção da vida de nossa população mais humilde, frente ao profundo fosso existente entre o discurso no campo político e a experiência cotidiana daqueles que dependem dos serviços públicos de saúde. É hora de cada um de nós buscarmos essa resposta a partir da reflexão sobre essa realidade que causa indignação e revolta. O Poder Judiciário, o Ministério Público, a OAB, de mãos dadas cumprindo o seu dever constitucional, para que o povo não continue sendo o pobre marisco “ENTRE O MAR E A ROCHA”.


ROCCO JOSÉ ROSSO GOMES
Advogado
Conselheiro Seccional da OAB/RN
Presidente da Comissão de Defesa da Saúde da OAB/RN
Professor do Curso de Direito da FARN
Pós-graduado em Direito Processual Civil

sábado, 18 de setembro de 2010

A VIDA SEMPRE ME SORRI. HOJE TRAGO NOVAMENTE A POESIA DA POETA BRASILEIRA - CORA CORALINA.

"A CASA VELHA DA PONTE - ÉS PARA O MEU CÂNTICO
ANCESTRAL, NA BENÇÃO MADRINHA DO PASSADO".
CORA CORALINA


ANA LINS DOS GUIMARÃES PEIXOTO BRETAS
(CORA CORALINA).
GOIÁS -20- 09-1889 - GOIÂNIA+ 10 -04 - 1985
POEMA DE CORA CORALINA PARA LÚCIA HELENA
RESTAURADO PELA POETISA GOIANA - MASÉ SOARES.

QUANDO DA VISITA QUE LHE FIZ, EM SETEMBRO DE 1973,
MOSTROU-ME RADIANTE, O SINGELO QUINTAL, DA CASA
JUNTO DA PONTE, COM MUITOS PÉS DE FRUTAS E FLORES.


"NO VELHO QUINTAL TENHO MINHJAS FRUTEIRAS.
COLHO-AS E FA~ÇO MEUS DOCES, BASTANTE APRECIADOS.
ESTE É O MEU PÉ DE LAJANJA DA TERRA" (set./1973)

***************************************************************

ANA LINS DOS GUIMARÃES PEIXOTO BRETAS
(CORA CORALINA).
GOIÁS -20- 09-1889 - GOIÂNIA+ 10 -04 - 1985

AGRADEÇO À POETISA GOIANA - MASÉ SOARES -
A MONTAGEM DESSAS FOTOS E A RESTAURAÇÃO
DO POEMA DE CORA CORALINA PARA MIM.

DE CORA CORALINA (SET.1973) PARA LÚCIA HELENA

À MENINA NORDESTINA DO VALE VERDE
CORA CORALINA

Poetisa Goiana
GOIÂNIA, 16 DE SETEMBRO DE 1973.

Assim surgiu, graciosa e simpática,
bem na porta de minha casa,
a menina nordestina,
com cheiro de cana-de-açúcar,
sorriso espelhando beleza.

Ela chegou,
pelas mãos da professora Maria de Lourdes Sena Xavier,
trajando roupinha leve e harmônica,
a mostrar sua preciosa juventude,
nas rosadas e cálidas faces,
qando emocionada abraçou-me e chorou.

Seu nome? Lucia, que já simboliza luz,
junto de Helena - que se não é de Tróia,
vem de de Atenas, com certeza.

Lúcia Helena, que jamais pisara em solo goiano,
confessou a impressão de já ter estado aqui,
tão familiar lhe pareceu a cidade,
que ela disse com muita ternura:
" Aqui sinto cheiro de flores e poesia"...
logo pedindo-me para declamar um poema.

Era a mnina de um verde vale,
do interior do Nordeste,
num lugarzinho chamado, Ceará-Mirim,
terra de ilustres literatos, historiadores
e artífices da poesia,
que ela citou desenvolta,
com satisfação e nobre orgulho.

Senti grande ternura pela mimosa jovem,
que até me viu cozinhar pétalas da laranja da terra,
tiradas do pé do meu quintal,
transformadas em saboroso doce cristalizado,
que ela provou e confessou, com muita sinceridade,
jamais ter degustado nada igual.

Menininha da terra de Câmara Cascudo,
não negou sua inteligência,
e, atenta a tudo que viu em minha humilde casa,
exclamou com infinita doçura:
"esta casa deveria ser o palácio
da doçura e da poesia, porque Cora Coralina existe".

Fiquei deveras emocionada,
com o desabafo da menina nordestina,
que me trouxe alegrias e um presente expressivo,
numa caixa de madrepérola, onde um terço belíssimo estava,
para então me acompanhar,
pelo resto dos meus dias.

Para você, Lúcia Helena, menina da terra do açúcar,
dedico esses humildes versos,
estrofes da simpatia que sinto,
pela formusura do teu porte,
e pela beleza do teu sentimento poético
tão cheio de encantamento.

Receba, Lucinha, esses versinhos da Cora,
que Coralina desenhou, neste papel sem graça,
e Ana Lins enfeitou, com rabiscos de pequeninas flores,
com a ajuda de Guimarães Peixoto Brêtas,
Pois assim, minha menina, um dia me batizaram
de Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas.

Agradeço tua visita e te oferto este doce de laranja,
com muito afeto e açúcar,
para que leves à tua terra, o doce de Coralina,
já que a poesia é fraca,
não tem mesmo o grande valor,
dos mestres da Poesia Brasileira.

**********************************************************
OUTROS POEMAS DE CORA CORALINA

********************************************


POEMINHA AMOROSO
Cora Coralina

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

***************************************************
MEU DESTINO

Cora Coralina

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.

Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.

Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.

Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...

Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.

Esse dia foi marcado
com a pedra branca da cabeça de um peixe.

E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

***************************************************
ASIM EU VEJO A VIDA
Cora Coiralina

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

************************************************

MULHER DA VIDA
Cora Coralina


Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.’

(Poemas de Goiás e Estórias Mais, p.201, 1996)

FONTE: blog de LÚCIA HELENA

PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO DO INRG
Na data de ontem, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras foi comemorado o 1° aniversário do INSTITUTO NORTE-RIOGRANDENSE DE GENEALOGIA, com uma festa bem organizada pelo seu Presidente Ormuz Barbalho Simonetti e que deixou em todos uma excelente impressão.
Tivemos pronunciamentos do próprio Ormuz e mais de João Felipe da Trindade, representando todos os sócios fundadores, efetivos e correspondente que receberam os seus diplomas na ocasião e do genealogista Joaquim José de Medeiros Neto que, de improviso, brindou a platéia com uma homenagem a Tomaz de Araújo Pereira, o Patriarca do Seridó, impressionando a todos pela sua prodigiosa memória. O Presidente Ormuz apresentou aos presentes o brasão do INRG, dando a explicação de sua simbologia, enaltecendo ter sido um trabalho esmerado da autoria do artísta plástico Levi Bulhões que se encontrava no auditório.
Presenças ilustres compareceram à sessão e o cerimonial foi conduzido pelo escritor Carlos Gomes, titular deste blog.
Após a solenidade foi servido um coquetel e efetivado um grande congraçamento entre os sócios.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O FOGO ESCARLATE DO RELIGIOSO
13 de setembro de 2010 Por Marcelo Alves Dias de Souza*


Li nos impressos e na WEB que um pastor americano, para lembrar o 11 de setembro, andava prometendo queimar exemplares do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Mistura de fanatismo religioso e vontade de aparecer, a promessa despertou a atenção daqueles dotados de um mínimo de bom senso. Desde a bela Angelina Jolie ao sisudo Bento XVI (a Santa Sé considerou o plano “indigno e grave”), inúmeros foram os protestos contra a piromania do pastor, de não mais de cinquenta ovelhas, de obscura congregação no estado americano da Flórida.

Se publicidade era o que pretendia o “Nero cristão”, isso ele, infelizmente, já obteve (sim, após “aparecer”, ele, por hora, desistiu do intento). E se minha vontade agora é deixar de lado esse tipo de desatino, o fato é que o “fogo” do pastor pode haver ensejado um novo recrudescimento da intolerância religiosa, que merece ser cuidado e amornado (os EUA, assim como a Interpol, chegaram até a emitir alerta sobre o risco de atentados terroristas em contrapartida ao protesto).

Não bastasse a clara provocação ao Islã que o ato ensejaria, a verdade é que livros, sagrados ou não, são para serem lidos, consultados, tocados e até cheirados (há quem goste do cheiro dos livros, especialmente os novos, sabiam?). Ou, mais poeticamente, como orava Castro Alves (1847-1871), semeados. “Oh! Bendito quem semeia livros, livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro caindo n’alma, é germe que faz palma, é chuva que faz o mar!”, pregava o nosso poeta.

E se é para semear livros e pregar contra a intolerância (religiosa, racial, sexual, etc.), sobretudo a que vem de uns EUA interiorano e puritano, que tal lembrar “The Scarlet Letter” (1850), de Nathaniel Hawthorne (1804-1864)?

Certamente um dos grandes romances da literatura norte-americana de todos os tempos e extremamente interessante para os amantes do Direito, “The Scarlet Letter” é, como bem explica nota da edição de Bolso da obra da Wordsworth Classics (1999), uma dolorida narrativa de crime, pecado, culpa, punição e redenção, ambientada em uma Nova Inglaterra do século XVII, puritana e casta.

Uma jovem mãe de um filho ilegítimo confronta seus intolerantes juízes/clérigos. Condenada a viver com a letra “A” estampada em seu peito, sinal do seu adultério, as histórias de Hester Prynne, do seu marido “traído” e do seu amante são retratos de vidas destruídas pelas culpas e pela dor que foram, em razão da rígida moral da época, “obrigados” a carregar. Culpa e dor que culminam na revelação da verdade e no trágico clímax da obra.

Pondo de lado inúmeros aspectos do livro, como o seu inovativo caráter de romance psicológico e a curiosidade de ser Hawthorne descendente de um dos juízes das bruxas de Salém, o que me deixa hoje mais encafifado, recordando a intenção piromaníaca do pastor, é como, passados mais de três séculos da saga de Hester Prynne, os EUA se mantêm, sob muitos aspectos, tão puritano e intolerante como era àquela época. Tão grande e tão pequeno, eu diria. E, de resto, não só os EUA. Como poetava Drummond (1902-1987), o mundo mesmo é grande e pequeno.

E de recordação em recordação, a leitura de “The Scarlet Letter” e a piromania do pastor nos remete a outras imagens e erros do passado. Aonde a intolerância e o fanatismo não nos são capazes de levar? “Onde se queimam livros, no final também se queimam pessoas”, um dia gritou Heinrich Heine (1797-1856), como que adivinhando o que se daria em sua Alemanha, com o Nazismo, cerca de um século após a sua morte.

Mas será que o ser humano vem aprendendo com seus erros (ou com sua literatura)? Parece que não. Não obstante a luta contra a intolerância religiosa e o terrorismo, quase que cometemos um novo erro por esses dias. Nesse ponto, parafraseando Agripino Grieco (1888-1973), até mesmo nos erros, em tudo de muito novo há sempre algo de muito velho.
_________________

*Marcelo Alves Dias de SouzaProcurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London - KCL

Fonte: "O Santo Ofício", de Franklin Jorge

C O N V I T E


O Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia tem a satisfação de convidar Vossa Senhoria para a sessão solene comemorativa do seu primeiro ano de atividades, a ocorrer no próximo dia 17 de setembro, pelas 19 horas, no Salão Nobre da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
Na ocasião, será feita a entrega dos DIPLOMAS aos Sócios Fundadores e Efetivos e em seguida será servido um coquetel aos presentes.

Ormuz Barbalho Simonetti
Presidente

domingo, 12 de setembro de 2010




ATA DA ASSEMBLÉIA GERAL ESPECIAL DE FUNDAÇÃO DA ACADEMIA MACAIBENSE DE LETRAS – A.M.L., DISCUSSÃO SOBRE O SEU ESTATUTO, ESCOLHA DOS PATRONOS, ELEIÇÃO DA DIRETORIA E CONSELHO FISCAL PROVISÓRIOS, DESIGNAÇÃO DE PATRONESSE E OUTROS ASSUNTOS CORRELATOS

Aos 12(doze) dias do mês de setembro do ano de 2010 (dois mil e dez), no “Solar Caxangá”, no Município de Macaíba – Rio Grande do Norte, o qual servirá de sede provisória da referida Academia, atendendo a CONVOCAÇÃO do escritor Jansen Leiros Ferreira, Coordenador dos trabalhos para a criação da Academia Macaibense de Letras – A.M.L., publicada no quadro de avisos do Cartório Judiciário da Comarca de Macaíba no dia 31 de agosto do ano corrente, aproveitando a data histórica do aniversário da poetisa Auta Henriqueta de Souza, reuniram-se os Acadêmicos no final assinados e várias outras pessoas ligadas à cidade, aos Patronos e Acadêmicos, que assinaram livro próprio do Solar Caxangá, com a finalidade da formalização do aludido evento. Pelas 10:00 (dez) horas foi feita a convocação das inúmeras presentes para comparecer à sala de reuniões do Solar, compondo a mesa com as pessoas de Olímpio Maciel, Elizabeth Nasser, Odiléia Mércia, Anderson Tavares, Maria de Lourdes Leite, Sheyla Ramalho, Rivaldo de Oliveira e Carlos de Miranda Gomes. Feita a composição, o Presidente dos trabalhos passou a palavra ao anfitrião Olímpio Maciel, que teceu considerações ao fato histórico que estava ali sendo realizado, no dia do aniversário de 134 anos de nascimento de Auta de Souza, convidando os presentes para, de pé, ouvirem o hino em homenagem a Augusto Severo. Em seguida passou a palavra ao Coordenador Jansen Leiros, que complementou a finalidade da reunião. Naquele ensejo pediu licença para fazer o registro lamentável de ter ocorrido, em determinada época, a demolição da casa em que viveu Auta de Souza e, como resgate de sua vida, propôs que a Academia a escolhesse como sua Patronesse. Em seguida fez o relato de todas as providências até então tomadas para a concretização da Academia, dando conta aos presentes, das reuniões preparatórias realizadas - a primeira no dia 14 de julho próximo passado no Restaurante Cervantes, na cidade de Natal-RN, oportunidade em que foram discutidas propostas para o nome da entidade, inicialmente Academia Macaibense de Letras e Artes – A.M.A.L.A. e posteriormente retificada para apenas Academia Macaibense de Letras – A.M.L., e apreciação do esboço do estatuto da Academia, indicação provisória de nomes para os patronos e acadêmicos, provisoriamente em número de 20 (vinte); a segunda reunião preparatória foi realizada no auditório do Instituto de Radiologia de Natal, no dia 28 de agosto passado, na qual foram redefinidos os nomes dos patronos, sendo ampliada a lista para 23(vinte e três) cadeiras; em seguida foram sugeridos nomes de igual número de acadêmicos, ou sejam 23(vinte e três), sem prejuízo da pesquisa de outros nomes para a hipótese de não aceitação das pessoas convidadas; indicação de nomes para membros honorários; modelo do capelo, na cor azul, com detalhes dourados, no mesmo padrão das academias já existentes; elaboração de um brasão com detalhes de um livro com o nome “Horto”, dele saindo uma macaibeira e no fundo o desenho do balão “Pax”, ladeado pelos louros da sabedoria e as fitas azul com amarelo em baixo, sob o nome “Academia Macaibense de Letras”; na ocasião foi apresentada uma versão substitutiva do Estatuto, de autoria do escritor Carlos Roberto de Miranda Gomes a ser ratificada na Assembléia Geral Especial aprazada para o dia 12 de setembro, data do aniversário de Auta de Souza no Solar Caxangá, em Macaíba. Foi aprovada a publicação de um aviso de chamamento público para a referida Assembléia, o que ocorreu no dia 31 de agosto próximo findo no quadro de avisos do Cartório da Comarca de Macaíba (Registro de Pessoas Jurídicas); finalmente foi realizada uma terceira reunião no escritório do escritor Carlos Roberto de Miranda Gomes para acertos finais da Assembléia Geral Especial para a criação oficial da Academia, eleição da Diretoria e Conselho Fiscal Provisórios e apreciação do seu Estatuto. Foi também proposta a indicação de Auta Henriqueta de Souza como Patronesse da Academia. Foram ainda feitos novos ajustes, acrescentando-se mais um patrono, o 24° e o respectivo Acadêmico. Após esses esclarecimentos foram colocadas em votação as seguintes matérias: Primeira: criação da Academia Macaibense de Letras – AML = aprovada por aclamação; Segundo: indicação do nome de Auta Henriqueta de Souza como Patronesse da Academia = aprovada por aclamação; Terceira: escolha da Diretoria Provisória, tendo sido eleitos, por aclamação os seguintes Acadêmicos: Para Presidente: Jansen Leiros Ferreira; Vice-Presidente: Olímpio Maciel; Secretário: Francisco Anderson Tavares da Silva; Tesoureiro: Raimundo Ubirajara de Macedo. Para o Conselho Fiscal Provisório: (Titulares): Maria de Lourdes Leite, Odiléia Mércia Gomes da Costa e Sheyla Ramalho Batista; e, como suplente: Rui Santos da Silva; desde logo considerados empossados; Quarta: a respeito da minuta do Estatuto, ficou decidido que este deveria ser objeto de reunião específica a ser aprazada após um prazo de 10 (dez) dias para apresentação de emendas, sugestões e correções necessárias, fixada a data de 25 de setembro próximo no auditório do Instituto de Radiologia de Natal, pelas 9:00 (nove) horas, com Aviso a ser publicado para esse fim; Quinta: foram ratificados os nomes dos Patronos, aprovados nas reuniões preparatórias, em número de 24 (vinte e quatro), bem assim os nomes dos seus Primeiros ocupantes (Acadêmicos), a saber: Cadeira n.º 01 – Abel Freire Coelho (João Marcelino de Oliveira); Cadeira n.º 02 - Alberto Frederico de Albuquerque Maranhão (Carlos Roberto de Miranda Gomes); Cadeira n.º 03 – Augusto Severo de Albuquerque Maranhão (Valério Alfredo Mesquita); Cadeira nº 04 – Augusto Tavares de Lyra (Francisco Anderson Tavares da Silva); Cadeira nº 05 - Auta Henriqueta de Souza (Jansen Leiros Ferreira); Cadeira nº 06 – Clóvis Jordão de Andrade (João Batista Xavier de Sousa); Cadeira nº 07 – Dario Jordão de Andrade (Ivan Maciel de Andrade); Cadeira n° 08 - Edilson Cid Varela (Ivoncisio Meira de Medeiros); Cadeira nº 09 – Eloy Castriciano de Souza (Olímpio Maciel); Cadeira nº 10 – Estefânia Alzira Mangabeira (Sheyla Maria Ramalho Batista); Cadeira n° 11 - Henrique Castriciano de Souza (Racine Santos); Cadeira n° 12 - Hiran de Lima Pereira (Júscio Marcelino); Cadeira n° 13 - Enock de Amorim Garcia (Roosevelt Meira Garcia); Cadeira n° 14 – João Alves de Melo (Rivaldo de Oliveira); Cadeira 15 - João Batista de Vasconcelos Chaves (Rui Santos da Silva); Cadeira n° 16 – João Angyone da Costa (Nássaro Nasser); Cadeira n° 17 - José Leiros (Wellington de Campos Leiros); Cadeira nº 18 – José Melquíades de Macedo (Raimundo Ubirajara de Macedo); Cadeira nº 19 – Luís Tavares de Lyra (Armando Roberto Holanda Leite); Cadeira n° 20 - Maria de Lourdes Cid (Maria de Lourdes Leite); Cadeira nº 21– Meneval Dantas (Odiléia Mércia Gomes da Costa); Cadeira n° 22 - Murilo Aranha (Osair Vasconcelos de Medeiros); Cadeira nº 23 – Maria Alice Fernandes (Héverton Duarte); Cadeira n° 24 - Octacílio de Mello Alecrim (Cícero Martins de Macedo Filho); Sexta: foi aprazada, em princípio, a posse solene dos Acadêmicos para o dia 27 de outubro, no prédio do Clube Pax de Macaíba, coincidindo com as comemorações da criação do Município de Macaíba. Ainda no correr da reunião agradeceu o grande apoio que teve de várias pessoas, as quais nominou: do escritor Pedro Simões Neto, incentivador e orientador da criação da Academia, do Doutor Olímpio Maciel, presente desde o primeiro momento, juntamente com Valério Mesquita e ainda a Anderson Tavars, encarregado de pesquisas e do advogado Carlos de Miranda Gomes, que possibilitou corpo legal para a Academia. Após essas deliberações e considerações, o Presidente da Assembleia, e agora Presidente da Academia facultou a palavra a quem dela pretendesse fazer uso. Pela ordem o Acadêmico Carlos Roberto de Miranda Gomes complementou algumas informações e propôs que fosse convidado o Acadêmico Wellington Leiros para declamar os versos que fez para homenagear Auta de Souza, o que foi atendido com as seguintes palavras: “AUTA (décima em decassílabos) – ‘LONGE DA MÁGOA, ENFIM NO CÉU REPOUSA, QUEM SOFREU MUITO E QUEM AMOU DEMAIS!’ – MACAÍBA embalou a poetisa E embalou a três de seus irmãos. De Pernambuco, Eloy lhe deu as mãos, E com elas, muito amor...suave brisa. Os seus poemas serviram de baliza, Na cultura, no saber...e muito mais. Na meiguice, suplantar-lhe, alguém jamais, E até hoje, na poesia, ninguém ousa! ‘LONGE DA MÁGOA, ENFIM NO CÉU REPOUSA, QUEM SOFREU MUITO E QUEM AMOU DEMAIS!’ (Tributo a MACAÍBA, a AUTA DE SOUZA, e a seus quatro irmãos Eloy, Henrique, Irineu e João Câncio – por Wellington Leiros). Sob os aplausos dos presentes, o Presidente Jansen comunicou que tais versos seriam colocados em um quadro para ser afixado na futura sede da Academia. E como não houve mais nenhuma manifestação e nada mais a tratar, o agradeceu a presença de todos, designou os Acadêmicos Anderson Tavares e Carlos de Miranda Gomes para redigirem a Ata, dando por encerrados os trabalhos da Assembleia Geral Especial de fundação da Academia Macaibense de Letras – A.M.L., ratificação dos nomes dos Patronos; eleição da Diretoria e do Conselho Fiscal Provisórios e outras deliberações aqui já registradas. Do que, para constar, foi lavrada a presente ata, sem emendas, que após lida e aprovada por todos, vai assinada pelos integrantes da Diretoria Provisória, membros do Conselho Fiscal e pelos demais acadêmicos presentes, considerados fundadores, reiterando o dia da posse para o dia 27 de outubro do ano corrente e convocando a todos para a Assembleia Geral Extraordinária do próximo dia 25 (vinte e cinco).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ZÉ FÉLIX, O MEU IRMÃOZINHO MAIS VELHO


Óleo sobre tela de Alice Brandão


Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas
cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. (Manoel de Barros)


Escrever não é fácil. Quando a folha em branco alveja a imaginação, então a coisa fica preta. Derna tresontonte tento escrever sobre um amigo, rico em estórias de sofrimentos e de risos, e, mesmo com tudo guardadinho na memória, a emoção fechou com correntes e cadeados o pensadouro. Que fazer? Lutar contra a correnteza, afoito, fiado no acaso que por certo vai botar letras no papel e as acontecências acabam de fato acontecendo?
Então, vamos lá, nadando de costas com medo de piranhas, que nem um pressentido náufrago, pela própria vida.
Era uma noite negra, negra, sem luar, como os cabelos da amada de Castro Alves. Chovia lâminas d´água e as poças, nas ruas e nas calçadas, engoliam os bagaços, as carcaças e a vida minúscula da feira da véspera.
Um vulto vestido com roupas de mulher vagueava pelo breu como quisesse se proteger da chuva no manto negro da noite. Parou numa esquina, debaixo de um toldo. A luz embaçada de um lampião revelou cintura volumosa, talvez uma barriga de prenhez.
A mulher pôs-se de cócoras e durante alguns minutos grunhiu como os animais feridos e depois usando a sua voz de gente, variou dos praguejados aos pedidos de compaixão e, finalmente, aos gemidos.
Um gato passou ao largo, atravessando a rua e deu um fanhoso miado. Seria preto, o felino? Certamente, a julgar pela mancha quase que apenas sugerida da sua silhueta. Azar na certa!
Um vagido incerto, mas vigoroso, misturou-se ao ruído dos pingos d´água.
A mulher não mais chorava, não praguejava, nem pedia misericórdia. Jazia imóvel na calçada, dobrada sobre si.
A alguns metros dali, havia uma igreja, cujo perfil se impunha mesmo com a imagem embaciada pelo temporal.
Era madrugada. Pela queda da friagem, se o tempo estivesse desarmado, a barra do dia já estaria boatando as traquinagens e as tragédias da noite.
De repente, uns passos apressados chapinharam os veios d´água. Um vulto foi crescendo na direção da mulher caída. Os passos emudeceram. Um homem debruçou-se sobre o corpo imóvel e ouviu-se um grito de espanto, certamente do madrugador. Ele pôs no braço um pequeno volume, olhou ao seu redor e se pôs a correr, ignorando a lama e as poças d´água. Abriu a pesada porta da igreja e foi engolido por ela.

Naquela noite veio à luz, nas trevas, o menino que seria conhecido por Zé Félix, adotado e batizado pelo sacristão Félix José dos Santos, também chamado “Félix Folote”, que lhe deu o nome de Severino José dos Santos. A mãe, que morrera ao trazê-lo à vida era uma prostituta veterana, apelidada Maria-olho-de-gato, por conta dos olhos azuis. O pai, nem a defunta soubera, tantos eram os inquilinos da sua rotativa cama do cabaré “Riso da Noite”.
A cidade era Goiana, estado de Pernambuco, famosa pela produção de açúcar e de rapadura, e pela fartura de caranguejos e goiamuns. O ano? Entre 1920 e 1930. O dia em que foi expulso do feto materno foi o festejado 7 de setembro. Viveu a desdita de lembrar essa data como o dia de finado da mãe. E, mesmo quisesse celebrar, se filho insensível fosse tanto que não respeitasse a perda do ventre que o pariu, a grandeza do dia da pátria, apequenaria o seu aniversário.
Desgraça é assim, quando vem, chega completa: faz barba, cabelo, bigode e ainda bota água de cheiro, que queima a pele, mas, de consolação, deixa um perfuminho.
O sobrevivente foi um menino “mofino”, cercado pela neura dos pais, que o acolheram já velhos e o tratavam como se fora um neto fatalizado pela orfandade. Vivia perseguido pelo apelido do pai adotivo, já que o garoto era conhecido como Zé de Félix, e o “Félix” era um apelo mais do que forte, irresistível, para juntar o “Folote” do pai. Uma questão de azougue, absolutamente compreensível e justificável. Ficou então sendo chamado de “Félix Folote”, como o pai. E o “folote” na língua o povo, indica frouxura, coisa elástica ou algo muito largo. Nas cidades interioranas alinha-se automaticamente com a propriedade elástica ou o alargamento do fió-fó.
O sofrimento, que nem uma sombra persistente de um mau agouro, o acompanhou toda a sua infância pobre. Passou a meninice em brancas nuvens. Literalmente. O único momento em que desfrutava de paz era quando ficava no campanário da igreja descobrindo as formas sugeridas pelas nuvens: os carneirinhos, principalmente.
Os coleguinhas o rejeitavam pela triste figura, pelas roupas desajustadas e fora de moda e como que o agrediam com o apelido que sugeria um desvio sexual que nunca tivera, e que justiça se faça, nunca abusaram dele nesse sentido.
Quando não olhava as nuvens, brincava sozinho na casa reservada ao sacristão, geminada à igreja. Seus brinquedos eram improvisados: carrinhos de carretéis de madeira que sobravam das linhas de costura da mãe; bolas feitas de meias irrecuperáveis, com enchimento de retalhos e trapos (Aliás nunca foi de jogar bola. Os pés chatos, colados no chão, dificultavam o movimento e o cansavam). Bonecos de sabugos de milho: a cabeça feita de tampa de remédio, as pernas e os braços de velhas agulhas de tricô. Uns aros de ferro enferrujados das barricas de bacalhau que fazia girar ladeira abaixo...
Sua maior alegria era ouvir o velho rádio a galena do pai. Fascinava-o a música, qualquer uma, melhor ainda se fosse cantada: Vicente Celestino, Chico Alves, Augusto Calheiros, Orlando Silva, Sílvio Caldas, as irmãs Batista, Dalva de Oliveira, Nora Ney...
Assim era, e tanto não fez que a infância se acabou também em brancas nuvens.
Morta a mãe, o pai, esclerosado, foi recolhido a um abrigo. Já rapazinho feito, aceitou a proposta de um torneiro mecânico especialista em caldeiras e moendas de engenhos para auxiliá-lo no ofício em Ceará-Mirim, no estado do Rio Grande do Norte, onde o futuro patrão se estabeleceria para atender à demanda dos usineiros e senhores de engenho.
Quando o torneiro se estabeleceu, foi o rapaz, de fato, deslocado para auxiliar a mulher de Zebedeu – vamos chamá-lo assim – nos serviços domésticos. Aprendeu a lavar louças, varrer e encerar o piso, fazer a limpeza da cozinha e banheiros, e, principalmente, a cozinhar.
Durante algum tempo a sua vida encontrou alguns porquês e muitos senões. A casa de Zebedeu ficava na rua Grande, próxima à estação ferroviária. Distraía-se com as chegadas e partidas dos trens (denominados de “Motriz” e “Horário”) enquanto vendia pastéis e bolos aos passageiros, feitos por dona Zizinha (o nome também é falso, para preservar a identidade da senhora), mulher do patrão e sua atribuída patroa.
À noite ficava rodeando a sala que nem cachorro sestroso, se chegando devagarzinho para perto do rádio, onde a família inteira se acomodava. Geralmente a manobra dava certo. Salvo quando chegava um estranho “de cerimônia” para visitar o casal. Então era enxotado sem cerimônia – só faltava o “xô” pra ficar igual a bicho incômodo no meio da casa.
Vez por outra variava de audiência. Deixava o rádio e ia ouvir a amplificadora local, principalmente nas noites das tais “visitas de cerimônia”. Era uma festa. O locutor era seu amigo e lhe proporcionava um tratamento especial, do tipo “Acabou de chegar à Amplificadora Flor do Vale, o meu amigo Zé Félix, para abrilhantar o nosso programa”. E retocava a homenagem, quando não havia nenhuma dedicatória musical nem “reclame” comercial, tocando um disco de sua preferência. Alcides Gerardi dava na medida, mesmo com os chiados das 78 rotações de tanta rodagem.
O tempo foi passando, entre o trabalho e as distrações – o trem, o rádio e a amplificadora, a feira aos sábados (ou domingos, dependendo da vontade dos usineiros), o “sereno” nas festas da burguesia, e, valha-o Deus, a descoberta do cinema, que passou a ser sua maior distração.
Roía as unhas nos seriados de Nyoka, Tarzan, Flash Gordon e Zorro. Vibrava com a valentia de Roy Rogers, Gene Autry, Bill Elliott e John Wayne. Quase se mijava de tanto rir com as comédias de Carlitos. Chorou na “Dama das Camélias” e outras interpretações de Greta Garbo. Dançou com Fred Astaire e Ginger Rogers. E saía dos filmes de caubói caracterizado como um deles, com os braços bem afastados do corpo, prontos para o saque, e aquele olhar sombrio, de baixo pra cima, o cigarro displicente, no canto da boca...só faltava o chapéu arriado na testa com a aba meio quebrada.
(Minha irmã e eu temos gratíssima recordação do cuidado com que ele nos dedicava quando íamos ao cinema de Jorge Moura, que ficava em frente à nossa casa. Punha-nos no extremo da fila de cadeiras para que ninguém se sentasse próximo de nós, e quando chovia, atravessava a rua levando-nos nos braços. Divertia-nos também, contando-nos “causos” fantásticos e relatos de filmes que já assistira e o impressionaram).
Um dia, criou coragem e apresentou-se no programa “Domingo Alegre”, no cinema de Jorge Moura, fantasiado de Carmen Miranda, cantando “Tabuleiro da Baiana”. Foi um sucesso. A cidade o adotou como artista. Tinha uma bela voz, grave e rica em modulações, embora tivesse usado o falsete na gloriosa apresentação com balangandãs e chapéu ornamentado com frutas de cera, típico da “garota notável”.
A glória não lhe trouxe benefícios no trabalho doméstico. Zebedeu enfadou-se da vida de torneiro e decidiu montar um restaurante, valendo-se de dois argumentos animadores: o conhecimento culinário de sua mulher Zizinha, que contava com o providencial auxílio de Zé Félix, e um mercado consumidor florescente e desassistido, composto pelos passageiros dos trens que procediam de Natal e retornavam de Lajes, com parada obrigatória em Ceará-Mirim.
Mãos à obra e o restaurante revelou-se um ótimo negócio, confirmando a opinião do torneiro-mecânico.
Só não foi bom negócio para o auxiliar de copa, cozinha e mesa, também encarregado da limpeza e um agilíssimo garçom. Precisava ser uns dois ou três para atender à freguesia e ainda ajudar à patroa na cozinha. As reclamações terminaram por enfezar quem já era azedo por natureza, o velho Zebedeu, que, quando em crise de irritação, cada vez mais freqüente, quebrava pratos e mais pratos na cabeça do rapaz, quando não jogava pesados copos de vidro para atingi-lo.
Demitiu-se do emprego e foi ser “biscateiro” de mil e uma utilidades. Desde “faxineiro” a garçom, cozinheiro, animador de festas, jardineiro, babá. Justiça seja feita, em alguns desses ofícios ele era inigualável. Entre outras qualidades, tinha “mão verde” - o que plantasse ou cultivasse, nascia e crescia viçoso e de beleza incomparável.
Ninguém encerava um piso como ele. O “mosaico” como se chamava antigamente o piso cerâmico, se convertia em espelho, expondo, às vezes, a própria roupa íntima das donas de casa. Manobrava a enceradeira manual de modo cadenciado e metódico, geralmente ao ritmo das melodias com que encantava os seus ouvintes domésticos. Dava gosto.
Como animador de festas era como um encantador de serpentes. A platéia ficava fascinada, tanto com os números de canto, quando imitava Dick Farney, como quando contava passagens anedóticas de sua própria vida. Sua figura era cômica. Precocemente calvo, a testa era muito larga, os fios de cabelo reunidos nas têmporas, eram meio sarará e enroladinhos feitos molas. O nariz era despropositadamente grande em relação ao rosto, e adunco. A boca era funda e os dentes falhados pelas perdas também precoces. O queixo pequeno e equivocadamente pontudo.
(A propósito da boca funda e dos dentes falhados, muito tempo depois, quando conseguiu com o seu amigo “Doutor Ivan Péplos” (Ivan Pípolo, estudante de odontologia, á época), um “casal de chapas”, ria por brincadeira para melhor exibir os novos recursos fisiológicos e estéticos. E ainda se vantajava de outra vantagem prazerosa – quando doessem os dentes, bastava retirar a dentadura e pô-la num copo com água.)
Era de baixa estatura, talvez metro e meio. E andava com as pernas muito abertas, (eram um tanto tortas, como os caubóis dos filmes de faroeste) e os pés na posição de “quinze para as três”. Queixava-se muito de um incômodo nos pés, exageradamente chatos, tanto que se colavam ao chão, como ventosas. Tinha até calos no lugar onde devia ter a cava. No Ceará-Mirim, tal anatomia era conhecida como “pés de mata-formigas”.
Salvavam-se, e com louvor, os olhos, azuis como os de sua mãe, a finada Maria-olho-de-gato. A voz grave, cálida, de bom locutor de rádio. A alma alforriada, alegre, apesar de tudo. Uma imaginação que desconhecia limite. E uma inteligência incomum.
Esforçava-se para enriquecer o seu vocabulário, preferindo as palavras incomuns, às quais dava conotação bem pessoal. Lembro-me de “nostrogiado”, que indicava dor de barriga; “xixiado”, quando ficava sem fôlego; “otróras”, quando se referia a antigamente; “repitivamente”, no sentido de seguidamente mesmo.
Quando esteve com a garganta inflamada insistiu com meu pai para lhe dizer o nome científico do orgão afetado (amídalas). Meu pai nem pestanejou: “testículos” e assim ficou sendo até receber uma duríssima reprimenda de minha mãe.
No “diz-me com quem andas”, enturmou-se com uns boêmios que freqüentavam o Bar de Silvio Brandão, onde prestava serviços, e deu para beber. Quando exagerava nas doses de cachaça, freqüentemente entrava em coma alcoólico. Numa dessas crises, resolveu dar mais realismo à caracterização favorita de caubói, armou-se com o revólver do patrão e ficou praticando saques rápidos. Numa das vezes em que empunhava a arma retirando-a do coldre imaginário, o cão foi ativado e a arma disparou atingindo-o num quadril,
Noutra ocasião, em Muriù, meu pai foi chamado para atendê-lo. Fora um ato de quase-suicídio. Morria de amores por “Santa”, uma empregada de Manoel Pereira, que namorada de um motorista que atendia pelo sugestivo apelido de “Amor”.
Apesar de ter tudo para não dar certo, o namoro da “santa” (de pau oco) com o “amor” (pecaminoso) do motorista, versado no complicado trânsito dos cabarés, perdurava, e parecia cada vez mais consolidado, para desespero de Zé Félix que amava a moça em segredo. Os porres ficavam por conta da rejeição, coisa de mal amado mesmo, de amor sem esperança, bem ao gosto dos folhetins, dos dramas circenses e das músicas de “roedeira” de antigamente. Era para esquecer a desdita.
Meu pai tratou dele, aumentando o seu nível de glicose, e o levou para a nossa casa. Quando ele se recuperou, o médico o advertiu que numa dessas crises ele poderia até morrer. Intuindo a natureza impressionável do rapaz, assustou-o tanto com explicações científicas e pseudo-científicas sobre os males do alcoolismo, que Zé abandonou a bebida enquanto viveu. Exceto num único episódio em que fui o responsável pelo desvio de sua conduta (*).
Daí em diante foi adotado por nós, que nunca o tivemos como empregado, mas como alguém que colaborasse com os serviços da casa e partilhasse das mesmas regalias e mimos da família.
Tinha um passarinho na alma que não suportava a gaiola, precisava de espaço para voar, por sua conta e risco, navegando esse mundão de Deus. Vez por outra sumia, sem qualquer aviso e quando, tempos depois retornava, relatava estórias do Paraguai, do Paraná, e de outras lonjuras. Ás vezes daqui-perto, de Lajes, Macau, Baixa Verde, natal, sob o teto de Zezo Roque ou do doutor Dutra.
Contou-me que tinha sido “garaxué” numa pensão de mulheres na fronteira do Paraguai. E que viu muita gente cair morta por causa de bebida e de paixão. E das vezes em que foi encarcerado por pequenos furtos – o que ocorria de vez em quando porque sempre o exploravam, nunca lhe pagavam, para os seus empregadores ele só valia o prato de comida e o quartinho para dormir.
Revelou-me que nunca se sentiu tão orgulhoso de ser nordestino quanto certa vez assistia a um filme num cinema de Campo Mourão, no Paraná. O filme era “O Cangaceiro”. Depois de muita matança e de muita macheza, um paranaense muito alto e forte de voz grossa e chapelão na cabeça levantou-se e disse pra quem quisesse ouvir: “Isso que é terra de macho!” Saíu do cinema forçando o já arrastado e cantado sotaque pau de arara e ainda complementava para que não houvesse dúvidas: “Sou nordestino da gema”
Ele não escondia o machismo, nem mesmo nas preferências políticas. Quando se instalou o conflito dos mísseis cubanos, na década de sessenta, anunciou a mim e ao meu pai que Keni (o presidente John Kenneddy) era frouxo; macho era Cruxév (Kruschev, o premier soviético), explicando o porquê da preferência: o homi só faltou jogar os sapatos na cara de Keni. (referia-se à cena, transmitida pela televisão, em que o russo tirara o sapato e batia com ele na mesa de reuniões da ONU, em protesto pela invasão americana à Baía dos Porcos).
(Quando eu era Secretário de Segurança, levava-o comigo para não fazer nada, apenas dar-lhe o prazer de ser o amigo do rei, situação que o deliciava. Quando eu chegava à Secretaria, os policiais que guarneciam a entrada do prédio perfilavam-se e faziam continência. Depois eu soube que invariavelmente, Zé Félix devolvia as continências, às minhas costas).

Disse-me também de quando viajou pela primeira vez de avião, com o doutor Dutra, a caminho do Paraná. A estranheza começou no avião, quando a aeromoça pediu que pusesse o cinto. Não soube o que fazer, nem encontrou o tal cinto. Estava sentado sobre ele. Depois, como apertá-lo, no que foi salvo pelo padrinho Dutra (Chamava todo benfeitor de “padrinho”, inclusive o meu pai). E quando o avião saiu do chão? Parecia que o “estombo” subia pra cabeça, diferente de quando pousava, aí a cabeça se enfiava no “estombo”.
Pernoitou no Rio de Janeiro, num hotel. Quando acordou, buscou o banheiro, servindo-se do sanitário e lavou o rosto pra tirar a ressaca do sono. Quando encontrou o padrinho comentou que no Rio a bacia de lavar o rosto era diferente, tinha um chuveirinho pregado num vaso branco que jogava água de baixo pra cima. Foi ruim porque se molhou todo. Concluía a estória dizendo que o doutor Dutra o havia esclarecido que aquilo era um tal de “bideco”, e explicou a sua serventia. Arrematava a estória com uma cara de nojo.
Não dava sorte com mulher. A primeira vez que acasalou, descobriu que quando saía de casa para exercer as suas funções de operador de filmes, um amigo(?) o substituía nos deveres de macho. Avisado por outro amigo(?) deu uma incerta. Deixou o projetor ligado e correu para a casinha, que ficava próxima ao cinema. Não deu outra. Debaixo do lençol os dois pareciam gatos pernoitados no telhado. E a mulher miava de um jeito como nunca fizera com ele.
Tentou o suicídio sem muito entusiasmo e os amigos o contiveram.
De outra feita, já com outra mulher, Cristina, aquela que deu como o amor de sua vida, decidiu dar uma de “homem”. Viajaria conosco a Boquim, em Sergipe, como fazíamos sempre nas férias do meio do ano, mesmo contra a vontade da mulher. Dito e feito. Quando chegou, a mulher havia vendido os poucos pertences e sumira no mundo. Sofreu ,mas incorporara ao ego e à opinião pública a fama de macho.
A melhor fase de sua vida aconteceu quando José Maria Palhano, dono do Cine Glória, deu-lhe também a função de locutor. Dava gosto ouvir as propagandas dos filmes pela amplificadora do cinema.
“Hoje à noite, às oito horas da noite, no Cine “Gróra”, com o finado Tirano Pôver (Tyrone Power) e Rita Reorte (Rita Hayworth), “Sangue e areia” - em tenicolo (technicolor), sensacional, não percam! – no título, engrossava a voz e quase soletrava as letras. E botava um entusiasmo persuasivo na parte final da convocação.
Como operador de projeção, superava-se cada dia mais na sincronização entre o término de um carretel e o início da outra parte. Só era perceptível a troca, por causa dos números que apareciam no início da fita. Depois, aprimorou-se ao ponto em que já colocava o carretel no início na cena.
Deu-me uma “bronca” danada quando me encontrou sentado na platéia para assistir ao filme Paris à Meia-Noite, espetáculo impiedosamente açoitado pelos sermões do Padre Rui. Uma sessão exclusivamente masculina fora marcada para dez horas da noite, após a sessão normal. Argumentei com ele que já era rapaz feito. Cansado de discutir, disse-me que no dia seguinte iria dizer ao padrinho.
O filme era de sexo explícito, não tinha nada a ver com erotismo. Era sacanagem mesmo, nem enredo tinha. Eram cenas sucessivas de garanhões e prostitutas nas posições mais originais, alternadas com a recorrente prática do sexo oral. Cumpriu a promessa e me denunciou ao meu pai. Depois, já serenado pela compreensão do seu padrinho, sempre tolerante, deu-me alguns pedaços de celulóide, recortados do filme, guardados até há pouco tempo atrás, bem na direção contrária do lírico Cinema Paradiso, de Tornatore.
Nas viagens a Sergipe, nas nossas férias escolares, ele era a atração de Boquim, pequena cidade onde nasceram minha mãe e minha irmã e onde meu pai passara a adolescência. Lá, era amigo do delegado, do juiz, do padre, e sobretudo dos integrantes do clã Simões, um bando de gente alegre, arteira e bem humorada. Armavam cada presepada de arrepiar, do tipo preparar um boneco de pano recheado com gelo deitado em sua cama, o quarto iluminado apenas por uma lamparina, lá conhecida como “fifó”. Então, aguardávamos o momento do contato com o gelo e quando isso acontecia ouvíamos o grito e a saída apressada do nosso amigo. Como se dizia antigamente, era uma pândega!
Ou quando prendiam um fio elétrico na fechadura, para um choque inofensivo, mas suficiente para arrepiar os cabelos e dar uma descarga no corpo, no momento em que punha a chave.
Eram, de fato, malvadezas, mas era o modo como os meus tios se divertiam. Um deles, tio Newton, o mestre das artes dos maus tratos e travessuras, subia no telhado, segurava um gato pelo rabo e jogava-o para cima, confirmando ou não a lenda de que o felino sempre caía de pés. Coisas assim...
Um dia, o animador cultural local, Tota, resolveu encenar a peça “A louca da aldeia”. Zé Félix tinha veleidades teatrais e cinematográficas. Ofereceu-se para uma “ponta” e foi aceito. O seu personagem dirigia-se a alguém que, escondido atrás de uma moita, emitia gemidos e pedia caridade. Então o personagem de Zé Félix lhe perguntava: o que você quer, alma perdida? Quer uma reza? A alma respondia, não! Quer uma vela? De novo, não! Então ele perguntava o que queria alma tão sofredora e a suposta alma respondia: “Quero papé pra mode limpar o meu Zé Félix”.
Retirou-se indignado e nunca mais falou com Tota.
Não reclamava nem se queixava dos bem intencionados mau tratos – se isso é possível. Fingia-se indignado, mas, no fundo sentia-se satisfeito por saber-se aceito na família. Para ele, o abuso era uma prova de intimidade e de confiança. Sabia que era amado e que poderia contar com cada um dos que o “judiavam”, como se dizia è época, uma expressão preconceituosamente anti-semita.
Quando meu pai se invalidou após a quarta (ou quinta?) trombose, ia vê-lo diariamente só para diverti-lo. E o velho “padrinho” alternava-se em risos freqüentes e também em lágrimas, neste último caso, certamente, recordando os momentos em que extraía o humor do velho amigo com sadia e lúcida compleição.
Nos idos de 1996, morávamos na Alexandrino de Alencar e Zé Félix estava conosco há cerca de um ano, vindo de outra das suas andanças. Havia conseguido aposentar-se pelo Funrural e apenas cuidava do nosso jardim para justificar a pensão – ele era assim orgulhoso. Então, queixava-se de um “ardor” intolerável no estômago. Insistimos diversas vezes para acompanhá-lo a um médico e ele se negava. Quando o ameaçávamos ele dizia que iria embora mas não pisava no consultório do médico.
Tinha dores tão intensas e insuportáveis que ficava dobrado sobre si mesmo, gemendo e com uma cor amarelo-esverdeada. Dávamos um paliativo para a digestão e um analgésico, que, segundo ele, aliviava.
Uma noite acordamos com o miado aterrorizador de um gato no nosso quintal, onde havia um quartinho que servia de alojamento para o nosso amigo. Levantei-me e cheguei a tempo de ver um gato preto pulando o muro. Fui ver Zé e ele estava deitado na posição do feto, contorcendo-se de dor. Os remédios não produziam mais o efeito sedativo e, de manhãzinha cedo, vencido pela dor intermitente, deixou-se levar ao Hospital Santa Helena, o mais próximo da nossa casa.
Foi atendido por Dr. Pedro Athiê, que lhe deu a melhor assistência possível, dado às suas condições. Estava com câncer agressivo, tanto, que o médico disse que não adiantaria a cirurgia. Era questão de dias.
Desse dia em diante, até a sua morte, minha mulher, Jailza, dedicou-se o quanto possível a fazer-lhe companhia, visto que a minha ocupação em dois expedientes me impossibilitava de lhe dar assistência efetiva. Minha companheira passou a ser, então, a sua enfermeira em tempo integral.
Posso afirmar, em sã consciência, que não lhe faltou carinho, conforto ou atenção.
Certa manhã, quando nos preparávamos para visitá-lo, fomos abordados por alguém que se dizia agente de uma funerária, dando conta da morte do nosso amigo durante a madrugada, sem qualquer aviso do hospital. Morreu sem a nossa companhia, mas não só. Tenho certeza que Félix Folote e sua mulher, Maria-olho-de-gato e o meu pai, estavam ao seu lado para conduzi-lo em sua última arribada.
Até imagino a troça que fizeram os seus amigos na recepção, ignorando a má catadura de São Pedro.
Com a sua ida, perdi as minhas melhores referências da infância.

(*) Certa noite, Célio Soares, Afrânio Cavalcanti (já falecido) e eu, fomos ao “Céu Azul” uma boate “chique” da ZBM cearamirinense dos anos sessenta, próxima à rua do Cipó, e levamos conosco Zé Félix, prometendo financiar a sua noite de amor com Da Paz, uma pequenina de pernas roliças e de seios e ancas protuberantes, por quem Zé Fèlix se babava de paixão. Mas o nosso financiamento dependia de uma caracterização que ele faria, da entrada do caubói no “saloon”.
Ele não se fez de rogado. Imitou o artista descendo do cavalo, arrumando os coldres, abrindo a porta que ele chamava de “vai-e-vem”, e, dirigindo-se a um imaginário mas previsível garçom, ao mesmo tempo em que jogava uma moeda (de um “dolare”), pedia um” tringer” (drink) e simulava entornar a bebida.
Animou-se com a própria encenação, merecedora de aplausos entusiásticos da platéia e, cada vez que alguém pedia para repetir a cena, ele ia criando mais gosto tanto que, para dar mais realismo à sua caracterização, passou a beber, de fato, um dos copos de cachaça que encontrava sobre as mesas. Depois da quinta ou sexta “lapada”, desmaiou.
Fizemos uma “cadeirinha” com os nossos braços e o levamos para a maternidade, único centro de saúde da cidade. Lá, foi devidamente hidratado e glicosado. Quando “tornou”, chorava feito menino surrado e gritava por Cristina – o amor de sua vida, aquela que o abandonou quando viajou a Sergipe.
O mesmo Afrânio, amigo querido, chamado por nós de “Levi”, tornou-se médico e especializou-se em pediatria. Belo dia, encontro um Zé Félix acabrunhado que me revela, quase choroso, que o doutor Afrânio, gente boa, quase que o vira nascer, tinha virado pederasta. Confundira a pediatria com pederastia.

PEDRO SIMÕES, o “Pedrinho de doutor Percílio”, aqui qualificado apenas como amigo de Zé Félix

terça-feira, 7 de setembro de 2010

07/09/2010

7 de setembro de 1822

7 de setembro de 2010

BRASIL, Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve;

DEUS, Criador e Redentor da humanidade, Salvai o Brasil;

Filhos deste solo sagrado, o Brasil ainda tem jeito - AME-O com todas as suas forças.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Ao Mestre AMÉRICO, com carinho

CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES,
Membro Honorário Vitalício da OAB/RN,
Da Academia de Letras Jurídicas do RN,
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN,
Sócio da União Brasileira de Escritores do RN, e
Sócio do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia.


O convite para prestar um depoimento sobre o Professor AMÉRICO DE OLIVEIRA COSTA chegou para mim como um desafio difícil, dado o fato da minha pequenez cultural para avaliar esse homem notável e sua obra.
Preferi, então, voltar aos bancos acadêmicos da velha Faculdade de Direito da Ribeira, para dali evocar os dias de convivência do circunspeto homenageado, de feições completamente amenas e andar absolutamente simétrico, impactando seus alunos com aulas diferentes, doces e profundas, de quem percorreu o mundo e, sobretudo, de quem cresceu no meio de livros em sua rica biblioteca, convivendo com seus incontáveis habitantes, amigos invisíveis em cada compêndio, que davam ao ambiente aquele cheiro característico, em que o pó tomava o corpo e se depositava nas mãos.
Pela sapiência transmitida aos seus pupilos, era fácil deduzir que a sua leitura não era apenas mecânica, explorando os olhos já bastante cansados e massacrados pelas madrugadas de leituras e que lhe impôs pesadas lentes por todo o seu tempo vivente. Penetrava na intimidade dos autores e, em cada livro, compartilhava com a alma de quem o escrevera.
Deste modo, perpetuou algumas obras e se fortaleceu com a essência que delas encontrava.
Foram algumas avenidas de volumes percorridas e incontáveis emoções, acumuladas em cada livro que o adotara. Disso tudo nos dava notícias, reproduzindo alguns trechos que o empolgavam mais recentemente, deixando-nos ansiosos para obter a oportunidade de também abraçar aqueles nobres ensinamentos – era assim um apontador de obras, facilitando a natural preguiça dos jovens leitores iniciantes, em procurá-los nas livrarias ou bibliotecas disponíveis.
Vale lembrar as palavras de MAQUIAVEL, em transcrição do homenageado no alvorecer do seu livro “O Comércio das Palavras” – vol. IV, que merecem registro:

‘Finda a tarde, retorno aos meus aposentos. Vou para minha biblioteca. Deixo, na ante-sala, as roupas poeirentas de todos os dias e visto-me como se fosse aparecer nas Cortes e diante dos reis. Preparado, assim, convenientemente, penetro nos salões antigos dos homens do passado, Eles me recebem amavelmente; em sua companhia, eu me nutro do alimento que é especificamente o meu e para o qual nasci. Ouso, sem timidez, conversar com eles, interrogá-los sobre a razão de seus atos; tão grande é sua delicadeza que eles me respondem’.

O tempo passara mais rápido do que pretendíamos e reencontramos o Mestre nas lides da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Por incrível que pareça, éramos colegas e já diferente o relacionamento. Eu já amadurecera um pouco, com mais coragem de aproximação com aquela vetusta pessoa.
Em um dos nossos encontros recebo o presente do seu livro ‘A Biblioteca e seus Habitantes’, numa primeira edição pela Imprensa Universitária, com capa de Navarro e o carinhoso oferecimento ‘Ao prezado amigo e colega Carlos Gomes, com apreço e admiração, Américo de Oliveira Costa. Natal, 3/2/77’. Foi uma glória.
Grifei várias expressões do seu pensamento, a destacar, de forma muito breve:

‘A República dos autores tem uma população variada e colorida, a viver e a movimentar-se entre sentimentos e posições extremas: ambições, entusiasmos, vaidades, idiossincrasias, louvores incompreensões, suscetibilidades, ódios...’ E mais adiante: ‘Que seria o homem sem o pensamento e a alocução? Ou melhor: sem o livro?’

Ainda em 1977, pela mesma EU recebo ‘Visões da Pátria’, como comemoração da Semana da Independência daquele ano. Nesta ‘plaqueta’, compartilhada com o aluno João Frederico Abbott Galvão Júnior pontifica o seu ardor nacionalista, em determinado momento, após aludir que todas as grandes religiões possuem os seus textos sagrados, que são recitados e comentados nos templos, nas sinagogas, nas mesquitas, nos pagodes asiáticos, conforme o ritual específico, concluindo que:

‘A religião da Pátria, porque a Pátria também é uma religião, uma crença e uma fé, porque a Pátria é espírito e moral, possui, igualmente, memória, símbolo, testemunhos, fastos, legendas ou canções de gesta, que se impõem com a mesma incoercível ardência, com a mesma projeção, constituindo-se em ideário, em exemplo, em sustentáculo de confiança e “esperança”.

E daí por diante passei a buscar seus demais trabalhos, os quais tenho em minha biblioteca, como o livro de estréia, em 2ª edição, pela Achiamé/FJA, 1982, seguindo-se da série ‘O Comércio das Palavras’, volumes I, pela ed. Presença, 1989, volume II, pela FJA, em 1991, volume III, pela mesma Fundação, em 1992 e o volume IV, pela editora CLIMA, em 1994. Nestes trabalhos seqüenciados não tenta refazer a obra anterior ‘A biblioteca e seus Habitantes’, mas são escritos paralelos, dentro dos diversos caminhos e expressões do território literário, e com o mesmo amor aos livros (advertência que faz no início do primeiro volume), que denominou de ‘Textos e montagens’, comentando consagrados autores, seus atos e suas obras, assim continuando nas publicações que se seguiram. Aqui, porém uma digressão em razão do volume II, quando, num rasgo de sentimento e justiça proclama:

‘Conta-se que, de volta do cemitério, onde acabavam de enterrar o corpo do educador Anísio Teixeira, o professor Péricles Madureira Pinho confidenciou ao escritor Hermes Lima: “Agora, temos de aprender a viver sem Anísio”. Circunstância ingrata, esta, sem dúvida, e que se pode repetir aqui e ali, na vida comum dos homens. Quando os amigos de Walter Pereira, por exemplo, retornávamos do cemitério do Alecrim, onde dele nos despedimos pela última vez, a sensação que nos polarizava era a mesma: “Agora, temos que aprender a viver sem Walter”.

É bom lembrar que Walter abrigava em sua Livraria Universitária, no segundo espaço físico que ficava a partir do Beco da Lama, a reunião regular do “Senado dos Intelectuais”, com as presenças certas, dentre outros e além de Américo, de Alvamar Furtado de Mendonça, Mário Moacyr Porto, Gorgônio Regalado de Medeiros, Coronel Leão, Humberto Nesi e, de quando em vez, de João Medeiros Filho, Luiz Romano e Edgar Dantas, enquanto, em outro local, se reuniam os integrantes do ‘Senadinho’, por onde eu transitava com tantos outros companheiros: Inácio (o bispo de Taipu), Doutores Chiquinho, Gilvan Carvalho, Roberto Furtado (Bob), Djacir Macedo, Stênio da Silveira, João Batista Costa de Medeiros, Vicente Serejo e outros que a memória perdeu neste momento.
Com a morte de Walter, a casa do Dr. Américo passou a abrigar as tertúlias culturais e o baixo clero dispersou-se.
Foi jornalista, escritor, ensaísta, e crítico literário, tendo merecido um prêmio pelo ensaio biobibliogrático denominado ‘Viagem ao Universo de Câmara Cascudo”, FJA, 1969 e republicado agora em 2008. Nesta publicação destaca sobre Câmara Cascudo:

‘Esboçar-lhe um retrato, completo e definido em todas as suas linhas e dimensões, ainda é cedo...’ E complementa: ‘Estas imagens são, assim, visões, ângulos, posições, projeções sem dúvida insuficientes e inconclusas, de quem andou percorrendo, paciente e sistematicamente, áreas julgadas mais significativas e ricas do mundo por ele construído.’

De sua produção literária só não conheço ‘Seleta de Luís da Câmara Cascudo’, da editora José Olimpio, 1972 e 1976.

Participou de várias antologias e tem dois trabalhos biobibliográficos em sua homenagem, de autoria de Vitória dos Santos Costa, Sebo Vermelho, 2003 e Memória Viva organizado por Carlos Lyra, EDUFERN, 1998.
Este cidadão do nordeste entrelaçou a cidadania de vários irmãos vizinhos, era macauense de 22 de agosto de 1910; filho do baiano Pedro Vicente da Costa e da potiguar Victória Petronilla Alves, casado com a pernambucana Josefa dos Santos Costa e seus filhos Pedro Américo, José Américo, Vitória, Paulo Américo e Carlos Américo, todos natalenses. Faleceu em Natal em 1º de julho de 1996. Bacharel da tradicional Faculdade do Recife, turma de 1935, fundador da Faculdade de Direito de Natal, um dos fundadores da Aliança Francesa de Natal, foi também político, magistrado na condição de jurista e diplomata honorário. Recebeu inúmeras condecorações nacionais e estrangeiras. Enfim, um homem notável cujos demais atributos certamente serão destacados pelos demais participantes desta homenagem.
Resta-me dizer da minha gratidão pelo convite em colaborar nesse preito de saudade e justiça proporcionado pelo seu neto, o jovem escritor João Eduardo de Carvalho Costa.

domingo, 5 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

JUSSIER, A CONCHA E A PÉROLA



Vivo que te quero vivo
Renascente
Redivivo
Vivo que te quero vivo
Vivo como antigamente
Sem sair de nós ás pressas
Sem partir subitamente
Sem apagar-se tão cedo
Qual círio exposto ao vento.

Vivo que te quero vivo
Na tão oculta bondade
Na escondida verdade
De um amor não proclamado
Na perfeição
No cuidado
Na incessante entrega
Na construção de uma tela
Na beleza de um traçado

Trecho de um poema de Augusto Severo Neto em memória de Jussier

O HOMEM PLÁSTICO

Salvo os colegas médicos da sua geração, os intelectuais, os colecionadores dos seus quadros, e, evidentemente, os seus amigos, poucas pessoas sabem quem foi Jussier Ribeiro Magalhães. E bem menos ainda o guardaram na memória para recorrentes ou mesmo escassas recordações. Em boa hora o Governo do Estado criou no Hospital Walfredo Gurgel, um Centro de Tratamento de Queimados com o seu nome, dotando-o de equipamentos e de recursos satisfatórios ao seu objetivo, uma pertinente obsessão do meu amigo
A memória, mais do que o pássaro trêfego e travesso da concepção poética, é pântano, rio caudaloso e manso regato. A superfície lodosa do pântano encobre as más recordações, tudo o que queremos esquecer. O rio caudaloso leva e traz o memorial exuberante, um imagético cinematográfico de curta metragem e efeitos especiais. O regato, as lembranças gravadas prazerosamente na memória, aquelas que apreciamos e degustamos com lentidão e calma, qual a preguiçosa corrente do riacho.
Tudo isso me vem a despropósito, ou a propósito do esquecimento. Porque Jussier se imortalizou para os que o conheceram e ainda hoje o velam, vivo, pelas grandes expressões e pequenas, quase anônimas iniciativas que indicam a nobreza do seu caráter solidário e a imensa ternura que abrigava avarentamente debaixo de sete chaves.
Quando digo quase anônimas as suas iniciativas é porque ele fazia o possível para que elas não fossem dadas como suas, ou as barateava tanto que se desvalorizavam, passando despercebidas. Pelo menos ele assim imaginava. Porque se supunha ou se queria sombra, como se isso fosse possível, logo ele, um colorido que, todavia, se desenhava negro. Sombra é incolor.
Quanto à ternura, referi-me a ela quando tratei de Armando Holanda e o comparei a Jussier. Transcrevo:
“É um tanto desajeitado nos agrados, tal outro amigo querido, Jussier Magalhães, cirurgião plástico e dos maiores pintores do nosso estado, convocado por Deus para o Seu Reino. Entendia o sem-jeito de Jussier e entendo o de Armando. As almas muito sensíveis precisam resguardar o seu carinho, porque se vulnerabilizam, tal como se expusessem as suas “fraturas”, correndo o risco de que alguém, valendo-se dessa fragilidade, ponha o dedo na ferida. Por isso, preservam-se, adotando uma carapaça de indiferença ou de rudeza no ofício do carinho, que as protege, afastando os predadores.”
Não modifico uma vírgula. Era assim o meu amigo.
Tímido, às vezes não suportava que o encarássemos, embora a sua “cara limpa” não aceitasse máscaras, não escondesse subterfúrgios nem subjacentes maquiagens existenciais. Era frágil e vulnerável emocionalmente e sabia disso, tinha receio que outros o soubessem, pela janela escancarada do olhar, dando margem às temerárias explorações que destruíssem a sua precária blindagem, expondo-se às agressões predatórias.
Cultivava um andar rígido e sem girândolas nos braços, estes, quase colados ao corpo, um tanto inertes. A cabeça, quase sem movimentos, projetada na direção do caminho à sua frente, apoiava-se firmemente no pescoço. Postura típica de um que vive sob tensão, de quem se policia para não chamar atenção, de quem não se quer denunciar como espécie diferenciada. De quem, mesmo em movimento, se concentra nas idéias, para não se perder no trivial insatisfatório.
Vestia-se com muito bom gosto, roupas claras, simples, bem talhadas, que pareciam feitas somente para ele, tal a elegância e a casualidade com que as vestia. Ele era “clean” e isso se evidenciava nele por inteiro – no rosto sempre escanhoado, nas roupas, na rígida estética do andar, na disciplina da sua rotina, numa franqueza sem arrodeios que nos confortava, apesar de rude, pela sinceridade. Mesmo que fosse escuro no grafismo dos belíssimos desenhos.
Usava óculos permanentemente, que disfarçavam os olhos, grandes, com cílios tão longos que se encurvavam. Muitos anos depois, conheci um texto que o trouxe até mim. Gilberto Freyre, referindo-se a Randolph Bourne(1), descreveu-o como dono de
“...uns olhos grandes, enormes, tão comuns nos órfãos, nas pessoas feias, nos indivíduos que vivem sós, nos aleijados, nos corcundas.”
Eram grandes e negros os olhos de Jussier. Mas ele não era aleijado, nem corcunda, nem feio, nem órfão. Era um homem bonito. Tinha uma família afetuosa e unida. A mãe, dona Dalva, o pai, seu Antonio, dois irmãos muito devotados a ele – Judson, engenheiro, a quem chamava “neném” e Letúsia, a única irmã, com quem mantinha permanente troca afetiva e diálogo fácil e que se tornou uma espécie de “curadora” de sua obra.
Talvez o “solitário” lhe caiba. Talvez. O modo ressentido dos incompreendidos, carentes ou irrealizados manifestarem o seu protesto – mudo, dissociado, mas sem molestar ninguém, como o fazem os ruidosos panfletários.
Era triste, evidenciava-se triste, embora descobríssemos indícios de uma alegria transitória, trânsfuga, pendular. Aqui e ali mostrava um humor um tanto cáustico, duro, seco - o seu modo de se dizer integrado ao espírito do grupo, mas amostrando as suas diferenças, o seu contido ressentimento que não era contra ninguém em particular, pois amava a todos dadivosamente, mas contra o sistema – o monismo que exigia um alinhamento compulsório ao senso comum e à moral burguesa, ao jeito único de ser humano, a diáspora segregacionista por aí afora...
E ele era uma criatura especial. Nem questionamos o caráter da sua excepcionalidade, embora o tivéssemos como exemplar. Mas era diferente. O modo como se expressava e como se afirmava.
Certa vez “rebolou” uma caixa para o meu filho mais velho, Marcos Frederico, e disse rispidamente: “não use mais aquela porcaria!” Era uma caixa com parafina importada, adquirida quando verificou que o meu filho, surfista àquela época, utilizava um produto de qualidade inferior.
Ou quando nos convidou para jantar, na sua casa de Búzios, defronte à nossa. Um jantar requintado, desde a excelência dos talheres, da louça, dos jogos americanos, do extraordinário cardápio, com direito à entrada, piéce de résistence e sobremesa, tudo feito por ele mesmo, pois era um competente cozinheiro, mais para “gourmet” que para “gourmand” e uns vinhos de “griffe”, licores nativos e importados, água mineral de boa origem e guardanapos de linho, imaculadamente brancos.
Foi-nos servido um bouillabaisse capaz de fazer inveja aos mais renomados chefs de cuisine franceses: desde a escolha correta ao tempo certo de cozimento dos peixes e carne de caranguejos, do bom comportamento dos temperos ao preparo do ruille, com as indispensáveis gotas de Pernod. As torradas, cobertas, melhor dizendo, mergulhadas no molho picante, estavam uma delícia. Os pedaços de peixe e crustáceos também imploravam a submersão completa no mar vermelho do molho picante. Meu Deus do céu!
Para arrematar, uns espertos e quase crocantes pastéizinhos de Santa Clara. É evidente que ninguém poderia ficar insensível a esses mimos. Nem mesmo um profano carnívoro trivialesco que nem eu.
Senti-me, pois, motivado a tecer elogios à altura das carícias recepcionais. E não regateei. Fiz um discurso laudatório de longo curso, detalhando o excepcional banquete, partindo, inclusive, da consideração de que aquele era um prato historicamente plebeu – de restos de comida – e que o seu engenho e arte o havia convertido em acepipe nobre.
Ele aguardou pacientemente o aparentemente digestivo lengalenga e quando acabei ele me encarou – uma das raras vezes que o fazia – e me disse, áspero e inclemente: “não precisava pagar a conta!”



O CIRURGIÃO PLÁSTICO


Creio que foi através do mecanismo que os psicólogos chamam de “compensação” que ele chegou à cirurgia plástica, ao desenho e à pintura. De fato, ele foi vocacionado para essas altiplanuras, mas a necessidade agregou-se á sua própria natureza, naquela troca do genes e da adaptação que definem a matriz do caráter das criaturas. Agora eu consigo estabelecer uma análise mais isenta e percuciente dessas decisões, coerentes com a sua natureza, com a maturação do tempo, que é o senhor de toda a razão e de toda a verdade. Ele tentou corrigir as distorções e colorir, mal-colorindo nos bicos de pena, a fealdade do mundo que descobriu ampliado através das poderosas lentes dos seus olhos de artista.
No ofício da cirurgia plástica, limitou o atendimento estético ao mínimo necessário, já que sobrevivia dessa espacialidade, e se dedicou com maior empenho à prática corretiva dos “queimados” do Hospital Walfredo Gurgel, satisfazendo a sua alma missionária e a esses pacientes deu o melhor de si. Constrangia-lhe a falta de recursos para o atendimento de gente tão sofrida, submetida a dolorosos processos curativos. Custeava do próprio bolso as carências que identificava. E eram muitas. Contam os seus amigos mais íntimos, que o salário que recebia do Walfredo Gurgel só era contabilizado como crédito mês sim, mês não, porque de dois em dois meses, consumia todo o ganho na compra de caríssimos insumos que o Hospital não tinha condições de adquirir.
A sua devoção comoveu a pequena equipe que o auxiliava, um grupo de abnegados enfermeiros e uma grande profissional, sua colega anestesista doutora Rosa Vale do Amaral, a tal ponto, que se deixaram “contaminar” pelo “fransciscanismo” de Jussier.
Muitas vezes nos relatou as dificuldades e os sofrimentos dos seus “queimados”, sobretudo aqueles relacionadas às crianças e aos idosos. Em algumas dessas vezes, em casos mais dramáticos em que punha lado a lado a dor e a indisponibilidade de recursos por descaso e insensibilidade dos governos estaduais, misturava a revolta com um disfarçado arremedo fugidio de lágrimas que eram tangidas como os incômodos argueiros ou os microscópicos insetos que só ele os via. Tentava amostrar-se como um ser humano distante das humaníssimas reações emocionais. Sobretudo as lágrimas que mais e mais o fragilizavam, de si já tão frágil de constituição.
Certa vez, quando se anunciou a visita do então governador Lavoisier Maia, combinou com a sua equipe manter a ala dos queimados do modo em que habitualmente se encontrava, ao invés que “maquiá-la” para a visita do chefe do executivo estadual, para que o administrador avaliasse o estado de emergência daquele departamento. Foi um pandemônio e um escândalo, prato feito para os jornais. Só não foi convenientemente punido, porque precisavam dos seus serviços.
Dormia, acordava, alimentava-se, andava, revolteava, surfava (praticava esse esporte na lagoa de Alcaçuz, solitário e em horas igualmente solitárias), confraternizava com meia dúzia de amigos fiéis, e o tema dos “queimados” terminava aflorando.
Além da família, tinha como amigos, entre outros, Jarbas Borges de Lima, Joventina Simões Oliveira, minha irmã, Ivoni Vieira de França, sua colega, Paulo de Tarso Correia de Melo e Ana Maria, Augusto e Lúcia Severo, Iaperi Araújo, seu duplamente colega, médico e pintor, Dorian Gray, Ana Lígia, Zoraide Melo, Mailde e Cláudio Galvão e a colega-parceira do Walfredo Gurgel, Rosa Amaral.
O ARTISTA PLÁSTICO

Passava ano inteiro preparando as suas telas e promovia exposições com regularidade. Era original no que fazia. Suas obras não “lembravam” nenhum outro desenhista ou pintor. Se houvesse similaridade seria incidental, ou fruto temporão da memória artística subliminar de Jussier. Expressava-se com timbre e linguagem pessoal. Exatamente por isso os seus quadros eram tão disputados nos tempos da Galeria Vila Flor, do amigo e poeta Augusto Severo Neto, desde a Galeria L´Atelier, no longínquo 1966 e depois, o mundo.
Quatro telas produziram-me grande efeito. Uma que eu adquiri e depois fiz uma permuta com minha irmã, atendendo a uma quase-súplica que me fez; outra de propriedade de Jarbas Borges Lima e as outras, respectivamente do meu particular amigo Manoel Onofre Júnior e a de propriedade de Paulo de Tarso.
O quadro de Jarbas é de um lirismo pungente. A poesia transborda da tela e vem até o observador. Um violão recosta-se sobre uma velha cadeira, as paredes perdem a densidade e cedem ás flores e folhas que sustentam um relógio ancestral. O tema é singelo, mas a força impressionista do artista é tão sugestiva que você se enreda com o cenário, se envolve na “atmosfera”, sentindo-se como inocente “voyeur, que, de repente, converte-se num intruso tentado a acariciar ou num gesto mais ousado, tocar o instrumento.
Rescende a solidão, o quadro. E a lembranças. A algo que você já viveu embora não possa precisar a época, nem o lugar. Mas a imaginação lhe apresenta dezenas de circunstâncias e roteiros para estórias vividas ali, num espaço que sugere um quartinho de pensão ou uma água furtada que se perdeu num cenário imponderável.
Entre les deux, son coeur balance. Jussier era um pênsil, um móbile, um galo-dos-ventos. Estava sempre em indeciso trânsito entre as pradarias, veranistas e outonais a um só tempo, e os luares das praias desertas, conferindo a lua, úmida pela emergência do mar. Gosto de pensar que ele se concebia violonista, nestes momentos. Aquele violão recostado na cadeira era seu, de fato. Não conheço a sua preferência musical, mas é difícil imaginar outra composição que não fosse Bach.
Clair de Lune é lugar comum para criatura tão original e de gosto tão apurado. Teria de ser Bach, uma de suas suítes para Cello, com arranjo para o brasileiríssimo instrumento de cordas que com certeza adquiriu. Ou as Bachianas do “nosso” Villa Lobos.
A “minha”, exibe uma recorrente toalha de mesa recortada e sugestivamente ondulada (provavelmente com labirintos nas bordas), tecida com fios grosseiros esgarçados, depondo sobre o testemunho da vida em extinção sugerida pela ossada do peixe, em contraponto com os igualmente recorrentes cajus, que, ao invés gritam a vida, como descreve Jorge Fernandes num dos seus poemas. Há o recurso do mar, ponto de fuga para tanta desolação, revelador do íntimo dorido e atormentado do meu amigo – de fato, um escapista. Por isso se fez pintor, como outros se fazem escritores, ou músicos ou atores. Sobretudo o poeta, em toda a extensão da palavra, todos os que são capazes de sentir com a alma, mais que com a percepção física.
Lembro Pessoa: O poeta é um fingidor/e finge tão completamente/que finge sentir a dor/a dor que deveras sente.
O poeta é um escapista. Os artistas o são. Não adiante prendê-los, porque eles são da espécie Houdini que, por mais preso e mais seguras que sejam as trancas da prisão, sempre se livram das amarras.
A composição poética e musical, a literatura, as artes plásticas, as artes cênicas, a devoção, são métodos infalíveis de fuga. Jussier valia-se da devoção e da pintura, transfigurava-se nas telas, transferia-se, doava-se por inteiro, corpo e alma, o sentimento que sovinava e as emoções que reprimia, às vítimas das chamas.
A composição de Onofre é lírica e quase barroca. Não nego que o invejei por tê-la em casa, sempre ao alcance dos olhos e da imaginação. Uma flor compõe-se com um manuscrito escrito a bico de pena, postos sobre uma toalha bordada. Uma parede carcomida pelo tempo contrapõe-se a uma janela com gradil de madeira, deixando exposto um casario colonial.
Sempre que a vejo, imagino-me em Vila Rica, na casa de um dos inconfidentes, certamente o poeta Tomás Antonio Gonzaga, nos estertores de um poema dedicado à amada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marilia dele Dirceu.
A de Paulo de Tarso poetiza com ele-mesmo poeta, um momento de recordação, de uma lembrança ancestral ou fixação de ícone intelectual. Sobre a recorrente toalha bordada á Richilieu, repousa uma folha de papel virgem, um vidro de tinta de escrever e uma velha foto em que um suposto patriarca com jeito de poeta, busca um ponto de fixação no horizonte para buscar a sua inspiração.

AS OPINIÕES SOBRE O ARTISTA PLÁSTICO

Dele diz Dorian, o poeta-plástico: “A arte de Jussier está na sua coerência artesanal e no seu equilíbrio instrumental. Possuidor de um traço ágil e firme, ele recupera a tradição do desenho em nosso estado que teve em Erasmo e Navarro seus grandes momentos. Um desenho onde o lirismo está presente em todos os seus quadros, liames de um tema romântico recuperado pela maestria do traço seco e lúcido.”
(Convenho que o seu traço é preto, e deliberadamente esgarçado na sua tessitura. Dá-me a sensação de filamentos elétricos, fibras musculares, feixes nervosos, barbantes desgastados. Já a espinha de peixe, não sei porque, talvez pela premonição de vida extinguida, sugeria-me morte. É terrivelmente, tragicamente belo, assim como a Guernica de Picasso).
Ou, como interpreta Navarro, com poesia lúcida (se isso é possível): “O velho candeeiro sobre a mesinha com pano de labirinto parece no seu traço aqui e ali desmanchado, uma presença fantasmal. Uma luz mágica se adentrando em um mundo antigo de coisa perdida, tempo passado.”
O amigo, poeta Paulo de Tarso adentra a alma de Jussier: “Nos desenhos de Jussier está o insistente contraponto entre o objeto e o elemento natural e através destes, uma poderosa sugestão da presença humana, muito maior que a do simples retrato ás vezes mal conseguido e, portanto, estéril.”
Paulo está correto – sente-se o humano, intui-se a presença de alguém em cada uma das composições de Jussier. Ele está ali como observador, interpenetrando os desenhos. Pôs-se ali, transportou-se para a superfície do desenho. Tive essa mesma premonição nas marinhas de Dorian, quando tracei o seu perfil.
A propósito, lembro-me da “luz interior” de Rembrandt, que atrai e se funde com a luz externa. Veja-se que Jussier trabalha mais com o negro do nanquim, aqui e ali violado por um colorido incidental e fugaz. Mas pressente-se a luz, qual fosforescência sobrenatural, a que alude Navarro. Do interior para o exterior.
Três visões mais que reveladoras do desenhista-pintor: o artesão que trabalha “presenças” espectrais.
Diversamente do grande cineasta John Ford, ele não precisava valer-se de grandes locações para produzir os seus temas. Nem de modelos. Mas foi com natural fidelidade, autêntico ás recomendações dos modernistas de 1922, que abandonou as regras acadêmicas europeizadas e se fixou no conhecimento e devoção á sua aldeia.
Radicou-se - ele, cosmopolita como todo natalense o é por genética – junto ás suas raízes, negando ao refinamento que lhe era característica, o lugar-comum que reclama referências as mais remotas, do ponto de vista geográfico, pilhado de algum manual que pouquíssima gente leu. Não era pedante, nem blasé.
De fato, era como Anteu, semideus dado como rei da África na mitologia grega. Filho de Posidon e de Gaia, (Gea, a terra) o que tinha de extraordinário era a sua invencibilidade nas disputas físicas. Hércules não conseguiu vencê-lo, embora tivesse tentado como nunca o fez. Até descobrir que, se o afastasse do chão, ele perdia a sua força. E assim foi feito. Hércules o levantou do solo e, incontinenti, o oponente perdeu a sua força e foi vencido.
Jussier, na sua obra, expõe a sua força criativa, plantando sementes telúricas com as quais se nutre e se identifica: cajus, redes de pescar, toalhas de labirinto, candeeiros, velas de jangada, ossadas de peixes, mangas, bananeiras e limões, velhas e solitárias cadeiras e instrumentos musicais, uma janela se abrindo para o mar, e, surpreendentes e suspeitados girassóis. Os manuscritos soltos ao acaso continham textos poéticos e partituras. As taças guardavam o vinho das celebrações.
Tudo que ele precisava para dar testemunho de vida e de dizer-se.
Jamais se retratou. Se o fizesse, certamente seria uma espécie de orquídea, de difícil germinação, vida breve e cheia de cultivos. Mas bela. E rara.

(1) Randolph Silliman Bourne (1886 / 1918) escritor nascido em Bloomfield, EUA, graduado da Universidade de Columbia. Bourne é conhecido por seus ensaios, especialmente "O Estado". Nasceu paralítico e desfigurado por um acidente na infância e era, essencialmente, um atormentado. De fato um outsider e rebelde, ele mergulhou no intenso pessimismo de Hardy (Judas o obscuro) e sentia a pungente dor existencial de Tolstoi. Gilberto Freyre o descobriu quando estudava em Columbia e o jovem pensador americano exerceu extraordinária influência sobre o pensamento do notável sociólogo brasileiro.


PEDRO SIMÕES NETO – Professor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado.