quinta-feira, 23 de outubro de 2025

 

Um escritor amargo que tinha uma biblioteca de nome terno e poético

Lima Barreto deu à sua biblioteca o nome de Limana, substantivo próprio que é quase uma música de um só acorde e significa pertencimento

 atualizado 

Compartilhar notícia

Google News - Metrópoles
Reprodução/Redes sociais
WhatsApp Image 2025-10-21 at 13.39.23
ouvir notícia

Lima Barreto era um homem difícil, cáustico, magoado, ressentido, sofrido, solitário, briguento, provocador, extremamente lúcido, escrevia em português brasileiro quando isso era um acinte para a bolha literária. O criador de Policarpo Quaresma e Isaías Caminha via as coisas do Brasil com a crueza necessária para mostrar o que se tentava esconder, disfarçar, embranquecer. Lima Barreto viveu pouco, só até os 41 anos, mas escreveu muito, polemizou outro tanto, publicou romances e contos (além de crônicas) que estão em qualquer lista dos clássicos da literatura brasileira, deu voz à periferia, tirou a casca do racismo brasileiro e deixou a ferida sangrar. Escreveu sem academicismo, deu voz à sua própria voz e a dos seus. Lima Barreto brigou com meio mundo, até com Machado de Assis, não exatamente com o escritor, mas com o fundador da Academia Brasileira de Letras. Passou por hospícios pra tentar se livrar do alcoolismo, não se casou, não deve ter tido filhos, se namorou foi muito pouco.

O filho da professora Amália com o tipógrafo e depois almoxarife João tinha uma biblioteca em casa, um cômodo que servia de quarto, escritório, refúgio, sossego. E aí vem a coisa mais terna e doce do amargo escritor que dizia ter a alma de um bandido tímido: ele deu à sua biblioteca o nome de Limana, substantivo próprio que é quase uma música de um só acorde, um poema de uma única palavra, o nome de uma fruta mais o sufixo “na” que tem o sentido do pertencimento. Romana, de Roma, Americana, da América, Machadiana, de livros de e sobre Machado de Assis, Limana, de Lima Barreto. Lima é nome de uma fruta cítrica, ácida e levemente adocicada. Limana é nome feminino, terno, poético.

Numa casa do subúrbio de Todos os Santos, zona norte do Rio de Janeiro, moravam o pai de Lima, o também sofrido João Henriques de Lima Barreto, e os quatro filhos, Afonso, Evangelina, Carlindo e Eliézer. A mãe deles, a professora Amália, morreu jovem, aos 25 anos, de tuberculose. Era filha de escrava alforriada que engravidou, ao que se supõe, de um senhor de escravos, do mesmo modo no qual acabou por surgir o que chamamos de civilização brasileira.

A casa tinha janelões voltados para a rua. Quem passasse na calçada e quisesse assuntar podia ver um cômodo com as paredes cobertas de livros, o que causava certa estranheza, uma admiração confusa – quem naquela casa leria todas aquelas letras? Há quem diga que eram em torno de 700 ou 800 obras, entre livros, revistas, recortes de jornais e manuscritos do autor.

Quando estava em casa, na volta das redações de jornal e das confeitarias e botecos do centro do Rio de Janeiro, Lima se refugiava na Limana. Gostava e cuidava tanto dela que fez um ex libris, como era de costume à época entre os muito letrados. Ex libris, pra quem não sabe, era uma espécie de selo com o qual os donos carimbavam seus livros para indicar a quem eles pertenciam. Um marcador social de letramento. Por certo haverá até hoje quem os tenha. O do Lima foi desenhado por um talentoso artista plástico português chamado Correia Dias que veio para o Brasil em 1914. E que, entre muitos outros feitos, desenhou a capa dos livros da poeta Cecília Meireles, com quem se casou (um amor que resultou em três filhas e uma tragédia, Dias se suicidou).

Mas é de uma palavra linda que trata esta crônica, Limana. A certa altura, Lima decidiu inventariar a Limana. Anotou nome por nome os livros e os manuscritos que ela continha. É de se surpreender que mais da metade das obras de um dos mais nacionalista dos romancistas brasileiros fosse em francês, idioma que o menino criado no subúrbio aprendeu sozinho lendo livros, revistas e consultando dicionários. Mas Lima não fugia à regra: naquela travessia de século, o Brasil ainda bebia na fonte da literatura e do pensamento francês.

Habitavam a Limana, entre tantos outros, Rousseau, Voltaire, Balzac, Flaubert. Havia brasileiros, claro. Machado, Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Raul Pompéia, Coelho Neto. Lá estavam também os ingleses (Shakespeare), os russos, por óbvio (Dostoiévski), os portugueses (Camões), espanhóis (Cervantes) e, incrível, entre os alemães, Karl Marx, o que não significava que Lima fosse comunista, apenas que tinha vontade de saber das coisas do pensamento e da inteligência, onde quer que elas estivessem.

Lima tratava os livros de igual para igual. Fazia anotações nas margens das páginas, emprestava-os aos amigos. Mas a biblioteca, o conjunto das obras que ele começou a juntar desde muito jovem, era um corpo único: “Minha Limana cresce lentamente, como as barbas de um pobre-diabo”, ele escreveu, com afeto e certa comiseração. Limana era Lima, Lima existia em Limana. Entrava em casa e ia direto para dentro dela. A atmosfera doméstica era tensa: o pai de Lima, o tipógrafo João Henriques de Lima Barreto que depois virou almoxarife de hospício, padecia de distúrbios mentais que foram se agravando com o tempo. Pai e filho morreram com uma diferença de 48 horas.

O filho morreu na Limana, repentinamente, recostado na cama lendo a revista francesa Revue des Deux Mondes. O corpo de Lima estava muito maltratado pelo alcoolismo. A alma, não menos ferida, clamando sempre por reconhecimento, gritando sempre contra o triste destino dos negros no Brasil e a indiferença burguesa ao flagrante racismo que ele conhecia na pele, nos traços, no cabelo, nos desprezos constantes.

Com a morte de Lima Barreto, a Limana foi doada ao arquiteto José Mariano Filho, que havia algum tempo tinha se aproximado do escritor e o defendido publicamente em várias ocasiões. Mariano pagou as despesas do sepultamento de Lima e, em agradecimento, a família do escritor doou a Limana para o arquiteto que a levou para sua chácara em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. E ali Limana ficou esquecida por muito anos até que alguém dela se lembrou, mas a essa altura as traças e o mofo já tinham devorado boa parte das obras. O que restou está na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Não conheço nome mais lindo para uma biblioteca, Limana.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 

Sobre os termos política e político

Padre João Medeiros Filho

Quando residia no Rio de Janeiro, vez por outra, encontrava na Editora Vozes, (então dirigida pelo Frei Ludovico Mourão, OFM), o Professor Junito de Souza Brandão. Este foi um dos brasileiros mais versados em língua e literatura helênicas. Dominava a semântica e raízes dos vocábulos luso-brasileiros, oriundos do idioma de Aristóteles. Autor de uma obra notável sobre a mitologia grega. Pesquisou os arquétipos, objeto de estudos dos psicanalistas e psicólogos. Com frequência era convidado para ministrar cursos, seminários e palestras na Sociedade Junguiana do Rio de Janeiro.

Uma das paixões do renomado mestre era pesquisar os vocábulos portugueses, derivados do grego. Discordava de definições atribuídas ao termo política, registrado em certos dicionários. Insistia peremptoriamente: “política deriva de ‘pólis’, que significa cidade, na qual se exige uma correta convivência social.” A Ética deve ser parte integrante. Por conseguinte, todo político deve ser um autêntico cidadão. Necessita estar familiarizado com os assuntos citadinos: linguagem, direitos, deveres, dificuldades, problemas e possibilidades. Deste modo, argumentava o eminente pesquisador: “Político, na sua essência, é alguém voltado para a cidade e não apenas para um partido, que é semântica e etimologicamente uma parte.” A “pólis” é configurada em oposição ao campo. O campesino, por viver em grupos restritos e geralmente familiares, carece de uma visão bem mais ampla e diferenciada da vida em sociedade.

Segundo etimólogos, o adjetivo polido e o verbo polir derivam do mesmo étimo “pólis”. Portanto, o político deve ser detentor de polidez, educado, urbano em palavras e atos. O que se observa hoje é o contrário. Em geral, é prepotente, vaidoso, egocêntrico e radical. Frequentemente, é aplaudido e elogiado, quando desfia impropérios, atacando a honra alheia e procurando destruir a reputação de outrem. Ao invés de ser elegante e cortês, passou a ser sinônimo de inflexível e, por vezes, obtuso ou recalcitrante. Deveria primar pela lhaneza, sendo capaz de escutar, dialogar e buscar soluções em conjunto. Querer respostas para problemas sociais ou comunitários isoladamente ou partindo apenas de um grupo (sem consenso), faz parte da síndrome do autoritarismo, beirando à ditadura e contrário à cidadania.

Segundo o Professor Junito, a “pólis” opunha-se à cidadela (muralhas, fortalezas etc.). Nesta, seus ocupantes enclausurados permaneciam focados na defesa contra ameaças de invasão, alienados dos verdadeiros assuntos e problemas urbanos. Em latim, existe o termo “civitas” (do qual se originam cidade, cidadão), correspondente à palavra grega “pólis”. Era o local dos civis (em oposição aos ocupantes das fortalezas), detentores de civilidade. A verdadeira cidadania implica em conhecimento e vivência de atos civilizados. Mas, nem sempre tal acontece. Os políticos devem ser por excelência citadinos, na mais genuína acepção do termo. Entretanto, ignoram ou desprezam as regras mais comezinhas do conviver, sentindo-se donos e não participantes da vida social. A “pólis” e a “civitas” nasceram como alternativa às cortes. Infelizmente, hoje, vários políticos querem viver encastelados como os nobres, procurando tornar os concidadãos seus suseranos. Aqui, no Rio Grande do Norte, houve quem definisse o Senado brasileiro como o céu, em virtude de seus privilégios e mordomias. O pesquisador Brandão denomina tais pessoas sectários e não políticos.

Talvez a leitura de Santo Agostinho nos ajude a entender melhor a realidade. Para ele, “a cidade é a reunião dos homens em harmonia de pensamentos e projetos em função dos anseios e objetivos humanos.” Entretanto, é importante sempre ter em mente o que proclama o salmista: “Se o Senhor não guardar a cidade, debalde vigiam aqueles que a guardam.” (Sl 127, 1). Aliada à política deve estar a economia. Esta provém do termo grego: “óikos+nómos”, que significa gerir ou administrar a casa. Isso confunde alguns que por dever estão obrigados a cuidar da cidade. A tentação de individualizar a “casa comum” – segundo a expressão do Papa Francisco – permeia o pensamento de certos ocupantes de cargos públicos. Muitos exercem a política, pensando em administrar “a casa”, como se fosse sua ou apenas de alguns (compreendendo interesses pessoais, de amigos, grupos, partidos, incluindo ideologias). Convém lembrar as palavras do apóstolo Paulo aos coríntios: “Há uma diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.” (1Cor 12, 4).

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

 



Texto de MÁRCIO DE LIMA DANTAS

1. Kelline Lima: linhas sinuosas e orgânicas como arquétipos do feminino O coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate. Provérbios, 15:13 1. Kelline Lima (27.05.1973) nasceu em Natal. Assim, desde menina, já revelava seu pendor para o mundo da arte, mesmo porque havia na família alguns parentes que eram artistas. Isso já refrata mais explicações, pois tudo indica que nascera com o condão que impulsiona determinado atributo, ou seja, a potência de contemplar a realidade não como está quedada no nosso entorno, mas a partir de figuras abstratas, como as mandalas ou os desenhos em puro branco imitando rendas de bilro. 

Assim, sua inclinação para gestar uma outra realidade — esse outro real pertencente à arte, com seus modos de ser — não demora a chegar, pois desde miúda o desenho e seus elementos definem-se de uma hesitante própria gramática; já integravam a forma de ser, como se fosse espécie de exercício do que viria a configurar seu discurso estético. Suas séries são parcas na temática, contudo, resplendem de uma sintaxe configuradora de uma dicção fácil de apontar como pertencente ao seu trabalho. 

Com efeito, pensamos que é interessante citar os meios manuseados para lograr êxito por meio de uma geometria (do Imaginário), o que remete ao feminino. Desse modo, é possível observar as formas orgânicas, metade de rostos femininos, as mandalas e as rendas de bilros em geometrias sinuosas. Para que isso venha a ser determinada figura ou personagem, eis que temos principalmente a caneta Posca branca e a acrílica sobre tela. Mas isso não basta, haja vista a multiplicidade de obras resultadas de uma enorme quantidade de técnicas. 

2. Uma das mais belas séries da artista é um conjunto de mandalas com seus traços sinuosos e a obrigatória simetria radial, simbolizando, em religiões como o Hinduísmo ou Budismo, a evocação de manter uma concentração em determinado lugar durante o processo de meditação. Os budistas fazem as mandalas com areia fina e colorida, para então desmanchá-las, demonstrando a impermanência de tudo o que existe no universo. Só o que é permanente é a impermanência. A técnica de construir uma mandala é um refinado pontilhismo, usando a pintura em acrílica sobre MDF, o que causa um efeito de uma magia que nos conclama a refletir sobre a terra, os homens, os animais e as plantas, como um sistema em suas partes interdependentes. Assim, movem-se o céu e as estrelas, com seu sol e sua lua. 

É interessante como a imagem do sistema nos conduz a uma simbólica de que tudo se encontra em conexão. Talvez não seja tão difícil encarar como uma verdade essa assertiva, visto que, no cotidiano, acabamos por sentir que os cinco sentidos não bastam para obtermos a compreensão de certos fenômenos da realidade. Falo da intuição, habitante das regiões mais profundas do nosso ser. Ela pode ser consultada como “coisas do coração”, pois é lá onde estão chantados os nossos Oráculos interiores ou elementos tais como fármacos que nos curam, que redimem o espírito, que amenizam os achaques do corpo. A lógica da mandala é bastante interessante. Seu princípio consta de um ponto central, possibilitando que possa girar esse círculo ao redor do raio. Ao realizar esse giro, haverá uma mesma semelhança das partes que irão ocupando outro lugar. 

A mandala, em suas formas concêntricas, representa o universo. Para os que seguem religiões, há uma aura em tudo, intercambiada a uns e outros, fazendo nada ser coincidência, mas algo que não conseguimos explicar. A mandala busca representar sentimentos ou emoções, chafurdando nas regiões mais profundas, buscando respostas ao que sentimos e não sabemos os contornos do que nem sempre tem nome, seja de energia, seja de uma identidade que não sabemos explicar. Só nos concerne sentir pela linguagem do coração, também nominada intuição. Contemplar uma mandala é uma busca de si, uma resposta ou, pelo menos, riscarmos certos desenhos nossos interiores que apenas sentimos. 

3. Se quisermos selecionar qual a opus magnum das inúmeras séries de Kelline Lima, não há como contemplar um trabalho de envergadura extremamente diferente do que se faz nas artes visuais do Rio Grande do Norte. São as Rendas de Bilro, resultados do uso de caneta Posca sobre papel. 

Posso falar um pouco das origens e do desenvolvimento dessas rendas, resultado de costumes portugueses (em torno de 1560). Inicialmente, estavam vinculadas ao sacro e não ao profano. Digo assim, pois eram elaboradas nos conventos e serviam de ornamentação às alfaias e às toalhas para cobrir os altares durante a liturgia. 

Sentada na frente da almofada, com o pique (cartão com um desenho da renda a ser elaborada), espetado com espinhos de cardeiros e os obrigatórios bilros de madeira, com uma ponta em forma de pera, e na extremidade o fio muito fino vaisendo entremeado com uma agilidade que causa espanto, para, por fim, restar o desenho que estava no papel. Os fios são geridos pelo que chamamos bilros, como se fosse tecido com as mãos, visando a elaborar algo abstrato, exercitando os elementos que já citamos. O suporte maior é almofada de pano. Os demais entram como pontos a ser manipulados nas mãos ligeiras da rendeira. 

Importante lembrar que a tradição da renda de bilro encontra-se com mais frequência nas regiões litorâneas. O melhor exemplo é o estado do Rio Grande do Norte: dificilmente há alguma comunidade praieira que não produza rendas de bilro ou labirintos, que são comercializados nas cidades e apreciados pelas classes mais abastadas. Também se usa como parte ou detalhe de indumentárias femininas. 

4. Será coincidência o fato de nossa artista ter escolhido duas formas de arte que lançam suas fronteiras para as bandas do silêncio? O que parece são duas obsessões: as mandalas e as rendas de bilro têm uma identidade, ocupadoras de um mesmo lugar simbólico: o apreço pelo silêncio, contudo, sem haver algo que as una pela mesma causa. Faço saber que ambos, por acaso, requerem o silêncio para sua feitura. Como já disse, a mandala está relacionada à meditação, quando do seu contemplar por alguém. De sua parte, a renda de bilro também está associada a uma mulher sozinha com sua almofada, concentrada em um silêncio que parece se evadir do que sucede no seu entorno, pouco interessada no movimento e nos sons ao seu redor. 

Não creio em um puro acaso, em algo não previsível; penso muito mais em termos de duas imagens, dois signos, dois arquétipos manifestando-se, vindo à tona das regiões abissais do ser, das regiões mais profundas, a que nem nós mesmos temos acesso. Sucede que edificar qualquer objeto de arte de qualidade provavelmente emana desses lugares. Não quero deixar a razão de lado; quero fundir a razão e o sentimento, no momento em que temos uma pessoa assinalada para dar forma, para insinuar outro conteúdo que não apenas esse contrato inventado pela cultura com a realidade. 

A artista visual Kelline Lima teve sua porta riscada para haver uma separação dos demais seres. Não se trata de classificar a pessoa como superior ou inferior. Ela é tão somente uma artista visual de grande capacidade de se reinventar, sobretudo em seus trabalhos com as rendas de bilro, não com base em como trabalham as mulheres, mas edificando, por meio de uma caneta e de um papel, o que fora há muito uma tradição que ainda permanece, como se fosse uma tocha que não quer se apagar.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

 





 

“Tempo de calar e tempo de falar”

Padre João Medeiros Filho

O descompromisso com a verdade é cada vez maior. Nutrem-se a divulgação de notícias falsas e a manipulação de informações, em função de conveniências e interesses escusos. As tecnologias comunicacionais facilitam opinar sobre todos e tudo. Uma vez a verdade comprometida, a sociedade perde o rumo, dificilmente encontrando caminhos promissores. Tudo tem seu tempo certo, “tempo de calar e tempo de falar” (Ecl 3,1; 7). Quando se deve falar? E quando é oportuno e eficaz calar-se? São Gregório Magno ensinava: “Seja discreto no silêncio e útil com suas palavras, para não falar o que deve calar, nem silenciar quando é necessário falar.” Sobre os pilares da fala e do silêncio fundamentam-se a sociedade, a cooperação mútua, a defesa da Justiça e do Bem.

Hoje, multiplicam-se escolas de oratória, imitação dos retores da Grécia e Roma antigas. No entanto, inexistem cursos para ensinar o que convém ou se necessita dizer. Ao se utilizar a palavra de modo superficial, comprometem-se os entendimentos, alimentando-se atitudes pouco eficazes para gerar o Bem. Assim, a sociedade permanece empobrecida, prejudicando o exercício da cidadania. Expressar-se com superficialidade faz com que os sistemas linguísticos disponíveis, em vez de contribuir para a aproximação, acabem construindo uma nova Babel, aprisionando a cidadania na confusão. É lastimável, quando a fala de quem representa o povo é permeada por mediocridades, sofismas, mentiras e narrativas. Inaceitável priorizar-se somente o interesse de partidos políticos ou grupos ideológicos. Lamentável, quando se objetiva somente conquistar certas metas, alheias ao bem comum. Deplorável presenciar as relações familiares, profissionais, políticas ou governamentais orientadas frequentemente por parâmetros de frivolidade.

A incapacidade para falar o que é preciso, isento de inverdades, é sinal de uma falha grave na condição ética e moral do indivíduo e da sociedade. Quem tem a coragem de viver e falar sob o manto da verdade (algo raro nestes tempos de tantas manipulações) contribuirá para a formação de cidadãos autênticos. As comissões parlamentares de inquérito, tendo em vista as inverdades e falta de compromisso com a veracidade, exigem do depoente um juramento de dizer sempre a verdade. Entretanto, Pilatos já tinha dúvida a respeito disso, ao questionar Jesus Cristo: “Quid sit veritas?” (O que é a verdade? – Jo 18, 38).

Hoje, especialmente, fala-se para agradar ou desconstruir, mesmo havendo incoerência com as próprias convicções. Certa vez, ouvi Dom José Delgado, indagando do saudoso Monsenhor Walfredo Gurgel o que ele achava mais difícil como político. Dissera-lhe, incontinenti: “Viver o Evangelho.” Este determina: “Seja o vosso sim, sim; e o vosso não seja não” (Mt 5, 37). E, em seguida arrematou: “Infelizmente, quando os políticos dizem sim, significa talvez. Quando afirmam talvez, quer dizer não. E se dizem não, certamente não são políticos.” Em certas situações, a verdade é dita pela metade para alcançar objetivos pouco nobres. Opiniões e juízos são emitidos sem o conhecimento adequado da realidade, prejudicando a promoção da justiça, prevalecendo o subjetivismo e vantagens de alguns. Fala-se a bel prazer para enaltecer ou destruir pessoas. Recordo-me de tempos no Ministério da Educação. Havia uma autoridade que costuma me solicitar a redação de três textos (despachos, pareceres, pronunciamentos etc.): um concedendo, outro indeferindo e o último “enrolando”. Isso é frequente na vida política e administrativa, plena de subterfúgios e conveniências e ausência de verdade. Faz lembrar Millôr Fernandes, ao dizer: “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades.”

Mister se faz aprender a falar e calar-se em sociedade. Nesse sentido, vale remontar ao conceito helênico de “parresia”, dinâmica da linguagem comprometida com a verdade, imprescindível para uma autêntica democracia. A postura do apóstolo Paulo pode inspirar modos nobres de se lidar com a fala. De forma peremptória, assim se expressa na Carta aos Gálatas, manifestando sua coerência e autenticidade: “Tenho eu buscado a aprovação dos homens ou a de Deus? Se quisesse agradar aos homens, não seria servo de Deus” (Gl 1, 10). O discípulo de Cristo, segue o que Ele proclamou: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

 Centenário do Educandário Santa Teresinha (Caicó/RN) 

Padre João Medeiros Filho 

A influência e a importância da Igreja na educação são incontestáveis. Em torno das abadias e mosteiros, catedrais e igrejas, nasceram muitas instituições de ensino. Escolas de padres e freiras formaram gerações. Inesquecíveis o Colégio dos Jesuítas, de João Pessoa, datando de 1747 e o Ginásio do Padre Rolim, fundado em 1848, na cidade de Cajazeiras (PB). No Rio Grande do Norte não foi diferente. A Escola de Latim, do Padre Senador Guerra, criada em 1838, foi um marco na região do Seridó potiguar. Há outros educandários católicos famosos em terras norte-rio-grandenses. Distinguem-se: o Colégio Santa Luzia de Mossoró, datando de 1901; o Imaculada Conceição de Natal, inaugurado em 1902 (fechado em 2012) e o Santo Antônio de Natal (Marista), fundado em 1903. Estes três foram iniciativas de Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, bispo da Paraíba. Inclui-se, dentre as instituições pioneiras cristãs, o Imaculado Coração de Maria, na cidade de Mossoró, nascido do desejo do primeiro bispo potiguar, Dom Joaquim Antônio de Almeida, em 1912. O salmista define a missão de uma escola católica: “Dar-te-ei sabedoria e te instruirei no caminho [do Senhor] a seguir” (Sl 32/31,8). Em 11 de outubro de 1925 surgiu, com as bençãos de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo de Natal, o Educandário Santa Teresinha, em Caicó. Desde sua fundação, é dirigido pela Congregação das Filhas do Amor Divino. À época, governava o estado do RN Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros. Cristão fervoroso, era padrinho de batismo do Cardeal Dom Eugênio Sales. O Santa Teresinha foi o primeiro estabelecimento de educação católica, destinado à educação feminina no Seridó e também das Filhas do Amor Divino, no nordeste brasileiro. Além do governador do estado, foram benfeitores da referida instituição de ensino Cônego Celso Cicco, pároco de Caicó e o prefeito municipal, Coronel Joel Damasceno. Enquanto se construía o prédio, o colégio funcionou na atual sede da Biblioteca Municipal Olegário Vale. Oito freiras do Amor Divino, coordenadas pela Irmã Teresina Werner, chegaram a Caicó e assumiram o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade cristã. Sua missão consistia numa educação capaz de formar pessoas aptas para enfrentar os desafios da sociedade. O objetivo precípuo do Santa Teresinha consiste em proporcionar uma educação feminina integral, alicerçada numa cultura sólida, construída sobre valores cristãos. Por isso, o programa educacional do referido educandário sempre contou, não apenas com atividades curriculares, mas também extracurriculares como práticas espirituais, aulas de canto, música, pintura, bordados, artes etc. Caicó tinha consciência da necessidade de uma educação feminina para as famílias, tornando a mulher dinâmica e participativa na sociedade. Entendeu também que sua inserção social não podia relegar a segundo plano a opção religiosa. No dia 1º de fevereiro de 1926, concluído o edifício, inicia-se o ano letivo, com 72 alunas matriculadas. O nome da instituição recebeu a denominação de Santa Teresinha, homenageando a santa francesa, cuja canonização ocorreu em 17 de maio de 1925. No início do funcionamento acadêmico as religiosas, que não dominavam a língua portuguesa, contrataram professores para ensinar a língua pátria, não só às alunas, mas também às freiras. Naquele ano, o educandário recebeu visitas ilustres: Dr. Washington Luís, Presidente da República, o escritor Mário de Andrade e o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Em 1941, passou a oferecer o Curso Comercial de Contabilidade, reconhecido pela Portaria de janeiro de 1948. Em 1943, por iniciativa do primeiro bispo da Diocese, Dom José Delgado de Medeiros, foi instalada a Escola Doméstica Popular Darcy Vargas. Portaria Ministerial (MEC), datada de 1947, concedeu o reconhecimento do Curso Ginasial, já autorizado anteriormente para fins de funcionamento. Em 1971, a designação de Colégio foi substituída pelo nome de Educandário Santa Teresinha. Em 1972, com a reforma do ensino fundamental e médio, o Colégio passou a matricular também alunos do sexo masculino, tornando-se escola mista. Em 2004, o educandário foi ampliado com a oferta do Ensino superior, ministrado na Faculdade Católica Santa Teresinha. Esta foi vendida em 2023 ao Grupo Educacional Sucesso S/S Ltda. Diz o Livro dos Provérbios: “Eu te mostrei as vias da sabedoria e te conduzi pelos caminhos da equidade” (Pr 4, 11).

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

 Bíblia, Palavra divina e humana 

Padre João Medeiros Filho 

A Igreja dedica o mês de setembro à Sagrada Escritura, em homenagem a São Jerônimo (que a traduziu do aramaico, hebraico e grego para o latim), cuja festa litúrgica é celebrada no dia 30. A Bíblia é Palavra divina e literatura. Apresenta peculiaridades distintas dos estilos literários clássicos. Não raro, verifica-se uma visão distorcida dos textos sagrados. Alguns os concebem de forma literal, isto é, apenas denotativa e não conotativamente. Por meio deles, Deus fala ao ser humano. Isto não significa que nada pode ser questionado. Há uma dimensão metafórica nos Livros Inspirados. É importante saber em que consistem inerrância e inspiração bíblicas, até onde vão sua compreensão e extensão. A forma literária, os discursos, contextos culturais e históricos não são necessariamente inspirados do ponto de vista bíblico-teológico. Tais elementos consistem no contributo das comunidades da época. Dir-se-ia que o Antigo e o Novo Testamento são uma obra em coautoria. O homem dá a sua colaboração, presente no estilo e no modo de narrar ou escrever. Deus inspira conteúdo e mensagem. A literatura tem uma força própria de expressar a realidade, de maneira rica em significados simbólicos. A poesia, em especial, consegue fazê-la de um modo que a linguagem habitual não realiza. A Bíblia é como um grande poema. Há muito mais do que lemos num texto poético. Assim é a Sagrada Escritura. Com o advento dos métodos históricos e críticos (em especial, a “formgeschichte”, teoria das formas), tem-se uma abordagem mais realista dos Textos Sagrados, enquanto produção literária, fazendo superar leituras fundamentalistas e ingênuas. Sem perder o caráter sacro, vai se revelando paulatinamente tecida por mãos humanas. Não se pode esquecer que os escritos bíblicos foram concebidos e grafados, ao longo de séculos, em línguas desconhecidas pela maioria dos leitores atuais. A partir de novas luzes das ciências, identificaram-se nos Livros Inspirados vários estilos e gêneros neles utilizados. Descobriram-se tradições religiosas subjacentes, métodos como os autores trabalharam ao escrevê-los, bem como estruturas literárias e formas. Assim, surgem as abordagens da Sagrada Escritura, sob diversas perspectivas: teológica, sociológica, literária, histórica, antropológica-cultural etc. São enfoques que se completam e ajudam o leitor a penetrar mais profundamente nos Testamentos, percebendo ali a mensagem da Palavra divina. É preciso possuir certos conhecimentos para adentrar no mundo dos Textos e descobrir a mensagem salvífica e libertadora – que se encontra por trás das palavras – revestida de linguagem humana e carga cultural, implícita em qualquer forma de literatura. Isto permite distinguir aquilo que é classificado pelos exegetas e hermeneutas como: “o dito” e “o afirmado.” Há vários exemplos dessa diferença. Veja-se a narração do capítulo 11 do Levítico. Ali, proíbe-se ao povo da Antiga Aliança o consumo de carne suína. Tratava-se, dentro do contexto daquele tempo, de uma proteção à saúde. A mensagem bíblica atualizada não recomendaria, atualmente, o consumo de alimentos gordurosos, processados, contaminados com agrotóxicos, cheios de conservantes e corantes, danosos ao ser humano. A proibição religiosa de ingerir, à época, carne de porco (dito) traz uma mensagem: evitar alimentos nocivos à vida, dom precioso de Deus (afirmado). Assim, a Bíblia é literatura no tocante ao dito. E quanto ao afirmado, é teologia, mística, espiritualidade e Ética. A mensagem está contida no afirmado. E aqui reside a inerrância bíblica, garante a Igreja. O dito é a roupagem literária daquilo que se quer transmitir a mensagem perene (o afirmado). Importa saber que na Sagrada Escritura Deus se faz presente, mesmo quando não referido explicitamente. Cada livro bíblico possui estreita relação com o contexto de origem. Apesar de possuir objetivos e destinatários definidos, tem uma mensagem universal e atual. Por fim, propõe um modo de proceder (Ética e Moral), um saber (conhecimento teológico) que decorre da fé em Deus. Isto faz dos livros bíblicos uma literatura especial, que lhe permite ser chamada Palavra de Deus, revelada aos homens. E no tempo e na história humana, o “Verbo [Cristo] se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Jesus é a Palavra Viva, diante da qual expressou Pedro: “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

 


Monsenhor Lucas, aniversário sacerdotal 

Monsenhor Lucas Batista Neto foi agraciado com muitos carismas e virtudes. Encanta-nos o seu jeito de ser: espontâneo, criativo, disponível, manso, simples e fraterno. Tem a serenidade dos místicos, a ousadia dos jovens e a prudência dos idosos. Sensível, sofre demais, quando tem que dizer não a alguém. Como seguidor de Cristo se compadece dos irmãos, ao sentir a desolação de tantos que parecem “ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). Suas palavras inspiradas e reconfortantes nos tranquilizam. Suas preces fortalecem a todos. Seu coração de pastor leva-o a rezar pela grei que Cristo lhe confiou. Suplica a Deus por aqueles que acumulam fortunas, mas mendigam o pão da alegria. Roga ao Pai por intelectuais e eruditos, desprovidos de Luz. Intercede pelos que detêm poder e glória, mas carecem de paz. Apieda-se das vítimas de uma solidão povoada. Lamenta por aqueles que falam diversos idiomas, mas desconhecem a linguagem do amor. Rejeita o pecado, mas se condói dos pecadores e lembra Exupéry: “Ninguém é perfeito no país dos homens.” Procura ser próximo, diante de tanta indiferença e individualismo. Monsenhor vive a mensagem do apóstolo Paulo: “Fizme tudo para todos a fim de salvar alguns” (1Cor 9,22). Nosso aniversariante tem o encanto por Deus. Ama encontrar o Eterno na beleza da Palavra Sagrada. Eis porque pediu a Dom Nivaldo Monte que o ungisse sacerdote no Domingo da Bíblia. Ele não lê apenas a Sagrada Escritura, procura vivê-la e sente Deus falando no Saltério do Ofício das Horas. Não cumpre simplesmente o ritual da Missa, é um sedento de Cristo, vivo na transcendência litúrgica. Tudo é manifestação do Eterno. Tem consciência de que “A Bíblia permite-nos penetrar na intimidade de Deus”, como afirmava Santa Edith Stein. 2 Há cinco décadas e meia, Monsenhor Lucas tem sido, nesta Cidade, elo entre Deus e os homens, ponte entre o Eterno e o efêmero, o Divino e o humano. Ele vive a recomendação de Dom Helder Câmara, sobre quem prepara um livro: “Uma coisa tu podes e deves fazer sempre por todos: rezar. Deus escutará a tua prece de homem consagrado.” A Igreja necessita de arautos do Evangelho, que conheçam bem o coração das pessoas, participem de suas alegrias e esperanças, angústias e tristezas, sejam contemplativos e apaixonados pelo Sobrenatural. É preciso que vivam como pais amorosos e irmãos aconchegantes. Nosso homenageado sempre transmite tais sentimentos. Somos gratos, Monsenhor, por buscar romper em nós, seus irmãos na fé, a pretensiosa autossuficiência, convencendo-nos de que só Deus nos basta. Somos gratos pelas belas lições inspiradas no Evangelho, transmitidas em seus programas radiofônicos, retiros, excursões e homilias. Você nasceu profeta. Pregou firme, ao ver fraqueza. Ensinou ternura, ao sentir rigidez. Irradiou amor, quando presenciou insensibilidade ou ira. Ensinou diálogo, quando percebia radicalização. Foi viandante e peregrino no seu profícuo apostolado: em Pendências, Ipanguaçu, São Rafael, Macau e Natal. Demonstrou aos fiéis que a Igreja não possui fronteiras e agrega. Em suas celebrações reúne fiéis de diferentes lugares, condições sociais ou culturais. Hoje, reunimo-nos para expressar nossa gratidão pelo privilégio de seus conselhos, bençãos e amizade. Nós o amamos deveras. O amor dispensa palavras e o reconhecimento é maior do que o discurso. Na singeleza de nossas palavras, queremos externar nosso agradecimento. A gratidão é parte integrante da nobreza da alma. Monsenhor Lucas é manifestação terrena do carinho de Deus por nós. Cabem-lhe bem as palavras de João 3 Paulo I, quando Patriarca de Veneza: “Os sacerdotes valem muito, quando são sacrários do Infinito.” Desafios e lutas acompanham a sua trajetória humana. Participativo e solidário, ainda jovem, Lucas procurou ajudar os pais a educar uma família de onze irmãos. Na juventude chegou a ser frentista de posto de gasolina e sorveteiro. Na infância vendia leite e coalhada, de porta em porta, para ajudar sua mãe, uma santa e heroína. Em todas as dificuldades permaneceu fiel a Deus. Não guarda traumas e recalques por conta de tristezas e decepções. Conservou sempre a alegria em sua alma, a bondade no coração e as mãos estendidas para perdoar e acolher. Pode dizer: “Combati o bom combate, guardei a minha fé” (2Tm 4, 7). Muito lhe deve o Povo de Deus, especialmente a Arquidiocese de Natal, onde desempenhou importantes funções: pároco, vigário episcopal, professor, coordenador estadual do ensino religioso, membro dos conselhos presbiteral e episcopal, consultor arquidiocesano, capelão, diretor de faculdade, criador de mais de trinta pastorais católicas e serviços paroquiais. Foi gigante na preparação para a vinda de São João Paulo II a Natal para o Congresso Eucarístico Nacional. Dentre tantas virtudes que possui, distingue-se pela simplicidade e lhaneza, capacidade de servir, obediência, espírito de fraternidade e alegria cativante. Presença amiga e autenticamente solidária nos momentos de alegrias, dores e tristezas de seus paroquianos, amigos, enfim do Povo de Deus. Já me administrou duas vezes a unção dos enfermos e, quando estou doente ou hospitalizado, nunca me deixou sem o conforto da Eucaristia. Raríssima é a semana em que não está presente nos centros de velório e cemitérios, confortando as famílias e falando sobre a vida em plenitude. Nosso homenageado é um bom pastor, que ama verdadeiramente seu rebanho. “Só quem ama é capaz de ter 4 ouvidos”, dissera o poeta Olavo Bilac. Por isso, sabe escutar. Desse modo, tornou-se muito estimado e respeitado em toda Natal. Sua inspiração brota do Evangelho: a Boa Nova. Lucas prima pela criatividade e disponibilidade. O Cardeal Carlo Martini, arcebispo de Milão, escreveu a seu clero: “Os padres que não são disponíveis não podem ser chamados de discípulos de Cristo, pois o Filho de Deus estava sempre pronto para acolher e perdoar.” Hoje, temos a imensa alegria de agradecer ao Senhor da Vida por ter um irmão tão querido pelo Povo de Deus. É amado, porque irradia Deus e sua paz a tantos nesta Cidade. Que o Senhor o conserve são, lúcido, alegre, generoso e forte. Continue, Lucas, afirmando que é importante o balbuciar da prece. Esta carrega a marca do Divino, fornalha que arde em nosso coração. O Espírito Santo o ilumine sempre e fortaleça a sua alma, console-o nas tribulações e aumente a sua fé na graça que transforma o homem e o mundo. Caríssimo irmão, sinta sempre a força do Alto e possa dizer como Santo Agostinho: “Sei, Senhor, que me conduzes pelas estradas do amor e da misericórdia. Tu, que penetras em minha alma e invades minha vida; a Ti, somente a Ti eu quero amar, a Ti somente a Ti desejo servir”! Obrigado Lucas pelo seu amor à Igreja e sua vida de completa doação a Cristo. Você poderá cantar como Maria Santíssima no Magnificat: “O Senhor fez em mim maravilhas, santo é o seu nome” (Lc 1, 49). Meu afetuoso abraço e que Deus nos abençoe sempre. Amém! Catedral Metropolitana de Natal, 26 de setembro de 2025. 

Padre João Medeiros Filho