terça-feira, 4 de março de 2025

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 09

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

ÚLTIMO DIA DE FOLIA

            Com o gosto de “quero mais” para uns ou finalmente, para outros, concluímos mais um período carnavalesco na Praia de Cotovelo, onde passei muitos anos brincando ou aproveitando a natureza com a minha saudosa THEREZINHA.

            Em 2019, ano de sua Páscoa definitiva, lancei em janeiro o livro PROMOVEC – uma bela história e coincidentemente o Carnaval foi em março. Assim, terminamos o veraneio e retornamos a Natal. Comprei as camisas da 3ª Cotovelada, mas inusitadamente na volta à nossa Capital nos deparamos com os problemas de saúde dela e o Carnaval passamos no hospital da UNIMED até o desfecho da sua partida no último dia daquele mês.

            Nos anos seguintes aproveitei o veraneio, mas sem participar de nenhum momento da festa de Momo, mas acompanhei pelos informes de WhatsApp.

            Neste 2025, após a posse da nova Diretoria da PROMOVEC, vivenciamos momentos desagradáveis que me obrigaram a deixar de participar dos grupos de informação, posto que esqueceram o que fiz em colaboração com a referida entidade. Sem problemas.

Grupo de pessoas em uma praça

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            Mesmo ausente, registrei com alegria o bloco da 7ª Cotovelada, saindo em todos os dias de Carnaval e coletei informações de que tudo saiu bem. Parabéns para os promotores da festa, ao tempo em que desejo que a harmonia seja a tônica para o restante do ano.

 

Pessoas sentadas ao redor de uma mesa

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            Neste último dia de folia tive a satisfação de receber a visita do Padre Edvaldo Mota, novo pároco de Pirangi/Pium/Cotovelo e adjacências, juntamente com uma colaboradora da Igreja, guiados pelo nosso estimado Octávio Lamartine, que desejava algumas informações sobre a Casa de Pedra de Pium e do seu donatário João Lostau Navarro, mártir de Uruaçu e co-padroeiro de Pium, juntamente com Santa Luzia.

            O referido religioso tem uma missão para dar ênfase ao Santo Mártir, a pedido da Arquidiocese de Natal, o que tenho condições de colaborar com algumas pesquisas que venho trabalhando há algum tempo.

            Não se trata de fazer turismo religioso, mas ressaltar a qualidade do Santo João Lostau, para justificar a sua condição de santificado pelo Papa Francisco, mas quase inteiramente desconhecido da Comunidade religiosa do Distrito de Pium.

            Esse fato trouxe-me compensação pelos percalços que sofri com alguns associados da PROMOVEC, mostrando que ainda posso fazer alguma coisa pela Comunidade, na esperança de que nossos Padroeiros (Santa Luzia e Santo João Lostau) restabeleçam a paz e harmonia tão ansiada pelos que habitam este pedaço de chão.

            O veraneio terminou e com ele o Carnaval – agora vamos viver a Quaresma, com todo fervor possível e o restante do ano que começou, com decisões positivas e favoráveis ao binômio sossego-progresso.

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(*) Veranista desde 1989.

domingo, 2 de março de 2025

 


Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 08

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

 

O QUE É O CARNAVAL?

Taí. Uma pergunta complicada! CARNAVAL é um estado de espírito, uma tradição, um período religioso ou simplesmente uma folia? Creio que tudo isso junto.

Sua origem é remota, começou como festividade meramente pagã da Antiguidade, com os entrudos das cidades europeias, com fantasias e carros alegóricos.

Atravessando culturas diferentes, tendo por motivo a inversão das coisas, daí a eleição de um mandatário próprio (Rei Momo), homens vestidos de mulher e vice-versa, máscaras para esconder a identidade, sendo depois incorporado ao calendário cristão como celebração antes da Quaresma. Chegou ao Brasil com influências europeias, africanas e indígenas, tornando-se a festa exuberante de hoje.

Embora seja um acontecimento que lembra festa, alegria, folia o Carnaval tem uma história complexa, envolvendo tradições religiosas e festividades mundanas.

Sua chegada ao Brasil foi precisamente pelos colonizadores portugueses no século XVII, com o mela-mela de farinha, água e outras substâncias, às vezes até nocivas, numa brincadeira popular. Aqui no Rio Grande do Norte tem até o “Bloco dos Cão”, onde as pessoas se encharcam na lama dos mangues e põem chifres nas cabeças

No passar do tempo o Carnaval brasileiro foi se tornando cada vez mais aperfeiçoado, chegando no atual século à condição de apoteose de beleza e cultura, com as escolas apresentando enredo e homenageando pessoas, atraindo turistas e marcando uma das atrações de maior comparecimento de estrangeiros e pessoas nacionais, para os espetáculos das cidades mais notadas como Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Recife, sem excluir os bailes nos clubes e nas ruas, tornando-se a nossa maior atração.

Desde o ano de 1932, com a colaboração do jornalista Mário Filho, a popularização do Carnaval gerou a criação das grandes escolas de samba, nos bairros mais importantes das cidades, contribuindo para o aperfeiçoamento de sambas-enredos, transformando-se na maior festa popular do Brasil.

A sociedade vem procurando conciliar o lado profano da bebida, fantasias e barulhos com o início da Quaresma, com jejuns e outras abstinências. É o contraste entre o exagero e a reflexão.

Com a atração turística, temos os grandes gastos das escolas e imenso lucro para as cidades, seja o poder público ou os populares autônomos.

Uma realidade indiscutível – hoje o Carnaval é um estado de espírito do brasileiro, que se sacrifica para garantir belos desfiles e busca do título maior do certame.

Dificilmente um jovem ou uma jovem não passou por esses encontros que se tornaram icônicos na vida de cada um, em suas histórias de vida.

Fui um grande folião, brinquei em escola de samba, pulei nos salões do América, ABC, Alecrim Clube, Brasil Clube e Assem. Participei dos “assaltos” às casas de família, por convite dos seus responsáveis. Não me arrependo de nada e o Carnaval é um capítulo da minha vida.

Agora no outono da vida, só calmaria, paz e quaresma.

 

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

 



JARDELINO DE LUCENA FILHO, O SEMEADOR DE VIRTUDES 

No panteão de notáveis que fazem parte da história de Natal e do Rio Grande do Norte avulta o nome do advogado, professor universitário, historiador e artista plástico Jardelino de Lucena Filho. Nascido em João Pessoa (PB), a 16 de dezembro de 1938, veio morar em Natal, ainda na infância, com os pais Jardelino de Lucena e Joana Soares de Lucena. 

Na menor idade ajudou o seu genitor no Tabuleiro da Baiana, construção erguida em concreto armado para abrigar usuários de bonde, e que funcionava nas imediações da praça Augusto Severo, no bairro da Ribeira. O abrigo ganhou esse nome por apresentar no centro do teto triangular, a gravura de uma baiana. 

As primeiras letras aprendeu no Colégio Santo Antônio (Marista), cursando o primário, ginasial e comercial, no período de 1946 a 1957. Cursou também o Científico no Atheneu Norte-Riograndense. A sua formação acadêmica foi construída na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), de 1958 a 1962, onde fez bacharelado na “arte do bom e do equitativo”. Inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seção RN, sob o nº 231, a partir de 28 de maio de 1963, exerceu com dignidade o seu ofício. 

Na busca infinda do conhecimento agregou ao currículo vários cursos e uma pós-graduação na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, no período de 1964 a 1966, por orientação do amigo e mestre Luís da Câmara Cascudo. Estabelecido na Academia, Jardelino foi professor de Ciência e Política, do Curso de Sociologia da Fundação José Augusto (1967 a 1970); professor de Sociologia e Ciência Política da Escola de Serviço Social (1967 a 1971); coordenador do Departamento de Ciências Sociais da Escola de Serviço Social da UFRN (1968); chefe do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Sociologia e Política da Fundação José Augusto (1968); professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no período de 1970 a 1991 (ano da aposentadoria), lotado no Departamento de Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), tendo ministrado em diversos cursos da UFRN as seguintes disciplinas: Sociologia I, Sociologia II, Sociologia Rural, Sociologia Urbana, Ciência Política I, Métodos de Análise em Ciência Política, Demografia Social: Aspectos Sócios Culturais do Nordeste; além de diretor de Assistência ao Estudante Universitário na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da UFRN (1971 a 1974); pró-reitor substituto da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da UFRN (1971 a 1974); chefe do Departamento de Estudos Sociais do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da UFRN (1974 a 1976) e diretor do já citado CCHLA, no período de 1977 a 1981. 

Honrou a cátedra que ocupou na UFRN, onde desempenhou muitas missões em benefício da instituição. Em 1979, foi-lhe outorgada a Medalha do Mérito Universitário. Faz-se necessário frisar que quando o governo militar, instaurado a 31 de março de 1964, fechou os cursos de Jornalismo e de Sociologia, Jardelino teve intensa atuação para a criação dos cursos de Comunicação e Ciências Sociais, no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. O aproveitamento dos professores nos quadros da UFRN resultou de trabalho dele, com o apoio do então reitor Onofre Lopes. 

Para além da Academia, Jardelino organizou o Instituto Varela Barca, exerceu cargos públicos, destacando-se como chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Educação e Cultura (1960), oficial administrativo da Secretaria de Estado das Finanças, Natal/RN (1961 a 1967), coordenador geral da Secretaria Estadual de Trabalho e Bem-Estar Social (1975 a 1977), secretário geral adjunto do Ministério da Administração Federal - Brasília/DF (1985 a 1987), como também secretário de Planejamento da Prefeitura Municipal de Macaíba/RN (Jan. a Jun./2001). 

Na acepção de amigos próximos, o professor Jardelino Lucena era, antes de tudo, um humanista. Trabalhou no Movimento de Natal, obra memorável do então bispo Dom Eugênio Sales. Foi locutor e noticiarista na Rádio de Educação Rural; depois repórter e diretor de redação do jornal católico A Ordem. O vínculo com o clero veio da militância na Juventude Estudantil Católica (JEC) e depois na Juventude Universitária Católica (JUC). 

No movimento estudantil católico (JEC/JUC) participou de debates sobre os fundamentos da Doutrina Social da Igreja, originária da Encíclica Rerum Novarum, de 1891, do Papa Leão XIII. No Movimento de Natal, em finais de semana, eram frequentes os ciclos de estudos com diversos intelectuais natalenses ou radicados na capital. Grávido de virtudes, foi, ainda, uma das peças-chave na montagem da equipe leiga do Serviço de Assistência Rural (SAR), onde os participantes se uniam a sacerdotes, em mobilização pela busca da justiça social. Jardel, como era carinhosamente chamado por seus colegas, ajudou no nascimento da Campanha da Fraternidade, inspirada no Concilio Ecumênico Vaticano II, uma iniciativa do SAR, no ano de 1962. 

Em 1964, o jornal A Ordem estampou manchete de primeira página: "Campanha da Fraternidade realiza-se em todo o Brasil". Tudo começara na cidade de Nísia Floresta, com visitas fraternas, durante a Semana Santa, às comunidades pobres, com doação de alimentos e utensílios domésticos, incentivados por Dom Eugênio Sales. Vida pessoal Na condição de ser gregário, Jardelino Lucena casou em primeiras núpcias com Renira Mota de Lucena (in memoriam), mãe de suas filhas Adriana Mota, mestre em Direto Internacional e chef de cozinha, e Juliana Mota de Lucena Alves, formada em Administração e em Direito, casada com Arnaud Alves Flor, com quem tem os filhos Nathalia (psicóloga), Daniel (engenheiro eletricista) e Arnaud (acadêmico de Medicina). 

A doce boca dos amigos propala que Jardelino era um bon vivant. Apreciava charutos que molhava no conhaque, gostava de cafezinho, bons papos e tinha uma risada peculiar. Ele frequentava a Livraria Poty, no centro de Natal, onde se reunia com amigos para bate-papos intelectuais. Outra faceta de Jardel era pesquisar a culinária potiguar. Escreveu diversos artigos sobre o tema, tendo colaborado no projeto editorial Leituras Potiguares, do extinto Diário de Natal, onde no fascículo n°. 5, de 11 de novembro de 2007, publicou o artigo “A Culinária Riograndense do Norte”. Deixou encadernado um volume com doze fascículos como herança da nossa estupenda culinária. Ele fez parte também da elaboração do livro 400 Nomes de Natal, organizando a pesquisa e redação com Nelson Patriota, Deífilo Gurgel, Manoel Onofre Júnior e Rejane Cardoso. 

Outra participação relevante do historiador foi no livro Construtores da Ágora Soberana Potiguar: Múltiplas Memórias: Professores do Atheneu Norte-Rio-Grandense (1892/ anos 1960). Na compilação de 38 textos sobre mestres que marcaram época no Atheneu, organizada por Eva Cristini Arruda Câmara Barros e Diógenes da Cunha Lima, Jardelino colaborou escrevendo o perfil de Protásio Melo e outras pesquisas inéditas. 

Casado em segundas núpcias com a professora aposentada do Departamento de Sociologia da UFRN e mestre em Sociologia, Ana Amélia Fernandes de Lucena, conta que o ex-marido tinha por hobby a pintura, com um trabalho muitíssimo elaborado, destacando-se ricos detalhes da nossa paisagem tropical. Outra paixão do pesquisador foi a gastronomia. Sobre o tema publicou as obras Sopa é Sopa e ainda inédito Fundamentos da Culinária … Nem Só de Jerimum. 

O professor Jardelino Lucena faleceu no dia 23 de março de 2021, aos 82 anos, e foi sepultado no dia 24, às 11 horas, no cemitério Morada da Paz, em Emaús. Combateu o bom combate contra um câncer no pâncreas. As suas últimas semanas de vida foram de resignação e a sua passagem para outro plano, tranquila. Foi-se o homem e ficou a obra. 

Carlos Lucas é poeta, contista, articulista e pesquisador.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

 

Considerações sobre laudêmios e foros

Padre João Medeiros Filho

A presente abordagem não se reveste da pretensão de cunho jurídico e técnico. Trata-se de uma experiência sobre o assunto, quando éramos pároco e chanceler do bispado, em Caicó (RN). Laudêmio e foro datam dos tempos coloniais, remontando às capitanias hereditárias, quando a Coroa Portuguesa outorgava aos donatários direitos sobre determinadas porções de seu domínio no Brasil. Consistia num repasse de glebas a pessoas físicas e entidades. Esse costume foi sendo seguido, disseminado e adaptado. Assim, no passado, em decorrência de promessas aos santos, tornou-se usual entre os católicos, como símbolo de gratidão, doar terras à Igreja (nela incluindo-se irmandades, congregações e associações religiosas, padroeiros, paróquias etc.). Era muito comum casas residenciais e comerciais edificadas sobre os terrenos “do santo ou da santa”. Muitas terras doadas aos santos padroeiros, antes da expansão das cidades, estão situadas hoje em zonas urbanas.

Infelizmente, muitos bens vinculados à Igreja, têm sido dilapidados, alienados levianamente e espoliados, por incúria de gestores. É uma afronta a seus doadores, à história e à memória daqueles que de boa-fé fizeram os legados, por vezes gravando cláusulas de inalienabilidade. Seguiram o preceito bíblico: “Ninguém comparecerá diante do Senhor, de mãos vazias. Cada um trará uma oferta, conforme as bênçãos que o Senhor houver concedido” (Dt 16, 17). Convém lembrar que parcela considerável do patrimônio dos bispados de Caicó e Natal tem sido preservada, graças ao zelo e dedicação de Dr. Vital Bezerra de Oliveira.

Além dos terrenos da Igreja, sobre os quais incidem laudêmio e foro, há também os da família imperial brasileira e os que pertencem à Marinha (União). Estes últimos estão localizados na zona litorânea, inclusive nas ilhas. Em 1831, tal faixa de terra foi delimitada a trinta e três metros da maré mais alta, em relação à linha de preamar. A União possui mais de trinta por cento dessas terras, sendo o restante dos demais proprietários.

A Igreja, considerando as suas necessidades e as dos cidadãos, foi disponibilizando parte de seu domínio para o usufruto de terceiros, sem a perda da propriedade. Disto, origina-se o laudêmio: uma taxa pecuniária compensatória paga ao legítimo dono, quando da transmissão do terreno, havendo ou não edificações. Consiste numa pequena parcela participativa no lucro auferido, proporcionado também pelo uso do terreno. Há ainda a contribuição anual pela ocupação do solo, denominada foro, isto é, uma compensação monetária pela utilização de um espaço pertencente à Igreja ou a outros proprietários.

Laudêmio é uma taxa devida pelo beneficiário do domínio útil ao seu legítimo proprietário. Não é um tributo, mas contraprestação financeira. A cobrança é legal e legitima. Há assentada jurídica para a base dos cálculos, incidindo sobre o valor venal do terreno, onde eventualmente são edificados prédios. Caso a transmissão se dê por herança, o valor não é cobrado. Aos foreiros pertencem as construções e benfeitorias, não os terrenos sobre os quais se edificam, sendo eles patrimônio da União, Igreja, família imperial brasileira etc. Eis a origem das taxas, obedecendo à tradição do ordenamento jurídico brasileiro. Cabe informar que há amparo legal para a sua cobrança, previsto pelo Código Civil Brasileiro (atualizado pela Lei nº 10.406/2002), no Artigo 2038. Hoje, o laudêmio dos terrenos da Marinha (União) é regido pela Lei 14.011/2020. Entretanto, tramitam no Senado Federal e na Câmara dos Deputados projetos de lei (por exemplo, o PL 1855/2024), propondo a extinção de cobrança do laudêmio e foro pela ocupação de terras da União (Marinha). Tais projetos não incluem terrenos pertencentes a outros proprietários. Há quem defenda estender para estes a isenção.

O direito dos legítimos donos deve ser respeitado. É uma questão de justiça e honestidade. As taxas recebidas visam a ajudar na manutenção das obras da Igreja com sua visão amplamente social, assistencial e educativa. Para os cristãos, do ponto de vista teológico-canônico, a obrigatoriedade das taxas laudemiais e foreiras inclui-se no dever religioso do dízimo. Para tanto, recomenda o apóstolo Paulo: “Que cada um dê sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9, 7).

Revisitando a Casa de Pedra de Pium


Foto do acervo do Natal das Antigas

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 07

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

Revisitando a Casa de Pedra de Pium

            Este é um assunto que me fascina desde algum tempo. Sobre ele já publiquei alguns artigos em Cartas de Cotovelo, em livro e Revistas do IHGRN e ANRL, motivando uma condensação do tema, com correções e ampliações.

            A Casa de Pedra de Pium, que também se estuda como de Pirangi, ficou conhecida a partir da sua apropriação pelo francês João Lostau Navarro, também várias vezes referido como João Lostão, Lostao, Juan, Joan, Juaron, Juáo, Lostrão, Lostrau, Lo Stosa, Juan de Stau, d’Stau e outras, mercê de uma literatura oral que provocou tais desdobramentos de escrita.

            O que importa é que esse cidadão é oriundo do Reino de Navarra (Navarra baixa dos Pirineus, ou parte litorânea), que fora incorporado à Espanha no Século XVI, em 1511, no reinado de Fernando V e retomado pela França em 1589, por Henrique III(1) e que foi incorporado como patronímico de Lostau..

            Pelas inúmeras pesquisas, a Casa de Pedra de Pium, que fica bem perto da praia de Cotovelo (Município de Parnamirim), mas registrada no Município de Nísia Floresta, teria sido construída pelos franceses em 1555 para guardar o pau brasil retirado de suas cercanias para negócios.

            Com a expulsão dos franceses do Brasil provavelmente em 1567, os portugueses assumiram a sua propriedade, concluindo os trabalhos de construção em 1570, e concedendo autorização a pessoas para a exploração, sendo incorporada ao acervo do francês João Lostão Navarro que a transformou em depósito de mercadorias, conforme Carta de Data nº 15, de 1º de março de 1601, concedida por João Rodrigues Colaço, acrescentada a outras sesmarias que o mesmo já possuía, onde teve morada de 1603 a 1645. Essa construção recebeu outras denominações como Porto de Búzios, Casa Forte de Pirangi e Casa da Praia do Porto Corado (ao tempo da Companhia das Índias Ocidentais – invasão dos holandeses, 1621).

Esse monumento arquitetônico, com cerca de 338m2 tem enorme importância histórica por ter sido das mais antigas construções em alvenaria do Brasil, utilizada como armazém e forte, onde Lostão, esse donatário de terras brasileiras, era um católico de bons costumes, prestimoso com a população, dando-lhe emprego e guarida em suas casas do “Porto de João Lostão”(2) , identificada na lagoa de Camurupim, onde explorava a pesca, dava proteção aos cristãos perseguidos por Jacob Rabbi, em decorrência do que foi preso na Fortaleza dos Reis Magos e de                               __________________________________________________________________________________

(1)    (1) ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005; GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed. FJA/FHG, Natal, 1999.

(2)    (2) Corresponde ao atual Porto de Tabatinga, outrora também chamado de Porto Seguro. Compõe rico aquífero da região, com braços nos Municípios de Parnamirim e Nísia Floresta, notadamente passando por Alcaçuz e Pium.

lá levado para Uruaçu onde foi trucidado com outros católicos, sendo declarado mártir da Igreja (3), com o qual tenho parentesco por parte de mãe, segundo pesquisa em meu poder.

A Casa de Pedra está estrategicamente erguida de maneira a dar uma visão ampla de onde se descortina toda a orla marítima desde os contornos de Ponta Negra até os de Pirangi, e por isso causando incômodos e conflitos com os holandeses, por ser considerada um fortim. 

Vale lembrar que as investidas dos holandeses começaram na Bahia, em 1624/1625, de onde foram rechaçados. Então, em 1630 partiram para uma segunda tentativa de invasão no Brasil, mais precisamente em direção ao Nordeste, chegando a Pernambuco em 1633, atraídos pela existência de produção de cana-de-açúcar, do que eles já tinham notícia, pois aqui estiveram em julho de 1625, no Engenho Cunhaú, sob o comando do Capitão Uzeel, na condição de parceiros de Portugal para a tarefa de refino de açúcar e financiadores do seu engenho, não podendo trazer nada em razão da distância.

De lamentar o absurdo descaso do Município de Nísia Floresta por essa construção secular da engenharia brasileira, pois o acesso é um risco – verdadeira aventura pela sua irregularidade, que comporta somente uma viatura – verdadeiro caminho perigoso. Hoje pertence ao acervo da família de Hélio Galvão.

         Em relação ao donatário João Lostão, a importância desse cidadão tomou corpo na Comunidade, gozando de grande prestígio até sua velhice, estimada em 80 anos, tendo ocupado cargos de importância para a administração da Capitania.

Sua família imediata: pai de Beatriz Lostau Casa Maior, casada com o holandês Joris Garstman, que dirigia o Forte dos Reis Magos, no período do domínio holandês. Outra filha, Maria Lostau Casa Maior, era casada com Manoel Rodrigues Pimentel, que juntamente com Estevão Machado de Miranda, era escabino (espécie de representante do Município) na época da invasão holandesa. Duas fontes dão notícia do nome da sua esposa – Luzia da Mota, o que findou confirmado pela vasta descendência que deixou. (4)

Para nossa tristeza, para nosso Estado, os holandeses não trouxeram bons frutos, como aconteceu em Pernambuco, posto que aqui pretenderam se apossar dos engenhos e combater os portugueses, com o apoio da população indígena. (5)

Em 1634 atacaram pela primeira vez o engenho Cunhaú (6), surpreendendo o fortim dos portugueses, com perda de 12 homens, gerando um pânico entre os moradores da região, que passaram a procurar lugares mais seguros – alguns acolhidos na própria Fortaleza Keulen, ou                    _______________________________________________________________________

(3)   (3) Beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 5 de março de 2000, na Praça de São Pedro, Roma e canonizado pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017.

(4)    (4) Blog dos Amigos de Santo Antônio do Salto da Onça e MEDEIROS,

(5)   (5) Cariris, comandados por Janduí (da tribo dos Janduís), que vinham sofrendo com os portugueses, disso resultando o massacre de Ferreiro Torto (Macaíba), em 1633, com 67 mortos.

(6)    (6)   Esse engenho teria sido comprado, em 5 de julho de 1637 por Joris Garstman e o Conselheiro Baltazar Wyntges mesmo ano em que Nassau visitou Natal e incendiado pelos Janduís em 1645 guiados pelo aventureiro Jacob Rabbi. (CASCUDO, História do RGN, MEC, Rio de Janeiro, 1984, p.67)

Castelo de Ceulen, que corresponde ao Forte dos Reis Magos, outros em uma paliçada e na casa de João Lostão, que lhes deu guarida.

Em razão desse gesto de proteger os cristãos perseguidos pelos calvinistas liderados por Rabbi, correu a notícia de que o referido donatário estaria organizando uma resistência contra o domínio neerlandês e contra ele teria sido expedido um mandado de prisão em 1645, ordenado pelo Grande Conselho Holandês, sediado em Recife, tudo fomentado pelo mercenário Jacob Rabbi (Johanns Rabe), judeu alemão de péssimo caráter, ordem cumprida por Paulus de Linge, governador da Paraíba.

            Completando a incursão anterior sobre Cunhaú (Canguaretama-RN), em 16 de julho de 1645, perpetraram novo massacre de cerca de 35 a 69 pessoas quando assistiam uma missa dominical celebrada pelo Padre André de Soveral, contando com a participação dos Tapuias, Janduís e Potiguares. Os Potiguares, por sua vez, não se importaram com o mínimo respeito aos direitos humanos e consumaram o martírio e os fizeram em pedaços. O cronista Pierre Moreau afirma que todos foram devorados pelos índios canibais.

            Em setembro, Rabbi, com uma pequena força de Tapuias, brasilianos e mais 30 civis holandeses, ocupou o Sítio Lostão, onde assassinaram cerca de 15/16 portugueses.

            Três meses depois do massacre de Cunhaú, nova investida de Rabbi aconteceu em Uruaçu (São Gonçalo do Amarante), com mais 80 mortes, dentre os eles João Lostão, em 3 de outubro de 1645, de forma degradante, mutilando e esmagando órgãos, inclusive de crianças, provocando uma situação calamitosa, num ritual macabro.

            Rabbi, no entanto, também não escapou da ira dos vencidos, que o assassinaram na noite de 5 de abril de 1646, com tiros e golpes de espadas por soldados. Alguns atribuem o fato a uma vingança familiar a mando do Capitão Garstman, já então elevado ao posto de Tenente-Coronel e fora de funções administrativas no Forte, genro de Lostão, afirmando que “o mundo nada perderia se desembaraçassem de semelhante canalha”.

            Os Tapuias exigiram a imediata entrega do militar holandês, agora sem nenhuma função no Rio Grande do Norte, juntamente com o Major Jacques Boulan, que teria sido o cumpridor da ordem a dois soldados para o trucidamento, mas o Inquérito teve tramitação vagarosa pelo Conselho de Justiça e Finanças.

            Pedido de revisão o colocaram em liberdade, retornando à Holanda e nunca se soube do desfecho desse processo.        

A Igreja Católica local, permitiu em louvor da canonização de Lostão, ser alçado à condição de co-padroeiro da Igreja de Pium (Santa Luzia), agora consagrando dois mártires, em momentos diferentes, respectivamente SANTA LUZIA e SANTO JOÃO LOSTAU NAVARRO. (7)

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(7)    (7) Sobre Santa Luzia, registra-se seu martírio por defender a virgindade eterna em nome da sua total devoção à fé e distribuir seus bens com os pobres, pelo que foi condenada à tortura, com a sua colocação em prostíbulo, depois queimada em fogueira, posteriormente a retirada dos seus olhos, tudo porque logrou a proteção Divina e não sucumbiu, dando continuidade à sua missão sagrada, até ter a cabeça decepada.        

Já perdia a esperança em dar notoriedade a um tema de tanta importância para a religião da localidade e para o turismo religioso das praias do Sul – Pium, Cotovelo e Pirangi, divididas entre os municípios de Nísia Floresta e Parnamirim, quando a Arquidiocese de Natal realizou um grande evento diretamente das ruínas da Casa de Pedra e deu a notoriedade ansiada para aquele equipamento urbano, de grande valor histórico e religioso, tanto que Dom Jaime, no decorrer da missa, confessou humildemente que era a primeira vez que tomava conhecimento do valor daquele lugar e do seu proprietário, tornando-se o primeiro dirigente da Igreja Católica a dar testemunho desses valores incomensuráveis.         

Não vou aqui detalhar a importância histórica da Casa de Pedra, mas agradecer os gestos de coragem cristã dos Santos Mártires da Igreja Católica, Santa Luzia e Santo João Lostau Navarro, pela possível intercessão deles para que essa visibilidade ocorresse.

         Vale, por fim, invocar a pregação de São Paulo na Carta aos Coríntios:

 

                Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados.

                 Somos abatidos, mas não somos destruídos.

            Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus,

            para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.

 

FONTES CONSULTADAS_____________________________________________________________

(1)    ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005; GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed. FJA/FHG, Natal, 1999.

(2)    BLOGS: Amigos de Santo Antônio do Salto da Onça; História e Genealogia (Anderson Tavares); INRG (João Felipe); Nísia Floresta (Luís Carlos Freire); Grupo Onça Pintada; Trilhas da História (Maria Lúcia Amaral).

(3)    CALADO, Francisco Manuel. O Valoroso Lucídeno e o triunfo da libertação). SP, Cultura (Carta do Capitão Lopo Curado Garro).

(4)    CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. RJ, MEC, 1984.

(5)    GALVÃO, Hélio. História da Fortaleza da Barra do Rio Grande. FJA/FHG, 1999.

(6)    HB – História Brasileira.

(7)    História do Rio Grande do Norte (Maria Auxiliadora).

(8)    LIRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Brasília, Senado, 2012.

(9)    MEDEIROS, Invoncisio de.

(10) MEDEIROS, Tarcísio da Natividade.

(11) MEDEIROS FILHO, Olavo. Os holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte. IHGRN, Natal, 1998.

(12) MOURA, Pedro. Fatos da História do Rio Grande do Norte. Natal, CERN, 1986.

(13) PEREIRA, Francisco de Assis – Monsenhor. Protomártires do Brasil. Aparecida. Santuário, 2005.

(14) POMBO, Rocha. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Annuário do Brasil, Porto-Portugal, 1921.

(15) PORTAL TUDO DO RIO GRANDE DO NORTE.

(16) PROFESSOR JOTA BÊ. Ciência da Religião.

(17)         SOUZA, Itamar de. Diário do Rio Grande do Norte. Diário de Natal, 1999.

(18)        SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão; MARIZ, Marlene da Silva. História do Rio Grande do Norte Colonial 1597/1822. Natal Editora, 1997 e História do Rio Grande do Norte, Sebo Vermelho, 1997.

(19)       TRINDADE, João Felipe da. Informações pessoais.

(20)      TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra. História do Rio Grande do Norte. Natal, Sebo Vermelho, 2015.

(21)  UFRN. Departamento de Geografia: Anais do XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Florianópolis. Brasil, 21-26 abril 2008, INPE.

(*) Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN)

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

A 5ª DIMENSÃO DO ESTRESSE Valério Mesquita* Mesquita.valerio@gmail.com Tudo incomoda o vivente. O sobrevivente. Provar a sensação amarga da guerra perdida. Contemplar do alto do edifício urbano as maiorias fúteis impondo iniquidades sobre Natal. O ter que se habituar com a visão torta e vesga dos poderosos de plantão que impõem suas regras pela mídia. Natal sem becos, sem esquinas boêmias, sem praças, sem preces, povoadas de vultos inexpressivos que não serão falados amanhã. Extraviaram a noção de história. Os anos inaugurais do século XXI, não têm o glamour dos fatos e das figuras do século passado. O homem coisificou-se. Perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história. Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os poucos náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei se há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continua a ser o Covid, a droga, a violência urbana, a dengue, a chikungunya e a zica. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos e motos, principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade. Fortunas repentinas arremetem-se para o alto iguais ao crescimento vertical da cidade. Não há explicação. Não há investigação. Tudo é volátil e volante. Expresso em arcos voltaicos celebrados na crônica social. É aí que se deduz que toda celebridade quando não é célere, é celerada. Ou fazem de cômicas todas as autoridades. Saio de mim para penetrar na imponderabilidade do oceano que assiste, lá fora, a decomposição humana. A visão misteriosa do oceano pacífica e beatifica o pecador solerte, já dizia o décimo terceiro apóstolo de Cristo, perdido no tempo e no espaço, ainda acreditando na grandeza do último milagre. Mas, estresse é coisa séria. Pode ser trágico, para não dizer cômico. Não há como escapar de suas ilações, reações adversas e efeitos colaterais. Mas, que Natal está chata e irreconhecível, infelizmente é verdade. Tenho ultimamente pensado muito em Lucrécia. As duas. A Bórgia e a do Oeste. São pontos de fuga. Estações de tratamento para os dias. Os mesmos dias. Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com “aspones” para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva. Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço. (*) Escritor.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Professor CORTEZ PEREIRA Marcus Guedes "Há 21 anos (21.02.2004), o Rio Grande do Norte perdia a figura humana ímpar do Professor José Cortez Pereira de Araújo, aos 79 anos de idade. Tendo ocupado as cadeiras de diretor do Banco do Nordeste, deputado estadual, senador da República (substituindo eventualmente o Senador Dinarte Mariz, de quem era suplente) e prefeito de Serra do Mel, Cortez Pereira marcou a sua passagem como um dos mais importantes governadores que o Estado do Rio Grande do Norte já teve. Sem ele, não teríamos o Projeto Camarão, a Sericicultura (Projeto Bicho da Seda), o Projeto da Serra do Mel (com a Cajucultura), o Projeto Boqueirão (destinado à produção de coco, no município de Touros), bem como a ideia da ligação das praias do centro da cidade com Ponta Negra, através do Projeto da Via Costeira, além de outras iniciativas inovadoras (como a implantação de um programa de planejamento familiar, algo desafiador à época do seu governo). José Cortez Pereira de Araújo foi um dos maiores governadores deste Rio Grande do Norte, um visionário, um verdadeiro Homem de Bem."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O Brasil maniqueísta Padre João Medeiros Filho É bem conhecida a frase bíblica, tirada do Livro Eclesiastes: “Nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1, 10). Poderia ser aplicada ao momento atual da sociedade brasileira. Imperam as polarizações, reinam os confrontos. Os brasileiros estão divididos entre bons (os do meu lado) e maus (os do outro lado). Essa divisão remonta a uma filosofia antiga. Percebe-se que as radicalizações não são novidade. Como as ondas do mar que vão e vêm, ideias e comportamentos humanos se repetem, ao longo dos séculos. O quadro sócio-político do Brasil de hoje reveste-se de um novo estilo de dualismo social. O país cindiu-se em duas vertentes intransigentes. Para os adeptos de fulano, tudo que vem de beltrano é ruim, inaceitável. Para eles aquilo que provém de sicrano é nocivo, desprezível, devendo ser extirpado. A sociedade vive um dilema, próprio do maniqueísmo. Este se fundamenta numa concepção filosófico-religiosa, oriunda na antiga Pérsia, amplamente difundida no Império Romano, nos séculos III a V. Consiste basicamente em afirmar a existência de um conflito intransponível entre os reinos da luz e das trevas. Aos seres humanos caberia o dever de ajudar a vitória do Bem, por meio de práticas ascéticas. O propagador de tal doutrina foi Mani ou Manes, nascido em 216 d. C. Defendia um dualismo antagônico. Segundo ele, há uma oposição permanente entre claridade e sombras. Suas ideias tiveram profunda influência em sua época, a tal ponto de Santo Agostinho, antes de sua conversão, tê-las adotado. Posteriormente, o Bispo de Hipona opôs-se a tal pensamento. No século XII, essa teoria persa voltou à tona. Desta vez, na França. Os novos maniqueus pertenciam à seita dos cátaros (ou albigenses). Periodicamente, tal teoria emerge aqui e ali, como concepção e estilo de vida ou prática social. Atualmente, ressurge em partidos políticos, alimentados por uma ideologia intolerante. O Brasil divide-se em dois grupos semelhantes ao óleo e à água. Encontram-se, mas não se misturam. O oponente político é visto não como adversário, mas como um inimigo perigoso, que deve ser eliminado a qualquer custo. Quem está do lado contrário só tem defeitos, representa perigo e por isso necessita ser exterminado sem hesitação. O outro é um demônio. “O inferno são os outros”, afirmava Sartre. Para os maniqueus do Brasil atual, apenas a sua maneira de pensar é correta, mesmo que muitas vezes apresente uma pletora de sofismas, contradições, narrativas e inverdades. Apenas, os seus partidários são infalíveis e intocáveis. A sociedade fica, então, dividida. E o pior: quanto mais o outro (o inimigo a ser aniquilado) fracassar, melhor, pois será a prova e o triunfo de “sua verdade”. O amor à pátria e o bem-estar social tornam-se algo diluído e distante, relegado a um plano inferior. Muitos são contraditórios e ilógicos, pondo nos lábios um pseudodiscurso democrático. A intransigência e intolerância são negações da democracia. Há dificuldade e ingente aversão em aceitar e conviver com quem pensa de modo diverso. Isto ocorre nos parlamentos, em colegiados do judiciário, nos círculos acadêmicos, religiosos e demais instituições. Inconscientemente, almeja-se uma sociedade em que todos deveriam pertencer ao mesmo partido político, professar idêntica religião, ser do único time de futebol e ter igual modo de pensar. Os sistemas totalitários, tanto de direita, quanto de esquerda, alimentam-se dessa utopia. Desconhecem o ensinamento cristão, contido na Epístola aos Romanos: “Como num só corpo temos muitos membros, cada qual com uma função diferente” (Rm 12, 4). Viver exige saber conviver. “Homem algum é uma ilha”, escreveu Thomas Merton. O diferente amplia a visão, levando as pessoas a um melhor autoconhecimento. Conviver é respeitar, ter a capacidade de ouvir para se enriquecer com outras maneiras de pensar e ver o mundo. Quão monótona e deprimente seria uma sociedade formada de robôs! Os dias atuais estão mostrando que o maniqueísmo continua vivo e atuante. E, como todo “ismo”, tende a ser ideológico e empobrecedor. O Brasil, que se diz cristão, parece ignorar as palavras do apóstolo Paulo: “De fato, o corpo é um, embora tenha muitos membros” (1Cor, 12, 12).

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 06 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
A nossa aprazível praia de Cotovelo vem recebendo um volume expressivo de empreendimentos, tornando-se, verdadeiramente, quase um bairro de Natal. Tal ocorrência desagrada uma parte dos veranistas, que se veem forçados a suportar a quebra da tranquilidade da praia, com o excesso de ambulantes poluindo o ambiente e colocação inadequada de sombrinhas com a finalidade negocial no campo da gastronomia, sem as cautelas de manter a limpeza e, de quando em vez, provocando a presença disfarçada de pessoas perturbadoras do sossego. Dentro de um entendimento antropológico e sociológico nada é possível fazer para impedir esses fenômenos, face a ser uma contingência normal da sociedade. Contudo, um procedimento é possível adotar para o controle dessas ocorrências – a fiscalização eficiente nos campos da limpeza, segurança e ordenamento espacial, combinados com uma constante conscientização para condutas salutares ao encontro da convivência pacífica. Lamentavelmente, muitos dos fatos geradores dessas infrações que incomodam os veranistas e moradores são provocados por pessoas aqui albergadas, como o caso do abuso de som alto, sem resguardo do horário de silêncio, ainda que decorrente de festas particulares, quanto mais daquelas contratadas por interesses diferentes, gerando um incômodo insuportável e obrigando a proteção policial. Muitos desses eventos ultrapassam apenas um dia e são oferecidos por dias seguidos, com resultados negativos em várias vertentes como prejuízo ao tráfego de veículos, estacionamentos desordenados, embriaguez e outros exemplos negativos e prejudiciais para quem procuram a praia buscando desfrutar da natureza e do silêncio. Para minimizar esses procedimentos negativos, tem sido constante o trabalho de alguns veranistas e moradores isoladamente e por iniciativa da PROMOVEC – Associação dos Proprietários, moradores e veranistas de Cotovelo junto à Polícia e Prefeitura Municipal de Parnamirim, as quais não são ativos no atendimento dos apelos. Por outro lado, é indispensável que os proprietários de imóveis de locação ponham em seus contratos cláusulas restritivas de realização de qualquer evento danoso à convivência harmoniosa com a Comunidade, resguardando os princípios infringidos e reclamados cotidianamente. Olhe, vem aí o Carnaval, Gente!!!!! E as festas serão multiplicadas no período de Momo, daí a necessidade da compreensão geral de todos para resguardarem os horários e formas de comemorações de folia, resguardo e respeitando o direito daqueles que não se envolvem nos folguedos e só precisam de sossego. Por derradeiro, se nossa praia é conhecida pela excelência da natureza, quase de bandeira azul, deve, igualmente ser portadora da bandeira branca da paz.