quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

 

Considerações sobre laudêmios e foros

Padre João Medeiros Filho

A presente abordagem não se reveste da pretensão de cunho jurídico e técnico. Trata-se de uma experiência sobre o assunto, quando éramos pároco e chanceler do bispado, em Caicó (RN). Laudêmio e foro datam dos tempos coloniais, remontando às capitanias hereditárias, quando a Coroa Portuguesa outorgava aos donatários direitos sobre determinadas porções de seu domínio no Brasil. Consistia num repasse de glebas a pessoas físicas e entidades. Esse costume foi sendo seguido, disseminado e adaptado. Assim, no passado, em decorrência de promessas aos santos, tornou-se usual entre os católicos, como símbolo de gratidão, doar terras à Igreja (nela incluindo-se irmandades, congregações e associações religiosas, padroeiros, paróquias etc.). Era muito comum casas residenciais e comerciais edificadas sobre os terrenos “do santo ou da santa”. Muitas terras doadas aos santos padroeiros, antes da expansão das cidades, estão situadas hoje em zonas urbanas.

Infelizmente, muitos bens vinculados à Igreja, têm sido dilapidados, alienados levianamente e espoliados, por incúria de gestores. É uma afronta a seus doadores, à história e à memória daqueles que de boa-fé fizeram os legados, por vezes gravando cláusulas de inalienabilidade. Seguiram o preceito bíblico: “Ninguém comparecerá diante do Senhor, de mãos vazias. Cada um trará uma oferta, conforme as bênçãos que o Senhor houver concedido” (Dt 16, 17). Convém lembrar que parcela considerável do patrimônio dos bispados de Caicó e Natal tem sido preservada, graças ao zelo e dedicação de Dr. Vital Bezerra de Oliveira.

Além dos terrenos da Igreja, sobre os quais incidem laudêmio e foro, há também os da família imperial brasileira e os que pertencem à Marinha (União). Estes últimos estão localizados na zona litorânea, inclusive nas ilhas. Em 1831, tal faixa de terra foi delimitada a trinta e três metros da maré mais alta, em relação à linha de preamar. A União possui mais de trinta por cento dessas terras, sendo o restante dos demais proprietários.

A Igreja, considerando as suas necessidades e as dos cidadãos, foi disponibilizando parte de seu domínio para o usufruto de terceiros, sem a perda da propriedade. Disto, origina-se o laudêmio: uma taxa pecuniária compensatória paga ao legítimo dono, quando da transmissão do terreno, havendo ou não edificações. Consiste numa pequena parcela participativa no lucro auferido, proporcionado também pelo uso do terreno. Há ainda a contribuição anual pela ocupação do solo, denominada foro, isto é, uma compensação monetária pela utilização de um espaço pertencente à Igreja ou a outros proprietários.

Laudêmio é uma taxa devida pelo beneficiário do domínio útil ao seu legítimo proprietário. Não é um tributo, mas contraprestação financeira. A cobrança é legal e legitima. Há assentada jurídica para a base dos cálculos, incidindo sobre o valor venal do terreno, onde eventualmente são edificados prédios. Caso a transmissão se dê por herança, o valor não é cobrado. Aos foreiros pertencem as construções e benfeitorias, não os terrenos sobre os quais se edificam, sendo eles patrimônio da União, Igreja, família imperial brasileira etc. Eis a origem das taxas, obedecendo à tradição do ordenamento jurídico brasileiro. Cabe informar que há amparo legal para a sua cobrança, previsto pelo Código Civil Brasileiro (atualizado pela Lei nº 10.406/2002), no Artigo 2038. Hoje, o laudêmio dos terrenos da Marinha (União) é regido pela Lei 14.011/2020. Entretanto, tramitam no Senado Federal e na Câmara dos Deputados projetos de lei (por exemplo, o PL 1855/2024), propondo a extinção de cobrança do laudêmio e foro pela ocupação de terras da União (Marinha). Tais projetos não incluem terrenos pertencentes a outros proprietários. Há quem defenda estender para estes a isenção.

O direito dos legítimos donos deve ser respeitado. É uma questão de justiça e honestidade. As taxas recebidas visam a ajudar na manutenção das obras da Igreja com sua visão amplamente social, assistencial e educativa. Para os cristãos, do ponto de vista teológico-canônico, a obrigatoriedade das taxas laudemiais e foreiras inclui-se no dever religioso do dízimo. Para tanto, recomenda o apóstolo Paulo: “Que cada um dê sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9, 7).

Revisitando a Casa de Pedra de Pium


Foto do acervo do Natal das Antigas

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 07

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes (*)

Revisitando a Casa de Pedra de Pium

            Este é um assunto que me fascina desde algum tempo. Sobre ele já publiquei alguns artigos em Cartas de Cotovelo, em livro e Revistas do IHGRN e ANRL, motivando uma condensação do tema, com correções e ampliações.

            A Casa de Pedra de Pium, que também se estuda como de Pirangi, ficou conhecida a partir da sua apropriação pelo francês João Lostau Navarro, também várias vezes referido como João Lostão, Lostao, Juan, Joan, Juaron, Juáo, Lostrão, Lostrau, Lo Stosa, Juan de Stau, d’Stau e outras, mercê de uma literatura oral que provocou tais desdobramentos de escrita.

            O que importa é que esse cidadão é oriundo do Reino de Navarra (Navarra baixa dos Pirineus, ou parte litorânea), que fora incorporado à Espanha no Século XVI, em 1511, no reinado de Fernando V e retomado pela França em 1589, por Henrique III(1) e que foi incorporado como patronímico de Lostau..

            Pelas inúmeras pesquisas, a Casa de Pedra de Pium, que fica bem perto da praia de Cotovelo (Município de Parnamirim), mas registrada no Município de Nísia Floresta, teria sido construída pelos franceses em 1555 para guardar o pau brasil retirado de suas cercanias para negócios.

            Com a expulsão dos franceses do Brasil provavelmente em 1567, os portugueses assumiram a sua propriedade, concluindo os trabalhos de construção em 1570, e concedendo autorização a pessoas para a exploração, sendo incorporada ao acervo do francês João Lostão Navarro que a transformou em depósito de mercadorias, conforme Carta de Data nº 15, de 1º de março de 1601, concedida por João Rodrigues Colaço, acrescentada a outras sesmarias que o mesmo já possuía, onde teve morada de 1603 a 1645. Essa construção recebeu outras denominações como Porto de Búzios, Casa Forte de Pirangi e Casa da Praia do Porto Corado (ao tempo da Companhia das Índias Ocidentais – invasão dos holandeses, 1621).

Esse monumento arquitetônico, com cerca de 338m2 tem enorme importância histórica por ter sido das mais antigas construções em alvenaria do Brasil, utilizada como armazém e forte, onde Lostão, esse donatário de terras brasileiras, era um católico de bons costumes, prestimoso com a população, dando-lhe emprego e guarida em suas casas do “Porto de João Lostão”(2) , identificada na lagoa de Camurupim, onde explorava a pesca, dava proteção aos cristãos perseguidos por Jacob Rabbi, em decorrência do que foi preso na Fortaleza dos Reis Magos e de                               __________________________________________________________________________________

(1)    (1) ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005; GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed. FJA/FHG, Natal, 1999.

(2)    (2) Corresponde ao atual Porto de Tabatinga, outrora também chamado de Porto Seguro. Compõe rico aquífero da região, com braços nos Municípios de Parnamirim e Nísia Floresta, notadamente passando por Alcaçuz e Pium.

lá levado para Uruaçu onde foi trucidado com outros católicos, sendo declarado mártir da Igreja (3), com o qual tenho parentesco por parte de mãe, segundo pesquisa em meu poder.

A Casa de Pedra está estrategicamente erguida de maneira a dar uma visão ampla de onde se descortina toda a orla marítima desde os contornos de Ponta Negra até os de Pirangi, e por isso causando incômodos e conflitos com os holandeses, por ser considerada um fortim. 

Vale lembrar que as investidas dos holandeses começaram na Bahia, em 1624/1625, de onde foram rechaçados. Então, em 1630 partiram para uma segunda tentativa de invasão no Brasil, mais precisamente em direção ao Nordeste, chegando a Pernambuco em 1633, atraídos pela existência de produção de cana-de-açúcar, do que eles já tinham notícia, pois aqui estiveram em julho de 1625, no Engenho Cunhaú, sob o comando do Capitão Uzeel, na condição de parceiros de Portugal para a tarefa de refino de açúcar e financiadores do seu engenho, não podendo trazer nada em razão da distância.

De lamentar o absurdo descaso do Município de Nísia Floresta por essa construção secular da engenharia brasileira, pois o acesso é um risco – verdadeira aventura pela sua irregularidade, que comporta somente uma viatura – verdadeiro caminho perigoso. Hoje pertence ao acervo da família de Hélio Galvão.

         Em relação ao donatário João Lostão, a importância desse cidadão tomou corpo na Comunidade, gozando de grande prestígio até sua velhice, estimada em 80 anos, tendo ocupado cargos de importância para a administração da Capitania.

Sua família imediata: pai de Beatriz Lostau Casa Maior, casada com o holandês Joris Garstman, que dirigia o Forte dos Reis Magos, no período do domínio holandês. Outra filha, Maria Lostau Casa Maior, era casada com Manoel Rodrigues Pimentel, que juntamente com Estevão Machado de Miranda, era escabino (espécie de representante do Município) na época da invasão holandesa. Duas fontes dão notícia do nome da sua esposa – Luzia da Mota, o que findou confirmado pela vasta descendência que deixou. (4)

Para nossa tristeza, para nosso Estado, os holandeses não trouxeram bons frutos, como aconteceu em Pernambuco, posto que aqui pretenderam se apossar dos engenhos e combater os portugueses, com o apoio da população indígena. (5)

Em 1634 atacaram pela primeira vez o engenho Cunhaú (6), surpreendendo o fortim dos portugueses, com perda de 12 homens, gerando um pânico entre os moradores da região, que passaram a procurar lugares mais seguros – alguns acolhidos na própria Fortaleza Keulen, ou                    _______________________________________________________________________

(3)   (3) Beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 5 de março de 2000, na Praça de São Pedro, Roma e canonizado pelo Papa Francisco em 15 de outubro de 2017.

(4)    (4) Blog dos Amigos de Santo Antônio do Salto da Onça e MEDEIROS,

(5)   (5) Cariris, comandados por Janduí (da tribo dos Janduís), que vinham sofrendo com os portugueses, disso resultando o massacre de Ferreiro Torto (Macaíba), em 1633, com 67 mortos.

(6)    (6)   Esse engenho teria sido comprado, em 5 de julho de 1637 por Joris Garstman e o Conselheiro Baltazar Wyntges mesmo ano em que Nassau visitou Natal e incendiado pelos Janduís em 1645 guiados pelo aventureiro Jacob Rabbi. (CASCUDO, História do RGN, MEC, Rio de Janeiro, 1984, p.67)

Castelo de Ceulen, que corresponde ao Forte dos Reis Magos, outros em uma paliçada e na casa de João Lostão, que lhes deu guarida.

Em razão desse gesto de proteger os cristãos perseguidos pelos calvinistas liderados por Rabbi, correu a notícia de que o referido donatário estaria organizando uma resistência contra o domínio neerlandês e contra ele teria sido expedido um mandado de prisão em 1645, ordenado pelo Grande Conselho Holandês, sediado em Recife, tudo fomentado pelo mercenário Jacob Rabbi (Johanns Rabe), judeu alemão de péssimo caráter, ordem cumprida por Paulus de Linge, governador da Paraíba.

            Completando a incursão anterior sobre Cunhaú (Canguaretama-RN), em 16 de julho de 1645, perpetraram novo massacre de cerca de 35 a 69 pessoas quando assistiam uma missa dominical celebrada pelo Padre André de Soveral, contando com a participação dos Tapuias, Janduís e Potiguares. Os Potiguares, por sua vez, não se importaram com o mínimo respeito aos direitos humanos e consumaram o martírio e os fizeram em pedaços. O cronista Pierre Moreau afirma que todos foram devorados pelos índios canibais.

            Em setembro, Rabbi, com uma pequena força de Tapuias, brasilianos e mais 30 civis holandeses, ocupou o Sítio Lostão, onde assassinaram cerca de 15/16 portugueses.

            Três meses depois do massacre de Cunhaú, nova investida de Rabbi aconteceu em Uruaçu (São Gonçalo do Amarante), com mais 80 mortes, dentre os eles João Lostão, em 3 de outubro de 1645, de forma degradante, mutilando e esmagando órgãos, inclusive de crianças, provocando uma situação calamitosa, num ritual macabro.

            Rabbi, no entanto, também não escapou da ira dos vencidos, que o assassinaram na noite de 5 de abril de 1646, com tiros e golpes de espadas por soldados. Alguns atribuem o fato a uma vingança familiar a mando do Capitão Garstman, já então elevado ao posto de Tenente-Coronel e fora de funções administrativas no Forte, genro de Lostão, afirmando que “o mundo nada perderia se desembaraçassem de semelhante canalha”.

            Os Tapuias exigiram a imediata entrega do militar holandês, agora sem nenhuma função no Rio Grande do Norte, juntamente com o Major Jacques Boulan, que teria sido o cumpridor da ordem a dois soldados para o trucidamento, mas o Inquérito teve tramitação vagarosa pelo Conselho de Justiça e Finanças.

            Pedido de revisão o colocaram em liberdade, retornando à Holanda e nunca se soube do desfecho desse processo.        

A Igreja Católica local, permitiu em louvor da canonização de Lostão, ser alçado à condição de co-padroeiro da Igreja de Pium (Santa Luzia), agora consagrando dois mártires, em momentos diferentes, respectivamente SANTA LUZIA e SANTO JOÃO LOSTAU NAVARRO. (7)

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(7)    (7) Sobre Santa Luzia, registra-se seu martírio por defender a virgindade eterna em nome da sua total devoção à fé e distribuir seus bens com os pobres, pelo que foi condenada à tortura, com a sua colocação em prostíbulo, depois queimada em fogueira, posteriormente a retirada dos seus olhos, tudo porque logrou a proteção Divina e não sucumbiu, dando continuidade à sua missão sagrada, até ter a cabeça decepada.        

Já perdia a esperança em dar notoriedade a um tema de tanta importância para a religião da localidade e para o turismo religioso das praias do Sul – Pium, Cotovelo e Pirangi, divididas entre os municípios de Nísia Floresta e Parnamirim, quando a Arquidiocese de Natal realizou um grande evento diretamente das ruínas da Casa de Pedra e deu a notoriedade ansiada para aquele equipamento urbano, de grande valor histórico e religioso, tanto que Dom Jaime, no decorrer da missa, confessou humildemente que era a primeira vez que tomava conhecimento do valor daquele lugar e do seu proprietário, tornando-se o primeiro dirigente da Igreja Católica a dar testemunho desses valores incomensuráveis.         

Não vou aqui detalhar a importância histórica da Casa de Pedra, mas agradecer os gestos de coragem cristã dos Santos Mártires da Igreja Católica, Santa Luzia e Santo João Lostau Navarro, pela possível intercessão deles para que essa visibilidade ocorresse.

         Vale, por fim, invocar a pregação de São Paulo na Carta aos Coríntios:

 

                Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados.

                 Somos abatidos, mas não somos destruídos.

            Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus,

            para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.

 

FONTES CONSULTADAS_____________________________________________________________

(1)    ALLÉGUEDE, Bernard p. 43; SILVA, Roberto da: Os franceses no Rio Grande do Norte, Ed. Sebo Vermelho, Natal-2005; GALVÃO, Hélio: ps.195/196: História da Fortaleza da Barra do Rio, Ed. FJA/FHG, Natal, 1999.

(2)    BLOGS: Amigos de Santo Antônio do Salto da Onça; História e Genealogia (Anderson Tavares); INRG (João Felipe); Nísia Floresta (Luís Carlos Freire); Grupo Onça Pintada; Trilhas da História (Maria Lúcia Amaral).

(3)    CALADO, Francisco Manuel. O Valoroso Lucídeno e o triunfo da libertação). SP, Cultura (Carta do Capitão Lopo Curado Garro).

(4)    CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. RJ, MEC, 1984.

(5)    GALVÃO, Hélio. História da Fortaleza da Barra do Rio Grande. FJA/FHG, 1999.

(6)    HB – História Brasileira.

(7)    História do Rio Grande do Norte (Maria Auxiliadora).

(8)    LIRA, Augusto Tavares de. História do Rio Grande do Norte. Brasília, Senado, 2012.

(9)    MEDEIROS, Invoncisio de.

(10) MEDEIROS, Tarcísio da Natividade.

(11) MEDEIROS FILHO, Olavo. Os holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte. IHGRN, Natal, 1998.

(12) MOURA, Pedro. Fatos da História do Rio Grande do Norte. Natal, CERN, 1986.

(13) PEREIRA, Francisco de Assis – Monsenhor. Protomártires do Brasil. Aparecida. Santuário, 2005.

(14) POMBO, Rocha. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Annuário do Brasil, Porto-Portugal, 1921.

(15) PORTAL TUDO DO RIO GRANDE DO NORTE.

(16) PROFESSOR JOTA BÊ. Ciência da Religião.

(17)         SOUZA, Itamar de. Diário do Rio Grande do Norte. Diário de Natal, 1999.

(18)        SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão; MARIZ, Marlene da Silva. História do Rio Grande do Norte Colonial 1597/1822. Natal Editora, 1997 e História do Rio Grande do Norte, Sebo Vermelho, 1997.

(19)       TRINDADE, João Felipe da. Informações pessoais.

(20)      TRINDADE, Sérgio Luiz Bezerra. História do Rio Grande do Norte. Natal, Sebo Vermelho, 2015.

(21)  UFRN. Departamento de Geografia: Anais do XIII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Florianópolis. Brasil, 21-26 abril 2008, INPE.

(*) Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN)

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

A 5ª DIMENSÃO DO ESTRESSE Valério Mesquita* Mesquita.valerio@gmail.com Tudo incomoda o vivente. O sobrevivente. Provar a sensação amarga da guerra perdida. Contemplar do alto do edifício urbano as maiorias fúteis impondo iniquidades sobre Natal. O ter que se habituar com a visão torta e vesga dos poderosos de plantão que impõem suas regras pela mídia. Natal sem becos, sem esquinas boêmias, sem praças, sem preces, povoadas de vultos inexpressivos que não serão falados amanhã. Extraviaram a noção de história. Os anos inaugurais do século XXI, não têm o glamour dos fatos e das figuras do século passado. O homem coisificou-se. Perdeu a densidade, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história. Na política, não temos mais líderes como antigamente: os neófitos já saúdam os poucos náufragos que irão morrer amanhã. A paisagem é deserta. As instituições se burocratizaram em blocos de ferro e cimento armado. Não têm mais lume nem leme. “Igrejinhas” tão somente. Não sei se há esperança. Não sei se há salvação. As únicas ameaças à ordem constituída continua a ser o Covid, a droga, a violência urbana, a dengue, a chikungunya e a zica. Muitos acreditam que é o maior desafio ainda não enfrentado pelo Ministério Público. Por outro lado, Natal a cada dia, fica mais insuportável com a quantidade de veículos e motos, principalmente aquelas que cortam o seu carro pela direita. Mas, assim caminham as capitais, as metrópoles para o futuro enganoso oferecido pelas imobiliárias. O ensino público e privado mercadejou-se tanto quanto o turismo sexual. Perdeu a qualidade. E viva a quantidade. Fortunas repentinas arremetem-se para o alto iguais ao crescimento vertical da cidade. Não há explicação. Não há investigação. Tudo é volátil e volante. Expresso em arcos voltaicos celebrados na crônica social. É aí que se deduz que toda celebridade quando não é célere, é celerada. Ou fazem de cômicas todas as autoridades. Saio de mim para penetrar na imponderabilidade do oceano que assiste, lá fora, a decomposição humana. A visão misteriosa do oceano pacífica e beatifica o pecador solerte, já dizia o décimo terceiro apóstolo de Cristo, perdido no tempo e no espaço, ainda acreditando na grandeza do último milagre. Mas, estresse é coisa séria. Pode ser trágico, para não dizer cômico. Não há como escapar de suas ilações, reações adversas e efeitos colaterais. Mas, que Natal está chata e irreconhecível, infelizmente é verdade. Tenho ultimamente pensado muito em Lucrécia. As duas. A Bórgia e a do Oeste. São pontos de fuga. Estações de tratamento para os dias. Os mesmos dias. Hoje em dia, é raríssima a autoridade pública ou privada que dá retorno de telefonemas. Deixar recado é esforço pífio e inútil. Não existe mais apreço, atenção, respeito, civilidade, sociabilidade, humanidade. O político, via de regra, só retorna ligação se houver vantagem de voto gratuito ou financiamento de campanha. O empresário pergunta logo quem está na ponta da linha e quanto vai lucrar. Já alguns secretários de governo, nomeados para atender a sociedade, sempre estão em reunião com “aspones” para evitar interrupções que não atendam seus interesses imediatos. Devolver um telefonema que não foi atendido de imediato por ocupação instantânea ou outro motivo relevante, ou não receber um cidadão que pediu audiência, é ato de cavalheirismo, de educação, de nobreza que pouca gente cultiva. Sei que muitos leitores estão incluídos na estatística dos sofredores. E gostariam de dizer o que afirmo agora. Os cultores da prática mafiosa alegam que é preciso racionalizar o tempo, eleger prioridades, formatizar custos e ganhos de produtividade, e, o lado humano/cidadão vai para o beleléu, descartado por não representar modernidade, segundo os fariseus dos templos públicos. Cheguei a imaginar, de início, que a minha tese é inconsistente. Seria antiquado portar-me assim, mandando a secretária anotar quem telefonou para retornar, em seguida, uma a uma, as ligações recebidas? Acho que não. Tudo é uma questão de estilo, de ética, de personalidade e de berço. (*) Escritor.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Professor CORTEZ PEREIRA Marcus Guedes "Há 21 anos (21.02.2004), o Rio Grande do Norte perdia a figura humana ímpar do Professor José Cortez Pereira de Araújo, aos 79 anos de idade. Tendo ocupado as cadeiras de diretor do Banco do Nordeste, deputado estadual, senador da República (substituindo eventualmente o Senador Dinarte Mariz, de quem era suplente) e prefeito de Serra do Mel, Cortez Pereira marcou a sua passagem como um dos mais importantes governadores que o Estado do Rio Grande do Norte já teve. Sem ele, não teríamos o Projeto Camarão, a Sericicultura (Projeto Bicho da Seda), o Projeto da Serra do Mel (com a Cajucultura), o Projeto Boqueirão (destinado à produção de coco, no município de Touros), bem como a ideia da ligação das praias do centro da cidade com Ponta Negra, através do Projeto da Via Costeira, além de outras iniciativas inovadoras (como a implantação de um programa de planejamento familiar, algo desafiador à época do seu governo). José Cortez Pereira de Araújo foi um dos maiores governadores deste Rio Grande do Norte, um visionário, um verdadeiro Homem de Bem."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

O Brasil maniqueísta Padre João Medeiros Filho É bem conhecida a frase bíblica, tirada do Livro Eclesiastes: “Nada de novo debaixo do sol” (Ecl 1, 10). Poderia ser aplicada ao momento atual da sociedade brasileira. Imperam as polarizações, reinam os confrontos. Os brasileiros estão divididos entre bons (os do meu lado) e maus (os do outro lado). Essa divisão remonta a uma filosofia antiga. Percebe-se que as radicalizações não são novidade. Como as ondas do mar que vão e vêm, ideias e comportamentos humanos se repetem, ao longo dos séculos. O quadro sócio-político do Brasil de hoje reveste-se de um novo estilo de dualismo social. O país cindiu-se em duas vertentes intransigentes. Para os adeptos de fulano, tudo que vem de beltrano é ruim, inaceitável. Para eles aquilo que provém de sicrano é nocivo, desprezível, devendo ser extirpado. A sociedade vive um dilema, próprio do maniqueísmo. Este se fundamenta numa concepção filosófico-religiosa, oriunda na antiga Pérsia, amplamente difundida no Império Romano, nos séculos III a V. Consiste basicamente em afirmar a existência de um conflito intransponível entre os reinos da luz e das trevas. Aos seres humanos caberia o dever de ajudar a vitória do Bem, por meio de práticas ascéticas. O propagador de tal doutrina foi Mani ou Manes, nascido em 216 d. C. Defendia um dualismo antagônico. Segundo ele, há uma oposição permanente entre claridade e sombras. Suas ideias tiveram profunda influência em sua época, a tal ponto de Santo Agostinho, antes de sua conversão, tê-las adotado. Posteriormente, o Bispo de Hipona opôs-se a tal pensamento. No século XII, essa teoria persa voltou à tona. Desta vez, na França. Os novos maniqueus pertenciam à seita dos cátaros (ou albigenses). Periodicamente, tal teoria emerge aqui e ali, como concepção e estilo de vida ou prática social. Atualmente, ressurge em partidos políticos, alimentados por uma ideologia intolerante. O Brasil divide-se em dois grupos semelhantes ao óleo e à água. Encontram-se, mas não se misturam. O oponente político é visto não como adversário, mas como um inimigo perigoso, que deve ser eliminado a qualquer custo. Quem está do lado contrário só tem defeitos, representa perigo e por isso necessita ser exterminado sem hesitação. O outro é um demônio. “O inferno são os outros”, afirmava Sartre. Para os maniqueus do Brasil atual, apenas a sua maneira de pensar é correta, mesmo que muitas vezes apresente uma pletora de sofismas, contradições, narrativas e inverdades. Apenas, os seus partidários são infalíveis e intocáveis. A sociedade fica, então, dividida. E o pior: quanto mais o outro (o inimigo a ser aniquilado) fracassar, melhor, pois será a prova e o triunfo de “sua verdade”. O amor à pátria e o bem-estar social tornam-se algo diluído e distante, relegado a um plano inferior. Muitos são contraditórios e ilógicos, pondo nos lábios um pseudodiscurso democrático. A intransigência e intolerância são negações da democracia. Há dificuldade e ingente aversão em aceitar e conviver com quem pensa de modo diverso. Isto ocorre nos parlamentos, em colegiados do judiciário, nos círculos acadêmicos, religiosos e demais instituições. Inconscientemente, almeja-se uma sociedade em que todos deveriam pertencer ao mesmo partido político, professar idêntica religião, ser do único time de futebol e ter igual modo de pensar. Os sistemas totalitários, tanto de direita, quanto de esquerda, alimentam-se dessa utopia. Desconhecem o ensinamento cristão, contido na Epístola aos Romanos: “Como num só corpo temos muitos membros, cada qual com uma função diferente” (Rm 12, 4). Viver exige saber conviver. “Homem algum é uma ilha”, escreveu Thomas Merton. O diferente amplia a visão, levando as pessoas a um melhor autoconhecimento. Conviver é respeitar, ter a capacidade de ouvir para se enriquecer com outras maneiras de pensar e ver o mundo. Quão monótona e deprimente seria uma sociedade formada de robôs! Os dias atuais estão mostrando que o maniqueísmo continua vivo e atuante. E, como todo “ismo”, tende a ser ideológico e empobrecedor. O Brasil, que se diz cristão, parece ignorar as palavras do apóstolo Paulo: “De fato, o corpo é um, embora tenha muitos membros” (1Cor, 12, 12).

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 06 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
A nossa aprazível praia de Cotovelo vem recebendo um volume expressivo de empreendimentos, tornando-se, verdadeiramente, quase um bairro de Natal. Tal ocorrência desagrada uma parte dos veranistas, que se veem forçados a suportar a quebra da tranquilidade da praia, com o excesso de ambulantes poluindo o ambiente e colocação inadequada de sombrinhas com a finalidade negocial no campo da gastronomia, sem as cautelas de manter a limpeza e, de quando em vez, provocando a presença disfarçada de pessoas perturbadoras do sossego. Dentro de um entendimento antropológico e sociológico nada é possível fazer para impedir esses fenômenos, face a ser uma contingência normal da sociedade. Contudo, um procedimento é possível adotar para o controle dessas ocorrências – a fiscalização eficiente nos campos da limpeza, segurança e ordenamento espacial, combinados com uma constante conscientização para condutas salutares ao encontro da convivência pacífica. Lamentavelmente, muitos dos fatos geradores dessas infrações que incomodam os veranistas e moradores são provocados por pessoas aqui albergadas, como o caso do abuso de som alto, sem resguardo do horário de silêncio, ainda que decorrente de festas particulares, quanto mais daquelas contratadas por interesses diferentes, gerando um incômodo insuportável e obrigando a proteção policial. Muitos desses eventos ultrapassam apenas um dia e são oferecidos por dias seguidos, com resultados negativos em várias vertentes como prejuízo ao tráfego de veículos, estacionamentos desordenados, embriaguez e outros exemplos negativos e prejudiciais para quem procuram a praia buscando desfrutar da natureza e do silêncio. Para minimizar esses procedimentos negativos, tem sido constante o trabalho de alguns veranistas e moradores isoladamente e por iniciativa da PROMOVEC – Associação dos Proprietários, moradores e veranistas de Cotovelo junto à Polícia e Prefeitura Municipal de Parnamirim, as quais não são ativos no atendimento dos apelos. Por outro lado, é indispensável que os proprietários de imóveis de locação ponham em seus contratos cláusulas restritivas de realização de qualquer evento danoso à convivência harmoniosa com a Comunidade, resguardando os princípios infringidos e reclamados cotidianamente. Olhe, vem aí o Carnaval, Gente!!!!! E as festas serão multiplicadas no período de Momo, daí a necessidade da compreensão geral de todos para resguardarem os horários e formas de comemorações de folia, resguardo e respeitando o direito daqueles que não se envolvem nos folguedos e só precisam de sossego. Por derradeiro, se nossa praia é conhecida pela excelência da natureza, quase de bandeira azul, deve, igualmente ser portadora da bandeira branca da paz.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A Barragem de Oiticica Padre João Medeiros Filho Anuncia-se para breve a inauguração da Barragem de Oiticica, localizada no município de Jucurutu (RN). Há os que reclamam a autoria do projeto, ignorando a real origem da ideia. Aliás, poucos conhecem o relato dos acontecimentos. Há três anos, publiquei um artigo neste jornal, abordando o assunto. Os verdadeiros protagonistas de uma história nem sempre são lembrados. Por vezes, outros recebem os louros da vitória. Em 1951, o Nordeste brasileiro viveu uma de suas inclementes secas. À época, era bispo de Caicó Dom José de Medeiros Delgado, tendo como vigário geral Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel. O deputado Stoessel de Brito – proprietário da Fazenda Baixio e amicíssimo do bispo – representava Jucurutu na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Em abril de 1951, deflagrada a seca e diante do sofrimento da população, Dom Delgado convocou uma reunião naquela fazenda com as lideranças do Seridó para encontrar meios de amenizar as consequências do flagelo. Participou dessa reunião meu pai, então vice-prefeito de Jucurutu, levando-me consigo, vez que os anfitriões eram os meus padrinhos de batismo. Deveria acompanhá-lo para lhes pedir a benção e ao senhor bispo. Tempos depois, ouvi deles o relato completo da reunião. Em setembro desse ano, o prelado foi promovido por Pio XII a arcebispo de São Luís (MA) e seu vigário geral assumiu o segundo mandato de deputado federal. Em geral, nos períodos de seca, o poder público organizava frentes de trabalho para os agricultores, impedidos de cultivar a terra. Tais ações eram coordenadas pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas – DNOCS. Na reunião, acatando a sugestão do bispo diocesano, os participantes decidiram à unanimidade propor ao governo federal um empreendimento duradouro e não mero paliativo. Optou-se por indicar a construção de uma barragem, perto de Barra de Santana, sobre o Rio Piranhas-Açu, para ser um reservatório hídrico, destinado também à pesca e irrigação. O prelado caicoense conhecia bem o potencial do rio, pois quando jovem residiu perto de sua nascente. Dom Delgado viajou ao Rio de Janeiro para tratar do assunto junto ao governo federal. Encontrou-se primeiramente com o Ministro da Viação e Obras Públicas José Américo de Almeida. Este era sobrinho de Monsenhor Walfredo Leal, ex-governador da Paraíba (pelo lado materno) e Monsenhor Odilon Benvindo de Almeida (pelo lado paterno). Tios e sobrinho tinham profunda estima pelo bispo de Caicó, anteriormente pároco de Campina Grande (PB). Na capital da República, Dom Delgado foi recebido em audiência pelo Vice-Presidente Café Filho, estando acompanhado de Monsenhor Walfredo Gurgel e também de seu compadre Tristão de Athayde. Das tratativas nos encontros resultou o ato federal, autorizando o início da construção da Barragem de Oiticica. O engenheiro Clóvis Gonçalves dos Santos fora escolhido para dirigir as obras. O Ministro José Américo alocou recursos para a barragem e enviou gêneros alimentícios destinados aos flagelados do estado do RN, cuja distribuição ficaria a cargo das dioceses para evitar a exploração das vítimas pelos “barracões” (armazéns), integrantes da “indústria das secas”. O referido ministro chegou a ser indicado pelo Presidente Vargas embaixador do Brasil junto ao Vaticano. Entretanto, declinou da honrosa escolha. O bispado de Caicó pensou na assistência religiosa aos operários. O pároco de Jucurutu, Padre Deoclides de Brito Diniz, dedicava especial atenção aos trabalhadores. No início das atividades, o inesquecível sacerdote abençoou o canteiro de obras e leu uma mensagem profética de Dom Delgado: “O suor de tantos, aqui derramado, um dia converter-se-á em água abundante para matar a sede e fome de nosso povo.” Anos depois, não concluída, a barragem recebeu o nome de “Governador Iberê Ferreira”. Oiticica tem a Igreja como sua inspiradora. Deste modo e num ato de justiça e gratidão, sem detrimento à homenagem prestada a nosso ex-governador, dever-se-ia denominar todo o conjunto da obra de “Complexo Hídrico Dom Delgado”. Um dos primeiros operários da construção da barragem foi o jovem Raimundo Sérvulo da Silva, hoje pároco emérito de Acari, carregando no corpo a marca de um acidente de trabalho, ali ocorrido. Não se deve esquecer o alerta de Cristo: “Dai a Cesar, o que é de Cesar; e a Deus, o que é de Deus” (Mt 22, 21).

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

METAMORFOSES Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com O historiador romano Publius Cornelius Tacitus disse que “não há no mundo nada inventado pelo homem que o tempo não destrua”. Frase lapidar, verdadeira e nunca contestada. Acredito na evolução das ciências, todas, indistintamente, direcionadas ao bem da humanidade. Assunto vasto que pode parecer vago mas o novo milênio carrega em seu ventre inchado muita mistura podre que não deve ser confundida com evolução. O mundo de hoje pede resultados cada vez mais objetivos, práticos, sem as superficialidades do consumismo que vem de dentro de nós. Em todas as atividades humanas, são exigidas: a fidelidade, a seriedade, a idoneidade, entre outros valores, para que sejam alcançados e balizados os índices de competência e pragmatismo. O planeta terra parece mais obra do demônio do que de Deus, frente às deformidades e mutações da modernidade. Quero me deter, apenas, neste texto, a um segmento que não provém do homem mas do Criador. Refiro-me ao cristianismo nascido e ungido no Antigo e no Novo Testamento. Nas igrejas, de modo geral, aprende-se pouco sobre as Escrituras. Os artefatos e artifícios de algumas delas - através do exagerado uso da música e da dança - vendem mais o “peixe” explorando o nome de Jesus. Chegam hoje, a patamares absurdos, abusivos e repulsivos. Nos templos, nos palcos e nas emissoras de televisão, a palavra desapareceu para ceder lugar à dança e ao ritmo profanos. Como achei Jesus no silêncio e na serenidade, duvido que Ele ouça com essa parafernália toda, o seu nome. Não creio que a pantomima de certos ofícios ditos religiosos sejam elevação, mas sim, ritos estranhos que lembram os tempos dos deuses pagãos da antiguidade greco-romana e egípcia. Não representam, criatividade mas assombração que despertam mais medo do que religião, caminho, verdade e vida. Não agregam novos valores cristãos, mas mundanos porque deturpam os postulados doutrinários e comportamentais. Resumindo: são invenções do homem que o tempo vai destruir, conforme o romano Tacitus afirmou, no início. A verdade é que querem transformar as religiões em desfile de calouros. Jesus Cristo virou produto de marqueteiros espertos. Determinadas congregações vulgarizam o nome e a mensagem do Salvador fazendo sobressair mais as máquinas de caça níqueis num mundo de fantasias e atos suspeitos. Algumas igrejas não se abrem mais para um pensador, um teólogo, um doutrinador, um evangelizador, mas para os cantores e músicas “sacras” com toda parafernália de sons, imagens, metais e ruídos. Entendo que o louvor a Deus provém dos salmos. E os hinos e cânticos sejam entoados com respeito e compostura. Pela televisão, já assisti “louvor” a Deus em ritmo de reggae, xaxado, rock-roll, twist e funk com muito requebrado que me faz enxergar naquele ato mais Michael Jackson do que Jesus Cristo. Por que certas igrejas permitem tais coisas como se constituíssem uma inovação? É claro que sugerem uma descaracterização, uma apelação ou um divertimento, onde as qualidades cristãs são metamorfoseados. A dignidade cristã do ser humano no ato de glorificar e louvar o nome do Senhor não está no barulho, nem no poder, nem na riqueza, mas na humildade e na simplicidade de ser e agir. Repriso a frase que ouvi no caminho de Damasco: “bem aventurados” os ruidosos deste mundo porque deles é o reino do caos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Por que a Bélgica? Padre João Medeiros Filho Indagam-me com frequência sobre o motivo pelo qual fui estudar na Bélgica. Em 1960, o reitor do Seminário de João Pessoa, Cônego Luís Gonzaga Fernandes, escreveu ao bispo diocesano de Caicó, indicando-me para cursar Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. O prelado caicoense, verificando as finanças da diocese (que já mantinha um seminarista naquela instituição de ensino superior), respondeu ao reitor: “O bispado não tem condições financeiras de arcar com mais um aluno em Roma. Para ser vigário das paróquias desta diocese, não precisa ser graduado na Gregoriana. Lá não estive e hoje sou bispo. Porém, se a família quiser mantê-lo às suas expensas, nada tenho a opor.” Meu pai, ao ser consultado posteriormente, agradeceu a honra da indicação. Disse que poderia colaborar, mas seria muito complicado para um comerciante e produtor rural de Jucurutu – onde sequer havia agência bancária, carteira de câmbio, telefone etc. – manter sozinho um filho estudando na Europa. A proposta de papai não foi acolhida. Na impossibilidade de ir para Roma, fui enviado ao Seminário de Olinda. Acatei a decisão, sem traumas e mágoas. Almejava tornar-me sacerdote, “cura de aldeia”. Nasci na paróquia mais simples do bispado, na qual nem sacerdote residente havia. Era reitor do Seminário de Olinda Monsenhor Marcelo Pinto Carvalheira. Informado por Cônego Luís sobre a minha situação, quis conversar comigo. Avisou-me que o governo belga estava oferecendo bolsas de estudos a estudantes brasileiros. Havia vaga para o curso de Teologia, na Universidade de Louvain. Perguntou se aceitaria o desafio e me submeteria ao processo seletivo. Assenti que me candidataria, pois nada tinha a perder e sim a ganhar. Em Caicó e Mossoró, entre 1952 e 1955, estudei com os padres lazaristas holandeses. Estes descreviam como eram os Países Baixos, a Bélgica e as famílias reais. Discorriam com entusiasmo sobre a Casa Real Belga, cujos monarcas eram católicos. Segui as palavras do salmista: “Entrega ao Senhor o teu caminho... e Ele agirá” (Sl 37/36, 5). Dia e hora aprazados, compareci ao Consulado Belga do Recife para os testes. Quanto à aptidão física: saúde excelente. Fui criado com leite do curral, tapioca com manteiga da terra, carne de sol, rapadura, cuscuz, queijos e bolachas de Jucurutu (papai foi pioneiro na fabricação delas). Solicitaram uma redação sobre as relações entre o Estado brasileiro e o Reino da Bélgica. Veio-me à mente o que ouvia e aprendia dos mestres neerlandeses. Mostrei os vínculos entre a família real belga e a casa imperial brasileira. Narrei que as dinastias de ambas: Saxe-Coburgo-Gota-Orleans (Bélgica) e Orleans e Bragança (Portugal e Brasil) se entrelaçavam. Balduino, então Rei da Bélgica, era bisneto da Rainha Maria José de Bragança, filha de Dom Miguel, sobrinha de Pedro I, Imperador do Brasil. Dona Maria José era mãe de Isabel da Baviera, esposa de Alberto I e genitora de Leopoldo III, pai de Balduino. Este, portanto, era sobrinho trineto de Pedro I. A Princesa Leopoldina de Bragança, filha de Pedro II (e neta de Pedro I com sua primeira esposa Maria Leopoldina, da Áustria) casou-se com o Príncipe Luís Augusto de Saxe-Corburgo-Gota (da família dos soberanos belgas), oficial da Marinha Alemã e almirante da Marinha Brasileira. Continuei citando os elos entre as duas nações. Assinalei que Alberto I visitou o Brasil durante os preparativos das comemorações do centenário de nossa Independência. Nessa ocasião, plantou uma palmeira real no campus universitário da Praia Vermelha. Recebeu do Presidente Epitácio Pessoa o título de “Doutor Honoris Causa” da Universidade do Brasil (recém-criada), hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Concluí, lembrando que Leopoldo III abdicou do trono, em favor do filho Balduino, vindo residir por um tempo no Brasil com a segunda esposa, Liliana Baels. Leopoldo era apaixonado por botânica e desejava pesquisar sobre o bioma amazônico. Aqui foram bem acolhidos. Com o resultado da seleção, recebi uma bolsa de estudos, inclusive passagens de ida e volta. Lá, vivi oito anos acadêmicos, em dois momentos. Hoje, direi como o poeta Virgílio: “Haec olim meminisse iubavit” (Um dia será agradável recordar estas coisas). Sempre procurarei seguir o salmista: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom” (Sl 118/117, 1).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 05 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes PASÁRGADA E SUAS MUTAÇÕES Sempre fui um praiano inveterado, mercê da vontade paterna de procurar descanso em todos os períodos de férias. Assim aconteceu em Barra de Cunhaú (começo dos anos 40), Redinha (anos 40, 50 e 60) e nas praias de Natal, até os encantamentos dos velhos Desembargador José Gomes e Dona Lígia, quando procurei fazer voo solo, visitando minha irmã Elza em Pirangi, alugando casas em solidariedade com Dr. Almir e, almoçando no Recanto do Garcia e, no final de 1989 alugando a casa de Zequinha (José Correia de Azevedo), em Cotovelo, na Rua Parnaíba. Nesse último veraneio tive a impressão de haver conquistado a minha Pasárgada e adquiri um terreno ao Dr. Ronald Gurgel, na mesma rua e lá construí a minha casa, pausadamente em função das dificuldades financeiras, até o seu término uns três anos depois, sendo anualmente complementada com reparos e melhorias. Desse recanto, acostumei-me a receber inspirações na varanda do primeiro andar e a viver o encantamento da noção de Pasárgada – aquela cidade da antiga Pérsia, hoje um sítio arqueológico na província de Fars, no Irã, concebida no tempo de Ciro II do Império Aquemênida, que ganhou na história e na literatura a concepção de lugar de liberdade, refúgio, de amor e harmonia. A propósito desse mundo encantado, ficou notabilizado por Manuel Bandeira no poema “Vou-me embora pra Pasárgada”...E quando estiver mais triste, mais triste de não ter jeito. Quando de noite me der vontade de me matar, lá sou amigo do rei, terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Vou-me embora pra Pasárgada. (Esclareço a mulher que escolhi até a sua viagem final foi Therezinha, que partiu coincidentemente num veraneio no trágico, para mim, ano de 2019. Pois bem, vivi esse estágio por alguns anos, quando então vem o “progresso?” me coloca entre duas avenidas – de costas para a estrada de ida a outras praias do sul e na frente com o retorno, com os roncos dos motociclistas apostando corrida, o Circo da Folia, que parecia tocar na minha janela, os barulhos dos carros de som no engarrafamento. Contornei todos esses percalços porque as pessoas da Comunidade continuaram a irradiar harmonia, compreensão e amizade. Até criaram uma associação chamada PROMOVEC em 1987 da qual tornei-me seu integrante lá pelos idos anos 90 e conheci a sua história. Da sacada do primeiro andar minutei muitos artigos e criei um deles com a denominação de Cartas de Cotovelo, com 15 anos de publicação, contando as coisas do lugar e escrevi três livros, sendo um deles todo vivido na praia de Cotovelo (Amor de Verão). Para a PROMOVEC fiz inúmeros Informativos e no seu prédio fiz três lançamentos memoráveis. Enfim, vivi as delícias da cidade de Pasárgada. De maneira incompreensível, o aumento de veranistas provocou a diminuição de associados da Entidade, possivelmente porque tudo estava indo tão bem que se perdeu o espírito associativo e hoje estamos reduzidos a cerca de 80 membros num ambiente de desunião, haja vista as “pelejas intermináveis nos grupos de WhatsApp”, que começam cada dia deste 2025 com cobranças extemporâneas a uma administração que começou no dia 04, numa quebra da harmonia. Venho prestando os meus serviços, inteiramente gratuitos à Comunidade, editando a crônica dos acontecimentos de cada veraneio, mas não fui poupado durante a campanha para a eleição da última Diretoria, quando fazia intervenção especificamente sobre as regras estatutárias, que ajudei a elaborar por duas vezes, razão pela qual, mercê da minha idade e estado de saúde resolvi calar para evitar mais problemas para a associação, mas que em qualquer tempo poderei ter oportunidade de prestar os devidos esclarecimentos. O tempora, o mores!

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

DE VALORES LITERÁRIOS* Por José Nicodemos Sono demorando a chegar, fico impaciente e vou à estante a escolher alguma coisa para distrair o tempo. Batem-me os olhos, à primeira vista, no Ficções Fricções Africções de Franklin Jorge. Pronto, eis o livro, mais do que tudo, para renovar-me no gosto da prosa limpa desse grande escritor nosso. Dos poucos, pouquíssimos, autores potiguares que ainda leio, e de leitura que posso dizer freqüente. Dele, disse muito bem o nosso (de Mossoró) Jaime Hipólito Dantas, "um artista da palavra". A propósito, quem que, por estas bandas e além delas, escreveu, ou escreve, melhor do que Jaime, contista e ensaísta literário melhor entre os melhores? E fique bem claro: exigente como era, e mais positivo, não lhe fez Jaime favor de amizades. Não lhe era do temperamento o falsear valores em nome desses rompantes, sem outro propósito que não fosse o de afagar a mediocridade vaidosa. Bem; não esqueci o que ia dizendo. Seja: a leitura do Franklin Jorge, não como espantalho da insônia, no que cometeria um sacrilégio literário, e sim pelo prazer estético que esse grande escritor costuma trazer-me, até num simples bilhete. Pois bem; estou a pensar neste momento em que escrevo, na facilidade com que escritores medíocres, ou bem abaixo disso, conseguem grande público, inclusive com destaque em resenha crítica, algo assemelhada ao brilho de colunas sociais. E penso isso sem abrir mão da minha maneira franca de encarar as coisas, isto da louvação fácil, isto é, como traição de mim mesmo. Se não gosto... Uma digressão para largo elogio ao Ceará fazendo compor a lista de autores para o exame vestibular os seus melhores autores, em prosa e verso, antigos e contemporâneos. Aos quais, justiça lhes seja feita, em nada ficam a dever, prosadores, Franklin Jorge, do Ceará Mirim, e os mossoroenses Jaime Hipólito Dantas e Dorian Jorge Freire. No universo mágico da poesia - R. Leontino Filho. E nós, aqui em Mossoró, particularmente? Ah, nem se fale. Uma vez que se deu vez a escritor prata da casa, em programa do vestibular, foi para humilhar os legítimos valores locais. O que digo? Diminuir a própria cidade, com o perdão da palavra franca. Não sei fazer do sambenito gala, é isto. Bem; deixem-me volver à arte do grande escritor nosso, que é esse enorme Franklin Jorge. *Transcrito do jornal De Fato [Mossoró, 24 de novembro de 2011] *Não lembro.quem aqui, me fotografou. Nem onde, exceto que essa camisa de cambraia de linho tinha grandes botões de madreperola ocultos no ombro. ******************** Franklin Jorge MEMORIAL NO CEARA-MIRIM O Professor Severino Martiniano me surpreendeu com um pedido. A criação de uma espécie de Memorial que tornasse acessível aos.neus Conterrâneos parcela,. por mínima que seja, do que produzi em termos culturais em pouco.nais de 5 Década de produção literária e jornalistica voltada para as Artes e, em especial, para as Artes Literárias e Jornalisticas. É a segunda tentativa sua nesse sentido..Na primeira, há uns dez ou quize anos, ele pretendia instalar meu acervo entao ainda mais volumoso do wue é hoje, no belo Palacete já Centenário que dei origem ao Colégio Santa Águeda, hoje transformado em Memorial de uma Freira que fez história no Ceara-Mirim. Não demonstrei grande interesse e a ideia morreu no nascedouro... Agora ele retorna com a mesmo ideia, alegando a.minha condição de ente anônimo na terra de meu nascimento e a importância do Acervo wue smealhei em snos de trabalho "modesto e criterioso", conforme as palavras do grande escritor Walmir Ayala em um artigo publicado, há uns 40 anos, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, acerca de meu trabalho de divulgaçãoda Cultura Brasileira. Dessa vez me senti mordiscado pela Mosca Azul, embora já nao tenha saúde nem ânimo para empreendimentos que exijam de mim.nris do que isso dar sem grandes sacrifícios ou prejuízos à minha saúde abalada por uma sucessão de Isquemias que alteraram a minha cognição [ontem um médico que consultei se referiu s uma espécie de Dislexia que dificulta o meu entendimento das coisas, além da perda de parte da audição, dos movimentos e da visão [essa em parte reversível, se eu puder dispor dos recursos necessários oara o tratamento]. Contudo, apesar dessa realidade de difícil superação, senti-me contagiado pelo entusiasmo de Martiniano, que se dispôs a procurar spoios para esse empreendimento. Logo me ocorreu c3der em Comodato meus 37 retratos, pintados por artistas como Fernando Gurgel. Etelanio Figueiredo, Sante Scaldaferri, Diniz Grilo, Gilson Nascimento, Rossini Euintas Perez Rehane Vatista. Cláudia Lange, entre outros, pinturas que eu.ptootio produzi- inspiradas mos Canaviais do Ceara-Mirim -, fac-similes de correspondência com grandes escritores e artistas, objetos e a reconstituição de meu estúdio de trabalho etc. Sobretudo pensei que, a droender de minhas condições intelectuais e físicas,.pudesse ministrar Oficinas e Laboratórios de Leitura Criativa e Produção de Textos Literários.e Jornalísticos que pudessem constituir uma atividade para-didática para alunos da Rede Fundamental de Ensino. Nao sei se isto é exequível em uma terra onde comumente gasta-se 200 para impedir-se que alguém ganhe 20... Em todo caso, louvo a ideia e a iniciativa generosa do Professor Severino Martiniano, que assim demonstra e prova a sua vocação de Educador consciente e inovador.
BEM-VINDOS AO BARBARISMO Valério Mesquita* mesquita.valerio@gmail.com Bem-vindos ao novo mundo do exagero! A mulher ideal, festejada, é aquela bombada, coxas grossas e quadris enormes. Morreu o modelo feminino clássico, comportado, que foi decantado em prosa e verso. E viva o funk, onde a animalidade, a macaquice dos gestos humanos são interpretados como manifestação cultural pelos cariocas. Bom mesmo, até chegar ao orgasmo, é a histeria adolescente que promove o trote universitário. Nele, vê-se um desejo mórbido, doentio, sádico dos jovens que sentem no sofrimento humano, na dor, um prazer sexual que só Freud explica. Só pode ser tara. O problema não é só da polícia mas da psiquiatria. Bem-vindos ao novo mundo do transtorno de conduta. A prática da virtude é vaiada na rua e banida dos lares trocada pela patifaria de programa como o BigBrother. O maníaco sexual, hoje, está dentro de sua casa. A juventude continua enferma, sôfrega, cantando forró erótico, sofrível, de letra pobre e homicida, pois, assassinaram a memória musical de Luiz Gonzaga e toda aquela côrte formidável de intérpretes da verdadeira mentalidade nordestina. Tudo é abuso, transgressão, subversão da ordem social, cultural e política. A criança, na escola ou em casa, aprende logo a dançar, remexer o traseiro, a ensaiar os passos promocionais do funk, rumo ao estrelato, para gáudio dos olheiros pedófilos. Ninguém quer ser honesto. Meretriz em vez de atriz. Eu sei, eu sei que o tempo muda os costumes, o mundo gira, uma geração difere da outra num rodízio interminável. Mas, não poderia mudar prá melhor? Por que os vícios permanecem e triplicam a nocividade no ser humano que cada vez mais sucumbe e se bestializa? Bem-vindos ao trágico, ao catastrófico e ao sinistro das estatísticas do pós carnaval nas estradas, nas ruas, nas praias, onde tudo é subvertido em nome da velocidade, do alcoolismo e da vulgaridade. Quantos inocentes não morrem no lugar dos maus? O fabricante do cenário do crime é sempre o próprio homem, pela ganância do dinheiro, pelo prazer indecoroso do sexo e, enfim, toda permissividade inclinada eternamente para o ilícito. Isso vem da gênese e do gênesis. Aliás, o pecado não mora ao lado e sim, dentro de nós. Não pensem que sou contra o carnaval, a música, a dança, aos divertimentos públicos. Absolutamente. Crítico o excesso na bebida, o consumo de drogas, a degradação dos costumes pelo modismo em nome de uma falsa modernidade. Esquece o passista que o chão onde pisa é também o repouso da carniça. São coisas minhas, muito minhas. Imaginar que as festas ditas profanas reúnem milhões de foliões com gastos e gostos extravagantes!! E as festas beneficentes em prol dos oprimidos, dos sem tetos, sem planos de saúde, desempregados e famintos não chegam nem a agrupar um terço de gente e de recursos? Em dezenas de capitais do Brasil o carnaval dura de sete a oito dias. Feriado religioso é mais comemorado nas praias que nos templos. Pode ser que a fé cristã esteja perdendo a parada para o mundo cão. Mas, como o Salvador falou em “benditos do meu Pai”, o processo seletivo se resume numa minoria. “Muitos são chamados e poucos os escolhidos”, apesar da imensa misericórdia de Jesus Cristo. Mas, afinal, quem for partidário do barbarismo que me desculpe: a leitura da Bíblia, como um hábito, é fundamental para evitar e se defender do caos. Seja íntimo, pois, do Senhor. Amém.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 04 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Suspendi o veraneio para poder homenagear o amigo Padre Francisco Motta, da Matriz de São Pedro Apóstolo, nos seus 15 anos de sacerdócio. A missa do dia 07 de janeiro, como era esperado, foi muito prestigiada pelos seus amigos e paroquianos, tendo ocorrido em seu ritual pleno de agradecimentos e homenagens. O Padre Motta fez a sua homilia em estado emocional, sobretudo pela presença de sua genitora e outros parentes residentes na cidade de Patos, Estado da Paraíba, onde nasceu o referido sacerdote. Desse período de ordenação, na Paraíba e em seguida em Pernambuco, passou em Natal os últimos dez anos, onde conquistou a confiança dos fiéis e realizou uma obra digna de restauração da Matriz de São Pedro – hoje uma das mais belas igrejas da cidade. Seu trabalho não foi somente no aspecto físico, mas nas tarefas religiosas, ampliando em muito o comparecimento dos católicos às suas celebrações e festas comemorativas. Até o ano de 2019 não o conhecia, mas com o internamento da minha THEREZINHA no Hospital da UNIMED, eis que recebo a visita do Padre Motta, precisamente no dia 16 de março, quando completava 54 anos de matrimônio, recebendo dele as bênçãos na renovação do amor do casal. Desse mês, no dia 31, O Criador levava de volta a minha companheira, que partiu confortada pelo amor da família e dos amigos que prestigiaram o seu velório e sepultamento. Desse dia em diante aproximei-me do Padre Motta e passei a ser seu colaborador em atividades humanitárias e de resgate da história do bairro onde está inserida a Igreja. Atualmente, um pouco afastado em virtude das dificuldades de locomoção e de esforço maior para superar as escadarias do templo. Com fé, o que nunca me faltou, terei oportunidade de melhor colaborar com esse amigo paraibano que Deus colocou em meu caminho.
Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 03 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Com pequeno atraso, volto a fazer as crônicas do nosso veraneio 2025 em Cotovelo, posto que não trouxe o computador para não desviar o aproveitamento do descanso. No domingo 05, digo da minha alegria em procurar o caminho do mar e, à noite, fui à Missa na Igreja de São Francisco em Pirangi, com Carlinho e Carlos Neto, inteiramente lotada, a ponto de faltarem hóstias para os fiéis, com os pedidos de desculpas do Padre Sidnei. O Dia dos Santos Reis, como já era esperado, foi rico em comemorações e a praia foi tomada em sua integralidade, num fuzuê daqueles. Não gosto de ver Cotovelo com tantos frequentadores estranhos, tirando o nosso maior fazer – a privacidade, haja vista que não temos infraestrutura para tanta demanda, com ruas lotadas de veículos e o excesso de lixo, virando uma muvuca. Em verdade, para nós moradores e veranistas, o fenômeno seria melhor a calmaria dos dias comuns. Contudo, o fenômeno não local, porquanto ocorre em todo o literal dos estados brasileiros. Para ampliar o desencanto, corre notícia da breve transferência do Padre Sidnei, com o qual a Comunidade mantém estreita ligação, mercê do seu dedicado trabalho na região. Fiquemos atentos para procurarmos minimizar esses percalços e fazermos voltar a tranquilidade em todos os sentidos, inclusive no religioso. Cotovelo, pela proximidade, já pode ser considerada bairro de Natal – isso é inevitável. Por isso precisa ganhar uma estrutura de equipamentos públicos compatível. Nesse caminho esperamos que a PROMOVEC esteja alerta e, certamente, deverá tomar as suas cautelas. A propósito, vem sendo muito badalada a questão da colocação de banheiros públicos em Cotovelo e as pessoas que compuseram a diretoria anterior não cansa de provocar as providências da Entidade. Seria muito apropriado que fizéssemos um plebiscito com a comunidade, pois se não queremos essa intervenção na praia, temos que ponderar que é desconcertante ver pessoas fazendo necessidades pessoais ao relento. O assunto é sério e carece de verificar as sequelas que a falta de estrutura venha a reduzir a passagem de visitantes e, com isso, o desemprego e dificuldade financeira dos empreendedores locais.
Cartas de Cotovelo – Verão de 2025 – 02 Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
DIA DOS SANTOS REIS Da tradição religiosa natalense, a data de 6 de janeiro é consagrada aos Santos Reis Magos – as testemunhas do nascimento do Redentor, em homenagem aos quais foi erguido o Forte dos Reis Magos, conservado até os dias presentes. Foi nessa data, do ano de 1962, que vim da praia da Redinha, onde veraneava, para pedir em casamento a mão da minha amada THEREZINHA, com a promessa de núpcias para igual data do ano de 1963, não se concretizando pelo fato de ter sido o dia escolhido para o Plebiscito e eu, então, trabalhava no Tribunal Regional Eleitoral, ficando remarcado para 16 de março daquele ano, na cidade de Belém, capital do Estado do Pará, para onde foi transferida a família Rosso/Jones Nelson à qual ela pertencia. Após o casamento, pouco tempo depois, retorna para Natal, retomando a estrada profissional e familiar. Assim sendo, 6 de janeiro sempre ficou marcado em minha vida, quando solidifiquei a minha história amorosa com a amada, iniciada em 1948, ao chegar em Natal, vindo de Macaíba, para morar na casa da rua Meira e Sá, 120, vizinho ao número 118 onde ela já residia. Esse fato compõe um caminhar duradouro – 1948 – 2019, ou seja, quando cheguei e de pronto olhei em seus olhos, dando início a uma amizade, depois namoro, noivado, casamento até o chamamento do Criador, no dia 31 de março de 2019. Portanto, 71 anos de convivência afetiva, fiel e de cumplicidade. No correr desse tempo aponto os episódios marcantes: em 1948: começava uma carreira artística precoce, que durou até 1954, sempre acompanhada por ela, com desvelo e coleção de recortes de jornais e preocupação de algum possível desvio de rota. Depois disso a prestação da vida militar no 16º Regimento de Infantaria, concluído nos pruridos de 1960, quando viajei para Recife a fim de estudar e me preparar para o vestibular. No mesmo ano retornei e continuei a minha vida em busca do futuro, sempre com o seu apoio sem compromisso até 1962, como acima relatei. Nesse ano ingressei nos quadros do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, onde permaneci até 1971, após aprovação nos concursos de Auditor do Tribunal de Contas, que assumi em maio deste último referido e no de Promotor Público auxiliar, que declinei de aceitar. O casamento em 1963 nos trouxe no início de 1964 várias vitórias – aprovação no vestibular de Direito e o nascimento de Rosa Ligia, os quais ampliaram a minha responsabilidade, obrigando-me a estudar exemplarmente, tanto que logrei, ao concluir, o recebimento da Medalha de Mérito Universitário (UFRN), iniciando uma travessia pela vida profissional, bem sucedida, até a aposentadoria gradual de cada atividade, dedicando-me daí em diante ao labor cultural e acadêmicos, onde ainda me encontro, guardando momentos inesquecíveis da companhia da minha eterna namorada. Aqui mais um registro da minha passagem por esta dimensão da existência e das alegrias vividas com a companheira inseparável, até que Deus a chamou para outra missão em sua Casa.
Reminiscências dos tempos na Bélgica Padre João Medeiros Filho A pedido de amigos, volto com mais recordações da minha passagem pela Bélgica. Com dezenove anos, parco tirocínio e preparação incipiente, fui levado do status de brocoió de Jucurutu à condição e responsabilidade de aluno da plurissecular Universidade de Louvain. Isto aconteceu antes da separação linguística, resultando em duas instituições de ensino superior: Université Catholique de Louvain-la-Neuve, em Ottignies e Katholieke Universiteit te Leuven, ambas localizadas a cerca de trinta quilômetros de Bruxelas. Hoje, em minhas lembranças, “sinto uma coceira no juízo”, na expressão de Oswaldo Lamartine. “Sua cabeça é uma mistura sem cura”, dizia mamãe ao bispo de Caicó a meu respeito. Ela, terna e perspicaz, Jácome de nascença, unida à família Medeiros pelo casamento. Mulher autêntica e sensível. Não era muito chegada a padres e freiras, mas de um profundo respeito por minha opção religiosa. Na Bélgica dos anos sessenta, vivi uma verdadeira Babel linguístico-cultural-religiosa. Morava no “Collegium pro América Latina”, onde tive como vizinhos de quarto Michel Quoist e Camilo Torres, totalmente diferentes pelo temperamento, idioma, formação teológica, sociopolítica e orientação espiritual. O primeiro, poeta e místico. O segundo, inquieto, tornando-se posteriormente guerrilheiro colombiano, marcado pelo sofrimento de seu povo. Para ele, “a dor é a maior fonte de amadurecimento.” Leuven (Louvain) situa-se na província de Brabant, onde se fala flamengo, dialeto neerlandês. Na universidade, optei pelo regime linguístico francês. À época, por orientação da Santa Sé, as aulas de Teologia eram ministradas parcialmente em latim. No seminário, o espanhol era a língua oficial. Eu, o único brasileiro entre noventa internos, oriundos de trinta e cinco nacionalidades, usava português apenas para sentir saudades e rezar. Até os meus pecados eram confessados em francês. Não me responsabilizava pela versão, dizia a Cristo entre sussurros e preces de arrependimento. Estudei em Caicó e Mossoró com padres holandeses. Aprendi frases com toques de irreverência nessa língua frísia. Sabia o suficiente para agradar os flamengos e obter pequenas regalias culinárias. Depois, aprendi o bastante para contar anedotas e fazer rir o saudoso Padre Pio Hensgens, pároco de Morro Branco (Natal). Conheci muitos latino-americanos, docemente rebeldes e libertários, jovens na faixa dos vinte anos. Não raro, sofriam de paixões recolhidas pelas loiras, suas colegas acadêmicas. Penavam com as investidas tentadoras das “galegas”, atraídas pela tez tropical e os belos “cheveux noirs” dos seminaristas latino-americanos, que se penitenciavam com orações, jejuns e sacrifícios. Rezavam para transformar o calor pecaminoso em afeto fraternal. Com um rendimento intelectual alto, acabei tornando-me ouvinte das dores de amores impossíveis, confidente sem experiência e poder de absolvição sacramental. Fui apenas um interlocutor compassivo, de passagem naquela casa de formação clerical, onde se falava pouco e estudava-se muito. Fui delineando minha fé num molde singular, aberta a outros costumes, pensares e saberes. Ela lembra um murano florentino, um quebra-cabeça que só eu entendo. Foi configurada pacientemente, a partir de experiências pessoais, meditações, leituras, diálogos e desencantos advindos de etiologias diversas. Confesso que minha fé cristã é passível de revisões e adaptações internas. A rigidez é uma das características dos seres mortos. Num caldeirão de nacionalidades, etnias, hábitos e visões diversas, fui adquirindo o hábito de ouvir e ver o diferente. O discípulo de Cristo necessita ser desarmado, disponível e acolhedor. Nesse aspecto, o Cardeal Cardijn (de quem fui acólito por algum tempo) era meu modelo de abertura, fazendo estremecer, à época, certos áulicos petrificados do catolicismo. Cultivei a amizade com ateus, agnósticos e fiéis de outros credos. Isso não interferia absolutamente na qualidade dos diálogos mais profundos. “Deus é diversidade, pois é Trindade”, dizia o teólogo Nicolau de Cusa. Aprecio gente sensível e inteligente, caçadora de verdades e atenta à misteriosa e miserável condição humana. Não estou imune a me deparar com oportunistas, radicais, carreiristas e intransigentes. Estes se agarram a narrativas e frases feitas, à moda hedonista ou iconoclasta. Tenho gravadas na memória algumas palavras de Camilo Torres, dentre elas: “Sou uma simples fagulha de Deus e isso é belo. Gosto de todos e de tudo, exceto dos arrogantes, pois estes nos afastam de Cristo – ternura e misericórdia divina.” O apóstolo Paulo recomenda: “Acolhei-vos uns aos outros, como Cristo vos acolheu” (Rm 15, 7).