terça-feira, 16 de maio de 2023

 

AMIZADES LITERÁRIAS



Diogenes da Cunha Lima



O livro cria parceiros. Muito já se diz que é o melhor amigo do homem. O companheirismo criado pela literatura ultrapassa o território da imaginação. A união de Batman e Robin continua presente no imaginário infantil.


Na vida real ou na ficção, a amizade literária é vasta e, algumas vezes, icônicas. Lembremos o Cavalheiro da Triste Figura Dom Quixote, o sonhador, sempre apoiado pelo amigo escudeiro pé-no-chão Sancho Pança.


Shakespeare escreve sobre amizade no desconfiado Hamlet com o confiável Horácio. O príncipe da Dinamarca, shakespeareano, não tinha dúvidas quanto à fidelidade do fidalgo. O chileno Pablo Neruda teve um companheiro solidário, em viagens e sonhos, o baiano Jorge Amado.

O famoso filme “O Carteiro e o Poeta”, baseado no romance de Skármeta, emociona a plateia de todo o mundo. O carteiro aprendeu com Neruda a fazer metáforas poéticas.


Câmara Cascudo era um fazedor de amizades, principalmente com os potiguares e com intelectuais, inclusive dos admirados pela leitura. Entre tantos, comemorava com vinho o aniversário de Verlaine. Era íntimo de Baudelaire e Rimbaud. A amizade com Mário de Andrade, com mútua influência, está expressa na correspondência por mais de duas décadas. A aproximação com seu primeiro editor, Monteiro Lobato, rendeu histórias e estórias. A falante boneca Emília não largava Narizinho, personagens lobatianos.


Larga correspondência revela-nos a cotidiana e inseparável amizade entre os poetas portugueses Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Também está documentada em cartas, a ligação estreita, intelectual e emocional, da ucraniana-recifense Clarice Lispector com o mineiro Fernando Sabino. O seu amor impossível pelo poeta Lúcio Cardoso, em revelações de encanto e frustração. Normalmente, o amigo aceita e respeita o jeito de ser do outro.


As amizades literárias tornam fraternas as relações. Os intelectuais congregam-se em academias e outras instituições. Fazem publicações de obras coletivas em revistas. Estimulam e potencializam a atividade dos companheiros. Os não integrantes gozam dos associados ao dizerem que estes formam “igrejinhas literárias” e “vivem em torres de marfim”.


A amizade, reconhecida como virtude pelos filósofos, é uma necessidade humana. Carece de zelo, cuidado, carinho e admiração. Temos amizades inesquecíveis, como a que tive (tenho) com o meu mestre Luís da Câmara Cascudo, os encantados Veríssimo de Melo, Dom Nivaldo Monte, Luís Carlos Guimarães, Nilson Patriota, Dorian Gray. Todos são amigos essenciais, que muito me ensinaram, em conhecimento e vida.


Não lembrarei dos amores tão parecidos com amizade, que são, no dizer de Machado de Assis, muito mais serena. Anotamos as amizades produtoras de alumbramento, das emoções de pessoas dedicadas à música e à poesia. Vivem Vinicius de Moraes e Tom Jobim.



domingo, 14 de maio de 2023



 HOMENAGEM ÀS NOSSAS QUERIDAS MÃES 

Mesmo recém-transplantado, não poderia deixar de levar uma palavra de afeto a todas as nossas mães: esposas, sogras, noras, bisavós, avós, tias, enteadas, segundas mães (madrastas), cunhadas, primas, sobrinhas, madrinhas, amigas etc. Um tributo especial às mães dos meus três doadores de córneas. Durante o mês de maio festejamos a Mãe Celestial, Maria Santíssima. No primeiro domingo celebramos Nossa Senhora Mãe dos Homens e no segundo nossas genitoras terrenas. Na primavera europeia, no mês em que as flores desabrocham, quis a Igreja comemorar a beleza da vida na pessoa da Virgem e de nossas mães, “rosas de Deus”, no dizer de Santo Agostinho. É justo esse preito de gratidão a todas as mães da terra. Desejamos exaltar o amor, a ternura e o carinho, a compreensão, o desvelo e a dedicação. E nada melhor para simbolizar e resumir todos esses sentimentos humanos do que a figura materna. Participante do mistério de Deus, representante do Divino entre os homens, ela encarna a bondade e expressa a vida sobrenatural e nosso destino de criaturas, filhas do Eterno e Infinito. O próprio Cristo, tendo dispensado uma série de realidades e bens terrenos, não se privou do colo materno e do sorriso meigo daquela que Ele nos legou para ser também a nossa Mãe. O Filho de Deus, melhor do que nós, sabia que o coração de uma mãe expressa muito bem a misericórdia divina para conosco. É esse lado divino de nossas mães, que neste segundo domingo de maio proclamamos. É a tradução do afeto de Deus num rosto humano, que neste dia exaltamos ao homenagearmos nossas mães. A grandeza do Criador não poderia deixar de ser acessível a todas as criaturas. Sua incomensurável bondade e sua infinita capacidade de amar e perdoar não poderiam ficar sem uma representação terrena, à disposição de todos os homens: simples, cultos, importantes, humildes, doentes, saudáveis, grandes e pequenos. Deus quis nos deixar um sacramento universal de seu amor e ternura: uma mãe. Que Maria Santíssima abençoe todas as nossas mães, as peregrinas na terra e aquelas que estão em sua companhia celestial. Como Mãe Divina, conhece melhor do que nós o coração das nossas queridas genitoras, imagem de Deus, ternura incomensurável e misericórdia infinita na face da terra. E que a bênção do Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e em vós permaneça para sempre. Amém. 

São os votos de Padre João Medeiros Filho

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ADOTO ESTA MENSAGEM COMO MINHA FOSSE, COM TODO AMOR E CARINHO, PARA AS MÃES VIVENTES E COM A SAUDADE ÀS QUE ESTÃO NA CASA DO SENHOR.

sábado, 13 de maio de 2023

 MEROS PALPITES

 
Valério Mesquita*
 
O mundo virou bando de interesses guardados por polícia. E com ele a lei, os direitos individuais, o patrimônio público e até o crime, vez por outra. Os códigos instituídos pelos homens e os mandamentos de Deus são quebrados todos os dias, minuto a minuto. O facínora, o bandido dos crimes hediondos, têm como defesa “os direitos humanos”, as ONGs e até ministério. Há mais direitos para eles do que para os cidadãos e cidadãs comuns. O sistema prisional e as penas aplicadas são uma lástima e não corrigem e nem despencam as estatísticas criminais. Antes, são estimulantes para novas práticas e revoltas. 
Bem, e daí? Aonde quero chegar? Bom, o assunto é tão emblemático que nem sei se chegarei à sua conclusão. Por isso, intitulei o texto de “meros palpites”, abordagem ligeira e descomprometida, tudo à luz da experiência de vida, debruçado à janela, lendo jornais e vendo a máquina mortífera chamada televisão. Começo perguntando: o estado brasileiro está falido no enfrentamento dos desafios sociais, virais, principalmente a saúde e a segurança? Não. Não está. O problema é de gerência, de competência. O regime democrático é lento e o organismo corroído de chagas é de caríssima manutenção. Anotem: na crise econômica que se avizinha o nosso país pifará. Essa ordem (ou desordem?) econômica explodirá, pois a impunidade que campeia já acendeu o estopim, baldados os esforços do Ministério Público e da Polícia Federal. 
O abuso de concessão de liminares aí está para confirmar. Os tribunais de contas votam criteriosamente intervenções municipais em prefeituras corruptas, mas os governos estaduais não executam as decisões por conveniência política. Nos hospitais públicos a pobreza morre à míngua, abandonada com dores físicas e morais insuportáveis porque o deficitário sistema único de saúde não dá votos e sim o “bolsa família” e a dinheirama drenada e desviada das “emendas parlamentares” e outros privilégios. 
Tempos atrás, uma senhora que reside num condomínio se lastimava com piedade de um marginal, detido por populares em flagrante. Levou uma merecida sova. Aliás, a única punição que receberá realmente. “Minha senhora”, disse-lhe, “deixe o povo aprender a punir, porque a dor física é a única que mete medo”. Aí me lembrei que foi a dor do corpo (para mostrar a única fragilidade veraz do ser humano) aquela escolhida pelo filho de Deus – Jesus – para redimir os pecados do mundo. Esbofeteado, cravado de espinhos, cuspido, furado com pregos os pés e as mãos, e crucificado. E Pilatos, simbolizando “liminarmente” a justiça romana e judia de Caifás, lavou as mãos “diante do sangue desse inocente”. Jesus deixou-se condenar porque assim estava escrito e predestinado. Mas os homicidas diabólicos do mundanismo de hoje, verdadeiros animais e os ladrões de colarinho branco são tratados com pachorra e facúndia, com homenagens de praxe e de apreço frutos de uma legislação fáctil, fóssil, fútil e fácil. E assim, já dizia o comerciante assuense Luis Rosas, que desfrutou de grande riqueza e, depois tendo perdido tudo, foi surpreendido por amigos vendendo avoetes na feira das Rocas, em Natal: “Amigos, não se preocupem, tudo é comércio!”.
Por último, li no Estadão que um penduricalho foi revisitado pelo Conselho Nacional de Justiça e chancelado pelo seu corregedor que permite aos magistrados mais antigos do Poder Judiciário receber pagamentos retroativos de um benifício extinto em 2006. O assalto organizado vai custar mais de um bilhão aos cofres da União. A Justiça é comércio? E os mais pobres morrendo antes do tempo com fome e sem remédio?

 (*) Escritor


terça-feira, 2 de maio de 2023

 

Maio, a mitologia e a Virgem Maria

Padre João Medeiros Filho

Durante o mês de maio, a Igreja Católica cultua, de modo especial, a Mãe de Cristo e dos homens. Na primavera europeia, dentre as flores que desabrocham, estão as rosas. Partindo dessa realidade e de uma metáfora, a Igreja quis celebrar a beleza daquela que é a “Rosa Mística”, umas das invocações contidas na Ladainha Mariana. Justo e merecido é esse preito de gratidão à Virgem, modelo de vida cristã. Há outras razões históricas e mitológicas para as celebrações deste mês. Desde a Antiguidade, bem antes do nascimento de Cristo, o quinto mês do ano já era ligado a um personagem feminino. Seu nome é em homenagem a uma deusa da mitologia greco-romana, conhecida por Maia. Esta, segundo Junito Brandão e outros estudiosos do assunto, era a mais jovem das sete Plêiades, filhas de Atlas e Afrodite. Protetora do florescimento, Maia é associada à primavera, que atinge o seu esplendor no hemisfério norte, em maio.

No calendário civil, organizado por Rômulo na fundação de Roma (753 A.C), já havia ligação dessa época do ano com um arquétipo feminino. A constelação que mais se destaca nas noites de maio é justamente a de Virgem, com sua brilhante estrela Spica. Deste modo, o firmamento passou também a ser relacionado com uma figura feminina. Vale salientar que a constelação de Virgem já foi conhecida como Anna, a deusa do céu e esposa do deus sumério Anu. Outrora, tal astro também esteve vinculado a Deméter, divindade romana da agricultura e a Eva, esposa de Adão, de acordo com o relato do Gênesis.

Com o advento do cristianismo uma nova e excelsa mulher destacou-se: Maria Santíssima, a Genitora de Cristo. E assim, a veneração a Nossa Senhora veio preencher uma lacuna existente no catolicismo ocidental e oriental. Segundo a tradição cristã, o fato da Jovem de Nazaré ser filha de Ana (ou Hanna em hebraico), cujo nome está ligado à constelação de Virgem, contribuiu ainda mais para que se promovesse tal associação. Cabe ressaltar igualmente que, consoante a teologia católica, a Mãe do Redentor é chamada de nova Eva, reforçando essa analogia. Diga-se, de passagem, que no Evangelho de Lucas e na tradução da Vulgata, o anjo saúda a Virgem Maria com a palavra Ave, que é o inverso de Eva. “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1, 28).

Conforme alguns pesquisadores, o calendário romano reformado por Júlio César em 45 A.C. (modificado pelo Papa Gregório XIII, daí o nome de calendário gregoriano), dedicava o quinto mês do ano ao deus Apolo, o qual recebeu de Hipérion o sol, a lua e a aurora. A lenda conta que Apolo matou uma grande serpente (Píton), que atemorizava o povo. A iconografia católica representa a Virgem Maria, nas pinturas e imagens de Nossa Senhora da Conceição, esmagando a cabeça de uma serpente, consoante também a descrição da Bíblia (Gn 3, 4-14).

Posto que a Mãe de Jesus é venerada pelos católicos como a Rainha do Céu, seu manto é representado pela cor azul do firmamento. “Ave, Regina Coelorum” (Salve, ó Rainha dos céus) é uma das antífonas rezadas ou cantadas, durante o ano litúrgico, no final das Completas, última oração da Liturgia das Horas, antes conhecida como Breviário Romano. Na Ladainha de Nossa Senhora (igualmente intitulada pelos fiéis católicos como Litania Lauretana) há uma invocação, reverenciando-a com o título de “Porta do Céu”. Para os cristãos que praticam o catolicismo, a Virgem Maria é o rosto materno de nosso Deus, “expressão terrena do feminino divino”, nas palavras do escritor e jornalista Luiz Paulo Horta. Deve-se venerar Nossa Senhora “Mulher, espelho de Deus”, no dizer poético de São Boaventura, lembrando que Ela exaltou os humildes e gerou o Salvador da humanidade. A Mãe de Cristo é “a Compadecida”, assim denominada por Ariano Suassuna. Como Rainha do Céu, torna-se nossa medianeira, qual seja, a “Onipotência Suplicante”, na belíssima definição de São Bernardo de Claraval. “Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós.”

domingo, 30 de abril de 2023

 


Outra Carta Avulsa de outono (2023)

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes


Realmente, não é fácil a vida de um idoso, ainda mais viúvo!

Após uma noite mal dormida me levanto para fazer o café da manhã, pois no sábado Margarete está de folga. Isso me obrigou a um esforço acima das minhas tarefas cotidianas. Não que não tivesse quem o fizesse, mas o velho acorda muito cedo e pensa logo em comer.

Concluída a tarefa para a primeira refeição do dia, chegou a minha filha Thereza Raquel para alimentar os gatos e Thor, o cachorrão retirado das ruas e hoje parte integrante do meu cotidiano. Em seguida chegaram Júnior e Josi para fazerem a faxina. Comemos juntos e cada um tomou o seu rumo para as obrigações da casa.

Retorno ao quarto/atelier para pensar se tenho coragem de ir para os encontros no Sebo Vermelho – a manhã de hoje promete. Aí vem o conflito: a cabeça diz que vá, mas o corpo desobedece e este vence a batalha – não tenho ânimo para sair, mesmo que a minha outra filha, Rosa, se disponha a me acompanhar.

Olho para uma pintura, ainda inconclusa no cavalete, mas os braços estão sem força para os retoques. O que decidir então? Volto para a minha companheira diária (a rede) e pergunto? E agora?

Após um brevíssimo cochilo encontro a saída – abro a janela do primeiro andar e recebo uma briza suave, que se apresenta com a visão de nuvens claras e um sol ameno.

Vou ao computador, ao lado da janela e ponho-me a divagar. Comecei a escrever esta Carta Avulsa.

Por que avulsa? É decorrente de não se alinhar a uma motivação específica e constante como o faço nas Cartas de Cotovelo, quando lá estou. Então vamos ver o que me vem à cabeça.

Lembrei-me da triste manhã de terça-feira passada, quando tive que sepultar em meu quintal mais um companheiro de vida – o gatinho Tel, herança que a minha Thereza deixou ao partir em 2019, com mais outros felinos. Não era tão velhinho, pois mal completara dez anos, mas carregava em seu corpinho frágil um esforço maior de conduzir sua carcaça com apenas três patinhas, pois uma traseira só possuía a metade (até hoje não sei dizer o motivo), já apareceu assim! Teve uma vida boa e sadia. Ultimamente ficou magrinho e levei-o ao Veterinário que tudo fez para recuperá-lo, mas constatou que era um CA e lá se foi o meu bichinho.

Pelas 10,30h chegou o eletricista Ivaldo, contratado por Carlinho para trocar o meu chuveiro elétrico, já bastante usado e corrigir um bocal do espelho da pia do nosso antigo quarto, agora pertencendo à minha neta Gabriela.

Tudo concluído a contento. Afinal vou voltar a tomar um banho quentinho, pois a velhice não suporta temperatura fria.

Ao meio dia fomos todos para o Batatas almoçar (Teta, Victor, Lucas e Micarla) – é pertinho da nossa casa. Fiz as quentinhas de Gabi/Lucas, Júnior/Josi e Carlinhos/Carlos Neto. Uma madorna necessária após a refeição, assistir o último episódio do programa Rota de Klênio Galvão, que lamentavelmente sai do comando. Pelas 16 horas chegue a família do aniversariante do dia, meu filho Rocco José, com Daniela, Clara/namorado, Guilherme e do cãozinho Dom.

Com o restante da família comemoramos o evento e tudo correu bem até o momento em que retorno ao meu exílio para ver se recupero o sono e tenho um domingo mais disposto.


quinta-feira, 27 de abril de 2023



OCTACÍLIO ALECRIM

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Octacílio Alecrim nasceu em Macaíba (RN), em 17 de novembro de 1906. Seus pais eram o coronel Prudente Gabriel da Costa Alecrim e Ana Pulchéria de Melo Alecrim, comerciantes bem situados da região. Aprendeu as primeiras letras na sua cidade, vindo depois para Natal continuar os estudos no Colégio Santo Antônio e no Atheneu Norte-Rio­grandense. Formou-se em Direito no Recife no ano de 1934, tendo sido um dos líderes acadêmicos mais atuantes do seu tempo. Nessa época, fundou a Revista Cultura Agitação com Álvaro Lins, Aderbal Jurema e outros contemporâneos.

Depois de formado, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se aproximou do Grupo Brasileiro de Estudos Proustianos, formado por intelectuais como Otto Maria Carpeaux, Sérgio Buarque de Holanda, Lúcia Miguel Pereira, e outros. Assim que foi possível, viajou para a França, onde passou uma temporada aprofundando seus estudos sobre Proust.

Octacílio Alecrim escreveu e publicou vários artigos em jornais e revistas, como Diário de Pernambuco, Correio da Manhã, Jornal de Letras (RJ), Revista de Antropofagia (SP), Revista Nordeste (PE), e Revista Branca (RJ), sendo a maior parte deles sobre o tema da escrita proustiana. Na Revista de Antropofagia (2ª edição, 1929), ele publicou um texto — “Miss Macunaíma” — que trata com extrema ironia da viagem de uma pseudo-­escritora, do Sul ao Nordeste. Logo nas primeiras linhas, o leitor mais atento percebe que, na realidade, ele está referindo-se a Mário de Andrade e à sua viagem às terras potiguares, de 1928 e 1929. A ironia, o preconceito e o tom bem agressivo que perpassam pelo texto evidenciam o posicionamento do autor junto a Oswald de Andrade, no embate literário que este desencadeou contra o autor de Macunaíma.

Em 1957, Octacílio Alecrim publicou um livro de memórias intitulado Província Submersa (Reeditado pelo Senado Federal juntamente com o Instituto Pró-Memória de Macaíba). Esse livro pode ser considerado uma autobiografia. Nele, o autor realiza um verdadeiro retomo, à moda de Proust às suas origens e ao tempo da infância, resgatando com  sensibilidade inúmeros tipos e costumes da sua terra. O livro está organizado em cinco partes, assim respectivamente denominadas: Zumbido de Berimbau, Parafuso de Redemoinho e Almanaque de Lembranças; segunda parte: Brevetes do Fabulário; terceira parte: Fogueira de Guia, Evocações de estrelas cadentes e Nostalgia do infinito; quarta parte: Signo de escorpião; e quinta parte: Sobrevivência de Anteu. Ao final do volume, há ainda uma série de depoimentos sobre o autor, assinados por escritores e historiadores da literatura, tais como Mauro Mota, Nilo Pereira, Celso Kelly, Afrânio Coutinho, Veríssimo de Meio, Américo de Oliveira Costa e Peregrino Júnior.

Afrânio Coutinho, por exemplo, afirma que Octacílio Alecrim é o ensaísta delicado e penetrante que tem o prazer das sensações intelectuais refinadas. Daí sua atração por Proust, a quem são dedicadas algumas de suas melhores páginas.

Octacílio Alecrim faleceu no Rio de Janeiro, cidade em que residiu parte da vida, em 02 de setembro de 1968 e foi enterrado no Cemitério São João Batista.

Em Macaíba, uma escola estadual, em homenagem tem o seu nome.

(*) Escritor.



quarta-feira, 26 de abril de 2023

 H O J E




 A poesia do Sermão da Montanha 

Padre João Medeiros Filho 

Deus é sapientíssimo. Não fui contemplado com o carisma da poesia e o talento de uma bela voz. Porém, fui escolhido para a divina missão de um “aboiador do Evangelho”, como me chamava Oswaldo Lamartine. Quando eu era criança, causou-me forte impressão o cantador Dimas Batista, ao denominar os cordelistas “anjos e profetas do Eterno.” O artista piauiense João Cláudio Moreno confessa que tinha o desejo de ser repentista. Chegou a comprar uma viola. O repente é a salmodia do poema. Parafraseando aquele renomado violeiro pernambucano, considero os seresteiros, cantadores e poetas seres celestes, passeando pelas ruas dos homens. Sempre os admirei e exaltá-los-ei. Segundo Jean Giblet e vários exegetas, Jesus foi um exímio repentista. Infere-se de passagens bíblicas neotestamentárias em aramaico e hebraico. Para eles, o enunciado de cada Bem-aventurança apresenta a estrutura morfológica e literária dos motes. No ápice de sua pregação, Ele brinda-nos com ensinamentos densos de poesia, contidos no Sermão da Montanha (Evangelho de Mateus, capítulos 5-7). Enaltece as virtudes da mansidão, paz, justiça, misericórdia e capacidade de servir. Suas lições contêm metas existenciais audaciosas para a sociedade: amar os inimigos e perdoar a quem nos ofende. Não basta obedecer às leis e normas, ancoradas no cumprimento dos preceitos morais para evidenciar a dignidade do homem. Os fariseus exigiam tal observância. Jesus vai além, convidando seus seguidores a buscar a nossa beleza poética. Desta forma, é possível tornar-se instrumento a serviço da vida em suas diferentes etapas. Há lirismo nas expressões do Filho de Deus, ao proclamar: “Olhai os pássaros do céu, não semeiam, não colhem, nem ajuntam nos celeiros. Aprendei dos lírios do campo. Não trabalham, nem fiam. Entretanto, nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles” (Mt 6, 26; 28- 29). Belas são as metáforas: “Vós sois o sal terra; vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13;14). Conhecedor profundo da alma humana,Jesus ensina a sabedoria própria da poesia da vida, nascida da contemplação. Esta é o seu vestíbulo. A leveza da ode do existir não é uma simples brisa para amenizar a dureza de nosso dia a dia. É fonte sapiencial que poderá corrigir conceitos distorcidos, apontar caminhos para soluções urgentes, respeitando a grandeza do homem. É capaz de facilitar percepções que curam desequilíbrios. Também possibilita deter constantes ameaças que conduzem a fracassos humanitários e ecológicos, contaminando cada vez mais os processos sociais. O mundo contemporâneo não deve balizar a sociedade por qualquer mesquinhez que comprometa a sublimidade do dom da vida. Urge investir na sensibilidade poética de nosso ser a fim de brotar uma lucidez espiritual que permita reconhecer o sentido da existência. Assim, chega-se ao encontro e ao culto da fraternidade. O Nazareno assegurou-nos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados. Eu vos darei descanso. O meu fardo é leve e meu jugo é suave” (Mt 11, 28;30). Deste modo, retirou a amargura do cotidiano, inserindo ali um sorrir poético. Assim, é possível recuperar o sentido genuíno de humanidade e solidariedade. Com poesia e espiritualidade consegue-se viver melhor. E quando se é simples e generoso, o resultado é gratificante. Assevera-nos o Mestre da Galileia: “Dai e vos será dado numa medida plena e transbordante” (Lc 6, 38). A recomendação da poetisa goiana Cora Coralina talvez nos incentive a cultivar tais sentimentos: “Torna a tua vida um poema. Viverás no coração dos jovens e na memória de gerações futuras. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem e não entraves seu uso aos que têm sede.” Sem a poesia do viver poderá crescer, cada vez mais, o número daqueles que desistem da própria existência. Aumentarão os segmentos que buscam apenas o seu bem-estar sem pensar em outrem. Despontarão atitudes insensíveis que segregarão ainda mais os velhos, doentes, sofridos, indefesos e carentes. A força poética, brotada de Jesus Cristo, era tanta que o apóstolo Mateus concluiu da seguinte forma aquela parte do seu evangelho: “E as multidões ficaram maravilhadas com as suas palavras” (Mt 7, 28).

terça-feira, 18 de abril de 2023

 Faculdade Católica do RN – mérito reconhecido


Padre João Medeiros Filho


O poeta Virgílio em uma de suas Éclogas proclama: “Paula, maiora canamus” (cantemos as coisas grandiosas). É o que se pretende. Em tom jocoso, mas realista, costuma-se denominar: “O país de Mossoró”. Na verdade, a capital do oeste potiguar é diferenciada. Sempre teve sede de liberdade, lutando pela arte, cultura e educação. Ali funciona o primeiro colégio confessional do estado, criado em 1901 por Dom Adauto Miranda Henriques. O Santa Luzia é um marco na história educacional norte-rio-grandense. Desde 2009 é também o endereço de outra instituição de ensino: a Faculdade Católica do Rio Grande do Norte, nos primórdios intitulada Faculdade Diocesana de Mossoró. Ela vem se destacando nos meios acadêmicos em âmbito nacional, desde o seu credenciamento pela Portaria do Ministério da Educação 839/09. Atualmente, são ministrados oito cursos presenciais de graduação, reconhecidos pelo sistema federal de ensino. Oferece dezenas de cursos de pós-graduação “lato sensu”, MBA (“Master of Business Management”) e extensão. Conta com um corpo docente de excelência, detentor de larga experiência magisterial e títulos de mestre e doutor.

Os fatos falam por eles mesmos. “Pelos frutos conhecereis a árvore” (Mt 7, 20), afirmou Jesus Cristo. A Católica do RN acaba de obter a segunda maior nota de avaliação, concedida pelo MEC às instituições de ensino superior mantidas por setores ligados à Igreja do Brasil. Ao lado da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, com sede em Belo Horizonte, lidera o “ranking” das entidades de ensino superior ligadas ao catolicismo. Ambas são escolas relativamente novas e de pequeno porte, se comparadas aos centros universitários e universidades, em sua maioria, datando das décadas de 1940-1970. A Associação Nacional de Educação Católica do Brasil – ANEC registra 177 filiadas, que oferecem educação superior. A avaliação ministerial demonstra a seriedade com que se ministra o ensino, a possibilidade de a Igreja ser sacramento da verdade, justiça e paz.

É um legado relevante de Dom Mariano Manzana ao Povo de Deus, na construção da história eclesiástica e educacional potiguar. É prova de que se pode educar com qualidade e dar testemunho de Cristo no mundo universitário, por natureza questionador, crítico e científico. Constitui-se em lição para as entidades religiosas, ensinando como gerir e vencer em meio a tanta concorrência, usando dos trunfos da verdade, honestidade e ciência. No momento, trata-se da única instituição norte-rio-grandense de ensino superior, vinculada ao catolicismo. Nos últimos dez anos, cinco faculdades – três pertencentes à Congregação das Filhas do Amor Divino e duas tendo como mantenedores departamentos das dioceses de Caicó e Natal – declinaram de sua missão, sendo vendidas ou fechadas. 

A Católica do RN começou apenas com um curso de nível superior. A tarefa de educar exige dedicação, diálogo e paixão pelo ensino. E isso não faltou a Padre Sátiro Cavalcanti Dantas, alma inspiradora da Católica do RN. Esta é dirigida hoje, de forma brilhante, por Padre Charles Lamartine de Sousa Freitas, detentor de dois diplomas de graduação, dois de mestrado e um de doutorado com importante tese defendida na PUC Campinas. É dever de justiça prestar homenagem à diocese de Mossoró, aos abnegados docentes e servidores, bem como aos discentes de sua faculdade.

“Last, but not least” (por último, mas não menos importante), deve-se informar que a instituição mossoroense se destaca pela sua biblioteca, uma das melhores do país. Seus centros de estudos, clínicas e espaços de prática profissional complementam as aulas teóricas. O ensino foi considerado de ótimo a excelente, não apenas pelo nível de seus professores e infraestrutura, mas também pela visão regional, diferencial para uma formação comprometida com a nossa gente. Começou com o curso teológico, mostrando que não existe humanismo sem Cristo. Usando uma expressão muito cara aos eclesiásticos, ela é uma das belas realizações da Igreja “Ad gentes” (missionária e aberta ao mundo). Seu corpo diretivo empenha-se para solicitar, dentro de poucos anos, o credenciamento como Universidade Católica, a primeira em terras potiguares, concretizando um sonho do bispo, dos padres Sátiro, Américo, Charles, Flávio e tantos outros. Lembremo-nos das palavras do apóstolo Paulo, plenas de visão teológica e pastoral: “Fiz-me tudo para todos, para ganhar alguns” (1Cor 9, 20).

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sábado, 15 de abril de 2023

 





VALE A PENA COBRAR DE NOVO

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

O rio Jundiaí, no trecho em que atravessa a cidade de Macaíba, perdeu o solo, o curso, o chão, o cheiro, a visão e é ameaça a segurança dos habitantes. Entre o parque governador José Varela e a praça Antônio de Melo Siqueira deixaram crescer no leito poluído imensos manguezais que enfeiam um dos mais bonitos logradouros urbanos. Essa selva esconde lixo doméstico, carcaças de animais, marginais do tráfico de drogas em todo o seu percurso e os galhos já ultrapassam a altura da ponte e das balaustradas. A imprensa já publicou, excelente matéria sobre tudo que ameaça e destrói os rios Potengi e Jundiaí. Mas, o foco da minha questão e, creio, dos cidadãos macaibenses, reside exatamente neste aluvião de perguntas: por que o Idema e o Ibama não evitam, aparando, podando, somente nesse trajeto o “matagal” entre o antigo cais histórico do porto até a outra lateral da ponte? Por que não permitem a prefeitura  o fazer?

A praça e o parque perderam o charme de antigamente. Ninguém enxerga ninguém, olhando de um lado para o outro. A conscientização ambiental deve ser obedecida até onde não prejudique a funcionalidade urbanística e o senso prático e plástico do mapa citadino. Desde quando, em 1950, se planejou e se construiu a estrutura de pedra e cal das duas margens, o choque do progresso jamais prejudicou a superfície do rio. Nem, tão pouco, o molestaram, a expansão e o desafio do crescimento habitacional. Pelo contrário, a construção ordenou a trajetória das águas e defendeu as ruas periféricas contendo os transbordamentos. Contemplo, hoje, que os problemas das inundações estão equacionadas com a construção da barragem de Tabatinga. Por que o Idema  e o Ibama, tão preocupados com o meio ambiente, não permitem, apenas, nesse, pequeníssimo trajeto fluvial o corte da poluição visual da paisagem urbana e memorial de Macaíba?

Ali, a vegetação gigantesca e desproporcional encobre um dos pontos históricos do município. Refiro-me ao cais das antigas lanchas que faziam o percurso fluvial entre Macaíba e Natal: a lancha do mestre Antonio, o barco de João Lau, além da lancha “Julita” que transportou tantas vezes Tavares de Lyra, Eloy, Auta e Henrique Castriciano de Souza, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e tantas outras figuras notáveis da vida social, cultural, política e econômica. Todos se destacaram nos planos estadual, nacional e internacional. Ali, o centenário cais, jaz sob os escombros de verdes balizas envergadas e fantasmagóricas. A visão noturna é tétrica e arrepiante. Desfigura e mutila os padrões estéticos do planejamento da urbe que a faz parecer abandonada e suja. Até a lua cheia que nasce lá por trás do Ferreiro Torto foi encoberta.

Assim como se deve obedecer a educação ambiental, do mesmo modo, exige-se o tratamento e o corte do matagal por parte do Idema e do Ibama a fim de evitar o represamento do lixo no leito, exclusivamente urbano. Nas capitais e cidades importantes do Brasil banhadas por rios não se vê tratamento tão dispersivo e indiferente da parte dos órgãos responsáveis. Ao redimensioná-lo neste texto, cabe aos institutos prefalados uma reflexão, um reestudo sobre o cenário dantesco do rio Jundiaí na parte descrita. O povo macaibense tem o direito de ouvir e a coragem de duvidar que essa “selva amazônica” que devora e perturba a todos seja explicada e resolvida, sem slogans, clichês, palavras de ordem, lugares comuns, peças de marketing ou princípios dogmáticos. Que venha à lume as boas intenções e que não fique a história de Macaíba submersa na floresta de manguezais.

 Galo-das-Trevas 

Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN 

Em junho de 1983, deixei a direção do Centro de Ciências da Saúde da UFRN, após quatro anos na gestão dessa importante área. Ao me despedir, fui alvo de uma homenagem sincera e emocionante por parte de grande parcela de quantos fizeram parte daquela missão acadêmica, e, na ocasião, recebi um presente de um livro, no qual constavam cerca de 70 assinaturas. Tratava-se do livro Galo-das-Trevas, do médico e escritor Pedro Nava. Já conhecia a fama de Nava, mas ainda não tinha lido as suas obras memorialísticas. Esse presente que recebi dos diletos amigos do CCS teve o condão de me induzir à leitura do notável Pedro Nava, e conhecer um dos melhores autores em língua portuguesa. O livro Galo-das-Trevas (1981) abrange, na primeira parte, as reminiscências de Pedro Nava sobre o Rio de Janeiro, a cidade na qual por mais tempo viveu e a que mais amou. O autor também faz bela descrição do bairro da Glória, bem como do local onde residiu por dezenas de anos: Rua da Glória, 190, apartamento 702. Eis alguns trechos dessas páginas iniciais do livro: “Esse chafariz é como brasão da rua da Glória e mostra sua antiguidade colonial. Servia para aguada das embarcações quando a orla marítima era no nosso logradouro”. Mais adiante, fala da sua morada: “Aqui passei quase metade da minha vida. Aqui envelheci. Aqui caminho no escuro, como um cego sabendo onde estão as quinas hostis das paredes e os pontos contundentes dos móveis.” E continua a descrever cada rua, prédio antigo – os poucos que restaram –, inclusive os guardados na memória, cada mobília, retratos de ancestrais, lembranças do passado, o relógio “que bate as horas para minha gente há mais de cem anos”. Na segunda parte do livro, Pedro Nava deu ênfase ao seu alter ego, personagem que ele criou e chamou de José Egon Barros da Cunha, seu primo, amigo, suposto colega de turma no Colégio Pedro Segundo e na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Na figura de Egon, Nava relata sua experiência médica no começo da carreira, em Juiz de Fora, nominada de Desterro, e, posteriormente, em Belo Horizonte. A figura do alter ego confere à narrativa o tom de ficção, o que só fez valorizar a memorialística do famoso escritor. Em outro livro, Nava relata um amor fortuito com uma bela mulher chamada Biluca, de um bordel de Belo Horizonte, rua Niquelina, no seu tempo de aluno do curso médico, 1921 a 1926. Biluca tinha “olhos muitos pretos, cabelos dum louro quente, admiravelmente torneada, verdadeiro milagre anatômico”. Voltemos ao livro Galo-das- Trevas, o autor, médico da Santa Casa de BH, em 1929, vai examinar uma paciente grave, fase final de tuberculose pulmonar e, surpreso, exclama: “Biluca ...” E a paciente: “Eu num queria que tu me visse assim”. “Agora eu já vi meu bem. Cê tá linda, como sempre”. Com grande emoção, seguiu o exame clínico, quando, então, a freira da sala falou: “Qué? isso gente! A doente e o médico chorando!”


quinta-feira, 13 de abril de 2023

 SERMÃO DO ETERNO



Nada temais

Nem o ilusório fim
nem o infinito que vos mostro
e não compreendeis

E muito menos o espanto
com seus instantâneos de sombra
que retira do olhar a transparência

Entretende-vos
com a vida santa e bela
que vos foi outorgada

Sempre estareis
na consciência Una
onde aliás
sempre estivestes

-  ou achais
que somente agora
viveis? 


-  Horácio Paiva

 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

 

FOLHAS DE OUTONO

 

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

 

Os políticos favoráveis ao processo de reeleição jamais conseguirão manter o seu verdadeiro disfarce. Não sabem que o vício do poder esmaece com o tempo. Quem vai ganhar eleição futuramente é a nova postura. A coragem de quebrar os velhos tabus e a promiscuidade de relação antiga entre governo e deputados, prefeitos e vereadores. A palavra luta não pode mais continuar como sinônima de roubalheira. O povo exige mudanças de caras, de cartolas, de caretas e picaretas. Continuísmo no poder executivo é uma questão de caráter para o eleitor, o cidadão e o brasileiro.

 

O não à reeleição é uma questão de patriotismo, com o fim de preservar e defender o povo contra a ditadura do partidarismo, do personalismo. Alguns deles se comportam como bandos de interesses egoísticos guardados por leis casuísticas e milícias de cargos comissionados. Só em Brasília os partidos majoritários detêm nas mãos mais de vinte e cinco mil cargos comissionados há cerca de dez anos. A reeleição de gestores com a bunda na cadeira patrocina o desgaste do patrimônio público e a queda da economia por causa das obras eleitoreiras com o fito de reeleger o inquilino. Obras insensatas e sem o devido equilíbrio orçamentário e falso planejamento.

 

O regime democrático é caro e lento. O seu organismo é corroído de chagas protagonizadas por carnavalescos do “mamãe eu quero mamar”. Se não há no mundo nada inventado pelo homem que o tempo não destrua, o instituto da reeleição – que vem da época de Fernando Henrique Cardoso – já cumpriu a sua validade e exauriu os absurdos e abusos cometidos, à nível nacional, estadual e municipal. Provou que tudo foi comércio e fantasias saciadas. O político brasileiro, não absorveu ao longo do tempo status cultural e não se capacitou para o exercício do mandato único. Faltou maturidade dos seus atores e atrizes. É preciso deflagrar um renascer criterioso na forma e no conteúdo da gestão pública. Gustave Flaubert, ante a estupefação da sociedade francesa de sua época, com as aventuras e desventuras da sua personagem Madame Bovary, desvendou o mistério – que é o mesmo do privilégio da reeleição – “Madame Bovary sou eu!!”, disse de si próprio o célebre escritor romancista.

 

É preciso pôr um basta ao processo da reeleição pela busca do reavivamento dos métodos e costumes que venham moralizar o político e o país. A reeleição de candidatos a postos executivos induz ao nepotismo, ao favorecimento ilícito, à competitividade desigual e a imoralidades dos usos e desusos sociais e oficiais. Os candidatos às eleições, devem incluir em suas agendas e discussões na rede de comunicação eleitoral, o seu comprometimento com o fim da reeleição para o executivo sob pena de ser identificado facilmente no bloco das facções criminosas. É tempo de desmame! Não devemos desistir de acabar com essa corrução. Reeleições para a presidência, governos estaduais e prefeituras são folhas de outono que trazem desencanto e desilusão para o povo brasileiro. 

 

Por outro lado, existem prefeituras que se fortaleceram tanto, política e economicamente, alimentadas fortemente pela facilidade da moeda político-eleitoral denominada “emenda parlamentar”, que hoje se constituem em verdadeiras cidadelas, feudos, bastilhas, símbolos do absolutismo familiar. Aí o nepotismo campeia. E, no entanto, foram poupados pela legislação como se já não bastasse a permissividade da reeleição. De que adianta a propaganda oficial veiculada constantemente na televisão que pede ao eleitor a renovação na escolha do candidato, a insubmissão ao voto comprado e que recuse a chantagem eleitoral de qualquer natureza? 

 

 

(*) Escritor.

 

domingo, 9 de abril de 2023

 



É o momento mais ansiado 

pelos Cristãos 

Jesus ressuscitou

Considera-se o instante maior do Evangelho - a

ressurreição de Jesus. 

Só por meio da morte e ressurreição de Cristo

temos acesso ao Pai, temos salvação, vida eterna,

se crermos (João 3:16).

Esta é a essência da fé, que sustenta a nossa

esperança de vida eterna, 

como diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 15:14-17.

A ressurreição de Jesus e o símbolo da Vitória sobre

tudo que existe debaixo do céu e o caminho para

o transcendental (Efésios 2:6), 

fomos justificados (Romanos 4:25) e a morte

não tem vitória sobre o crente (João 11:25).

Resta-nos comemorar com amor e fé na vida eterna por 

meio Dele (Romanos 4:25; João 3:16).

F E L I Z     P Á S C O A

sábado, 8 de abril de 2023

 


Cartas de Cotovelo – Outono de 2023 – 10

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

TEMPO DE ORAÇÕES

Passadas as águas de março, entramos num outono atípico, com chuvas e problemas nefastos divulgados na mídia nacional e internacional, deixando a humanidade em clima de medo e pouca esperança.

Aqui no Rio Grande do Norte vivemos duas semanas de terror e total insegurança, dando exemplo da fragilidade da nossa inteligência policial e com o socorro vindo de outros estados e do governo federal para combatê-los.

Superado o clima de quase guerra, pudemos retornar ao bucolismo da nossa sempre adorada Praia de Cotovelo, onde guardamos o tríduo sagrado da Semana Santa, com propósito de retornar a morar na paz do Senhor e tranquilidade dos homens e mulheres da Comunidade.

Em face da impossibilidade física de acompanhar os diversos rituais dos cristãos, fico seguindo pela internet, coisa quase impossível no começo da nossa vinda para estas plagas, quando o que de mais modernos existiam eram o ônibus e os poucos orelhões, que permitiam nossa comunicação com o continente mais ativo da capital.

A Semana Santa sempre foi acompanhada daqui de Cotovelo, com fervor e unidade familiar, pois estava sob o comando da nossa pranteada THEREZINHA, motivo maior da alegria e que deixou um fosso profundo na vida cotidiana dos que a cercavam.

Ficaram as lembranças nos gestos, falas, exemplos e na religiosidade que sempre foram seus pontos fortes. Guardamos um Santuário organizado em sua homenagem, com os seus Santos e Santas preferidos, juntos ao seu retrato cativo e venerado.

Estou perdendo muitos atributos outrora aguçados – já tenho dificuldade de locomoção, a memória decaindo das lembranças e a falta de inspiração para escrever. Mas a fé continua firme, na esperança de poder encontrá-la na Mansão do Criador, embora não tenha o merecimento que ela teve em toda a sua vida.

Rezo todos os dias para que Deus aperfeiçoe o seu espírito e que ela possa dar algum sinal de que está bem para me alentar nesta existência já alongada e sofrida, enquanto aguardo o sinal do reencontro, como dizia Verlaine em seus versos: “Não se agite e aguarde em paz. A leveza dispensará suas asas. Alguém que o esperava vem agora ao seu encontro e seu jugo é suave” (tradução de Horácio Paiva).

Continuo a repetir: nada a reclamar, mas tudo a agradecer.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.