terça-feira, 8 de novembro de 2022
segunda-feira, 7 de novembro de 2022
Novas Cartas
de Cotovelo – QUASE VERÃO de 2022-14
Por: Carlos
Roberto de Miranda Gomes
Por longo período deixei de
escrever as minhas Cartas de Cotovelo. Primeiro porque fui forçado a migrar
para a capital face aos meus problemas
de saúde.
Agora
recuperado, volto ao calor abençoado de Cotovelo e novo encontro com sua praia
maravilhosa.
Na manhã do
sábado desci a rampa que fiz com Octávio Lamartine e vi tudo recuperado, o
coqueiro bem viçoso e o mar limpo como o fez o Criador.
Banhei-me
feliz novamente e tive uma tarde repousante, após um lauto almoço preparado
pela minha filha Rosa e sua auxiliar Radaméris. Na madorna senti a falta da
minha Therezinha, com quem ficava curtindo a brisa da nossa varanda até às 16
horas.
Compareceram
no correr do dia Ernesto, formando com Rosa e Todinho a família Rosso Gomes e
Flôr, uma vez que o casal Raphael e Amanda estava em Búzios, em lua de mel e
Gabriela trabalhando na Redinha.
Não deu
tempo para chorar, pois logo a casa recebeu Rocco, Daniela e Guilherme, com seu
primo Pedro. Clarinha está voltada para os estudos e não veio. Logo depois Thereza
Raquel, Lucas Antônio com sua amiga Micarla e filho João Miguel, trazendo a minha
querida cadelinha Malu.
Noite não
confortável, pois estranhei dormir sem a presença de Carlos Neto, que tocava
seu piano até chegar meu sono. Esperei a visita de Carlinho e Valéria, mas
estes ainda estão doidos com a partida da minha querida Luma, sepultada aqui no
entorno da casa.
Rosa
retornou mais cedo, pois Todinho não estava bem de saúde e eu fiquei sob a
guarda de Rocco e família.
O resto foi
o repeteco – após um peixe preparado por Rosinha de Dona Helena, madorna e
retorno a Natal.
Cotovelo
continua linda, limpa e atrativa. VAI COMEÇAR A TEMPORADA DE VERANEIO, com as
Graças do Bom DEUS.
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
DIA DE FINADOS
-
Valério Mesquita*
Semana passada fui me reencontrar com os meus pais em Macaíba. Não, apenas, no velho cemitério de São Miguel na praça da Saudade. Mas, principalmente, na residência antiga da rua Francisco da Cruz, 39, hoje, Casa da Cultura “Nair de Andrade Mesquita”. Visitei-a com os meus filhos. Naquela manhã, constatei que o passado não morre. Ele persiste em cada ambiente, em pessoas que revi e ruas que cruzei. Os seus netos não o conheceram em vida. Enquanto visitavam os compartimentos, quedei-me em reflexões sobre a vida pública, percebi que guerreiros são pessoas tão fortes, quanto frágeis. Com toda carga política do seu tempo sobre os ombros, no fundo do peito era um menino nos momentos de remanso e de turbulência. O sonho perfeito que sonhou para Macaíba consubstanciou-se, certa vez, no amor que dedicou a uma ave presenteada por amigo e que passou a criá-la ali no jardim.
Era uma asa branca que obedecia a sua voz. Inexprimível emoção sentia ao chamá-la, sentado na sala de visita para lhe oferecer alpiste. Longe se ser um fato superficial, aquilo se revestia na busca do silêncio e da serenidade. Nada além do que desejava sentir e sofrer. O pequeno animal lhe arrancava uma luz especial que refletia sobre o homem político que enfrentava lá fora o imensurável e o irracional. Alimentá-la e acariciá-la significavam a gratuidade e a correspondência confortadora de gestos que não achava, algumas vezes, no trato político com os humanos.
Num tarde que caía devagar, voltava de sua granja nos arredores de Macaíba. A pé, cigarro a boca (que tanto lhe fez mal), deparou-se no jardim com a tragédia devastadora e o rigor do susto: a asa branca despedaçada, jazia no pedestal da estátua Minerva. Um gato cruel e sorrateiro fora o protagonista do “avicídio”. Essa dor, despontou como uma ferida desaguando no sofrimento que definiu nele – contraditoriamente - a beleza do seu sentimento.
Deduzi naquela manhã, que um guerreiro também chora. De outra feita, na última batalha que travou, enfrentando o poder e a riqueza dos adversários, mas, sem dinheiro e sem bens para custear a campanha, foi visto chorando no quintal da casa de um compadre gravemente enfermo. Alfredo Mesquita havia constatado que não dispunha de recursos para salvá-lo. Manoel Dantas de Medeiros e Pedro Luiz de Araújo, testemunharam aquele momento insuportável de aflição e indigência. Quero afirmar que a tristeza da vida pública de qualquer um não termina com a morte ou com o pretenso fracasso eleitoral. A síntese da vida que prevalece é a dimensão do amor à terra e as imagens nítidas que não se esgotam, tanto nos relatos das vozes que ecoam, como nos olhos úmidos das revelações repentinas. Dele nos sobrou o exemplo. O empobrecimento paulatino de sabê-lo livre e isento. Modelo que muitos não conseguiram no universo político de escolhas: a capacidade de ser honesto.
Por isso, sobre ele, ouso afirmar, que apesar de tudo, doou-se para ser feliz. A firmeza do seu temperamento e das atitudes assumidas, muitas vezes, ocasionaram-lhe danos e perdas políticas e patrimoniais. Viveu mais na oposição do que na situação. Em 1950, para o governo do estado ficou com Manoel Varela que perdeu para Dix-Sept. Em 1955, apoiou Jocelin Vilar derrotado por Dinarte Mariz. Em 1960, acompanhou Djalma Marinho vencido por Aluizio e em 1965, permaneceu com Dinarte suplantado por Walfredo Gurgel. São raríssimos no Rio Grande do Norte os políticos que tiveram a coragem imutável de sobreviver a tantas adversidades políticas. O sofrimento, sangrava mas não se curvava ao governo. O sonho mais que perfeito foi Macaíba. Nasceu, viveu e está sepultado lá, ao lado de sua companheira de toda a vida Nair de Andrade Mesquita, no túmulo dos seus pais, com os irmãos Paulo Mesquita e Amélia Násia Mesquita Meira, além do filho Carlos Mesquita. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. A frase de Fernando Pessoa imprime não a lápide fria no campo dos mortos mas a memória viva da história política de Macaíba construída com grandeza de caráter.
(*) Escritor
quarta-feira, 2 de novembro de 2022
A ameaça da Poliomielite
Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN
A Organização Mundial da Saúde ainda não rebaixou a pandemia da Covid-19 à condição de endemia, em qualquer país ou região do planeta, embora essa conclusão pareça estar próxima de ocorrer. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em recente declaração, disse que o fim da pandemia “está à vista”. Mas ressaltou, também, a necessidade de se manterem os cuidados com a vacinação. É hora de ressaltar o valor das vacinas no controle da maioria das doenças infecciosas causadas por vírus ou bactérias. O Programa Nacional de Imunizações, do Ministério da Saúde, dispõe de cerca de 18 vacinas, usadas de acordo com calendário anual e associado ao SUS, com tanto sucesso que, ao longo de décadas, tem sido motivo de orgulho para a Saúde Pública do nosso país. Apesar de todo esse processo vitorioso do controle das doenças infecciosas, o Brasil está sob a grave ameaça do retorno da Poliomielite, doença erradicada do país, desde 1994, conforme certificado conferido pela OMS. Este ano, no Brasil, de cada 10 crianças, 04 não tomaram a vacina da Pólio. A Poliomielite é uma doença de alto contágio, que afeta, principalmente, crianças abaixo de cinco anos, mas pode também ocorrer até em adultos. O exemplo da poliomielite em adultos mais conhecido no mundo é o caso do ex-presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), que contraiu a Pólio aos 39 anos. Em 1943, o Presidente Roosevelt veio a Natal-RN, a fim de se encontrar com o Presidente do Brasil Getúlio Vargas. Depois desse famoso encontro, Getúlio Vargas perdeu um filho com 23 anos, 10 dias após adoecer de Poliomielite aguda. Por volta de 70% das pessoas infectadas não mostrarão qualquer sintoma. Porém cerca de 25%, após alguns dias da infecção, poderão ter febre, dores no corpo, cefaleia, náuseas, vômitos ou diarreia, e, em alguns casos, um quadro de meningite viral é possível ocorrer. Os que sobrevivem a essa fase – a grande maioria –, cerca de 5 em cada mil infectados, sofrem as paralisias ou fraqueza nos músculos dos membros da respiração, da deglutição e da fala. Relembro as aulas magistrais da Professora Giselda Trigueiro, quando dizia que o temor da Pólio não era, primordialmente, causado pelos casos fatais, mas, com ênfase, pelas sequelas nos músculos paralisados, à mostra para chocar, por muitos anos, a sensibilidade humana. A OMS alerta que, para erradicar uma doença infecciosa do mundo, é preciso que não exista a presença do agente etiológico em qualquer região ou país do planeta, a exemplo da varíola. O vírus da Pólio, infelizmente persiste na Nigéria, no Paquistão e no Afeganistão. Para o Brasil continuar livre dessa terrível doença, é preciso manter um índice de vacinação acima de 90%. Desde 2015, esse percentual vem caindo, a ponto de atingir somente 54%, entre as crianças de 1 a 5 anos, até o marco oficial da campanha deste ano, dia 30 de setembro passado. Será que vamos sair da Pandemia da Covid-19, graças à eficácia da vacinação, para mergulhar no passado de tristezas causadas pela Pólio, vividas há quase meio século? Talvez o grande temor de contrair a infecção pelo coronavírus tenha levado a população a descuidar das demais vacinas, com destaque para a da Pólio, bem como a ausência, há três décadas, dessa doença no país. Texto publicado na Tribuna do Norte, em 28/10/202
terça-feira, 25 de outubro de 2022
MACAÍBA: 145 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA
Pesquisa e Texto de Valério Mesquita
e Anderson Tavares
Os núcleos populacionais mais antigos e conhecidos nas terras onde atualmente ergue-se a cidade de Macaíba foram o arraial e o engenho Potengi (Ferreiro Torto), o segundo da capitania do Rio Grande. Foi construído pelo capitão Francisco Rodrigues Coelho e o seu sócio, o vigário do Natal Gaspar Gonçalves da Rocha. Esse primitivo engenho, bem como o arraial, tiveram vida curta. Foram destruídos e o proprietário massacrado pelas mãos invasoras holandesas em dezembro de 1634.
Ato contínuo, tendo em vista a decadência da cidade do Natal, arrasada pelos batavos, estes subiram o rio Potengi e na confluência do rio Jundiaí foi fundado a Nova Amsterdã, a qual chegou a possuir a câmara dos escabinos cujos moradores viviam da pesca, da produção de farinha e do plantio de fumo.
Porém, a história oficial do município teve início em 1770, com a demarcação do sítio Coité pelo coronel Manoel Casado. Coité era uma árvore abundante na região que o coronel passou a criar e plantar em sua propriedade. Em 1850, passa a pertencer ao capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, cuja filha, D. Damiana Maria Bandeira, consorciou-se com o comerciante Fabrício Gomes Pedroza, morador no engenho Jundiaí.
Fabrício Pedroza, comerciante de alto prestígio e larga visão comercial, notando a boa localização do sítio do sogro, constrói o primeiro estabelecimento comercial à margem do rio Jundiaí , e numa cerimônia em 1855, no quintal do referido estabelecimento, onde plantou duas macaíbas, muda o nascente povoado de Coité para Macaíba. E convida amigos comerciantes para instalar-se na localidade. Em 1870, o major Fabrício funda a casa comercial dos Guarapes, importadora e exportadora de produtos, direto do seu porto para os EUA e Inglaterra, com a mudança do velho para Rio de Janeiro: o negócio foi fechado e abalou a frágil economia provincial.
A freguesia foi criada pela lei n° 815, de 07 de dezembro de 1877, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, santos Cosme e Damião.
A lei provincial n° 801, de 27 de outubro de 1877, deu ao povoado da Macaíba o predicamento de vila, ganhando assim autonomia administrativa, sendo transferida à câmara municipal de São Gonçalo cujo presidente era o capitão Vicente de Andrade Lima. Outra lei provincial n° 1.010, de 05 de janeiro de 1889, elevou-a à condição de cidade.
Como distrito, ou termo judiciário, Macaíba foi elevada à categoria de comarca do Potengi pela lei provincial n° 845, de 26 de junho de 1882, suprimida, posteriormente, em 1898, restaurada em 1907, foi novamente suprimida em 1914, e afinal restaurada em 08 de abril de 1918.
Pioneira em vários aspectos, Macaíba libertou seus escravos em 06 de janeiro de 1888, tendo a frente deste movimento o comendador Umbelino Freire de Gouveia Mello, presidente da sociedade libertadora “Padre Dantas”. A primeira casa bancária do estado foi nesta cidade, fundada pelo deputado Eloy Castriciano de Souza, que financiava as safras de açúcar de grande parte dos municípios do Ceará-Mirim à São José, incluindo o vale do Cajupiranga. Sendo ainda a promotora do trabalho feminino no comércio, uma vez que o senhor Francisco Campos era auxiliado por sua esposa e as quatro filhas em seu comércio no ano 1924.
Macaíba hoje tem uma população de mais de 80 mil, uma área de 492 km, mais de 70 escolas públicas municipais, 04 distritos (Traíras, Mangabeira, Cajazeiras e Cana-Brava), 16 comunidades urbanas e mais de 30 comunidades rurais. Tem na mandioca sua agricultura de subsistência. Destacamos, ainda, a cultura do caju e a apicultura como meio de geração de emprego e renda, além da plantação do mamão na zona rural do município. Outro ponto importante para economia do município é a ascendente atividade da carcinocultura, destacando-se como um dos mais promissores do RN. No trinômio comércio, agricultura e indústria tem sua fonte econômica. O abastecimento de água é feito pela CAERN (Companhia de Água e Esgotos do RN) e a energia elétrica é de responsabilidade da COSERN (Grupo Neoenergia).
Faz fronteira com 08 municípios (Natal, Parnamirim, São José do Mipibú, Vera Cruz, Bom Jesus, São Pedro, lelmo Marinho e São Gonçalo do Amarante), 17 vereadores integram o poder legislativo municipal. FPM e ICMS são as maiores fontes da receita pública.
A população católica representa 73%, com cerca de 60 mil fiéis. A paróquia integra a Arquidiocese de Natal e a festa da sua padroeira é 08 de Dezembro. As outras denominações religiosas são: a Igreja Assembléia de Deus, Igreja Batista de Macaíba e Batista da Convenção, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Presbiteriana, Igreja Deus é Amor, Igreja Pentecostal, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Congregação Cristã no Brasil, Testemunhas de Jeová e Igreja Cristã em Células. Nos cultos de cultura Afro destacamos o terreiro de Dedé de Macambira, terreiro do Mosquito e terreiro de Paulo da Lagoa.
Macaíba localiza-se a 18 quilômetros de Natal e é cortado por duas BR's 304 e 226, e pela RN 160. Tem a melhor água da Grande Natal. Possui um distrito industrial composto por cerca de 20 empresas entre pequenas, médias e grandes (a Sam’s, Multidia, Coteminas, Coca-Cola, Rufitos, Temperos Sandio, Argamassa Potengy, Center Massas, Água Mineral Cristalina, Água Mineral Riogrande, Águia Piscina), entre outras, e como órgão representativo da categoria patronal temos a ASPIM. CDL (Câmara dos Dirigentes Lojistas) e SindComércio (Sindicato do Comércio Varejista) são as entidades representativas do comércio local, com uma média de 2000 mil empregados diretos no ramo comercial em cerca de 400 lojas nos mais diversos ramos de atividade. A empregabilidade está no serviço público (três esferas), comércio, agricultura e indústria.
Salve a data aniversária de 27 de Outubro e salve Macaíba enquanto é tempo!
domingo, 23 de outubro de 2022
A frase do ex-deputado federal pernambucano Thales Ramalho de que “maior que a ilusão política só a ilusão do amor” é de uma verdade tão cristalina que me fez refletir mais ainda sobre os últimos dias de Pompéia. A deterioração dos costumes políticos, as debandadas, as infidelidades à 25ª hora, a substituição das coligações eleitorais pela proliferação de legendas partidárias, as adesões no varejo e no atacado em tom promocional e de liquidação; a troca de legendas antes mesmo de o candidato assumir o mandato, tudo conduz o eleitor ao descrédito da vida pública, estarrecido com a conduta pérfida dos seus protagonistas. Em nome da mudança, do novo, do diferente, alguns agentes políticos estão destruindo a própria biografia no jogo vantajoso das premissas e das facilidades dos governos que estão por vir. Nunca a flauta mágica do fisiologismo tocou tão alto desbotando clichês, ruborizando os céticos e dissolvendo bancadas tal e qual o efeito sonrisal. O que está acontecendo hoje com a chamada classe política? Deu a louca no mundo? É tão grande assim o impacto das dívidas e das dúvidas pendentes da campanha que passou? Dir-se-á que os partidos vencedores quando trocaram a ideologia pela convivência dos contrários, os partidos de direita e de centro perderam o pudor e se misturaram no mais estranho e promíscuo hibridismo partidário da história política do país. Já que não posso entender, após exaustivas reflexões, espero que tanta gente junta dê certo, tanto aqui quanto alhures, como diria o nosso saudoso Paulo Macedo. Talvez isso tudo seja mesmo uma fogueira das vaidades. E ponto final. Tudo é mesmo ilusão. Nada além de uma ilusão, sobre a qual nos falava o saudoso ator e comunista Mário Lago. Refletir sobre os fatos e factóides da vida talvez seja a melhor postura diante do mar de Cotovelo. O dom da observação é importante para aprender a viver e dissipar os contrapontos insurgentes. Ergui-me da rede para repensar o imponderável. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro e não faz milagre. Para o conhecimento do crítico de cinema Valério Andrade, o cenário é o mesmo, os figurantes idem. Mudam os atores, os diretores, produtores e roteiristas. A trilha sonora continuará sendo o hino nacional de Fafá de Belém, e por aqui a velha e ilusória marchinha carnavalesca “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...”. E o filme? O filme é o mesmo para que muitos, mais tarde, possam repetir novamente: já vi essa fita antes. Está escrito que, na história da humanidade, todos haverão de passar e que o Messias prometido só existiu um. E uma Cleópatra, também. Política, enfim, é mais do que circunstância. É ilusão, mesmo. E muita vaidade. É ilusão gratulatória. (*) Escritor Responder , Responder a todos ou Encaminhar Enviar
ACOMODAÇÕES DA 25ª HORAValério Mesquita*
A frase do ex-deputado federal pernambucano Thales Ramalho de que “maior que a ilusão política só a ilusão do amor” é de uma verdade tão cristalina que me fez refletir mais ainda sobre os últimos dias de Pompéia. A deterioração dos costumes políticos, as debandadas, as infidelidades à 25ª hora, a substituição das coligações eleitorais pela proliferação de legendas partidárias, as adesões no varejo e no atacado em tom promocional e de liquidação; a troca de legendas antes mesmo de o candidato assumir o mandato, tudo conduz o eleitor ao descrédito da vida pública, estarrecido com a conduta pérfida dos seus protagonistas. Em nome da mudança, do novo, do diferente, alguns agentes políticos estão destruindo a própria biografia no jogo vantajoso das premissas e das facilidades dos governos que estão por vir. Nunca a flauta mágica do fisiologismo tocou tão alto desbotando clichês, ruborizando os céticos e dissolvendo bancadas tal e qual o efeito sonrisal.
O que está acontecendo hoje com a chamada classe política? Deu a louca no mundo? É tão grande assim o impacto das dívidas e das dúvidas pendentes da campanha que passou? Dir-se-á que os partidos vencedores quando trocaram a ideologia pela convivência dos contrários, os partidos de direita e de centro perderam o pudor e se misturaram no mais estranho e promíscuo hibridismo partidário da história política do país.
Já que não posso entender, após exaustivas reflexões, espero que tanta gente junta dê certo, tanto aqui quanto alhures, como diria o nosso saudoso Paulo Macedo. Talvez isso tudo seja mesmo uma fogueira das vaidades. E ponto final. Tudo é mesmo ilusão. Nada além de uma ilusão, sobre a qual nos falava o saudoso ator e comunista Mário Lago.
Refletir sobre os fatos e factóides da vida talvez seja a melhor postura diante do mar de Cotovelo. O dom da observação é importante para aprender a viver e dissipar os contrapontos insurgentes. Ergui-me da rede para repensar o imponderável. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro e não faz milagre.
Para o conhecimento do crítico de cinema Valério Andrade, o cenário é o mesmo, os figurantes idem. Mudam os atores, os diretores, produtores e roteiristas. A trilha sonora continuará sendo o hino nacional de Fafá de Belém, e por aqui a velha e ilusória marchinha carnavalesca “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar...”. E o filme? O filme é o mesmo para que muitos, mais tarde, possam repetir novamente: já vi essa fita antes. Está escrito que, na história da humanidade, todos haverão de passar e que o Messias prometido só existiu um. E uma Cleópatra, também. Política, enfim, é mais do que circunstância. É ilusão, mesmo. E muita vaidade. É ilusão gratulatória.
(*) Escritor
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- ou
UMA
NOITE DESVAIRADA NA PAULICÉIA
Tomislav R. Femenick – Jornalista
e historiador
Tempo
atrás, um amigo paulista mandou-me, via Internet, uma foto tirada no início dos
anos setenta. Lá estavam o cineasta Cacá Diegues, a cantora Nara Leão, o
jornalista Samuel Wainer, a jornalista Sheila Leirner, o cartunista Geandré e o
jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima. Seria apenas um grupo de
intelectuais, algo sem importância, não fosse também a presença da famosa Dona
Laura, proprietária da boate La Licorne (onde a foto foi tirada) e de outra
casa noturna, a Scarabociu.
Para
quem não nunca ouviu falar, o La Licorne,
principalmente, e o Scarabociu,
integravam o famoso circuito da Boca do Luxo, onde estavam os melhores cabarés
e boates da capital paulista. Tão famosas quanto essas casas eram suas meninas,
geralmente estudantes e algumas já formadas, que optavam por continuar na
noite. Mais famosos ainda eram seus frequentadores. Dizem que o charme dessas
mulheres encantou o Secretário de Estado americano, Henry Kissinger; o
presidente do Chile, Eduardo Frei; o piloto Niki Lauda, o cantor Julio Iglesias
e até uma comitiva da primeira-ministra hindu, Indira Gandhi. O La Licorne estava para São Paulo assim
como o Moulin Rouge está para Paris.
Mesmo
morando em São Paulo, a verdade é que eu nunca tinha ido ao La Licorne. Foi então que, por essa
época, o meu primo Carlos (o Dr. Charley do DNER) foi à capital paulista
participar de um seminário sobre construção de estradas. Caxias como ele era
com o dinheiro público, ficou hospedado na minha casa. No dia do encerramento
do encontro ele descolou um convite e me chamou para ir ao jantar no Hotel Hilton. Terminado o banquete, os
promotores do evento fizeram uma surpresa: todo mundo estava convidado para
tomar uns scotts no Scarabociu e,
depois, assistir ao show e tomar outros drinques no La Licorne. Fomos todos, até dois engenheiros que eram evangélicos.
No Scarabociu fomos recebidos pelas hostesses da casa e por algumas garrafas
de whiskies Buchanan’s, Old Par e
President, todos devidamente com maioridade plena, isso é, 21 anos. O
ambiente era pequeno, agradável e aconchegante, como devem ser as casas do
ramo. Mas lá estávamos apenas fazendo hora. Perto da meia-noite levantamos
acampamento e fomos em direção ao La
Licorne.
Aqui
se deu um fato insólito. Quando estávamos entrando na famosa casa, o show já
havia começado e as luzes do salão estavam apagadas. Ao meu lado estavam
Charley e um engenheiro do Paraná. Este me perguntou:
–
Você conhece bem o ambiente daqui?
–
Não porque, como você, está é a primeira vez que entro aqui – respondi.
Como
se fora uma deixa de teatro, no mesmo instante uma voz saída da escuridão
gritou:
–
Tomislav!!!
Eu
fiquei sem jeito – ou, como se dizia naqueles anos, perdi o rebolado. Como
Tomislav é um nome incomum, ninguém acreditou no que eu havia dito antes.
Fique
em pé, esperando as luzes se acenderem. Terminada a apresentação, notei uma mão
acenando para mim. Era meu amigo José Laorte, que morava em Brasília, estava
visitando São Paulo e, como eu, visitava o La
Licorne pela primeira vez. Depois das explicações, acho que tinha
convencido que eu não era um habitué
daquele cabaré. Eis que aconteceu o mais inesperado. Um outro amigo de Mossoró,
que há muito tempo eu não via, aproximou-se de mim, cumprimento-me e disse:
–
Hoje você vai conhecer Dona Laura – era outro mossoroense, seu motorista
particular.
Depois
dessa, ninguém mais acreditou em mim. Acho que nem mesmo eu.

