quarta-feira, 23 de junho de 2010


DE COMO BARTOLA, O ANJO-TROVADOR, FOI MESTRE DE OBRAS DE NOSSA SENHORA nh(MEMORIAL DOS FUNDAMENTOS DA CRIAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DO RIO DOS HOMENS)


“E eu, que ando só, me reencontro
na sombra de cada coisa perdida.”
Sanderson Negreiros


Bartolomeu Correia de Melo, cearamirinense naturalizado, tem-se distinguido como das melhores expressões da literatura norte-rio-grandense e, sem sombra de dúvida, o mais original contista dessas e doutras terras do nordeste e dos Brasil. É dono de uma linguagem bem tecida porque de boa urdidura, emprestada da língua do povo de sua terra. Não há como confundi-lo, nem como desentranhá-lo do fabulário e do imaginário popular – melhor dizendo, da massa de sangue e das raízes telúricas de sua gente e de sua terra. O modo como reencontrei o menino do meu convívio, o adolescente apenas riscado a giz na memória, nessa imerecida
velhice precoce, só pode ser explicado através do fantástico e do mágico. E é isso que faço, numa homenagem ao meu amigo de memórias conterrâneas e de afinidades, e ao nosso terreiro, pedindo licença aos leitores para fugir do trivial, e o perdão a Nossa Senhora pela heresia. A benção, meu padim Padre Cícero Romão Batista e o nihil obstat do meu amigo Padre Rui Miranda.

A EXPLICAÇÃO
Não creio nos acasos. Sustento a tese de que se aceitássemos como manifestações autenticamente espontâneas as interferências na nossa vida, sem o concurso da nossa vontade, estaríamos admitindo que o livre arbítrio franqueado pelo Criador apenas ao ser humano, se estendesse à própria natureza e se vulgarizasse. O mundo seria, então, fruto de gerações espontâneas e Deus, apenas um espectador silencioso e impotente. Ou omisso.
Nada tão falso. Deus é onipotente e nenhuma ramada é colorida, nem uma só folha se move, sem a sua aquiescência. Acredito, sem tentar fazer proselitismo religioso, mas apenas declarando a minha convicção, que Deus tem planos para cada um de nós. Sou de crença espírita cristã e acredito na reencarnação e nos seus desdobramentos.
Eis porque acolhi Bartolomeu Correia de Melo, a quem trato carinhosa e propositadamente de Don Bartolo, qual um personagem de ópera transversal a Don Giovanni, como meu irmão. Teríamos sido assim em alguma dobra do tempo. Senão, como explicar o fato de que o vi tão poucas vezes na adolescência e só voltasse a vê-lo na nossa precoce velhice, e ainda assim se estabelecesse entre nós tanta afinidade, tanta memória comum, tanta substanciação existencial?
Por isso, confirma-se a minha tese e aqui declaro, sem pompa nem circunstância, mas de peito aberto e lavado e espírito enxaguado, a geminação da nossa alma.

AS REVELAÇÕES

Segundo informações da dupla de saltimbancos Cherubino e Zambetta, iniciados nas adivinhatórias e esoterismos, Don Bartolo teria sido um anjo trovador, desses que andam sempre com uma lira à mão e versejam à toa, tanta fartura de imaginação e riqueza vocabular rimosa.
Por isso, o Divino sempre foi muito tolerante com ele, permitindo que fizesse a sua graduação com os pássaros e os bardos do naipe de Camões, Zé Limeira, Carlos Pena Filho e, principalmente, com “Rebequinha”, o poeta nativo das terras ainda virgens do que viria a ser Ceará-Mirim, de dia contemplador de paisagens e tocador de burro no bota-água nas casas , de noite, repentista e tocador de rebeca – daí o nome.
Foi a sua danação. Tinha dia de se perder, doido de tanto trinado bonito, tanta poesia e tanta música, quando, então, cutucado pelos saltimbancos, procurava parelha com Juvenal Antunes e Jorge Fernandes, ganhando os partidos de cana e os tabuleiros cheios de cajus, para encher os olhos dos mais verdes e mais vermelhos, amarelos e azuis que já tinha visto. Era a cura de sua ressaca, pelo método homeopático: quanto mais beleza, mais depressa a cura da tontice pela beleza vertiginosa.
Um dia, com os ouvidos prenhes de tanta reclamação beata o Todo-Poderoso cansou da contagiante humanidade do seu anjo e o desterrou definitivamente no nosso planeta, também louvado no similia similibus curandi.
Desterro? Parece brincadeira, não é? Melhor seria dizer premiação, se era só o que o anjo enviesado queria.
Se não foi premiar, a intenção do Senhor ficou bem juntinho disso. A dupla apelidada por Bartola como Quero-mais e Cambeta, confirmou que o Todo Poderoso concordava em soltá-lo na buraqueira, digo, no alagadiço do vale porque tinha planos para ele, só que essa verdadeira missão não podia ser revelada, senão iriam comentar que era caso de preferência, privilégio, proteção – sabe como é a língua do povo, que dirá dos anjos, meões de defeitos e meeiros de santidade.
Mas teve um “porém”: ficaria confinado, até nova ordem, no campanário de uma igreja apenas idealizada, mas já de concretude visível na imaginação mística dos entes divinos, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Deu-lhe a penitência de tanger no imaginário os sinos nos finados, nos júbilos e nas procissões, espantar e limpar os morcegos e suas titicas, sossegar algumas almas desgarradas e alimentar os passarinhos mais afoitos.
De vantagem, contar estrelas, pastorar a lua, adivinhar as esculturas feitas pelo vento nas nuvens gordinhas e brancas que brincavam no céu, catar os cavacos de noite na barra o dia e beber o vinho rosé dos ocasos para celebrar a noite renovada, quando todos os gatos são pretos.
Foi quando Nossa Senhora da Conceição, surpresa e prazerosa por encontrá-lo nesse ofício, o convocou para uma missão muito importante: colorir o lugar de que era madrinha, dar-lhe o jeito, um aroma, traçar o perfil das ruas e a geografia do município, e, finalmente, o caráter dos seus habitantes. O anjo, entre afoito e cauteloso, ainda perguntou se a Divina Pastora tinha alguma preferência ou proibição. Tanta era a confiança da Madona que não lhe impôs nenhuma regra nem lhe fez nenhuma advertência. Disse apenas que queria algo especial, digno do seu amadrinhamento.
Era dar corda ao jumento, soltar a corrente do cachorro, abrir a gaiola ao pássaro, semear na terra uberosa de húmus e de água. Dar de beber e de comer a quem tem sede e fome.
O anjo soltou-se. Ficou que nem um beija flor ou um zig-zag, flanando algum tempo ao redor do fantasioso campanário, como se buscasse o néctar da inspiração, naquele dilema do burrinho da estória de Apuleio, que teria morrido de fome e sede, rodeado de bacias de água e de milho, por não saber por onde começar.
Depois, cravou o “seja o que Deus quiser” e decidiu iniciar o trabalho.

A CRIAÇÃO

Pintou de um verde luxuriante o vale lá-embaixo, chegando até a embriaguez e a um embaralho nos olhos, espantado com tanta beleza. Nem acreditou no que tinha feito.
Coloriu o céu de algo mui levemente fletido num verde muito esmaecido colhido do canavial e de todos os tons de azul que inventaram e pudessem ser – só assim conseguiu a cor do manto de Nossa Senhora, a homenagem que lhe fez. Depois de se embriagar de tanto azul no azul do céu, e mais azul não havia, ouviu Carlos Pena Filho:
Então pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas depois vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas
Para extinguir de nós o azul ausente e aprisionar o azul nas coisas gratas Enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas
Pôs o verde sobre o azulado, puxado mais para o verde cana, nas águas dos rios e dos mares que beijam a terra da imaculada conceição.
Da alquimia fez e agrimensurou os solos mais variados - da piçarra da Jacoca e o arisco do Gravatá ao alagadiço do vale. Fez dois balneários de águas tão límpidas e transparentes que ele próprio não resistiu e se banhou e os denominou de Diamante e Jericó, este último, à lembrança da cidade bíblica das palmeiras, berço da redenção de Israel. Secou uma porção de terra alagada que rodeava uma coroa no meio da mata fechada e deu-lhe o sugestivo nome de Ilha Bela.
Deu a Jacoca o abacaxi mais doce; a farinha de mandioca de alvura e finura incomparáveis a Ponta do Mato; a laranja mais doce e sumosa a Comum e Primavera; o beiju e o grude mais gostosos a Aningas; a goma de mandioca e a tapioca mais caprichosas a Coqueiros; a Mineiro, deu o picado receitado por Geraldo Abdias; ensinou a Cicinha, a arte da feitura da cocada preta e da branca, preparada com o coco tirado do futuro sitio de Manoel Pereira, na divisa de Muriú com Maxaranguape.
Plantou umas canas de valia, a partir de “soca” divina, dando matéria prima para adoçar a boca dos nativos, mesmo os mais amargosos pela dura vida do eito – mel de furo e refinado, rapadura, açúcar mascavo (impropriamente dito “bruto”) e açúcar branco; cachaça (que ninguém é de ferro) e álcool.
Semeou umas frutinhas doce-azedinhas no tabuleiro dos ariscos praieiros e adjacentes, tais que chamou de camboim, guajiru e massaranduba. Fincou uns troncos de árvores rugosas que nem os rostos de velhos muito mais velhos e as chamou de mangaba. Fincou paus mais ou menos linheiros, de copas ramosas e os considerou cajueiros. E se divertiu queimando as “catotas” nos lajedos para fustigar os calangos, as cobras e a própria pele.
Compôs o mais lindo amanhecer, no meio do oceano vegetal do vale, e o mais belo e nostálgico por do sol, por trás das ondulações do morro do Patu.
Era forte a influência mediterrânea do mestre de obras da Virgem e ele resolveu fundar a cidade nas encostas de uma pequena serra, à falta de falésias. E também, para dar um quê de ascencionalidade ao plano diretor da sua arquitetura. Nada que se assemelhasse a segregação ou divisão de castas, a partir de maior ou menor altura, mas uma insinuação, uma metáfora que sugerisse o plano evolutivo do ser humano, sempre para o alto, na direção de Deus.
Mas, para evitar dúvidas e insinuações, arrumou uma compensação. Se o lá-em-cima fosse, de fato, a ascensão, o lá-embaixo era a sua inspiração. Não há recompensa maior para a subida, que olhar o vale verde se espreguiçando todo lindo e verdoso na aba da colina.
Deu margem ao “lá-em-cima” e o “lá-embaixo”, simplificando a topografia e a geografia da cidade. Na compreensão dos habitantes, que sempre se referiam ao lá-em-cima como uma peregrinação penosa e cansativa, vencer a subida era um prêmio, pela visão que oferecia ao peregrino, o lá-embaixo. E assim a metáfora era assimilada. Para se chegar ao céu, era preciso muito esforço e muito sacrifício, mas valia a pena.
Da parte urbana, só cuidou para que quando a cidade sucedesse à briosa vila em que a freguesia se tornaria, plantassem pés de fícus benjamim nuns canteiros no meio da rua. Sombra e facilidade para as idas e vindas. E também para a alegria da meninada, que se enfeitiçaria com o som das modinhas assopradas por seu Alegria, dono do Circo Alegria, na dobradiça das folhas do fícus
Deu-se então que num domingo em que estava embriagado com a sua própria criação, decidiu se superar. Deixou-se levar pela onipotência megalômana, voou em linha quase reta até um ponto do oceano em território do município e convocou aquele que viria a ser Dorian Gray, mestre desenhista e colorista das azuis e verdes cartografias, para sugerir-lhe a paisagística do litoral da freguesia.
Areias alvas, coqueiros, muitos coqueiros, lagoas, mar tépido e calmo – sugeriu o pintor. E uns parrachos de contraponto, anteparo de predadores e de marés bravias. Até mesmo uns salpicos de sargaço. Então, usando a sua paleta criou uma cor especial para o mar: nem azul nem verde, sem deixar de ser azul, nem deixar de ser verde - uma cor especial, particular apenas àquela parte do oceano.
Bartola não conseguiu distinguir a cor dada pelo grande artista de outras que conhecia. Na sua percepção aquele colorido era comum, encontradiço em outras praias do litoral nordeste do continente brasileiro.
O pintor ofendeu-se e foi direto ao ponto – o anjo, apesar de criatura angelical, não tinha a retina, nem a íris do artista plástico, era uma espécie daltônica, porque havia consumido a sua percepção visual na embriaguez contemplativa da sua própria criação. Nesse ponto tornou-se grave e contundente – não usava a alma como guia. Até concedia que ele “sentia” com a alma, pois era poeta e imaginoso. Mas não via através desse filtro.
O artista, que “via” com a alma, lembrou Van Gogh quando disse que tudo estava na natureza, o artista apenas emprestava a sua alma. Ainda assegurou ao anjo que no futuro, os que amassem aquele mar, aquela nesga de céu, da praia, do sol luxuriantemente, delirantemente amarelo, iriam perceber essa diferença. A perspectiva do tempo das memórias faria a diferença.
Sem se dar por convencido, o fundador da cidade concedeu, no entanto, o benefício da dúvida, pelas credenciais do pintor. Despediram-se sem atritos.
No dia seguinte, avaliou a criação. Ainda insatisfeito, mas no geral pacificado, pensou no passo seguinte.
Se não poderia criar o ser humano, já concebido por Deus, o recriaria. De resto, todas as coisas já tinham sido criadas, ele apenas as escolheu, dando o jeito pedido por Nossa Senhora.
Mas havia algo que ele podia esbanjar-se na invenção. O perfil dos habitantes daquela cidade.
À “sua” matriz humana deu de beber água do Diamante e Jericó e a batizou com a água salobra do Olheiro, juntando água e sal na mesma cerimônia. Mimou-a com garapa, água de coco, suco de manga e de caju. Deu-lhe de pouca a média estatura, tez variando do negro ao branco, passando pelo mameluco e o mulato. Pernas firmes de bom andador de subidas e descidas, alavanca para os atoleiros dos alagadiços, boas para o ofício recadeiro e aviador e sustentação para o dia inteiro no corte de cana.
Alma leve, de passarinho cantador e madrugador. Formiga e cigarra. De missa e canjerê. Esperançoso. Todo dono da chã da alegria, mas sem exageros pois a sua natureza era meio reservosa.
Deu-lhe um chapéu de palha meio sobre o atrevido, um pito feito de imburana, um banho de rio com direito a cangapé, uma rede na varanda, comida no bucho e saúde que dê pro gasto - taí um ser humano feliz! Melhora se tiver um passarinho cativo, uma criaçãozinha no quintal, um burrinho de carga e um galo madrugador. ´Magine se tiver um roçado numa terrinha pouca cedida pelo patrão – vixe Maria!
Fez barateado, quase a preço de liquidação, o ser que vai habitar essa terra. E de pouquinhos teréns. Muitos são os seus sonhares, que ficam guardadinhos debaixo da moleira, e somente o tempo pra se interter entre uma e outra baforada do cachimbo, no terreiro, depois da janta.
Deu-lhes uns olhos de ver o vale, o céu azul de dia e o cobertor negro bordado de estrelas à noite, para agasalhá-lo na falta de fé, na frieza do desanimoso. Vez em quando deixou que pintasse uma lua muito soberba, pra alumiar os namoros, as serestas e as prosas; o rio d´água azul, a praia de Muriú. Uma que outra dança, coisa pouca, mas mui alegre, animada pelo baticum dos atabaques e a cadência dos pés no chão.
Á noite, os corpos nus se esfregando em cima das esteiras de palha, no chão de barro batido, suor com suor, dois num só, cavaleiro e montaria, promessa de cria que o leito da miséria é fecundo.
Os ouvidos de escutar o apito do trem, a tirada da Asa Branca na buzina de Chico Horácio, o saxofone de Zé Gago, o violão de Misael, os sinos “...com timbre de enxada velha que se põe a dizer o amém das ave-marias”, o badalar do relógio do campanário, os pregões dos vendedores ambulantes, as arengas dos botadores d´água com os “roxinhos”, o latido e o miado dos animais sem dono ou vigias das casas e as vozes das beatas nas procissões.
Zé Lemos que restauraria com o pai, seu Justo, as estampas sacras do teto da igreja matriz, cantaria com voz Vicentina Celestiniana, a canção “Porta Aberta”. E Minhém pensaria que era “cover” de Bob Nelson: “Eu pego meu cavalo e jogo o laço...”, os olhos de chinês com terçol, o bigode maior que o de Bienvenido Granda, uma tragédia de desafinos e de troca-letras.
As ventas sempre acesas para o cheiro da bagaceira e do mel; o aroma acre provocado pela umidade da chuva engravidando a terra, em pleno parto das ervas e das flores baldias; a água de cheiro escapulida da carapinha das beiradeiras; o cheiro profuso e confuso do “quadro” do mercado e do pátio da feira – uma mistura de tudo, até de mijo e cocô de gente e de animais.
O visgo açucarado no céu da boca dos cortadores de cana, cambiteiros e operários dos engenhos, o colorau da galinha caipira, o leite de coco e o propriamente dito ralado, presente nas mesas de café, almoço e jantar, o gosto do pãozinho quente, saído da fornalha da padaria de João Neto, a manteiga derretida espirrando nos cantos da boca e nos dedos, as piabas fritas com farinha na banha de porco, o torresmo chiando na panela.
É nesse ponto que me vem Bartolomeu e se lembra da fala, do modo como essa criatura vai-se comunicar uns com os outros. E quer mais, que ela fale até em pensamento, dela pra ela mesmo, e como fosse telepatia, com os pareceiros.
Descartou a fala dos doutores, dos padres e dos políticos – até mesmo dos escritores, que mais fosse a que é aprendida nas escolas. Queria um falar deles, inventado na precisão e na distração. Uma que fosse usada nas conversas e nos escritos, uma coisa só, sem o atrapalho de dois modos diferentes de se comunicar na nossa linguagem brasileira. Que besteira: falar de um jeito e escrever de outro. Quem já viu presepada igual?
Apurou as oiças e consultou o vento, os animais, as aves, os barulhos das feiras, dos partidos de cana, dos engenhos, dos canjerês, dos rios, do mar, o falatório dos meninos e dos velhos, a língua afiada da raiva e do despeito e a melosidade dos ditos de amor. Cascavilhou as frases cuspidas e mal empregadas, os chorares e os sorrisos, os mandos, os desmandos, os suspiros e as cavilações. Tornou-se o pé-de-ouvido cativo de cada um dos nativos.
Deu no que deu.

OS LIVROS DAS DECIFRAÇÕES

Botou tudo que ouviu em dois livros que dedicou à cidade: “Lugar de Estórias” e “Tempo de Estórias”(*). Como um breviário completo, ou um almanaque, dá conta de tudim´ - dos ofícios, bem quereres, malquerenças, febres suspirosas, mal assombros, amores queridos e rejeitados...causos que se não forem acontecidos, bem que poderiam.
Uma espécie de Cábala, de livrinho de cordel em prosa, de Roteiro Místico da cidade, de desnudamento da alma dos seus habitantes, uma declaração de amor à sua própria obra profana, todavia, reconhecida por Nossa Senhora, que deu mostras de ter-se encantado com toda a recriação e com as invencionices do seu mestre de obras.
O que tem de humano nas criaturas de Deus está lá, devidamente registrado e tombado. Sacramentado. Só não está lá o que não interessa e não recomenda um criador de boa fé e honestas intenções. Se não há barões, nem baronetes, nem senhores de barato e cutelo e os seus escravos, é porque o autor resolveu passar flanela com vinagre nesse azinhavrado e borracha nos mal amanhados.
O que está lá é o povo de Deus, na média possível, na medida do possível. Está lá, a infância perdida no passado, sobrevivente no presente e resgatável no futuro. O imutável sentimento de amor às raízes sentimentais e ancestrais.
Está lá, também, o socorro ao náufrago, coitado sem identidade, perdido no oceano da globalização, macaqueando os outros sem saber porquê, ou sabendo, mas envergonhado de ser o que é. O farol que alumia o caminho para o porto seguro (Ninguém se perde no caminho da volta). A razão de sermos o que somos e porque somos. O orgulho de sermos únicos, individualidades distintas, a partir da nossa origem, hábitos, língua, caráter.
Um amigo observador da cena humana, disse certa vez que há uma ciência que ninguém nos supera em conhecimento e vivência: a nossa terra. A aldeia que nos pariu e nos projetou para o mundo. Desde que tenhamos dividido com ela a nossa própria vida, que pelo menos um pedacinho de nós haja-se incorporado à história e ao cenário da nossa vivência: naquela rua, naquela árvore, naquela igreja, naquele colégio, sob aquele céu, no fundo da paisagem, num causo perdido, há uma marca indelével da nossa passagem que podemos testemunhar com as nossas estórias.
Nesse espaço somos protagonistas, não apenas testemunhas ou circunstanciados dos fados. Fizemos, nós mesmos, a nossa própria história, mesmo que tenha sido uma “ponta” do enredo, que tenhamos sido coadjuvantes, nossa marca está lá, num talho de canivete, numa velha foto encardida, no livro de batismo, no registro do cartório, na tradição oral. Na sementeira dos filhos e netos. Na memória dos mais velhos e mais acreditados. Na retina sempre-verde dos companheiros da infância.
No inconsciente coletivo, que guardou o vagido da criança, o arrastado dos primeiros passos, os primeiros aprendizados, os primeiros gemidos do amor. E muito depois, o difícil, mas prazeroso retorno aos primeiros momentos, só reencontrados no lugar de origem. O caminho da volta.
Bartola, como ficou conhecido o anjo-trovador, poeta e cantador, na vulgarização sem cerimônia dos cearamirinenses, que apelidariam até o Papa, é uma instituição da cidade. Talvez o seu mais importante habitante, porque a recriou. Não que tenha pedido por isso, porque o enfada a notoriedade, prefere a alforria das obrigações que o conserva irreverente e maroto. Um sonso, isso sim! Daquela sonsice de quem foi predestinado à liberdade, e é forçado à prisão na saia avoenga.
E também, porque guardou a sua ciência até os mais de cinqüenta anos de idade, para só então torná-la pública, sovinando aos seus amigos, aos conterrâneos e no geral aos que tem sede e fome de saber, a chave para decifrar conhecimento tão hermético e ao mesmo tempo tão singelo.
Mas resistir quem há de. O que esperava o criador de uma freguesia, mestre de obras de Nossa Senhora da Conceição, autor de uma obra comparável à Pedra de Roseta, decifradora da cultura singular de uma cidade, que, sendo igual a tantas outras, não é igual a nenhuma delas.
Rejeito as generalizações. Todas são simplificadoras e embusteiras, porque têm sempre um propósito de apoucamento ou de igualação, ou cortam o que lhes sobra em tamanho ou nivelam por baixo, no mesmo tope, mesmo que maiores.
Como querer estabelecer um parâmetro entre Bartola e o Rosa das Gerais. Não há como compará-los ou medir a importância segundo este ou aquele referencial. Em favor de Rosa, a criação. Em benefício de Bartola, a apropriação do dialeto popular e a sua conversão em linguagem corrente literária, às vezes decodificadora da emoção, do caráter, da cultura.
De fato, a partir do molde originalíssimo, criou-se a verdadeira escola literária do Ceará-Mirim.
Porque é isso o que o anjo-trovador faz: transporta-se, pela linguagem comum, ao seres humanos desfavorecidos de teres e haveres, mas ricos em aventura, alegria e esperança. Sonham. E por isso revivem, tranfiguram-se, transmutam-se, renascem meninos. Beiradeiros.
Viva Bartola!
Que viva sempre em nós, a nossa aldeia, que é o nosso mundo, a nossa referência e a nossa fiança, a teta-mãe que nos aleitou, qual Rômulo e Remo, pelos úberes dos guaxinins do canavial.

(*) Edições Bagaço, 2003 e 2009, respectivamente.


Pedro Simões – Professor de direito aposentado. Escritor e Advogado.

terça-feira, 22 de junho de 2010

AS CAUDAS DA DEMOCRACIA
Carlos Roberto de Miranda Gomes – Professor e Advogado

Dizem os enciclopedistas que DEMOCRACIA, no sentido que lhe confere a sociologia política, é o regime político, ou forma de governo, em que a soberania reside no povo que, por sua maioria, mas sempre indiretamente, representado por uma elite reduzida de seus delegados, exerce o poder, sob o princípio da absoluta igualdade de direitos entre os cidadãos.
Numa linguagem mais popular, diz-se do governo do povo, pelo povo e para o povo.
Em curta distância, os renomados tratadistas, a teor de Norberto Bobbio, definem DEMAGOGIA como o que, não sendo propriamente uma forma de governo e não constituindo regime político, constitui uma praxe política que se apóia na base das massas, secundando e estimulando suas aspirações irracionais e elementares, desviando-a da sua real e consciente participação ativa na vida política.
Do comparativo das suas concepções, tiramos ilações de que a Democracia, da forma como exercida nos dias presentes e, pelo menos no Brasil, possui caudas ou prolongamentos num local um tanto distante do órgão encarregado do raciocínio.
A vontade do povo não vem sendo respeitada no momento em que fica obrigado a engolir uma propaganda partidária extemporânea na realidade, embora legal pela edição de regras positivas saídas do interesse das elites governantes com o beneplácito dos outros Poderes que deveriam zelar pelo bem do povo.
As mentiras ou as proposições ofertadas nas peças promocionais irritam, nivelando por baixo todos os demagogos governistas ou de oposição, que aparecem para dizer o que não fizeram e oferecendo novas ilusões para conseguir o voto popular.
Este espaço no rádio e televisão poderia ser bem melhor aproveitado, o que não acontece, nunca, para adotar uma palavra grosseira e desanimadora.
Outra cauda é a que decorre de que por ser Democracia, cabe tolerar tudo, venha de onde vier, até mesmo das promoções de Seminários Eleitorais trazendo como estrela um conhecido indiciado em improbidade em dimensão nacional, sendo possível perceber o que ele deverá ter ensinado no acumulado de sua vida aventureira; outra quando qualquer jornal fica obrigado, em nome da Democracia, de publicar opiniões de qualquer ‘simplório’ como aconteceu com o nosso DN de 20 de junho passado, onde um tal de Carlos P.C. Ferrão (deve ser nome de fantasia, próprio de quem não tem transparência para tratar seriamente as questões da cidade), oferece um artigo digno de ganhar o prêmio do ‘besteirol’ cujo título é “Adeus Machadão”, no qual ofende a dignidade dos arquitetos (saudosos segundo ele), conclama a parar com a demagogia, critica um estádio velho, desconfortável e mal feito, concluindo com uma exclamação: “Já vai tarde Machadão”.
Aliás, esse pensar destorcido não é diferente de pessoas intelectualizadas, como assisti em uma livraria, onde na minha presença foi afirmado que o Machadão foi construído sem resguardar nenhuma dimensão ou regramento oficial, sendo obsoleto e fora da medida.
Para quem vive há 70 anos numa cidade que possui menos de 50% de saneamento básico; as vias urbanas congestionadas; ausência de estacionamentos reclamados; hospitais sem médicos, sem leitos e sem medicamentos; escolas funcionamento precariamente em seu aspecto físico e com professores em número inferior à demanda; estabelecimentos prisionais que são meros depósitos, impossíveis de incrementarem a ressocialização do preso; uma segurança completamente sem corresponder às necessidades da cidade; um aeroporto internacional emperrado, tanto quanto a famosa história de ampliação do Porto de Natal, que ouvi contar desde a minha infância. Enfim, nos faltam as estruturas básicas, fundamentais, elementares para melhorar a qualidade de vida do povo e se trabalha para demolir o que já existe, quando melhor seria uma nova construção e em local mais apropriado.
A esse custo social, devemos renunciar ao prazer de sediar alguns jogos, carreando os recursos para obras estruturantes e, por isso ousamos aproveitar a exclamação do articulista comentado: “Já vai tarde Copa de 2014!”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010


PAULO LOPO SARAIVA
AS REVELAÇÕES, A LOUVAÇÃO E A TESSITURA DO HOMEM




Talvez eu saiba muito pouco sobre Paulo Lopo Saraiva, mas o que sei é suficiente para incluí-lo numa galeria de tipos marcantes pela sua história, o seu modo de se conduzir na vida de relações e, sobretudo, pela obra que edificou.
Ocorre-me estar munido de um aparelho muito antigo que lembrava um binóculo, com uma haste que finalizava num suporte onde as fotografias eram postas e vistas através das lentes ganhando tridimensionalidade.
Sem nenhum esforço, rememoro as cenas que fixei do meu itinerário em demanda do meu amigo Paulo. Antes, porém, um depoimento que já o qualifica.

Primeira revelação

Soube, através da minha irmã, sua contemporânea na Faculdade de Direito, que nos anos de chumbo, pós-64, Paulo freqüentava as aulas fardado – era sargento do exército – e, embora não professasse a ideologia golpista, encarava desafiadoramente os remanescentes “esquerdistas”, que o hostilizavam pelo simples fato de ser militar.
Disse-me ainda a sua colega que ele era temido pelos anti-golpistas não pelo fato de ser militar pois o sabiam correto, incapaz de denunciar os colegas, mas pela sua ousadia e coragem pessoal.
Segunda revelação

Muito e muitos anos depois, testemunhei pela televisão, a cobertura de um júri no interior em que ele era defensor de um assassino que escapara do linchamento popular. A cena exibia a saída de Paulo do Tribunal do Júri, acompanhando o seu cliente acossado pela multidão. A guarnição policial acorreu para a proteção dos dois e Paulo, com um gesto, os dispensou e cruzou a praça pública em passo moderado, abrindo uma picada na multidão.
A cena lembrou-me de outro episódio.
O Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos líderes da oposição ao Governo Vargas, dirigia-se à sua casa quando o seu veículo foi interceptado por uma manifestação popular em desagravo ao suicídio do Presidente. Forçado a descer do carro para completar o trajeto até a residência, teria, então, dito ao motorista: “Vamos andar numa marcha moderada, não tão lenta que pareça provocação, nem tão rápida que pareça medo”. E assim, foi abrindo clareira na multidão furiosa.

Terceira revelação
A primeira cena que me recordo é a de um jovem com aparência dinâmica, festejado por seus companheiros pela posse na Secretaria Municipal de Finanças. Um amigo comum me disse tratar-se de Paulo Lopo Saraiva, brilhante bacharel em direito. De fato fez uma gestão extraordinária que revelou vantagem para o erário municipal e para os contribuintes em geral: a receita tributária decuplicou e impôs-se a justiça fiscal.
Sempre tive referências da sua ascensão profissional e do sucesso como advogado, na defesa de questões polêmicas.
Depois, nos encontramos nos espaços acadêmicos da UFRN e UnP, ambos professores do Curso de Direito.

Mas, conheci-o mais intensamente quando fui candidato a Reitor da UFRN.

Quarta revelação
Ungido como primeiro colocado na lista sêxtupla a ser encaminhada à então Ministra da Educação, Professora Esther de Figueiredo Ferraz, a opinião pública formara a convicção de que eu não teria chances porque um dos candidatos ao cargo, o Professor Genibaldo Barros, contava com o apoio do grupo político dominante no estado, os Maia.
No entanto, apesar das evidências indicarem essa tendência, eu me irresignava. Procurei então, apoios alternativos que pudessem influir na decisão. Ex-reitores, Diretores de Centros da UFRN (lembro particularmente de Therezinha Almeida e Emanuel Lago), Dirigentes de instituições de ensino e entidades culturais...
Certo dia o Professor Francisco das Chagas Pereira me conduziu ao então Deputado João Faustino, acompanhado de um grupo de professores ligados ao parlamentar e este se comprometeu a nos ajudar. Era um reforço precioso, considerando-se a sua condição de Presidente da Comissão de Educação da Câmara Federal.
Fui, então, procurado por Paulo Lopo, que já se havia declarado partidário da minha campanha, e ele me informou que iria postular o apoio do senador Caros Alberto, á época vice-líder do governo, para a minha candidatura.
Dito e feito.
Noite alta rumamos no próprio carro de Paulo para um sítio onde Carlos Alberto repousava.
O senador recebeu meu amigo efusivamente, e, quando me distinguiu, formalizou-se. Paulo fez as apresentações devidas e Carlos Alberto observou, sem nenhuma cerimônia:
“É verdade que o senhor participou de um comício em Passa e Fica, de apoio à candidatura de Ulisses Potiguar?”
De fato, a pedido de Diógenes, irmão de Arian Cunha Lima, prefeito de Passa e Fica, em franca campanha pela eleição de Ulisses Potiguar, pedi votos para o adversário de Carlos Alberto, num palanque de que participaram diversos professores de UFRN.
Respondi afirmativamente.
Antes que o senador fizesse qualquer comentário, o meu amigo antecipou-se:
“Senador, Pedro Simões não conta. Sou eu, seu amigo e colaborador que vim lhe pedir apoio para o seu pleito de conquistar a reitoria da UFRN.”
Fez-se um silêncio embaraçoso. O político afagou inúmeras vezes a cabeleira, um tanto contrafeito, mas Paulo não arredou pé – olhava-o desafiadoramente, como o faz em certas ocasiões.
Carlos tentou ponderar, dar-se tempo: “Vamos analisar”. Paulo não se contentou. “Não tem o que analisar, é um pedido meu, pessoal, ou você atende ou não atende, não há meio termo”.
O recém-eleito senador sentia-se pouco à vontade. Depois soube que não gostava de ser pressionado.
“Tudo bem! Mas voltaremos a conversar – dirigia-se a mim – para o estabelecimento de certas condições”. Tentava equilibrar a sua posição ante a firmeza do seu colaborador.
Justiça se faça, o combativo senador lutou denodadamente, jogando todo o seu prestígio como vice-líder do governo no Congresso, para obter a nomeação, que chegou a ser cogitada, mas essa é outra história. Aproveito o espaço para registrar a minha gratidão a esse injustiçado político norte-rio-grandense, correto nos seus compromissos e aos laços de amizade.

Quinta revelação

Nesse ínterim, o meu amigo foi convocado a dar explicações ao então governador, de quem era Secretário de Governo, porque não se perfilhava com o candidato das forças governistas à Reitoria. Disse ao seu chefe que tinha um compromisso comigo, inamovível. Mas que o governador poderia dispor do seu cargo, que aliás era de provimento em comissão, e a sua exoneração talvez pudesse corrigir a suposta contradição.
Ficou tudo como estava.
Sexta revelação
De outra feita, fui procurado por uma série de amigos, quase todos colegas professores do curso de direito da UFRN, para formar uma chapa de oposição que concorreria às eleições para a diretoria da OAB. Lá estavam, entre outros, Jales Costa, Adilson Gurgel, Carlos Gomes, José de Ribamar Aguiar, José Correia de Azevedo, Honório de Medeiros (que dividiu comigo as diretrizes táticas) e Armando Holanda. Pretendiam que eu assumisse a coordenação do planejamento estratégico da campanha.
Sabendo da minha amizade com Paulo, pediram-me para que o persuadisse a se alinhar com a chapa em formação, pois sabiam-no ideologicamente comprometido com a diretoria situacionista. Disse-lhes que era uma empreitada difícil, considerando as posições irredutíveis do nosso amigo.
Exatamente como dissera, Paulo justificou-se alegando alinhamento automático com os nossos adversários.
Durante o processo de preparação da estratégia, elegemos alguns princípios que se prestavam a reforçar o merchandising eleitoral: a alternância de poder, já que o grupo que controlava a OAB permanecia no controle da instituição há mais de vinte anos; a consideração do voto direto também no pleito corporativo – advogando que a presidência seria ocupada pelo mais votado e, assim, sucessivamente, toda a diretoria.
Afinal, vivíamos o período de efeverscência pós-Ai-5, com a campanha pelas diretas sensibilizando a opinião publica.
Os situacionistas rejeitaram a proposta, que era coerente e politicamente correta, considerando-se o “Movimento pelas Diretas Já” que galvanizava o país. Vai daí que Paulo me procurou para apoiar a chapa de oposição, por questões de consciência, uma vez que o empolgava a coerência do nosso grupo, e a incoerência dos situacionistas em rejeitar essa possibilidade.
Ganhamos o pleito.
Depois, reativamos o Instituto dos Advogados do Brasil, capítulo do Rio Grande do Norte e fui escolhido como seu Presidente. Só reivindiquei uma posição – que Paulo Lopo fosse o meu vice.

A louvação
Portanto, se eu pudesse destacar os traços marcantes de Paulo, esses seriam a lealdade, a coerência, a combatividade e o arroubo, à parte os seus notórios méritos intelectuais, sobretudo a dedicação ao ensino jurídico e os lauréis acadêmicos.
Ele excede nessas virtudes, como eu posso atestar de ciência própria.
Não vou-me alongar no que já é de conhecimento público: a sua brilhante titulação acadêmica, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Direito, Professor de Direito Constitucional de algumas das mais importantes instituições de ensino superior do Estado, tendo já lecionado na Universidade de Brasilia, que reúne alguns dos melhores docentes do país.
Elevado por opiniões respeitáveis como as de Michel Temmer, Paulo Bonavides e Ives Gandra, para citar os mais recorrentes, e tendo como parceiros de estudos e de teses alguns dos mais renomados juristas internacionais a exemplo dos portugueses Gomes Canotilho, de Coimbra, e Jorge Miranda, de Lisboa e Friedrich Muller, da Alemanha, é, por tais méritos, titular de algumas das mais altas honrarias acadêmicas e profanas do nosso país.

A tessitura
Mas, quero tecer o Paulo idolatrado pelos alunos, por sua metodologia e pela amizade que estabelece com os discípulos, comparável ao professor interpretado por Robin Williams em “Sociedade dos Poetas Mortos”; o patrono disputado pelas lideranças da sociedade civil, socorro dos desvalidos sob ameaça do poder e dos poderosos, o amigo leal, o tribuno arroubado e, porque não, o homem fascinado por suas próprias conquistas.
É a capacidade de superação, a obstinação e a fidelidade às metas traçadas que dizem de Paulo e que inflam o seu orgulho. Com justeza. Afinal, quantos poderiam construir com as próprias mãos uma trajetória tão brilhante e tão inesperada como ele o fez?
Há quem atribua a Paulo um excessivo apego e incenso à própria imagem, um entoador de loas a si mesmo. Esses julgam as aparências. Não conhecem o Paulo original, louvam-se nas imagens refletidas nos diversos espelhos, sem compreendê-las, quais os mesmos fabricantes da silícia que conduziram Alice ao controvertido “país das maravilhas”.
Paulo foi mais um rebento de uma família numerosa e pobre, na distante Serra Branca, interior da Paraíba que tomou o caminho de outros tantos filhos pobres que decidiram ser alguém, contra todas as adversidades - o seminário, onde passou cinco anos, e depois, bafejado pelo excelente curso de humanidades, fez o curso de sargento no terceiro batalhão ferroviário, em Campina Grande permanecendo no exército longo tempo.
Nessa condição, fez o vestibular de direito e foi aprovado.
A estória de sua ascensão, curta assim, parece ter sido unção do destino. Ninguém é capaz de avaliar os sacrifícios que o nosso perfilado teve de fazer, as renúncias, as transigências e, sobretudo, a obstinação, que é outra de suas características, para chegar até onde chegou.
Tenho para mim que até hoje Paulo ainda tem dúvidas das suas conquistas, por isso, ao invés de beliscar-se, tal como o incrédulo, as relata, para ouvir o eco das contraditas ou das concordâncias. Só assim ele se sente confortável, porque sabe que não se trata de um sonho.
E é difícil alguém acostumar-se às culminâncias, saindo de planícies tão estéreis e longínquas como desestimulantes.
Ocorre-me uma fantasia: o nascimento de um corpo, emergente de um buraco negro ou de um quasar, que de repente se descobrisse intensamente brilhante, reluzente e poderoso - uma estrela. Se tivesse consciência e pudesse refletir sobre a sua inesperada metamorfose, a que conclusões chegaria? Com certeza o alumbramento, a que se seguiria o envaidecimento e afinal, a onipotência.
Não refuto os vaidosos, sobretudo os de linhagem intelectual. Eu os compreendo e os justifico. A síndrome de Narciso entre os que operam com a mente, não é a mesma dos cultores do físico. Não valorizam a própria concepção material, mas a gênese de um novo ser, sutil, fluídico, poderoso porque é animista, parto laborioso de hermafrodita, o próprio responsável pela energia vital: “Penso, logo existo”.
Ninguém enxerga o Paulo-Paulo, sem o Lopo nem o Saraiva. O que está subjacente aos cabelos ralos, por trás dos óculos, no peito infante do menino que debulhava o caminho nas sandálias rotas no rumo da escola, triunfante, a tabuada na ponta da língua, o ABC das cartilhas decodificado, a salvo portanto da palmatória. O menino da bola de meia no pátio da escola, orgulho da Professora Teresa de Souza, do Grupo Escolar de Serra Branca, vivo, inteligente, já com inclinação para a liderança.
O menino-adolescente seminarista, encantado com os mistérios da Santissima Trindade, da divina concepção, um tanto confuso com os dogmas religiosos, mas satisfeito com Agostinho e Tomás de Aquino. Depois, a disciplina e a hierarquia aprendidas no regime militar. Afinal, a descoberta do direito, quando os horizontes deixaram de ser apenas geográficos para conquistar foros de infinito.
Não foi curta, nem fácil, a trajetória do Paulo-Paulo, antes do Lopo e do Saraiva. Aliás, ninguém lhe disse que seria. Ao contrário, todos duvidavam que chegasse ao topo, não que duvidassem da sua capacidade de luta, mas porque se acostumaram à fatalidade da pobreza como predestinação invencível.
O que ninguém sabia, nem desconfiava, era que Paulo nunca aceitou a fatalidade nem a predestinação como o norte da sua vida. Acreditava no esforço, na obstinação, e na formulação que recebera do pai quando tratava da forja do futuro: trabalho e disciplina. Ajuntou a esse binômio, timidamente, e depois com exaltação, a fé. Aprendeu a utilizar as duas forças primárias como alavanca e a terceira como motivação.
Como sempre faço nos perfis que traço, procuro semelhança com personagens da literatura. Encontro em Ariosto (século XVI) um protótipo: Orlando, o furioso. Não exatamente o desvario do herói, depois de perder a sua amada Angélica, mas o “em torno” do épico, a sua motivação, o mito do cavaleiro errante, a cultura da contradição a qual também caracterizou alguns trabalhos de Erasmo e Rabelais justificada pela sede de mudanças que caracterizou o período compreendido entre o medievalismo e o renascimento. Embora Orlando tenha sido apenas um dos muitos personagens do monumental poema, foi o mais marcante. Sem ele, Ariosto perderia o título e o herói de todas as batalhas.
É tão importante a obra, que cerca de três séculos mais tarde, Hegel considerou que as suas muitas alegorias e metáforas não serviam meramente para refutar o mito da cavalaria, mas também para demonstrar a falácia dos sentidos e julgamento humanos.
Misto de Cosme de Farias e Sobral Pinto, condimentados, não é por acaso que Paulo se destaca pela originalidade e pela coerência com as suas origens. Por isso abraçou as razões doutrinárias do Direito das Ruas, do Direito Alternativo, com a sua tese “Participação Popular”.

Pedro Simões – Professor de Direito aposentado. Escritor e Advogado.

sábado, 12 de junho de 2010

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES EM TORNO DE TEMAS RELEVANTES
Carlos Roberto de Miranda Gomes – Professor e Advogado

Aproveito este momento de desligamento de assuntos relevantes para o País, em razão da Copa da África do Sul, para ‘catucar’ alguns temas de grande magnitude para o nosso futuro, em particular do Rio Grande do Norte e de Natal. Dividirei os assuntos por títulos:
FICHA LIMPA – Pelo imediatismo deste assunto, o TSE interpretou que a Lei que aprovou o Projeto “Ficha Limpa” tem aplicação para as eleições de 2010. Alguns estudiosos militantes do ramo, certamente adotando o casuísmo do interesse pessoal, vêm proclamando a sua inconstitucionalidade diante do princípio da ‘presunção constitucional de inocência’ e, por isso, insistem somente em considerar alguém com ficha suja com o trânsito em julgado.
Parece que ainda se pensa que a Lei esgota o Direito e para tanto, algum tempo verbal tem o condão de postergar um desejo do povo, externado em abaixo assinado popular para dotar o mais verdadeiro exemplo da vergonha e acabar com o reinado dos demagogos e enganadores que, indiciados em ilicitudes, utilizam esse defeito moral como boa indicação à concorrência em cargo político. Não, absolutamente não, o Estado é uma ficção jurídica criada pela vontade soberana do povo que, assim, é o seu criador, enquanto o Estado é apenas a criatura. Desta forma, deve sempre e sempre prevalecer a sua vontade, como aliás muito bem dissertou o jovem Procurador da República Marcelo Alves Dias de Souza: “Levando em consideração o Direito e a Sociologia, por exemplo, basta ler Émile Durkheim (1858 – 1917) Max Weber (1864 – 1920) e Eugen Ehrlich (1862 – 1922), pensadores com formação tanto em Direito como em Sociologia, que deram marcantes contribuições para a interação dessas duas ciências. Já no Século XX, caracterizando-se como um forte ataque ao positivismo (sobretudo à escola analítica inglesa), uma das mais significativas correntes de pensamento jurídico surgidas foi a escola sociológica americana, representada por nomes como os de Roscoe Poud (1870 – 1964) e Julius Stone (1907 – 1985). Essa escola procurava ver o direito pelo prisma do “povo”. Ao concluir concorda que mais importante que o Direito nos Livros é o Direito em ação, mas Np conflito entre esses direito, não sejamos juristas de gabinete ou, na forma como ele (Pound) cunhou, “legal monks”.
O ideal seria a adoção de um mandato “imperativo” no lugar do “representativo”, pois poderíamos cassar os mandatos dos trampolineiros.
EXAME DE ORDEM – Um bom contingente de estudantes trabalha e torce para o término da exigibilidade do Exame de Ordem, como forma de permitir o exercício da advocacia. Se isso vier um dia a prevalecer, assistiremos, atônitos, a falência das faculdades de Direito e a banalização dos direitos e interesses do povo, para permitir a mecanização daquilo que é ainda a coisa mais sagrada – a defesa do Estado Democrático de Direito, os princípios da isonomia e da equidade. Mais importante é fiscalizar com rigor o funcionamento das fábricas de bacharéis!
COPA 2014 - Continua sem a devida solução a questão de Natal sediar alguns jogos da Copa de 2014. O Comitê encarregado dos trabalhos para a construção da “Arena das Dunas” insistem em manter uma postura insensata e ilógica, com perspectiva de comprometimento do Estado com o pagamento de uma dívida durante 30 anos, perda de um patrimônio já existente, da pouca rentabilidade de se pagar um possível investimento da iniciativa privada através da PPP, obrigando ao Erário Público desembolsar o numerário necessário para cobrir o investimento. Por que não adaptar o Machadão, procedimento inteiramente possível; por que não convocar quem mais tem competência para tanto, o CREA, que até agora não tem conhecimento do projeto; por que com o que se economizará não se complementa os inúmeros e graves problemas da cidade como transporte urbano, saneamento básico, recuperação de escolas, de estabelecimentos prisionais, equipar nosso aparato policial, consolidar a rede hospitalar do Estado; construir bibliotecas sustentáveis. O tempo é muito curto e não será suficiente para se aguardar uma demolição tão gigantesca quando é possível aproveitar o Estádio ou mesmo construí-lo em outro local, tipo o do “parque Aristófanes Fernandes” que poderia ser deslocado para região mais rural. O Ministério Público precisa acompanhar a ganância econômica que existe por trás disso. Aqui, em particular, lamento a conivência do meu primo Paulinho Freire, que poderia muito bem ter procurado subsídios com Moacyr, autor do projeto do Machadão, pois nossa família é sempre procurada em época de eleição. Sei não, Natal tem a fama de “terra que já teve e não tem mais” – Até quando?
O QUINTO CONSTITUCIONAL DOS ADVOGADOS – Assunto que tem preocupado os advogados, pois alguns magistrados que ocupam o quinto constitucional dos advogados, depois que vestem a toga se esquecem de sua origem e permitem que os advogados sofram restrições esdrúxulas das cúpulas dos Tribunais, sem servir de um elo de ligação para amenizar e solucionar as questões com mais serenidade. Que saudades de Ítalo Pinheiro!
EXTINÇÃO DA CONSULTORIA – Lamentável essa iniciativa, que tem o apoio da Procuradoria Geral do Estado. Todos sabem que os Procuradores são advogados do Estado e o Consultor é o jurista independente que dirime controvérsias entre o direito do cidadão e do Estado, quando não se encontram em sintonia. O Consultor é quem examina as razões de vetos, a elaboração de mensagens, o aconselhamento do Governador, assuntos que estão fora da competência administrativa da PGE, que tem missão definida. Vamos pensar melhor, deixar à margem as vaidades e a busca de poder e olhar o racional. Pouco importa que sejamos o único Estado do Brasil a manter uma Consultoria, Vale à pena resguardar a memória daqueles que solucionaram questões cruciais no Direito local, como Raimundo Nonato Fernandes, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, Francisco de Assis Fernandes, Ivan Maciel de Andrade, dentre outros, cujos pareceres continuam como pérolas do nosso Direito.
Desculpe se desagradei a alguém, mas já atingi a idade bíblica e minha vida está por conta da bondade de Deus. Não devo mais nada aos homens e não tenho mais idade para suportar a indiferença e a omissão, a opressão e a arrogância de quem pode mais do que sabe.
OUTROS ASSUNTOS – Vou reservar outros temas para detonar mais adiante, um dos quais o abuso de interpretação que alguns tabelionatos dão para apresentação de documentos. Vamos acionar a Corregedoria, pois não é possível suportar absurdos, como se fazer o arquivamento do livro original de criação de uma associação, com capa dura e tudo, porque o interessado não trouxe dois exemplares do livro original. A expressão “original” para alguns não é mais uma coisa única singular e confundem a expressão legal “duas vias” como “dois originais”, como que o Tabelião não gozasse de “fé pública” para dar certificado de autenticação de cópia reprográfica do original.

DO VERDE NASCE
HAMILTON DE SÁ DANTAS

Diz a lenda que Alexandre da Macedônia, filho de Felipe, um dos maiores guerreiros e estrategistas que o mundo conheceu, testamentou a sua última vontade, decidindo sobre a cerimônia do seu enterro: haveria um séquito dos seus médicos, em atitude de humildade, a exposição pública de todos os seus tesouros e que o seu ataúde fosse conduzido aberto, com os seus braços projetados para fora, as mãos espalmadas.
Explicava o jovem general, conquistador do mundo, que queria que os seus súditos soubessem que não há ciência capaz de suplantar a vontade divina; que ninguém leva consigo os tesouros que amealhou na sua vida terrena; e que chegaria na outra vida com as mãos vazias .
Creio que o discípulo do filósofo Aristóteles, cujos atos de estratégia e de beligerância, surpreenderam e estremeceram os povos da antiguidade, aprendeu uma lição de sabedoria : sic transit gloria mundi. Tudo é efêmero. O que conquistarmos do mundo físico e aquilo que nos tornarmos em razão da busca do poder, da riqueza ou da glória, permanecerá aqui. Nada nos pertence e nada será incorporado.
Pois bem, se quisesse, Hamilton de Sá Dantas, juiz federal por vocação e escolha, faria inveja a muitos que ambicionam esses valores dados por Alexandre como inúteis.
Descende de ilustríssima estirpe: do lado paterno é neto do Desembargador Fàbio Máximo Pacheco Dantas, luminar da ciência jurídica potiguar, e bisneto do Coronel da Guarda Nacional Felismino Dantas, fundador do Partido Republicano e o seu chefe político no estado, foi inúmeras vezes Prefeito de Ceará-Mirim e outras tantas vezes deputado à Assembléia Estadual, ambos os patriarcas proprietários, sucessivamente, dos engenhos de açúcar União e Verde Nasce.
Do lado materno, é bisneto de Boaventura de Sá, abastado senhor de engenho, proprietário do Engenho Capela. É também bisneto do Coronel Manoel Pinto, ilustre cidadão e proprietário de terras do município de Ceará-Mirim.
Seu pai, Herbert Washington Dantas, carinhosamente conhecido como Betinho, foi proprietário do Engenho Varde-Nasce, esteve no exercício do cargo de Deputado Estadual e, dentre outros projetos que concebia com visão futurista, deslocado do seu tempo, destaca-se o da construção de uma ponte rodo-ferroviária sobre o rio Potengi, antecipando-se à inevitável corrosão da estrutura de ferro, alcançada pela maresia, da ponte que serviu durante anos aos comboios ferroviários e, subsidiariamente, à travessia de veículos automotores.
O “visionário” Betinho, pai do nosso perfilado, foi vereador e depois candidato a Prefeito de Ceará-Mirim e, segundo pesquisa mandada aplicar pelo então Prefeito de Natal, Agnelo Alves, um dos líderes do MDB, sua vitória era fato consumado, não fosse a falta de oxigenação no dia das eleições. Fui um dos coordenadores da campanha do pai do meu amigo Hamilton e daqueles que tinha certeza de que, uma vez eleito, Herbert Dantas faria uma das mais eficientes gestões municipais dentre as Prefeituras do estado.
Filho, neto e bisneto de políticos, senhores de engenho e de personalidades que se puseram adiante do seu tempo, essa a herança recebida pelo hoje juiz federal, menino da bagaceira do engenho Verde-Nasce, Hamilton.
Por esses vieses, por ser quem é porque quis ser assim, faço introdução ao relato da pessoa humana, muito humana, do meu amigo Hamilton, a quem apelidei na juventude de Conde de Sá Dantas. Um que tem a percepção de que é mais sábio, coerente e justo, buscar a própria evolução através do cultivo de valores pessoais que enriqueçam ao espírito, que o de vangloriar-se de suas ascendências e amealhar o ouro e a glória que, bem a propósito, são estigmatizados num dos mais eloqüentes e reflexivos epítetos sobre o assunto, utilizado como título de um dos livros de autoria de Álvaro Lins “A glória de César e o punhal de Brutus”.
Toda a glória conquistada por onipotente Júlio César, jazia ali, aos pés do traiçoeiro Brutus, vítima do seu punhal.

Na segunda metade dos anos cinqüenta, a turma de internos composta por cearamirinenses era uma das mais numerosas do colégio Marista: Gilberto Sobral, Marcelo Varela, Gilberto Brandão, Chiquinho (Francisco de Assis) Dantas Barreto, Hamilton Dantas e eu.
Desses, só Hamilton e eu fazíamos parte da “turma dos menores”, assim considerados os que tinham até doze anos. Os outros eram “maiores”. Talvez por isso, pela idade e pela partilha da terra comum, os dois tivemos um relacionamento mais estreito. E talvez só essas circunstâncias expliquem a nossa amizade, porque éramos muito diferentes.
Enquanto Hamilton era “endiabrado”, expansivo e popular, eu era tímido, introvertido e pouco dado a amizades. Dedicava-me à leitura e aos estudos e Hamilton às brincadeiras e práticas esportivas. Vivia “de castigo”, de pé contra a parede, vítima, principalmente do nosso irmão “regente” – de fato um ditador – a quem chamávamos sugestivamente de “Polón”, numa alusão ao ditador argentino Juan Manuel Perón.
No entanto, Ceará-Mirim era um apelo muito forte e nos encontrávamos nos fins de semana e nas férias, nas “peladas” com bola de borracha nos campos improvisados, de nomes geograficamente apropriados – campo do cemitério, da maternidade e do motor e também nos víamos no sobe e desce das movimentadas ruas da cidade.
Alguns anos depois, operou-se um milagre: Hamilton tornou-se um aluno exemplar e criatura de trato afável e gentil, quase cerimonioso. Do antigo menino hiperativo, restou apenas a mania andarilha. Percorria longas distâncias, sempre com muita rapidez. Parecia estar em toda parte. Quando e onde menos se esperava, aparecia sempre um Hamilton sorridente. Tantas vezes o fenômeno se repetiu que às vezes o tratávamos por “deus”.
Tornamo-nos, nessa época, grandes amigos, dessas amizades que se estendem pela vida toda, com a cumplicidade do congraçamento familiar e de escolhas comuns.
Fomos internos no Marista durante cinco anos, de 1955 a 1959 e só nos separamos no então chamado curso colegial. Fui para o Atheneu e ele permaneceu no Marista. Mas a nossa terra querida nos reunia, e, mais do que ela, a praia de Muriú dos nossos encantamentos.
A amizade naquele tempo, quando era verdadeira e divorciada de interesses subalternos, era um compromisso integral que envolvia a família inteira, pai, mãe, irmãos e irmãs. Assim, passei a ter uma nova família no lar de Herbert (Betinho) Dantas e dona Nilcéa, ganhando novos “irmãos”, Naide, Neire, Nalba, Haroldo, Nadege, Helder, Naíse, Hermes, Nice e Nadir. Depois de algum tempo, chegaram os fins de rama, Herbert Júnior e Nadja. E, infortunadamente, tempos depois, Helder e Hermes se foram, deixando-nos enlutados.
Fascinava-me a desarrumação harmoniosa do casarão da Praça Barão de Ceará-Mirim, onde moravam os Sá Dantas, vizinho ao Colégio Santa Águeda. A aparência de desarrumação era conseqüência da movimentação de onze crianças saudáveis (depois treze), vale dizer, ativas, com muita energia, e nenhuma babá. Era dona Nilcéa, com um sorriso doce e tolerante, quem conduzia a parte harmoniosa. Andava sempre, como se dizia naquele tempo nas cidades do interior sobre as mulheres fecundas, com um menino no ventre, um no colo e outro pela mão.
Sempre me seduzia a placidez da mãe de Hamilton. Nem parecia que tinha que cuidar dos onze filhos, da administração da casa e do “em torno” do marido. Acho mesmo que Nossa Senhora a auxiliava, deitando sobre ela o diáfano e bem aventurado manto azul para dar-lhe conforto e paciência, para compensá-la de tanto sacrifício.
Filho exemplar, desvelava-se em carinhos pela mãe e convivia harmoniosamente com o pai, um pai de família de temperamento severo, intolerante em questões de desvios de conduta dos filhos, ao modo como se educava à época.
O avô paterno passou algum tempo com a família e nesse tempo testemunhei a dedicação não apenas dos familiares, mas especialmente de Hamilton. O meu amigo sofria, relevava e defendia os desvarios do avô, o desembargador Fábio Dantas, em avançado estado de esclerose. (Faço um parêntese para recordar certa vez em que Herbert Dantas, diante da irreversível demência do pai, avô de Hamilton, com lágrimas nos olhos o enlaçou pela cintura. O meu amigo também chorou – pelos dois, e eu pelos três.)
Irmão vigilante, mas liberal, era o preferido das meninas e o líder dos irmãos. Impunha-se pelo exemplo e era mimado em retribuição ao tratamento carinhoso que dispensava às irmãs.
Cursamos Direito juntos. Estudamos para o vestibular na casa que o seu pai mantinha, na rua Jundiaí, 444, até hoje serventia da família. Ele, Luciano Limeira e eu. Nunca fizemos cursinho pré-vestibular e fomos aprovados incontinenti à conclusão do segundo grau.

No Ceará-Mirim daquele tempo (fim dos anos cinqüenta para os anos sessenta) nós tínhamos poucas opções para o divertimento, mas bastante imaginação para criá-lo.
Formávamos um trio inseparável: Hamilton, Afrânio Cavalcanti e eu. Jogávamos sinuca no bar de “seu” Joao, na rua São João, tomávamos banho no Diamante do senador Augusto Meira, caçávamos rolinhas e nambus, íamos ao cinema, reuníamo-nos no murinho do “centro” e à noite na esquina da “venda” de Chico Dantas para as conversas longas que duravam até dez horas, horário em que o gerador que fornecia energia à cidade era desligado.
Ficamos tão habituados ao horário de encerramento das nossas reuniões, que, mesmo quando a cidade recebeu a energia de Paulo Afonso (Chesf) nos despedíamos a essa hora.
Hamilton sempre foi uma criatura incomum, como se vivesse em constante evolução, policiando-se, remodelando-se, controlando os impulsos, embora tivesse sido uma criança e um adolescente inserido no mesmo contexto e com os mesmos hábitos e modismos de sua geração.
Refiro-me ao seu polimento, às advertências que fazia quanto às nossas pequenas transgressões, ao temperamento judicioso que o levaria por gravidade ao cargo de magistrado.
Lembro do seu sorriso sempre contido, reservado, mesmo quando os olhos brilhavam de alegria e de prazer. Tinha o hábito de por a mão aberta ocultando a boca, não sei porque, talvez para esconder o sorriso que carregava perenemente, não sei também porque. Aliás, o “diário” de Hamilton deveria ter muitos porquês e poucas respostas. Ele às vezes manifestava muita estranheza diante de alguns hábitos e de algumas condutas, mesmo que não as censurasse.
No futebol de beira de praia, não dividia a bola com a mesma agressividade com que nós o fazíamos, nem devolvia as “entradas” mais duras que lhe davam, preferia vingar-se com dribles e toques próximos da perfeição, pois era um excelente jogador.
No jogo como na vida. Eis porque cultivou amigos, parceiros e admiradores. É uma unanimidade inteligente, com atestado virtual firmado pelo próprio Nelson Rodrigues como exceção à regra.
Depois, fomos colegas de escritório, patrocinados por Emmanuel Cavalcanti, que se tornou orientador dos nossos primeiros passos na advocacia. Era uma sala minúscula no edifício 21 de março – a de número 103, se não me falha a memória, pertencente à maçonaria. Praticamente nos acotovelávamos, Emmanuel, Hamilton, Cícero Pinto, rábula e farmacêutico, experiente nas práticas forenses e no trato político, depois Prefeito de São José de Campestre e eu.
Transitar entre quatro birôs com duas cadeiras cada um, num espaço que acomodava com relativo conforto, apenas duas pessoas, era tarefa complicada. Hamilton acumulava o ofício liberal, com a função de promotor adjunto de uma das varas da comarca de Natal e ainda era repórter da Tribuna do Norte.
Separamo-nos um ano depois, quando improvisei um escritório a partir da reforma de uma garagem do Dr. Raul Fernandes, frente-a-frente à antiga sede do cartório do meu amigo Jairo Procópio, na Vigário Bartolomeu.
Tempos depois me comunicou que havia sido aprovado em concurso para assessor jurídico da Sudeco – Superintendência do Desenvolvimento do Centro Oeste e iria trabalhar em Brasilia. De lá, foi aprovado em concurso para Juiz federal e permanece até hoje na capital federal, onde constituiu família.
Mas não desatou os laços com Ceará-Mirim. Conserva, como patrimônio da família, ainda moendo, o engenho Verde-Nasce que o pai herdou do avô, e mantém perene e constante a temporada de verão em Muriú, na mesma casa onde, criança ainda, foi embalado pelo marulhar suave daquele pedaço paradisíaco do Atlântico e foi banhado pela lua mágica e vaidosa refletida no espelho das águas nas noites mornas do verão.
Guardo algumas boas lembranças da amizade leal e sincera de Hamilton.
Apaixonei-me (quem não o fez, atire a primeira pedra) por uma bela pernambucana de olhos verdes e fui por ela correspondido. Era filha de um rico personagem da alta sociedade pernambucana. Logo eu? Filho de um médico paupérrimo, com o agravante de ser comunista? Ainda assim, a paixão prosperou, mesmo sob protestos e mil recomendações dos responsáveis por sua estadia em Muriú.
Tanto fizeram, como na letra da música “Pois é”, que houve a separação.
No carnaval tentei uma aproximação, mas a “guarda vermelha” exercia uma severa vigilância. Afinal, soube que ela iria “brincar” o carnaval num dos blocos de elite de Natal – o Xamego.
Pedi, então a Hamilton, que era um dos animadores do dito bloco, que conseguisse a minha admissão. O meu amigo lutou com unhas e dentes, mas o meu nome era sempre vetado. E o motivo dado como justificativa era o mais torpe: porque eu era pobre e era muito alta a “jóia” correspondente ao ingresso. De fato, isso era verdade, mas essa era uma meia-verdade que encobria o verdadeiro motivo: evitar o meu reencontro com a bela pernambucana de olhos verdes.
Sem solução, Hamilton anunciou a sua renúncia à condição de sócio e, em face de decisão tão radical, os censores voltaram atrás e fui admitido no bloco. Um beau geste.
Recordo, com orgulho e nostalgia, que a minha mãe-cúmplice providenciou tudo: comprou o tecido da blusa e dos shorts e contratou a mais famosa costureira da cidade, Trindade, para confeccioná-los; em seguida, baixou o preço das toalhas de mesa de frivolité que fazia e comercializava para aumentar a renda familiar, no intuito de vendê-las com rapidez, o que de fato aconteceu, e me deu o dinheiro da “jóia”.
De fato, não consegui demover a ex-namorada, mas isso é outra estória. Valeu o gesto do meu companheiro, expondo-se à privação da festa maior da nossa juventude, em nome da amizade.

Até 1970 não exercera a advocacia profissionalmente, embora tivesse me graduado em 1967. Provia um bem remunerado cargo em comissão de diretor do Departamento do Patrimônio de Natal, nomeado pelo então prefeito Agnelo Alves e mantido por seu sucessor Ernani Alves da Silveira.
Depois de patrocinar, com nome alheio, algumas esparsas mas exitosas demandas judiciais, decidi advogar. Consultei o amigo Hamilton sobre a possibilidade de instalar-me no seu escritório, ignorando o fato de que ele o dividia com dois outros colegas, como me referi no início, ou não teria enunciado esse desejo.
Vai daí que dois ou três dias depois, pergunta-me se tenho condições de comprar os móveis. Não tinha, porque pedira exoneração do meu cargo, que me incompatibilizara para o exercício profissional.
Não teve problemas, ajustou com Cícero Pinto o meu “estacionamento” no birô do rábula, que, entre a farmácia e as articulações políticas em Campestre, raramente comparecia ao escritório. Só algum tempo depois, pude adquirir o mobiliário que entulhava o escritório.

Éramos ideologicamente opositores. Ele, carimbado como “direitista” ou “reacionário” e eu, “esquerdista” ou pejorativamente taxado de “comuna”. Hamilton idolatrava Carlos Lacerda, a sua coragem e, sobretudo, os seus dotes de orador político combativo e contundente, temido pelos “esquerdinhas”.
Discutíamos muito nos saguões da Faculdade de Direito. Nessa questão, não transigíamos. Diria até que era nosso único foco de divergência, assumindo muitas vezes o caráter de uma contenda pessoal, já que em algumas ocasiões partíamos para as agressões do tipo “burro”, “medíocre”, “retrógrado”, “lacaio de Moscou”, “anticristo”, e por aí andavam nossos insultos,
Havia uma espécie de desalinhamento automático entre esquerdistas e direitistas: qualquer tese política ou cultural defendida por um, já contava com a oposição do outro. No entanto, quando fui candidato a vice-presidente do Diretório Acadêmico Amaro Cavalcanti, numa chapa considerada “de esquerda”, disse-me que votara comigo, em homenagem à nossa amizade. Mas não ficou assim “de graça” o enviesado apoio. Arrematou que avaliara mal – pensara que eu seria derrotado e fui eleito. Que lamentava ter sido “um inocente útil” a serviço dos “vermelhos”.
Preciso dizer mais?

Talvez. Falar do carinho e da reverência com que tratava o avô Cândido Pinto, um homem arrastado ao infortúnio que perdera a posição social e a abastança – fora interventor do município de Ceará-Mirim e participou do movimento “tenentista” - sobrevivendo como servidor subalterno de uma repartição pública na cidade de Goianinha.
Falar da importância que conferia ao alcoólatra e sifilítico Lourival, que havia prestado serviço aos americanos na época da guerra e falava inglês desembaraçada e fluentemente, língua que ambos cultivávamos e não perdíamos oportunidade de submetê-la à prova de fogo. Da partilha dos nossos parcos centavos para ajudá-lo nas suas necessidades de sobrevivência e, sabíamos, de sustentação do vício.
Do modo simples e respeitoso como sempre tratávamos os mais humildes, sem distinguir os amigos entre pobres e ricos, ilustres ou anônimos e da nossa arrogância frente à pompa e circunstância dos poderosos de então.
Do nosso afã de conhecimento, do saber, da busca da verdade onde quer que ela se encontrasse. Como éramos puros, meu Deus! Como éramos inocentes na crença de tantas quimeras!
Então, vieram os idos do mal do século e fomos forçados a vestir armaduras completas, inclusive com elmos que dissimulassem o nosso verdadeiro perfil, para que lográssemos sobreviver. Que pena! Tornamo-nos órfãos, sem a paternidade ou a tutela das nossas sadias e estimulantes ilusões.
Ao vencedor, as rapaduras ou os relatos lamuriosos das memórias.


PEDRO SIMÕES – Professor de Direito aposentado. Escritor e Advogado.

domingo, 6 de junho de 2010


FRANKLIN JORGE: ENTRE O NIILISMO E O ILUMINISMO

“O poeta faz-se vidente através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”. Rimbaud


Acostumei-me à convivência com as diferenças e os diferentes e a respeitá-los, embora me valha freqüentemente de uma frase recorrente: sou capaz de conviver com os anjos e não me converter, com os demônios e não me perverter.
Meu pai não “fazia a feira”; não guardava, controlava ou valorizava o dinheiro; não fumava, não bebia, não freqüentava os prostíbulos, não ia à missa; não exercia o poder patriarcal sobre os membros da sua pequena família; e era doce. Preferia ficar em casa, escrevendo, lendo ou “bolinando” os seus livros, pois tinha amor físico, também, pelos livros, como todo bibliófilo que se preze. E, para embaralhar ainda mais o juízo dos formadores de opinião, exercia a medicina como sacerdócio e não como negócio, e, suprema infâmia, o maior opróbio daquela época, entre os burgueses - era comunista.
Qual o conceito que dele faziam os seus contemporâneos interioranos, habitantes de uma cidade elitista, machista, senhorial e preconceituosa?
Um bom homem? Um ingênuo, um tolo, um “besta”? Um sonhador, um louco? Um papa-figo*, devorador de criancinhas? Um perigoso subversivo cujo exemplo já constituía uma ameaça aos “barões assinalados”?
Um dos seus “defeitos” tenho certeza que era do domínio público, porque os amigos mais afoitos me deram conhecimento: meu venerando pai seria “manobrado”por minha mãe, uma mulher pragmática, severa e matriarcal. A bem da verdade, ele não era. Apenas não aceitava as provocações, os convites às escaramuças quotidianas e as “recomendações” de minha mãe. Gostava da paz e da harmonia no seu reino. Evitava o confronto, mas, ao fim e ao cabo, fazia o que achava que devia ser feito.
Como julgá-lo – em qual contexto, sob quais paradigmas?
O ser humano habituou-se ao maniqueísmo e à dualidade. Não há meio-termo, nem ponderações. E geralmente pontificam os princípios e regras consagradas pelo poder dominante. Quando tratava de questões morais com os meus alunos do curso de direito, costumava dizer que a moral decorria dos valores assentes numa determinada sociedade e que estes defluiam dos juízos da classe dominante, mais que o consuetudinário.
Os parâmetros para o julgamento pessoal são fluídicos e mutantes, ao sabor das circunstâncias, conveniências e modulações conjunturais. Ortega Y Gasset sabia disso.
Como se constrói uma reputação? Como se cristaliza uma opinião? Como se formula um conceito pessoal?
Creio que é no terreiro da dialética, não necessariamente no pavimento da lógica. Os argumentos mais vigorosos (ou mais influentes) decidem qual juízo será adotado. Mas, quem desagrada ao conjunto dos formadores de opinião, certamente será desfavorecido na avaliação do seu caráter. As obras que, no meu julgamento pessoal, credenciam o avaliado, só têm serventia para meia dúzia de pessoas conscienciosas e firmes, que não se deixam converter, nem perverter-se.
O meu amigo Franklin Jorge é diferente. Até aí, nada a objetar. Ser diferente é distinto, como diz Arthur da Távola, de querer ser diferente. Num, as diferenças são genéticas, inatas; noutro, são produzidas, artificiais. Vai daí que o querer ser diferente, como a maquiagem, desfaz-se no primeiro mergulho em profundidade.
Franklin, na sua espontaneidade e impulsividade, aqui dadas como virtudes, embora temerárias, cometeu muitos erros de estratégia. Avaliou mal muitos cenários. Bateu de frente com jamantas e escavadeiras na construção do seu espaço. E vem pagando por isso. É que ele é movido a conflitos, só está no seu elemento quando a polêmica se inaugura. É conduta típica dos replicantes e dos combatentes que se sabem miúdos e sozinhos para as pelejas e querem crescer, igualar-se aos adversários-Golias, pela bravura e pela inteligência – pois estes são atributos que lhe sobejam - embora, desafortunadamente, não seja um estrategista, como já ficou registrado. Certamente não o atraiu a leitura do clássico de Sun Tzu, pragmático e intuitivo. Preferiu o racionalismo Maquiavélico.
O meu perfilado não é previsível, nem coerente, nem se deixa aliciar pela maioria dos valores assentes. É um ser de constituição volátil que se orienta segundo a sua própria natureza. Lembro-me de ouvi-lo dizer, certa vez, que ele mesmo era o seu maior e mais rico personagem. Ele se constrói, desconstrói-se e se reconstrói, segundo as circunstâncias e as suas próprias necessidades existenciais. E não se empenha na criação de tipos simpáticos, agradáveis ou amoldáveis ao gosto popular.
Que mal há nisso? Quem não se imagina personagem de seus próprios desvarios, delírios e sonhos, que atire a primeira pedra. Já testemunhei muitas “reencarnações” em vida, de gente que precisava superar suas limitações, erigir-se novo ser para conquistar a sua auto-estima e o respeito alheio. Já observei muitos “travestismos” insustentáveis, no entanto, mantidos em nome das conveniências: clowns aberrantes e outros nem tanto, mas grotescos e impróprios quais bailarinas desgraciosas, altas e gordas, metidas num saiote justo que não resiste a um “pas de deux” ou a um singelo minueto.
Por que não a construção de um personagem verossímil, plausível? Uma persona que expresse com fidedignidade o ego do inconformado? Uma bela máscara do carnaval veneziano ou, se a tal intensidade chegar a patologia do carente, o uso das máscaras rituais do teatro Kabuki japonês.
Não me surpreendo, nem questiono essas transfigurações, porque já recorri a elas, como todo ser mutante ou alguma vez desfigurado, para a minha própria completude. Não serei a mão que apedreja ou acusa. Que cada qual alimente a sua ilusão se isso o faz feliz.
Franklin Jorge tem inteligência muito acima da média provincial. É culto, segundo critérios de mensuração obtidos a partir da média dos muito bem informados. É um argumentador e polemista brilhante. Escreve de modo fluente, dialético, enxuto e limpo. Lê obsessivamente, mais do que escreve, donde silogisticamente se conclui que os seus textos têm alicerce e prumo. É festejado, tido e havido como um singular operador intelectual, além dos estreitos limites do nosso estado.
Quem sou eu, quem somos nós, portanto, para levá-lo à fogueira Inquisitorial? Até mesmo porque ele instituiu o seu próprio “Santo Ofício” – o nome do seu site.
Se essas singularidades o tornam “marginal” (aliás, uma categoria que o agrada, se pautada num contexto intelectual) ou “gauche”, ele, com certeza, encarnará uma das duas proscrições como substanciação do seu desafio.
Como observei no perfil de Manoel Onofre de Souza Júnior (“Um provável Manoel Onofre Júnior”) não se pode julgar seres diferenciados por parâmetros ordinários, comuns, aplicáveis à maioria das pessoas, sobretudo àquelas anônimas que engrossam os rebanhos e servem de antepasto à alcatéia?
Tal como meu pai e o amigo Manoel Onofre, a conduta excepcional reclama novos paradigmas, uma visão descontextualizada do óbvio e do senso comum. Se há um óbice de analistas credenciados para avaliá-los, paciência. Mas que não ponham numa vala comum, heróis e poltrões, gênios e medíocres, revolucionários e conservadores. Há que se particularizar. Há que se separar o joio do trigo, alhos de bugalhos. Lineares de complexos.
E é bobagem concluir-se, como o bovino ou o ruminante o fariam - se pensassem - que melhor é não julgar.
Ninguém se escusa ou é impermeável à formulação de juízos de valor. Quem assim se confessar, é hipócrita. Variável é a metodologia desses juízos: eles são manifestos ou endógenos. Mas ninguém escapa a esse processo, à tentação de alçar-se a Deus, enquanto dure. Creio que essa manifestação é o ponto alto da nossa maturidade intelectual e valioso instrumento de defesa da nossa sobrevivência existencial.
Convivi pouco tempo com Franklin.
Na década de oitenta, fundei e mantive uma editora alternativa, a “Nossa Editora”, que procurou viabilizar a edição de obras de reconhecido valor literário, mas sem apelo comercial e, portanto, sem condições de ser publicada. Criamos um sistema de financiamento em que o autor contribuía com a menor parte, a editora assumia outra parcela do risco e buscaria um patrocinador relacionado com o título publicado. Por exemplo: “A Face oculta de Severo”, revelações inéditas sobre o aeronauta, descritas por seu neto, Augusto Severo, foi parcialmente patrocinada por Paulo de Vasconcelos de Paula, ex-piloto e amante da aviação, à época diretor de Galvão Mesquita.
Pois bem. Certo dia, em meados dos anos oitenta, recebi a visita de Honório de Medeiros, que havia publicado a sua excelente “Investigação parcial acerca da solidão”, na nossa coleção Pretexto. Trazia consigo uma criatura que me parecia familiar. Vestia-se com esmero mas de modo casual, displicente, barba curta e bem tratada, cabelos anelados muito escuros, olhos muito vivos por trás de óculos de grossas lentes, um sorriso indeciso entre a arrogância e a simpatia.
“Esse é Franklin Jorge, de quem certamente você já ouviu falar”. Claro que tinha. Franklin mantinha, já à época, uma coluna no jornal Tribuna do Norte, onde polemizava com os intelectuais da província. Era muito jovem, avaliei naquela oportunidade, para tanta repercussão.
Posso dizer que o “adotei” por empatia. Sempre fui (e permaneço) um intuitivo. Gosto ou não gosto à primeira vista. E se não gostar não haverá uma segunda oportunidade para chegar ao meu bem querer.
Gostei do que “vi” naquele rapaz que julguei controvertido no meu julgamento “fisionomônico”: anjo e demônio habitando o mesmo espaço, em absoluta harmonia. Lembrei-me da reflexão de Saramago, segundo a qual virtudes e pecados teriam a mesma face e a mesma hierarquia. Cada um ocuparia o seu espaço na ausência do outro
Franklin, então, intuí, seria a fúria e a pacificação, segundo as circunstâncias. E já o vi assumindo ambas as faces.
Comigo sempre foi muito correto, excedendo-se nas atenções e favores. Levou-me um livro de Stella Leonardos, para que o editássemos e assim ingressássemos no circuito editorial nacional e ajudou-me na divulgação do meu modesto “O Homem que Assassinava Árvores”, colhendo depoimentos de Ascendino Leite, Nilo Pereira e Jorge Medauar, entre outros.
Integrou o nosso Conselho Editorial, mantendo-se fiel à avaliação isenta de cada livro, segundo o seu valor literário e não a sua simpatia ou antipatia pessoal. Publicou conosco o seu “Jornal de Bolso”, aceitando, a contragosto, a sofrível qualidade gráfica do livro, fruto da pobreza de recursos técnicos da editora.
Tornamo-nos amigos.
Dessa convivência não tenho porque oferecer qualquer reparo à sua conduta, ao contrário, sou grato pela correção, carinho e apoio que sempre recebi dele.
Gosto de gente afirmativa. Vomito, qual o Evangelho, os mornos. Em “Armando Holanda, o recurso extraordinário” afirmei que “Recebo com desconfiança a amizade dos seres gravados apenas pelas virtuosidades, sem defeitos, sem o condimento picante de algumas imperfeições que não os desconstroem, mas os singularizam e dão-lhes a feição humana perceptível, evidente, visível. Ao invés, os muito virtuosos se assemelham à lua ou aos icebergs – mantêm invisível uma das faces, ou a parte mais ofensiva de sua estrutura. Exatamente porque são ilegíveis por nós, míseros mortais, “indecodificáveis”, porque não há um paradigma humano.”
Mantenho o que disse. E estendo a Franklin o que disse sobre Armando.
Franklin é desgraçadamente humano, nas imperfeições e nas virtudes, e até nisso ele se supera, porque ninguém é mais imperfeito e tampouco o excede na virtuosidade. Ele tem o estigma de uma rebeldia com causa que o acompanhará até a morte, malgrado a repressão dos censores e dos oficiais da inquisição.
Ele é Baudelaire e Rimbaud, Wilde/Dorian Gray, Lúcifer e Gabriel, Buda e Padre Cícero, Gide e Campos de Carvalho, Agripino Grieco e Alceu de Amoroso Lima. Herói e bandido. Humano, miseravelmente humano. Talvez essa condição o constranja, porque o vulnerabiliza. Eis porque, vez por outra enquista-se no poder de afirmar-se através das palavras., como mecanismo de defesa prévia ou de resposta contraditória.
Porque conhece, como Carlos Heitor Cony, a arte de falar mal. É elegante, culto, hábil caricaturista e preciso até mesmo quando reduz seus desafetos à menor porção intelectual.
Pinço, ao acaso, um dos seus esboços caricatos em “Um dia em Nascença”, da série “O céu de Ceará-Mirim”, referindo-se a um desafeto: “Prejudica-o um certo boato malvado, segundo o qual, sob o condomínio de suas sebentas axilas, mora uma sociedade de alegres gambás.”
No contexto da mesma crônica, chega ao enlevo e à virtuosidade, à elegância e ao refinamento, numa “boutade” poética: “Marize desce lentamente a encosta em direção ao lago de Nascença, a que se deve certamente o nome deste lugar paradisíaco. Procura um outono, uma margem, uma nave, um ombro. O homem que ela tocar deixará de ser homem. Será flor, trilho, estrada, anjo”. Imagino que trate da notável poeta Marise de Castro, a quem louvo pela notável tessitura poética.
Por essa e outras manifestações literárias aparentemente controvertidas, tenho-o como um performático da palavra escrita, um saltimbanco que conduzisse solilóquios com maestria, que se servisse das palavras com arte e sentimento mas com certo prazer lúdico.
Algumas vezes ele agride aparentemente sem causa. É a unhada desmotivada do gato, só para lembrar que tem garras, não é indefeso.
Lembro-me de algumas “unhadas” e igual número de revisões de conceitos que fez.
Aludindo à qualidade literária um festejado prosador potiguar: “Ele é muito esperto com as palavras”.
No entanto, revendo uma posição visceralmente ofensiva em relação à poética de outro conterrâneo: “A poesia dele tem um timbre hispânico, lembra-me a de Machado”.
A respeito de um pretensioso e laureado “escritor de plaquetes” (sua classificação já o penaliza): “Há nele um vazio tão grande que autoriza qualquer pessoa ocupar o seu lugar, sem por em risco o princípio da lei física. Ele é inexistente intelectualmente”
Depondo sobre outro pretensioso, igualmente superficial: “É um mero leitor de orelhas de livros.”
E vai por aí, distribuindo farpas e beijos.
Passional? Um cigano andaluz, um Otelo atormentado pelo ciúme de Desdêmona, ou o conjunto das Fúrias se fossem xifópagas: Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Interminável).
Arrogante? A postura do toureiro, empunhando apenas as banderillas, diante do touro mais medonho.
Ousado? Um Davi que não avalia a massa física dos Golias e aceita o bom combate.
Vaidoso? Superlativamente!
Mas, nesse mundo literário de louvaminhas e exibições ególatras, quem não o é?
Estou certo de que a maior contribuição de Franklin Jorge à cultura norte-rio-grandense, à parte a sua própria produção literária, foi a inusitada prática sistemática do dissenso. A cultura da oposição – um emergente niilismo. A réplica constante e sistemática rompe a blindagem do conformismo imobilista. Ao menos, a dúvida, como no dizer de Ferreira Gular: “nada vos sovino, com a minha incerteza vos ilumino”.
Quem se insurge contra o establishment, abre as fronteiras da vanguarda, ou, no mínimo, estabelece o pré-questionamento das ideologias assentes. O pensamento moderno se potencializa na liça dialética, nunca no campo do consensualismo. A democracia é fruto do dissenso, ao revés, as doutrinas autoritárias se desenvolvem à sombra do consenso, espontâneo, induzido pela massificação propagandística, ou compulsório, através da ditadura da láurea unanimista.
De mais a mais, o pensamento estandardizado, convergente, unânime, cristaliza-se. Envelhece. Esclerosa-se. Não há meio termo. O passadismo é referência muito importante para a formação de uma ideologia cultural, mas não é o seu vetor, nem diretriz única. Há de se auscultar as tendências, experimentar, antever o futuro para se instaurar o novo, quando menos para sopesar a resistência da ideologia cultural sedimentada.
Por isso fica evidenciada, à simples leitura desse texto, a relevância de Franklin Jorge para a cultura contemporânea do Rio Grande do Norte. Senão, observe-se que a proposta inicial dessa escritura era apenas e tão somente apresentar um esboço (porque tudo que se lhe apresente como definitivo é superado em razão da sua contínua mutação) do nosso perfilado e aceitar a provocação dos seus desafetos, apresentando-o como ele é, de modo isento, singular, sem o alvo do preconceito.
De repente, fui compelido a sair do pessoal para o contextual com o qual ele se confunde. Meu amigo é uma individualidade que se institucionalizou, porque reúne em si mesmo um conjunto de idéias que se Franklinizaram, constituindo uma escola, ou uma tendência.
E não me digam que há exagero ou destemperança nas observações. Ou parcialidade. Ou superestimação. Vali-me da “lógica do razoável”, firmado em “leituras” públicas sobre o perfilado, em fatos e fundamentos, para firmar conclusões. É possível que, de repente, haja-me deparado com algumas “verdades” particulares, mas não foi esse o meu norte.
Ademais, fio-me na sabedoria oriental, que costuma dizer que não se atiram pedras em árvores que não dão frutos.
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Pedro Simões Neto – Professor de Direito aposentado. Escritor. Advogado.



AMÉRICA FUTEBOL CLUBE (complementando a sua história)

Carlos Roberto de Miranda Gomes – Membro do IHGRN e UBE/RN



Graças à generosidade dos amigos Manuel Fagundes e Jairo Procópio, tive acesso aos documentos referentes à compra do terreno onde o América Futebol Clube ergueu a sua sede, pesquisa realizada em 2006.

O propósito dessa tarefa foi decorrente de publicamente constar que dito imóvel da Rodrigues Alves nº 950, bairro do Tirol, naquele tempo considerado como do Quarteirão da Av. Campos Sales, bairro de Cidade Nova, teria sido doação do meu pai, José Gomes da Costa, que foi presidente da agremiação em dois períodos, iniciados, respectivamente, em 08 de abril de 1929 e 10 de maio de 1939, conforme inúmeros artigos e livros sobre o fato e que haveria uma cláusula que impediria a sua alienação, exatamente no período da aquisição do imóvel.

A verdade, no entanto, pode ser atestada pelos documentos legais registrados, que consta ter sido dito terreno adquirido ao Governo do Rio Grande do Norte pela quantia de nove contos de réis, conforme autorização feita pelo Ofício 368, datado de 21 de maio de 1929, expedido pelo Palácio da Presidência, tendo sido objeto de escritura pública lavrada no livro 134, fls. 36 a 38, em 02 de junho daquele ano, no Cartório de Notas do tabelião Miguel Leandro, hoje pertencente ao acervo do 1º Ofício de Notas desta Capital, com a escritura assinada, em nome do América, pelo Tenente Júlio Perouse Pontes, Vice-Presidente, em exercício, e pelo Governo do Estado o Procurador Fiscal do Departamento da Fazenda e do Tesouro Doutor Bellarmino Lemos, objeto da Carta de Aforamento nº 429, da Municipalidade de Natal, medindo uma área de 15.100 m2.

Como testemunhas assinaram Orestes Silva e Omar Lopes Cardoso, perante o escrivão substituto Crispim Leandro, tendo sido efetuado o pagamento em moeda corrente e o Imposto de Transmissão pago em 26 de junho de 1929 ao Dr. Aldo Fernandes, Administrador e Sr. F. Pignataro, Tesoureiro, sendo registrado no Livro “3-C”, de Transcrição das Transmissões, sob o nº 24, fl. 61v. s 62, presentemente do acervo do 3º Ofício de Notas, com o nº de matrícula 828.

Com estes registros, podemos concluir que são verdadeiros os relatos de Luiz G.M. Bezerra, no artigo do jornal “O Potiguar” nº 42 (março/abril/2005) de que o terreno fora adquirido com a ajuda de abnegados como Orestes Silva, José Gomes da Costa e Júlio Perouse Pontes e outros, sendo acrescido o nome de Omar Lopes Cardoso no livro de Everaldo Lopes “Da bola de pito ao apito Final”, p. 40, embora tenha omitido o do meu pai José Gomes da Costa.

O referido jornalista, na página 42 de sua obra, afirma que “o clube nunca promoveu qualquer solenidade destinada a dar nome a sua praça de esportes”. Contudo, devo lembrar que o América homenageou os seus associados como beneméritos e inaugurou duas quadras de tênis, ao lado da sede velha da Rua Maxaranguape, com os nomes de José Gomes da Costa e Orestes Silva, onde hoje está construído um edifício.

Dois esclarecimentos necessários – mesmo não existindo registro de cláusula proibitiva da alienação, a legislação daquele tempo, como acontecia em outros Estados, devia conter determinação de vedação de modificação do objeto do negócio jurídico, uma vez que bens de propriedade pública só poderiam ser alienados com autorização legislativa e para um fim específico, no caso do América, para um fim social. Hoje a situação permanece, mas a alienação só pode acontecer através de concorrência pública. Ainda não localizei tal legislação daquele tempo.

Por derradeiro, o fato da “doação” realmente aconteceu, não por ato cartorário, mas quando os abnegados americanos perdoaram a dívida ao América, destruindo as promissórias que garantiam o dinheiro emprestado para a aquisição do terreno. Vale adiantar, que não existe nos registros pesquisados nenhuma cláusula restritiva à alienação daquele imóvel, como se pensava, daí o fato de parte dele ter sido negociada, outra parte onerada, o que nos leva a interpretar como ‘um triste fim!’








Escrito por Carlos Gomes às 15h49
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“AGORA LÁBIOS MEUS DIZEI E ANUNCIAI”
INÁCIO MAGALHÃES DE SENA



Agora, lábios meus, / dizei e anunciai
os grandes louvores / da Virgem, Mãe de Deus.
Sede em meu favor, / Virgem soberana;
livrai-me do inimigo / com o vosso valor.
(Ofício da Imaculada Coceição)

Minha memória urbana do Ceará-Mirim dos anos cinqüenta limitava-se ao lá-em-cima e ao lá-embaixo. A cidade tomara as encostas de uma elevação que deve ter conhecido o seu momento de glória, antes que os fundadores da cidade a ocupassem. Mas à época era uma gangorra com algumas plataformas para descanso.
Vivíamos literalmente pendurados. As nossas casas, mesmo aterradas e aprumadas, eram equilibristas num plano inclinado. Toda vez que recorríamos à porta de entrada, a ladeira nos apresentava o instável equilíbrio da nossa engenharia.
Da Rua Grande até a praça do mercado, as ruas que apontavam para Várzea de Dentro e Capela, eram planas. Cortavam transversalmente a subida para o Patu e adjacências. Era como um descanso, uma pausa para o fôlego.
Na minha imaginação esse fato deve ter contribuído para a índole cultural do cearamirinense. Tanto que, quando perguntado para onde ia, o itinerante respondia invariavelmente: vou subir (ou descer) – nunca dizia o seu destino real. E também por isso, o andar dos nativos traía uma certa cautela, situando-se entre o esforçado e o cuidadoso.
E as casas se assemelhavam a navios num mar onduloso.
Identificávamos quem não era da cidade, porque estes andavam como escravos alforriados ou gente acanalhada, sem peias, livres das correntes, pernas abertas, debochados.
Até hoje guardo essa característica andarilha. Quando fui estudar no Marista meus colegas me diziam que eu andava como se estivesse “com medo de peido”.
Hoje, a cidade, que nem uma ave, aninhou-se no planalto. Esticou as asas no sentido da antiga mata da usina e da “terra da santa”. Os cristãos-novos, habitantes do Ceará-Mirim do altiplano, são mais afoitos e incorporaram aos pés uma “galocha” motorizada – o automóvel. Mas os antigos ainda conservam a mesma andadura.
Talvez o lá-em-cima e o correspondente lá-embaixo da época referida tenha marcado a minha geração como uma fatalidade, porque não havia alternativa senão caminhar, vencer a distância e o esforço com os próprios pés. Não fossem os caminhões das usinas, proibidos de dar carona na cidade (mas liberados para o transporte de passageiros no trajeto de volta), um ou outro caminhão, sempre comprometido com o transporte de cargas – o “misto” de Fernando Farias, na rota de Coqueiros, o caminhão de Chico Horácio e sua buzina de oito baixos, os velhos caminhões de Luiz Murat, para transporte de cal, de José Paiva e de José Mendes – restavam as camionetas de Manoel Pereira, Herbert Dantas (Betinho), José Bonifácio, Valdemar de Sá e Euclides Cavalcanti, o “land rover” de Vital Correia, e os jipes das usinas, que eu me lembre.
Por isso, o trabalho dos vendedores e feirantes era tão penoso.
José Soares, conhecido como “Zé Gago”, emérito saxofonista e orador do Náutico Esporte Clube, durante o dia conduzia o seu carrinho de sorvetes, anunciando o produto com aquele fon-fon das antigas buzinas de bicicletas; os vendedores de mugunzá (chá de burro), arroz doce, geléia com coco, cavaco chinês (anunciado com um triângulo usado nos grupos de baião), algodão doce, cocada, além do peso, andavam com maior cautela, um olho no conteúdo para não derrubá-lo, outro no possível freguês.
E os pregoeiros das feiras sabatinas e domingueiras?
A cantilena era entrecortada pelo esforço do trajeto lá-em-cima da feira, mas ainda assim animada. Roufenhos, uns que outros, esganiçados alguns. As mulheres se superavam, como estivessem numa disputa pela voz mais gritada. Essas nem se importavam com o peso dos taboleiros nas cabeças, sua atenção concentrava-se na potência da voz. (Mais impressionante que o pregão delas, só os gritos modulados pela língua das mulheres bérberes)
Quem não estava nem aí para o sobe-e-desce eram os orgulhosos proprietários dos carros de rolimãs, meninos grandes de calças curtas . Valia a pena descer embalado que nem o “cachorro da molesta”, mesmo pagando o preço da subida pesada.
Os mais afortunados, cavaleiros garbosos que nem Chico Campos e João Neto, (meus centauros redivivos), e os teimosos donos de burros, riam à toa. Embora os patriarcas cearamirinenses gostassem de ir a pés “fazer a feira”, orgulhosos, com cestas à mão. Essa era tarefa de homem. Era a oportunidade de disputar com as mulheres no que elas eram mestras – na arte de pechinchar.
Bicicleta só era usada por raríssimos heróis ou por quem transitava pelas planuras.
Até pedalar o velocípede era cansativo, mesmo para uma criança cheia de energia. Salvo se morasse numa das ruas de descanso, já referidas. Que nem eu, que morava em frente ao cinema de Jorge Moura, na então rua Pedro Correia, onde também moravam Chicó Pereira e Dona Alzira, Doutor Canindé Cavalcanti, Batu de Sá, Chico Leopoldino e onde ficava a “venda” de Chico Dantas. Era uma calçada só, de lá-de-casa até a casa de Jorge Moura.

É nesse ponto que particularizo um vendedor de confeitos, condutor de um tabuleiro pesado de madeira, sustentado aos ombros por uma tira de couro, que encantou a minha infância. Nós o chamávamos de “Melo” e não o conhecíamos por outro nome. Mais que um “baleiro” era uma criatura mágica, um ilusionista, um performático, para usar a linguagem moderna. Um ator consumado que encarnava com perfeição os personagens que caracterizava.
Eu o via sempre diante do cinema de Jorge Moura, nos dias de sessão, ou nas tardes preguiçosas do estio, sentado nos batentes da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Mas tinha notícia de que era “deus”, isto é, estava em toda parte, ofertando as suas guloseimas.
Era apaixonado por cinema, sobretudo pelos filmes de aventura – os seriados, principalmente. Assistia às projeções com muita atenção e às vezes ficava tão concentrado que nem percebia a rapinagem dos seus confeitos pelos acanalhados freqüentadores da “geral”.
Participava também das trocas de “Gibis” em frente ao cinema.
E assimilava os personagens, para no dia seguinte oferecer a sua interpretação. Fascinava-me a sua performance dos árabes, engrolando a voz em sons guturais que lembravam a algaravia dos muezins muçulmanos.
Lembro-me que não poupava o velho Kalil, a quem chamava de “turco”, imitando-lhe o sotaque e relatando passagens cômicas do imigrante, como o célebre episódio da viagem no “misto” para Natal, quando pedira aflito ao motorista: “Pára, pára camiona gue Kalila gué cag...”
Alto e magro, andava com calças e camisas folgadas e alpercatas – uma espécie de sandália de couro com tiras que a prendiam ao tornozelo e cobriam o peito do pé. Geralmente tinham o solado feito da borracha do pneu de carro,
Era uma figura singular: cabelos alourados e ralos, boca funda, nariz proeminente, a pele com marcas de bexiga e precocemente enrugada e uma maneira de falar que parecia “soprar” as palavras. Era rápido nas respostas e nas contra-ofensivas. Como era rico o seu imaginário, atingia o agressor no ponto mais vulnerável e do modo mais ferino e irrespondível. Era também um implacável “botador” de apelidos e um pilheriador, desses que tiram os inoportunos do sério.
Constava-me que era um excelente filho e ótimo irmão. Um “arrimo de família” que se esforçava para ajudar no sustento da casa. Descendia de uma ilustre linhagem que se arruinara financeiramente.
(Nos anos oitenta, fui visitá-lo em sua casa, na Cidade da Esperança, e me deparei com o seu minúsculo quarto repleto de livros apanhados no “sebo”. Disse-me que não mais os guardaria. Á medida em que fossem lidos, seriam doados. Mas, surpreendeu-me o fato de que dispusesse apenas de um único cômodo. Todo o resto da casa era serventia de seu irmão “Beto”, portador de uma patologia crônica).
Era devoto de Nossa Senhora da Conceição, não um simples devoto, mas um prosélito, um fiel, alguém que converte o dogma em uma prática, um hábito, que humaniza o divino para tê-lo mais perto de si. Nossa Senhora era como uma madrinha protetora que o protegia, pacificava e lhe dava esperança.
Meus pais, sobretudo o meu pai, o tinha como modelo de dedicação familiar e de inteligência. Se não mantive com ele uma relação de amizade mais estreita nessa época, é porque nos separava a diferença de idade. Ele deveria ter pelo menos seis anos a mais que eu. Quando o conheci era um menino de calças curtas e ele um adolescente maturado pelas responsabilidades.
Encontramo-nos muitos e muitos anos depois em Natal. Era funcionário dos Correios e conhecido pelo verdadeiro nome: Inácio Magalhães de Sena.
Então, tornara-se um ícone da cultura autodidata. Leitor compulsivo, adquirira fama de erudição e de crítico mordaz dos maus costumes e das más leituras.
Quando assumi a Pró-Reitoria de Extensão da UFRN, um grupo de amigos comuns me procurou para que pleiteasse do Reitor Diógenes da Cunha Lima o encaminhamento e as gestões junto aos Conselhos Superiores da Universidade, para que fosse reconhecido e declarado o “notório saber” de Inácio, e assim ele pudesse ser contratado como professor da instituição.
Lembro-me de Vicente Serejo, João Batista e Doutor Chiquinho, como líderes do movimento. Na oportunidade do encontro, a ilustre comitiva me presenteou com um excelente livro de Aldous Huxley, “A eminência parda”. Na dedicatória, havia uma insinuação de que haveria traços comuns entre o personagem-título e eu. Não entendi a semelhança até hoje, embora tenha a obra como texto recorrente e preito de gratidão desses amigos.
Engajei-me, pela justeza do pedido e por razões afetivas. Mas o pleito foi vencido pelo formalismo acadêmico vigente.
Depois, publiquei de sua lavra um delicioso livro: “Agora lábios meus dizei e anunciai”, com ilustrações de Iaperí Araújo. Quem mais poderia ilustrar o livro de Inácio senão o barroco-armorial-sertanejo Iaperí Araújo, o intérprete imagético das bestas-feras, do fabulário e do mítico nordestino? O lançamento foi um sucesso.
Perdemo-nos no turbilhão da vida, cada qual voltado para a sua Meca. Voltei a ter notícia dele através da minha irmã, Joventina que me transmitiu um seu recado: que eu mudasse o título do meu livro de memórias, provisoriamente intitulado “Memórias de um menino sem eira nem beira” sob argumento de que o título não condizia com o real – que eu , de fato, teria eira e beira. Mudei o título para “De quando tudo era azul”.
Inácio alforriou-se do sobe-e-desce da sua terra. Andou pela Oropa, França e Bahia, publicou mais um livro, o excelente “Memórias quase líricas de um ex-vendedor de cavaco- chinês”, continua pontificando no seu círculo intelectual e permanece com o brilho que sempre teve. Malgrado as minhas necessidades existenciais, ainda estou subindo e descendo as ladeiras da vida, com o mesmo andar “com medo de peido”.
Mas alenta-me poder declarar a minha amizade, intocada pelo distanciamento, e o meu orgulho em tê-lo como referência.
Vejo um quase Quasímodo projetado no meu amigo. Um que tenha sido adaptado por Zé Limeira para um auto de devoção a Nossa Senhora inspirado nele. A ternura e a devoção por trás do invólucro tosco, mas não disforme. A bondade natural, espontânea, que não simplória. A cigana Esmeralda, reinventada, transfigurada em Nossa Senhora. O fascínio pelas catedrais. O recurso ao pátio dos milagres que o converteu numa transcendência inimaginável.
Um anjo-torto numa imagem barroca de pedra-sabão, porque, acima e além de qualquer classificação, ele é barroco. Um fora-de-época, não à frente do seu tempo, mas de mui remota e prisca era. Deslocado.
Se tivesse vivido ao tempo de Aleijadinho, sem sombra de dúvida o notável escultor o teria convidado para posar para a série de profetas. Ás vezes, quando olho para o meu amigo, vejo-o vestido com a túnica dos profetas hebreus, o chapéu ritual, as barbas enormes, como as imagens do artista mineiro e concluo que é esta a sua origem e este poderia ser o seu destino, se Deus o quisesse feliz, se ele não tivesse que continuar o seu aprendizado no sofrimento para destituir-se das impurezas humanas e ingressar pela porta da frente, puro e redimido, no Reino de Deus.
É tão verdadeiro o seu “carma”, que lhe foi cumulativamente roubado e negado os seus mais preciosos projetos de realizações pessoais: o prolongamento da vida da sua mãe e o ofício religioso. Mas, longe de se tornar um renegado ou um ímpio, voltou-se para a sua fé e se resignou com as decisões divinas, embora irresignado com a ordem das coisas temporais.
Poderia ser um beato sertanejo, mariano, aguerrido e ousado; um cavaleiro da Ordem de Cristo, templário, ou um escriba de monastério, mas sempre seria Inácio, uma individualidade indivisível, íntegra, que perdura há encarnações sucessivas. Transcendente.
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Pedro Simões Neto – Professor de Direito aposentado, Escritor e Advogado.

Bilhete de Bartolomeu Correia de Melo
Pedro:
Esse texto confirma, ao meu sentir, seus maiores dons literários – os mesmos de Proust,
Pedro Nava e Madalena Antunes: o sensível memorialista, o rico traçador de perfis e,
ainda mais, seu quase enrustido lado poético, faceta generosa, meio inusitada,
instigando bons pensares, semeando bons sonhares. Havendo partilhado
do mesmo tempo e lugar desses contares, gozo a gratissima sintonia de tais qualidades
evoladas dos seus escritos. Por vezes, não nego, tanto me ferem as saudades
que a vontade de chorar vence a de voltar.
Ninguém faria ao nosso Inácio maior preito nem melhor canção.
Bartolomeu

Escrito por Carlos Gomes às 09h55
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04/06/2010


JURACY *
Adelle de Oliveira



Há nos teus olhos de infinita graça

Todo um poema de ideal candura,

Esse enleio sutil da criatura

Que abre as asas ao sonho e alto esvoaça.



Neles tu’alma docemente passa,

Embalada de leve, à tona escura

Quantas vezes emerge da ternura,

Ou à névoa do pranto se adelgaça.



Grandes, formosos, negros, sonhadores,

Teus olhos tanto brilham de esperança

Como se ofuscam à menor das dores.



É que em tu’alma plena de inocência,

Notam-se ainda anelos de criança

No esplendor lirial da adolescência.



*JURACY, sobrinha da poeta Adelle de Oliveira, nasceu em Ceará – Mirim no dia 02 de junho de 1908 e faleceu em Natal em 05 de junho de 1983. Foi casada com o médico José Tavares da Silva e mãe de Ciro José Tavares. Quem a conheceu jamais esquecerá.

(gentileza de CIRO TAVARES, poeta e advogado residente em Basília-DF)

domingo, 23 de maio de 2010

UM PROVÁVEL MANOEL ONOFRE JÚNIOR


UM PROVÁVEL MANOEL ONOFRE JÚNIOR

Afaste-se a escuridão que eu estou chegando com a aurora

Tenho para mim que um homem se constrói com migalhas de si mesmo, fragmentos de espelhos auto-reflexos, fotos amarelecidas, cheiros, sons, cores, mas, sobretudo, alicerçado pelo conjunto de sua obra, seja ela qual for.
O perfil que é agora revelado, trata de uma personalidade hermética, que aparentemente é identificada como um espécime fora do comum, porque não é possível catalogá-lo entre aqueles reconhecidos como padrões. Em tal circunstância, os parâmetros de avaliação tendem a não alcançá-lo e, diante de tal circunstância, o analisado ficaria à mercê do humor e do juízo do analista.
Por isso, prefiro tratá-lo como personagem, construí-lo, qual Stanislawski, pelo menos nos traços marcantes da sua personalidade, conduzindo com liberdade os meus registros, muito próximos da verdade, verossímeis.

ECCE HOMO
Eu o via passar pelos corredores do Atheneu dos anos sessenta. A sua figura, grave, taciturna e um tanto solene me chamava atenção. Caminhava pesado, como se tivesse dificuldade em se deslocar. Depois observei que o andar fazia parte de um sistema unitário interdependente que o articulava na sua vida de relações.
Sempre busquei estereótipos literários para os seres humanos que destaco como singulares. Então, o pus entre Judas, o obscuro, um figurativamente Quixote aculturado, e um personagem Machadiano ainda inédito, mas com o molde, o caráter e a roupagem típica do universo literário do escritor carioca.
Sua fisionomia lembrava-me a de um totem pré-colombiano – madeira recortada a golpes rudes, o nariz arqueado, a cabeça entre o redondo do “cocoruto” e o oval pronunciado pelo queixo, bem talhado, retangular, sugerindo firmeza. O olhar distante, a boca grande com os lábios separados por uma nesga decotada muito estreita.
Os cabelos encaracolados resistiam ao pente. Os óculos pesados potencializavam a expressão míope. Às vezes transparecia os lábios crispados. Talvez o sal preso da palavra lhe amargasse tanto e, malgrado o incômodo, não ousasse cuspi-lo.
Estava sempre bem vestido, roupas conservadoras bem assentadas, a camisa por fora das calças e vez por outra concedia-se a um desfrute comum à nossa geração: os sapatos sem meias.
O conjunto me transmitia seriedade, compostura, reserva, integridade e timidez. Percebia nele um ser humano naturalmente honesto, sem a afetação dos que acreditam que esse predicado é uma virtude pouco encontradiça e que, portanto, merece um tratamento reverencial. Mas intui, também, uma criatura contida, disciplinada, submetida a auto-controle. Conclui que se essa criatura não buscasse a própria censura, se não se reprimisse, daria vazão a algumas verdades incômodas, e por isso mesmo impróprias de serem ditas porque politicamente incorretas. Daí o sal preso e o ricto da boca crispada.
Verifiquei, depois de algum tempo, que o meu personagem não era intolerante ou preconceituoso, sequer poderia enquadrá-lo na categoria de donatário de verdades absolutas, mas alguém inconformado com o desvio das condutas franqueadas pelo senso comum por outras, transgressoras, em prejuízo de direitos de terceiros ou da harmonia social.
Devia sentir-se como estrangeiro em seu próprio país, submetido, convenientemente, à lei da mordaça. Eis porque a armadura da timidez, autêntica, todavia estrategicamente utilizada como disfarce, dissimulando a firmeza de princípios, a inteireza de caráter, represando a vontade afirmativamente inconveniente. (Lembrei-me, bem a propósito, de Pessoa: O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, dor que deveras sente)
Como num jogo de sombras chinesas, ou no enigma de Pirandello, assim é, se lhes parece.
Ele sabia-se, mas deixava que os “outros” se valessem da metáfora da poeta Cecília das Gerais buscando as suas imagens num espelho que tudo reflete menos a verdade. Um jogo de esconde-esconde. Um personagem à procura de um autor.
Alguns anos depois, nos tornamos colegas e estudamos juntos durante cinco anos na velha Faculdade de Direito da Ribeira.
Logo depois que nos relacionamos, adquiri uma sua composição a aquarela, dentre outras que ele levou à exposição: a cena de um enterro interiorano em que o defunto era conduzido numa rede. Agradou-me a escolha do tema, o colorismo, o molde popular, mas sobretudo a fidelidade aos arquétipos regionais, opção pouco usual na elite intelectual de então.
EM CARNE E OSSO

Estou esboçando, em traços rápidos e econômicos, o perfil do meu amigo Manoel Onofre de Souza Júnior, Desembargador aposentado, Escritor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, da União Brasileira de Escritores, diplomado como personalidade cultural pela União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Câmara Cascudo, em 1975, com o livro “Estudos Norte-rio-grandenses” e autor de mais de vinte livros que depõem sobre o seu amor à sua terra e à terra dos nossos mais remotos ancestrais.
Foi jornalista da Tribuna do Norte, Professor de História do Brasil, na Escola Alberto Maranhão e no Colégio Winston Churchill, e de História Política e Administrativa do Brasil, na então Faculdade de Sociologia e Política de Natal.
Ingressou na magistratura em 1970, sendo Juiz de Direito das comarcas de São Bento do Norte, Taipu, Pau dos Ferros, Martins, Mossoró e Natal. Dezenove anos depois, foi promovido, por merecimento, ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado, e, nesta condição, exerceu as funções de Corregedor da Justiça e membro do Conselho da Magistratura, aposentando-se em 1992.
Desde então, tem-se dedicado todas as horas do dia, ao seu verdadeiro ofício e vocação de escritor
Entretanto, não é dos seus belos livros que quero tratar agora , mas do próprio autor, que se revela riquissimo personagem, pela singularidade da sua personalidade e pelo conjunto de sua obra existencial e literária. Ora é revelado pela arte que imita a vida, ora pela vida que imita a arte.
O meu nobre amigo é filho e neto de juízes. O avô, Desembargador João Vicente da Costa, foi nosso professor de Teoria Geral do Estado, no primeiro ano de direito. Senhor de uma notória erudição e quase litúrgica devoção ao direito, no entanto, a idade já avançada nos sonegou os benefícios da sua sapiência. Falava com um fio de voz, quase imperceptível para a maioria da turma. Usava chapéu de massa, paletó e gravata e a impertinente calvície era acentuada por uns poucos fios de cabelo rebeldes e longos. Os olhos, no entanto, eram vivos e penetrantes, denunciando uma energia subjacente inimaginada.
Descende de duas ilustres famílias – Onofre e Costa – cujas origens se perdem nos confins da Ibéria e se encontram nos registros da história do nosso estado.
Mas, creio nele quando se confessa “beiradeiro”. É de fato um menino crescido no interior, um serrano de Martins, terra que carrega para onde vai, como confessa em “O Caçador de Jandaíras”.
Talvez a alma serrana/beiradeira se some à sua timidez, ou seja parte dela, fazendo-o como é. Mas, permito-me discordar dele, quando, comentando declaração do sergipano Gilberto Amado, segundo a qual teria pena de quem não foi menino de engenho, afirmou que substituiria o “menino de engenho” pelo “menino serrano”. Eu substituiria o “menino serrano” por “menino do interior” – o menino beiradeiro.

A OBRA

Onofre, no entanto, é denunciado na sua obra, exposto, abordável, claro, preciso, lógico, simples, direto. Os seus textos são de uma clareza Natalense, abrem-se como girassóis, oferecem-se como pequenos guias informais dos sítios turísticos, à cumplicidade da aventura da descoberta.
São, sobretudo, telas, aquarelas que não retratam a profundeza humana, nem se comprometem com transfigurações do real, antes, são relatos, observações, composições que não distorcem o cenário, acentuam-no, apenas. Econômico, como os americanos John dos Passos, John O´Hara e, uma certa fase de Hemingway, sobremodo na incrível proposta reducionista de “O homem e o mar”. Muito próximo do nosso Graciliano, seco, duro, mas não impermeável à emoção que não produz gratuitamente, mas ressalta do próprio cenário, emerge da temática. Mais tendente ao jornalístico, ao histórico e ao memorial que à ficção, embora “A Primeira feira de José” denuncie o grande contista que ele é.
É, sem dúvida, um colecionador de tipos, um “causeur”, que não precisa esforçar-se para criar, porque, parafraseando Van Gogh, todas as coisas estão ali, ao alcance da memória. A arte imitaria a vida.
O meu amigo, contrariando o lendário e o mítico, é solar. Habituado aos altiplanos, não sente a vertigem dos que habitam as planícies, quando expostos às grandes altitudes. Por isso não sofre do mal das alturas. Porque permanece no “Chão dos Simples”, fiel às suas origens, mesmo em Macchu Pichu, na Cordilheira dos Andes ou nos Alpes.
Não resisto ao clichê: é um Quixote de chapéu de couro, gibão e um cajado de jurema. Subindo e descendo a serra de Martins no lombo de um burro, em feliz algazarra, que nem os passarinhos acanalhados de Inácio Magalhães Sena em “Agora Lábios Meus Dizei e Anunciai”. Aqui e ali se abastece de frutinhas do mato, escuta um que outro passarinho cantador, rouba o mel das jandaíras, banha-se num riacho atrevido que pensa que é rio, deita-se à sombra de uma mangueira frondosa e bota olho gordo nos cajus vizinhos, vermelhas e grossas vírgulas ou cedilhas invertidas, aspira o cheiro das açucenas e das ervas embriagadas pela umidade
Enfim, mesmo de calças compridas e o cenho franzido e grave do adulto, carrega no ventre da memória nunca parido, o menino de Martins, desembestado nas abas da serra em direção ao sítio da tia Mariquinha. Mesmo que adote Portugal, Oropa, França e Bahia, é Martins que é embalada na mais alva e mais bem trançada rede armada no alpendre do seu afeto.

DEPOIMENTOS

Exercia o cargo de Secretário da Segurança Pública, nos idos de 1987, quando um agente de polícia, supostamente envolvido com o tráfico e consumo de drogas e respondendo a inquérito administrativo, entrou armado com metralhadora no prédio da Secretaria, submeteu um dos meus seguranças e ameaçou avançar sobre o meu gabinete.
O fato foi objeto de representação apresentada ao Tribunal de Justiça pelo então Procurador Geral da Justiça Edson Lucena, e distribuído a Manoel Onofre para relataório.
Certo dia, recebo uma ligação telefônica do meu amigo desembargador-relator.
Fez uma rápida introdução em que se confessava meu amigo e protestava pela fidelidade à amizade e foi direto ao assunto:
“Não aceitei a representação porque não está bem caracterizado o tipo (tentativa de homicídio). Infelizmente, tenho de decidir em conformidade com a lei, por mais que me tenha causado indignação o fato delituoso”.
É assim, o meu colega – não transige em questões de princípios.

De outra feita, apreciando um dos meus livros, disse que tinha boa qualidade literária, abro aspas “mas não era uma obra prima”. No prefácio da “Quinta dos Pirilampos” (ainda inédito) cita Rachel de Queiroz para concordar que “todo prefácio é uma excrescência”.

Fomos, ambos, candidatos a vice-presidente do Diretório Acadêmico Amaro Cavalcanti, da Faculdade de Direito. Ele, na chapa de Sílvio Procópio; eu, na de Jansen Leiros.
Jansen perdeu, mas eu fui eleito com o candidato a presidente adversário, Silvio Procópio.
Comentário de Onofre sobre a minha performance e singularíssima eleição: “Não é tanto que ele seja bom de urna, eu é que sou péssimo”.

É assim, espontâneo e verdadeiro esse querido amigo. Íntegro. Sólido. Autêntico. Coerente. Leal. Honesto. Poderia alguém aspirar mais? Tenho muito orgulho em tê-lo como amigo e colega.
Pensei até mesmo que todos os seus amigos poderiam incluir como referência curricular de louvor, dentre os títulos e honrarias que possuisse, a máxima chancela, uma espécie de comenda que predispusesse o agraciado à credibilidade pública: “Amigo de Manuel Onofre Júnior”. O título seria como um salvo conduto, um passaporte de tanta idoneidade que valesse até mesmo na portaria do céu, com a aquiescência de São Pedro.
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Pedro Simões Neto – Advogado. Professor de Direito aposentado. Escritor. “Amigo de Manoel Onofre Júnior”