sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

 O PERIGO ESTÁ NO TOM

 

Valério Mesquita

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Diante da vida comum em Natal, ninguém pode fugir ao hábito da ironia, da tendência do sarcasmo e da aversão a tudo que é medíocre, vulgar e chato. A primeira futilidade pública é o escandaloso delírio das torcidas do paupérrimo futebol potiguar, todas endiabradas e ensandecidas pelas ruas, fazendo vítimas inocentes e depredando patrimônios. Antigamente, as paixões populares assumiam o encanto e o canto da luta social, política, cívica, com formas e cores mais puras e emocionais. Agora, não. São meras caricaturas e badernagens para os boletins de ocorrência das delegacias de plantão.

É um tempo trágico e cômico, mais parecido com um castigo divino, recheado de assaltos, insegurança, onde a paz do coração foi substituída pela paz dos túmulos. Sobre todos esses vândalos caberia dizer que “o diabo não os desampare e Deus que nos ajude”.

Sabem que tudo na vida é relativo e passageiro. No futebol, na política, no comércio, na indústria, nas profissões liberais, “tudo o que sobe, cai”, já dizia Sandoval Quaresma olhando pra braguilha. O que vai bem, afinal? O trânsito em Natal? No Rio Grande do Norte já ultrapassa a casa de um milhão e meio de veículos. Semana passada, desabafei que a maioridade penal deveria descer para os 14 anos. Depois, li que alguns juristas são contrários até a queda para o patamar de 16 anos. Acham que tudo deve ficar como está. O problema é a educação dos jovens. No momento da entrevista esqueceram que essa prenda pedagógica se encontra falida há décadas. Na rede pública escolar aluno enxota professor da sala de aula, quando não depreda, agride ou mata.

O problema é que nesse tempo apocalíptico a humanidade se esqueceu do mais humilde e simples ensinamento: “amai-vos uns aos outros”. Tudo foi desviado para outro tipo de amor, estimulado pelo mais poderoso cartel de perdição e transtorno de conduta: as novelas, os filmes, a internet, enfim, só para apagar as letras de um livro chamado Bíblia. Porque o que Deus ensinou, a legislação mundana contrariou, profanou, modificou para gáudio de suas ambições, vaidades, corrupção e degenerescência. Droga, impunidade, violência, polícia prende e justiça solta, são coisas do homem que avacalham a cidadania e o gosto pela vida.

Não acredito que o mundo melhore. Certa vez, Barack Obama falando da tribuna da Casa Branca elogiou um jogador de basquetebol do seu país porque teve a coragem de assumir o seu homossexualismo. Será que os presidentes da Rússia, Alemanha, Brasil, China, ou os primeiros ministros da Inglaterra, Espanha, Portugal, etc., prestariam tal informação sobre qualquer pessoa, notável ou não, do respectivo país, como apologia ou um exemplo a ser seguido ou compreendido? Com tantos enfrentamentos da pandemia, péssimos políticos, terroristas, crise econômica, que hora a sua nação atravessa, não precisava, à guisa de colher simpatias, propagar a decisão emblemática do jovem atleta como modelo a ser inserido na rede de ensino infanto-juvenil estadunidense e para todo o planeta. O mundo vai mal. Estão melando tudo. O Brasil, dizem não ser um país sério. Que o diabo não ampare governantes assim e que Deus nos ajude.

Mas, o perigo está também no clima, na elevação das temperaturas, nas erupções repentinas dos vulcões, nas chuvas exageradas e contínuas, no abrasamento do solo, na sequidão dos rios amazônicos, tsunamis e até no ingresso de político, senador, deputado no templário maior da justiça no país!

(*) Escritor.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

 NÃO MAIS QUE DE REPENTE, O VERÃO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Lendo Chico Xavier, que orava a Deus para não perder o romantismo, mesmo sabendo que as rosas não falam, refleti sobre o verão que chegará breve, trazendo com ele os cajus, as acácias e os pau-d’arcos amarelos. Lembrei-me também de rever as crônicas sobre o tema escritas com brilho superior por Newton Navarro, Berilo Wanderley, Sanderson Negreiros, Diógenes da Cunha Lima, Luís Carlos Guimarães e Vicente Serejo. Todos, poetas e românticos que ao longo de suas vidas entenderam que a grandeza não consiste em receber elogios, mas em merecê-los por escreverem tão maravilhosamente.

A minha crônica não tem a beleza inaugural de uma manhã de ressurreição, da oração de uma criança, de uma prece de D. Heitor, de uma tarde contemplativa de uma janelinha aberta sobre a imensidão dos campos ou de uma doce e suave madrugada, deusa de todos os poetas. Ela tem o toque metálico do clarim do sentinela; o aviso do anunciante das manhãs e das noites e seus mistérios; do bom dia, boa noite, do guarda noturno e diurno das praças e jardins de Natal (se é que ainda existem); do sinal digitado do faroleiro pastorador de estrelas e de mares; tudo para saudar o advento das acácias, dos cajus, dos pau-d’arcos e de que a cidade se cobrirá, não mais do que de repente, de amarelo ouro.

Ano que vem, a política chegará e passará, juntamente com os seus gladiadores. Iremos remover, depois, os horríveis outdoors, fotos e fatos que sujaram a cidade. Recolheremos as bandeiras da guerra aos seus quartéis de origem e que venham servir de lençóis aos descamisados. É soada a hora de preparar Natal para a chegada triunfal dos cajus, das acácias e das flores dos pau-d’arcos.

Que os homens se desarmem de suas propostas solertes e ganhem as praias, levem os cajus e se bastem com o calor da estação e contemplem o mar aceso em lua do poeta Gilberto Avelino, para que possam entender os pontos cardeais da vida. O verão chegará e dezembro é tempo de sepultar as beligerâncias, as agitações da alma e do coração, como se o ano novo lhe fosse trazer as ilusões de um amor adolescente, o retorno das jovens tardes de domingo ou a nostalgia dos instantes antigos e perdidos de sua profundidade vital.

E que venha de repente o verão, mesmo que traga no ventre o filho incestuoso dos excessos. Deus nos compensará com a mágica contemplação das acácias, dos pau-d’arcos amarelos, róseos, como se multiplicasse o seu talento criador em mil Van Gogh, Rembrandt, Renoir e Picasso. Com o novo ano virão em 2024, mais crises, caos na saúde, violência, distúrbios laterais e colaterais, além da combustão espontânea no pensamento das massas, com os governos que se instalarão. E com eles as transformações genéticas nos seres humanos e desumanos. Ora, se a lua influencia as tendências do zodíaco. Nas longas esperas da estação do verão, com a canícula e o fogo do mundo, além das paixões radicais, a política que virá abrasará mais ainda os loucos e os lisos, vagando a esmo, sem jamais achar abrigo.

Já conclui que o sufrágio universal será a última etapa do dia do juízo. Ninguém joga mais com a ideia. A filosofia do político é o vento. Parte da premissa da honra ser uma palavra e na palavra conter vento. Às vezes, um faz parecer um santo, quando na verdade é o próprio diabo. Alimenta-se de arsênico. Nas crises e nas votações, se dá melhor com o traseiro da noite do que com a fronte da manhã. Daí, a Câmara ser uma fera e para domá-la emprega-se meios obscenos.

(*) Escritor

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

 

Solenidade da Imaculada Conceição 
Padre João Medeiros Filho 
O dogma da Imaculada Conceição proclama Maria isenta de todo e qualquer pecado em sua trajetória terrena. Essa verdade teológica exalta a natureza do ser humano, plasmado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26). A Virgem Santíssima representa a humanidade na pureza original de sua criação, revelando a vontade do Criador para os seus filhos. Nos albores da história, Ele desejou o ser humano capaz de difundir a verdade, praticar a justiça e fazer o Bem. Mas, esse plano fora rejeitado por Adão e Eva, que optaram pelo Mal, simbolizado na metáfora da serpente. A primeira mulher foi despojada dos bens sobrenaturais, gerando a morte. Entretanto, Maria concretizou o ideal concebido por Deus. A Virgem de Nazaré disse sim ao Onipotente, por isso teve o privilégio de conceber o Unigênito de Deus e trazer ao mundo a Vida. Maria foi a portadora da paz e salvação, vindas do Alto, enquanto a esposa de Adão causou tristeza, sofrimento e morte. No dia 08 de dezembro de 1854, o bem-aventurado Papa Pio IX proclamou, pela Bula “Ineffabilis Deus”, o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Por ele, os católicos deverão venerá-la como o templo santo e ilibado, onde Deus veio habitar. Exemplar único da humanidade, imune da culpa original e outras faltas, a Virgem recorda as origens de nosso ser, sem a rebeldia contra Deus. Este quis mostrar em Maria a criatura perfeita, nela oferecendo um modelo de vida. A Conceição Imaculada da Mãe Celestial é decorrência da plenitude da graça divina. Não há espaço para o Mal, onde o Altíssimo faz sua morada. A festa da Imaculada Conceição é também uma oportunidade de reflexão e convite à conversão. Quando dizemos não à Palavra Sagrada, afastando-nos de Deus e nos entregamos ao egoísmo e à iniquidade, assim nos despojamos de nossa filiação divina. Segundo o relato do Gênesis (Gn 2, 15s), Adão e Eva sentiram vergonha por estar despidos, após a desobediência ao Criador. Eles cobriram seus corpos, envergonhados de sua postura. Às vezes, também pretendemos nos esconder nas folhagens de nossas desculpas, escudos e subterfúgios para disfarçar nossa nudez diante do Onipotente. A busca desenfreada de dominação e prazer, a corrida desvairada pelas riquezas materiais são tentativas de ofuscar nossas ilusões e mentiras, entorpecer nossas consciências para não ouvir a voz do Senhor. Somos cada vez mais desafiados a escolher entre Deus e a serpente. Esta simboliza a impiedade, desobediência, arrogância, sede do ter e poder, que seduziram Eva e continuam assolando o mundo. Os cristãos são convidados a seguir o exemplo de Maria, tornando-se capazes de rejeitar os aliciadores dos tempos hodiernos. Eis uma escolha crucial em nossa vida. A devoção à Imaculada brotou cedo no solo fecundo da piedade popular. O Ofício de Nossa Senhora (compilado em 1670 pelo frade franciscano Bernardino de Bustis) é uma prova do culto e amor dos fiéis à Mãe dos homens, dádiva de Cristo no alto da Cruz. “Eis a tua Mãe” (Jo 19, 27). Antes da proclamação do dogma pela hierarquia eclesiástica, ele já era vivido pela fé dos católicos, na sensibilidade dos corações que desconhecem reflexões teológicas, mas percebem a ação amorosa do Pai Celeste. Nossa Senhora é a reconciliação de Deus com o ser humano. Nela foi recriada a humanidade, pensada com carinho na manhã primeira do universo. A teologia subsequente chama Nossa Senhora de Nova Eva, portadora da Vida. No ventre de Maria o Verbo se tornou carne como nós. Por isso, a celebração da Festa da Imaculada acontece durante o tempo litúrgico do Advento, quando se comemora o mistério da Encarnação de Cristo. A Virgem Santíssima foi a mulher escolhida para o Filho de Deus assumir nossa condição humana, sendo corredentora da humanidade. Maria é beleza divina presente na terra, riqueza celestial temporizada. Maravilha infinita acessível aos mortais, ternura sagrada estendida aos pecadores. Suprema misericórdia do Altíssimo revelada aos pequenos e imperfeitos, poesia do céu no prosaico dos homens. A Compadecida, segundo a belíssima expressão de Ariano Suassuna. “Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós."

 


A canção-hino “Praieira - Serenata do Pescador”, de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros, será festejada na próxima terça-feira (12 de dezembro), às 18h, no salão da Academia Norte rio-grandense de Letras. A entrada é gratuita e integra a programação do Natal em Natal.

Interpretada por diversos artistas do RN, e citada por Mário de Andrade em sua passagem por Natal, a canção-hino “Praieira - Serenata do Pescador”, de Othoniel Menezes e Eduardo Medeiros, completa 100 anos na próxima terça-feira, 12 de dezembro. Para marcar a data, será realizada, a partir das 18h, na Academia Norte rio-grandense de Letras, uma serenata com o grupo Choro do Caçuá e a cantora Dodora Cardoso, tendo a participação especial do mais antigo intérprete da obra, o cantor Paulo Tito. A programação integra o calendário do Natal em Natal, e conta com apoio da Prefeitura de Natal.

“Praieira” é considerada um dos símbolos do ciclo natalino da capital, quando era tradição abrir o mês de dezembro com as famosas serenatas pelas madrugadas da cidade. Foi inspirada na aventura de três pescadores que viajaram de Natal para o Rio de Janeiro de barco. Em 1923, o autor dos versos, o poeta, compositor de modinhas e acadêmico Othoniel Menezes (1895-1969) contratou o mestre de banda e seresteiro Eduardo Medeiros (1887-1961) para musicar o seu poema, que foi cantado pela primeira vez no mês de dezembro, como confirma o autor em um documento assinado em 1967.

“Considero a data a partir de quando ela foi apresentada musicalmente, e isso é confirmado pelo próprio autor”, explica a escritora, pesquisadora e acadêmica Leide Câmara, idealizadora do projeto. Um século se passou e a música que fala do “sussurro das ondas, do Potengi amado e dos amores saudosos”, continua sendo um hino afetivo da terra natalense. Depois de gravada, virou uma das canções mais tocadas nas serenatas a partir dos anos 1920.

A obra está presente no trabalho de diferentes gerações de artistas. Desde 1956, quando foi gravada em disco por Valdira Medeiros, passando por Trio Irakitan, Terezinha de Jesus, Glorinha Oliveira, Odaires, Paulo Tito, Ivanildo Sax de Ouro, De Coro e Alma, Marina Elali, Quarteto de Cordas da UFRN, Carlos Zens, Khrystal, Banda Independente da Ribeira, Valéria Oliveira e Antônio de Pádua, dentre outros. Virou frevo em carnavais, foi peça de concertos e em trilhas sonoras de documentários.

A serenata na ANRL está sendo organizada por Leide Câmara, que também é autora do livro "Dicionário da Música do Rio Grande do Norte”, obra de referência para pesquisadores do Brasil e exterior. Apaixonada pelo poema desde que chegou a Natal, Leide já produziu a gravação de um álbum com diversos intérpretes, e livro sobre a obra.

SERVIÇO
Centenário de “Praieira - Serenata do Pescador”
Dia 12 de dezembro, 18h, na Academia de Letras, rua Mipibu, 433, Petrópolis
Apresentações do Grupo Choro do Caçuá, Dodora Cardoso e
part. de Paulo Tito.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

 ONDE ESTÃO OS DISCOS VOADORES?


Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

O oculto está à nossa volta. O mistério circunda as nossas vidas.
Quando Jesus virá novamente? Quero trazer sempre à memória aquilo que me
dá esperança. Por isso, creio no invisível para não me suicidar no palpável. O
visível encerra vícios redibitórios. Mas, também, sem ser ufólogo, preocupo-me
com os extraterrestres que sobrevoaram o mundo tantas vezes e hoje, em que
galáxia se escondem? Desde o início do século vinte, ocorrências de objetos
voadores não identificados foram manchetes de jornais em todo o mundo.
Avistados por milhares de pessoas, fotografados, filmados, televisionados e até
restos de naves foram recolhidas para exame, sem explicações satisfatórias até
agora.

Observador atento dos canais de televisão nacionais e internacionais
e dos jornais, nunca mais tomei conhecimento de nenhuma aparição luminosa
nos céus que me devolvesse a curiosidade cientifica ou a percepção da
existência de seres interplanetários, como aprendi na meninice com “Flash
Gordon”. Outros, impressionados, chegaram a indagar: “Seriam os deuses
astronautas?” A terra, pelos seus governos, preocupou-se bastante, por décadas,
com os recados dos céus. Mas, surpreendente e inimaginável é o fato dos discos
voadores não aparecerem mais no firmamento. “Não há mais registros, nem
aqui, nem alhures”, como dizia o saudoso amigo e jornalista Paulo Macedo.
O sentimento atávico do homem pelo sobrenatural não é apenas
bíblico. Remonta às civilizações pagãs que procuravam ler e decifrar o que se
achava escrito nas mais remotas estrelas. Os astrólogos, os poetas, os feiticeiros,
todos, usaram as sombras, os símbolos e os fantasmas do espaço infinito como
veículos cambiantes de suas crenças. E como eram líricas as circunvoluções dos
discos a ponto de me induzir a voar com os marcianos (planeta Marte), de onde

achávamos provenientes. A chegada do homem à lua, vaga, vazia e vadia, muito
me decepcionou. Tornou-se um celeste santuário mórbido, seduzido e
abandonado.

Onde estão os objetos voadores não identificados? Por que não se
comenta mais sobre eles? Não posso crer que tudo foi uma farsa. Ilusão, obra
inventiva do homem. Que doce e sedutor enigma não vestiu os dias e as noites
do mundo no século vinte! Resta-me indagar sobre o silêncio, a invisibilidade, o
desaparecimento e o mistério que ficou de tudo isso. Persiste algo oculto por
acontecer? Continuamos sozinhos no universo? O ser humano não pode viver
sem mistério, sem verdade de fé inacessível à razão.

“Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter. Como todo dia nasce,
novo em cada amanhecer!**”, diz uma bela canção popular. Os ovnis nos,
legaram o prazer emocional da lenda alcançando o fato. Porisso acho que essas
aparições vão viver em nós para sempre. Esse baú de histórias que a imprensa
mundial divulgou, após a segunda guerra mundial, principalmente, cravou em
nós uma soma enorme de medos. Ainda vou esperar o desfecho. Não deixarei de
preservar a perene novidade celestial dos discos voadores, porque tudo o que
começa, tem que terminar. Viva a ufologia! Pode ser um começo do Apocalipse.
Rússia, Ucrânia, Europa, China, Coréia do Norte, Estados Unidos, etc., cada um
tem a sua ufologia, Ou não?

Lembre-se que o drone não tem extraterrestre dentro. Ele é
teleguiado. O outro brilha no espaço, velocidade espantosa, aparecendo e
sumindo, deixando mistério no ar: “de onde vem, o que quer e para onde vai?”

(*) Escritor.

(**) Composição: José Jorge, Márcio Moura,
Paulo Sérgio Valle, Rui Mauriti e Tavito.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

 

LONGE DO MAR, PERTO DO RIO

- Horácio Paiva *


Em minha viagem a Petrolina e Juazeiro, no alto sertão nordestino, fiz duas navegações: uma, no Rio São Francisco, o Velho Chico, generoso e amado, estendendo-a também ao lago de Sobradinho, um dos maiores lagos artificiais do Mundo; outra, num clássico da poesia norte-americana moderna, o poema “The road not taken” (“O caminho não percorrido”), do aclamado (também por mim) Robert Frost.

Na estrada da vida não raro topamos com a difícil escolha da direção a seguir, quando dois ou mais caminhos surgem à nossa frente e disputam a nossa decisão. Esse é o tema de Frost. O grande poeta ilustra esse impasse existencial pela escolha do caminho mais adequado, com a sua conclusão nesses versos finais, aqui numa tradução livre:

(...)

Dois caminhos divergiam num bosque, e eu,

Eu tomei aquele menos trilhado,

E isso tem feito toda a diferença.”


Poesia e profecia andam juntas... e ante a riqueza do florescente polo agrícola - que tem como maiores expressões demográficas os municípios de Petrolina e Juazeiro -, voltado sobretudo para a fruticultura, vê-se que a opção desse caminho, historicamente recente no semiárido, aqui adotada pelos investidores, foi acertada e fez toda a diferença na alta produtividade alcançada.

O cultivo da uva, por exemplo, que já gerou duas importantes vinícolas na Região, apresenta produção no impressionante patamar de duas safras anuais (potencialmente acrescido de mais meia safra), acima do dobro do alcançado no Sul do País, que registra apenas uma safra.

Mas esse caminho maravilhoso, recentemente trilhado, esteve, durante muito tempo, destinado às criações extensivas de gado, desde os tempos coloniais, quando a área litorânea era, por lei, destinada à agricultura, mais precisamente ao cultivo da cana de açúcar, haja vista que a coroa portuguesa, através de Carta Régia, de 1701, visando proteger e priorizar a atividade canavieira e seu notável sucesso econômico à época, proibira a criação de animais numa faixa de dez léguas da costa.

A história, a poesia, a fraternidade e o bem estar acompanharam-me nessa viagem de conhecimento e identificação. Sim, pois o Nordeste que está em nós é muito maior do que imaginamos, e a tradição nordestina é um baião de dois: amor e solidariedade.

E se o Nordeste é fraternidade, assim também se formou o nosso grupo de navegantes pela Inaraí Tour, sob o alegre almirantado de Carlinhos, nosso anfitrião de Natal, e que inclui, na conexão com Petrolina, Josué Pereira, simpático e arguto guia, também nordestino, natural de Conceição do Canindé, no bravo Piauí.

Petrolina, filha de Pernambuco, e Juazeiro, da Bahia, criadas juntas (Juazeiro apenas 30 anos mais velha que Petrolina), são irmãs que, ricas, ajudam a criar a família e as demais irmãs que as cercam (Casa Nova, Sobradinho, Curaçá, Lagoa Grande e outras), no mesmo passo e no mesmo polo que ilumina o vale do santo de nossos rios, São Francisco, pois se a chuva é escassa nestes sertões, não faltam em suas veias subterrâneas as milagrosas águas.

“O sertanejo é antes de tudo um forte!”, dissera Euclides da Cunha, ao descrever a sua resistência e bravura. E há tempos as carrancas, símbolos de sua audácia, espantaram os demônios da miséria!...

E agora, voltando a Frost e à profecia, teria o caminho influenciado o viajante? Teria, como na clássica oração ensinada pelo Mestre, o Reino vindo ao pecador? Pois foi o que me parece haver ocorrido, após ouvir o emocionado relato existencial do Sr. Didi (Valdemiro Rodrigues Gonçalves), técnico agrícola e dono da Fazenda Santa Isabel, pequeno mas próspero sítio de cultivo de uva, que brindou nossa chegada com um farto banquete de frutas, servido à sombra de um juazeiro, mas, sobretudo, com a luz de sua grande alma acolhedora!... Ali pulsava o coração do Nordeste!...

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(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.


terça-feira, 28 de novembro de 2023

 


 Escrever, terapia e mística 

Padre João Medeiros Filho 

Em determinados momentos, terapeutas e orientadores espirituais de diferentes matizes psicológicos ou religiosos aconselham pacientes e orientandos a registrar seus sentimentos. Nascem daí poemas, diários, romances, crônicas, autobiografias etc. Um dos propósitos é ajudar a lidar com emoções que assaltam a mente humana. Por vezes, escrever torna-se um instrumento de resistência diante de sofrimentos, que ultrapassam o suportável, ameaçam o equilíbrio psíquico e a continuidade da própria vida. Há milênios, Deus dissera ao profeta Jeremias: “Escreve num livro todas as palavras” (Jr 30, 2). Assim agiram pessoas, em meio ao horror do holocausto. Na escrita, encontraram um modo de continuar vivendo diante da dor e ameaça de morte iminente. Foi o caso de Edith Stein, convertida ao cristianismo e canonizada pela Igreja Católica. Há o exemplo da filósofa Simone Weil. Faleceu aos 34 anos, legando-nos uma obra de dezenove volumes, destacando-se “Attente de Dieu” (Espera de Deus). Inclui-se, dentre elas, Etty Hillesum, morta com apenas 29 anos, em Auschwitz. Deixou-nos três tomos de um diário e inúmeras cartas, as quais impressionam pela profundidade de suas manifestações místicas. Sua produção literária motivou a brilhante pesquisa de Michael Davide, intitulada “Etty, humanidade enraizada em Deus.” O Diário de Anne Frank foi leitura indicada em colégios religiosos, nas décadas de 1950 e 1960. Anne passou meses escondida no porão de um prédio, em Amsterdam. Durante esse tempo, escreveu suas memórias. Após sua morte em Bergen-Belsen, a obra foi reconhecida mundialmente como um hino de fé na humanidade diante das ingentes atrocidades perpetradas pelo nazismo. Escrever tem sido o caminho encontrado por muitos para lidar com o sofrimento e o luto. Assim aconteceu com Joan Didion, cuja saúde se fragilizava pela tristeza com a enfermidade de sua filha Quintana. Em seu livro O ano do pensamento mágico, pode-se encontrar reflexões sobre a limitação humana, a doença e a própria morte. Escrevendo, Joan encontrou forças para enfrentar a angústia, a tristeza, o luto e continuar vivendo. Assim conclui: “Sem a escrita, não teria sido possível a superação do infortúnio.” A escuta de si mesmo, colocada em textos, é algo que o homem pratica, há séculos e em várias circunstâncias. Autores de ficção projetam seus tormentos e inquietudes nos personagens por eles criados. Deste modo, exorcizam medos e ajudam os leitores a identificá-los, aprendendo a viver com eles. Em situações difíceis, escrever é a maneira que muitos encontram para resistir aos opressores e eventualmente vencêlos. O texto literário carrega a experiência da aflição e do desespero. Registra igualmente a esperança que conserva a vida, mesmo sob a espada inexorável da morte ou destruição. Belíssimos escritos são produzidos por autores em regimes de exceção, ditaduras, exílios, privação de liberdade. Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere emocionou seu defensor Sobral Pinto. Em circunstâncias análogas de prisão, pode-se citar Miguel de Cervantes com Dom Quixote, Oscar Wilde em “De profundis” etc. Isabel Allende, vendo sua filha em coma, afirmou: “O meticuloso exercício de escrever torna-se nossa salvação.” Quem decide redigir, mesmo sob a arrogância de outrem, reafirma a força da vida, que teima em acontecer sob a navalha da violência. O escrito produz algo que servirá de legado às gerações futuras. Importa gravar as próprias experiências e oferecê-las, como espaço no qual outros poderão refletir suas perplexidades e alegrias. Diante da efemeridade da existência, a escrita é terapêutica por ser algo que se fixa para não desaparecer. Nos casos mencionados, a morte ou o tempo interrompeu a vida, mas o texto faz reviver seus atores e autores. O livro não deixa perder na noite do tempo preciosas vivências e resistências. Com ele, outros aprenderão. A leitura será uma visita dolorosa ou aprazível, produzida por aqueles que viveram e narram os fatos. Poder-se-á evitar a repetição de tragédias e dramas. E até criar universos novos, em que a vida triunfe sobre a morte. Jeremias fez dos pergaminhos sua grande terapia, clamando ao Altíssimo: “Cura-me, Senhor, e ficarei curado. Salva-me, e serei salvo, porque Tu és a minha glória e meu refúgio” (Jr 17,14; 16).

domingo, 26 de novembro de 2023

 

Nossa Senhora da Apresentação

Padre João Medeiros Filho

No dia 21 de novembro, celebra-se a solenidade da Apresentação de Maria Santíssima no Templo por seus pais Joaquim e Ana. A Bíblia não relata tal acontecimento, chegado até nós por meio dos escritos apócrifos, como no Evangelho de Tiago. Este episódio da vida de Nossa Senhora despertou o interesse dos cristãos e de artistas plásticos, surgindo daí várias obras sobre o tema. A Igreja dos primeiros séculos ressaltava a figura e a missão da Corredentora. A tradição cristã e descobertas arqueológicas atestam que a Mãe Celestial era reverenciada na liturgia, desde os tempos apostólicos. O fato é registrado por desenhos e pinturas da Virgem de Nazaré, encontradas nas catacumbas romanas. Desde os primórdios do cristianismo, os fiéis veneravam a Mãe do Senhor. Em 62 A.D, junto com uma efígie de Cristo Bom Pastor, deparou-se com inscrições da Ave Maria, indicando que as primeiras comunidades cristãs rezavam essa prece. Daquela época, data um afresco da Virgem, descoberto na Catacumba de Santa Priscila, no qual Ela aparece amamentando o Menino Jesus. Em 451, foi localizada a imagem mais antiga da Mãe de Cristo, atribuída a São Lucas. Mostra Nossa Senhora com a Criança no colo.

No Oriente, a partir do século IV, desenvolveu-se a piedade mariana. Junto com a edificação de templos, iniciou-se o culto às imagens e aos títulos marianos. Desde então, os ícones em sua memória tornaram-se inspiração de talentosos mestres e presentes em muitos locais. Os fiéis guardavam-nos em suas residências e os monges nas celas. Os anacoretas acendiam velas diante deles. Eram levados às prisões para dar força e paz aos apenados. No Ocidente, desde o século VII, celebra-se a festa da Apresentação no dia 21 de novembro, rememorando o aniversário da dedicação da Basílica de Santa Maria, no ano de 543, em Jerusalém. Entretanto, a festa foi oficialmente criada por Gregório XI, em 1372. Em Avignon, os sumos pontífices já celebravam a missa solene da festividade. No Brasil, segundo Frei Agostinho da Beata Virgo, citado por Luís da Câmara Cascudo, a primeira paróquia dedicada a esse orago mariano foi erigida em 1599, na cidade do Natal (RN).

Maria é a mais venerada pelos brasileiros, dentre todos os santos do catolicismo. Amada com afeto filial, faz-se o destino de muitas súplicas, desejos e esperanças dos fiéis, mormente dos que sofrem. A expressão de nossa religiosidade revela-se fortemente na devoção mariana. É inegável o vínculo de permanência na fé. O amor à Virgem apresenta-se em todas as regiões e classes do país, sob muitas manifestações. A base da fé de nossa gente tem a ver com a piedade à Rainha Celestial. São terços, ofícios, orações, benditos, ladainhas, procissões, coroações e inúmeras maneiras de externar a sua crença. O culto mariano não se ensina nos livros. Transmite-se pelo testemunho das comunidades. A participação nos tríduos, novenas e outras comemorações alimenta a religiosidade, penetrando na vida das pessoas. No Brasil, a veneração a Nossa Senhora não se reveste de esquemas e conceitos intelectualizados, mas de sentimentos profundos que brotam da alma do povo.

Maria é expressão da benevolência divina. Pela intercessão da Virgem Santíssima, plena de graça, o Pai não nos abandona à própria sorte. Ela é uma prova de que o Onipotente não se arrependeu de ter criado o ser humano. Foi a Mulher escolhida pelo Altíssimo para sacrário corporal e terreno de seu Filho. Sendo Genitora do Salvador, contempla Deus Pai sem cessar com o seu sacratíssimo olhar. Maria de Nazaré é também nossa Mãe, por livre vontade de Jesus (cf. Jo 19, 26-27). E como tal, é nossa permanente intercessora junto a Cristo. Não se pode viver sem o carinho materno, por isso o nosso Redentor quis legar-nos Maria, face temporal do Divino. Sua ternura continua a se oferecer a cada um dos filhos. Ela poderá atenuar nossas saudades do Céu, uma vez que também esperou por Aquele que nos trouxe a vida e a paz. Privilegiada, teve o Salvador em seus braços. Ela acalentar-nos-á sempre nos momentos de desânimo, com um afetuoso sorriso e um meigo olhar de Mãe. “Bendita és entre todas as mulheres” (Lc 1, 42).

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

 

Paixão por livros

Padre João Medeiros Filho

Quando estudante, sonhava em ter uma biblioteca contendo coleções, enciclopédias, passando pelos clássicos da literatura, filosofia, ciências sociais, teologia etc. Durante anos, comprava os livros que podia. Tive um acervo bibliográfico razoável, doado posteriormente a instituições diocesanas de ensino superior, em função de seu credenciamento pelo Ministério da Educação. O acervo bibliográfico foi fruto de poupanças, durante permanência universitária na Bélgica e enquanto docente no Brasil. Era uma quantidade de publicações, mais do que suficiente para minhas necessidades ou capacidade intelectual. Tarefa árdua: controlar a voracidade livresca, quando o dinheiro e o tempo de leitura eram parcos.

À medida em que ia envelhecendo, havia mudanças nas preferências. Hoje, faço opção por títulos de literatura, espiritualidade, arte, exegese e história. Em geral, os escritos científicos são lidos raramente. Com as obras de conteúdo artístico, poético e místico acontece diferente. Cada vez que são folheadas, trazem um novo encantamento. Tenho incontido fascínio por traduções da Bíblia. A beleza da Palavra de Deus encanta-me. A mensagem transcendental, o estilo e o texto bem escrito levam-me à oração. Sinto-me extasiado ao ler os salmos e evangelhos. Conduzem-me à prece. Considero a oração a forma perfeita e o ápice da poesia. Deus comunica-se também nas entrelinhas de um texto esmerado. A mensagem espiritual merece a beleza literária. Se o falar correto e elegante dos homens toca a alma, quanto mais a Palavra divina.

Fui um leitor sôfrego. Mamãe dizia a Dom Manuel Tavares, que me ungiu sacerdote: “Joãozinho leu tanto que derreteu o juízo.” Talvez, tivesse razão em sua simplicidade e sabedoria. Comovem-me bons textos e belos discursos. Acredito que minha vocação sacerdotal aflorou com os sermões de Dom José Delgado. Emocionava-me, ouvindo-o pregar sobre as Bem-aventuranças com frases lindas e ternas, seu tom e flexão de voz. Parece que escutava algo do Infinito. Realmente, são palavras celestiais. As acuradas edições dos Textos Sagrados me envolvem num clima transcendente. Sábia e profunda a resposta do apóstolo Pedro ao Mestre, quando instado se iria abandoná-Lo, exclamando: “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de Vida!” (Jo 6, 68). Hoje, com a visão limitada, recorro à inteligência artificial, pedindo à Alexa (Echo dot) que recite trechos bíblicos e poemas de vates nacionais ou estrangeiros.

Quando a velhice bateu à porta, mudaram minhas preferências literárias. Veio o momento em que, olhando aquelas estantes cheias de livros, senti que estava velho. Terei tempo de os reler? Não, respondi a mim mesmo. Então, por que guardá-los? Resolvi doá-los. Para Roland Barthes “os livros também querem provas de que são amados e desejam ser manuseados.” O tempo vai passando e a leitura sendo mais seletiva. Na juventude, deslumbravam-me livros volumosos. Essa ilusão foi sepultada, ouvindo Frei Ludovico Mourão (diretor da Editora Vozes). Ao atender um autor, vangloriando-se de escrever “obras que se punham em pé”, o editor respondeu: “Tenho quarenta anos de ofício. Um livro que se põe em pé, talvez não seja lido nem vendido.” Hoje, como leitor e modesto escritor, não me preocupa a quantidade de páginas, mas trabalhos compactos com frases densas.

Atualmente, meu hábito de leitura imita os gatinhos. Nenhum felino abocanha de imediato a comida. Primeiramente, cheira. Se o nariz não aprovar, desiste de comer. Faço o mesmo com os livros. Antes, procuro sentir o perfume do autor. Se não tem um aroma bem humano, leve e atraente, deixo de consumir. “Ler é um ritual antropofágico”, escreveu Murilo Mendes. A antropofagia não se dava por razões alimentares. Acontecia por motivação mágica. Segundo a mitologia e algumas lendas, quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que existiam em seu corpo. No simbolismo da comunhão eucarística do Corpo e Sangue de Cristo, misticamente presentes no pão e no vinho, somos nutridos e contagiados pela riqueza de sua vida. A leitura é um ato sacramental de união do leitor com o autor. De maneira sábia, a Igreja une na missa: Palavra (leituras bíblicas) e Pão. Ambos são alimentos. Teologicamente, Verbo e Pão tornam-se sinônimos. “Tomai e comei.” (Mt 26, 26).

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

 Quem não tem cão, caça como gato

 Padre João Medeiros Filho 


Outro dia, Dom João dos Santos Cardoso, nosso arcebispo metropolitano, esteve na granja da Arquidiocese (onde moram eclesiásticos eméritos), trazendo seus cãezinhos de estimação para passear. Tenho em casa um gatinho muito mimoso. Vendo os animais soltos, pulando e correndo, lembrei-me da máxima supracitada e senti vontade de escrever sobre ela. Gosto de cultivar ditados e aforismos transmitidos ao longo dos séculos. Algo semelhante encontra-se na Sagrada Escritura, notadamente nos Livros dos Provérbios e da Sabedoria. Exegetas antigos e modernos afirmam que Cristo fez uso desse estilo literário, em suas parábolas e alegorias. Os axiomas e expressões populares constituem uma parte importante da cultura de cada nação. Apresentam metáforas éticas, sociais e religiosas. É uma incógnita a origem desse patrimônio e riqueza imaterial. Segundo o antropólogo norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo, “ao longo de toda a história da humanidade, os axiomas e adágios sempre estiveram presentes na alma do povo.” Por seu conteúdo e qualidade sapiencial, revestem-se de grande importância para o convívio social. Nesse campo, o Brasil é detentor de um expressivo legado, herança de nossos ancestrais lusitanos e outras matrizes culturais. De acordo com o eminente pesquisador potiguar, “o provérbio [em tela] tornou-se conhecido no Brasil, após a invasão holandesa, na segunda metade do século XVII.” A partir de então, começou a ser citado na tentativa de reanimar a população espoliada. O renomado folclorista alagoano Théo Brandão partilha dessa mesma assertiva. Desde priscas eras, pessoas abastadas escolhiam cães para acompanhá-las em suas caçadas. Até hoje, em razão de seu porte, fidelidade, velocidade e excelência no farejar são treinados para detectar objetos, identificar e proteger pessoas. A máxima, aqui referenciada, difere da versão escrita em alguns livros: quem não tem cão, caça com gato. Grande parte dos estudiosos afirma que a variante usada no caput deste artigo é mais antiga. Entretanto, as mensagens se equiparam. Trata-se de aceitar as limitações e circunstâncias. Quando não se pode agir com a ajuda de um cão, deve-se adotar a estratégia do gato, que é solerte para alcançar os seus objetivos. Diante da falta de melhores recursos e oportunidades, é preciso encontrar alternativas para se atingir os fins almejados. Há coerência e lógica na lição que se pretende transmitir. Assim sendo, quem não tem cão para perseguir a eventual presa, deverá caçar inteligentemente, à maneira de um gato. Cristo aconselha em situação de adversidade “primeiro sentar-se e calcular” (Lc 14, 31). Recomenda prudência, objetividade e imaginação, antes de agir. O provérbio mostra a necessidade de ser criativo em situações desafiadoras. Na inexistência de meios adequados para resolver determinados problemas, é mister ser engenhoso para encontrar outras maneiras de conseguir os fins propostos. Em vez de lamentar, cruzar os braços e tornar-se refém dos obstáculos, urge buscar saídas honrosas e inovadoras. Convém lembrar que nem sempre a solução mais óbvia é a melhor. Devese ter lucidez para encontrar opções. Ao narrar a história de Esaú e Jacó, o Livro do Gênesis (Gn 25-26) refere-se à perspicácia, uma das nuances do anexim, que intitula este texto. O adágio em questão se presta a diversas interpretações e mensagens. Existe quem o considere uma crítica à falta de planejamento e organização, quando indivíduos ou instituições se veem obrigados a improvisar. Na prática, a frase pode ser aplicada em diferentes situações, ensejando a procura de respostas às dificuldades. O que dizer da postura dos cães e gatos? Machado de Assis escreveu: “Deve-se aprender com os gatinhos que pelo faro conhecem seus verdadeiros amigos. Não sabem falar, mas os acompanham em silêncio.” Certa vez, Marilyn Monroe desabafou aos jornalistas: “Os cães nunca me morderam nem me traem. São os humanos que me ferem no corpo e na alma.” A versatilidade, dedicação, fidelidade e prontidão dos caninos ou felinos impressionam e levam-nos a pensar sobre alguns atributos divinos. Diz o Livro dos Números: “Deus não é o homem para que minta, nem o filho do homem para que se arrependa. Acaso diz alguma coisa e não o faz? Promete e não o cumpre?” (Nm 23, 19).

 


REFLEXÕES SOBRE JOGO DUPLO

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Fica decretado que no período da quaresma os homens públicos, já tão vergastados, não permaneçam submissos ao jogo da mentira. Não será preciso usar a couraça da desfaçatez para denegrir o semelhante. O Poder Legislativo, antes, rinha real, escarlate, com suas armadilhas e contendas, transmudou-se em Assembleia de Deus onde todos oram unidos pela paz enganosa dos pântanos. Antes, vi a baba e a saliva estilhaçarem vidraças num chiado contínuo além do brilho de punhais. Hoje, plantou-se uma estação de teorias esquisitas de acomodação e lazer. Esqueceram o andarilho vento alísio e caminheiro, portador de embates em favor da economia falida do Rio Grande do Norte. Enquanto isso, no palanque do dono da eleição, nenhum sopro eólico e planejador, irrompe a brida do cavalo viajor, à frente do tropel da sucessão.

Cumpre-se a assertiva de que jamais o lobo e o cordeiro jantarão juntos. O clamor do povo não chega porque o pasto é qualificado, mas a penúria é certa. Existe no sentimento de determinados homens públicos uma malandra e esperta fome de guaxinim. O povo deve exigir que a verdade seja servida antes dos aperitivos. Os rigores do combate a corrupção no país obrigaram o político aprender que tudo não é permitido. Ele deve deixar de ser privatizável, inconveniente e circunstancial. O sol das manhãs vindouras será para todos. Fica estabelecido, em nome de Jesus, que os políticos não se reúnam apenas para discutir os seus interesses de se eternizarem nos mandatos. E a imposição de que somente as suas vontades sejam revelantes, mas os segredos continuem irrevelados.

Cá do sereno, percebo que tudo o que acontece com a classe política é fruto do arbítrio. Nesse baile de máscaras, se escondem sorrisos e punhais. Não enxergo bem quem está dançando brega ou funk. Mas, me lembro daquela quadrilha junina de Lampião que no ensaio da dança caipira, exatamente no segundo movimento, no anarriê, quem vai levar o dedo indicador à boca? A omissão vai sobrar pra quem? Continuará valendo a tese ou a tesão de que contra governo rio cheio e o real ninguém dá jeito? Ante tudo isso, fico com a reflexão do escritor argentino Jorge Luiz Borges para acrescentar que não somente “O velório gasta os rostos”, mas candidato ruim também. Na política, devemos entender que não existem aliados, mas conspiradores que se unem.

Admito que o mapa político-eleitoral vai produzir tantas incertezas quanto espertezas para 2024. É cedo para ressentimentos e mágoas. Sigo o pensamento do Barão de Itararé: “Não nos queixemos de certos homens públicos pela sua arrogância, rudeza, egoísmo, vaidade, esquecimento. É a sua índole. Irritar-se com ele é como se irritar com o fogo porque queima ou com o cão porque morde”. La Bruyère, descendo numa sessão espírita lá em Mangabeira, afirmou que: “O demônio poder citar a Bíblia em proveito próprio”. Mas, grassa no Rio Grande do Norte, o entendimento de que “Os vícios são virtudes enlouquecidas”. Principalmente os eleitorais e administrativos. Na vida pública de hoje, não é à toa se dizer que cada político haverá de morrer agarrado a sua angústia. Está em curso um processo depuratório.

Garimpo o pensamento filosófico de que “O ser humano não só morre quando desencarna. mas também quando se desencanta”. E o povo? Bem, hoje, ele não é mais um detalhe... Graças a Deus.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

 

Para refletir no Dia de Finados

Padre João Medeiros Filho

Inexiste nos textos bíblicos neotestamentários qualquer palavra de Jesus se auto definindo como morte. Ao contrário, Ele proclama: “Eu sou o Pão da Vida” (Jo 6, 48); “Vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10), ou ainda, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). Santo Agostinho pregava: “O cristão não conhece a morte, mas a vida que começa com a morte.” Esta é a porta da Eternidade, o sono que conduz ao Infinito. Certa feita, o Filho de Deus, diante de uma família sofrida pela perda da filha, exclamou: “A menina não morreu, ela dorme” (Mt 9, 24). Com a notícia do falecimento de seu amigo Lázaro, Jesus afirmara: “Ele está dormindo, irei acordá-lo” (Jo 11, 12). Sono é o termo empregado pelos primeiros teólogos da Igreja, quando cessa nosso existir. Daí surge a expressão da liturgia de réquiem: “Requiescat in pace” (durma, descanse em paz).

Para Mário Quintana: “Morrer não é o último ato biológico. Acontece também nas perdas cotidianas e naquilo que nos traz saudades, quando acabam planos, esperanças, amizades.” Integra imprescindivelmente a natureza do ser humano. “Morrer é um ato natural, como beber, comer e dormir”, escreveu o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Anormal é aquilo que muitas vezes o precede: aparelhos conectados e tubos introduzidos no corpo sem o paciente poder fazer nada, pois não é mais dono de si mesmo. Mister se faz atenuar a solidão e a ansiedade que precedem à morte. Poucos têm palavras para falar tranquilamente sobre a realidade inevitável. Contudo, é um dever para os que creem, um ato de misericórdia, análogo ao preconizado no capítulo 25 do Evangelho de Mateus. A ciência e as religiões não refletem suficientemente sobre esse aspecto. Há carência de serviços e movimentos espirituais para proporcionar serenidade, aceitação e desprendimento naqueles que partem. Falta quem saiba cuidar da inexorável separação. É graça – quando pressentido ou anunciado – nosso fim acontecer, de forma mansa e sem dores, em meio às pessoas amadas e num clima de paz e quietude.

Para o cristianismo, a morte é apenas o umbral do Céu. A sabedoria da fé leva a viver com toda responsabilidade e despedir-se da existência com pleno despojamento. A morte é a devolução de algo que não pertence ao homem. Consiste no verdadeiro nascimento do ser humano – “mors vere dies natalis hominis” – pregou o Bispo de Hipona. A vivência da fé proporciona o equilíbrio humano. Se de um lado, pensarmos somente no término dos dias, colocaremos o sentido de tudo no final da existência terrena. Há algumas pessoas que tendem para essa posição e acabam desprezando o viver, diminuindo o sabor da vida, dom divino. Entretanto, a tentação mais comum é a abordagem contrária: priorizar o existir efêmero. O enfoque no provisório pode gerar desespero, quando as limitações começam a aparecer. “Somos migrantes, moradores temporários neste mundo” (1Cr 29, 15). O apóstolo Paulo arremata peremptoriamente: “Somos cidadãos do céu” (Fl 3, 20).

Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer” (Ecl 3, 2), diz a Sagrada Escritura. Viver e morrer não são antagônicos, mas irmãos. São Francisco de Assis percebeu tal verdade, ao falar da “Irmã Morte”. Isto exige que sejamos sábios para nos preparar quando a vida irá se plenificar. Poderia a Medicina desenvolver uma nova especialidade (tanatoatria) para assistir aos que terminam sua caminhada terrena. Sua missão seria preparar para o definitivo que leva à plenitude. Deverá fazer tudo para que o desenlace seja tranquilo e cercado de carinho. Poder-se-ia designar como padroeira de tal ramo da ciência médica Nossa Senhora da Piedade, simbolizada na ternura de “La Pietà”, de Michelangelo. Naquela escultura, Maria está representada com o seu Filho Amado, morto em seus braços. No colo de uma mãe o morrer não causará medo. A Igreja deve ser essa Mãe, expressão de afeto, que sabe nos envolver nos momentos do desabrochar da vida plena, onde de acordo com o Apocalipse “não haverá mais luto, nem choro, nem dor, pois as coisas de antes passaram” (Ap 21, 4).

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

 

A ALMA DAS CIDADES


- Horácio Paiva *



A Alma das Cidades é o título de um de meus poemas, habitante de meu livro “A Torre Azul”. Mas é também a representação do status subjetivo da cidade, a aura de cada cidade, para cada um de nós, particularmente.


Dessa forma, essa impressão subjetiva da cidade, essa alma, transcende o sentimento comum, e se, em determinados momentos, a alguns desperta alegria, a outros, sobretudo aos que mais a vivenciaram, pode sugerir nostalgia.


Sim, porque tudo é vida, e todas as cidades são eternas e mortais... Mesmo Roma, chamada de eterna, tem ruínas à vista.


Quando a eternidade se sobrepõe - e sempre se sobrepõe, ao negar o tempo -, abre espaço para nosso voo íntimo, e esse sentimento, que a arte, em alguns momentos, chamou de impressionismo, toma conta de nosso espírito, molda nossas sensações, faz crescer nossa identidade e nos leva a quebrar paradigmas... E cada um passa a ter direito a um espaço ontológico ilimitado, a explicar-se conforme esse mundo gigante.


É isso que me faz associar o lugar onde vivi a qualquer um outro, com mais ou menos semelhanças entre si, já que ambos pertencem ao meu íntimo e falam às minhas emoções existenciais e estéticas. Tal o que me ocorre quando escuto, por exemplo, o “Estro Armonico”, de Vivaldi, e me vejo ora em Veneza e ora em Macau. É que Vivaldi costuma ir à minha infância, e minha infância é Macau.


Diz Santo Agostinho que as lembranças são a essência do passado, e faz essa reflexão: “Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.” E acrescenta: “Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.” (“Confissões”, XI, 20).


Mas se as lembranças são a essência do passado, não seriam elas também a base da nostalgia? E se a nostalgia pertence ao tempo que morreu, não seríamos nós também uma sucessão de mortos em relação aos atos e fatos passados com nós mesmos, já que não podemos mais neles interferir?


Macau, porém, é mais que lembranças, e caminha comigo. Como Deleuze, sustento a realidade do passado e sua conexão com o presente e o futuro. É o que digo nesse meu haicai, a que pus o título “Em Macau”:


Estou em Macau -

as lembranças

caminham comigo.


Esse olhar sobre a cidade é um olhar sobre nós mesmos e que se justifica na adequação particular entre espaço, tempo e circunstâncias. Daí pensarmos a cidade como uma responsabilidade nossa e a sua vitória e derrota são vitória e derrota nossas.


Há uma frase do grande poeta e libertário José Martí, que sempre trago comigo e que diz: “No hay más que un medio de vivir después de muerto: haber sido un hombre de todos los tiempos - o un hombre de su tiempo” (“Não há mais que um meio de viver depois de morto: haver sido um homem de todos os tempos - ou um homem de seu tempo”).


No espaço de meu tempo, circunstâncias e afinidades, algumas cidades disputam, ou, melhor, formam meu coração: Macau, Natal, Recife, Lisboa e Veneza. Em todas essas águas há o navegar de um navio azul imaginário, a Nau Catarineta. Mas o cais é Macau, toda Macau, a eterna.


Vamos ao poema:


A ALMA DAS CIDADES


A cidade passou

antes de mim.

E não houve adeus.

Perdeu-se

no caos incontrolável

da impermanência.


E quando vi que passara

com seu séquito mudo

retirei-me.

Sem olhar para trás...


Anjos

- que não sabem que são anjos -

vieram ao meu encontro

e serviram-me.


Ainda não morri,

concordo.

Mas a alma de minha cidade

não existe mais.



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(*) Horácio de Paiva Oliveira - Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.