domingo, 23 de julho de 2023

 


ESSAS FLORES

Essas flores que nascem às margens do rio
Nada ficam a dever às flores de meu jardim.
Essas poesias que surgem do nada
E se vão levadas pelo vento do imaginário
Também não são menores que aquelas
Nascidas do clássico ofício de escrever...
Esses amores...
Ah!, esses amores...
São lindos esses amores que não precisamos guardar
E sobrevivem à margem de tudo
Pela graça da vida
Na liberdade que transcende o nosso querer...


-  Horácio Paiva

sábado, 22 de julho de 2023



 CÉU INVISÍVEL


                        (Aos abandonados pelas lembranças)


um céu se esconde
atrás da janela
que não ouso abrir

um céu que desconheço
e onde não mais terei em servidão
minhas lembranças

as lembranças são pássaros presos
às margens do rio do esquecimento
e uma vez transposto o rio
não há mais repouso
vão-se as amarras
os dias cálidos
e a vida segue à deriva
enquanto um novo livro é escrito pelas parcas

sem mapas ou radar
-  além da imaginação
e da vertigem  -
espero porém que o amor lance âncoras
esteja à porta
e jamais me abandone


-  Horácio Paiva

sexta-feira, 21 de julho de 2023

 




THEREZINHA ROSSO GOMES


Hoje é um dia especial para a nossa família, pois se viva estivesse, a nossa pranteada THEREZINHA, estaria comemorando 87 anos de existência.

Nascida em Natal no dia 21 de julho de 1936, filha do casal Casaletano Rocco Rosso e Rosina Louvisi, morou a maior parte de sua vida no bairro do Barro Vermelho.

Quando para Natal em 1948, coincidentemente, fui morar à casa 118 da Rua Meira e Sá, número 120 e fui recepcionado com o olhar cativante da italianinha da rua, o que permitiu logo uma amizade de vizinho, depois colega, namorico, namoro, noivado e casamento, um lapso temporal de 71 anos, que foi interrompido no dia 31 de março de 2019.

Já contei várias vezes a doçura dessa criatura e a fidelidade que nos manteve fiéis tantos anos.

A velhice nunca foi empecilho para nossa vida social, o que hoje mantenho em todos os encantos por onde passo, nas festas das academias, nos lugares lúdicos onde vivemos tantos anos, fazendo-me um cativo de boas lembranças e de uma saudade imorredoura.

Nesta data seria um desses encontros, pois a Academia Norte-riograndense de Letras está em festas, oportunidade em que lá estarão muitas das suas amigas de sempre.

Sempre rogo a Deus que guarde o seu espírito em lugar especial, pois mais do que isso essa mulher notável fortaleceu a sua vida com atos humanitários e correção irrepreensível.

Um beijo para minha querida companheira. Logo estaremos juntos.


 

  • GALERIA DE EXCÊNTRICOS
    vida deve ser vivida em todas as suas variedades. Esse pensamento do alagoano Calixtrato Barroso me fez refletir sobre alguns tipos que conheci ao longo de minha vida. Pessoas de comportamentos díspares, personalismos, individualistas e esquisitos. Pelópidas Lourenço, por exemplo, é um burocrata
    pragmático e fiel ao trabalho. Tem pavor a inércia, ao feriado, ao ponto facultativo. Pragueja contra os agentes públicos que enforcam as sexta-feiras. Feriar dia santificado, segundo ele, é encher as praias de parasitas do dinheiro oficial. “É uma irresponsabilidade digna de uma denúncia do Ministério Público ou de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Mas, o pior é que todos gostam dessa lambança, e aí não acontece nada”, comenta. Houve uma época em que ele estava atacadíssimo. Parava em frente a supermercado, farmácia, armazém, mercearia para aplaudir de pé o estabelecimento comercial aberto e proferir palavras de ordem contra o governo.
    Outro personagem interessante é o mossoroense Porfírio Louzada, leitor assíduo de jornais, principalmente da crônica social. Gosta de fazer recortes após pontuar o número de vezes que socialites são citados ou fotografados. “As suas estatísticas”, conforme Flodoaldo Aires, seu amigo do antigo Café São Luís, “são alarmantes”. Acha que “o espaço estipendiado é mais para biografar a vaidade dos pífios inquilinos do que para noticiar fatos ou pessoas do interesse geral”.
    Ubenildo Trajano, católico fervoroso, pregava contra aspectos das reformas do governo Lula. Rezava todos os dias para a queda dos juros bancários e a morte do agiota mais próximo. Aposentado pela rede ferroviária federal sabe que o trem da taxação vai passar por cima dele. Confessava-se decepcionado com os deputados e senadores com os quais votou. Na missa de domingo passado, afirmou na calçada da igreja antes de comungar que “o Congresso que se diz fera vai ser domado como sempre pelo Planalto. Deputado nunca resistiu ao gesto obsceno e aos afrodisíacos do governo. Não acreditem nos governos messiânicos”, ainda soprou dentro da sacristia.
    Revolvendo uns papéis antigos, deparei-me com um bilhete de Eleutério Pacheco, de quando residia no bairro do Tirol. Fotógrafo amador passava o tempo retratando fatos da rotina cotidiana através de sua velha máquina Rolly Flex. Mudou-se para Macau e nunca mais o vi. Tem um considerável acervo fotográfico de homens e mulheres conduzindo seus cachorrinhos pelas ruas de Tirol e Petrópolis. Todos os seus instantâneos flagram o cidadão ou cidadã de pé, esperando o seu animalzinho concluir o seu matinal ato defecatório. “É pungente”, dizia no bilhete, “o ridículo dessa granfinagem”. Gostava de associar as imagens do homem ao cãozinho. Temporalmente achava que a “vida consumista é feita mesmo de fases e de fezes”.
    O mais excêntrico e amargo membro dessa galeria é Benedito Fragoso Teles, vulgo Fedegoso pelo seu espírito ressentido e depressivo. Repete sempre o escritor Graham Greene: “A vida é um caso liquidado”. “O ser humano”, prega Fedegoso, “é sujo. Todos os seus órgãos são putrefatos: o intestino, o ânus, a boca, o escarro, os ouvidos, os olhos, o nariz, as genitálias, o chulé , a sovaqueira, tudo expele nojenteza, mau cheiro. Quando morre apodrece. Ou quando vivo, do ponto de vista caracterológico, a grande maioria é pérfida, solerte, ingrata, criminosa, falsa, pecadora, traidora, predadora, invejosa, etc., etc.”. Não convidem Fedegoso para um papo. É uma figura negativa. Ou não?


quarta-feira, 19 de julho de 2023

 A chaga do preconceito 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” Este consiste na opinião formada sobre algo ou alguém, antes de conhecer o objeto do juízo, sem fundamento lógico. Cristo testemunhou diversos tipos de posturas preconceituosas. Os Evangelhos e Atos dos Apóstolos relatam a diferença de tratamento dispensado aos seguidores do Mestre por parte de seus contemporâneos, pertencentes a movimentos religiosos. Antes de Jesus, já existia uma animosidade entre judeus e samaritanos (cf.João 4, 9). Os fariseus, escribas e hipócritas menosprezavam os discípulos do Senhor (cf. Mt 12, 3- 6). Ele mesmo era desdenhado. “Ora, não é Ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55). Contra essa forma de relacionamento se insurgiu o apóstolo Paulo: “Não há maisjudeu nem grego..., escravo nem livre, todos são iguais em Jesus Cristo (Gl 3, 28). O preconceito fica abscôndito nos porões da política e ciência, das etnias, culturas religiões etc. Em suas diferentes manifestações, leva ao desconhecimento da riqueza latente no outro. Ninguém é capaz de se renovar e aperfeiçoar sem diálogo e escuta serena do próximo. Não raro, a mídia denuncia condutas e situações, acentuadamente desiguais. Entretanto, tais iniciativas costumam ser seletivas, revestidas de carga ideológica e despidas do verdadeiro sentimento humanista. Providências legais e de cidadania acabam sendo diluídas, ignoradas e esquecidas. Urge construir uma base sólida de humanismo, capaz de promover a adequada compreensão e o respeito ao semelhante. Assim, pode-se tocar no coração de cada indivíduo, a partir de um amplo processo educativo. Não se muda uma mentalidade apenas por leis e decretos. É preciso atingir o âmago da alma, convencendo de que somos feitos do mesmo barro. O Livro dos Provérbios já lembrava: “O rico e o pobre têm algo em comum: o Senhor é o criador de ambos” (Pv 22, 2). O cristianismo poderá oferecer fundamentos essenciais de humanidade. O Sermão da Montanha contém uma interpelação sempre atual, conclamando contra as ofensas ao semelhante. Jesus orienta a não faltar com o respeito devido à dignidade da pessoa. Mas, por fragilidade emocional,soberba e apego às próprias convicções, o ser humano despreza as lições do Evangelho. Esquece o que ali se ensina: “Tudo, pois, quanto quereis que os outros vos façam, fazei, vós também a eles” (Mt 7, 12). O ser humano deve revestir-se de uma espiritualidade marcada de solidariedade e busca interior. “Só se vê bem com o coração”, afirmava Exupéry. O preconceito nasce da visão negativa e presunçosa sobre pessoas, situações e instituições. O cristianismo é luz, podendo contribuir para debelar atitudes intolerantes. Traz um conjunto de indicações que, se devidamente acolhidas, poderão mudarsentimentos perversos. É salutar a recomendação do apóstolo Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rm 12, 21). Trata-se de um princípio basilar para neutralizar palavras e gestos discriminatórios. A orientação paulina abre um fecundo itinerário para enfrentar concepções e visões distorcidas. Assim, ao invés de excluir e marginalizar, priorizam-se o bem-estar e a paz do semelhante, mormente daqueles que carregam o peso da rejeição. Os postulados cristãos têm força para romper o círculo vicioso que aprisiona a sociedade em uma convivência ilusória, injusta e com dinâmicas excludentes. Na visão do cristianismo, o preconceito é diabólico teologicamente. Segundo os exegetas, o diabo é tudo aquilo que divide e exclui. Os gestos de aversão serão vencidos com o amor fraterno, como antídoto para discriminações de diferentes matizes. A lógica cristã não pode ser emaranhada e engolida por relativizações. Assim, a mensagem de Cristo cumprirá seu papel profético, capaz de levar a sociedade a mudanças. É fundamental assimilar os ensinamentos éticos e bíblicos, capazes de inspirar a renovação do tecido sociopolítico do Brasil, permitindo ao país livrar-se de uma convivência eivada de divisões e radicalismo. O preconceito é fruto da arrogância, já presente em Eva e Adão, sequiosos de superioridade. O apóstolo Pedro definiu a visão cristã: “Deus não faz distinção de pessoas. Ao contrário, aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (At 10, 34).

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ARTÊRA EDITORA (PR) convida

LANÇAMENTOS de DOIS LIVROS de DIOGENES da CUNHA LIMA


PABLO NERUDA – UMA ENTREVISTA IMAGINADA

prefácio de Nouraide Queiroz

posfácio de Antonio Nahud


Ler Neruda é ouvir o universo em seus segredos. Compreendê-lo, a ponto de fazer ecoar o seu canto, é privilégio dos poetas que trazem n´alma a amplitude e o saber de todos os sons. Diogenes da Cunha Lima, um poeta de sensível e rica originalidade, depois de responder perguntas de Neruda em “O Livro das Respostas”, surge com uma entrevista imaginária inesperada e desconcertante, resultando em um encontro lírico. A poesia hermética e complexa de Neruda dialoga, humana, com a poesia sensível de “Os Pássaros da Memória” (1994). Chile e Brasil merecem um encontro desses, um poema-livro, cósmico como um verso de Neruda, musical como um de Diogenes.


O LIVRO das RESPOSTAS

(em face do “Libro de las Preguntas”, de Pablo Neruda)” (3ª edição)

prefácio de Edson Nery da Fonseca


De grande criatividade poética, Diogenes da Cunha Lima, instigado pelo escritor Veríssimo de Melo, aceitou o desafio de responder perguntas feitas pelo poeta chileno Pablo Neruda em sua obra “O Libro de las Preguntas”. Para estar mais perto do poeta e mais rico de aventura, antes foi ao Chile. Mais perto das raízes do vento, do canto geral, das doces palavras como ameixas na boca da amada. Sentindo o pulsar da ilha negra, a poesia de Diogenes não só responde à significação da poesia de Neruda, como avança igual seta de luz, no tempo e no espaço, dignificando a palavra e contribuindo para a permanência do mito.



Data: 20 de julho de 2023 (quinta-feira), às 17h

Local: Baobá do Poeta

Endereço: Rua São José – Lagoa Nova

Natal, Rio Grande do Norte

 Santos e festas do mês de junho 

Daladier Pessoa Cunha Lima Reitor do UNI-RN 

Retorno a uma crônica afim, e com o mesmo título, que publiquei em 2010. As festas juninas remetem-nos para velhos tempos, acalentam lembranças da infância, fazem recordar fatos e encantos do passado. Evocam-se santos alegres, festeiros, ligados a crendices e superstições, com forte apelo popular e que vão além da convicção religiosa. Quem fica indiferente a uma rua embandeirada, ao colorido das roupas das quadrilhas, ao ritmo do baião e do forró, à visão ou ao cheiro das canjicas, das pamonhas, dos bolos e do milho assado? Menino do interior, tive a sorte de passar várias festas juninas nas fazendas Riacho e Favela, terras do meu avô materno, seu Chiquinho, em São José de Campestre. Noites alegres, inesquecíveis, rojões, busca-pés, traques, e estrelinhas; muita comida de milho, sanfona e pandeiro, tudo e todos ao redor de enorme fogueira. A família reunida e meu avô no comando, pois era o mais animado do grupo. Com requinte, sabia puxar quadrilha, quando não faltavam palavras de ordem com timbre francês: balancê, anavantur, anarriê, travessê, e por aí seguia. Lembro que um jovem vaqueiro da fazenda Riacho convidou- me para ser seu compadre de fogueira. Sobre dois tições em brasas, feito uma cruz, o aperto de mãos selava o compromisso, ao se repetir quatro vezes, mudando de lugar: “São João disse, São Pedro confirmou, que nós fôssemos compadres, que Jesus Cristo mandou.” O vaqueiro Chico Borges, que depois se transformou em dono de parte da fazenda, levou a sério aquele contrato e, ao longo do tempo, fomos compadres de verdade, nas saudações e na amizade. Chico Borges morreu ainda moço, por doença cruel e rápida. Seu compadre de fogueira, mesmo já formado médico, tentou ajudar, mas nada pôde fazer. A devoção popular atribui a Santo Antonio a graça de operar milagres, para atender suspiros e preces de moças à procura de um noivo. Tenho uma amiga, já com muitos natais, que ainda não perdeu a esperança, pois o seu Santo querido “tarda mas não falta”. Muitas dessas crenças e crendices vieram com os portugueses para o Brasil, conforme estudos de Câmara Cascudo e de outros folcloristas. Antônio nasceu em Lisboa e, em vários lugares, é mais conhecido como Santo Antônio de Lisboa. O Santo morreu aos 36 anos, na Itália, perto da cidade de Pádua, e, assim, é também conhecido como Santo Antônio de Pádua. É representado por um monge franciscano, levando um menino no braço esquerdo e um lírio, símbolo da pureza, na mão direta. Em virtude de tantos milagres em vida, sua canonização ocorreu menos de um ano depois da morte. Uma curiosidade: o Padre Antônio Vieira era devoto de Santo Antônio. São João é o mais festeiro dos três. Não é à toa que a fogueira vincula-se ao seu dia, 24 de junho, quando Isabel fez queimar a lenha para avisar à prima Maria o nascimento de João Batista. E São Pedro, pescador da Galileia e protetor das viúvas? Não precisa dizer nada, basta relembrar que ele tem nas mãos as chaves do céu. 

sábado, 15 de julho de 2023

 

Tortura

BERILO DE CASTRO
Leio no nosso matutino diário, que o nosso Estado está incluído entre os cinco maiores do país, em se tratando de tonturas nas prisões.
O assunto faz lembrar o meu pai, o Coronel PM Antônio de Castro.
Quando foi para a reserva remunerada, com uma grande família para sustentar e, um ganho miserável, suas contas não fechavam e não conseguia sair do sufoco
Foi então, lembrado pela minha mãe, para procurar o seu compadre, o então, governador Dinarte Mariz.
Foi ao Palácio Potengy, sendo muito bem recebido pelo seu compadre, a autoridade máxima do Estado.
A conversa foi mais um pedido. Externou sua difícil situação financeira. O dinheiro era curto, a família grande e as contas não fechavam, nem a pau.
Ao ouvi-lo, atenciosamente, o compadre, chamou o seu secretário e pediu que providenciasse uma colocação, um emprego, para melhorar as finanças do velho amigo e compadre.
Voltou para casa e, ficou aguardando o chamado para assumir o seu novo emprego.
Dias depois foi comunicado pelo secretário do Governador para receber a”boa” notícia do novo emprego.
Alegria total, felicidade na família. Minha mãe o arrumou todo, o perfumou com uma cheirosa lavanda. Era só alegria!
Ao chegar no gabinete, o secretário do Governador deu a notícia: o senhor vai assumir a delegacia da Ribeira. Papai, tomou um susto, por se tratar de uma delegacia mais movimentada, cheia, entupida de problemas.
Conhecida como a Delegacia dos cabarés. Só bronca! Quentíssima !
Ao chegar em casa deu a notícia a minha mãe, que nada gostou. Mas a escassez de dinheiro, a necessidade do momento falaram mais alto.
Assumiu, e começou a botar a casa em ordem. Na equipe de investigadores, tinha um famoso, muito famoso e bem conhecido na cidade, pelo o uso e abuso de suas torturas. Despertava os presos pela madrugada para as sessões de torturas, com a sua famoso e pesada palmatória.
Na arrumação da sua nova ocupação, foi informado do tal expediente do famoso e malvado investigador civil.
Mandou chamar o investigador e fez ver ao policial civil a sua forma, a sua maneira de trabalhar. Que não admitia de forma e espécie alguma tonturas em sua delegacia. Nem pensar! Longe daqui!
O investigador permaneceu calado durante a conversa, demonstrando uma certa insatisfação por não mais poder continuar com sua farra desumana de torturas.
Hoje, fico triste em saber que o meu Estado, encontra-se entre os cinco que mais torturam em prisões no país.
Inconcebível! Torturas, jamais!!!!


Enviado do meu iPhone

quarta-feira, 12 de julho de 2023

 (Recebido de Ivan Maciel)

  • SOBRE A FELICIDADE

    Quando se fala sobre felicidade, me lembro logo do que dizia um pensador que viveu no século XVIII e que foi um dos grandes ideólogos da revolução francesa de 1789 (a revolução que conduziu a burguesia ao poder e estabeleceu os princípios democráticos e liberais consagrados pelo capitalismo): Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Ele raciocinava como se tivesse existido um “estado de natureza”, anterior à constituição da sociedade, em que todos eram livres e viviam felizes (o “bom selvagem”). Depois se tornou necessária a celebração de um contrato social e a partir daí começou a infelicidade humana (sobretudo quando alguém cercou uma determinada área e disse: “isso me pertence”). Outro filósofo, Voltaire (1694-1778), escreveu uma carta a Rousseau em que dizia, a certa altura: “A gente tem vontade de andar de quatro (“marcher à quatre pattes”), quando lê sua obra”. Essas ideias serviram de base à luta contra o regime monárquico, pois o contrato social seria a fonte de todos os direitos. Hoje podem ser contrapostos às ameaças ditatoriais.

    Mas em que consiste mesmo a felicidade? O nirvana de Buda (Siddhartha Gautama, 563 a.C.-483 a.C.) importa na superação dos sentidos e de tudo o que é material, ausência do desejo, da dor e da emoção, o “ápice da meditação”: “o espírito se liberta do corpo temporariamente”. Bem diferente do hedonismo, que via na busca do prazer (com serenidade e equilíbrio) o único caminho para a felicidade. Mas Santa Teresa de Ávila (1515-1582) encontrava a felicidade na clausura, no silêncio, na pobreza e nas atividades intelectuais. Em 1970, Paulo VI concedeu-lhe o título de “Doutora da Igreja, Mestra da espiritualidade”. Foi grande escritora e poeta. Muitos veem em seus poemas um arrebatado transbordamento misticossensual. Exemplo: “Eu estou com Aquele que me habita”.

    Jorge Luis Borges se sentia feliz na companhia dos livros, para lê-los amorosamente. Tanto que imaginava o paraíso como uma enorme biblioteca em que se podia ler qualquer livro nas línguas mais diferentes. No entanto, ficou cego. E se satisfazia em acariciar os livros. Contratava intelectuais iniciantes para ler em voz alta os livros que ele não podia mais ler. Porém, reconhecia que essa experiência era frustrante: nada é comparável à leitura feita por nós mesmos. Meu pai, que lia em francês, italiano e inglês e tinha uma excelente biblioteca passou por idêntica provação: perdeu a visão por completo. Eu lia para ele jornais e revistas. Livros, tentei ler, mas ele achava que não valia a pena. Não conseguia concentrar-se na leitura feita por outra pessoa. Dizia que sua percepção era visual e não auditiva. Eu, então, percebia o quanto a doença o infelicitara: foi quando mais senti a absurda e abissal fragilidade da condição humana.

    Valter Hugo Mãe simplifica dizendo que não existe propriamente a felicidade -- EXISTEM MOMENTOS DE FELICIDADE.

 A virtude da tolerância 

Padre João Medeiros Filho 

Segundo Platão, “a tolerância é o mais alto nível de educação.” Consiste na capacidade de reconhecer e aceitar o diferente. Não confundir com o divergente, que prima pela discordância e oposição. A intolerância está em não suportar a pluralidade de ideias, crenças e posições, como se a verdade pertencesse a um só indivíduo ou grupo e ali todos devessem buscar a luz. Uma lenda milenar narra que um pregador reuniu centenas de pessoas para discorrer sobre a verdade. Ao final da fala, em vez de aplausos, houve um silêncio sepulcral. Passados alguns instantes, uma voz se levantou: “O que o senhor acaba de afirmar não é a verdade.” O palestrante indignou-se: “Como, não é? Anunciei o que me foi revelado pelos céus!” Quem contestou, retruca: “Existem três tipos de verdades: a do senhor, a minha (ambas subjetivas) e a objetiva. Juntos devemos buscar a veracidade dos fatos reais.” De acordo com a filosofia aristotélica, “a verdade é a identificação do pensamento com a realidade” (“Identificatio intelectus et rei”). Os tiranos e arrogantes sentem-se senhores absolutos da verdade. Por esse motivo, mantêm-se intransigentes, não admitindo os direitos dos outros. Há quem defenda a força das armas e da violência como prioridade sobre as ideias. Faz algumas semanas, a mídia noticiou o brado de alguns extremistas, pregando a morte para os que não seguem sua ideologia. Os intransigentes usam a agressão física como argumento válido para convencer o mundo e mostrar quem está certo ou o que é correto. Esquecem a máxima oriental, ao ensinar: “Melhore a argumentação e baixe o tom de voz.” O intolerante é facilmente levado à beligerância, por ele denominada contraponto. É um inseguro. Por isso, agarra-se a seus caprichos, concepções e narrativas, como um náufrago à tábua que o mantém à tona. É unicista, indo na contramão dos ensinamentos filosóficos e éticos. Vê o que discorda como inimigo ou “o inferno”, consoante Sartre. Para ele, todos devem acatar docilmente suas opiniões. O tolerante não coloniza a consciência alheia. Admite que da verdade se depreende fragmentos. Tem consciência de que ela só é alcançável com um esforço comunitário. Reconhece a alteridade singular, que jamais deve ser negada. Apenas Deus vê a plenitude da verdade. O poeta Rumi aconselha: “Veja através dos olhos da compaixão. Fale com a linguagem do amor e sobretudo ouça com os ouvidos da tolerância.” Esta necessita ser a regra de ouro do comportamento humano. Pode-se inferir que se todos não pensam da mesma forma, tem-se apenas parte da verdade, sob ângulos diversos. Tolerar não significa abandonar o compromisso com a veracidade, e sim reconhecer que o outro tem o direito de decidir o rumo da sua vida e história. Pode-se aplicar ao tolerante o perfil descrito pelo apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “É paciente e prestativo, não se irrita nem guarda rancor. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 4-7). Tolerância não é sinônimo de ingenuidade, tampouco parvoíce. Não faz tempestade em copo d’água. Jamais cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra. Reconhece o direito de cada um ter princípios e agir conforme a sua consciência, desde que não redunde em opressão ou exclusão, humilhação ou morte. O cristianismo convida a ter sempre uma atitude de respeito e compreensão com o próximo. Assim recomenda o citado apóstolo Paulo: “Aceita o outro, mesmo mais frágil e não discuta sobre suas opiniões” (Rm 14, 1). Das intolerâncias, a mais inaceitável é a religiosa, pois divide o que Deus uniu. A religião não é uma imposição, ela está na essência do ser humano. Quem somos nós para, em nome do Pai celestial, decretar se uns são os eleitos e, outros, os condenados? Só o amor poderá nos tornar realmente tolerantes, pois quem ama compreende as reações de outrem e demonstra sempre gestos de compreensão, acolhimento e partilha. Proclama o salmista: “O Senhor é clemente e tolerante [compassivo], lento para a ira, rico em misericórdia e fidelidade” (Sl 86/85, 15).

 A PASSAGEM DA NOITE


Valério Mesquita*
mesquita.valerio@gmail.com


“Siga o rio. O rio conhece o caminho”. É o estribilho de uma antiga
canção do faroeste americano. O leito caudaloso da memória me conduz às vozes
que vêm de longe. Na dor acumulada e na fadiga rotineira, ensaio os meus passos
no caminho das minhas perdas. Revejo os meus personagens. Escuto o vento nas
folhas e o piano da chuva no telhado como se não tivesse ainda baixado a cortina
da minha infância em Macaíba. Os passos enérgicos do meu pai e a fragrância
suave de minha mãe me parecem tão nítidos, no corredor da memória, como se
permanecesse ainda aberta a última porta daquele tempo. Diante do que possa
sugerir esquisitice essa ressurreição de ambiente, impetro uma medida cautelar
possessória, uma manutenção de posse do espaço perdido tal qual um
desesperado náufrago da complexa realidade de hoje.

Nada disso significa nostalgia piegas. Apenas, me interessa o
imponderável e o mistério dos desencontros humanos. Enquanto houver silêncio,
solidão, tragédia, medos secretos, jamais deixarei de perseguir os significados.
Além da visão, da memória, dos sonhos, tenho os meus pressentimentos. Às
vezes, no recolhimento, surgem-me os sons longínquos da antiga amplificadora
municipal, “a voz de Macaíba e o seu musical variado” dentro da noite calma e
estrelada daquele cenário mítico. A mente se povoa de mortos e de vivos que
vagam e que passam. O velho campo de futebol, entre as ruas 30 de Março e
Campo Santo, me restitui os ídolos desaparecidos. Craques comuns da vida pobre
da cidade, mas que se igualavam para mim aos astros do Maracanã dos idos de
Zizinho, Danilo e Ademir.

As águas do rio da reminiscência atingem novas margens e
aprofundam o porão da memória. O Cine Teatro Independência dos filmes do
Gordo e o Magro, dos Três Patetas, de Chaplin, de Abbott e Costello além dos

faroestes que não se repetem mais; a praça Antônio de Melo Siqueira dos
primeiros alumbramentos, dos passeios, do banco do namoro, do coreto, tudo
como qualquer lembrança de homem comum do interior; a rua do Vintém, do
Cajueiro, as Cinco Bocas, a praça da Matriz, o cais de pedra do rio Jundiaí, as
jabuticabeiras da Lagoa das Pedras, o Pernambuquinho; o Gango (o baixo
meretrício), de todas proibições à hora do crepúsculo, os antigos ônibus da linha
Macaíba/Natal que me consumiam diariamente a farda estudantil, enfim, o
universo humano das figuras populares, coração e alma de Macaíba que não pára
nunca. Na noite de minha vida ainda assisto, com nitidez, à passagem do meu rio
porque eu continuo a ter os meus personagens.

Mas, o patrimônio existencial da terceira idade, onde a memória
olfativa, a auditiva e, principalmente, a visual, procuram restituir-me o universo
perdido das fases inaugurais da vida. Aquela lua cheia, por exemplo, vista do cais
do rio Jundiaí em Macaíba, como se estivesse pendurada por fios invisíveis, atrás
dos coqueiros e eucaliptos, infundia-me na adolescência negro mistério do tempo
da colonização dos escravos, índios e colonos, de escuridão e medo, como se as
fases da lua chegassem naquele tempo por édito imperial. Como me perco na
contemplação do Solar do Ferreiro Torto e os seus sortilégios de poder, carne,
cobiça e paixão. E a descortinação surpreendente do Solar dos Guarapes.

Quantas perguntas insaciadas não existem sobre o que ocorreu ali?
Os seus fantasmas que subiam e desciam a colina sob a batuta do senhor de
engenho numa cosmovisão ora polêmica, ora lírica, dentro do abismo da
memória?

(*) Escritor.