sábado, 28 de janeiro de 2023

 NA MIRA DA VERDADE


Aprendi a me contentar com o que sou e com o que tenho, como

falava o apóstolo Paulo. Até me compraz abordar esse tema que 

representa, apenas, uma despretensiosa opinião entre milhares. 

Falo para lembrar que o mundo precisa é de um bom retorno à 

moral, aos bons costumes e às boas maneiras. 

O Brasil está grandemente desacreditado no exterior, tanto do 

ponto de vista político e esportivo, bem assim com relação a 

segurança e a moralidade pública. Hoje, se a polícia agir para 

manter a ordem social é logo acusada de repressora. Se ela 

prender o criminoso ou o viciado, a legislação penal 

permissiva e retrógada coloca nas ruas para repetirem tudo 

outra vez. 

O país parece que não está mais acreditando em si mesmo.

 

Os princípios basilares da constituição de uma família, obra de

Deus, estão sendo confundidos e modificados pela opção 

individual de vida com pessoas do mesmo sexo, em nome de 

falsa modernidade. Modernidade para mim é o progresso da 

ciência médica, da informática, da engenharia, das

comunicações, etc. Mas, em desagrado com o que é sagrado 

e consagrado é degradação, degenerescência. 

O direito individual de escolher a condição sexual, é assunto 

exclusivo de cada um que deve ser respeitado. No entanto, 

tratar a união de parceiros iguais tal e qual uma família 

constituída, significa destruir uma geração que já está 

contaminada e descompensada pela perda da guerra

contra a droga. Aonde a sociedade brasileira quer chegar? 

Depois, recebe com ceticismo o clamor popular para 

endurecer a legislação penal contra os menores infratores 

que comandam hoje as estatísticas criminais! 

E ai? O governo está criminalizando a pobreza porque falhou 

na educação dos jovens. Ou vamos nos transformar numa imensa

 população carcerária ou tudo virar mesmo um caos.

As facções criminosas fazem “gato e sapato”. Invadem e

depredam tudo! Aliás, já ocorreu a invasão aos órgão públicos. 

Três de uma só vez. Os índios já deram o bom exemplo 

intimidando a Câmara Federal. 

A legislação brasileira sobre esses assuntos corporativos é 

frouxa e mixuruca. 

O excesso de tolerância pode causar mortes por imprudência 

ou falta de autoridade.

A grande burrice da escolha nacional de gastar bilhões para 

salvar o falido futebol - em vez do próprio brasileiro, ser 

humano, pobre, sem saúde e segurança, é um absurdo. 

Viva o circo! Abaixo o pão! Um dia – o que não

desejo – mas prevejo, quando acontecer uma tragédia que 

atinja congressistas, ministros da área jurídica ou suas 

famílias, aí sim! Será dada a largada. Os jovens ocupam 

as ruas do Brasil com protestos, lutando e depredando 

mais para tirar centavos de uma passagem de ônibus do 

que pela vida, pela punibilidade das gangues dos crimes 

hediondos.

Nas antiguidades grega, romana e principalmente a judia,

revelada no Antigo Testamento, todas acreditavam em um 

Deus irado que punia todos que ameaçavam os respectivos 

povos com catástrofes e sinistros. Na Bíblia Sagrada, Moisés, 

Josué, Samuel, Ezequiel, Jeremias, Daniel, Isaías, além dos

profetas menores, todos escolhidos e inspirados por Deus, 

descrevem intervenções divinas em defesa e preservação do 

povo judeu. Nos dias de hoje, ante a derrocada moral do 

mundo, só temos a recorrer mesmo ao Altíssimo.

Esperar o retorno de Jesus Cristo, no final do milênio 

(se lá chegar), conforme rezam as Escrituras, parece ser a 

única salvação para depurar, higienizar e moralizar o 

planeta. Se não ocorrer uma medida preventiva do Céu, 

tudo o mais vai piorar igual a cantiga da perua. 

Quem viver, verá: o diabo favorecendo os

maus e a gente pedindo a Deus que nos acuda.

 

(*) Escritor

 





quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

 

Cartas de Cotovelo – Verão de 2023 – 4

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

LEITURAS DE VERANEIO

Neste veraneio fragmentado os livros povoam as cercanias da minha rede e vou lendo até o sono, até ser forçado pela brisa da varanda me derrubando de corpo inteiro.

         Após o voo transcendental do sono, desperto com o volume caído sobre mim, convidando-me a continuar a leitura até outro surto de sonolência, o que me faz repetir a mesma página um punhado de vezes.

         Obras sobre genealogia potiguar é sempre do meu agrado, mas os preferidos são os aleatórios – prosa, poesia, ficções, reflexões e por assim continuar.

         Destaco alguns trabalhos que ficam empilhados na cabeceira para eventuais consultas rápidas, tais como Reflexões de um Provinciano (Caio Flávio Fernandes); 100 frases & Pensamentos (Juarez Chagas); Epigramas de Nino (Vicente Serejo); e Novos Poemas Dedicados (Francisco Ivan) - um dos quais, com justiça, em homenagem a Abimael Silva.

         No mais, os enigmas de Francisco Sobreira (Uma noite linda – Mas para quem?), tive de fazer uma segunda leitura para destrinchar a trama da morte de Romeu Aldigheri, a presença do forasteiro Douglas e o mistério da viúva Louise com a jovem Susana; as pequenas histórias de Honório de Medeiros (De uma longa e áspera caminhada); A bela narrativa do Sapo de Pedra e a Magia do Feiticeiro (Raimundo Inácio) e, por fim, temporariamente, Da Caverna à luz, de André Paganelli.

         Desse punhado de livros, atrevo-me a fazer deduções lúdicas, telúricas ou realistas? Nem sei o que! Mas sempre me encontro com A República de Platão, em sua parte sobre o Mistério da Caverna.

         A Caverna de Platão sempre está presente em variadas coisas do cotidiano – seja nas questões ideológicas políticas, na literatura, na própria existência. Explico:

I – Quando nos fechamos na interpretação das ideologias, de maneira hermética, temos a impressão apenas do que se encontra fechada naquele conteúdo teórico, fazendo juízo de valor destorcido das coisas do mundo, até que elas recebam a luz da realidade fática, daí saírem os seus intérpretes fundamentalistas ou existencialistas.

II – Na literatura, alguns se enclausuram nas suas leituras individualistas, sem o clareamento da luz e transmitem seus conhecimentos, muitas vezes abundantes, em escritos ininteligíveis porque numa linguagem que não chega aos demais viventes, tornando-se, assim, o homem, ou melhor, a criatura da caverna, conhecedor de uma realidade sem luz, sem alcance fora das sombras das paredes iluminadas pela fogueira;

III – A existência carece de conhecimento, eruditos ou populares, mas integralmente compreensíveis no cotidiano, sem a vaidade (que é uma caverna) de apenas enaltecer a si próprio, empurrando de goela abaixo publicações que, de tão pesadas, não permitem acesso à plebe rude.

         Graças ao Criador, nunca passei pela Caverna, pois tenho a certeza de que, sem erudição, consigo penetrar o coração dos meus poucos leitores, trazendo-lhes lembranças, saudades e experiência.

         Fico gratificado quando alguém informa que gostou da minha prosa. E espero que não seja só por gentileza. (O elogio gratuito é outra caverna). O silêncio tem luz própria.

Esse é o motivo da minha possível imortalidade e não a pompa de vestes acadêmicas, a pose de intelectual ou a empáfia da sabedoria – que não tenho. Tomando por empréstimo dito do Professor Mário Porto – o que interessa é o amor do meu semelhante e a salvação da minha alma.

         Como faz bem o mar, a luz e a brisa – eles nos indicam a nossa finitude, a nossa mortalidade, a humanidade de ser e até a falta de lucidez ao escrever esses mal traçado textos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

 

Padre Sátiro Cavalcanti Dantas

Nenhum lugar comum, nenhuma palavra de efeitos, contendo exaltação, louvor e cântico evolutivo de benemerência e projeções iluminativas, personalizando um ser humano, verdadeiro monumento de grandeza material e espiritual, na mais legítima expressão do termo, seriam qualificativos excessivos em se tratando de Padre Sátiro Cavalcanti Dantas.

Por isso, a Academia Mossoroense de Letras – AMOL, através do seu presidente, com  aquiescência de todos os seus integrantes, torna público, a admiração, o respeito, os louvores e os mais elevados encômios, através  desta proclamação, ao acadêmico Sátiro Cavalcanti Dantas, titular da cadeira Nº11, que tem como Patrono, Luiz Ferreira Cunha da Mota, nesta magnifica data, que se torna mais significativa e mais importante, por representar o dia do seu nascimento; e por honrar e dignificar com a sua presença iluminada, por sua grandeza e nobreza, não só a nossa entidade, AMOL, bem como a todas aquelas a que pertence, dando o valor da sua inteligência, da sua cultura, e da reconhecida elevação de  espírito como sacerdote, pondo nas alturas o seu sagrado ministério.

Mossoró, (RN) 22 de janeiro de 2023

 

Elder Heronildes da Silva

Presidente da AMOL

 A paz e a humanidade

Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

Paz, palavra diminuta, exprime pensamento prolixo, profundo e crucial para o homem. Comum em textos religiosos, documentos oficiais, plataformas políticas, discursos e mensagens individuais, é muito mais escrita e pronunciada do que vivida. Esteja onde estiver, preso a qualquer circunstância, o vocábulo paz tem significado profuso, extraordinário, tanto no âmbito pessoal, quanto nas inter-relações humanas, das mais íntimas e particulares às mais amplas possíveis. O significado é maior quando implica paz de espírito, paz na consciência, ou sentimento de harmonia com Deus, com a vida e com o mundo. O oposto dá lugar ao desespero, à angústia e à crise de culpa, que podem levar a gestos extremos, tal qual o exemplar e histórico episódio do suicídio de Judas. Isto remete a São Francisco de Assis: “Para pregar a Paz, primeiro você deve ter a Paz dentro de você”.
Justiça, liberdade e paz no mundo constituem os fundamentos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU, em 1948. A paz está em todas as constituições, é defendida em prosa e cantada em verso, mas, a cada dia, parece se tornar mais expressão de retórica, distante da realidade. Seriam o egoísmo, a ambição e a agressividade inerentes aos seres humanos e, portanto, causadores de violência tão dispersa? Acreditamos nas virtudes superando os pecados, nos bons vencendo os maus, no amor acima do ódio. Em meio a tantas miséria e injustiças, a tantas mortes violentas e tantas guerras, parece-nos que o homem nunca esteve tão carente de Deus. Jesus proclamou: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz, para que a minha alegria esteja em vós e seja perfeita a vossa alegria”. Por que a humanidade não O escuta?
A paz predomina quando não somente se apregoa mas também se pratica a igualdade de direitos. Pode-se obter a paz social somente combatendo a violência urbana e o crime organizado, aumentando o efetivo policial e dando-lhe mais treinamento e armas? O correto é identificar as causas e corrigi-las. Por que não levar todas as crianças e adolescentes para a escola, atendendo-os nas suas diversas fases de desenvolvimento por projeto pedagógico de qualidade? Seria plantar hoje a semente da frondosa árvore de paz do amanhã. Nelson Mandela (1918-2013), um dos maiores líderes políticos do mundo no século XX, venceu o Apartheid da África do Sul, movimento que segregava a maioria negra do seu país. Em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, e, no ano seguinte, sagrou-se vitorioso na primeira eleição democrática para Presidente da África do Sul. É de sua autoria uma das mais expressivas frases sobre o valor da educação: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.
O Professor Paulo Bonavides (1925-2020), talvez o maior constitucionalista brasileiro contemporâneo, reconhecido no Brasil e no exterior, em artigo publicado na Folha, há cerca de 15 anos, sob o título O Direito à paz, assim se expressou: “O Direito à paz é o direito natural dos povos. Direito que esteve em estado de natureza no contratualismo social de Rousseau e que ficou implícito como um dogma na paz perpétua de Kant. (...) Paz, portanto, em seu sentido mais profundo, perpassado de valores domiciliados na alma da humanidade”.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023


Marcelo Alves

O nível do policial

​Vou tratar hoje de dois assuntos controversos nas letras. A questão do gênero ou da tipologia da literatura, que é bastante controversa. Grandes obras normalmente não se conformam às regras do gênero; e muitos críticos literários sequer reconhecem a existência desse conceito (de gênero da literatura). Eu já acho que essa classificação é possível. Reconheço que uma das minhas literaturas preferidas, a literatura policial ou detetivesca, como literatura de massa, é um gênero bem definido. E aqui eu chego à segunda controvérsia, na qual me deterei amiúde: a literatura de massa, popular, como a dos romances policiais, pode ser uma “alta” literatura?

​Houve um tempo em que a divisão entre “alta” e “baixa” literatura era visível ou ao menos reconhecida/propagada pelos entendidos do assunto. Como registra Miklós Szabolcsi (em “Literatura universal do século XX: principais correntes”, Editora Universidade de Brasília, 1990), é “possível traçar uma linha divisória entre as duas espécies de literatura, com base em diversos pontos de vista, sejam os da sociologia da literatura ou da estética, sejam os referentes às diferenças de função. O comum mesmo é citar, a título de fundamentação, as narrativas reiterativas, de produção fácil e compostas por módulos já prontos, que têm o poder de emocionar e horrorizar com facilidade e são caracterizadas pela trivialidade do texto. Pode acrescentar-se, no entanto, a possibilidade de recepção rápida, a compreensão sem dificuldades e, finalmente, determinados procedimentos ligados à difusão e à produção. Mas são critérios incertos e discutíveis. (...) O fato é que as pegadas das obras arroladas nesse gênero podem ser acompanhadas a partir do século XVIII. A evidente divisão da literatura ‘alta’ e ‘baixa’ ou ‘trivial’ consolida-se no final do século XIX, simultaneamente com o fato que é sua causa: a ‘alta’ literatura vai se tornando excludente, em face das dificuldades que oferece para a compreensão”.

​Todavia, sobretudo a partir do começo do século XX, os territórios da “alta” e da “baixa” literatura se expandiram causando uma mistura entre os seus conjuntos. Como explica Szabolcsi, “de um lado, porque a vanguarda destrói os limites estabelecidos entre a arte ‘elevada’ (de elite) e a ‘inferior’ (popular), de outro, porque, em função de causas técnicas e comerciais, cresce o número de obras culturais modernas que, empregando as conquistas da literatura ‘superior’ e assimilando-lhe a cosmovisão e as técnicas, passam a prometer leitura rápida e leve, diversão e esquecimento. O best seller, o êxito de livraria, não é simplesmente uma leitura soporífera e dissuasiva. Frequentemente, representa correntes formativas e excitantes, que conquistam grande parcela de leitores-consumidores”. Já tratei até desse tema e citei Graham Greene, Morris West e John Le Carré, escrevendo aventuras, thrillers, policiais ou romances de espionagem, como perfeitos casos de best-sellers que realmente escreviam bem.

​O que dizer da qualidade dos precursores do romance policial? De Edgar Allan Poe, por exemplo, “com sua reconstrução intelectual dos crimes”? Na verdade, depois de outros precursores do século XIX, como Émile Gaboriau e Maurice Leblanc, a leitura do policial assiste “ao surgimento de clássicos como Conan Doyle e Edgar Wallace e, a partir dos anos 30, com Agatha Christie e Georges Simenon. Tornam-se parte integrante da literatura, em face das exigências de um amplo círculo de leitores, que deseja a sobrevivência do romantismo dos bandidos e mostra-se ávido da investigação e das emoções da adivinhação dos enigmas. Tanto é verdade que, a seguir, instalam-se profundamente na estrutura literária, a ponto de obras ‘elevadas’ passarem a fazer uso dos recursos e das máscaras do romance policial. Primeiro, com G.K. Chesterton; depois, com Grahan Greene, Friedrich Dürrenmatt, Max Frisch e o nouveau roman francês, a ponto de diluir, aqui também, as fronteiras entre os dois estilos”. E podemos citar outras referências do século XX, como Dashiel Hammett e Raymand Chandler, suprassumos do policial noir, ou Erle Stanley Gardner, que nos dá o tipo jurídico do advogado-detetive, com o seu Perry Mason. E por aí vai.

​

Na verdade, para mim, não existe uma barreira intransponível à literatura de massas, em especial à literatura policial/detetivesca, ao país da “alta” literatura. Desconfio de Tzvetan Todorov quando afirma (em “Poética da Prosa”, Martins Fontes, 2003): “quem quiser ‘embelezar’ o romance policial, faz ‘literatura’ e não romance policial”. Acredito que faz os dois. E dou como exemplo definitivo Umberto Eco. Alguém vai me dizer que “O nome da rosa” (1980) não é altíssima literatura detetivesca?

Marcelo Alves Dias de Souza

Procurador Regional da República

Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sábado, 21 de janeiro de 2023

 Jair Eloi de Souza

ASSIM ESCREVÍ:
SOBRE O SOCIALISMO CABOCLO DE MINHA AVÓ ANINHA.
Parece que a vejo de olhar terno, face macerada pelo tempo e pelas intempéries das eras de magrém. Uma crença imensurável no Padrinho Cícero do Juazeiro. Colecionava rosários benzidos por este, e os usava todos no pescoço, como se aqueles dessem consistência a sua fé cabocla.
Na parede os "Registros", onde deslumbrava Santa Luzia, com seus olhos esverdeados, e a foto do Padrinho, com sua túnica preta, chapéu de abas arredondas e o cajado na mão. Lá na canarinha, o oratório, com muitas figuras de Santos que fazem a cristandade, a começar pela família do carpinteiro José. Todos ornados de fitas vermelhas e azuis. Ali era o lugar de suas orações para amenizar os aperreios da família, a reza sempre era uma oferenda a todos, até aos amigos.
Seus ancestrais, "os Baos" eram arrecursados, animais de cascos rachados, criação ovina, muares de monta e glebas na ribanceira do Piranhas. Mas, o empobrecimento viera a partir do último quartel do Século XIX, secas tiranas (1877-1879), 1898, e as mais destruidoras do Século pretérito (1915 e 1919). Dizia-me ela que nessas últimas, foram-se todos os bichos, ficaram somente as amarras e os chocalhos e o arraso da fome, que matara muitos cristãos.
Tinha minha avó uma praxe, antes dos dias grandes da Semana Santa, fazia uma coleta de grãos junto aos amigos e parentes e toda a arrecadação na quinta e sexta-feira, distribuíam com os mais pobres que acorriam a sua casa. Nessa tarefa, eu ainda infante, lhe ajudava, pondo uma porção de gêneros em cada saquinho dos que pediam para jejuar. Esse era o lado socialista da alma de minha avó Aninha.
* ANA VICÊNCIA DA CONCEIÇÃO: Minha avó materna.
J.E.S.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

 

VIDA COMPLICADA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Não existe mais critério para balizar as informações ou alterações sobre os riscos da saúde humana. As referências qualitativas mudam a cada ano. Não há unidade científica sobre esta ou aquela questão que afeta o ambiente vital. Falo assim porque ouvi e assisti as últimas prescrições pela tv sobre os produtos e os microorganismos causadores de infecções e doenças que rondam os ares e lares brasileiros. São fatos que só podem ser discutidos pela mediação confrontativa. São conselhos de saúde que conheço desde o tempo dos almanaques Capivarol, Jeca Tatu ou do Biotônico. Eles atendiam a suficiência cultural do povo através da mensagem simples e simplificada porque se vivia um tempo ingênuo e menos complicado.

Hoje, recomenda-se que a descarga do vaso sanitário, após o ato defecatório, somente seja acionada com a tampa fechada a fim de evitar a proliferação de micro-organismos. Esses vilões invisíveis podem infectar escovas de dentes expostas, sabonetes, pastas, cremes e tudo que habita o espaço da privada. Principalmente, seu usuário. Foi aí que remeti o pensamento para o tempo em que não havia nos banheiros o bidê, o chuveiro e a descarga. Só a jarra, tina, tonel, tanque e a milagrosa lata de querosene que empurrava, canal aberto, o bolo fecal diretamente para a fossa. Era a higiene daquela época antes da chegada da suíte, que me parece, mesmo cercada do conforto moderno – tornou-se hospedeira dos mesmos coliformes fecais numa quadra doentia e propícia a contaminações. Que saudade das tratáveis verminoses!

Nas geladeiras, por exemplo, é inconcebível a mistura de alimentos. É o que sugere a autoridade da saúde através do canal da Globo. Em priscas eras, juntava-se carne, ovos, peixe, frutas, verduras, legumes, bebidas, leite, conservas e enlatados de todo o tipo na famosa geladeira Cônsul ou Gelomatic à querosene, sem problemas. Nos dias da moda, estão proibindo agrupar todos os gêneros dentro do refrigerador. Latas de carne para cães ou gatos nem pensar. Somente acondicionadas em papel-filme apropriado. No queijo reside o risco da bactéria salmonella. Nas latas, a ferrugem é ninho de germes. Mas, o golpe emocional veio depois: os adoçantes, de modo geral, são cancerígenos. Sabíamos que a sacarina e o ciclamato de sódio teriam sido assim pesquisados e rotulados. Salvava-se o aspartame. Todavia, a mutabilidade científica da pesquisa médica é inexorável. Caiu o último produto químico popular que substituia o açúcar.

Um diagnóstico médico virou doença nos ambulatórios e consultórios  na atualidade: virose. Gripe que se curava antigamente com analgésico comum hoje é virose. Disenteria inespecífica também. Até sintomas de complicados estados patológicos são pressagiados de virose. Os vírus, tão intensamente divulgados e disseminados, tornaram-se realidade biológica e exigem de nós automatismo defensivo. O tema não é vulgar porque trata de um hábito fisiológico que integra o preocupante cotidiano humano. Na tarefa manual e rudimentar, um famoso cronista social trouxe, certa vez, dos Estados Unidos, a novidade incomparável de limpar-se, após a evacuação, através de suave instrumento mecânico de contato. E com ele veio a dica de que ninguém se contamina por falta de higiene. Veja o leitor como tudo hoje é complicado.

Depreende-se que é preciso uma lei contra as impurezas. O mundo fede há muito tempo. Mas, o ser humano é o seu principal agente. Nessa eleição, o assunto foi esquecido. Nenhum candidato sustentou a defesa da saúde humana, nem da animal com tantos pets instalados em Natal. Perderam o voto dos bichinhos.

 

(*) Escritor

 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

 



 

A Coluna Prestes no Rio Grande do Norte - I

Tomislav R. Femenick – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN

 

A Coluna Prestes era formada por militares rebeldes, principalmente pelos de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Seus principais líderes foram Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa. Em 1924 alguns deles já tinham tentado fazer uma revolução, tomando o Forte de Copacabana, mas fracassaram. Formados em pelotões, a Coluna percorreu cerca de vinte e cinco mil quilômetros pelo interior do país, fazendo uma “guerra de movimentos” e enfrentando as forças do governo. No final de 1926, com a metade dos homens dizimados pela cólera e sem condições de continuar a luta, refugiou- se na Bolívia.

Porém no início daquele ano, no dia 3 de fevereiro, tropas rebeldes da Coluna Prestes realizaram o seu primeiro ataque no Rio Grande do Norte, contra a cidade de São Miguel. A luta foi travada por 70 revoltosos, militares treinados, contra quatro soldados da polícia do Estado e 28 atiradores (pistoleiros?), “num tiroteio que durou das quatro horas da tarde até ao crepúsculo, com um rebelde morto e dois legalistas feridos. Um destes [...] caiu nas mãos dos rebeldes e foi degolado”. A população mais abastada de São Miguel fez uma verdadeira debandada da cidade, quando se noticiou que outros mil rebeldes estavam se dirigindo para lá. No dia seguinte a cidade foi saqueada pelos integrantes da Coluna Prestes, que invadiam residências e lojas “arrebentando móveis e destruindo objetos que não podiam usar ou transportar. [...] Partiram no mesmo dia em que chegaram, depois de queimar o [Cartório de] Registro de Título e Documento” (SILVA, 1966; MACAULAY, 1977). De São Miguel foram para Luiz Gomes, onde repetiram o saque, invadiram e destruíram lojas e residências, levando tudo o que podiam, e novamente incendiaram o Cartório local.

Antes desses ataques, várias cidades do Estado se viram ameaçadas de invasão pelos tenentes rebeldes. No dia 31 de janeiro, quando o jovem Padre Luiz Ferreira da Mota (o célebre Padre Mota que depois viria a ser vigário geral, prefeito e deputado estadual) tomava posse como o novo vigário de Mossoró, correu a notícia de que os revoltosos da Coluna Prestes estavam na iminência de atacar a cidade. Em ata paroquial, o Padre Mota registrou o impacto que a notícia de um provável ataque da Coluna Prestes a Mossoró teve entre a população da cidade. Dizia ele:

“Neste mesmo dia, espalhou-se pela cidade o terror da notícia de que os revoltosos se encaminhavam pa­ra nossas fronteiras, noticia que foi divulgada pe­la manhã, e logo começou o êxodo da população. Quando me dirigia para a Matriz, às 8 e meia, para a posse, fui, com surpresa, avisado do que se passava e sobretudo de que certas pessoas de autorida­de e responsabilidade já haviam abandonado, preci­pitadamente, a cidade. Diante desta situação, resolvi fazer um apelo de tranquilidade ao público, para melhor se resolver a situação e convocar uma sessão de todas as autoridades e pessoas de responsabili­dade, o que fiz de púlpito, com palavras repassadas de fé no patrocínio de nossa Virgem Padroeira, Santa Luzia, e também de confiança no patriotismo do nos­so povo. A sessão realizou-se no mesmo dia, a 1 ho­ra da tarde, no edifício do Colégio Diocesano, com grande comparecimento de povo e nela tomaram-se me­didas que são do domínio público. Daí por diante, nos dias de aflição e apreensão pa­ra o nosso povo, sempre tomei a dianteira de todas as manifestações cívico-patrióticas pela defesa da nossa cidade, procurando, sobretudo despertar o ânimo do povo, aconselhando a calma, prudência e per­manência na cidade, para guarda dos acontecimentos. Aprouve a Deus que tudo se passasse sem desgraças e atropelos para nosso povo; os rebeldes tomaram outro rumo e nossa população voltou à paz do costu­me, que a caracteriza. Todos [nós] reconhecemos, nesta salvação de tamanho fla­gelo, [que foi] o dedo de Deus que nos protegeu, por intercessão da nossa querida Padroeira Santa Luzia. Em reconhecimento de tão grande graça, cantou-se um ‘Te Deum’ solene, em ação de graças, no domingo, 21, pelas 5 horas da tarde” – Texto extraído do livro do tombo da igreja de Santa Luzia, em Mossoró-RN.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

 

O vandalismo, as suas origens e formas

Padre João Medeiros Filho

A humanidade progride célere em muitos aspectos, notadamente tecnológicos. Entretanto, o homem evoluiu pouco interiormente. Comporta-se em certas circunstâncias como os vândalos medievais. Estes, segundo alguns historiadores, dentre os quais, Procópio de Cesareia, procedem de uma tribo germânica, sediada em Cartago (cidade da Tunísia, na África do Norte). O termo origina-se provavelmente de “wandalen” (os que vagam, em alemão antigo). Em 455, invadiram o Império Romano, saquearam a sua sede e arruinaram importantes obras de arte. Surgiu então a palavra vandalismo, definindo ações irracionais de depredação de bens públicos e privados. Segundo etimólogos, o termo foi usado pela primeira vez em 1794 pelo bispo Henri Grégoire, em Blois (França), para denunciar a destruição de objetos culturais, durante a Revolução Francesa. O étimo foi dicionarizado, a partir da derrubada da Coluna de Vendôme (Paris), símbolo do poder napoleônico. Com o tempo, a palavra adquiriu a conotação de destruir, destroçar etc. A origem de tais ações deletérias está no radicalismo ideológico, político, cultural ou religioso. Na Antiguidade, as diferenças teológicas entre arianos e católicos foram uma constante fonte de tensões e batalhas.  

Tal fenômeno resiste às civilizações. Na Segunda Guerra Mundial, obras históricas e artísticas foram saqueadas nos museus da Europa. Em 2001, assistiu-se à demolição da estátua de Buda, do século IV.  Em 2015, a parte antiga de Palmira, cidade síria fundada no período neolítico, foi devastada. Vândalos continuam ativos, inclusive no Brasil hodierno. Ao passar por várias cidades, encontram-se monumentos históricos pichados ou parcialmente arrasados, sob o olhar complacente de alguns. A impunidade torna-se um incentivo aos novos bárbaros, sedentos de sórdidas vanglórias. Propriedades privadas não ficam imunes a esses predadores. Lugar algum está a salvo dessas agressões. É deplorável verificar que nem sempre seus autores são pessoas de nível socioeconômico ou intelectual elementar. Ao adentrar em certos prédios universitários, escolas e logradouros públicos depara-se com barbáries.

Repudiamos veementemente todo e qualquer tipo de vandalismo. Um erro não justifica outro. É uma estultícia, porque os bens materiais não são culpados pelos atos reprováveis de autoridades ou proprietários. No entanto, como cristãos, caberia refletir sobre algumas realidades, denominadas pelo Papa Francisco como vandalismos invisíveis. “Estes, apesar de silenciosos e aparentemente não violentos, podem deixar sequelas físicas, psíquicas, morais, e econômicas irreversíveis.” Há dificuldade em tipificar como ações de vandalismo desmandos e improbidades administrativas, deteriorando o ente público, ética e economicamente. Isso poderá desencadear movimentos de protesto e revolta. Pessoas reagem contra abusos que consideram graves. Não há controle. Portanto, inescrupulosos se misturam, extravasando sua violência. Têm atitudes danosas, como fizeram os vândalos, em Roma e alhures, noutros momentos da História. Em determinados lugares e ocasiões, alguns movimentos organizados tentam disseminar o medo ou ampliar o caos. 

O vandalismo não tem limites, pátria ou lado. Ele não é apenas material. Lamentavelmente, o patrimônio público é irresponsavelmente o mais atingido por aqueles que deveriam conservá-lo. Afinal, vivem-se tempos do “é proibido proibir”, da cômoda presunção de inocência, da retórica dos defensores de “direitos humanos”. Os malefícios do vandalismo invisível, afirma o atual Sumo Pontífice, “fazem estragos e vítimas, não obstante sua forma sutil e sorrateira, entretanto não menos perniciosa.” Perguntemo-nos: saquear o erário, à sorrelfa, não se configura em um tipo de vandalismo? Não o será também deixar por desídia hospitais, estradas e escolas públicas funcionando precariamente? Como classificar a eventual sede institucional de revanche? Cientistas políticos e sociais indagam: aprovar leis levianamente, desprezando a transparência, em detrimento do bem-estar do povo, não se enquadraria nessa espécie de destruição? Linguistas interpelam: impor sem convencimento e diálogo a linguagem neutra não é aviltar o idioma pátrio e sua norma culta? À luz da Ética, atitudes vandálicas são injustificáveis. Lê-se no Livro dos Salmos: “Muitos têm boca, mas não falam; olhos, mas não veem; ouvidos, mas não ouvem” (Sl 115/113-B, 5-6). Nos dias atuais, quem terá a coragem e a dignidade de bater no peito e fazer o “mea culpa”?  Diz ainda o salmista: “Até quando, Senhor Deus, os ímpios triunfarão?” (Sl 94/93, 3).

 

UMA HERDADE À BEIRA-MAR

                                                                       -  Horácio Paiva*

                        A realidade é a opção do provável. A consciência tem muitos caminhos, mas apenas um, de fato, nos é dado viver em nosso mundo. Os demais pertencem à definição dos universos paralelos, traçada pela magia lógica da física quântica.

                        A realidade

                        é a opção do provável  -

                        o real é Deus.

                        Porém não é a filosofia agora o que nos importa, mas a poesia, com o seu aglomerado infinito de sonhos, à disposição do imaginário de cada um. Afinal,

 

                        Todo homem

                        traz

                        uma mensagem.

 

                        Todo homem

                        é mensageiro

                        dos deuses.

                        Quanto a mim, cumpro meu papel contemplativo, ou missão: sou um sonhador nato, isto é, sonho muito  -  o que não significa, necessariamente, originalidade. Desses sonhos, inúmeras vezes, nasceram ações e realidades que foram úteis não apenas a mim, mas também ao meu próximo. Apraz-me, por exemplo, haver participado intensamente, e em momentos decisivos, de lutas sociais.

                        A par disto, sou igualmente um sonhador individual, e, neste caso, nem sempre a contemplação leva à ação, contentando-me no campo prazeroso e desafiador das divagações espirituais, devocionais ou mesmo sensoriais. Quanto a estas últimas, e não obstante por vezes fazer residência numa fazenda, no interior do mato, o meu amor à natureza tem duas almas, levando-me a um sítio à beira-mar, acolhedor ao encontro com a poesia que, como Vênus, parece haver nascido do mar, espelho de uma beleza absoluta onde, desprendidos, nos deixamos ficar  -  como no encanto desses versos de Fernando Pessoa:

                         “Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,

                        Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar”.

                        Ou no embalo dramático desses outros, também do grande poeta, que lembram a saga dos antigos navegadores portugueses, desbravadores do Mar Oceano:

                        “Ó mar salgado,

                        Quanto desse sal

                        São lágrimas de Portugal.”

                        Ah, Vênus!... Ah, o diálogo amoroso com a amada no alvorecer da clara manhã!... Não é o mesmo que sugere o anjo Amadeus, no andante pausado e quase sacro de seu Concerto 21 para piano?

                        Disse-me certa vez o meu saudoso amigo Luiz Evangelista de Oliveira, cearense nascido no vale do Jaguaribe e médico dos marítimos de Macau, num tempo que jamais se perderá, preferir sítios que reunissem o sertão e o mar. Havia nele  -  e certamente ainda há, onde estiver  -  essas duas almas.

                        Corria o ano de 1916, no fragor da Primeira Grande Guerra, quando o poeta norte-americano Alan Seeger, com 28 anos de idade, lutava nas fileiras das tropas aliadas. Às vésperas de morrer em combate, escreveu um poema intitulado “Tenho um Encontro com a Morte” (“I Have a Rendez-vous with Death”), cujos versos profeticamente anunciavam o seu fim trágico:

                        “Eu tenho um encontro com a morte,

                        E jamais a esse encontro eu faltarei.” 

                        O amor, a vida e a morte sempre foram o universo da grande poesia... Miguel Hernández:

                        “Llegó con três heridas:

                        La del amor,

                        La de la muerte,

                        La de la vida.”

                        O meu encontro com a poesia numa herdade à beira-mar, mesclado de serenidade, sonho e prazer, terá o tempo completo de um dia  -  mas não de precisas vinte e quatro horas  -, observadas, porém, essas quatro estações: manhã, meio-dia, tarde e noite. Divirto-me a imaginar o que estaria recordando, lendo ou ouvindo...

                        E não se surpreendam se encontrarem a manhã repleta de música, já que não poderei esquecer o primeiro movimento da nona sinfonia de Beethoven  -  música absoluta, como diria Carpeaux  -  e o encanto da “Ode à Alegria”, com os belos, sonoros e românticos versos de Schiller, ao final. 

                        O lugar e a hora me farão mais uma vez recordar essa estranha e diáfana Annabel Lee, em seu reino à beira-mar, e cujo amor fora invejado pelos próprios serafins, tema de memorável poema de Edgar Allan Pöe.

                        “Eu era criança, ela era uma criança

                                    no reino à beira-mar,

                        mas nosso amor chegava, ó Annabel Lee,

                                    o amor a ultrapassar,

                        amor que os próprios serafins celestes

                                    vieram a invejar.”

                        O meio-dia tropical, porém, requer um poema forte, de crença de força na vida, e lembro o nosso Gonçalves Dias:

                        “Se a vida é combate

                        Que aos fracos abate,

                        Aos fortes, aos bravos

                        Só pode exaltar.”

                        Ainda ao meio-dia, nordestino, pleno de sol e luz, vejo e escuto a natureza do semiárido, onde o raios de sol, além dos passarinhos, cantam.

                        Os raios de sol gorjeiam

                        na límpida claridade

                        do meio-dia.

                        À tarde, na hora frágil que antecede o pôr do sol, estarei nostálgico e pensativo. Recordarei a infância e a casa de meu pai, e buscarei viver esse mundo aparentemente perdido, refugiando-me à sombra do limoeiro que encontro em Antonio Machado:

                         “E sou sozinho no pátio silencioso

                        buscando uma ilusão cândida e velha.”

 

                        “Esse aroma evocativo dos fantasmas

                        das fragrâncias virginais e já desfeitas.”

                        Mas a noite é a hora do recolhimento em Deus e na esperança  -  la fuente que mana y corre  -  e entrego-me à leitura de San Juan de la Cruz e de sua obra-prima, quiçá de toda a poesia escrita em língua espanhola, “Noche Obscura”. Ouvindo Bach, naturalmente, e acompanhando Jesus no Horto das Oliveiras, como também o faz o inspirado compositor em sua sublime Ária na Corda Sol ...

                        “Sin outra luz y guia

                        sino la que en el corazón ardia.”

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 (*) Horácio de Paiva Oliveira  -  Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.