quarta-feira, 14 de setembro de 2022

 




FACE OCULTA

 

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Contemplo do alto a floresta de edifícios de Natal e me sinto soterrado nas fundações. Não consigo emergir à superfície de suas vaidades. A cidade virou feira de remarcações e os falsos valores estão arrematando caráter em banda de lata. Nunca a urbe dos reis magos sofreu tanto da coluna vertebral. Prefiro aquela pacata cidadela que não depositava caráter em conta bancária. Havia concórdia entre os cidadãos e amizade entre os vizinhos. Era o tempo em que a insônia provocada pela riqueza fazia emagrecer. Hoje, os sócios ocultos do erário público dormem com a justiça e celebram com a crônica social.

Dia passado, num escritório de advocacia assisti uma cena típica dos novos tempos. Ao telefone, um conhecido causídico homenageava o seu escritório revelando que recebia a visita de fulano de tal, político, médico e agora vivendo apenas da profissão. Era uma carta fora do baralho das riquezas emergentes. O obstetra aguardou curioso do outro lado da linha uma referência elogiosa mas não veio. O advogado desligou parecendo constrangido na fisionomia como se arrependido estivesse pela citação do visitante. Constrangimento. Ao lado, entendi que o médico passará a figurar como paciente da UTI dos novos lisos do Rio Grande do Norte. Virava estatística entre os decaídos. Assim é Natal, a cidade que mais negocia apartamentos no nordeste do País. Onde se conhece o preço de tudo e não se sabe o valor de nada. Muitos cobram comissão e não pagam dízimo a igreja mais próxima.

A difusa fluidez temporal da vida não comove o insensato que segrega o próximo e que não pensa na noite sem face e derradeira do ataúde. Outro dia foi a vez de um mequetrefe, assessor funcional de uma fundação estadual, que demonstrou sua vocação mórbida de bajulador e subserviente por dissimular e “resguardar” o seu chefe de contato com os que desejam dialogar sobre o serviço público. Deve viver numa jaula, limitado às imposições de uma vida miúda, repleta de frustrações. Outro aspecto digno de nota é o daqueles que, diante do infortúnio alheio, ancoram suas amarras na mais profunda indiferença. Amizade para eles virou interesse, esbulho, vantagem, lucro, contrato leonino, no qual é sempre beneficiário. Perderam a densidade moral, a identidade, a musculatura dos gestos e dos passos que fazem história.

Hoje, em nossa capital, ainda se fala sobre Zé Areia, Newton Navarro, Câmara Cascudo, Alberto Maranhão, Augusto Severo, Albimar Marinho e tantos outros nomes da boemia, da política, da literatura, da medicina, da advocacia, etc. Mas os atuais poderosos da elite social que impõem iniqüidades à mídia não serão lembrados amanhã porque nada fazem por Natal. Saqueiam-na. São os predadores de plantão, os negocistas.

Ante o espanto de uma Natal de alma dilacerada preciso recuperar minha auto-estima. Deduzo que a burguesia não fede. Abomináveis são as rugas de sua infinita vaidade e grave insensibilidade estampadas no rosto dos jornais. Enquanto isso, nós, cristãos imolados do “baile fiscal” continuaremos lavrando o nosso campo ensanguentado de acácias douradas dos jardins de Natal.

Para encerrar, após um chatérrimo fim de semana de longa travessia do horário eleitoral, lembrei-me que até agora as autoridades da saúde municipal, nada fizeram para enfrentar a invasão iminente dos mosquitos da dengue. Os infectologistas já alertaram sobre o perigo dos imóveis desocupados, mas fechados. Enquanto isso, do fundo eleitoral tem dinheiro pra tudo. Essa vida é mesmo um ziguezague de contradições. E por outro lado, os pobres gemem nos hospitais sob o peso da matéria maldosa do escárnio.

(*) Escritor.


segunda-feira, 12 de setembro de 2022

 

Reluz e é ouro
É difícil classificar a obra de William Shakespeare (1564-1616). Ela transcende época e lugar. Não pertence a qualquer religião, filosofia, ciência ou profissão, embora perpasse e instigue quase todas elas, aqui incluindo o que chamamos de “direito” (aliás, os elisabetanos da época do bardo eram fascinados por temas jurídicos). Isso é fato.
Todavia, embora o direito esteja presente em quase todas as peças de Shakespeare, a comédia “O Mercador de Veneza” (1597), ao lado de “Medida por Medida” (1604), é considerada uma das duas obras marcadamente “jurídicas” do maior escritor da língua inglesa. Isso é o que nos diz Daniel J. Kornstein, em “Kill All the Lawyers? Shakespeare’s Legal Appeal” (University of Nebraska Press, 2005), expressando o que parece ser um consenso entre os especialistas.
Quanto ao enredo de “O Mercador de Veneza”, assim o resume o site do British Council no Brasil (instituição à qual sempre serei grato): “Na peça, o nobre Bassânio está falido e precisa de dinheiro para viajar e conquistar Pórcia, uma rica e bela herdeira. A fim de ajudar o amigo, o comerciante Antônio pede um empréstimo a Shylock, um agiota judeu. Shylock aceita fazer o acordo, desde que os rapazes concordem com uma proposta insólita: se o pagamento não acontecer como combinado, Antônio terá de quitar a dívida com uma libra de carne do próprio corpo! É que Shylock vê nessa negociação a chance de se vingar de Antônio, que várias vezes o ofendera por sua origem judaica. Como o mercador não consegue honrar seu compromisso, o caso vai parar no tribunal. Para defender Antônio, Pórcia se disfarça de advogado e acaba encontrando uma solução surpreendente!”.
Desde o princípio da trama de “O Mercador de Veneza”, o direito aparece na sua multiplicidade de aspectos. Com a ajuda do “Cambridge Student Guide – Shakespeare – The Merchant of Venice” (por Robert Smith, Cambridge University Press, 2006), posso distinguir alguns deles: (i) a questão do recorrente preconceito para com o judeu Shylock, o que faz deste, modernamente, um misto de vilão e vítima e, quiçá, o grande protagonista da peça (e faz de Shakespeare, para alguns, um antissemita); (ii) o direito contratual, decorrente da qualidade de agiota/usurário de Shylock e exemplificado no contrato de mútuo/empréstimo entre este e Antônio com a inusitada forma de pagamento em uma libra de carne; (iii) a crítica à tradicional e vingativa visão de justiça “olho por olho, dente por dente”, imaginada por Shylock, em prol de uma justiça tendente à misericórdia e ao perdão; (iv) a forma como as profissões legais eram exercidas à época; (v) o tipo de “justiça” exercida in casu, que se afasta do direito comum de então (baseado em precedentes) em direção a uma decisão por equidade, a partir de um senso natural de justiça aplicado às especificações do caso (como se fazia na Corte de Chancelaria elisabetana de então); (vi) a cena de julgamento em si, o que faz da peça também um verdadeiro “courtroom drama”; (vii) e, no que posso considerar o clímax (geral e sobretudo jurídico) da peça, a lição de hermenêutica de Pórcia, que, embora atenta à “letra da lei” e aos “exatos termos” do contrato, chega a uma interpretação deste, em prol de Antônio e para a punição de Shylock, verdadeiramente revolucionária. E mais sobre o direito na estória eu não digo, seja para não causar spoiler, seja para não criar algum tipo de prejulgamento e mesmo para atiçar a curiosidade de vocês.
No mais, “O Mercador de Veneza” não é só direito. Com o apoio da minha edição anotada de “The Merchant of Venice” (editores Jonathan Morris e Robert Smith, Cambridge School Shakespeare Series, Cambridge University Press, 2008), posso relacionar inúmeros outros temas: comércio e usura, amor e ódio, pais e filhos, comédia e tragédia, aparência e realidade (“Nem tudo que reluz é ouro”, lembremos). E ainda ouso acrescentar: a história dos judeus, a bíblia, o papel das mulheres na sociedade, a amizade masculina e por aí vai.
Na verdade, Shakespeare joga luz sobre quase todos os aspectos da ambiência humana, da nossa relação com as instituições e as ideologias, com os outros seres e com a nossa própria psique. Shakespeare é ouro e reluz sobre todos nós. Isso também é fato!
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

 


MORREU A SENHORA DIGNIDADE

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes

         Somente um fato relevante me faria voltar a escrever. Em verdade desde a última Carta de Cotovelo venho suportando uma fadiga, agravada com a covid 19 e sequelas subsequentes, ocupando o meu tempo no silêncio do atelier e fazendo pinturas que ainda alimentam o meu espírito de vivente.

         Na verdade, assumi a viuvez definitivamente. A falta da pessoa amada é uma cruz muito pesada, regada diariamente pela solidão.

         Mas o motivo desta minha prosa foi a morte da Grande Elisabeth II, cuja trajetória de vida acompanhei, desde o seu casamento, a assunção como Rainha da Inglaterra. Mas, com especial destaque, como exemplo de dignidade de uma criatura humana e de Chefe de Estado.

         A notícia me chegou pela televisão, mais ou menos pelas 14 horas e, contrito, pedi a Deus pelo seu espírito.

         Durante alguns longos minutos revivi a sua vetusta missão de Rainha, com mais de 70 anos de reinado. Sobre ela fiz algumas leituras e assisti vários seriados e posso concluir que, ela carregou um fardo pesado, sempre com a demonstração exemplar de dignidade - para mim, o seu traço de maior grandeza.

         Aproveito este momento para justificar aos meus poucos leitores, que as Cartas de Cotovelo foram suspensas porque há dois meses não compareço à minha prazerosa Passargada. Mas o farei quando a primavera voltar – tenho planos para esse findar de existência que já ultrapassou a idade dos meus queridos pais, que tinham muito mais merecimento para estarem vivos.

         Muitas águas têm passado pelo rio da minha vida e de nada me arrependo ao olhar o retrovisor.

         DEUS SALVE A RAINHA e a receba em uma carruagem cheia de anjos e rosas, num  séquito  celestial somente admissível para os justos.


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

 A LUZ QUE NÃO SE APAGA


Valério Mesquita*

Certa vez, o então bispo diocesano de Campina Grande/PB (2005-2011) dom Jaime Vieira Rocha, pediu aos campinenses que não assistissem ao filme “Anjos e Demônios”. O diretor atende pelo nome de Ron Howard e seguiu a sequência difamatória do antecessor “O Código Da Vinci”. Para o mundo, hoje, as quedas da Igreja católica não são mais segredos para ninguém. O papa João Paulo II, em desesperado gesto de humildade cristã, pediu o perdão do Vaticano a todos os habitantes da terra. O pontífice anterior Bento XVI percorreu, o Oriente e o Ocidente buscando as religiões. Enfim, por uma unidade fraternal. O atual papa Francisco foi ao Canadá se reconciliar e pedir perdão aos índigenas vítimas dos maus tratos da igreja no passado. A filme é mais um ensaio fantasioso no sentido de lambuzar os símbolos da igreja católica e do próprio cristianismo global.

Atualmente, esse tipo de cultura profana toma conta da literatura da industria cinematográfica no planeta para auferir lucros, suscitando escândalos sexuais, assassinatos, mutilações, corrupção e tudo que possa denegrir e salpicar Jesus Cristo. 

A Bíblia detém muitos mistérios e símbolos, muitas glórias ainda não decifradas pelo homem. Por que Dan Brown (Código Da Vinci) e o Ron Howard (Anjos e Demônios – filme) não mergulham nessas reflexões de natureza sobrenatural, extraterrena, ditadas pelo Espírito Santo de Deus? Porque se apegam e naufragam nos percalços dos homens que fazem as religiões e, porisso, são sujeitos aos erros, às imperfeições e aos desvios? As igrejas cristãs são molestadas impunemente no mundo ocidental porque a mensagem e o legado que receberam de Jesus Cristo (que está acima de todos), consistem no amor e no perdão, daí a sua morte na cruz. Ele permanece dentro de nós. Se não fossem as igrejas o que seria de nós. Se ruim com elas, pior sem elas.

A oração de São Francisco exprime perfeitamente o que afirmo. Recite-a. O ser humano é dignificado pelo sofrimento, pela humildade e não pelo poder e a riqueza. Cabe-me fazer uma sugestão ao diretor de “Anjos e Demônios” e ao bom ator Tom Hanks: já planejaram filmar sobre o lado negativo das religiões orientais? O islamismo, por exemplo? E exibir o filme em rede continental de cinema e televisão para ver o que acontece? Compareçam lá os escarnecedores plantonistas Dan, Ron e Tom na noite de pré-estréia, sob as luzes e estampidos de atentados e condenações sem fim! No sepultamento deles (os três), ali nos States, ouvindo as badaladas do templo mais próximo, os diretores e produtores hão de perguntar: “Ò Senhor, quais os nomes dos finados da pancada do sino?”. Se o leitor indagar a razão de minha indignação, respondo que é o mesmo direito a eles atribuídos de ofender, difamar e colocar na mente das pessoas o pecado acima da virtude, o mal sobre o bem e a desumanidade em lugar da fé, da esperança e da caridade.

Pergunto em que boletim de ocorrência, documento histórico ou biblioteca foi pesquisado a temática do livro e do filme? Entendo que, quando o papa, o padre, o pastor claudicam as igrejas não devem ser estigmatizadas, perseguidas e discriminadas. Os valores espirituais do ser humano precisam ser respeitados. Pelo menos, bilhões de pessoas no mundo preferem crer no Pai, no Filho e no Espírito Santo do que em Rom, Tom e Dan, pois não asseguram nada a ninguém, nem neste mundo, nem no outro que há de vir. Merecem de nossa parte o amor e a misericórdia. Mas, não a credulidade porque somente de Deus é o reino, o poder e a glória para sempre. Ele é a luz que não se apaga.
O grande escritor e jornalista Otto Lara Resende, citado por Nelson Rodrigues como verdadeiro “logista de frases”, afirmou: “A morte é, de tudo na vida, a única coisa insubornável”. Abro vistas ao fundo eleitoral e aos políticos da eleição deste ano. Por mais que o dinheiro suborne os veículos de comunicação (cinema, jornal, internet, televisão, rádio, ideologias, poder público) ele não prevalecerá sobre Jesus Cristo, porque foi o único que ressucitou dos mortos nesse mundo de ontem, hoje e de amanhã.

(*) Escritor.

 



O Dia da Pátria

Padre João Medeiros Filho

Nestes dias, é importante relembrar o pensamento do filósofo Nicolau de Cusa: “Quem não ama verdadeiramente o seu torrão natal, é indigno dele.” É dever do cristão devotar-lhe um amor sincero. Cristo tinha um afeto especial por sua terra. Chorou sobre Jerusalém, antevendo os dias de infortúnio pelos quais a cidade passaria, em consequência de sua infidelidade a Deus (Lc 19, 41ss). É preciso refletir sobre os destinos da nação. Será que não se deve derramar lágrimas (como Jesus) ao constatar tanta desonestidade material e intelectual, falta de ética e honradez, além do desrespeito às virtudes humanas e cristãs? A pátria é muito mais que os poderes constituídos e seus ocupantes.

Pode parecer pessimismo. Mas, o Brasil está paulatinamente perdendo a sua identidade e consciência moral. Os costumes estão sendo dissolvidos, a dignidade ferida e o pudor bate em debandada. Falam mais alto a conveniência e os interesses partidários ou ideológicos do que o bem-estar do povo. Atualmente, autoridades são execradas, instituições escarnecidas, preceitos éticos envilecidos, comportamentos, por vezes minoritários, sendo impostos. Para muitos, o foco é desconstruir, conseguindo passividade e inércia. Há desencanto nos cidadãos. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina letárgica. Após dois séculos, o Estado é considerado ainda ineficaz para uma multidão. Eça de Queiróz indagava a seus compatriotas: “O país está em crise, onde estão as análises sérias e as luzes postas sobre ele?” E nós, como perguntaremos? É hora de lembrar a Palavra de Deus: “Escutai, povo meu, de mim sairá a lei e o meu direito estabelecerei como luz dos povos” (Is 51, 4).

Os brasileiros provêm de uma variedade cultural e étnica. Isto gerou um país de múltiplas faces com elementos positivos e conflitos, muitos dos quais ainda não resolvidos. A história de uma nação não se resume a personagens e fatos constantes nos livros. Alguns acontecimentos mais decisivos envolvem pessoas que exercem funções de destaque. Entretanto, não se pode desprezar o contributo de tantos anônimos. Qual é a realidade atual do Brasil? Vive-se em inquietação e perplexidade. De quem é a responsabilidade? Uma análise objetiva da conjuntura é tarefa desafiadora. Cada partido, grupo ou pessoa tem seu ponto de vista, com o qual julga e projeta o país. Mas, muitos cidadãos são recalcitrantes e não se abrem a outras opiniões, fixando-se numa visão restrita e parcial da realidade. Assiste-se aos funerais do diálogo!

A situação do Brasil poderia e deveria ser bem melhor, considerando suas riquezas humanas e naturais. Entretanto, persistem incontáveis problemas, resultado da omissão, descaso e leviandade de certos governantes. Destacam-se a marginalização de muitos brasileiros, desigualdade social, diversas formas de violência, deficiente sistema educacional e precário acesso à saúde. Acrescentem-se a isso a manutenção iníqua e nociva de um grupo de privilegiados e a falta de reformas estruturais, há décadas reclamadas. Mudar esse quadro é imprescindível para que se tenha uma nação livre, justa e soberana.

Uma leitura adequada da realidade presente permite projetar o melhor possível para o amanhã. A doutrina social da Igreja apresenta exigências para a formação da sociedade. A primeira, agregando as demais, é o respeito à pessoa, como a essência de toda estrutura de Estado, da política e economia. Nenhum ser humano pode ser instrumentalizado e diminuído em sua dignidade. Desta e da igualdade de todos derivam: bem comum, subsidiariedade, participação e solidariedade. Daí, decorrem requisitos basilares da vida social: justiça, verdade e liberdade. Como existem diferentes leituras da realidade, há diversas propostas de construção do país. Os pressupostos humanistas e cristãos serão úteis para a definição dos planos e critérios de avaliação da qualidade das proposições.

É urgente reconstruir o Brasil. Para tanto, é preciso que venham a prevalecer as narrativas sérias, fazendo-o despertar para mudanças inadiáveis, varrendo os cenários de vergonhosas desigualdades, garantindo a permanência de postulados inarredáveis. “Dai ao povo brasileiro paz constante e prosperidade”, súplica que deve ser apresentada a Deus. E concluindo, convém lembrar a recomendação do Onipotente nas palavras do profeta Jeremias: “Procurai a paz para a terra onde vos coloquei. Orai a Deus por ela, pois de sua paz depende a vossa” (Jr 29, 7).


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

 

A LIÇÃO DAS ORQUÍDEAS

 

Diogenes da Cunha Lima

 

As orquídeas transformam o sobejo vegetal das plantas em beleza, notadamente das árvores e palmeiras. Podem retirar a sua nutrição de materiais encontrados no chão. Fazem verdadeira gestão de resíduos e aproveitam o sol e a água da chuva. Não são parasitas. São autótrofas, ou seja, produzem o seu próprio alimento. As chamadas Vandas não precisam de apoio, podem ser somente borrifadas com água. Essas flores dão uma verdadeira lição aos seres humanos, que devem valorizar o meio ambiente com reuso e reciclagem.

Há cerca de 3.500 espécies no Brasil. Ela é a flor do Rio Grande do Norte. Cattleya Granulosa Lindley como determinou a lei de maio de 2019, que instituiu a Semana Estadual de Conservação e estimulou a valorização com a comemoração no mês de agosto.

O nosso Estado tem orquidófilos e orquidocultores, os quais participam da Associação Orquidófila do RN. Entre estes, amantes que sacralizam as flores, está o orquidário Mattos, que produz e vende há mais de 25 anos.

As pesquisadoras Leide Câmara e Isaura Rosado registram uma singular homenagem feita a Augusto Severo em Paris, uma belíssima orquídea chamada Severon.

Calcula-se que elas existem na natureza há 80 milhões de anos, reproduzindo-se em formas, cores e texturas as mais diversas.

Poucos conhecem uma orquídea do Brasil que chega a medir seis metros, a Epidendrum Scalares, que habita a Bahia e Minas Gerais.

As suas riquezas de cores e tons são quase infinitas, no entanto, como as tulipas, não existem orquídeas negras, a não ser a heroína companheira de Batman. Com o acréscimo de imaginação, os cultores da flor identificam no seu formato anjos, garças, bonecas, bailarinas e até o rosto de um macaco.

A utilidade das flores é a de serem belas. É a paixão dos olhos. A beleza harmoniza a vida humana, dá alegria a quem a contempla, é nobre característica da raça humana. Além dessa inquestionável utilização, há pelo menos uma espécie comestível.  A Vanilla nos dá a baunilha e delicia o paladar e o olfato. É especiaria caríssima. São muitas as utilidades, que vão do sorvete ao sedutor perfume francês Chanel Nº5. 

É curiosa e surpreendente a origem da palavra Vanilla, que significa pequena vagem, vagina. Os frutos da orquídea semelham pequenos testículos por isso o nome.

Reinam as orquídeas nos cinco continentes. No Centro e Sudeste do Brasil, a Cattleya Walkeriana encanta a paisagem.

Como se vê, as orquídeas ministram lições de vida agradável por despertar nosso sentimento de admiração porque, imitando o cancioneiro de Gonzaguinha, “a vida é bonita, é bonita e é bonita”.

 

 

 

 

 VOZES



Sempre presto atenção às vozes que me reclamam alguma coisa. Principalmente em Macaíba nas abstrações e transcendências de exprimir as angústias de alguns lugares e vultos sem abrigo. Previno que não sou médium mas espiritualista. Ainda não perdi vista, olfato, audição, tato, paladar nem o sentimento telúrico. Uso tudo para resgatar minha urbe. Nada do que guardo dela se evapora. A começar pelos bêbados líricos das noites de sábado. Sérgio, que se auto intitulava “cabeceiro boçal”, cantava aos tropeços a melodia pobre da “baratinha” que bateu asa e “avuou”. Zé Bomba era o alcoólatra político, imitador contumaz de Aluízio Alves na entonação da voz e decoreba. No período aceso da política os bacuraus aplaudiam e as araras jogavam água.
A voz do padre Antonio de Melo Chacon, orador inflamado que regava a garganta com boas doses de meladinha nas festas litúrgicas e profanas. Não há como esquecer a voz anasalada do prefeito Luiz Curcio Marinho; a ofegante e autoritária de Paulo Mesquita; a loquacidade de Aldo da Fonseca Tinôco (pai); a firme de Alfredo Mesquita Filho; a condoreira de Aguinaldo Ferreira da Silva; a pragmática de José Jorge Maciel; todos personagens de uma época de ouro cujas palavras ainda ecoam nas ruas e nas praças. E padre Alcides Pereira, patativa sacra, voz imperativa das cruzadas cristãs da Idade Média. Mas, a voz cavernosa do radialista Gutemberg Marinho de Carvalho se sobressaía como a mais completa e radiofônica. Esses sons de antigamente ainda soam aos meus ouvidos e nos lugares por onde passo.
Por ter sido político, homem público, administrador, quantas vozes não escutei? E tantas vezes não me obriguei a ouvir o que não queria ou o que não gostava? Vozes roufenhas, rancorosas, tristes, chorosas, lamuriosas, ácidas, metálicas, estridentes, etc. Até um gago discursou para mim em Bom Jesus. Em Ielmo Marinho um asmático não concluiu o seu discurso. Faltou gás. Em Extremoz, um besouro noturno e vestuto embargou a voz de um orador em pleno palanque. No interior de São Gonçalo perdi votos porque a liderança afinava a voz nos agudos. Em São Pedro do Potengi interrompi a voz bajulatória de uma liderança porque me elogiava além da conta: “Menos, menos, por favor...”, supliquei corado de vergonha.
Todas as vezes que passo de carro pela praça Augusto Severo, centro de Macaíba, meus dedos automaticamente tamborilam na direção: “queremos passeata e bacurau não empata”. Era o refrão do povo nas más resolvidas pelejas políticas dos anos sessenta. No Pax Club do tempo da jovem guarda, como me assaltam aos ouvidos e a mente as antigas canções e gratas figuras que desapareceram. As vozes das serestas madrugada à dentro e que hoje não existem mais. Rua da Cruz, Pedro Velho, da Conceição e Benjamim. Em todas subsistem vozes que vêm de dentro e que me alcançam sem ferir.

(*) Escritor

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

 

  • BATE FORTE O TAMBOR

 

Valério Mesquita*

Mesquita.valerio@gmail.com

 

Espero que esteja vivendo um tempo de desarmar os presságios. Não desejo acreditar que na política existam só amigos, mas, conspiradores que se unem. Aos olhos alheios, unidade partidária, coligação, ambas desapareceram para dá lugar a um consórcio, onde o partido menor nunca é sorteado. No meu entendimento virou tribo, facção e não tem quem junte os pedaços depois. Prefeitos, vereadores, líderes municipais, votam pacotes de candidatos díspares, de governador a senador, de deputado federal e estadual, como se fossem salada de frutas, ou coquetel exótico de bruxaria. A continuar assim, vamos chegar ao tempo de desarmar os frutos e até mesmo ao de querer desviver o tempo, ominoso e fatal para a coletividade.

A reforma eleitoral neste país, é tema mais batido do que caminho de cemitério. Com o “fundão eleitoral”, o processo virou uma ação orquestrada que caracteriza as relações íntimas entre os lobos ideológicos contra pseudos pastores teólogicos. Presume-se, com o andar da carruagem, que estamos sob o fascínio do desconhecido, do buraco negro. A caixa preta do segundo turno está rondando a ressaca eleitoral dos candidatos. A hegemonia política de muitos líderes está morrendo. É o processo depurativo das figuras messiânicas, de megafone em punho, entoando chavões pela recuperação financeira do país e do Rio Grande do Norte. Esse caldeamento político dos nossos dias, é igual a despacho de encruzilhada. Lembrei-me daquele acordo de paz pública, no passado. Não há como acomodar numa mesa apetites tão difusos, confusos e obtusos. É por isso que bate forte o tambor da imprevisibilidade.

Garimpando o pensamento do saudoso natalense João Sena, li essa jóia: “O ser humano não só morre quando desencarna, mas também, quando se desencanta”. E casados no desencanto continuam vivendo o povo e os políticos. Chegaram à exaustão. A praça pública virou banco de tormento. O povo aplaude mais os músicos do que os oradores. Todo orador, é um chato, cansativo e tedioso. Quando o candidato fala, o povo se afasta. Mas, o liseu não está no meio do mundo, pois o importante é não cair a Bastilha. Isso conforta os candidatos que se exporão tanto ao sereno, quanto ao sol, à chuva e ao mormaço das penosas aglomerações. São as fases da vida pública. Outro filósofo, já dizia “que a vida é feita de fases e de fezes”. As fases são as estações, as metamorfoses, e, as fezes o consumismo humano do Fundão.

Outro fato relevante, que não dá para entender, são as pesquisas açodadas. Lembrei-me de Chesterton quando disse que “os vícios são as virtudes enlouquecidas”. Será que o povo brasileiro é tão volúvel assim? Essa eleição, face os perigos redibitórios, é uma esfinge? Antigamente, o silêncio antecedia o pleito, sem emitir sinais de mistérios, como a eleição presidencial deste ano. A sinfonia outonal vai deixar para trás, em outubro, muito candidato que empreende voo cego, impensado, sem bússola e sem bossa.

Eu me recordo de Assis Besouro, experiente marqueteiro potiguar,  explicando a situação daquele tempo (1998), das divergências do PMDB, PT, PSDB e etc. - com aquela fisionomia de permanente mormaço, proveniente das andanças políticas pelo Rio Grande do Norte - “que tudo numa eleição é estratégico”. Daí, ter surgido hoje, o orçamento secreto. E é fato que nas estações da política, as notas caem. E o outono chega. Pois eleição que não se ganha, se toma, dizem.

Napoleão Bonaparte admitiu apenas duas potencias no mundo: “a espada e o espírito. A longo prazo a espada sempre é vencida pelo espírito”. A espada é o poder e o espírito a palavra. É comum os dois não falarem o mesmo sotaque, o mesmo idioma. Mas, a canção do voto é tudo, pois tem sangue eterno e coração ritmado. Todo país já atravessou as noites escuras do tempo. É pobre o país que tem necessidade de mitos.

(*) Escritor.

 

Desconfundindo
​“Direito internacional”, “direito comunitário” e “direito comparado”, o que são esses três “direitos”? Infelizmente, como descobri num papo entre amigos, nós, supostos juristas, ainda confundimos bastante os conceitos/significados dessas três categorias.
​Primeiramente, o direito internacional é o conjunto de normas – ou a disciplina, se olharmos sob o ponto de vista acadêmico – que trata das relações externas entre os entes que formam a sociedade internacional. “Um sistema jurídico autônomo” (em relação aos sistemas internos ou nacionais) onde, nas palavras de Francisco Rezek (em “Direito internacional público”, Saraiva, 1995), “se ordenam as relações entre Estados soberanos”, muito embora, hoje, esse conceito/sistema já esteja ampliado para abarcar as relações com outros “atores internacionais”, tais como as organizações exemplificadas na ONU, OMS, UNESCO, OTAN, FMI etc.
É importante ainda fazer duas observações quanto à terminologia direito internacional. Uma de relevância histórica. No passado, o que hoje chamamos de direito internacional era normalmente chamado de “direito das gentes” (e eu até acho gostosamente nostálgica essa denominação), sendo que a expressão direito internacional teria sido cunhada, já no fim do século XVIII, pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham (1748-1832). Ademais, é comum se acrescentar à expressão direito internacional a partícula “público”, para diferenciá-la de um “direito internacional privado”, este que é, na verdade, um ramo ou disciplina jurídica que especificamente cuida do conflito de leis – de nacionalidades diversas, por regra – em potencial aplicação em determinado espaço territorial ou caso. E não por outro motivo o que chamamos de direito internacional privado os ingleses chamam apenas de “conflict of laws”.
Já o direito comunitário pode ser classificado como uma subespécie ou, melhor, um desdobramento/desenvolvimento do direito internacional no sentido de uma quase total integração supranacional de Estados soberanos. Entre nós, teríamos como exemplo o “direito do Mercosul”; mas também é dito que o direito do Mercosul estaria bem aquém disso – falo dessa integração almejada –, se comparado com o direito da União Europeia, este, sim, um direito realmente integrado em nível comunitário ou um direito comunitário propriamente dito. Nesse sentido, aduz Benigno Nuñez Novo, em texto publicado no site Âmbito Jurídico (fevereiro de 2018): “O direito comunitário é composto pelo conjunto de normas jurídicas que regulam e disciplinam a organização e o funcionamento das Comunidades Europeias e da União Europeia. O surgimento dos blocos econômicos importou na necessidade da criação de um sistema de normas que os regulasse. Esse sistema de normas foi denominado Direito Comunitário, sendo um sistema jurídico autônomo, constituído de normas provenientes de determinadas fontes específicas, ordenado por uma hierarquia de normas, sendo regido por dois princípios essenciais: o princípio da integração e o princípio da primazia. O Direito Comunitário existente na União Europeia é incorporado de forma congênita aos direitos nacionais. Destarte, inexiste no Mercosul o verdadeiro direito comunitário, o que reina de forma absoluta é o direito internacional público, regional, integracionista, vinculado ao fenômeno de recepção”.
Por fim, temos o tal direito comparado. O papel deste na “arquitetura” do direito é assunto para debates. Posso afirmar que ele não é um direito no sentido de um conjunto de normas que visa disciplinar determinada matéria. O direito comparado está mais para uma disciplina da ciência jurídica (temos o aspecto acadêmico da coisa) e, sobretudo, para um método de estudo do direito. E como método serve, por exemplo, mediante a comparação: (i) para se entender o direito dos diversos países em geral; (ii) para se obter uma melhor compreensão do respectivo sistema jurídico nacional (por exemplo, quando se compara o que se dá em outros países para melhor interpretar/aplicar as regras internas); (iii) para se melhor empreender uma possível reforma da legislação/direito de determinado país; (iv) ou mesmo, de forma mais ambiciosa, como ferramenta para a unificação sistemática de um determinado ramo do direito ou de um sistema jurídico supranacional como um todo. No mais, essas comparações podem se dar de várias formas. Multilateralmente (entre vários sistemas jurídicos) ou bilateralmente. Podem ser integrativas e/ou contrastantes, focando em semelhanças e/ou em diferenças. Podem ser macrocomparações (de dois ou mais sistemas jurídicos nas suas inteirezas) ou microcomparações, que recaem sobre categorias ou instituições peculiares aos sistemas jurídicos comparados (desde coisas gerais como um determinado ramo do direito até coisas bem específicas como a disciplina que é dada a determinado tipo de contrato nos países comparados). E por aí vai.
Sou um entusiasta desses “direitos”, sobretudo do comparado. Mas isso talvez decorra do fato de eu adorar me aventurar com outros povos e culturas.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

     

 FAZENDA ARVOREDO

Valério Mesquita*

mesquita.valerio@gmail.com

 

Legado do patriarca Alfredo Adolfo de Mesquita, nascido no século XIX e falecido em 1929, a fazenda Arvoredo foi herdada do seu espólio pelo filho primogênito José Mesquita, irmão do meu pai. Ao longo desse tempo a propriedade foi palco, além de sua atividade produtiva, de centenas de reuniões políticas e recepções sociais, sublinhando principalmente a época de Leonel Mesquita que adquiriu, preferencialmente, no inventário do seu pai José, o quinhão das partes pertencentes a sua mãe D. Floripes e dos seus irmãos, Ivone, Gilda, José Mesquita Filho e Neusa. O segundo período foi o da administração de Nidia Mesquita, minha irmã, casada com Leonel, falecido em 1979.

Evidentemente, o objetivo desse registro não se restringe a promover reportagem social ou política, nem registro, apenas, memorialístico. Mas, Arvoredo é uma das mais antigas propriedades agropecuaristas nas mãos de uma única família, de geração a geração e que antes no século XIX, pertencera ao coronel Estevam Moura. É considerada pelos experts, como uma das mais ricas do Rio Grande do Norte, em termos de terra fértil e diversidade produtiva. Antes da queda da atividade econômica das propriedades rurais, motivada pela prática de juros altos dos bancos oficiais e a ausência de uma política consistente dos governos, Arvoredo produzia: cana-de-açúcar, banana, leite, telha, melaço, pedra e tijolo, com um plantel dos melhores de gado nelore e mestiço. Frise-se, também, que o malogro da política de incentivos fiscais para fomento da atividade agropecuária no país, pode ser citado como uma das causas da derrocada desses projetos.

Mesmo com a diminuição das atividades produtivas, a fazenda Arvoredo resistiu e subsistiu, graças ao esforço ingente e espartano de Nidia. Certa vez, Paulo Mesquita, nosso tio pelo lado paterno, agrônomo, professor da UFRN, fez um vaticínio, ao seu modo característico de ser, ao realçar a fertilidade do solo da fazenda e pontuar os exageros dos gastos políticos do seu sobrinho Leonel com São Gonçalo do Amarante e Macaíba afirmando: “Leonel passa todo o dia gastando e destruindo a fazenda e ela milagrosamente se refaz e enseja a ele recomeçar tudo de novo”. Todavia, Arvoredo, nesta contemporaneidade teve fases de importância política e social, dignas de registro porque elas se incorporaram, queiram ou não, ao patrimônio sentimental, tradicional e cultural como ponto de referência de decisões políticas e administrativas.

Governadores, senadores, deputados, empresários, profissionais liberais, jornalistas e ministros de estado estiveram em Arvoredo. Até onde a memória alcança e pelas vezes que testemunhei, dentre inúmeras presenças colunáveis – como poderia dizer o nosso saudoso Paulo Macedo – relembro destacar Dinarte Mariz, Geraldo Melo, Aluízio Alves, Djalma Marinho, Agnelo Alves, Garibaldi Filho, Lavoisier Maia, Henrique Alves, Antonio Florêncio, José Agripino, Ministro da Justiça Ibrahim Aby Ackel e o mega empresário Roberto Marinho dono do Sistema Globo de Rádio e Televisão, vindos da inauguração da restauração da capelinha centenária de Utinga, bem próximo da fazenda. À época, os dois estavam rompidos nacionalmente mas, sob as bênçãos do irrequieto governador Lavô, se aproximaram pela força do protocolo. E em Arvoredo, saborearam frutas da estação em clima de civilidade. A ablução na água benta do Old Parr ajudou também a descontração dos contrários sob o comando de sua anfitriã Nídia Mesquita. Ela foi a depositária fiel do brasão de Arvoredo, sem armas nem barões assinalados. Apenas, altiva capitã dos mistérios circundantes.

 

(*) Escritor

 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

 

Os Queijos do SIRIDÓ 🌵
@Arysson Soares
Nasci e fui criado ouvindo a cantiga da perua sertaneja sendo, QUEIJO ESSE, QUEIJO AQUELE, O MELHOR, O PIOR...
Pois bem, no Siridó antigo só os queijos de manteiga representava uma atividade lucrativa, embora produzidos de forma artesanal.
Muitas foram as fabricações e muitos mais foram os locais cuja produção semanal de queijo esbarrava de uma arroba de queijos e assim por diante. Mamãe dizia ter alcançado nos aureos tempos dos troncos velhos do sertão um espécie de fabricação mais dura, mais conservadora no fabrico ou na fabricação,onde não se admitia qualquer tipo de inovação nos métodos de produção, o queijo era tão puro que se ferrava com ferro bom e ali carregava a inicial do dono como registro do lugar e do fazendeiro ou feitor mestre bom.
Por essa razão os queijos ali produzidos, eram do tipo “gordo”.
O processo de fabricação era o mais rotineiro possível. A coalhada, escorrida em saco de pano (algodãozinho), era levada ao fogo numa trempe, em tachos de cobre para cozinhar no leite cru. Quando atingia aquele ponto de massa de pão trabalhada, tirava-se do fogo com ajuda de uma cuia, despejava-se em urupembas, colocadas na boca de alguidares, para escorrer. Espremia-se com as mãos até tirar todo o soro.
Picava-se em pequenos pedaços e salgava-se. Em seguida era levada ao fogo brando, no mesmo tacho de cobre, para cozinhar na manteiga líquida, de garrafa. Quando se transformava numa massa uniforme, pastosa, sem nenhum caroço e fervente, colocava-se nas formas de madeira (cinchos).
No dia seguinte, o queijo era tirado do cincho e engomado com ferro quente (daqueles antigos de passar roupa) para criar casca. O soro decorrente da fabricação do queijo, era levado ao fogo para apurar. A espuma que ia subindo, era recolhida e posteriormente, voltava ao fogo para ser apurada e transformada em manteiga do sertão. Era uma operação demorada, que ocupava uma pessoa o dia inteiro,na beira do fogo.
Quanto aos queijos de coalho, só eram feitos para o consumo da casa. Era a maneira de se aproveitar as sobras de leite. O processo era também primitivo.
Usava-se um soro preparado com o rúmen de carneiro ou de gado (tanto fazia), para fazer coalhar o leite. Duas horas depois, estava pronto para ser trabalhado e transformados em queijos.
Era espremido à mão e em pequenos cinchos de madeira. A salga era feita depois do queijo pronto e submetido a uma fervura rápida, ou melhor, um banho em água fervendo ( a água poderia ser substituída pelo soro com sal decorrente do próprio queijo que se chamava de salmora.)
Tudo terminado, os queijos eram colocados em tábuas para repousar e tomar o sal, de preferência em lugar arejado. No dia seguinte, estavam prontos para o consumo. Esses queijos nunca eram vendidos, consumia-se na mesa da Fazenda, ou faziam parte do farnel dos vaqueiros, nos seus alforges, quando saiam para um dia de campo, nos fundos da propriedade.
A diferença entre o queijo gordo e o magro estava na preparação, no primeiro caso, a coalhada era cozida em leite natural, no segundo era no leite desnatado. Quanto ao queijo de coalho havia também a diferença. O leite que era separado para coalhar, poderia ser natural ou desnatado, tinha o mesmo processo do queijo de manteiga.
Quanto aos mestres-queijeiro, na Ribeira do Seridó, Sabugy, Espinharas ou Piranhas mamãe dizia: Meu fi ninguém sabia quem era o melhor, porque todos eram bons e grandes em tudo que se fazia, ali existia amor, pureza e bom gosto no fabricar dos queijo no nosso sertão
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domingo, 21 de agosto de 2022

 

NÃO DEIXE O VELHO ENTRAR –

Certa vez, o ator e diretor Clint Eastwood, na véspera de completar 88 anos de idade, enquanto se preparava para uma disputa de golfe com Toby Keith, cantor e compositor de músicas country, foi questionado pelo amigo acerca do que planejava fazer naquela idade, e ouviu como resposta: “Começarei a gravar um filme na próxima semana!”. Impressionado, Toby quis saber a razão para tanta motivação naquela idade. Clint respondeu que todas as manhãs, ao se levantar da cama, ele não “deixava o velho entrar”.

Clint Eastwood, estadunidense da Califórnia, nascido em 31 de maio de 1930 (92 anos), protagonizou uma longa carreira cinematográfica atuando e dirigindo sem dar espaço para a aposentadoria. Ano passado, em 2021,lançou mais uma película, Cry Macho, com ele no papel principal. Tudo isso porque teima em “não deixar o velho entrar”.

Subentende-se “não deixar o velho entrar” como uma forma de não sucumbir aos efeitos da decrepitude mantendo o corpo ativo e a mente alerta; louvando cada amanhecer como uma premiação especial pela jornada vencida em cada dia e brindando o pôr do sol com um sorriso no rosto; lutando contra o desânimo, o comodismo, a preguiça e contra as adversidades decorrentes do peso dos anos vividos.

“Não deixar o velho entrar” é não se preocupar tanto com a vida dos filhos, pois você lhes doou as ferramentas para o enfrentamento da sobrevivência diária; é dar valor àquelas amizades de datas pretéritas; é conhecer melhor seus limites físicos e mentais; é ser menos egoísta e mais compassivo; é compreender, aceitar e amar cada membro de sua família com todas as diferenças e limitações. A minha maior referência para “não deixar o velho entrar” eu a tenho no meu irmão Severino Marques, 73 anos, há seis convivendo com a esclerose lateral amiotrófica numa luta sem trincheiras para não ser domado pelos efeitos deletérios da doença e, mesmo assim, afirmando: “Eu sou feliz por estar entre vocês!”.

Sim, “não deixar o velho entrar” é também acreditar que não estamos aqui por acaso como pregava Epicuro na sua doutrina de vida. “Não deixar o velho entrar” é não sentir inveja, é admirar o raiar de um novo dia e praticar a mais difícil de todas as atitudes da existência do ser humano: saber perdoar.

Nem todos dentre nós comungarão da mesma filosofia de vida de Clint Eastwood, de “não deixar o velho entrar”, e replicarão afirmando: “É fácil praticar tudo isso com a barriga cheia e o cofre abarrotado de grana!” Verdade! Porém, existem muitos com o mesmo potencial financeiro do ator americano, que tornam as suas vidas miseráveis por falta de sentido no existir.

Dar sentido a existência é, no meu entendimento, a melhor maneira de “não deixar a velho entrar” até o instante que se torne inevitável tal presença, pois o que não tem remédio remediado está. Enquanto isso vou mandando aquele abraço para os meus amigos de infância, de faculdade e de trabalho.

Abraço esse extensivo aos amigos eventuais que se tornaram grandes amigos-irmãos e trilharam e ainda trilham comigo bons e tristes momentos. Aos entes queridos que integram a minha família, que suportaram os percalços e festejaram as vitórias de nossa existência. A todos, apenas um recado: “Não deixem o velho entrar!”

 

 

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores